Capítulo 54
Chuva pesada caía sobre um mar de sombrinhas reunidas no pátio da igreja. Seeley Booth estava parado, abrigando a parceira com seu corpo.
"Querida?" Max Keenan andou até eles. "Estou tão feliz que tenha vindo, Tempe. E Booth, claro."
Os dois homens assentiram compreensivos, enquanto Temperance apertou sua mandíbula num olhar de indiferença.
"Deveríamos entrar," ele continuou. "Russ disse que pediu para fazer uma leitura?"
"Sim," ela respondeu seca. "Preparei um texto adequado."
"Não precisa fazer isso, Tempe, se te deixa desconfortável."
"Max tem razão, Bones." Booth passou o dedão pela mandíbula dela. "Ninguém pediria nada que não quisesse fazer."
"Estou bem," ela luziu. "Morte é um processo natural e inevitável."
Booth puxou-a para um lado, quando Max entrou. "Bones, eu estou…" ele respirou fundo. "…mais preocupado com seu estado mental. Acho que Amy e Russ perdendo o bebê te afetou mais do que está mostrando."
"Está agindo de forma irracional, Booth. Parece ter obtido uma necessidade de me tratar feito criança. Estou achando seu comportamento é o único assunto a ser discutido agora." Ela entrou na capela.
"Faz tempo que não ouço você rir."
Temperance parou de andar. "Talvez meu senso de humor não acha mais suas piadas divertidas."
"O brilho dos seus olhos sumiu."
Ela se virou para ele, balançando a cabeça. "A ilusão de brilho é criada por nada mais do que umidade excessiva na pupila."
Booth deu de ombros timidamente, evitando o olhar fuzilante dela. Aceitando que não venceria essa discussão, ele gesticulou para que se sentassem.
Um silêncio se abateu, quando o velório começou. "Eu sou a ressurreição e a vida, disse o Senhor. Aqueles que crêem em mim, mesmo morrendo, viverão, e todos que vivem e crêem em mim, jamais morrerão. João 11.25,26."
"Isso é absurdo," Temperance respondeu com raiva.
Booth luziu para ela, visivelmente magoado ao comentário impensado.
"Sinto muito," ela murmurou baixo. "Foi inapropriado."
Eles ficaram em silêncio e o velório continuou, até eventualmente o pastor procurá-la. "E agora ouviremos uma leitura de Temperance?"
Lentamente, ela se levantou e andou até o púlpito.
"Russ e Amy me pediram para dizer algo aqui hoje." Temperance olhou pela pequena congregação. Ela era mais do que eficiente em falar em público, mas esta ocasião era mais íntima do que ela estava acostumada. E, apesar de reconhecer alguns rostos familiares, a maioria das pessoas era estranha a ela. "E alguma leitura bíblica seria apropriada para a ocasião, mas se vou falar diante de vocês, deve ser sobre algo que representa as minhas crenças. Então, trouxe este poema." Ela morde o lábio e olhou para o papel que tirou do bolso do casaco.
"The world may never notice (O mundo pode não notar), If a Snowdrop doesn't bloom (Se uma campânula-branca não floresce),
Or even pause to wonder (Ou mesmo parar para se perguntar), If the petals fall too soon (Se as pétalas caíram cedo demais)."
Booth assistiu as palavras emocionadas saírem dos lábios dela, enquanto um aperto se formava em seu peito.
"But every life that ever forms (Mas cada vida que se forma), Or ever comes to be (Ou sequer vinga),
Touches the world in some small way (Toca o mundo de uma forma pequena), For all eternity (Por toda a eternidade)."
Temperance descansou a mão sobre a vida preciosa que crescia dentro de si, mexendo-se freneticamente em seu abrigo seguro. Engolindo duro, ela continuou;
"The little one we longed for (O pequeno pelo qual esperamos), Was swiftly here and gone (Chegou e rapidamente se foi).
But the love that was then planted (Mas o amor que então foi plantado), Is a light that still shines on (É uma luz que ainda brilha)."
Involuntariamente, o olhar de Temperance recaiu sobre o de Amy e a devastação que tomava conta dela. Ela gaguejou, freneticamente procurando na congregação força para continuar. E ali estava. Ele estava ali. Sua força. O amor seguro de Booth trouxe seu foco de volta e ela falou novamente.
"And though our arms are empty (E, apesar de nossos braços estarem vazios), Our hearts know what to do (Nossos corações sabem o que fazer).
For every beating of our hearts (Pois cada batida do nosso coração), Says that we love you (Diz que amamos você)."
"Mãe?" Temperance mordeu seu lábio em frustração, virando o anel da mãe em seu dedo. Ela não tinha certeza do que fê-la vir aqui esta noite. Por que ela pensou que falar com uma… Correção. Conversar com uma lápide traria conforto. E, por um momento, ela ficou em silêncio.
"Como fez isso?" ela disse, de repente. "Como soube que trazer Russ e a mim ao mundo era a coisa certa a se fazer? Como soube que o risco valeria a pena?"
Temperance esperou pela resposta impossível. A brisa de outono lançou folhas ao redor dela e ela se abaixou e pegou uma perfeitamente preservada folha de bordo, rica em seus tons terrosos.
"Mamãe? Por que todas as folhas caem das árvores quando elas mais precisam delas?"
"Joy? O que quer dizer, querida?"
"Está frio. As árvores estão perdendo suas roupas. Podemos cobri-las com um cobertor?"
"Oh, querida, não é assim que funciona. Não preocupe sua cabecinha. Árvores não sentem o frio como nós sentimos. Elas dormem no inverno, e suas folhas crescem na primavera."
Seus olhos estavam fechados, quando uma única lágrima desceu por sua bochecha, uma memória há muito esquecida levando-a. "Obrigada." Seu sussurro foi levado pelo vento, junto com as folhas.
Sentindo que não estava mais sozinha, Temperance virou-se e ofereceu um sorriso frágil ao homem que a esperava. Cuidadosamente, ele caminhou em sua direção. Temperance passou os braços ao redor da cintura e enterrou a cabeça em seu peito.
Booth segurou-se apertado. "Te peguei, baby," ele murmurou contra o cabelo dela. "Te peguei."
TBC
N/T: alguém aí também está se sentindo meio emo depois do velório do bebê? =/
Segundo a autora, o poema é de autor desconhecido, mas muito popular em funerais de crianças.
