Capítulo LII

~L'Alguer~

"Muitos dizem que a forma que a gente morre, as condições e o local estão diretamente relacionados com a forma que levamos nossas vidas… Não importa onde morremos ou como morremos, o importante é morrermos tendo a certeza de que tudo o que fizemos ficou bem-feito, sem arrependimentos… da forma que a gente queria"

Tomoyo desembarcou às pressas no aeroporto e correu para a casa dos Biancardi, na encosta da praia, pese aos telefonemas que recebera de Xiu no desembarque. Não tinha tempo para ela, precisava saber como estava Eugênia; pegaria qualquer fax que ela tivesse enviado na paróquia,

conforme Cláudio havia dito para ela e responderia por lá mesmo qualquer problema que ela tivesse.

Entrou naquela casa e não viu ninguém, chamou e ninguém atendeu. Sentiu uma ponta de dor no peito, achando que tinha chegado tarde demais.

Quando entrou no quarto dela e abriu a porta com tudo teve uma surpresa.

Eugênia estava de pé, diante do espelho, penteando a farta cabeleira loira, coisa que não tinha capacidade de fazer desde que adoecera:

– Eugênia é você aqui?

– Sim, Tomoyo, quem mais seria?

– Mas o bispo…

– Ele disse que eu tava muito mal, que eu estava delirando?

Eugênia gargalhou e Tomoyo não achou nada legal aquela atitude dela diante da sua preocupação.

– O que foi? Porque ficou assim?

– Eu nem tive tempo de me despedir direito da Sakura e, quando ela consegue falar comigo umas duas ou três palavras naquele hospital, me avisam que você tá passando mal e você tá aqui penteando os cabelos! Como pode!

Eugênia ficou um pouco pesarosa com a revelação de Tomoyo:

– Puxa, você não conseguiram se despedir, é?

– Não é bem uma despedida, eu só não consegui me explicar pra ela direito…

Eugênia puxou as mãos de Tomoyo e ela se sentou ao lado da freira na cama dela.

– O que aconteceu foi o seguinte: eu realmente estava muito mal, muito mal mesmo. Daí, o Bispo Cláudio, pesquisando num livros velhos da diocese, encontrou um livro com uma magia de cura muito boa; se não fosse pelos esforços dele, eu não estava aqui com você, hoje, aqui, agora…

Tomoyo olhou desolada para o chão, como se não tivesse acreditado nas palavras da jovem mulher:

– Agora, tudo se resolve com magia, é?

Eugênia olhou com uma grande cara de dúvida para ela.

– Tomoyo, esse mundo é feito de magia! Basta que a gente tenha um sonho e uma força de vontade enorme pra cumprir e a coisa se realiza, não aprendeu nada não?

Eugênia tocou as mãos de Tomoyo e alisou a cicatriz na palma da mão dela. Tomoyo imediatamente puxou a mão.

– Sabe, se você aprendesse a usar o poder dessa marca, quem sabe o que aconteceu com a gente em Milão não tivesse acontecido, a tríade, a Stregheria…

– Ah, agora você quer me induzir a usar a magia negra que você tanto condena?

– Não é bem assim; é que eu pedi aos céus pra estender a minha vida alguns dias ao seu lado, Tomoyo, assim como o rei Ezequias pediu pra Deus alguns anos mais. Lhe deram 15 anos. Essa foi a base da magia que o bispo usou comigo…

– Então, você estendeu a sua vida mais 15 anos?

– Não. Três meses e nada mais. Até eu tomar a minha decisão…

– Se você vai viver ao lado da pessoa que você ama?

Eugênia fez sim com a cabeça.

– Eu só preciso de um tempo e nada mais. Enquanto isso… – Eugênia olhou maliciosamente para Tomoyo e deu um pulo enorme nas costas dela. – Eu quero continuar a minha vida como modelo do seu lado! Vamos tocar o barco pra frente porque a gente ainda tem uma dívida grande a acertar com aqueles chineses!

Eugênia agarrou as costas e o pescoço de Tomoyo com tudo que lhe faltou o ar:

– Calma aí, Eugênia, tá me sufocando… se continuar assim quem não vai durar três meses sou eu…

S&T:FJ

L'Alguer, Última semana de agosto de 2009

Durante os meses de junho e julho, nunca Eugênia trabalhou tanto ao lado de Tomoyo, e olha que as duas trabalharam bastante juntas. Faziam desfiles, Eugênia pousava para fotos e trajava com prazer os modelitos que Tomoyo desenhava e a confecção Forza produzia. Nem parecia que passara os últimos meses terrivelmente doente dado à alegria que Eugênia mostrava naqueles dias.

O Bispo Cláudio voltou a Milão e deixou os pais de Eugênia sossegados quanto à saúde dela, citando apenas que aquele procedimento não era uma solução definitiva e que a solução daquele problema viria quando Eugênia resolvesse sair de vez da ordem.

Tanto o casal Biancardi quanto Eugenia temeram as palavras de Cláudio, pois nenhum deles queria que ela saísse da ordem, mas o casal se acostumou com o tempo a enxergar a filha deles como uma leiga secular novamente, justo ela que, desde o nascimento, passou a vida toda na igreja.

O que realmente ajudou a eles entenderem essa nova realidade foram as diversas capas de revista que a filha deles protagonizou naqueles últimos três meses. Muitas vezes sentados diante da cadeira de balanço, à beira mar, os pais dela olhavam a capa das revistas de moda e pensavam:

– Já se foi a época que nostra bambina era uma noiva de cristo, agora, a gente vai ter que aceitar ver ela casada com outro ragazzo!

– Não pense assim; casamento, assim como a ordem, é um santo sacramento!

Todos sabiam que aquela alegria tinha prazo para acabar.

Eugênia não renunciou ao seu hábito e, na última semana de agosto, foi levada às pressas para a casa dos pais, em L'Alguer, terrivelmente doente.

Chegou desfalecida e entubada em uma maca. O prazo do encantamento de cura havia acabado.

Cláudio fez os procedimentos necessários para que ela não precisasse de instrumentos médicos e pelo menos andasse, mesmo com dificuldade, naquela última semana, sem sentir.

Tomoyo voltou a deixar tudo nas mãos de Xiu novamente.

Durante aquela última semana, Eugênia não despregou do hábito e da cruz no pescoço que tanto fizeram parte da sua vida, eu que tanto aprendeu a respeitar e amar.

Agosto já estava acabando e ela estava fraca demais. Deitada na cama de seu quarto, estava cercada por seus pais, Cláudio e Tomoyo, as únicas pessoas que quis ver naquele dia, as únicas que ficaram do seu lado durante aquela doença terrível. O bispo fez os procedimentos mágicos ao seu alcance para que ela não sofresse com a doença.

Cláudio virou um frasco de óleo batizado no dedo e passou na testa, no queixo e no peito de Eugênia, fazendo o sinal da cruz sobre ela:

– Eu, Cláudio, bispo auxiliar de Milão, te unjo, Eugênia Biancardi i Soler, serva do senhor, com a unção dos enfermos, para que melhore, para que se recupere e não sofra com essa terrível moléstia, em nome do pai, do filho e do espírito santo, amem.

Todos daquele lugar fizeram o sinal da cruz em si, exceto Tomoyo, que não era cristã.

Eugênia agarrou as mãos da estilista com os olhos semicerrados e virou a cabeça para ela:

– Tomoyo…

– Quer ficar a sós com ela, Eugênia?

– Não, eu não preciso esconder nada de ninguém… eu não quero ter que me esconder mais dos meus pais…

Cláudio saiu do lado dela e tocou firme nos ombros do amigo Giuseppe. O homem temeu pelo pior:

– Se prepara e não vá sair quebrando tudo por aí.

Uma angústia comprimiu o peito daquele homem.

Eugênia apertou as mãos de Tomoyo com mais força, da mesma forma que Sakura, e aquele gesto lembrou muito a cardcaptor naquele dia no hospital:

– Sabe, Tomoyo, nós aqui de L'Alguer somos descendentes dos catalães que fundaram o reino de Aragão; acreditamos aqui que um dia, o conde Vilfredo I de Barcelona vai reencarnar e unificar o reino que um dia ele criou…

Tomoyo passou as mãos no rosto tentando não chorar com a história que Eugênia contara repetidas vezes para ela, agora, com contornos dramáticos. O peito dos pais dela e de Cláudio apertaram ao ouvir Eugênia declarar sonoramente que acreditava em reencarnação, uma crença abolida pela Igreja.

– Enquanto esse sonho não vem, eu gostaria que você realizasse o meu sonho de conhecer Barcelona; você faz isso por mim?

– Eu vou sim, eu vou fazer uma visita…

Eugênia sorriu.

– Boa menina! Da mesma forma que o nosso conde, você vai reconstruir esse seu coração quebrado que a Sakura quebrou, tá?

– A Sakura não tem culpa de nada, Eugênia, eu sou a culpada por tudo isso…

– Não coloque esse peso todo nas suas costas… sabe, posso te pedir um último desejo?

– O que é?

– Quero que, antes de você morrer e se juntar do meu lado no paraíso, você tome uma atitude de vez, crie coragem pra meter o louco pra cima da Sakura, mostre seus sentimentos pra ela, dê uma caneta de rico no marido dela, se case com a Sakura e seja o pai do filho dela! Seja feliz, Tomoyo!

– O… pai?

Tomoyo tapou a boca com as mãos ouvindo aquilo.

– Jesus, Maria e José! – Assombrou-se Giuseppe.

– Isso é heresia! Mia bambina una herege! – Declarou Antonina.

Toda a raiva que Giuseppe prendeu dentro de si contra Tomoyo parecia ter ressuscitado de uma vez naquele peito. Antonina estava chocada e quis dar uns tabefes na filha, se a condição dela permitisse:

– Claro que sim, mamãe, papai! Essa menina manteve preso dentro dela que amava a melhor amiga de paixão durante esse tempo todo, nunca teve coragem de se declarar e ficou a eternidade na friendzone! Desejo, com a minha morte, que ela tenha a capacidade de fazer uma loucura e se declarar de uma vez, ao menos uma vez na vida…

A situação seria cômica se não fosse trágica.

– Ma… questa ragazza é… é… – Giuseppe não conseguia pronunciar uma palavra que para ela soava como um sonoro palavrão.

– É Gay, marido! Una aberrazzone! Una cosa de demônio!

Tomoyo sentiu-se ofendida com o comentário dos pais de Eugênia e tentou sair do lado de Eugênia, mas ela usou as últimas forças que ela tinha pra segurá-la naquela cama. A semelhança com o que Sakura tinha feito era imensa:

– Fica aqui comigo… só você me entende… eu gosto muito de você, sabia…

Até as palavras eram as mesmas.

Dessa vez, Tomoyo olhou para trás, pois não tinha mais como fugir. De um lado, um furioso Guiseppe, de outro, uma moribunda Eugênia.

– Se eu não fosse uma religiosa e tivesse muito orgulho da minha religião e da minha história, eu faria você se esquecer da Sakura de uma vez. – Eugênia passou delicadamente as mãos no rosto de Tomoyo, acariciando-a. – Mas seria injusto ser feliz do seu lado, sabe? Eu ainda não mereço isso, eu não posso ser feliz do lado de uma pessoa não resolvida como você, Tomoyo!

Eugênia sorriu.

– Portanto… seja feliz com ela e, muito obrigado mesmo por ser… o meu primeiro amor… minha primeira paixão; justo uma mulher como eu…

Giuseppe tremeu de raiva com aquela afirmação e Antonina chorou com a revelação da filha. Tomoyo percebeu porque ela não queria renunciar ao hábito e continuar viva; os pais dela, orgulho pela fé incutido por eles e o desejo de não envergonhá-los fizera a freira adotar aquela decisão.

– Eu acho que eu sempre devo ter gostado, mas só como você eu tive coragem de me declarar como eu realmente sou… muito obrigado, meu bem, realmente foi divertido estar do seu lado… comer a comida do bandejão e dormir na mesma cama apertada que você, experimentar os prazeres do luxo que aquela máfia nos deu…

– Máfia? – Giuseppe disse de um modo que parecia ter um infarte.

– Sim… agora eu parto de consciência tranquila, não querendo… eu nunca fui tocada ou beijada na minha vida, Tomoyo… não siga o mesmo caminho que eu… você vai terminar como eu terminei…

Com um grande sentimento de culpa na alma, Tomoyo levantou o corpo de Eugênia daquela cama e lhe deu um último prazer: beijou os lábios dela com ardência. Foi o estopim para Giuseppe perder a cabeça de vez e Cláudio o forçar para fora daquele quarto. Antonina havia desmaiado.

– Eu… te… amo…

– Eu também queria ter te amado, eu também…

Eugênia tapou os lábios de Tomoyo e tornou a dar mais um beijo nela, sem se importar com a gritaria que o pai fazia fora do quarto. As duas ficaram assim até que os lábios dela esfriaram e Tomoyo teve a certeza que ela partira para um mundo melhor, onde não sofreria preconceito e ser tratada como um demônio por ser quem ela era.

Depositou lentamente o corpo dela na cama e sentiu suas costas serem atravessadas por um choque. Era Giuseppe.

– Durante um bom tempo, eu não compreendia esse poder amaldiçoado que eu recebi, mas a luz de Cristo me mostrou que eu devia usar isso pra combater os demônios, sim, os demônios que me tornaram nesse demônio que eu sou hoje.

Giuseppe voltou a disparar mais um raio com as mãos em Tomoyo e ela tremeu com o choque. Viu de relance Cláudio nocauteado no corredor pela porta aberta do quarto. Quando Giuseppe ia se preparar para lançar um terceiro raio branco com a palma das mãos, Tomoyo trincou os dentes de raiva e levantou a mão esquerda, mostrando as costas da mão branca para ele, onde imediatamente apareceu o pentagrama invertido, a marca dos Sakurazuka. O círculo mágico de Sakura, com a estrela no centro e o sol e a lua dos lados apareceu nos pés de Tomoyo.

Giuseppe sentiu uma sensação ruim dentro de si que o paralisou. Um vento atravessou aquele lugar e o pai de Eugênia foi erguido no ar, contorcendo-se sem poder fazer nada. O círculo de Sakura apareceu em linhas vermelhas brilhantes abaixo dos pés dele e dos dela:

– Durante anos, você incutiu na mente da Eugênia que ela deveria ser uma serva de cristo, deveria ir pra igreja e ver o resto do mundo como se fosse um grande demônio. Pois bem! Tudo porque um dia você viu ela dando um selinho, um bendito selinho na prima dela quando ela tinha cinco anos! Céus, ela era uma criança, só uma criança que vocês estragaram antes de ela tomar uma decisão se ela queria ou não servir à Igreja ou seguir seu caminho! Ela me contou tudo.

Giuseppe sorriu freneticamente, insanamente dentro do círculo mágico.

– Vai me condenar é? O demônio tá por toda a parte, tentando desencaminhar a gente… eu fiz o que qualquer pai faria; se a santa inquisição estivesse ativa nos dias de hoje, eu mesmo levaria a minha filha pra fogueira pra livrá-la do pecado! Pensa o que? Eu sou um devoto de Cristo e vou ir pro paraíso; pra minha filha, eu espero que você não tenha desencaminhado ela até as portas do inferno, demônio! É de lá onde você veio, não foi? Veio fazer mais uma vítima na minha casa, não?

Giuseppe cuspiu em Tomoyo e a estilista fechou a mão esquerda com tudo. O corpo do pai de Eugênia foi atravessado por inúmeros raios negros de bordas vermelhas.

– Miserável! Você não passa de um velho louco fanático! Eu não sou nenhum demônio!

Tomoyo fechou a mão com mais força e Giuseppe gritava de agonia. Os gritos do pai fizeram Cláudio despertar de seu desmaio e interferir urgente antes que Tomoyo fizesse alguma besteira. O bispo murmurou um salmo em latim e a magia de Tomoyo cessou até parar. O corpo de Giuseppe caiu como um saco de batata no chão. Tomoyo ajoelhou-se no chão do quarto, cansada, ofegante:

Cláudio olhou para ela e disse calmamente:

– Tomoyo, você passou dos limites. Por mais que Giuseppe estivesse errado quando a postura que ele adotou pra coibir seus poderes e os da filha, além da grande inclinação homossexual que ela tinha, essa aqui é a casa dele e você agrediu esse homem dentro do teto que ele habita, onde ele é livre para exercer os preconceitos dele à vontade. Fazendo isso, você quer impor a força a sua visão de mundo sobre ele, da mesma forma que ele impôs a visão parcial de mundo dele sobre a filha, sobre você.

– E o senhor, reverendo? Não me expulsou do convento a chutes? Que moral o senhor tem para falar assim comigo? – Olhou séria para ele Tomoyo.

– Eu não consenti que você ficasse mais tempo no convento porque a igreja não se envolve com assuntos da comunidade mágica italiana, mas depois de ver a marca amaldiçoada que você carrega, eu consenti que Eugênia te acompanhasse, para melhor estudar aquilo, estudar você. Descobri que você é uma boa pessoa, Tomoyo, sou proibido de manter magos que não são fiéis à igreja debaixo de instituições eclesiásticas; eu sofreria um processo disciplinar.

Tomoyo desviou os olhos de Cláudio ouvindo as palavas dele:

– Não pense que Giuseppe é a única pessoa que pensa da forma que ele pensa. Você vai encontrar muita gente como ele e tentar "equilibrar" um pouco as coisas discutindo ou agindo dessa forma agressiva não vai te ajudar a ser compreendida por seus oponentes, muito pelo contrário, no meio deles, você que é a errada. – Cláudio sorriu para Tomoyo enquanto levantava-a daquele chão. – Quem deveria ir para o inferno sou eu, afinal, eu permiti que ela vivesse do seu lado… não me arrependo de nada que eu fiz… Só lamento por essa tal de Sakura ter sido o empecilho para que ela não ficasse conosco por mais um tempinho… quem sabe, você não reencontrava a felicidade? Não desperdice o sacrifício dela!

Cláudio deu um leve tapa nos ombros de uma Tomoyo atônita, aproximou-se da cama e fez o sinal da cruz sobre ela:

– O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida… Descanse em paz, Eugênia…

S&T:FJ

O dia seguinte foi de um céu sem nuvens e um calor abrasador de fim de verão.

Pássaros voavam e cantarolavam na copa das árvores. As primeiras folhas amareladas das árvores começavam a cair no chão, verdes, ainda pulsando vida, antes da chegada do outono.

Uma lápide e uma cova for feita para ela estava nas raízes de uma árvore. Os vizinhos dos Biancardi compareceram em peso ao funeral.

– Ela era tão jovem. Nem 20 anos tinha direito…

– Mas eu soube que ela estava afastada da ordem de Santo Expedito… Deus a levou antes que tivesse pecado.

Ao lado do caixão de Eugênia, o bispo Cláudio proferia a oração final:

– Senhor, receba em teu seio a alma da irmã Eugênia Biancardi i Soler e saiba que ela morreu sendo fiel ao máximo ao senhor, a sua missão e à igreja. Torne as coisas para ela brandas do outro lado da vida e receba-a de braços abertos na porta do céu.

O caixão de Eugênia baixou lentamente ao solo, antes de ser coberto completamente por terra pelos coveiros. Uma placa de mármore seria posto mais tarde sobre ele.

A cara dos pais de Eugênia era amarga. Olhavam para aquilo sem acreditar no que ouviram no dia anterior:

– Prefiro ver a minha filha morta do que sendo uma 'gay', cometendo aberrações; não sei como suportou, marido ver ela beijando uma mulher!

– Com a mesma fé em Cristo que esses endemoniados vão ter a sua recompensa.

Giuseppe nem sequer citara que havia nocauteado o bispo ou que forma nocauteado por Tomoyo e pelo poder da estranha marca dos Sakurazuka.

A estilista observava o cortejo fúnebre do alto de uma colina por trás de seus óculos escuros, com um sobretudo preto, para não ser vista pelos Biancardi. Foi só quando eles se retiraram de lá que se aproximou do túmulo. Passou as mãos sobre aquela terra recém-posta e depositou um buquê de rosas, a flor preferida de Eugênia e de nossa senhora, a quem era muito devota:

– Eugênia… eu nunca vou me esquecer de você… todos os dias quando eu acordo… porque o amanhã não vai ser o mesmo… sem você. Eu só queria dizer que o meu terceiro Cd já está gravado. Eu fiz uma música especialmente para você, minha amiga! Eu choro muito quando eu canto ela!

Massimiliano e Xiu, que estavam com ela, se aproximaram do túmulo e tocaram o ombro de Tomoyo.

– Você não está sozinha, ragazza! Você é dona das confecções tanto quanto eu; você pode ter certeza que você tem um lugar seu em Milão; se precisar de alguma coisa, só falar com a gente.

Xiu abraçou Tomoyo e também lhe disse palavras carinhosas no ouvido:

– Com você e ela eu pude desabafar os meus medos e pesadelos. Sem vocês, eu nunca teria enxergado uma vida além da tríade. Eu só tenho a lamentar que a Eugênia tenha partido… sem ser feliz… com você…

Nesse instante, Bo Liu se teleportou ao lado da cova, acompanhado de Guan com sua flauta, Cheng com seu microfone e Tie com sua navalha, instrumentos mágicos dos capangas de confiança do mafioso, dotados de poderes mágicos.

– Eu recebi o seu fax e não aceito a sua renúncia. Apesar de sua dívida com a gente estar quase quitada, eu quero que você saiba que você tem toda a estrutura da tríade na Europa pra te ajudar, não se esqueça disso…

Tomoyo retirou os óculos pretos e o pessoal pode ver seus olhos inchados e avermelhados contrastando com sua face extremamente branca:

– Gente, eu só posso agradecer o apoio que vocês me deram, legal ou não, mas não quero continuar a morar em Milão. Tem muitas lembranças minhas e da Eugênia espalhadas por essa cidade, eu só quero um lugar pra recomeçar a vida; agora, sei que não vou começar do zero; o Hans me ligou e falou que a documentação pra começar a produção na Alemanha já está tudo certo; vou abrir uma nova loja em Munique e em Osaka daqui uns dias… obrigado, gente, se eu precisar de mais uma coisa, eu aviso.

Ao fundo do cemitério, um carro estacionou. De lá desembarcaram Plácida, Hans e Benoit, seus contatos na Espanha, Alemanha e França, respectivamente. Aproximaram-se de Tomoyo e a abraçaram-na:

– Desculpa por ter vindo mais tarde, mas só agora pude vir pra cá. – Disse Plácida, abraçando Tomoyo.

– Vocês não estão atrasados, só agora eu pude ver o túmulo da Eugênia; a família não me deixaria visitá-la durante o funeral…

– Eu querro dizerr que, está tudo ponto em Munique pra sua vinda; se quiser aparecer por lá, estou à disposição. – Disse Hans.

– O mesmo eu digo na França. Em Lyon, já entrei com a papelada parra construção de um ateliê só seu; daqui há uns dias eu tenho a resposta, mas a aprovação já está garrantida, eu só não sei quando… – Respondeu Benoit.

– Obrigada, gente; mas eu já decidi onde eu quero viver daqui pra frente… – Revelou Tomoyo.

– Ela vai cumprir um último desejo da Eugênia e começar pessoalmente um ateliê num país que ela ainda não conhece muito! – Respondeu Plácida, orgulhosa.

– Você vai para a Espanha, Tomoyo? – Perguntou Bo.

– Sim, sim; como eu disse, não vou recomeçar do zero, a confecção em Milão vai ser a minha matriz de produção na Europa, eu só quero um tempo pra repensar a minha vida e me acostumar com a perda da minha melhor amiga na Europa!

Lágrimas tornaram a sair dos olhos de Tomoyo e, surpreendentemente, Giuseppe havia retornado para a cova da sua filha:

– Giapponesa dello demônio! Voltou novamente pra nos assombrar!

Vendo o homem esbravejando contra Tomoyo, Guan e Cheng, dois rapazes, começaram a se beijar na frente do homem. Giuseppe ficou com os cabelos em pé vendo aquilo.

– Ma… che…

Tie sacou sua navalha e apontou para o pescoço daquele homem:

– Saiba que a Tomoyo tem os seus aliados da mesma forma que você, seu velhote! Não ousa se meter com a gente ou eu corto a sua garganta!

Plácida, Hans e Benoit, que não sabiam do envolvimento de Tomoyo com a tríade (e nem souberam) ficaram chocados:

– Gente, não precisamos dessa violência toda! Vamos parar com isso logo antes que alguém se machuque de verdade!

– Palavras sensatas, irmã Plácida.

Atrás de Giuseppe, Cláudio aparecera:

– Giuseppe, esses são os últimos dias que poderemos desfrutar da companhia da Tomoyo aqui na Itália. Eu tenho muito a dizer para ela, mas um passarinho me contou que ela vai arranjar bons amigos por lá, não é mesmo?

Cláudio deu uma piscadela para Plácida.

– Portanto, nesse momento de despedida, o que acha, Giuseppe, de dizer algumas palavras mágicas para a Tomoyo?

Giuseppe, ainda tremendo de raiva por causa do grande choque que levara e por tudo o que aconteceu antes, olhou furioso para ela:

– Eu, para essa aí?

Cruzou os braços e virou a cara.

– Pois eu tenho que pedir desculpas para você, senhor Giuseppe. Me desculpa por eu ser tão prepotente e obtusa com o senhor no quarto da Eugênia. Eu faltei com respeito com o senhor por desrespeitar o que o senhor pensa, mas sou o que eu sou e não posso deixar de ser da mesma forma que o senhor é o que é. Sinto pela Eugênia e digo ao senhor que não forcei ela a nada que ela não quis, pelo contrário, a Eugênia sempre me convidava pra eu ir a missa e eu pude aprender muito de cristo com ela, e, uma coisa que eu aprendi foi, que eu não posso continuar a andar pra frente sem reconhecer os meus erros…

– A trave do olho; um belo exemplo… – Pensou Cláudio.

– Por isso, aqui e agora, eu peço desculpas pelo meu erro. Eu também sou tão vítima como o senhor. Sofri tanto nessa terra quanto o senhor com a morte dela. Por isso eu saio daqui de cabeça erguida, mas digo uma coisa: a Eugênia pode me amar, mas eu nunca amaria ela como eu amo uma certa pessoa… Ela seria como uma amiga para mim…

Tomoyo aperou as mãos contra o peito e lembrou-se da eterna estrela que brilha no teto do seu coração.

Giuseppe olhou para ela e sentiu que conseguia entendê-la, nem que seja um pouco. Mesmo não compreendendo seus dons mágicos, nem muito menos ter trabalhado para desenvolvê-los, ele não tinha vocação para ser padre como Cláudio. Ele sempre amara Antonina desde que era criança:

– Não consegue amar a minha filha, é? Foi por amor que decidiu se exilar do Giappone?

Tomoyo não respondeu e continuou a olhar para o chão.

– Sei, sei… mas bem que você poderia abandonar esse 'satanismo' impregnado na sua alma.

Giuseppe olhou torto para Guan e Cheng e os dois protestaram:

– Quem você tá chamando de satanismo aí, tio?

– Acalmem-se. Vejo que deu pra entender a mensagem. – Cláudio aproximou-se de Tomoyo e abraçou a estilista. – Vá em paz, Tomoyo e seja feliz. – O religioso tirou um livro grosso de capa preta da batina. – Fica com isso aqui. Foi a primeira bíblia que a Eugênia ganhou. Continue aprendendo de Cristo aonde você for viajar…

Tomoyo se assustou com aquilo, folheando aquele livro velho cheio de anotações:

– Nossa! Mas isso é muito importante! Não! Não posso ficar com isso!

– É seu. Eugênia não faria objeções. Ninguém fez objeções e achou por bem você ficar com isso.

Tomoyo entendeu o que tinha acontecido. Olhou para Giuseppe e ele virou a cara.

– Vamo, Cláudio. A Antonina tá fazendo a comida…

O Bispo acenou para Tomoyo, dando seu último adeus.

S&T:FJ

Milão, 11 de setembro de 2009, Aeroporto, manhã, nem nove horas direito.

A mala, com suas roupas, pertences e criações passava pela esteira do check-in rumo ao bagageiro do avião. Cruzou o terminal de embarque e esperaria pacientemente pela hora do voo, sentada em um das poltronas do aeroporto. Na sua mão, estava a mala de mão com alguns documentos. Abriu a pasta e tocou na bíblia de Eugênia. Abiu uma passagem aleatória e leu:

"Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão."

Pensou nas palavras de Eugênia para ela e disse:

'Como eu posso ter uma vida do seu lado se eu nem mesmo me livrei do amor que eu tive? Você estava certa, Eugênia, nunca me julgou apesar da marca dos Sakurazuka, nem quis viver pra me amar; eu me sinto culpada por isso, sabe? Era nesse texto que você estava pensando quando se declarou pra mim?'

No turbilhão de pensamentos, o telefone toca. Era Plácida:

– Aló? Tomoyo?

– Sim, Plácida, pode falar.

– Tou ligando pra dizer que acabei de alugar um apartamento aqui no Saint Montjuic. Fica perto do palácio nacional, é fácil de encontrar, tudo bem?

– Sim, Plácida, pode ser; você vai me pegar no aeroporto?

– Me desculpa, Não vou poder, Tomoyo, eu ainda estou no trabalho, meu marido tá viajando e nem a Eulália vai poder ir.

– O que aconteceu com a Eulália? E o marido?

– A Eulália tem jogo nas Astúrias, tá viajando. Os meninos e o marido aproveitaram o feriado pra viajar pra praia em Rossilhão, por isso, não tem ninguém pra te pegar.

Tomoyo ficou muda do outro lado da linha.

– Não se preocupe, pode despachar a bagagem pro endereço que eu te der e pedir pro taxista pra te deixar nas escadarias do palácio nacional que vai dar tudo certo. Hoje é o dia nacional da Catalunha por aqui! Aproveita pra ver o bandeirão no meio da rua e se acostumar com o clima da cidade! Dentro de duas horas depois que você chegar eu te pego nas escadarias do palácio nacional. Não dá nem dez minutos de distância. Eu vou acelerar as coisas aqui pra poder te pegar… Eu odeio trabalhar em feriados, mas tem uns problemas que apareceram e eu preciso resolver…

Tomoyo fez uma cara triste ouvindo aquilo.

– Tou vendo que não vou começar a minha vida na Espanha com o pé direito…

– Não diga uma coisas dessas! Você vai vir no meio de uma festa! Uma atração turística! Encare isso como uma festa pra você mesma, mulher! Aproveita e relaxa! Você ainda vai ser muito feliz aqui.

Tomoyo fez um meio sorriso depois de ouvir Plácida.

– Está bem; vamos ser otimistas, não é?

– É assim que se fala! Até daqui a pouco, Tomoyo!

– Até daqui a pouco.

O auto falante anunciou o embarque iminente e o coração de Tomoyo apertou dentro de si, com medo e receio do novo futuro na Espanha. Atravessou aqueles portões, aquele corredor até o seu assento no avião segurando firme a bíblia de Eugênia:

'Eu espero que você esteja me vendo e me apoiando dos céus… minha amiga querida… me dê forças para que eu seja realmente feliz como você quer que eu seja nesse novo país, nessa nova terra que eu não conheço e espero não me arrepender de conhecer…'

O avião saiu do chão asfaltado do aeroporto deixando para trás todos aqueles anos de sofrimento de Tomoyo no solo italiano. O sofrimento talvez não acabasse, mas a vida nova estava apenas começando.

Continua…

Por trás do báculo: Tirei o texto que Tomoyo leu de Mateus 7:1-5. Eu realmente me alonguei na cena da batalha, da despedida, porque quando escrevo sobre um momento intenso, minha mão parece que é possuída por alguma coisa e escreve até pegar fogo! Literalmente! Bem insano o pedido da Eugênia, não foi? Meti o louco mesmo, afinal, ela estava morrendo e precisava falar aquilo! Revelei que, no enterro, Eugênia morreu com 19 anos apenas, esse era um dos defeitos da Eulália original de Machado que eu passei pra Eugênia daqui. Porque isso? Não sei, intuição talvez (mais sobre isso quando a Eulália aparecer aqui), mas abracei a ideia de uma Eugênia italiana e de uma Eulália espanhola desde que eu planejei a fic. Termino aqui a etapa italiana da história. Agora vou começar a etapa espanhola da fic, finalmente, depois de tanto tempo e espera! Muita coisa a respeito da Espanha via ser vista aqui! Arriba y viva España!