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Não traia um coração

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Avisos: Isso é uma adaptação de livro, sem créditos ou fins lucrativos.

O nome do livro e de quem o escreveu será revelado ao final da postagem do livro.

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Capítulo Quarenta e Cinco

Inuyasha subiu correndo a escada que levava ao grande salão, sem ligar para o barulho ou para o adiantado da hora. Sentira saudade de Clydon. Três semanas era tempo demais para ficar longe de... era melhor admitir logo. Fora da mulher que sentira saudade, não de Clydon. Ela podia ser teimosa, temperamental, às vezes extremamente irritante, mas quando estava com ela sentia-se especial como nunca na vida — apreciado, importante, querido. Ela cuidava de tudo para ele, tratava dele quando estava doente, repreendia-o quando se exce dia, preocupava-se com seu bem-estar. Ele não precisava estar sempre em guarda com ela, nem desconfiar de todas as palavras ou motivos, pois ela provara ser diferente do que estava acostumado a esperar nas mulheres. Até mesmo o seu novo relacionamento com o pai não chegava perto do que sentia com Kagome.

Deveria dizer-lhe isso, mas desconhecia as palavras refinadas que uma dama esperaria ouvir. Se tentasse bancar o lírico, ela provavel mente acharia graça, em vez de levá-lo a sério. Além disso, devia saber como ele se sentia. Dizia-se que as mulheres eram intuitivas com relação a essas coisas. E ele sabia como ela se sentia, soubera-o desde a primeira vez que o chamara de imbecil, um nome que reservava somente para aqueles de quem gostava.

É, ele a conhecia bem. A única coisa que não entendia era por que estava demorando tanto para lhe contar que estava esperando um bebê. Mas como lhe advertira o pai, assim como Miroku, que estivera em casa quando do nascimento de suas irmãs menores, não era incomum uma mulher se comportar estranhamente naquele estado.

Considerando-se os seus pensamentos e o local para onde se dirigia com tanta pressa, Inuyasha não estava preparado para a mulher que atravessou o seu caminho quando cruzou o salão às escuras. Ela surgiu tão de repente que quase a derrubou. Já ia pedir desculpas quando viu quem era. As palavras morreram- lhe na gargan ta.

Kikyo vira-o chegar. Estivera tentando despertar o marido bêbado, que pegara no sono ao pé da lareira. Agora ficou feliz por ele ter bebido até perder a consciência. Esta oportunidade era um presente dos céus. Não a perderia.

— Quer dizer que se lembra de mim, Inuyasha? — disse, com satisfação, e depois acrescentou como garantia, sabendo que homem algum gosta de ser subestimado: — Sua mulher queria que eu acredi tasse que você tinha se esquecido de todas as suas amantes anteriores, depois que se casou com ela. Afirmou que controlava muito bem os seus afetos.

Toda a velha desconfiança de Inuyasha veio rapidamente à tona. Sabia que sua mulher jamais afirmaria tal coisa, especialmente para uma desconhecida, mas isso só servia para provar que uma vez mentirosa, sempre mentirosa. Esta mulher não mudara em nada. Estava linda como sempre, não, mais ainda, com a plenitude adicional da maturidade. Contudo, a alma ainda era negra como o pecado, e se tivesse ficado algum tempo na companhia de Kagome, não se podia calcular o mal que fizera.

Ele resolveu ver até onde ela iria, embora as mãos comichassem para apertar-lhe a garganta. Era uma mulher que escolhia as palavras com cuidado. Tudo que dizia era planejado, para o bem ou para o mal. Tinha que ter um motivo para querer que ele ficasse ressentido com a loquacidade da esposa.

— É uma surpresa encontrá-la aqui, senhora.

— Pensou que nunca mais nos encontraríamos? Sempre soube que isso aconteceria. — Acercou-se mais, e sussurrou: — Não imagina quantas vezes pensei em você, Inuyasha, lembrando a paixão que compartilhamos. — pousou a mão no seu peito. — Não há um lugar onde possamos... falar a sós?

Era uma oferta sedutora. Houvera época em que teria tido o poder de lhe inflamar os sentidos e deixá-lo louco de desejo por ela. Agora, só o fez ficar arrepiado de nojo.

Olhou ao redor para os criados nas sombras, dormindo a sono solto.

— Para todos os fins e propósitos, estamos a sós.

— Eu quis dizer... não faz mal. — Fez beicinho. — Você deve ter se esquecido de como costumávamos procurar cantos escuros.

Estava ficando cansado de esperar que ela chegasse aonde queria. Sabia que não era ele, então tinha que ser algo que pudesse fazer por ela.

— Agora sou um homem, Kikyo. Prefiro uma cama quente.

— Tenho uma no meu quarto.

— O que me faz pensar no que você está fazendo aqui.

Por um momento, sua fisionomia cuidadosamente controlada deixou transparecer a irritação com ele.

— É só nisso que consegue pensar? Nós fomos apaixonados, Inuyasha.

— Eu fui, ou pelo menos pensava ser. Mas você escolheu um caminho diferente.

— Pelo que fui castigada desde então! — declarou ela, com a emoção apropriada. — Oh, Deus, Inuyasha, você nem sabe a que monstro Montfort me entregou. — Apontou com um dedo para a lareira, onde havia uma vela acesa e via-se Roghton esparramado num banco. — Aquele ali é meu marido, e sua alma é tão grotesca quanto o corpo.

— Ao que eu me recorde, o homem não importava — replicou friamente. — Apenas a sua riqueza.

— Não entende que estou tentando lhe dizer que estava errada? — exclamou ela. — Ele é riquíssimo, mas toda a riqueza do reino não pode compensar o inferno em que tenho vivido todos esses anos. Sabe que ele treina falcões para atacar as pessoas e depois solta-os em cima dos seus pobres semilivres, como diversão? É esse o tipo de homem que ele é, e que eu já não agüento mais.

Quer fosse ou não verdade, Inuyasha não se emocionou.

— Largue-o, então.

— Acha que não tentei? Vivo como prisioneira... vigiada, segui da, trancada no meu quarto sempre que ele não está por perto.

Inuyasha voltou a olhar para o homem adormecido.

— Vá agora. Não estou vendo ninguém para impedi-la.

— Ele me acharia e me arrastaria de volta, como já fez antes. Como Inuyasha imaginara, não era isso que ela estava pretendendo.

— Por que está me contando tudo isso?

— Você poderia me ajudar, se quisesse.

— Como?

Ela voltou a se aproximar, desta vez roçando os seios no antebraço dele.

— Mate-o para mim — suplicou, roucamente. — Ele disse aos seus homens que se morrer por meios suspeitos, eu devo ser torturada até a morte. E eles o farão. São maus e sádicos como ele. Se ele morresse engasgado com a comida, eles me matariam. Ele tem que ser desafiado às claras e morrer pela espada. Por favor, Inuyasha, liberte-me dele.

Quer dizer que havia justiça, afinal de contas. Ele quase riu em voz alta. Ela queria que ele a libertasse de um inferno que tanto merecia? Não o faria, mas ainda não lhe diria isso.

— E por que motivo eu o desafiaria? Não vejo marcas em você indicando que é maltratada. Na verdade, Kikyo, acho difícil acreditar que o homem não a adore.

— Ele adorava, no começo, mas eu não conseguia suportar o seu toque, e ele sabia, e então passou a me odiar por isso. Aí ele me encontrou com... um amante, e matou-o com as próprias mãos.

— E nada fez a você?

— Ele... esperou até meu sofrimento diminuir. Queria que eu sofresse. Tinha prazer nisso. Não fez nada enquanto achou que eu estava sofrendo, mas logo que comecei a melhorar, espancou-me. Queria que eu me lembrasse. Achava que o meu sofrimento no começo era tão grande, que uma surra não teria tido importância, então esperou. Esse é o tipo de homem diabólico que ele é. E agora me espanca apenas por eu olhar para outro homem. Oh, Inuyasha, por favor — suplicou ela, rodeando-lhe o pescoço com os braços. — Não posso mais viver desse jeito. Se não conseguir me livrar logo dele, vou acabar me matando.

— Acha que eu me importaria?

Ela recuou lentamente, de testa franzida, mas sem crer no que ele dizia.

— Você já me amou — ressaltou ela.

— Agora amo outra.

— Quem? — Quando ele não respondeu, ela dilatou os olhos, incrédula. — Não vai me dizer que é aquela sem-graça com quem se casou!

— Sem-graça? Para mim, ela é mais linda do que qualquer mulher que conheço... ou que já conheci.

— Não está falando a sério — ironizou Kikyo, e ficou mais ousada no seu desespero, pressionando os quadris contra os dele. — Não pode deixar de lembrar de tudo que nós...

Inuyasha reagiu com um nojo violento, afastando-a de si com um empurrão. Depois aproximou-se de novo e segurou-lhe os cabelos na nuca, puxando sua cabeça para trás. Finalmente viu o que ele estivera mantendo sob um rígido controle. O ódio lhe ardia nos olhos, e fez com que sentisse correr um arrepio gelado pela espinha.

— Você matou a minha filha, senhora — disse Inuyasha, violenta mente. — Nem ao menos a matou misericordiosamente, deixou que morresse de fome. É só disso que me lembro. Agora, trate de sair da minha casa antes que eu lhe dê a punição que realmente merece.

— Não posso ir embora sem o meu marido.

— Então é melhor acordá-lo rapidamente... ou eu o farei.

— E o que vou lhe dizer? Estamos no meio da noite.

— Saberá pensar em alguma coisa, senhora. As mentiras são a sua especialidade.

Depois de dizer essas palavras, afastou-se sem olhar para trás.

— Filho da puta miserável — sibilou Kikyo, mas somente depois que ele tinha ido embora. — Como pode ligar para um bastardo que nem mesmo era dele? Devia ter-lhe contado. Isso teria posto o infeliz no seu lugar.

— É, devia mesmo — disse Miroku mansamente, às suas costas. — Mas eu me encarregarei de corrigir o seu erro. Não acabará com a dor que ele vem carregando todos esses anos, mas poderá diminuir a sua lembrança ao menos um pouquinho.

Kikyo dera meia-volta à primeira palavra que ele pronunciara, e agora lhe sorria.

— Sir Miroku, não é? Estava parado aí há muito tempo?

— O suficiente, senhora — e também afastou-se, sem ocultar o seu desprezo.

Ela olhou ferozmente para sua figura até ouvir a risada cruel junto à lareira. Virando-se com uma exclamação abafada, viu o marido sentando-se e observando-a.

— Não está tendo muita sorte hoje, não é, minha cara? Estou vendo que devia ter ido mais cedo para a cama, pois agora não tenho mais cama para onde ir. Como acha que devo lhe agradecer por isto?

Kikyo empalideceu e saiu correndo do salão para o quarto que lhes tinha sido destinado, onde ficou encolhida num canto. Ainda podia ouvir a risada do marido, o que significava que ficara excitado com o que ouvira e vira, que ia querer deitar com ela antes de partirem. E isso era pior do que qualquer surra que se seguisse.