49.

Entrevista com o tordo

Anna tem que se preparar para o começo do fim

Como de costume, Óin manteve Anna de cama por precaução. Como de costume, Anna protestou, mas desta vez a companhia toda estava disposta a protegê-la e poupá-la de esforços. O problema era que Anna estava aflita, pois havia coisas a fazer.

Para desespero dela, Thorin mantinha a ideia fixa na Arkenstone. Quanto mais ele falava naquilo, mais Anna se angustiava. Ela via a doença do ouro se instalando nele, a mesma que vitimara seu avô Thrór e atraíra Smaug a Erebor.

— Ah, a Arkenstone! — ele dizia a Anna. — Era como um globo de mil

faces, brilhava como prata à luz do fogo, como água ao sol, como neve sob as estrelas, como chuva sobre a lua! Lembro que a grande pedra de meu pai brilhava com uma luz própria, que vinha de dentro dela e, mesmo assim, cortada e lapidada após ter sido retirada do coração da montanha muito tempo atrás, na época de meu avô, ela captava toda a luz que caia sobre sua superfície, transformando-a em dez mil faíscas de brilho branco, tocado pelas

cores do arco-íris.

Anna tentava convencê-lo que a pedra não mudaria o que acontecera, que ele era Rei sob a Montanha e Erebor era seu lar novamente. Mas Thorin parecia inamovível em seu propósito.

Anna sabia que seu orgulho traria sua ruína. Ela começava a se desesperar, pois não via saída para o que estava para acontecer.

Até chegar à montanha, a esperança de Anna tinha sido que o amor de Thorin pudesse poupá-lo da doença que acometera Thrór. Ela queria acreditar que o amor deles poderia livrar Thorin do amor pelo ouro. Aí Bilbo não precisaria traí-lo, entregando a Arkenstone a Bard para pressionar Thorin e dificultando a aliança de anões, elfos e homens na batalha contra orcs e goblins. Thorin, Kíli e Fíli morreram na batalha, e Anna tentava desesperadamente evitá-la.

Quando Anna descobriu estar grávida, suas esperanças aumentaram ainda mais. Se bebês eram tão valorizados entre anões, então era quase certo que Thorin se esquecesse do ouro. Ela tinha certeza que ele negociaria com Bard e Thranduil, pensando em seu filho.

Mas não era o que acontecera. A batalha se avizinhava. Anna não podia compartilhar seus temores com ninguém. Ela se sentia impotente, derrotada e deprimida. Era aterrorizante tentar deter algo que parecia ser inevitável.

Assim que Óin a liberou, Anna pediu a Bilbo que a acompanhasse até um velho posto de sentinela no Morro do Corvo. Lá Dwalin tinha montado guarda, revezando com os demais.

— É frio — adiantou Bilbo, ajudando-a a caminhar por entre as pedras. — Pode-se ver que a trilhas foi destruída. Por que quis vir para cá?

Anna respondeu:

— Este lugar é estratégico. Somos poucos para proteger a montanha. Se alguém tiver a ideia de trazer um exército para cá, saberemos com antecedência.

Bilbo a encarou:

— Thorin teve a mesma ideia. Ele já mandou recado a seu primo Dáin Ironfoot para mandar armas, homens e suprimentos o quanto antes para proteger o tesouro.

Anna estremeceu, sussurrando:

— Está chegando...

— Chegando? — repetiu Bilbo. — Quem?

Anna virou-se para ele:

— Bilbo, me escute como já me escutou antes.

O hobbit reagiu com veemência:

— Não! Não desta vez! Não vou mais guardar seus segredos sem uma explicação decente, Anna! Quase tive um ataque de nervos achando que você tinha morrido e não quero passar isso de novo sem ao menos saber o motivo.

Ela tentou suplicar:

— Bilbo, por fav...

— Não! — ele insistiu, categórico. — Você pode morrer, Anna! Se isso acontecer, Thorin vai me matar por ter escondido coisas dele. E já que vou morrer dolorosamente, espero que tenha a cortesia de ao menos me dizer por que vou morrer!

Anna suspirou, contrariada. Mas ela concordava com Bilbo: era pedir demais do pobre hobbit.

— Bilbo, estou tentando evitar mortes aqui!

— Como? Por quê? Quem vai morrer?

— Thorin! — Anna sentiu as lágrimas lhe subindo pelos olhos. — Gandalf disse que o orgulho de Thorin seria a sua ruína e ele tinha razão. Por isso eu lhe peço, Bilbo: leve-me com você.

Ele a encarou:

— Levar você? Não entendo. Levar aonde?

— Se meus cálculos estão corretos, você já tem a Arkenstone. — Antes que Bilbo pudesse dizer qualquer coisa, Anna adiantou-se. — Está tudo bem, não direi nada a Thorin. Você vai pensar em usar a Arkenstone como poder de barganha. Vai usá-la para negociar. É nessa hora que eu gostaria que me levasse.

— Por Eru, você às vezes é pior que os anões! — desabafou ele, frustrado. — Continuo sem entender do que está falando!

Anna suspirou:

— Desde que eu cheguei, Bilbo, eu fiz um pedido a você, e esses outros são consequências do primeiro. Pedi que não me perguntassem sobre o futuro.

Bilbo a encarou, pesando tudo que for a dito. Em poucos segundos, ele deduziu:

— Essa aventura não acabou, não é?

Anna soltou um sorriso triste.

— Não, meu querido Bilbo. A parte realmente importante ainda está por vir.

Chegaram finalmente a um lugar plano, protegido do norte por um paredão rochoso. Anna e Bilbo ouviram uma voz conhecida:

— Finalmente vocês chegaram! Estavam matraqueando tanto que eu não tinha certeza se prestavam atenção para onde estavam indo!

Anna sorriu:

— Bom dia, Dwalin. Trouxemos água e suprimentos.

— Ah! — fez o anão tatuado, com satisfação. — Isso é bom de se ouvir, pequena! Vamos, venham! Protejam-se do frio.

Anna viu que Dwalin estava num local amplo, e que a parede rochosa tinha uma abertura semelhante a uma porta. De lá, ele tinha ampla visão do norte, leste e sul, o que o permitira ver Anna e Bilbo chegando.

— Você tem certeza que pode ficar escalando em seu estado, pequena?

— Óin me liberou, e eu me sinto ótima. Por que não deveria caminhar?

— Se você diz que está bem...

Bilbo estava de olho em volta.

— Puxa, dá para ver o vale todo.

Anna observou o rio, o lago, as ruínas de Valle e o terreno desolado, comentando:

— Antes de Smaug, devia ser uma paisagem lindíssima. Pena que anões prefiram viver sob a montanha e percam essa vista linda.

Dwalin lembrou:

— Esse lugar não foi construído por causa da vista bonita, moça. É uma vigia, e é isso que estou fazendo aqui.

Bilbo indagou:

— E o que sua vigia tem mostrado, Mestre Dwalin?

— Há movimento na Cidade do Lago — disse Dwalin. — Eles devem ter sido atingidos pelo dragão.

Anna suspirou:

— Devíamos ajudá-los. É apenas justo.

— Mas o que podemos fazer? São centenas, e nós somos apenas 13.

— Ainda assim — insistiu Anna —, acho que poderíamos...

Ela ouviu um grito:

— [Humana!]

Anna virou-se, mas nada viu. Perguntou:

— Ouviram isso?

— O quê? — indagou Bilbo.

— Alguém me chamou.

Dwalin já estava com seus machados na mão:

— Mostre-me, pequena.

— [Humana!]

Anna localizou um grande tordo pousado numa pedra e foi até ele.

— [Chamou, amigo tordo?]

O pássaro a encarou.

— [Sabe mesmo falar com meu povo! Tenho um recado.]

Dwalin se admirou:

— Pela minha barba!... Pequena, você fala com pássaros?

Bilbo falou:

— Corvos falam com anões, mas tordos também?

O tordo observou:

— [Seus amigos não me entendem.]

Anna disse:

— Ele diz que tem um recado. — Ao tordo, ela explicou. — [Estão espantados pois não sabiam que eu posso entender seu povo.]

— [Precisa avisá-los. Homens e elfos estão juntando exércitos para marchar até a Montanha Solitária.]

Anna sentiu uma aflição no estômago e quis saber:

— [São muitos?]

O tordo confirmou:

— [Sim. Avisam que querem compensação pelos danos do dragão. Dizem que a ira da besta é culpa do rei sob a montanha.]

— [São notícias terríveis, amigo.]

— [Há notícias ainda piores. Orcs e goblins pegaram seus wargs e se uniram sob a liderança de Azog, o Profanador, para marchar rumo a Erebor e obter vingança.]

Desta vez Anna se alarmou:

O quê?!

— [Azog quer vingar a consorte roubada e os goblins querem vingar a morte de seu rei.]

Dwalin e Bilbo a encaravam, alarmados. Anna indagou:

— [Sabe quanto tempo levarão até chegar?]

— [Vai demorar muito até orcs e goblins chegarem de Gundabag e das Montanhas Sombrias. Mas os humanos e os elfos de Mirkwood chegarão em poucos dias.]

Anna encarou o tordo:

— [Amigo, embora não tenha trazido boas notícias, somos mais fortes devido a sua informação. Por gratidão, gostaria de oferecer um petisco. Gostaria de um pouco de cram? Lamento não ter nada melhor a oferecer.]

O tordo aceitou comer na mão de Anna, que então se pôs a compartilhar com Bilbo e Dwalin as notícias trazidas pelo pássaro. Eles ficaram tão alarmados quanto ela.

— Thorin precisa saber disso o quanto antes! — alarmo-se Dwalin. — Vá, pequena, dê a ele as novas e diga-lhe que, se puder, também mandarei recado para Dáin se apressar.

— Dáin?

— Peça que Thorin explique isso. Agora precisam ir!

Foram o mais depressa que podiam, descendo a montanha em silêncio. A mente de Anna voava e Bilbo parecia preocupado, tanto quanto ela.

— Minha pequena — saudou Thorin quando os dois entraram pelo Portão Dianteiro. — Você saiu tão depressa que não pude lhe mostrar o Salão do Tesouro.

Bilbo garantiu, esfogueado:

— Tesouros podem esperar, Thorin! Trazemos notícias graves.

Anna se jogou nos braços de Thorin, nervosa e assustada. Tudo estava acontecendo tão rápido. Aliás, parecia acontecer mais rápido do que no livro. Anna sentia que os acontecimentos a atropelavam, e seus esforços para mudar o desfecho das coisas estava sendo inútil.

Tão nervosa ela estava que coube a Bilbo fazer a maior parte do relato. Thorin ouviu tudo, seu rosto se fechando, sua voz adquirindo timbres sombrios.

— Se é guerra o que querem, vão experimentar o machado dos anões.

Anna pediu:

— Thorin, por favor, negocie. Somos apenas treze ou quatorze contra dois exércitos! Vamos evitar a guerra.

Thorin garantiu:

— Nem precisaríamos ser tantos para cuidar disso! Se pensam que vão tirar nosso tesouro à força de armas, estão enganados.

— Por favor, meu amor, pense bem — pediu Anna, aflita. — Eu não gostaria que nada acontecesse a você agora, que Erebor foi conquistada.

Thorin a abraçou:

— Ah, minha pequena. Não se preocupe. Há coisas que você não sabe. Enquanto se recuperava, consegui falar com Roäc, filho de Carc, da raça de corvos mágicos do tempo de meu avô. Ele levou um recado a meu primo Dáin, que está vindo das Colinas de Ferro com ferramentas, especialistas, víveres e mais um exército de 500 bravos anões para ajudar na proteção da montanha.

Balin sugeriu:

— Podemos reforçar as proteções. O Portão Dianteiro já está reconstruído, mas podíamos construir uma muralha em volta das saídas.

Thorin concordou:

— Comecem agora mesmo. Dobrem a vigília. Poderemos repelir homens e elfos.

Anna deixou uma lágrima cair, ainda agarrada a ele:

— Há goblins e orcs vindo também. Azog está a caminho...

O Rei sob a Montanha acariciou-lhe as faces, enxugando a lágrima. Depois, com um único dedo, ergueu o queixo de Anna e a fez encará-lo com seriedade e fez um juramento solene:

— Anna, minha amada, rainha de meu coração: prometo a você, pela vida de nosso filho, que não deixarei ninguém, muito menos aquela criatura asquerosa, sequer chegar perto de você.

Angustiada, ela se agarrou a Thorin, buscando conforto. O anão beijou-lhe o topo da cabeça, dizendo:

— Não precisa se preocupar. Nem parece ser a pequena que enfrentou wargs e trolls.

Óin chegou perto e cochichou:

— Mulheres na condição dela ficam mais sensíveis, meu rei.

— Desculpe — disse Anna, parecendo envergonhada. — Eu sou uma boba, mesmo. Vou procurar me controlar.

Thorin deu um raro sorriso e garantiu:

— Concentre-se apenas em cuidar de nosso bebê. Agora venha — Thorin pegou a mão de Anna, sorrindo. — Deixe-me mostrar nosso tesouro. Venha também, Mestre Baggins. Tenho algo para o senhor.

Subiram escadas, atravessaram corredores e então lá estavam novamente, no salão do tesouro, onde antes Anna e Bilbo conversaram com Smaug. Ainda havia sinais da passagem do dragão, claro. Anna calculou que pelo menos meses se passariam antes que Erebor começasse a retomar seu antigo esplendor.

Ainda assim, mesmo que já tivesse visto antes, aquela era a primeira vez que Anna contemplava a riqueza escondida sob a montanha sem ter que se preocupar com um dragão feroz a ameaçar-lhe a vida. Era mesmo uma visão de se tirar o fôlego. Mesmo ela, que não sentia nenhum tipo de atração pelo ouro como os anões, podia ver a magnificência do tesouro de Erebor.

Ao ver Thorin, que colocara uma cota de anéis folheados a ouro e um cinto cravejado de pedras, Anna viu um rei. Ali estava um herói de seu povo. Ali estava o líder de sua raça, o senhor de Erebor, Rei Sob a Montanha.

— Mestre Baggins — gritou ele. — Aqui está o primeiro pagamento de sua recompensa! Tire seu casaco velho e vista isto!

Thorin vestiu um Bilbo uma pequena cota de malha, pequena demais até para um anão, provavelmente feita para algum jovem príncipe élfico de outrora. Era de um aço prateado, que Anna conhecia como mithril. O colete vinha acompanhado de um cinto de pérolas e cristais. Um elmo leve de couro estampado, reforçado na base com aros de aço, com pedras brancas incrustadas na borda, completava o conjunto, e foi posto na cabeça do hobbit.

Os anões que estavam ali o cumprimentaram pelos trajes garbosos. Anna viu que Bilbo parecia constrangido.

— Bilbo, é um traje muito rico.

— Sim, é magnífico — concordou —, mas acho que fico meio ridículo com isso. Certamente ririam de mim no Shire.

Anna admitiu:

— Talvez pareça exagerado para um hobbit comum. Mas você, Bilbo Baggins, há muito deixou de ser um hobbit comum, não é mesmo?

Bilbo sorriu, e Thorin comentou:

— São palavras verdadeiras, Mestre Baggins. Este é apenas o começo de sua recompensa. O senhor nos ajudou a recuperar nosso tesouro. É apenas justo receber o que lhe é devido.

Apesar do bom humor de Thorin, Anna tinha visto os sinais da doença se instalando em seu amado. Seu coração estava cada vez mais pesado.

Ela sabia que era o começo do fim.