someone to love you
capítulo 50
Kurt sorriu quando Rachel o recebeu em sua casa. A casa era calorosa e convidativa, e ele experimentou uma estranha sensação de conforto no momento que passou pela porta. Enquanto não podia exatamente tocar a fonte, ele apreciou a completa ausência de tensão no ar. Embora ficasse feliz pelo pai ter encontrado felicidade outra vez, ele ainda estava se adaptando à nova dinâmica familiar enquanto ele, Burt, Finn e Carole tentavam se acomodar em seus relacionamentos novos e desconhecidos. E agora, com o irmão machucado e os pais paparicando-o, era um alívio passar uma noite longe desse drama em particular.
Assim que Rachel tinha pendurado o casaco de Kurt, ela enfiou a cabeça na cozinha e avisou aos pais que seu convidado tinha chegado. Hiram e Leroy cumprimentaram o rapaz com entusiasmo, e então despacharam os adolescentes para conversar até que o jantar estivesse pronto.
Alguns momentos depois, confortavelmente instalados nas duas pontas do sofá da sala de estar dos Berry, Kurt tomava o refrigerante que Leroy lhe dera enquanto Rachel comia uma maçã à espera que seu chá esfriasse. Observando a jovem que ele agora considerava mais amiga que rival, ele precisou de não mais que um segundo para ver como a postura dela tinha mudado desde aquela manhã. A tensão em torno da boca sumira, os olhos brilhavam e ela estava completamente relaxada. Só havia uma causa possível para tal transformação.
"Você conversou com o Jesse", ele declarou, confiante.
"Conversei. Agradeço de novo por ter me ajudado a chegar nessa conclusão. Resolvemos tudo".
"E estão bem de novo, certo?"
"Certo".
Detectando o leve rubor que assomara às bochechas de Rachel, Kurt preferiu mudar de assunto.
"Quais os planos para seu aniversário?"
A pele dela ficou ainda mais corada, fazendo-o arrepender-se do assunto escolhido, mas a resposta que recebeu não foi a que esperava.
"Meus pais me deram ingressos para ver Wicked!"
A expressão dele mudou totalmente, indo de desconfortável a entusiasmado num piscar de olhos.
"Que inveja! É um presente fabuloso! O Jesse já viu antes? Está tão feliz quanto você?"
Ele estava despreparado para a tristeza dela diante da pergunta aparentemente inócua.
"Vou sozinha", admitiu ela.
"Mas... Mas... É seu aniversário de 16 anos! Uma daquelas grandes datas na vida de uma mulher! Como é possível que seu namorado não esteja presente?" Kurt gaguejava.
"Ironicamente é por causa do quanto ele me conhece. Meus aniversários sempre foram comemorados em família, meus pais e eu, então o Jesse achou que eu faria algo especial com eles. Fez planos próprios, e não vai vir pra cá até o domingo".
"Sinceramente, Rachel, você não devia deixar isso passar. Dê seu melhor piti de diva e o force a mudar de ideia".
"Não posso fazer isso, Kurt. É ele que está na ponte aérea, tendo que trabalhar dobrado para atualizar-se nas aulas que perdeu largando tudo para estar aqui apenas porque eu estava tendo um momento difícil. Sei que o dinheiro não é problema, mas não quero mesmo ser o tipo de mulher que espera que ele constantemente reorganize a vida dele ao meu bel-prazer. Ele pensou sinceramente que eu celebraria este aniversário como sempre celebrei os outros até agora. Sim, estou decepcionada, mas não é culpa dele.
"Você só completa 16 anos uma vez! Tenho certeza que se você pedisse-"
Rachel o interrompeu no meio da frase.
"Não, Kurt. Ele vai estar aqui um dia depois e comemoraremos juntos nesse dia".
"Mas..."
"Nada de mais. Não quero mais falar disso", ela decretou, firme, com os olhos brilhando.
Ele ergueu as mãos fingindo render-se, e ela suavizou imediatamente.
"Então sobre o que você quer falar?"
"Sobre a noite que o Jesse e eu encontramos você e o Blaine no cinema", admitiu ela.
A pele já clara de Kurt tornou-se ainda mais pálida quando ela percebeu exatamente a que Rachel se referia, e ele balançou a cabeça com veemência, uma expressão de pânico aparecendo no rosto.
"Por que tinha que mencionar isso? Eu tinha conseguido esquecer!"
"Porque o que eu fiz o constrangeu e eu lamento por isso".
"Lamenta o que fez, ou que eu tenha pego no flagra?" Ele disse, repreensivo.
"Eu me arrependo de pouquíssimas coisas que fiz com Jesse", admitiu ela, lutando sem sucesso para impedir-se de sorrir de um modo gentilmente cúmplice, "mas percebi depois que o deixei numa posição desconfortável. E isso eu lamento muito".
"Achei que você ainda fosse virgem!" Kurt sibilou, em voz baixa para que os pais dela não o ouvissem na cozinha.
"E sou".
"Mas ele... você... a mão dele..."
O rosto de Kurt estava intensamente corado enquanto ele sofria para expressar o que vira.
"Sim, eu o deixo me tocar. Não, a gente não fez sexo".
"Isso pra você não é sexo?"
"Estritamente falando não é. Nós nos mantemos felizes e damos prazer um ao outro. Temos uma intimidade, mas ainda não chegamos a esse ponto".
"Me parece que você já chegou a vários outros pontos".
"Acho que algumas pessoas podem ter essa visão, mas estou em um relacionamento sério com um homem que amo. Ele me faz sentir coisas que nunca senti antes. Por que seria errado explorar isto?"
"Eu... eu não sei. Sei que as pessoas ao meu redor estão fazendo. Mas eu não me sinto confortável".
Ela o fitou com curiosidade, mas sem julgá-lo.
"Acha que é porque você não tem em quem se inspirar?"
"Meu pai é uma grande inspiração!" Ele protestou com ardor.
"Não estou dizendo que ele não seja. Mas ele não passou pelas mesmas coisas que você vai passar. É diferente, além das experiências dele. Já falou com ele sobre... esse assunto?"
"Não! Pelo amor de Deus, é a última coisa que quero fazer!"
"Você devia conversar com alguém, Kurt".
"Estou conversando com você agora".
"Então fale. Pergunte-me qualquer coisa. Vou dar meu melhor para responder".
Kurt engoliu em seco, debatendo visivelmente com suas emoções conflitantes. De um lado, não queria ter essa conversa em específico. De outro, seria provavelmente mais fácil fazer confidências a uma mulher. E a quem mais ele podia recorrer? Sim, ele e o pai tinham um relacionamento forte e positivo, mas uma conversa sobre sexo estava fora da zona de conforto de ambos, e considerando o que ele sentia por Blaine, essa opção em especial seria desconfortável, para dizer o mínimo. Suspirando, ele decidiu que o melhor curso seria aproveitar a oportunidade que Rachel acabara de lhe apresentar.
"O Jesse te viu... de topless?"
Rachel gemeu intimamente, perguntando-se em que, exatamente, tinha se metido. Sabendo o que estava custando ao amigo apenas estar nesse assunto para começar, ela respirou fundo e preparou-se para esclarecê-lo.
"Ele me viu por inteiro".
Os olhos de Kurt ficaram enormes quando ele absorveu o que ela queria dizer.
"Por inteiro? Não teve medo? Ou ficou constrangida?"
"Não", ela respondeu, simples. "Era o Jesse. Pareceu certo".
"Não entendi", Kurt admitiu.
"Honestamente tenho quase certeza que me apaixonei por ele no dia que nos conhecemos. Eu certamente estava fisicamente atraída por ele – mais do que já estivera por qualquer um antes. Só precisamos de alguns dias para que eu o permitisse alguns amassos mais ousados... mas ele queria ir mais longe, e eu não estava pronta. Então nos reencontramos em setembro e, depois de passar semanas conhecendo-o em um nível mais profundo, quando ele voltou mês passado eu não tinha dúvida do que eventualmente aconteceria entre nós".
"Mas o Finn sempre reclamava que você não cedia!" Kurt exclamou.
"O Finn falou com você sobre a vida sexual dele?" Ela não conseguiu deixar de expressar sua surpresa.
"Bom, não. Mas eu o ouvi... com outros membros do time. Ele te chamou de frígida".
"Posso entender porque ele pensava assim. Com ele, eu era. Acho que inconscientemente eu sempre soube que ele não era a pessoa a quem eu devia me entregar".
"E o Jesse é?"
"É. Confio nele completamente".
"Quando você ficou... nua... com ele... pela primeira vez... teve algum momento que você ficou com medo de que ele ia rir, ou zombar do seu corpo em qualquer jeito?" Kurt finalmente perguntou, admitindo uma de suas maiores preocupações.
Rachel sustentou o olhar de Kurt, e a simpatia que ele viu refletida nos olhos dela quase o engoliu.
"Isso eu esperaria do Finn. A atenção dele sempre saía de mim quando uma menina com uma blusa decotada ou uma saia curta passava. Nunca acreditei que eu era bonita o suficiente para ele. Mas, desde que começamos a namorar, o Jesse sempre olhou pra mim como se eu fosse a mulher mais bonita da sala. Ele sempre me elogiava e, apesar de eu demorar a me acostumar..."
"Mas por que você precisou se acostumar?" Interferiu Kurt. "Parece um sonho que se realiza!"
"E era. É. Mas lembre-se que eu fui vítima de zombarias e piadas sobre minha aparência durante anos. Tive problemas em aceitar que a admiração dele era genuína. Além do que, ele exagerava às vezes. Ele frequentemente me fazia corar. Agora, ele me ajuda a perceber, por meio de palavras e atitudes, que sou digna de ser amada, que não tenho que mudar qualquer parte de mim. Ele me deu a confiança de me mostrar totalmente a ele – de todos os jeitos".
"Você tem tanta sorte", sussurrou ele. "Não consigo me imaginar ficando tão à vontade com alguém".
"E o Blaine?"
"O Blaine só me vê como um amigo. Está completamente cego aos meus sentimentos por ele", Kurt lamentou, com uma expressão de dor. "E, mesmo se ele subitamente caísse em si e percebesse como podemos ser ótimos enquanto casal, não é como se eu fosse... Quero dizer, talvez um dia... Mas... Não sou como você. Não estou nada perto de estar pronto para... bem... nada do lado físico. Só me beijaram uma vez!" Ele exclamou, antes de tampar a boca, horrorizado diante do que acidentalmente revelara.
"Pela sua cara eu acho que não foi uma boa experiência", observou ela, com cuidado para disfarçar que sabia o que Karofsky fizera.
"Pode-se dizer que sim", resmungou Kurt, antes de se calar, perdendo-se nos próprios pensamentos.
Rachel não fez nada que pressionasse o rapaz a seu lado, dando-lhe a oportunidade de mudar a conversa para qualquer assunto de sua escolha. Depois de alguns minutos, ele falou de novo, com uma voz tão baixa que ela se esforçou para ouvi-lo.
"Foi o Karofsky".
"Ele te machucou?"
Kurt a encarou, com perplexidade clara em seu rosto expressivo.
"Me diz de novo por que a gente não se dava bem quando eu era do New Directions?"
"Você queria todos os meus solos", ela lembrou. "E na época eu era mais insegura, o que me tornava bem egoísta. Mas estar em um namoro sério, amando, me deu confiança o bastante em mim mesma para me permitir ser mais generosa no que se trata dos outros. Você é uma boa pessoa, Kurt, e eu me preocupo com o que acontece contigo".
Sem dizer nada, Kurt inclinou-se e abriu os braços. Rachel aproximou-se e o abraçou afetuosamente. Quando ele recuou, os olhos dele estavam úmidos.
"Você não faz ideia do alívio que é ter outra pessoa para falar disso. O Blaine me dá apoio, e o Jesse tem sido demais, mas você conhece o Karofsky pessoalmente. Entende mais do que eles podem".
"É por isso que vou perguntar de novo. Ele te machucou?"
"Não. Ele me ameaçou, mas eu fui pra Dalton antes que ele cumprisse".
"E agora você está seguro lá. A tolerância lá é zero mesmo, né?"
"Sem problemas até agora".
A conversa dos dois foi suspensa quando Leroy os chamou para comer. Quando Kurt sentou-se na mesa, ele ergueu a vista a tempo de ver Hiram tocar a mão do companheiro quando ambos pegaram a cestinha de pão. Sorrindo, Leroy beijou rapidamente o rosto do parceiro antes de pegar duas vasilhas de chili fumegante e colocar uma delas em frente de cada adolescente. Depois que os homens se acomodaram em frente à filha e o amigo dela, os três Berrys começaram a comer com apetite. Depois de algumas colheradas inseguras e incertas, Kurt encheu a colher e começou a comer igual.
"Isso quer dizer que a comida está do seu gosto?" Perguntou Hiram.
"Ah, sim!"
"Então você não acha mais que o Jesse estava elogiando só pra continuar de bem com os meus pais?" Rachel não pôde evitar a provocação.
A expressão de Kurt ficou sem graça ao lembrar o comentário que fizera horas antes.
"Perdão, senhor. Eu nunca comi comida vegan antes, então achei que o seu chili não teria o mesmo sabor que o chili normal. Para ser honesto, eu estava esperando que fosse insosso, e que eu seria forçado a engolir uma pequena porção apenas por educação. Mas é realmente uma delícia! Eu me pergunto se a Carole consideraria prepará-lo em casa".
"Vou ficar feliz de lhe dar a receita para levar se quiser", sugeriu Hiram.
"Seria ótimo!"
"Então fechado".
"Agora que tiramos isso do caminho, por que não nos fala sobre sua nova escola, Kurt?" A voz profunda de Leroy estava relaxada e amigável quando ele tentava abordar o rapaz e falar de assuntos de natureza mais pessoal.
"É, ah, bem diferente de McKinley. Ainda estou me adaptando à mudança".
"Qual é a melhor parte de lá?" Perguntou Hiram.
"Não tem bullying", Kurt disse sem hesitar.
"E a pior?" Interrogou Leroy.
"O uniforme. A saudade dos meus amigos. O quanto está custando ao meu pai me manter lá. Não posso escolher só um".
"Então você lamenta a transferência?" Insistiu Leroy.
"Nem um pouco! O alívio que sinto ao ser capaz de andar pelos corredores sem medo vale completamente a pena!"
"Está planejando seguir carreira nas artes como a Rachel?"
Enquanto Kurt falava de seus sonhos e planos aos dois homens que escutavam atentamente suas palavras, o rapaz, por sua vez, observava o casal homossexual à sua frente. Notou com deslumbramento que eles raramente passavam mais que alguns minutos sem alguma forma de contato entre eles: fosse um braço em torno dos ombros, uma mão numa coxa, mãos frouxamente dadas. Era óbvio que eles estavam completamente à vontade um com o outro, e com demonstrar em público sua proximidade. Ele perguntou-se, intimamente, se eram igualmente livres em público. Aproveitando uma brecha na conversa, Kurt decidiu satisfazer sua curiosidade.
"Me perdoem, senhores Berry, mas posso perguntar uma coisa aos dois?"
"Claro, filho. Qualquer coisa", Leroy assegurou.
"Vocês dois sofriam bullying na escola?"
"Nunca", Leroy respondeu, sucinto.
"Nunca?" Kurt não escondeu a profunda inveja na voz. "É porque o senhor era alto e fortão mesmo naquela época?"
"Nada disso", respondeu Hiram. "É porque ele ficou o tempo todo enterrado no armário".
"Sério?"
"Com certeza", concordou Leroy. "Precisei de anos para aceitar que eu gostava de rapazes, e mais tempo ainda para assumir isso a alguém que não eu mesmo. O Hiram aqui era o corajoso. Ele se assumiu muito antes de ser seguro, ou na moda".
"E sim, para responder à sua pergunta anterior, eu fui vítima de um bullying frequente".
"O senhor levava raspadinhas?"
"Isso e muito mais. Havia um grupo de uma dúzia de caras – basicamente os atletas – que costumavam me esperar a caminho de casa. Eles se revezavam para me bater. Eu logo soube que dias seriam piores, baseados em quem quer que estivesse agendado para me usar como saco de pancadas. Eles também eram astutos. Nunca acertavam meu rosto – todas as evidências de seus ataques ficavam escondidas".
"O senhor contou a alguém?"
"Que bem isso ia fazer? Apesar de meus pais não serem tão contrários a homossexualidade como os de Leroy e eu ser assumido para eles, eles certamente não estavam felizes. Acho que meu pai, em especial, achava que era apenas uma fase minha, e parte dele era antiquada o suficiente para estar desejando em segredo que os outros alunos colocassem bom senso na minha cabeça – com os punhos".
"Papai, que terrível! O senhor nunca me disse que zayde Aaron foi tão cruel com o senhor quando era jovem!" Protestou Rachel.
"Ele aceitou e no fim das coisas aceitou a minha união com seu pai. Eu não queria que você pensasse menos dele por causa de atitudes passadas. Seus pensamentos refletiam apenas a criação recebida. Não pode culpá-lo por isso".
O rosto de Kurt tinha uma expressão pensativa.
"Nunca dei ao apoio do meu pai o valor merecido. Ouvindo suas histórias, tenho uma compreensão maior do quanto tenho sorte de tê-lo ao meu lado", ele murmurou em voz baixa.
"Esperamos que você saiba que também estamos ao seu lado. Por favor, sinta-se à vontade para nos procurar com quaisquer perguntas que tiver, ou se precisar de ajuda de qualquer tipo. Infelizmente, apesar de as coisas terem melhorado desde a minha juventude e a de Leroy, o mundo ainda é cheio de intolerância. Se a gente puder fazer alguma coisa para ajudá-lo em sua jornada, vamos ficar felizes".
Sem aviso, lágrimas começaram a correr pelas faces de Kurt. Erguendo-se de sua cadeira, Hiram ajoelhou-se diante do choroso rapaz e o envolveu em um abraço reconfortante. Depois de um momento, o adolescente recuou, claramente constrangido.
"Lamento muitíssimo. Não sei o que se apossou de mim".
"Não precisa se desculpar, filho. Considere nossa casa o seu oásis. Se está sentindo-se emotivo, vá em frente e deixe escapar. Ninguém aqui vai julgá-lo".
"Obrigado, Sr. Berry. Realmente agradeço". Olhando rapidamente para baixo, ele notou repentinamente que seu prato estava vazio. Erguendo-o, ele olhou esperançoso para Hiram. "Alguma chance de eu comer de novo?"
"É isso aí, mano! Você parece que ganhou na mega-sena! Posso concluir que isso significa que seu tempo na geladeira acabou?"
"Pode, Steadman. A Rachel está falando comigo de novo", Jesse confirmou, com um sorriso que ia de orelha a orelha ao abrir a porta e permitir que Nate entrasse no quarto que havia se tornado sua base de estudos pelos próximos dias.
"Finalmente! Achei que teria que suborná-la de algum jeito para convencê-la a abrandar a geladeira! Se tivesse ido mais longe, eu acho que você não seria boa companhia até para mim".
"Não o culpo. Eu mal era boa companhia para mim mesmo. Mas estou melhor agora".
"Posso ver que sim. Acho que o que aconteceu ao Finn foi o problema, certo?"
"É. Ela achou que eu o fiz ser espancado de propósito, por ciúme".
Nate deu uma risada de desprezo.
"Você? Com ciúme dele? Achei que ela fosse mais esperta. Ele não tem nada digno de ciúme".
"Ela costumava ser dele", Jesse lembrou ao amigo, "e a fixação dela por ele teve um papel – mesmo que pequeno – em nosso rompimento. Eu sempre vou ter um problema com ele por causa disso, mesmo que a Rachel seja toda minha agora. Sendo sincero, eu só não gosto do cara".
"Também não. Ele é um idiota. Então não vamos perder mais tempo falando dele".
"Eu concordo".
Abrindo livros e cadernos sobre a mesa, iam retomar os estudos quando o telefone de Nate apitou. O sorriso que apareceu em seu rosto ao som sumiu assim que ele olhou para a tela.
"Não é a Jules?" Adivinhou Jesse.
"Não. É o Peter. O pessoal da peça vai se reunir para comer em algumas horas e estamos convidados".
"Eu passo. A Rachel vai me chamar no Skype assim que estiver livre".
"O que quer dizer que você não vai me querer por perto, então vou responder ao Peter que estarei lá".
Assim que Nate guardou o telefone de volta no bolso, ele fitou Jesse com curiosidade.
"Com o que a Rachel está ocupada hoje? Achei que, depois de dois dias, ambos estariam loucos para se falarem".
"E estamos. Mas o Kurt está na casa dela agora. Ela o chamou para jantar".
"Por quê? Não me entenda mal. Pelo que você me contou, ele parece ser um cara decente. Mas não percebi que eles eram tão próximos".
"Ironicamente, eles estão mais próximos agora com o Kurt em Dalton. Finalmente se veem como pessoas antes, em vez de rivais. Mas esta noite ela teve que conversar com ele sobre algo que ele viu na noite em que fomos juntos ao cinema".
"Acho que não é de dois estranhos se agarrando que você está falando", Nate deu um sorriso maroto de cumplicidade. "Não conseguiu deixar de pular em cima da sua namorada de novo, hein, St. James? O que foi dessa vez? Sua língua estava na garganta dela ou sua mão debaixo da saia?"
"Os dois", Jesse admitiu sem um pingo de vergonha. "Fomos discretos, mas o Kurt conseguiu ver uma boa dose sem querer".
"Eu devia falar com esse moleque. Vocês dois são mais interesses de se assistir que um filme pornô. Sei que ele é gay, mas ainda pode aprender uma ou duas coisas com você", Nate brincou, arqueando as sobrancelhas sugestivamente.
Jesse jogou a cabeça para trás e rugiu de riso, e Nate logo uniu-se a ele. Assim que se controlaram um pouco, Jesse olhou falsamente emburrado para o amigo.
"Não sei se devia ficar lisonjeado ou assustado com esse comentário. Não achava que você era voyeur, Steadman".
"Geralmente não sou, mas você e a Rachel nem sempre esperam até ficarem totalmente sozinhos antes de se atracarem"
Jesse encolheu os ombros.
"O que posso dizer? Pra mim ela é irresistível".
"Me fale algo que eu não sei", Nate pendeu a cabeça com uma expressão curiosa em seu rosto. "Mas não sei por que a Rachel sentiu a necessidade para falar disso. Qual é o problema?"
"O Kurt é virgem e não se sente à vontade com o sexo. Tenho quase certeza que o que ele viu o deixou em pânico. Já que ele e a Rach estão mais próximos, ela quer ter certeza que ele não ficou muito enojado com tudo".
"Saquei".
Eles tinham acabado de se concentrar de novo em seus estudos quando o telefone de Jesse começou a tocar.
"Desculpa, Steadman. Vou dispensar quem quer que seja". Olhando para o visor, ele deu uma risada incrédula. "É falar no diabo..." Resmungou ele ao atender o telefonema. "Oi, Kurt".
"Como você pôde?"
O jovem estava claramente agitado, mas Jesse não sabia o motivo de seu atual estresse.
"Pode ser mais específico?"
"O aniversário mais importante da Rachel tá chegando e você vai deixá-la comemorar sozinha?!"
"Ah. É isso que te deixou tão nervosinho?"
"Pra ser sincero, sim! Achei que você fosse louco de apaixonado por ela! Que faria tudo por ela! Parece que isso quer dizer tudo a não ser mudar seus planos!" Kurt desabafava.
"Acalme-se e me escute. Acha mesmo que eu faltaria ao 16º aniversário da Rachel?"
"Ela me disse que ficaria sozinha. Que você não viria para cá até o domingo depois do aniversário dela".
"O que eu disse especificamente é que eu não vou pra Akron até o domingo".
"Isso. Porque você tem..." O renovado protesto de Kurt morreu em sua garganta quando ele processou o que Jesse queria dizer. "Você vai pra Nova York!"
"Claro que vou. Mas é surpresa. Não pode deixar escapar nem um sopro disto pra Rachel".
"Retiro que disse. Você é, sem dúvida, o melhor e mais romântico namorado que ela pode desejar!" Ele elogiou.
"Que bom que aprova", Jesse disse, seco.
Detectando o traço de sarcasmo por baixo das palavras do outro rapaz, Kurt gaguejou um pedido rápido de desculpas, que Jesse dispensou como sendo desnecessário antes de assegurar que tudo estava pronto, e Rachel se divertiria como nunca. Assim que Jesse desligou, Nate deixou escapar a risada que sufocava.
"Se ele soubesse até onde vão os seus planos, duvido que ainda estaria te enchendo de elogios".
"Nem mesmo você sabe até onde vão meus planos, Steadman".
"Verdade. Mas eu apostaria um bom dinheiro no que eu acho que vai acontecer".
"Pode parar. Não vou confirmar nem negar", retrucou Jesse em sua melhor voz de agente secreto.
"Ótimo. Faça isso e estrague minha diversão", Nate devolveu, sua irritação falsa desmentida pelo brilho em seus olhos.
"Tenho certeza que a Ju vai te recompensar depois", contratacou Jesse.
"Agora eu concordo. Vamos revisar isso o mais depressa possível pra que possamos ir à parte da noite que nós dois realmente esperamos".
Um sorriso meigo apareceu no rosto de Rachel quando avistou o rosto de Jesse na tela de seu notebook. Passara a última meia hora preparando-se para sua conversa e não podia esperar para ver a reação dele ao que aprontara. Por agora, sem vontade de abrir o jogo, ela se posicionara de tal forma que ele seria incapaz de ver além dela para o quarto atrás de si.
"Oi, Jesse".
"Oi, Rach. Você tá linda".
"Eu tô com cara de cansada, e você também".
"Ainda assim pra mim você é a mulher mais linda do mundo. E depois de não te ver por dois dias, você podia estar com a cara suja de maquiagem, usando óculos de garrafa e toda descabelada, e eu ainda não ia querer outra coisa que não te olhar por horas".
Ela ficou muito vermelha, o que só serviu para deixá-la mais adorável. Sem pensar, ele estendeu a mão para a tela, e quis mais que nada poder passar os dedos pelo rosto dela, prender a mecha rebelde de cabelos em sua orelha, em vez de tocar a tela plana e fria.
"Queria que você estivesse aqui, ou eu aí".
"Eu também. Mal posso esperar até a semana que vem. Terei meu aniversário em Nova York e no dia seguinte você estará em casa, e teremos duas semanas inteiras juntos".
Ele riu suavemente, e ela ergueu a sobrancelha numa pergunta silenciosa.
"A casa dos meus pais é em Akron, não Lima", ele lembrou. "Mas concordo completamente com o que você disse, porque no que me diz respeito, a minha casa agora é onde quer que você esteja".
"Eu te amo por dizer isso".
"É verdade. O único lugar onde me sinto completamente relaxado e em paz é com você. Você é o meu mundo, Rachel Berry".
Sem pensar, eles se inclinaram para um beijo, os dois gemendo quando a realidade de sua situação os acertou mais uma vez. Frustrado, Jesse recostou-se, tentando mudar o clima com um novo assunto.
"Como foi a conversa com Kurt ontem?"
"Muito boa. Conversamos sobre o que aconteceu no cinema e ele me confidenciou alguns de seus receios. Até admitiu que Karofsky o beijou. Não o deixei saber que eu já sabia".
"Então as coisas não estão estranhas entre vocês?"
"Não. Tudo está ótimo. E meus pais foram maravilhosos com ele. Acho que ele finalmente percebeu que existem outras pessoas que passaram por essa mesma experiência antes, e estão dispostas e capazes de ajudá-lo. Tudo que ele tem que fazer é pedir".
"Seus pais são dois dos adultos mais legais que eu conheço, e serão grandes inspirações para ele se ele escolher aproveitar-se do que eles estão oferecendo".
"Concordo. Fiquei feliz por ele ter concordado me visitar hoje. Mas também não podia esperar pra que ele partisse", confessou ela; a mudança súbita em seu tom deixou o significado das palavras abundantemente claro.
"Por falar nos seus pais, eles estão em casa agora?"
"Eles estão. Eu não estou", revelou ela, recuando enfim o suficiente para que ele reconhecesse onde ela estava.
"Você está na casa da árvore!" Ele sorriu. "Os seus pais sabem?"
"Que eu saí? Sabem. Onde estou especificamente? Não. Eu disse que queria passar a noite no nosso lugar especial, que era perfeitamente seguro mesmo sem você aqui e que eu estaria com meu celular para o caso de uma emergência. Eles concordaram".
"Então a gente pode conversar até amanhã e ninguém vai nos interromper?"
"Nem uma única pessoa na qual posso pensar".
"Isso quer dizer que a gente pode fazer outras coisas por horas também..."
"Podemos. Foi por isso que decidi usar algo especial para a ocasião".
"Ah, Rach, você está usando meu moletom".
"Entendi. Não é especial o bastante. Talvez o que eu tenha por baixo dele vai ser mais do seu gosto".
Ela se ergueu da poltrona que ocupara desde o começo da conversa e ele imediatamente endireitou a postura, acompanhando todos os seus movimentos. Foi só quando ela se pôs de pé que ele percebeu que ela parecia não estar usando uma calça – ou um short, ou uma saia. Ele se sentiu enrijecer, e ficou sem fôlego.
"Planeja manter o suspense por muito mais tempo?" Sussurrou ele, com uma rouquidão familiar em sua voz.
Em resposta, ela ergueu a beira do moletom e, com um movimento rápido, despiu-o. Ele ficou de queixo caído ao vê-la usando uma minúscula camisola de renda azul-royal, com uma calcinha combinando. Olhou-a em escancarada admiração, com os olhos sombrios de desejo, e assobiou em elogio.
"Gostou?" Ela precisava ter certeza que escolhera bem.
"Gostar é dizer o mínimo. Mas devo admitir que não me lembro de ter visto essas peças em especial em seu guarda-roupa. Se visse, não teria esquecido, acredite em mim".
"Eu fiz umas comprinhas ontem".
"Você comprou uma lingerie sensual quando não estava falando comigo?" Ele perguntou, com um tom de incredulidade na voz.
"Eu não estava pensando em ficar brava pra sempre. Achei que iríamos fazer as pazes e, quando isso acontecesse, eu queria que você lembrasse do quanto eu te excito".
"E conseguiu", declarou ele, despindo rapidamente seu jeans e a camiseta. Com as mãos levemente sobre o cós da cueca, ele esperou até ter certeza de que ela o observava antes de livrar seu corpo da última peça, sorrindo marotamente ao fazê-lo. "Agora deixe-me retribuir o favor".
