Tem horas que é caco de vidro
Meses que é feito um grito
Tem horas que eu nem duvido
Tem dias que eu acredito.
(Paulo Leminski)
Prima querida,
Como vai o covil das cobras? Imagino que a essa hora você já colocou ordem na bagunça, esfregando seu distintivo poderoso na cara de todo mundo e fazendo eles lamberem suas botas.
Aqui na academia vai tudo bem, acabamos de fazer um treinamento de sobrevivência em alto mar, e adivinha quem ganhou nota máxima, transfigurando uma calda de sereiano e guelras? Isso mesmo, Tonks Rainha do Mar e da Porra Toda.
Mas sério! Você deveria tentar umas transfigurações mais radicais, dá pra fazer coisas incríveis com a metamorfomagia se usar a criatividade (pra ser sincera, as situações extremas e o desespero ajudam um bocado). Você já contou para McMinnie sobre a sua? Você devia! E sim, ela vai te fazer se registrar e ficar legalizada, mas não te faria mal estar dentro da lei um pouquinho…
Ok, vou parar de falar disso antes que você jogue minha carta no fogo. Recebi uma carta de mamãe ontem, e ela me falou que Sirius Black foi avistado nas proximidades de Hogwarts. Você está bem? Eu deveria me preocupar? Se precisar, eu já tenho uns amigos barra pesada que posso mandar ai pra dar uma ajudinha. (Mamãe também está preocupada, escreva pra ela!)
Ahh, como vai nossa irmãzinha cegueta? Mês passado eu precisei passar dez dias usando um tapa olho, por causa do treinamento de apuração dos sentidos (isso e eu espetei meu olho num galho, mas até que veio a calhar). Enfim, foi bem complicado, só imagino como deve estar sendo para ela. Seja legal com Anne! Diga que mandei lembranças.
Ahh, má notícia: eu não vou poder voltar para o Natal! Vai rolar um treinamento especial de combate a Pés Grandes no Nepal, todos os recrutas da Academia tem desconto, vai ser imperdível! Então, acho que só nos vemos na páscoa. Eu sei, a saudade é esmagadora, mas aguente firme, você vai sobreviver.
O que mais? Ah, sim! É verdade que aquele padrinho de Anne virou professor de Hogwarts? Ele é bom? Merlin sabe como o ensino de Defesa Contra as Artes das Trevas nessa escola precisa de um reforço, se as pessoas realmente soubessem como Defesa se parece na realidade…
Bervely rolou os olhos para fora da carta interminável de Tonks por um momento, pois detectara uma movimentação incomum com a sua visão periférica.
Estava sentada no salão comunal, sozinha no sofá mais comprido perto da escadaria, e o time de quadribol da sonserina acabara de brotar ao seu redor, todos paramentados com suas vestes de treino e pingando água por causa do tempo horrível lá fora. O capitão Marcus Flint desabou ao seu lado, jogando um braço comprido no encosto atrás dela, forçando-a a se sentar corretamente e recuperar o espaço pessoal perdido.
Warrington e Montague tomaram cada qual um braço do sofá nas laterais do capitão, Derrick e Bole ocuparam as poltronas logo à frente e Draco estava ali por perto, em pé e de cara feia, claramente coagido a participar da emboscada.
Flint, por sua vez, sorria, mostrando todos os seus dentes de tubarão para ela. Nada no mundo explicaria porque aquele indivíduo não tomara uma Poção de Substituição Dentária em sua primeira infância.
– Oi, chefa. Tudo certo?
Ela arqueou uma sobrancelha. Estar responsável pela sistemática do quadribol lhe forçava a ter muito mais contato com os capitães dos times, especialmente o da sua casa, mas não dava para dizer que eles eram amigos.
– Estava, até um minuto atrás, mas agora já não tenho tanta certeza.
Ele deu uma risada sonora que a fez se encolher ligeiramente de agonia.
– Que isso, chefa. Só estamos querendo trocar uma ideia com a nossa madrinha de goles.
– Madrinha de que? Que história é essa? – perguntou, desconfiada, correndo os olhos pelo restante deles. Todos, menos Draco, tinham sorrisos apregoados em seus rostos. Ela se voltou para Flint. – Explique.
– Ah, é. – ele bateu na testa com exagero – Que cabeça a minha, esqueci de avisar. Todo ano escolhemos um padrinho ou madrinha de goles para o time. É para dar boa sorte, sabe? Então tem que ser uma pessoa que mereça. Esse ano decidimos que seria você a nossa madrinha, olha que irado, fizemos até sua camiseta.
Ele tirou do bolso uma camisa amassada com listras verde e prata, que era parecida com a que fazia parte do uniforme de quadribol e que ia por baixo dos protetores de couro. Possuía o emblema da casa e nas costas as palavras "madrinha de goles do time da Sonserina – Bervely Black". Ela ficou olhando para o presente inusitado, querendo entender as intenções por detrás da oferta. Afinal de contas se tratando sonserinos, elas sempre existiam.
– O time escolheu, foi mesmo? – seus olhos correram para Draco com particular humor. Era bom ver ele ali se torturando e precisando ficar calado sobre isso. – Interessante. O que eu tenho que fazer, como madrinha do time?
– Nada demais. – ele lhe deu uma piscadela marota – Só torcer e essas coisas. Sacudir uns pompons, se estiver a fim.
Lhe ocorreu dizer que desprezava quadribol e preferia se afogar num caldeirão fervente a assumir tal compromisso. Mas ela era monitora-chefe agora, sua presença nos jogos passara a ser obrigatória – não faria qualquer mal ter um status a mais com a situação; além do que, com sorte, vestir aquela camisa deixaria um certo capitão de outro time espumando.
– Então tudo que preciso fazer é vestir essa camisa e aparecer no sábado?
Ele esticou seu sorriso amarelo cheio de dentes, bagunçando o cabelo curto e espigado com uma mão.
– Uh, sobre isso. Sonserina não vai mais jogar neste sábado, decidimos que não estamos na nossa melhor forma, sabe, desde que um dos nossos jogadores foi prejudicado. – ele indicou Draco com a cabeça, sendo ao mesmo tempo enfático e irônico. O menino tinha os lábios torcidos e olhava para qualquer lugar menos na direção dela.
Bervely sorriu, cínica.
– É mesmo? Não me diga que o braço de Draco continua ruim?
– Pois é. Lamentável. – Flint meneou sua cabeça devagar, como quem faz a constatação de uma tragédia.
– E isso é mesmo sobre Draco, não tem nada a ver com o tempo horroroso que está fazendo lá fora e que só deve piorar até o sábado?
O sorriso dele se ampliou. Ela gostaria que Flint não fizesse isso, porque ele tinha uma boca realmente grande, do tipo que quase chegava às orelhas.
– Você é uma mulher esperta, chefa. Se o Draquinho aqui estivesse em condições, seria mesmo um horror jogar debaixo de um aguaceiro. Então no final das contas acho que é até uma sorte ele ainda estar impossibilitado. Viu só? Você mal virou nossa madrinha e já está nos dando sorte!
Bervely não apontou o erro óbvio do raciocínio, e nem estava entendendo onde todo aquele nível de bajulação ia chegar.
– McGonnagal concordou com esse rearranjo de última hora? Não me parece algo que a deixaria feliz.
O sorriso de Flint vacilou.
– Ai é que está… eu esperava que você pudesse nos fazer esse pequeno favor como madrinha, sabe como é. Normalmente eu iria falar com ela pessoalmente mas a mulher não está muito feliz comigo desde a última aula de transfiguração. Eu posso ter transfigurado os óculos dela em um lagarto espinhento… acidentalmente.
Montague e Bole deram risadas guturais que deixaram claro o nível de acidente do acontecimento. Bervely rolou os olhos, enfim compreendendo porque de repente ganhara um título honorário e um suéter amarrotado.
– Eu falo com ela, Flint. Mas é melhor você fazer o favor de bater a Grifinória esse ano, porque eu não sou obrigada a ver as fuças daqueles grifinórios exibidos arrastando por ai aquela taça.
Ele lhe deu a segunda piscadela da noite.
– Não se preocupe, chefa. Quando esse ano acabar nós vamos ter esmagado Grifinória tão feio, mas tão feio, que Potter vai ser uma pilha de cacos e Wood, um montinho de pó de serra.
– BD –
Bervely teve alguma dificuldade para convencer McGonnagal a substituir o time da Sonserina naquela partida, principalmente porque a bruxa estava lidando com outro tipo de crise naquela manhã tempestuosa de quinta–feira.
– Veja, Srta. Black, se o apanhador diz que não tem condições de jogar, logicamente não podemos forçá–lo. Mas pelas regras do quadribol, o time deve jogar com os membros restantes e fazer o melhor possível – ela disse aspera, ao mesmo tempo em que remexia em outros papéis em sua mesa – Uma mudança de última hora como essa não seria em nada justo com a Grifinória, que vem treinando arduamente nas últimas semanas, e eles podem até mesmo compreender a manobra como estratégica da Sonserina, veja bem, eu não estou dizendo que é, mas poderia… Ah, pelas Barbas de Merlin! – exclamou de repente, batendo a mão sobre os pergaminhos.
– Professora, algum problema? – perguntou, intrigada. Tinha reconhecido parte dos papeis, eram cronogramas de aula, já vira outros como aqueles na mesa de Snape em sua época como monitora de Poções.
– Não, Srta. Black, nada com o que você possa ajudar pelo menos. Você vê, o professor Lupin está se sentindo indisposto e precisei pedir ao professor Snape que o substituísse amanhã, sendo ele o único minimamente qualificado para assumir Defesa, mas a Prof. Sinistra, que por sua vez ia substituí o Prof. Snape em Poções para o segundo ano teve um compromisso de última hora! Isso não é o tipo de coisa que devia acontecer, sinceramente, é preciso se planejar com antecedência!
– Mas professora, como planejar com antecedência? O professor Lupin sabia que ia ficar indisposto hoje? – perguntou com inocência, sabendo muito bem que a lua cheia acabara de terminar. Minerva lhe lançou um olhar cortante.
– Ora, Srta. Black, é claro que não sabia, mas que pergunta!
Bervely abaixou os olhos, tendo o cuidado de parecer constrangida com sua observação, ao invés de divertida.
– É isso, vou ter que deixar o terceiro ano sem aula. Isso não é bom, não é bom… – murmurava a professora, suas narinas infladas. Bervely enxergou uma oportunidade e sua veia sonserina não se furtou em aproveitá–la.
– Professora… se a senhora quiser, eu posso substituir o Prof. Snape em poções para o segundo ano. Já fiz isso uma vez, ano passado.
Era verdade que quase tinha matado uma aluna na ocasião em que substituira Snape, então não é como se o evento tivesse sido um sucesso. Para a sua surpresa a Prof. Minerva, após rápida deliberação, tomou um ar de esperança renovada.
– Acha mesmo que é possível? Essa seria uma ótima saída, Srta. Black! Seria muito gentil da sua parte, já não faz parte das suas obrigações e você tem muito em mãos com a monitoria.
– Não seria problema algum. – lhe assegurou, com um sorriso tranquilo.
– Ah, mas isso é ótimo! Vou me certificar que a sua iniciativa seja devidamente registrada em sua ficha escolar! Você tem me surpreendido positivamente, Srta. Black. Tenho observado as suas contribuições para a escola desde que foi integrada a corpo de estudantes, e posso dizer que foi uma valiosa inclusão ao nosso quadro de alunos.
– Quem poderia imaginar, não é mesmo, professora?
Minerva McGonnagal sorriu. Bervely não achava que já tinha vido isso acontecer antes, em todo o seu tempo em Hogwarts. Ela só lamentava que Percy não estivesse ali para ouvir todos os elogios, porque isso com certeza o mataria. Os minutos seguintes foram preenchidos com o conteúdo que era suposta a transmitir ao segundo ano, os arranjos para que fosse liberada de sua aula de História da Magia naquele horário e uma autorização para usar a sala nas masmorras. Quando tudo estava certo e McGonnagal parecia aliviada com a resolução do problema, Bervely sentiu que o terreno era firme o suficiente para uma nova onda de negociação.
– Então, professora, sobre aquela substituição da Sonserina no jogo de amanhã…
– BD –
– Você conseguiu? Conseguiu?
Metade do time estava lhe esperando do lado de fora da sala de McGonnagal. Flint continuou lhe seguindo pelo corredor quando Bervely não parou para eles, desviando dos alunos que saíam da aula de feitiços e rumavam para o almoço. Ela rolou os olhos para toda aquela pressão mental.
– Sim, vocês estão livres do jogo amanhã. Ela não ficou feliz, no entanto.
– Essa é a nossa madrinha! Sabia que era uma decisão sábia. – ele comemorou, trocando high–fives com os demais membros do time e tentando trocar um com ela, mas Bervely o ignorou.
– Não vamos ficar emotivos sobre isso.
Passavam por um mar de grifinórios, alguns deles do sexto ano. Ela reconheceu Katie do time e as duas outras meninas que também jogavam quadribol, Johnson e Spinnet. Seus olhares se cruzaram e as meninas cochicharam alguma coisa entre si. Ela estreitou os olhos na direção das três, seu sangue fervendo.
Na manhã seguinte lá estava Bervely, diante de uma classe do segundo ano da Corvinal e da Lufa–lufa e prestes a tentar enfiar nas cabeças de vento o jeito correto de fazer uma Poção para Cura de Furúnculos.
Sendo sincera consigo mesma, a sensação de estar ali na frente era boa. Dessa vez os alunos a conheciam – não só era a mesma turma para a qual substituíra uma aula no ano passado, como agora eles a reconheciam como monitora chefe, ou pelo menos podiam distinguir o distintivo em sua roupa. Então ela não precisou pedir silencio, e todo mundo abriu o livro na página 47 quando foi solicitado.
– Esse preparo não tem segredo, é só seguir os cinco passos do livro e não errar o sentido de agitar o conteúdo. – instruiu, enquanto eles iam e vinham pegando ingredientes no armário – Lembrando que quem mexer no sentido anti–horário vai derreter a concha, e para cada concha perdida nessa aula eu vou querer em troca um dedo do culpado.
Uma corvinal cheia de sardas lhe olhou com horror e quase tropeçou numa pedra saliente. Bervely rolou os olhos – onde estava o senso de humor negro daquelas criaturas?
Em uma mesa da frente, Luna Lovegood sentava sozinha com o seu caldeirão, distribuindo os ingredientes numa fileira. Bervely ainda sentia um pouco de aflição quando a via, pois se lembrava de seu pequeno corpo inerte sobre aquela mesa há um ano, e como por um momento acreditara não ser capaz de trazê-la de volta.
– Dedos de criança são usados no preparo do Elixir do Direcionamento, não é, Monitora Black? – a loira perguntou com um sorriso flutuante. Foi quando ela usou a sua antiga alcunha que Bervely notou o que faltava naquele cenário, Luna sozinha na mesa em que normalmente dois estudantes trabalhariam.
– Lovegood, onde está sua parceira de poções? – Até onde se lembrava, essa seria Johanne. Numa segunda análise, sua irmã não estava em qualquer lugar da sala.
– Na Torre, eu acho. Ou na biblioteca. – ela disse, pensativa. – Ou no corujal… ela gosta de ir até o corujal sozinha porque a escada tem um bom corrimão.
Bervely pensou que Luna faria bom uso de um Elixir do Direcionamento, com todos os dedos que pudesse conseguir.
– O que eu quero dizer é, porque Loren não está aqui na aula? – reformulou, querendo acreditar que fora clara o bastante.
– Ah, isso. Anne não faz mais poções.
– Como assim? – Bervely estranhou.
– Houve esse dia em que ela acidentalmente derramou o caldeirão com Suco Corrosivo em cima dos sapatos de Snape… sabe, porque ele pediu que fosse ela a servir a poção no frasco de amostragem… e deviam ser os sapatos preferidos dele porque depois disso, ele disse que ela era inapta.
– Inapta? – Bervely repetiu. Luna piscou seus olhos azuis e assentiu.
– Inapta para poções, para sempre ou até ela enxergar de novo.
O resto da aula passou como um borrão, mas Bervely sabia que tudo correra bem; todos os alunos foram embora com mãos intactas, cinco dedos em cada uma.
Não podia dizer o mesmo do seu humor; era capaz de imaginar a maneira com que Snape tinha lidado com poção corrosiva em seus sapatos. Se ele agira com Anne como costumava lidar com Longbotton quando este provocava alguma catástrofe em sua aula, então a cena não tinha sido bonita, ainda mais se ele a tinha expulsado de sua sala…
Inapta para poções. Inapta para poções! A menina estava cega, precisava de auxílio, não de uma dispensa crua em seu primeiro acidente! Bervely já tinha seu discurso pronto para Snape quando ele voltasse às masmorras, ela só não esperava que ele chegasse irado e fumegando, batendo portas e esvoaçando capas.
– Sra. Black! – exclamou o professor, vendo-a ali parada em frente à sua mesa. – O que está fazendo aqui, por acaso eu a solicitei?
– Eu substitui sua aula. – ela disse um tanto fria. – A professora Sinistra teve um imprevisto e eu estava livre.
– Ah, ótimo, tanto faz. Depois você pode me passar as amostras e as observações pertinentes. – disse, em tom de dispensa.
– Na verdade, professor, eu gostaria de fazer uma pergunta.
Snape fez uma cara irritada. Já havia uma veia em sua testa pulsando.
– Num outro momento talvez, Bervely. Eu preciso encontrar uma poção para aplacar essa dor de cabeça causada unicamente pelo idiotismo de uma turma do terceiro ano que é incapaz de perceber o que está diante diante de seu nariz! E sem falar na falta de respeito gritante pelo corpo docente…
– Não. – ela disse com calma. – Não pode ficar para outro momento.
Ele cruzou os braços, voltou seu corpo para ela e deu um longo, dramático suspiro de concessão exasperada.
– Muito bem, Srta. Black, vá em frente, faça a sua pergunta.
– Você expulsou a aluna Johanne Loren das suas aulas.
Snape deixou suas negras sobrancelhas se encontrarem no centro.
– Isso dificilmente é uma pergunta. – constatou com arrogância. Bervely não se abalou.
– Ela está cega. Se ela derrubou um caldeirão de poção no senhor, certamente não foi proposital, e não vejo como isso pode ser motivo para uma expulsão da disciplina. – Queria, mas não conseguia deixar o tom acusador fora da sua voz, e isso foi o que provavelmente ascendeu o modo de defesa de Snape.
– A Srta. Loren é um risco numa sala de aula de poções com fogo, líquidos ebulindo e objetos cortantes. Ela poderia ter causado um acidente maior com tamanha estabanação, a minha decisão tem em vista a integridade dela e dos demais alunos. Se você visse como aquela garota é um perigo, tateando as coisas, cheirando os vapores, metendo a mão em tudo…
– Ela está cega! – Bervely protestou, uma onda de indignação crescendo dentro dela. Snape falava como se tivesse expulsado de sua sala um inseto cujo zumbido lhe incomodava.
– Sim, o que não significa que preciso deixá–la em minha aula por caridade! Ora, por favor, eu não preciso me explicar à você! De repente virou a defensora dos oprimidos, Srta. Black? A menina provavelmente está agradecendo menos uma matéria com que se preocupar.
– Não, ela não está! – Como se Anne algum dia fosse ficar feliz por ter menos uma aula... – Ela gosta de poções!
– Muito bem, é o bastante. Não lhe devo satisfações, Srta. Black. Se retire da minha sala.
Bervely arfou, revoltada. O conhecia bem demais à essa altura para saber que continuar a discussão traria consequências desastrosas, mas não pode evitar o sangue borbulhando com a injustiça.
Aquela devia ser a primeira vez que sentia uma raiva real de Severus Snape.
– BD –
– Você parece como alguém que faria bom uso de uma boa dose de vodka. – disse uma voz com sotaque romeno carregado, quando Bervely atravessou o salão comunal escuro tarde da noite a caminho do seu quarto, depois da última ronda.
– Você acha isso de qualquer pessoa. – resmungou de volta, de mau humor. Não conseguia localizá–la exatamente na penumbra, mas não importava.
– Fato. O mundo seria um lugar mais interessante se todo mundo seguisse o meu conselho.
Bervely meneou a cabeça e seguiu seu caminho, sem querer saber porque Tara estava ali espreitando no escuro ao invés de arruinando a reputação de lufa-lufas em salas escuras do colégio. O dia tinha sido tão desprezível, ela só queria encher a sua banheira com água bem quente e se afogar nela.
Entrou em seu quarto sem acender as luzes, atravessou direto para o banheiro e fez um aceno com a varinha para as torneiras, que ligaram imediatamente. Retirou as vestes da escola de qualquer jeito e as jogou num canto, acenou de novo e uma luz suave amarelada preencheu o ambiente, refletindo no granito cinza escuro rajado de prata.
Despejou os sais espumantes na banheira, esperou as bolhas se formarem e mergulhou na água, soltando um suspiro que era metade exaustão, metade alivio, o abraço quente relaxando seus músculos cheios de tensão. Os olhos fechados repassaram o dia, tarefa que estava se tornando um hábito desde que se tornara monitora-chefe e experimentara o crescimento exponencial de suas responsabilidades.
Primeiro a substituição de poções e a sua discussão com Snape. No minuto em que saíra de lá, ainda fumegando, procurara Johanne para perguntar por que raios não lhe contara que fora expulsa da classe, mas seus planos foram frustrados; encontrou a menina sendo consolada pela professora Sprout, pois precisara ficar de fora da aula de Mandrágoras. Eram muito perigosas para alguém que não podia ver as instruções; ouví-las não era uma opção, tendo em vista o uso obrigatório de abafadores de ouvido. Anne se recusou a ir para o almoço, alegando que estava sem fome e que queria dormir no intervalo da aula. Bervely a acompanhara até a torre da Corvinal com uma inquietação incômoda em seu peito.
Então Bervely tivera sua própria, longa aula de transfiguração com que lidar. Estavam trabalhando em sua maioria com conteúdo já conhecido, apenas praticando-a de forma não verbal, o que exigia muita concentração. Afinal, esperava–se que alunos de N.I.E.M.s pudessem fazer sua magia sem palavras, e qualquer feitiço dito em voz alta era garantia de oerda de pontos.
Na aula seu cabelo ficara constantemente se enrolando por causa do esforço, e ela teve certeza que a Prof. McGonnagal não deixou passar aquele detalhe. Quando saiu da sala, o olhar intrigado da bruxa a acompanhou porta afora.
O dia poderia ter acabado ai, mas ainda tivera a reunião de monitoria e a ronda. No último horário das sexta–feiras ela e Percy se reuniam com os monitores das casas para repassar os acontecimentos da semana, receber seus relatórios parciais e transformar em um geral a ser entregue à McGonnagal no domingo. Esse era o plano, mas a reunião acabou virando uma eterna discussão sobre como Sirius Black entrara no castelo no sábado anterior, o que ele podia querer ali dentro e como era horrível ter os dementadores por perto. A fuga do plano irritou Weasley; o assunto a irritou. Não lhe passou desapercebido, porém, que nenhum deles fez comentários sobre ela e Black terem o mesmo sobrenome. Será que Snape estava certo sobre a coisa do temor à sua posição de monitora?
Bervely cumprira a rota comum da ronda depois disso, mas seus pés acabaram levando-a para fora da escola mais uma vez. Dessa, saiu pela passagem secreta no quarto andar, a mesma que tinha usado com Tara no ano passado para ir até Hogsmeade resgatar Bae. Ninguém a estava guardando, notou. Mas enquanto sair por ela era fácil, entrar nem tanto, pois não havia qualquer indicio do seu local exato na parede externa do castelo. Só se Black soubesse exatamente onde ficava… além do mais Anne falara de uma passagem com uma estátua de bruxa caolha, o que definitivamente não era o caso daquela, que ficava atrás de um espelho.
Fora capaz de atravessar o campo de quadribol (as luzes do vestiário estavam acesas, mas não havia ninguém voando) e chegar até a orla lamacenta da floresta. Bervely cogitara entrar nela e procurar por Black, mas quais eram as chances? Ela bordejou as árvores por muito tempo, enfrentando o vento gelado e o chuvisco cortante, pensando se deveria ou não enviar seu patrono atrás dele. Foi um arrepio gelado que a fez desistir: olhou para o céu e viu três dementadores sobrevoavam as árvores a uma boa altura, como corvos espreitando uma carcaça. Seu coração gelara e, numa analise tardia, Bervely precisou admitir que se acovardara.
Não estava orgulhosa disso. Mas, no momento que vira os dementadores, a rosa em seu braço formigou e ela jurou que o pequeno botão estivera se contorcendo como alguém que tem um pesadelo enquanto dorme. E se tinha algo que Bervely não queria fazer era despertar a rosa…
Mergulhou na água da banheira, deslizando seu corpo até o fundo e tentando afogar os pensamentos assombrados. A rosa não ia despertar e os dementadores não iam chegar nela, ou em Sirius; tudo estava razoavelmente sob controle. Nem mesmo Gavril Romansek voltara a lhe atazanar desde que as aulas começaram. Talvez ele tivesse desistido dela, perdido o interesse.
Então, porque se sentia tão inquieta o tempo inteiro?
Houve um movimento no quarto, que ela percebeu por um facho de luz através da porta aberta do banheiro. Bervely rapidamente emergiu, espalhando água para os lados enquanto buscava a varinha. Ficou um tempo parada na semi-escuridão, tentando ouvir, mas não havia mais nada.
Deve ter sido impressão, pensou, o coração meio disparado com o susto. Terminou seu banho tentando ficar calma e dizer a si mesma que Hogwarts era perfeitamente segura, pelo menos para ela que não tinha que se preocupar com fugitivos homicidas.
Mas, quando mais tarde chegou ao quarto, enrolada na toalha e com seu cabelo pingando, ela encontrou a porta entreaberta. Em cima do criado mudo havia um copo com um líquido transparente e alcoólico familiar, e um bilhete:
"Relaxe"
– BD –
Estava de acordo com as previsões do capitão Marcus Flint: aquele era um dia terrível para estar no céu, voando com vassouras.
Trovoadas roncavam entre as nuvens, o vento fustigava com violência as paredes do castelo e ao longe, as árvores da Floresta Proibida rangiam em agonia.
Embora fosse uma respeitável tempestade a se desenrolar do lado de fora, ela não abalou a popularidade que o jogo tinha entre os alunos de Hogwarts. A escola inteira estava nas arquibancadas se encharcando quando Bervely ocupou seu lugar no lado sonserino, segurando firme um guarda-chuva preto pronto para sair voando de sua mão na menor oportunidade.
Conseguia ver muito pouco do campo com toda a chuva e vento – os jogadores eram meras silhuetas entrando em fila; sete borrões vermelhos, sete amarelo-canário e pretos, todos curvados e parecendo miseráveis. Os aplausos foram abafados pelo uivo do vento, era difícil ouvir até mesmo de quem estava na mesma arquibancada que ela. A pessoa imediatamente ao seu lado era Sia, que não parava de se remexer no banco para ver melhor lá embaixo.
– O que você está procurando? – Bervely perguntou com impaciência, quando a colega pela terceira vez quase arrancou seu olho com uma ponta do próprio guarda-chuva. Lá embaixo, os capitães, Cedrico Diggory e Wood, apertavam as mãos.
– Diggory! – ela gritou contra a chuva – Sabe, aquele lufa–lufa gracinha? Ele é o capitão esse ano! Eu normalmente não gosto de novinhos, mas exceções precisam ser abertas de vez em quando!
– Okay. – cerrou os lábios, se arrependendo de ter perguntado porque agora as pessoas mais próximas viraram a cabeça para olhar quem tinha dito aquilo.
Quadribol já era enfadonho quando visível; debaixo de um dilúvio era apenas torturante. Bervely ficou ali sentada pelo que pareceram horas apertando os olhos, tentando entender o que acontecia lá em cima, mas ela só estava ficando mais ensopada e gelada a cada momento, não importava quantos feitiços de impermeabilização colocara em suas roupas antes de sair. Tudo que sabia era que ambos os times jogavam com ferocidade, embora o seu adversário fosse muito mais o tempo do que o time oposto.
O único jogador que ela podia identificar com certeza – e isso porque ele tinha um posto fixo – era Wood, perto dos aros. Ele parecia tenso, acompanhando a partida sem desgrudar os olhos dos jogadores, o corpo curvado bem rente à vassoura para evitar ser jogado fora dela pela ventania. Bervely teve certeza que ele estava fazendo aquela cara, as sobrancelhas tão franzidas que quase se uniam no centro, expressando seu profundo descontentamento porque as coisas não iam de acordo com o planejado.
A chuva piorava, se tornando mais grossa a cada momento. Com o primeiro relâmpago ouviu-se o som do apito de Madame Hooch, e os jogadores pousaram na lama na borda do campo.
– Não existe a menor chance de esse jogo acabar até a noite. – Sia informou, torcendo seu cachecol encharcado no chão da arquibancada e o deixando de lado. – Minha nossa, o capitão-magia está irritado, e Potter mais ainda.
Bervely virou seu pescoço rápido, sentindo o estalo.
– O que você disse?
– Que os grifinórios estão estressadinhos. – ela apontou na direção do campo, onde agora a amiga de Potter tinha se aproximado do grupo por alguma razão misteriosa e pegava alguma coisa com ele.
– Não, antes, sobre o capitão.
– Ah, isso. – ela deu um sorrisinho travesso – É como chamam ele, o capitão Wood. Porque dos quatro capitães dizem que ele é o mais…
– Quem chama ele assim?
Sia se virou para Bevy com divertimento estampado no rosto.
– Você definitivamente precisa socializar mais com as garotas da sua idade, Bervely. Está perdendo a melhor parte da escola! Olha, eles estão voltando ao campo. Já não era sem tempo, bando de frescos…
No ar, Potter impeliu sua vassoura através da cortina d'água com renovada motivação, e o time o seguiu. Ouviu–se novamente o trovão, acompanhado de um raio bifurcado que clareou todo o campo, e Bervely sentiu um arrepio de alarme. Qual era o problema de todo mundo, em achar que estava ok ficar debaixo de uma tempestade daquelas por causa de um jogo de vassouras?
Ela começou a desejar que o maldito pomo fosse logo encontrado, e passou a acompanhar o sobrevoo de Potter pelo campo, e foi só por isso que ela o viu congelar no ar quando houve um terceiro raio.
Pensando que Potter avistara o pomo, ela seguiu a direção do olhar dele até uma das arquibancadas de visitantes praticamente vazia. Praticamente. A não ser pelo cão negro e peludo imóvel na última fileira.
– Bervely, ficou maluca!? – Sia berrou, quando a monitora-chefe se ergueu abruptamente e com isso derrubou seu guarda-chuva, que foi carregado pelo vento e saiu se embolando com os dos outros colegas. Houve uma pequena movimentação de pessoas irritadas ao seu redor, bloqueando a sua visão; quando Bervely olhou de novo, o cão desapareça.
Mas ela vira. E Potter também, com toda certeza.
Não houve muito tempo para pensar, porque a torcida começou a rugir enlouquecida através da ventania, indicando que os dois apanhadores tinham avistado o pomo de ouro. Cedrico Diggory tinha a dianteira e Potter tentava alcançá-lo, mas era atrasado pelo vento, sua baixa estatura e peso impedindo que se mantivesse na rota. Bervely aproveitou a distração para passar pelos colegas, pisando em alguns pés e recebendo alguns palavrões gratuitos no processo.
Ela já estava ao pé da arquibancada quando algo estranho aconteceu. Um silêncio inexplicável foi tomando o estádio e o vento se tornou um agressor silencioso. Alguém tinha desligado o som do mundo… e não demorou para um frio familiar se esgueirar até ela e penetrar suas roupas molhadas, no seu corpo, gelar a sua mente…
Bervely olhou para o centro do campo, já prevendo o que estava lá. Só não imaginava que houvessem tantos – pelo menos uma centena de dementadores tinham tomado o campo de quadribol, suas faces encapuzadas voltadas para cima, o barulho de matraca fazendo um estalo agonizante em seu cérebro mesmo de toda aquela distancia.
Ela lutou contra as memórias terríveis que se esgueiravam do fundo da sua mente, todas de uma vez, como se cada dementador puxasse a sua favorita…. Não, não iria reviver seus castigos no escuro, sua mãe quase lhe matando, o corpo de Hector gelado na neve, aquele terrível momento em que achara que Black estava morto na praia… fez um esforço para pegar a varinha, ao mesmo tempo em que desbravava a própria mente em busca de uma lembrança feliz.
– Ele está caindo! – alguém gritou com horror, apontando para o céu. O corpo de Potter despencava da vassoura contra o fundo cinza chumbo, como se em câmera lenta.
O que aconteceu a partir daí foi um completo caos. Diggory havia pego o pomo, mas ninguém percebeu, porque todo mundo estava olhando Dumbledore, já no meio do campo, acenar a varinha na direção de Potter segundos antes de seu corpo encontrar o chão. Ele se esborrachou de qualquer maneira, e o mais profundo silencio se instalou no estádio.
Através de seu cérebro nublado, ela se forçou a olhar na direção da arquibancada em que vira o cão negro; não por coincidência, era a que ficava mais perto da orla da floresta. Teve certeza que viu uma silhueta escura sumindo entre as árvores…
Um poderoso patrono explodiu no campo, tão brilhante, tão enorme, que Bervely precisou apertar os olhos para não ficar cega. Os dementadores foram expulsos e o diretor estava fora de si; embora seus gritos com a professora Hooch e a professora McGonnagal – que também chegara ao campo – fossem incompreensíveis, era fácil entender o que significavam.
Dumbledore estava furioso com a invasão das criaturas. Bervely também, por uma razão totalmente diferente: por muito pouco eles não tinham cumprido a missão pela qual interromperam o jogo.
Os jogadores começavam a pousar debaixo da cortina d'água, mas Bervely não estava mais interessada com o que acontecia no campo. Antes que pudesse racionar, correu em direção à floresta por trás das arquibancadas, seu instinto tomando a dianteira sobre qualquer decisão lógica que coubesse ao momento.
– BD –
Era difícil avançar através da lama pegajosa e das raízes irregulares, mas Bervely estava decidida a não perder a pista daquela vez. Não havia quase nenhuma luz debaixo do intrincado teto das copas das árvores e nem o lumus de sua varinha ajudava. Com certeza vira um movimento à esquerda, através do estalar incessante da chuva.
– Black! – chamou, num misto de irritação e urgência. Se embrenhar ali era loucura, e se desse de cara com algum animal selvagem? Se alguns dementadores tivessem vindo para aquele lado? Mais um movimento à sua esquerda a sobressaltou, quebrando galhos, e ela teve certeza que viu um vulto negro correndo mais à frente, ao que adiantou o passo mudando a rota. – Black, não seja um idiota!
Inútil pedir, é claro. Precisou persegui-lo através de lama e água por vários metros até alcançar a orla novamente, na plataforma perto do lago, onde ninguém nunca ia por causa do Salgueiro Lutador. E por falar nisso, onde é que ele estava?
A resposta veio em forma de um zunido alto acima de sua cabeça. Ela só teve tempo de erguer o rosto para ver um grosso galho vindo em sua direção, com impulso suficiente para esmagá–la. No momento em que encolheu o corpo se preparando para o impacto, outra coisa tombou fortemente ao lado de seu torso, a desviando do curso. Outro galho? Bervely estava tonta e a visão tinha escurecido; caiu deslizando na lama e se embolando em um monte de folhas podres que cobriam o terreno. A varinha quase deslizara de sua mão, mas de toda forma, que feitiço poderia usar contra uma árvore furiosa de quinze metros?
Tentou se levantar para fugir do alcance da planta, ouvindo os estalos e torções acima de sua cabeça dentro do redemoinho da ventania. A adrenalina lhe permitiu se erguer, mas não foi rápida o bastante. Outro galho chicoteou sua cabeça, teria acertado em cheio se não fosse a mandíbula que agarrou a barra da sua calça e a puxou para baixo. Mesmo assim o golpe a atingiu de rapão na têmpora, e tudo ficou escuro novamente. Ela sentiu mais do que viu seu corpo ser arrastado na lama e puxado para dentro de um buraco, ou assim pareceu, porque de repente todos os sons ficaram abafados.
– Você perdeu o juízo? – uma voz ralhou ao seu lado. Apesar do zunido em seus ouvidos, Bervely deu um sorriso para o timbre conhecido.
– Diz o maluco que subiu na arquibancada para assistir ao jogo de quadribol. – murmurou, se arrependendo no mesmo instante, porque teve um pouco de ânsia de vomito.
– Você está sangrando, não se mova. – com alguns movimentos rápidos, ele rasgou um pedaço da barra das vestes e fez uma compressa, pressionando sobre a têmpora dela. – Vir na direção do Salgueiro Lutador! Esse é um nível de falta de bom senso completamente novo, até mesmo para você!
– Eu estava vindo atrás de você. – justificou, franzido o rosto com as palpitações dentro do crânio. Mas tudo bem, porque uma mão dele pressionava o pano contra ela, a outra segurava o lado oposto da sua cabeça, mantendo-a imóvel.
– Sim, outra péssima ideia!
– A gente pode continuar discutindo quem tem as piores ideias, mas aqui entre nós, isso pode levar dias.
Sirius deu um grande suspiro de exasperação, mas não resmungou de novo. Ao invés disso, ele afastou o trapo do rosto dela para verificar o ferimento, o que deu a chance de Bervely finalmente olhar direito para ele. Estava pior do que da última vez, mas melhor, ao mesmo tempo. Ela não sabia explicar... sua aparência se descuidara, a barba estava grande, o cabelo ainda mais desgrenhado, mas o vigor e a energia tinham crescido por trás de seu semblante, colocando ardor nos olhos fundos. Não conseguiu evitar outro sorriso, afinal ele ainda estava inteiro e livre, apesar de todos os esforços do Ministério.
– Oi, Black. – foi tudo que disse, meio tonta pela pancada. Sirius afastou suas mãos dela, fingindo aborrecimento, mas qualquer um podia dizer que em seus olhos havia outra coisa.
– Oi, garota.
– Então você está mesmo aqui em Hogwarts. – constatou, não muito brilhante. Culpou o Salgueiro Lutador por isso.
– Não era pra ser notícia. – Black fez uma leve careta, ao que ela franziu, divertida.
– Não é como se você estivesse sendo discreto, se o quadro da Mulher Gorda pode servir de testemunha.
Ele deu de ombros com pouco caso.
– Ela mereceu. Onde já se viu negar a entrada de um Grifinório em sua própria casa?
Bervely notou que Black usava vestes diferentes da última vez que tinham se visto; provavelmente roubara aquelas, mais encorpadas, para se manter aquecido agora que o tempo estava mudando. Era um longo casaco preto-acizentado cuja barra estava cheia de lama, com uma gola alta meio antiquada. Seria uma boa peça se não estivesse ensopada e suja.
– Então, você vai me dizer o que quer em Hogwarts? – tentou, vendo que ele não pretendia tecer maiores comentários sobre sua pequena invasão na semana anterior – Além de assistir quadribol clandestinamente e arruinar o jogo atraindo dementadores?
O rosto de Sirius se franziu em preocupação, seus olhos se tornando mais sombrios.
– Não foi minha intenção. Eu só queria ver Harry jogar, fiquei sabendo que ele está no time.
– Você pode muito bem ter matado o menino. – ela comentou maldosamente. Não pode evitar, era irritante como tudo volta e meia retornava para Potter.
– Como é? – Sirius se alarmou. Bervely deu de ombros.
– Você não viu? Ele caiu da vassoura quando os dementadores chegaram e se esborrachou no chão feito uma abóbora podre. Potter é meio sensível, dizem que desmaiou no trem quando os dementadores olharam o vagão dele, em primeiro de setembro.
Sirius soltou um palavrão, fazendo menção de sair para averiguar o fato. Bervely girou os olhos.
– Relaxe, Dumbledore já o pegou. Pottinho de ouro provavelmente vai ficar bem.
O ex–prisioneiro se voltou inquieto, resistente em acreditar na previsão cínica da garota. Bervely tentou se levantar da parede inclinada onde recostara, mas o mundo girou e ela encostou de volta com um gemido.
– Você está bem? – Sirius perguntou, olhando-a com mais atenção. Ela sentiu o rosto e o pescoço esquentarem. – Vai precisar ir direto para a ala-hospitalar cuidar disso. Ainda não acredito que veio atrás de mim! Se um dementador te seguisse...
– Black, pare de reclamar. – mandou, perdendo a paciência. – Foi você quem quase ganhou um espetáculo de beijo público na frente da escola inteira. Se me dizer o que quer em Hogwarts, quem sabe eu possa...
Mas ele fez um gesto abrupto de silencio, cortando suas palavras. Lá fora houve um estalo forte, que pareceu a Bervely o som que seus ossos teriam feito se o Salgueiro Lutador a tivesse alcançado. Sua espinha gelou; será que alguém a seguira e tinha se aproximado inadvertidamente da árvore assassina?
– Espere aqui. – ele disse. Depois, para sua surpresa, tirou uma varinha do bolso e se aproximou do buraco no teto, colocando a cabeça para fora. Ela aproveitou para dar uma boa olhada no lugar onde estavam; era uma câmara circular debaixo da raiz da árvore; o começo de um túnel estreito se estendia logo à sua direita, se perdendo na escuridão.
Sirius agora tinha a metade do tronco para fora do buraco e fazia feitiços inaudíveis. Voltou, os braços cheios de pedaços de madeira estraçalhados. Bervely não entendeu até ver uma ponteira de cerdas tortas na extremidade de um deles.
– Isso é... era uma vassoura?
– Não uma qualquer. – ele observou, mostrando a ela o local onde havia a marca em dourado. Seu tom era solene. – Uma Nimbus, modelo bem recente, eu arriscaria.
– Ah. É de Potter. Deve ter sido trazida pelo vento quando ele caiu.
Ela se surpreendeu por ter aquela informação guardada em sua mente. Ouvira Oliver elogiar a vassoura um par de vezes, mas era o tipo de coisa para a qual ela virava o rosto sempre que ele começava. Sirius reuniu cuidadosamente o que restava da vassoura e amarrou com outra tira de suas vestes, entregando a ela em seguida.
– Aqui, leve de volta para ele.
– E digo o que? Seu padrinho lhe envia os pêsames por essa perda lamentável?
– Apenas leve de volta. – disse, num tom que não estava para brincadeira. Ela recebeu os destroços da vassoura, mas não numa boa disposição. – Você deve voltar agora, ou vão perceber o seu sumiço. E se alguém desconfiar que esteve me vendo...
– Ninguém vai desconfiar da monitora-chefe.
Black lhe fitou com incredulidade divertida.
– Você é monitora-chefe? Quem foi o maluco que fez essa nomeação? Você invadiu uma prisão nas férias de verão, pelo amor de Merlin.
Ela deu um sorriso atravessado.
– Não fico contando vantagem por ai, sabe.
– Nesse caso, monitora, parece que você perdeu seu distintivo. – Sirius pontuou, indicando a blusa arruinada dela. Bervely percebeu que ele estava certo, a peça não estava alfinetada no lugar de sempre. Ela xingou um palavrão que teria feito Narcissa Malfoy lavar sua boca com um feitiço ensaboante. Ele deu uma risada canina para isso. – Calma ai, se caiu por perto eu posso conjura–lo.
Ele meteu sua cabeça através do buraco pela segunda vez. Não demorou muito e retornou com o pequeno brasão dourado, o que lhe propiciou uma onda de alivio. Mas Black tinha uma expressão peculiar para o objeto.
– Que estranho.
– Quê? – perguntou, estendendo a mão, mas ele não o devolveu. Ao invés disso, colocou o distintivo contra a luz fraca da varinha. – O que foi?
– Seu distintivo está sobre-encantado. Ve como ele repele a lama? É um sinal de que recebeu magia recentemente.
– Os feitiços foram recarregados um dia desses. – explicou, lembrando–se de Snape ter feito isso ainda no domingo.
– Que feitiços? – ele perguntou, desconfiado.
– Os de sempre. Os que permitem aos monitores-chefes tirar pontos e essas coisas.
– Não. É algo diferente. – Sirius olhou para ela com preocupação – Se eu fosse você, pediria pra alguém de confiança verificar. Eu poderia fazer, mas essa varinha ainda está lutando um pouco contra mim, eu ia acabar danificando.
Bervely estava prestes a dizer que quem enfeitiçara o seu distintivo era de confiança, mas um outro, mais forte trovão sacudiu a terra acima deles. Mesmo não tendo medo de chuva, ela estremeceu com o barulho. Parecia que o mundo estava acabando lá fora.
– Anda, garota, volte para a escola. Pior que um aluno sumido é um monitor sumido. – ele lhe deu uma batidinha no ombro, e Bervely sentiu a têmpora machucada pinicar. Seu rosto se torceu num semblante de dor que não passou desapercebido por Sirius. – E direto para a ala-hospitalar.
Ela assentiu, mas não estava pronta para ir. Por melhor que fosse ter a certeza que ele estava bem, os dementadores continuavam lá fora espreitando, famintos pela alma dele. Ela procurou os olhos negros, muito séria ao pedir:
– Black, não faça nada estúpido.
– Eu não vou. – ele lhe deu uma piscadela. – Qual é, você me conhece.
E isso não a tranquilizava. Afinal, agora, ela conhecia.
– BD –
– Me diga novamente como conseguiu essa pancada feia? – Madame Pomfrey perguntou pela segunda vez, atarantada, indo e vindo com poções e curativos em torno de Bervely. Como das outras vezes, ela não mentiu.
– Fui atingida pelo Salgueiro Lutador enquanto tentava recuperar a vassoura de Potter. – seu tom era enfadonho. Suas pernas balançavam acima do chão, porque o leito da Ala Hospitalar era alto demais para que os apoiasse no piso.
– Por que você faria uma estupidez dessas? Recuperar uma vassoura no meio dessa tempestade horrorosa! – ralhou a velha, pressionando poção desinfectante em seu corte e o fazendo arder como o inferno. Bervely deu de ombros, se encolhendo.
– Sei lá. Quadribol é importante, e essas coisas. Era uma Nimbus 2000. Achei que Potter ia querer ser enterrado com ela.
– Potter vai sobreviver, não fale sandices! Honestamente... – a bruxa se afastou, resmungando alguma coisa sobre Bervely ter batido a cabeça forte demais.
Contra todas as possibilidades, e muito embora sua roupa cheia de lama estivesse secando em seu corpo e endurecendo, ela se sentia bem. Suas últimas palavras para Sirius tinham sido "É melhor você não inventar de sumir de novo", ao que ele tinha respondido "Não se preocupe, eu lhe mando uma mensagem".
Então uma ideia terrível lhe assolou, levando seu bom humor embora como se arrastado pela enxurrada. E se ela tivesse imaginado tudo? E se na verdade estivesse sozinha naquele buraco sob a árvore, sua mente criando Black e aquela conversa inteira? Já tinha acontecido antes! E até onde sabia, Black podia estar morto em alguma vala e ela no fundo soubesse disso, mas estivesse bloqueando e criando coisas porque não podia aceitar a realidade, e tudo não passava de um sonho acordado, uma alucinação...
– À propósito, Srta. Black, de onde saiu esse trapo imundo? Poderia ter infeccionado o ferimento!
Mme. Pomfrey sacudia debaixo do seu nariz a tira de pano que Sirius rasgara de suas roupas para estancar o sangue; ao vê–lo, ela respirou aliviada. Ali estava a prova, a evidencia de que não estivera imaginando. Uma tira parecida estava amarrando os destroços da vassoura de Potter quando oa entregou nas mãos do Prof. Flitwick, e nenhuma das duas tinha vindo das suas roupas.
– Eu fico com isso, obrigada. – pegou a tira sangrenta, para o espanto da bruxa. Ela balançou a cabeça e terminou seu curativo. À essa altura não havia mais dor, só um leve latejar na região atingida.
– Você deve esperar aqui, quero lhe observar por uma ou duas horas. E é bom não fazer nenhum esforço até o fim da noite, em dois dias deve estar completamente fechado. Tente não pegar no sono.
Madame Pomfrey foi cuidar de outro paciente – uma aluna do quarto ano que desencadeara uma crise de soluços desde a aparição dos dementadores – e Bervely notou que o time da Grifinória estava rodeando uma cama mais ao fundo. Todos ainda em seus uniformes encharcados e com as vassouras na mão, e acompanhados dos fieis escudeiros Cenoura e Lanzuda. Não precisava ser nenhuma vidente para adivinhar quem estava ali deitado.
— Que sorte que o chão estava tão mole.
— Achei que ele estava mortinho.
— Mas ele nem quebrou os óculos.
Depois que Sirius apertara um nó especifico da árvore usando um galho longo, o Salgueiro ficara milagrosamente imóvel, e ele lhe pedira para se certificar que Potter estava bem. Bervely fingiu ignorar o pedido, mas mesmo assim aguçou os ouvidos naquela direção.
— Foi a coisa mais apavorante que já vi na vida. Mais apavorante... A coisa mais apavorante... Vultos negros encapuzados... Frio... Gritos...
— Harry! — exclamou um dos gêmeos Weasley, dando a entender que Potter finalmente acordara. — Como é que você está se sentindo?
Bervely se perguntava se o garoto lembrava de ter visto o cão negro na arquibancada. Com sorte, a queda da vassoura teria apagado isso de sua memória.
— Que aconteceu? — o apanhador sentou–se na cama de repente, alarmando os colegas.
— Você caiu da vassoura — contou o gêmeo. — Deve ter caído... De uns quinze metros!
— Pensamos que você tivesse morrido — disse a amiga de Katie–do–time, trêmula. Lanzuda fez um barulhinho esganiçado. Bervely estava achando os amigos de Potter todos muito dramáticos.
— Mas o jogo — perguntou ele. — Que aconteceu? Vamos jogar outra vez?
Silêncio. Não demorou muito para ele chegar à conclusão mais óbvia.
— Nós não... Perdemos?
— Diggory apanhou o pomo — informou o gêmeo Weasley dois. Bervely jamais saberia diferencia–los daquela distancia, se nem de perto ela conseguia. — Logo depois de você cair. Ele não percebeu o que tinha acontecido. Quando olhou para trás e viu você no chão, tentou paralisar o jogo. Queria um novo jogo. Mas tiveram uma vitória justa... Até Olívio admite isso.
Ela já notara que o capitão não estava ali. Seu estômago se contorceu inesperadamente com a menção dele.
— Onde está Olívio? — Potter quis saber, sendo útil uma vez na vida e fazendo a pergunta certa.
— Ainda está no banho. — respondeu gêmeo um. — Achamos que ele está tentando se afogar.
Potter deve ter feito algum gesto dramático que Bervely não podia ver dali, porque o gêmeo um o segurou e sacudiu.
— Anda, Harry, você nunca perdeu o pomo antes.
— Tinha que haver uma primeira vez — disse gêmeo dois, falhando miseravelmente em sua pretenção de consolar Potter, na opinião de Bervely.
— Mas a coisa não terminou aqui — disse gêmeo um. — Perdemos por uma diferença de cem pontos, certo? Então se Lufa–Lufa perder para Corvinal e vencermos Corvinal e Sonserina...
Ela se desinteressou da conversa, porque eles começaram a falar sobre quantos pontos time tal precisava fazer na próxima partida para Grifinória ter uma chance. Pegou sua varinha e tentou fazer um feitiço razoável para secar as roupas, mas era difícil, porque a maioria era lama seca e dura a essa altura.
Supunha que devia esperar algumas horas, como Mme. Pomfrey lhe recomendara, mas estava inquieta. Aproveitando um momento que a curandeira se distraiu ralhando com o time, se esgueirou da cama e saiu de fininho pelas portas duplas da entrada.
Ela tinha um destino certo, apesar de que se parasse para pensar, estava mais uma vez agindo por impulso. As palavras do gêmeo um tinham sido apreendidas com sucesso por ela.
"Achamos que está tentando se afogar."
Não se dependesse dela.
– BD –
A chuva lavou suas vestes de toda a lama, porque no caminho de volta ao campo de quadribol Bervely não se preocupou com feitiços de impermeabilidade. E era verdade que estava tremendo e muito gelada quando chegou ao vestiário, mas também estava concentrada em sua missão, o que a distraiu do desconforto físico.
Achou a porta destrancada e as luzes acesas; um vapor quente soprou em seu rosto quando entrou no cômodo amplo onde ficavam os armários e o comprido banco de madeira que servia de apoio. Há um ano mais ou menos ela cumprira a sua primeira e única detenção em Hogwarts bem ali, arruinando vassouras, como o sotaque escocês de um certo capitão fizera questão de salientar antes de arrancar as vítimas de suas mãos e acabar cumprindo a detenção no lugar dela.
Houve uma espécie de cócegas em seu interior com essa lembrança. Já fazia tanto tempo? A lembrança de Wood lhe perguntando se ela era imune ao frio surgiu clara como se tivesse ocorrido no dia anterior. Bem, agora ela estava com muito frio, depois de atravessar os terrenos da escola debaixo do dilúvio sem fim. Na verdade, ela estava tremendo.
– Quem está ai? – alguém perguntou de dentro do único boxe ocupado, e Bervely sorriu. Era de lá que vinha o vapor, do chuveiro ligado e fluindo água quente em um jato forte. Não respondeu, mas também não fez questão de ser silenciosa ao andar na direção da voz. Suas botas faziam barulho contra o chão de madeira, o toc dos saltos e o quac quac do couro encharcado. – Fred? George?
Rolou os olhos. Esperava que ele não começasse a supor que era uma das meninas; se falasse Katie, Bervely não responderia por si mesma. Uma vez em frente a porta, ela pousou a mão sobre o vidro e hesitou um momento.
Podia ver a silhueta dele através da porta, só o bastante para saber que tinha alguém ali. Seu estômago dava voltas de ansiedade. Essa era a hora que a razão tentava tomar o controle do impulso, mas ela não deixou isso acontecer, ou se arrependeria.
Resoluta, empurrou a porta.
– Rose? Merda! O que... eu estou pelado! Pelo amor de Merlin! – atrapalhando–se, ele puxou a toalha jogada sobre a divisória e enrolou em torno da cintura, ignorando o fato de que o chuveiro molhado a encharcaria.
Bervely ficou parada ali dando uma boa olhada nele. Cobrira a parte inferior do corpo rápido demais para ela ter um vislumbre, mas a parte superior ainda era bastante interessante. A água deslizava pelo peito bem dividido, a pele molhada reluzindo, todos os sulcos e músculos evidenciados pela luz clara do vestiário.
– Eu ouvi dizer que você estava tentando afogar a sua vergonha pela derrota de hoje, é verdade? – comentou quando conseguiu olhar pra o rosto dele. Percebeu que estava corado, provavelmente porque o pegara tão de surpresa.
– Você está em meu vestiário! – ele exclamou, enfático.
– Eu sei, Oliver. – ela lhe respondeu tranquilamente.
– Eu estou tomando banho!
– Percebi isso também.
Ele ofegou, desconcertado com a falta de reação dela. Recuperando um pouco da sua dignidade, saiu de debaixo d'água e endureceu as feições para um sólido aborrecimento.
– Será que dá pra sair do meu boxe?
– Não. – Bervely inclinou a cabeça ligeiramente.
Nunca tinha reparado como Wood ficava quando estava irritado; uma veia em sua testa pulsava e a ponta de suas orelhas ficava rosada, e a mesma coisa para os seus lábios. Ela lembrava que os lábios dele também ficavam naquele tom vivo quando eles se beijavam muito intensamente.
– O que você quer? – exigiu com impaciência. – Seja lá o que for, é uma péssima hora. Eu não tenho tempo pra a sua maluquice agora. Na verdade eu não quero ter. E se você não notou, eu não estou em uma boa disposição com você!
– Eu notei. – assentiu, assertiva. – Você está puto comigo porque tirei pontos da sua casa.
Oliver estreitou os olhos, lhe dando um olhar cortante.
– Não só por causa disso, mas sim, eu estou! Você não precisava ter tratado Katie daquela maneira, e que ideia foi aquela de tirar pontos meus por estar fora da cama? Você estava fora da cama. Eu e você estávamos–
Bervely interrompeu seu discurso ao colar seus lábios no dele. Oliver congelou, mas isso não a deteve. Moveu a boca sobre a dele suavemente, sentindo a onda de prazer e rebeldia dar um choque em seus sistema e mandar qualquer resquício de frio embora. Ele afastou a cabeça quase instantaneamente da dela, ao mesmo tempo em que a segurou pelos antebraços.
– O que é que você está fazendo?
– Nunca mais repita o nome de Katie do time quando eu estiver com você em um vestiário, e a única coisa que você estiver usando seja uma toalha.
– Rose, eu não… jesus cristo – ele murmurou quando ela o beijou de novo, dando uma mordida forte em seu lábio inferior dessa vez. Os dedos dele se apertaram em seu braço, não mais para afastá-la. Na verdade, Oliver parecia lutar contra o impulso de levá-la para debaixo do chuveiro com ele. Ela envolveu os braços em seu pescoço, impulsionando o corpo contra o dele, ansiosa para sentir tanto a água quanto a pele quente contra a sua.
– Espera, você vai se molhar – advertiu, ofegando e tendo dificuldades para quebrar o contato.
– Eu já estou molhada, Oliver.
Ele a apertou com mais urgência, dessa vez contra seu corpo e para debaixo d'água. Seu beijo se tornou escorregadio e o uniforme encharcado de Bervely foi ficando cada vez mais pesado. Ela ouviu um ploft, e percebeu que tinha sido a toalha dele desabando de sua cintura até o chão. Um sorriso cresceu em seu rosto, irrefreável.
– Nós podemos ser pegos – ele ofegou em seu ouvido, as mãos escorregando por seus braços, cintura, quadris, até chegarem em sua bunda. A pele molhada intensificava o contato entre os corpos, e ela deu um suspiro quando ele apertou a carne macia por debaixo da saia. Claramente seu aborrecimento ia escorrendo pelo ralo junto com toda água que estavam desperdiçando.
– Eu sou monitora chefe. – lembrou-lhe. Ele balançou a cabeça com desdém.
– Praticamente Deus, né?
– Deusa. – corrigiu, enfática. Oliver deu uma risada incrédula, a acuou contra a divisória da esquerda e imprensou seu corpo contra o dela. Bervely podia sentir cada parte de sua compleição rígida, das coxas, do peito, dos quadris, da ereção dele através de suas roupas.
Ela não achava que seu coração já tinha batido tão forte. Apesar da sua resposta arrogante, sabia que se fossem pegos naquela situação por um dos professores seriam expulsos da escola. O pensamento deveria lhe aterrorizar, mas na verdade a possibilidade de alguém poder entrar ali a qualquer tempo era fortemente excitante.
– Eu ainda estou muito zangado com você. – ele lhe avisou, mordendo seu pescoço, explorando sua barriga por debaixo da blusa. As mãos dele estavam mais quentes que o normal por conta de todo o tempo debaixo da água fervendo, então quase literalmente queimavam em sua pele. – Você não devia ter aparecido aqui se não tem um bom pedido de desculpas.
– Ops, eu acho que eu deixei um no meu… não, espera. Eu não faço ideia do que você está falando.
Em retaliação, ele apertou o seio esquerdo dela com vontade. Bervely gemeu, se contorcendo sob o toque. Não devia ser tão bom, ela nunca se conformava com o quão bom era. Quase fazia com que ela quisesse se desculpar, mas na verdade ela não tinha feito nada de errado, tinha?
– Você não é uma boa garota, Rose. – ele lhe disse no ouvido, massageando por debaixo da blusa o seio que acabara de castigar. Tudo que ela sabia era que suas pernas amoleciam e a pulsação em seu ventre crescia de forma agonizante. Não ajudava a ereção dele estar pressionada bem entre as suas coxas, queimando como um ferro em brasa.
– Te levou esse tempo todo para perceber? – desdenhou. Se ele continuasse naquele caminho, era certo que suas respostas espirituosas iam sumir na poça derretida que estava se tornando seu cérebro.
– Eu tinha esperanças… – confessou rouco, mordiscando o lóbulo de sua orelha. – Rose, me diga o que quer de mim, por que eu não te entendo.
Bervely não respondeu com palavras. Ao invés disso, ela arrancou o casaco verde-cobra pesado e começou a desabotoar a blusa do uniforme que usava por debaixo dele. Não ligava para nada, a não ser a necessidade desesperada de sentir o toque de Wood sem todo aquele pano no caminho, tolhendo seus movimentos. Ela se lembrava do que as mãos dele eram capazes, e queria te-las de novo em seu corpo, tanto que era como se sua vida dependesse disso.
Viu os olhos dele escurecerem enquanto observava ela tirar as duas peças de roupa. Não estava usando sutiã, mas disso ele já sabia. Alguma coisa na visão de seus seios livres o fez se esquecer de seus questionamentos; ele os envolveu com as duas mãos, erguendo-os em suas palmas ao mesmo tempo que se inclinava para beijá-los.
Ah, sim. Ela tinha se esquecido das coisas que ele podia fazer com a boca. E agora que ele lhe lembrava do melhor jeito possível, ela estava se esquecendo do seu próprio nome.
– O-oliver – sua voz vacilou, quando ela se perdia nas voltas da língua quente em torno dos seus mamilos. – Ah, meu Merlin…
Dos seios ele desceu para seu estômago, as mãos ásperas apertando sua pele, segurando em sua cintura enquanto lambia e mordiscava em torno do umbigo. Começou a trabalhar no fecho de sua saia, e foi quando Bervely teve uma pista do que ele pretendia. Tentou impedi-lo, colocando a mão sobre a dele.
– Oliver, eu não acho que–
Ele parou imediatamente e olhou para cima. Em seu rosto havia um misto de desejo e ferocidade que Bervely ainda não conhecia.
– Esse é meu boxe. Você entrou aqui e me provocou. Você não vai se desculpar, correto?
– Correto. – ela assentiu, interessada em saber onde aquela argumentação ia. O tom autoritário dele lhe dava arrepios do melhor jeito, pelas suas pernas e braços até o meio das suas pernas.
– Isso te dá duas escolhas. Você pode sair e me deixar em paz, ou você pode ficar e sofrer as consequências. Entendeu?
Os olhos de chocolate dele queimavam em desafio. Bervely sentiu que estava literalmente derretendo em sua calcinha. Ela assentiu, mordendo o lábio.
– Entendi, capitão.
Essa foi a senha para ele arrancar sua saia, esquecendo sutilezas como zíper. A peça escorregou pelas suas pernas e tão logo Bervely saiu dela, ele afastou o pano para longe, junto do bolo que eram sua blusa, seu casaco e a toalha dele.
Agora ela estava só de calcinha e botas. Pelo jeito faminto que ele a olhava, não achava a combinação esquisita tanto quanto ela. Além do mais, sua calcinha era branca e a água a deixara transparente, então talvez Oliver não estivesse preocupado com moda naquele momento.
Ela estava ligeiramente ansiosa, no entanto. Era a primeira vez que qualquer pessoa estava tão próxima de suas partes íntimas; claro que houvera o sexo no chalé dos Tonks, em seu aniversário, mas a situação era completamente diferente. Na ocasião Bervely estivera tão cheia de tesão quando ele a tocara ali que nem estava pensando com clareza. Agora havia toda a luz, ele estava ajoelhado aos seus pés (aliás, que visão…) e ela se achava tão exposta quanto possível aos olhos dele, o que além de excitante, era um pouco aflitivo.
Mas não precisava ter se preocupado. Aquele era Oliver, afinal. Ele a faria implorar antes de qualquer coisa, a faria querer tanto que todas as suas dúvidas iam se dissipar no meio da urgência. Isso ficou bem claro quando ele começou a beijar a área interna de suas coxas, sua virilha e ventre, sem nunca chegar na parte que importava.
– Sangue de Merlin, eu posso até ser má, mas você é um torturador de primeira. – reclamou, quando ele fez a mais leve das carícias no meio de suas pernas, quase que sem tocar nela. Viu um sorriso travesso surgir em seu rosto, enquanto ele mordiscava a pele de sua coxa.
– Parece que a gente se merece, no fim das contas. – só que ele disse isso bem perto de sua calcinha, e ela pode sentir o hálito quente atravessar o pano e queimar a pele sensível de sua intimidade. Seu corpo estremeceu, e Bervely não achava que dava pra ficar mais molhada, mas estava errada.
– Eu te odeio. – jurou, cerrando os olhos. Era isso, ele ia matá-la de tesão por causa de trinta pontos tirados da Grifinória. Nunca, na história de toda Hogwarts, alguém fora tão castigado.
A não ser pelo fato de que naquele momento ele abocanhou tudo que esteve ignorando nos últimos minutos, numa mordida provocadora e quente, apenas roçando os dentes em seu clítoris e lábios sobre o pano. Bervely deixou escapar um gemido completamente involuntário do fundo de sua garganta, perdendo o prumo.
Como ele…? Não houve tempo para se recuperar. Como se a provocação fosse demais até para si próprio, Oliver abaixou sua calcinha com as duas mãos até seus joelhos, colocou uma mão em cada coxa dela e as afastou as pernas dela o suficiente para dar espaço à sua boca. Tudo isso no espaço de um ofegar; Bervely perdeu o ar quando a língua dele – quente, molhada, macia, maravilhosa – fez contato com a sua intimidade inchada e já encharcada de toda a tortura.
À essa altura, a única dúvida que ela tinha era se suas pernas iam aguentar até o fim. Cada vez que a língua dele se movia em torno de seu clítoris, seus joelhos amoleciam, junto com seu juízo. Sorte a divisória em que as costas estavam apoiadas ser firme; sorte ele lhe segurar pela parte de trás das coxas, apoiando as dobras de suas nádegas enquanto brincava com a sanidade dela usando dos artifícios mais vis.
Por que era isso que ele estava fazendo: brincando. Provocando os lugares sensíveis, explorando sua entrada, às vezes só roçando os lábios ou chupando devagarzinho, ou então circulando a língua em torno do botão inchado que era seu clítoris. Ia meio que por tentativa e erro, repetindo os movimentos que a faziam suspirar mais alto.
– Hey, Rose. – ele chamou em um certo momento, olhando para cima. A visão de Oliver Wood ajoelhado aos seus pés com os lábios inchados e molhados com seus líquidos era quase demais para ela. Será que ele sabia o quão bonito ele era? Que aquele sorriso provocador em seu rosto era o mesmo que lhe matar? – Já se arrependeu?
Ela não tinha certeza do quê. Se se arrependera de ter usado seus benefícios de monitora para colocar Katie-do-time no lugar dela, ou de ter vindo até ali perturbá-lo? Ora, não importava, a resposta para as duas perguntas era a mesma.
– Não. – ofegou, ocultando um sorriso na respiração descompassada – Eu ainda não sei do que você está faland–
Não pode terminar. Dois dedos dele escorregaram para dentro dela, depois saíram e entraram de novo, deslizando deliciosamente em seu canal molhado, ao mesmo tempo friccionando as paredes apertadas. Ela choramingou o nome dele, afastando mais as pernas. Sabia que ele gostava disso, mas não era de propósito. Não tinha governo sobre si quando ele fazia aquelas coisas.
Ela não era nada em momentos como aquele, em que ele voltou a chupá-la sem parar de penetrá-la com os dedos no mesmo ritmo da sua língua. Às vezes, seu coração parecia que ia parar. Às vezes as contorções em seu centro eram tão fortes que ela queria gritar.
E ela gritou, quando ele meteu mais rápido, sua língua também mais rápida só naquele ponto maravilhoso que atiçava todos os seus nervos de prazer. Agarrou-lhe pelo cabelo molhado, talvez mais forte do que deveria, e cravou as unhas no ombro dele com a outra mão – com toda certeza mais forte do que deveria. Oliver não ligou. Ele não parou até sentir o corpo inteiro dela convulsionar, as contrações em seu canal ficando mais fortes, apertando os dedos dele, encharcando-os ainda mais. Ele não parou quando ela se contorceu e implorou, mas ele diminuiu a velocidade, metendo mais devagar, escorregando a língua preguiçosamente na agora muito sensível vagina.
Quando os joelhos de Bervely enfim cederam ele a liberou, permitindo que ela escorregasse até o chão e trazendo-a para seu colo, debaixo a água. Ela tinha esquecido que o chuveiro ainda estava ligado, mas foi bom ter a água quente sobre si naquele momento. Do mesmo jeito que era bom ter os braços dele em torno de sua cintura, lhe segurando firme, e estar encaixada em seu colo, ao invés de no chão frio do boxe.
– Seu gosto é tão bom. – ele sussurrou em seu ouvido, provocando. Bervely buscou a boca dele, e Oliver hesitou só um segundo antes de beijá-la de volta.
Era agridoce e estranho, ela percebeu, enrolando sua língua na dele, compartilhando de seu próprio sabor. E não pode deixar de pensar, como seria o gosto dele?
– O que foi isso? – Oliver tocou de leve o curativo em sua cabeça, que agora estava mais do que encharcado e ardia vagamente. Ela fez um gesto de pouca importância.
– Salgueiro Lutador. Longa história.
– SALG– começou, alarmado, mas a história não só era longa como não autorizada para os ouvidos dele, de modo que Bervely o cortou com outro beijo. Era incrível como funcionava. Quando se afastaram, ele já estava em outro assunto.
– A gente devia sair daqui. Já passou da hora de fechar o vestiário, é um milagre que Filch ainda não tenha vindo atrás de mim.
– Ou Katie. – alfinetou, o queixo pousado em seu ombro.
Nenhum dos dois se moveram de debaixo d'água por um longo tempo. Bervely sentia seu corpo formigar agradavelmente, e uma moleza preguiçosa.
– Eu queria que houvesse um lugar pra a gente ir. – ele confessou, apertando o abraço em torno dela para demonstrar sua resistência. – Nessas horas eu odeio que Hogwarts seja um colégio interno. E que eles não pensem nas necessidades dos alunos mais velhos.
– Eu sei um lugar.
Pensou que podia se arrepender daquilo; se arrepender terrivelmente. Mas pelo menos naquele momento soava como a coisa certa, porque ela queria mais Oliver Wood, e não podiam passar a noite inteira debaixo d'água.
– BD –
Cerca de duas horas depois Bervely Rose Black, sonserina, monitora-chefe, sangue mais puro em cinco gerações de Blacks, estava deitada de bruços em sua própria cama, e a única coisa que cobria seu corpo era o lençol de cetim verde-serpente com um padrão de pequenos losangos prateados. Em um situação normal ela estaria com frio, afinal de contas as masmorras eram sempre muito geladas, mas ao invés disso, ainda estava um pouco suada.
Oliver Peter Wood, grifinório, capitão do time de quadribol de sua casa, estava fazendo um jogo que consistia em arrastar de forma muito leve os dedos nas costas nuas da garota, em várias direções, na tentativa de conseguir alguma reação.
– Não é possível que você não tenha cócegas. Todo mundo tem cócegas! – ele protestou, não pela primeira vez. Ela rolou os olhos, embora Oliver não pudesse ver seu rosto virado para o outro lado. O capitão já tentara a sola de seus pés, o seu pescoço, a parte de trás dos seus joelhos, sua nuca, enfim, todos os lugares em que os seres humanos normais tinham sensibilidade, sem sucesso.
– Oliver, cócegas é coisa de lufa-lufas. – desdenhou, a voz preguiçosa. Podia fazer melhor, mas a verdade é que não conseguia desencorajá-lo; seu corpo estava tão mole, se sentia tão relaxada, e as carícias dele eram bem vindas, mesmo, ou talvez principalmente, porque não a faziam rir.
– Vire de frente. – ele pediu, a voz séria. Bervely suspirou.
– Não vou virar de frente.
– Vire de frente, Rose.
– Sangue de Merlin, dai-me paciência. – praguejou, rolando até ficar de barriga para cima. Oliver estava deitado sobre a lateral do corpo, tinha o cotovelo apoiado no colchão e a palma da mão apoiando o lado da cabeça. O olhar em seu rosto era compenetrado – ele era um homem com uma missão, afinal de contas.
– Todo mundo sente cócegas em pelo menos algum lugar do corpo.
Ele puxou o cobertor dela para baixo até a linha do quadril, revelando sua barriga e seios. Enquanto ela se adaptava àquela exposição de sua nudez – ainda era estranha, quando eles não estavam fazendo sexo – o rapaz começou a arranhar de leve a área de seu ventre, logo abaixo do umbigo. Ele fez isso em torno dos ossos salientes de seu quadril e foi subindo pela sua barriga até o vale de seus seios. Bervely cerrou os olhos, quando o toque leve contornou a polpa de um seio e o topo, trilhando até a polpa do segundo, desenhando um '8' deitado. Suspirou ao sentir o apertão familiar no baixo ventre.
– Viu! Você se arrepiou! Você sente cócegas aqui, admita!
– É, eu me arrepiei. – concordou devagar, olhando para ele através das pálpebras semi-abertas – Mas não de cócegas.
– Oh. – Sorriu, travesso. Ela rolou os olhos, puxando o cobertor de volta até o pescoço.
– Pare de me provocar, é uma da manhã eu estou exausta. Você não cansa nunca?
– Como eu posso cansar, Rose? Olha pra você, você é… tudo isso. – ele fez um gesto amplo, para abarcar ela toda. – E eu não estou falando só do quanto é bonita.
– É mesmo? Do que mais está falando?
Oliver pareceu se enrolar um pouco com a pergunta, o que a divertiu.
– Você é um bocado irritante. – disse, com ar de triunfo.
– Já te disseram que você tem gostos estranhos?
Ele deu um sorriso preguiçoso e veio beijá-la novamente. Bervely não sabia o que estava acontecendo ali, mesmo enquanto correspondia ao beijo, mesmo enquanto gostava disso mais do que deveria. Por que tinha colocado um grifinório em seu quarto? E mais importante, porque ele ainda estava ali? Já tinham parado com a ação há quase uma hora, e sim, fora tão bom quanto da primeira vez, mas estava claro que não iam fazer mais nada aquela noite, então qual a razão de ele ele ainda estar ali e porque isso não a incomodava?
Ela quebrou o beijo, de repente ansiosa.
– Você tem que ir, Oliver.
Ele lhe olhou com confusão.
– Eu fiz alguma coisa errada?
– Não. Não, é só que já está tarde, e eu tenho montes de coisas pra fazer amanhã.
Ele lhe fitou com um novo tipo de atenção, como se soubesse de algo que ela não sabia.
– O quê? – Bervely perguntou com impaciência. Detestava quando as pessoas lhe olhavam daquele jeito. Ele piscou e suspirou, apologético.
– Você está fazendo aquilo de novo.
– O que, o que é que eu estou fazendo?
– Não estrague o momento, Rose.
Ela abriu a boca para lhe dizer que não estava estragando nada, que nem havia momento, eles só estavam jogando conversa fora, mas Oliver fez um gesto de negação com a cabeça e a beijou de novo. Docemente, dessa vez. Acariciando seu rosto. Quando quebrou o beijo, estava se levantando.
– Eu vou embora. E eu vou fingir que não aprendi o caminho para seu quarto, então se você quiser eu eu volte, você vai ter que me trazer de novo ou então desenhar um mapa. Se não quiser, tudo bem também.
Ele levantou, e começou a colocar suas roupas – uma camisa e uma calça que tinha pego no armário do vestiário, antes de voltarem ao castelo. Bervely sentou na cama, observando, sem saber se ele estava ou não irritado com ela. De novo. O que tinha sido dessa vez? Tinha certeza que não tirara pontos da santíssima intocável casa dele, então o quê?
– Wood… – chamou, um pouco transtornada. Ele, completamente vestido, veio até a cama e plantou um beijo em seus lábios. Não parecia zangado. Não parecia feliz, tampouco.
– Isso foi maravilhoso. Espero que tenha sido pra você também. Boa noite, Rose.
– Boa noite. – respondeu, o cenho franzido.
Ele passou pela porta, mas depois voltou, enfiando sua cara para dentro. Uma parte do olhar divertido voltara ao seu rosto quando fez a última consideração da noite:
– Sabe, tudo bem você não pedir desculpas. Eu imagino que alguma coisa catastrófica acontece quando um sonserino se desculpa, não é assim? Dilúvios, terremotos, aulas duplas de poções… Mas você poderia apenas admitir a verdade, Rose.
– Que "verdade"? – repetiu, desconfiando que nada de bom podia sair daquela insinuação.
– A verdade sobre aquela noite na Torre de Astronomia. Você não tirou pontos de mim e Katie por honradez ao seu distintivo nem nada. – ele abriu um sorriso de quem sabe das coisas. – O seu problema com ela é ciúmes. Pena que eu só entendi agora.
(Continua…)
