Nota:
Quero agradecer de coração, como sempre, a todos(as) que estão acompanhando a fic e mandando suas opiniões, seja por aqui ou no AO3!
Desejo a vocês uma ótima leitura e um maravilhoso restinho de semana! ;)
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 43: A Escalada
— Como as coisas têm estado? — Levi serviu duas xícaras de chá enquanto a Tawaif assistia de sua cadeira à sua frente. Levi já tivera que jantar com mulheres nobres de Sina antes, mas nenhuma havia aperfeiçoado a arte de transbordar um ar de desdém imparcial como Mikasa fazia. Ele empurrou a xícara para ela ao invés de oferecer a bandeja, pura e unicamente pela chance de fazê-la desmanchar sua postura rígida para pegá-la. A moça de cabelos escuros lançou-lhe um olhar nada impressionado, vendo por trás do movimento.
— Calmas, na verdade.
— Isso é bom.
Os lábios de Mikasa se torceram numa quase careta. Ela se recostou em sua cadeira, xícara envolvida pelas palmas de suas mãos, e ponderou o conteúdo por um momento antes de falar.
— Não que eu não esteja grata por não ter a máfia arrombando nossas portas, mas os negócios estão lentos e minhas garotas precisam comer.
— Está assim tão ruim? — Só se passara um dia, decerto Muralha Rose já tinha enfrentado "secas" maiores?
Levi olhou ao seu redor apropriadamente pela primeira vez desde que se sentara. Já estava próximo do pôr do sol, quando geralmente os clientes da noite estariam começando a chegar, mas o bordel ainda estava surpreendentemente tranquilo. Tirando ele mesmo, Levi só conseguia contar meia dúzia de homens descansando pelo salão principal, sendo superados em grande número pelas jovens entediadas espalhadas pela área. Ele mesmo já havia recebido propostas pelo menos quatro vezes antes de Mikasa aparecer para espantá-las. Normalmente elas sabiam que deveriam deixá-lo em paz.
— Digo, nós esperávamos uma queda, mas nada tão drástico. Não estamos com dificuldades ainda, mas tudo depende do quanto isso durar. — Mikasa encolheu os ombros e se virou para verificar seu bordel deserto, um mínimo franzir de sobrancelhas. — A ausência do Príncipe Erwin é a causa de boa parte disso. As pessoas normalmente o seguem como rebanho; nada recomenda um lugar tanto quanto a presença da realeza.
— Ele não aparecerá por aqui por pelo menos mais duas semanas. Não enquanto estiver ainda em luto oficial. — Mikasa assentiu. Ela sabia disso, já fizera as contas. — Conseguem aguentar até lá?
— Isso é o que tenho tentado descobrir. Se a coroação for antes disso e eu conseguir levar as garotas para se apresentarem na parada, então isso deve ser propaganda suficiente para garantir algum interesse. — Levi estava impressionado pela extensão do planejamento das garotas; Pixis podia pagar as contas, mas não comandava o espetáculo há muito tempo.
— O Imperador acabou de morrer e você já está ansiosa pela coroação? — Mikasa arqueou uma sobrancelha divertida.
— Eu sou uma mulher de negócios, Capitão, e mortos não transam.
Levi riu pelo nariz e concedeu ao argumento excelente um aceno de cabeça. Era revigorante, pensou ele, sentar-se na frente de uma bela mulher vestida em sedas caras e joias brilhantes e escutá-la cuspir vulgaridades como um soldado raso comum. Levi realmente gostava da indelicadeza descompromissada de Mikasa, e como ela manejava fazer tudo com classe.
— Nem o fazem os que estão em luto, claramente. — Mikasa inclinou a cabeça, de acordo.
— Mas também não importa se as garotas não quiserem. Estão todas extremamente assustadas. No momento em que ouviram as notícias ontem de manhã, você deveria ter visto o lugar; era um caos. Quase tive que restringi-las fisicamente para não fugirem às ruas com suas crianças para se esconderem. — A Tawaif descansou sua xícara no braço da cadeira e massageou a têmpora com sua mão livre. — Eu não sei como devo convencê-las a se apresentar lá fora, na frente de metade da cidade e de todos os responsáveis por tentar matá-las e às suas crianças dia sim, dia não. E Eren também. — Mikasa pareceu atenuar um pouco ao pensar em seu irmão, um pouco de sua segurança escapando. — Ele é sempre tão superprotetor comigo e com Armin, e tem um senso tão grande de responsabilidade também. Vê todas essas garotas sozinhas e assustadas e quer protegê-las todas sozinho. Estou orgulhosa dele, mas preocupada. Ele está se desgastando, nem as deixa sair do bordel sozinhas. Está tentando fazer o trabalho de um exército.
Levi tamborilou os dedos na borda de sua xícara. Aquilo soava como Eren.
— Ele não tem ido trabalhar, tem? — Mikasa olhou para ele, mas Levi podia ver que ela já sabia a resposta. Ela suspirou, fechando os olhos. — Eu posso entendê-lo. Se nossos papéis estivessem invertidos, eu não iria querer deixá-lo nem por um instante também em uma hora como essa, mas eu vi seus homens patrulhando por aqui. Em suas palavras, Capitão, o quão seguros estamos?
— Tão seguros quanto prostíbulos podem ser. — Os olhos de Mikasa se apertaram e Levi podia ver que sua piada não fora apreciada. — Neste exato momento, os bordéis são os lugares mais intensamente patrulhados na cidade, atrás apenas do Palácio. Estão mais seguros aqui do que em qualquer outro lugar.
Mikasa assentiu, olhos negros observando-o seriamente. Pareceu satisfeita com sua certeza.
— Obrigada.
Levi deu de ombros e desviou o olhar.
— Enfim, apesar do que você possa pensar, eu não vim aqui só para visitá-la.
A jovem diante dele riu e Levi ficou aliviado de ver um pouco de tensão deixando seus ombros. Às vezes ele não conseguia acreditar que ela tinha por volta da mesma idade de Eren; quem dera aquele garoto mostrasse metade da maturidade dela.
— Uma mulher pode sonhar, Capitão. — disse Mikasa inexpressivamente, com um tipo de sorriso falso que sugeria que considerou isso como um pesadelo. — Eren está colocando Armin para dormir. Deve estar em meu antigo quarto; é só seguir as escadas ao lado da cozinha...
— Até o terceiro andar. Última porta no fim do corredor?
A Tawaif lançou-lhe um olhar estranho.
— Às vezes eu me esqueço do quanto você se infiltrou em nossas vidas recentemente.
Levi pegou sua mochila e pendurou o manto em seu antebraço.
— Pode agradecer ao seu irmão por isso.
Eren estava parado sobre o berço de Armin, balançando a criança para dormir, quando Levi entrou pela porta. A canção de ninar morreu em seus lábios quando ele se endireitou, de olhos arregalados.
— Ele está dormindo?
— O quê?
Levi acenou com a cabeça para o berço. Pelo tecido semi transparente do sari, ele podia ver a pequena bolinha que era Armin enrolada entre os travesseiros. Eren olhou para o bebê adormecido e de volta para Levi, assustado.
— Sim?
— Excelente. — Levi retirou a mochila que havia pendurado por cima do ombro e atirou-a ao garoto. Um pouco desajeitado, Eren a pegou. — Abra. — ordenou Levi. Eren o fez. Com dedos cuidadosos, ele desamarrou a corda para abri-la e espiou dentro, como se esperasse que algo fosse saltar dali e mordê-lo. Levi o assistiu atentamente.
— Meu equipamento? — Eren tirou o emaranhado de tiras de couro e o segurou. Ele olhou para Levi e sua expressão de repente desmoronou. — Você está - você está me expulsando das Tropas? — Levi apertou os olhos para o rapaz diante dele.
— Eu - droga! - eu faltei dois dias! Desculpe, eu deveria mandar uma mensagem, mas esqueci. — Eren agarrou os cabelos com os dedos em angústia. — É que aconteceu tanta coisa, e as garotas estavam com medo e eu não podia deixá-las!
— Eren, cale a boca, você vai acordar Armin. — O moreno mordeu seu lábio inferior, mas fixou Levi com uma expressão tão arrependida e com os olhos tão arregalados que o mais velho quis dar um soco nele. — Pare com isso. Não estou demitindo você - é, você deveria ter mandado uma mensagem, mas não é nada que o fará perder o emprego. — Levi olhou para o berço. — Armin ficará bem assim? — Eren olhou para ele confuso e Levi revirou os olhos. — Podemos deixá-lo assim, ou ele precisa de alguém para ficar aqui com ele?
— Não, está bem assim. Mina normalmente fica atenta caso ele chore... Por quê?
Levi se virou para sair, deixando a porta aberta atrás de si.
— Venha comigo e traga seu equipamento. Tenho uma coisa para lhe mostrar.
A muralha externa não era uma estranha para Eren. Considerava-se muito intimamente familiarizado com suas extensas e impenetráveis encostas, e era especialmente íntimo do enorme portão barrado em volta do qual se aglomerava com a multidão sempre que uma expedição estava deixando a cidade. Ele e Levi estavam de pé, lado a lado agora no interior do lado oeste da muralha externa, longe do burburinho da vila, pescoços erguidos enquanto admiravam a estrutura diante deles em silêncio reverente. Eren encarou o alto muro de cinquenta metros à sua frente, inclinando a cabeça para trás e apertando os olhos à inclinação de pedra pura se elevando mais alto no céu do que ele jamais tinha esperança de chegar com seu equipamento. Olhou para Levi, ao seu lado, com sobrancelhas erguidas.
— Você não pode estar falando sério... — O olhar do mais velho deixou bem claro que ele estava. Eren se voltou para a muralha. — Por quê?
— Como assim," por quê"? Você nunca quis escalar a muralha mais externa? — Levi colocou seu manto para trás e se pôs a ajustar e apertar as tiras de seu DMT embaixo dele.
— Bem, sim... — Levi se recusou expressamente a deixar Eren usar seu equipamento desde que começara nas Tropas. Até o fizera levar o DMT para a base pelo único propósito de assegurar que Eren não estaria usando-o para nenhuma atividade extracurricular em seu tempo livre, e agora aqui estava ele, do nada, decidindo que Eren não só tinha permissão para usar seu DMT, como também estava prestes a receber sua primeira lição, a qual era aprender a escalar a muralha mais alta de Trost? Eren não estava reclamando, mas era bem abrupto. — Mas por que agora?
— Porque você precisa de uma distração.
Eren bufou.
— De quê?
— De todo o drama do falecimento do Imperador. De se preocupar com coisas que estão fora de seu controle. Da ideia de que você é responsável por proteger todo mundo em Muralha Rose. — Levi ficou impaciente de ver Eren ajustando suas próprias tiras e afastou suas mãos, assumindo o processo com a brusca eficiência que só se conseguia com anos de prática. Ele estalou a língua desaprovadoramente enquanto trabalhava. — Não é para menos que você está coberto de bolhas e cicatrizes; este equipamento é muito grande para você. Não deveria ser tão apertado, mas qualquer folga é perigosa. Precisamos conseguir um conjunto de tiras apropriadamente adaptado para você. — Eren assistiu os dedos hábeis trabalhando em seu peito. Os dedos de Levi eram pálidos e surpreendentemente finos, as unhas aparadas perfeitamente e as juntas calejadas e brilhantes pela experiência.
— Foi minha irmã que te convenceu disso? — Assim que disse as palavras, Eren percebeu o quão estúpidas soavam. Ele sabia que Mikasa pensava que ele estava se preocupando demais com as garotas e seus filhos, mas até parece que ela pediria a Levi para intervir, e até parece que Levi a escutaria se o fizesse.
— Não, eu mesmo tramei isso porque um dos pirralhos estúpidos em minha supervisão parece achar que é mais capaz do que um batalhão inteiro para proteger Muralha Rose. — Levi puxou uma tira com força exagerada, fazendo Eren cambalear para a frente até ser puxado a meros centímetros do rosto do mais velho. Ele engoliu nervosamente enquanto Levi o fixava com um olhar severo. — Você precisa entender que as Tropas trabalham em equipe e você é só uma única e minúscula engrenagem em uma máquina muito maior. Quanto mais cedo você se livrar de seu senso de justiça excessivo e presunção e perceber que o único jeito de chegar a algum lugar nas Tropas é trabalhar junto com todo mundo e obedecer ordens, mais cedo irá se sobressair. Até lá, é melhor que esteja por perto para preparar meu chá, estamos entendidos?
Eren assentiu calado e Levi grunhiu, satisfeito, antes de soltar a pega na tira de seu peito e o afastar.
— Uau, eu não sabia que você sentia tanta falta assim do meu chá. — Eren esfregou seu tórax dolorido delicadamente e riu, olhando discretamente para o outro homem. As palavras de Levi podem ter sido firmes, mas não foram duras. Seu argumento principal parecia ser passar a mensagem de que a situação não era tão terrível quanto Eren havia se convencido e de que as Tropas estavam lá para ajudar. Eren se perguntou se era assim que Levi tranquilizava as pessoas. O homem mesmo dissera, afinal, que a única razão por que estava aqui era para distrair Eren. O pensamento fez seu peito se aquecer.
Levi deu um passo para trás e se posicionou à frente da muralha. Virou-se para encarar Eren e apertou os olhos para ele, e Eren percebeu que estava sorrindo. Ficaram em silêncio por um momento; Eren incapaz de parar de sorrir e Levi franzindo o cenho como se isso o ofendesse pessoalmente e então desviou o olhar primeiro, arrastando a ponta da bota na areia e olhando para a muralha adiante.
— Limpe essa expressão da sua cara e copie minha postura. Quero chegar lá no topo antes do pôr do sol.
— Sim, Senhor!
Notas:
Ugh, esses bobões são muito adoráveis, meu coração não guenta. ;u;
