Olá. Espero que todos estejam bem.
Esta é a segunda parte do capítulo, espero que gostem. Acho que, acidentalmente, reuni alguns dos momentos mais densos em um capítulo só, por isso acredito ter sido vantajoso que o mesmo tenha ficado tão grande que eu tenha tido que dividi-lo.
Não há muito que falar sobre ele, apenas que foi fruto de muita coisa misturada, momentos difíceis, textos que já estavam prontos, textos inacabados, rascunhos revisados quinhentas vezes e muitas vezes abandonados. Enfim. Como todos os meus textos de ultimamente, este é mais um dos que nascem de forma dura, aos trancos e barrancos, nos entremeios, nas encruzilhadas, nos pequenos momentos de folga, mas que no fim das contas, me deixam feliz. Não por estar bem escrito, porque na verdade nunca está, mas por, enfim, dizer o que eu queria que dissesse.
Queria dedicá-lo então a todos os LEITORES que acompanham O DESTINO DE MUITOS e minhas outras fics e deixam seus comentários, pois é pensando neles, pensando nesses corações sem rosto que eu tanto prezo, que eu escrevo dia a dia, que eu busco um tempo que seja para viver essa aventura. Esse texto é para vocês. Muito obrigada por estarem comigo.
Gostaria também de dar os parabéns para o pessoal do TOLKIEN GROUP, um grupo que eu idealizei há três anos e que agora não é mais só meu, muito pelo contrário, transformou-se numa grande família da qual eu tenho muito orgulho de participar. Parabéns, mellyn-nin, espero que possamos comemorar muitos outros aniversários.
beijos
Sadie
Resta esse constante
esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno
levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio
no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande
medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
O HAVER – Fragmento – Vinícius de Moraes
50 – INFRINGIR O IMPOSSÍVEL – Parte II
Desceu rapidamente as largas escadas. Os gritos e outros sinais de agitação se agravavam a cada degrau. Uma vez vencido o obstáculo, Elrond pôs-se a correr por um corredor estranhamente vazio. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, todos pareciam ter tomado a direção do evento. Quando enfim chegou à recepção, surpreendeu-se por encontrar uma pequena multidão aglomerada no lugar, formando quase um círculo em volta do balcão de internação.
"O que está acontecendo?" Indagou a uma pálida enfermeira que se encolhia próxima ao bebedouro.
"Doutor Herodotus!" Ela balbuciou, agarrando a manga do jaleco do médico. "Não vá até lá. É perigoso."
"O que houve?"
"Dois homens chegaram. Acho que são do beco, doutor, e foram atingidos pelo gás. Não os vi de perto, mas um deles parece ter sido muito atingido. O outro já foi levado para a ambulância, mas esse não quer colaborar."
"Ele está armado..." Sussurrou um outro enfermeiro, esticando o pescoço para ver o que se passava. "Gente do beco miserável, por que temos que ajudar esses desgraçados?"
Elrond não respondeu. Aquela parecia ser uma situação preocupante demais para que tempo fosse perdido com comentários ou observações, ele optou então por fazer algo ao invés de apenas assistir e conjeturar.
Forçando passagem cuidadosamente através do pequeno grupo que se amontoava, ele logo pôde ver melhor a situação. Em pé, com as costas quase encostadas no balcão vazio, um rapaz com um gorro preto e uma pesada jaqueta de inverno, empunhava uma adaga, movendo-a de forma a criar a sua volta um círculo imaginário que ninguém ousava transpassar. Seu rosto distorcido era um mapa de feridas e manchas avermelhadas e seus olhos semi-abertos pareciam inchados e sensíveis à luz. Ele respirava com dificuldade e curvava ligeiramente as costas, apoiando a mão livre sobre o peito. Diante dele, a alguns passos, estava o médico de plantão com ambas as mãos erguidas à frente e um ar bastante preocupado no rosto.
"Vamos lá, rapaz!" Gritou o plantonista em tom de advertência. "Seu amigo está esperando na ambulância. Temos que levar vocês para o H.C. Não podem ser atendidos aqui."
"Não." O ferido respondeu, forçando-se visivelmente a reerguer mais a adaga e apontando-a para a direção da qual ouvira o alerta. O médico estava um pouco à frente de Elrond e, quando a vítima voltou-se para ameaçá-lo, possibilitou que o curador visse melhor seu rosto, despertando uma impressão das mais inacreditáveis.
"Elbereth." Deixou escapar o curador, mas não teve tempo de olhá-lo melhor, pois o rapaz já voltava a girar sua arma no ar, movendo-se agora um pouco mais para frente e roubando gritos de pavor dos que estavam ao seu redor. Ele parecia estar em busca de uma passagem para escapar, mas os gritos que surgiam toda vez que tentava abrir caminho para a fuga pareciam intimidá-lo, como se o fizessem perceber quantos estavam a sua volta. Ele não parecia de fato ter a intenção de usar a arma que empunhava, só agia tão desesperadamente quanto um animal enjaulado.
A confusão criada, no entanto, agravava-se a cada instante, no meio dela Elrond ainda tentava confirmar suas suspeitas, ele infiltrava-se por entre aquelas pessoas, pacientes e pessoal do pronto-socorro, em busca de um melhor ângulo. Contudo, o acelerar descompassado de seu coração já se mostrava uma evidência muito mais efetiva do que qualquer outra que pudesse surgir. Por todos os Valar, se aquele era quem era, ele tinha que agir muito rápido.
Naquele instante o médico de plantão afastou-se em um sobressalto, quase colidindo com os que estavam atrás dele. Tudo isso porque, em um movimento de desespero, o ferido quase o havia acertado. O doutor recém-formado olhou a sua volta com um ar igualmente desesperado, talvez enfrentando a maior dúvida de sua carreira até então. Por fim, gritou:
"Alguém chame a polícia de uma vez!"
"Não." Elrond surgiu do meio do grupo, empurrando, agora não tão gentilmente, os outros que estava em seu caminho e colocando-se, enfim, ao lado do plantonista que já queria abandonar o centro dos conflitos.
"Deixe, doutor." Aconselhou o jovem médico, ainda olhando assustado para o rapaz que agora voltava a se encolher próximo ao balcão, o rosto mais contorcido de dor e a palma completamente aberta por sobre o peito. "São gente marginal do beco. Este aí está sofrendo como um cão e não quer que o ajudemos. É uma vítima do gás, deve estar alucinado. Mal pode enxergar. Vamos chamar a polícia e deixar que resolvam. Não somos pagos para arriscarmos nossas vidas com esses marginais. Não mesmo... já não basta o que passamos aqui com esses ladrões e salafrários..."
"Espere." Elrond apoiou a mão no ombro do colega de trabalho que já puxava o celular do bolso do jaleco. "Eu o conheço. Vai ficar tudo bem."
"Conhecendo-o ou não doutor, é arriscado." A voz de Clare surgiu e logo o rosto redondo da enfermeira estava diante dele. "O povo do Beco é muito perigoso, gente que se finge de amigo. Sabem enganar as pessoas como ninguém. Não são de confiança. Não posso permitir que o senhor se arrisque."
"Isso mesmo." Um outro enfermeiro concordou com veemência. "Talvez, se o cercarmos, possamos imobilizá-lo e anestesiá-lo ou algo do gênero. O gás não é mais perigoso agora e ele não parece ter forças para resistir se todos formos de uma vez."
"Mas está armado e dizem que esse povo é bom demais com essas armas. Eu é que não vou me arriscar a chegar perto desse marginal desgraçado." Comentou o plantonista, ainda segurando firmemente o telefone.
Antes que mais alguma resposta surgisse outros gritos emergiram, porque o ferido voltou a girar sua arma, parecendo dessa vez disposto a sair da armadilha na qual estava. Ele deu vários passos, algumas pessoas caíram tentando fugir, outras correram alguns metros. Ele contraiu a face então, voltando-a para a direção da porta e pendendo a cabeça como se tentasse entender a imagem embaraçada que via. Seu rosto estava ainda mais pálido e seus olhos lacrimejavam.
Naquele instante os dois enfermeiros, que esperavam na calçada, entraram para ver o motivo da demora do outro paciente e foram surpreendidos com a cena.
"Mas o que diabos..." Um deles ainda teve tempo de dizer, antes de ser puxado pelo amigo para o canto direito do saguão. O ferido, ao perceber que havia outras pessoas no trajeto que escolhera, viu-se agora obrigado a retornar alguns passos, movendo em desespero a cabeça para todas as direções, como se tentasse achar outro meio de fugir e, para isso, pudesse contar apenas com sua audição.
"Deixem-me tentar conversar com ele, antes que alguma desgraça aconteça." Elrond pediu, agora segurado pelo médico e pela enfermeira.
"Vamos chamar a polícia, por todos os santos! Não precisamos nos arriscar." Reafirmou o plantonista, agora ainda mais agoniado.
Elrond soltou um incontrolável som de insatisfação, dessa vez puxando com força os braços e soltando-se dos amigos que tentavam contê-lo.
"Doutor!" Retrucou com insistência a enfermeira-chefe, tornando a contê-lo pelo braço. Elrond voltou-se brutalmente então, segurando o olhar dela com um que a mulher nunca o havia visto dar. Sob as aquelas escuras sobrancelhas, os olhos do médico pareciam mudar de cor.
"É perigoso, doutor." Clare buscou justificar-se, enfrentando, mesmo temerosa e intrigada, o olhar do médico.
Elrond encheu o peito, como se fosse tomar uma atitude radical, mas por fim, percebendo que, apesar de mais rápido, aquele talvez pudesse não ser o caminho mais sensato, suspirou forçosamente.
"É meu sobrinho." Ele sussurrou a verdade, enfim e continuou a olhar a enfermeira, mesmo sentindo que a pele dela gelava-se e a cor fugia-lhe completamente das faces sempre tão rosadas. "Deixe-me acalmá-lo, por favor. Ele não fará mal a ninguém."
O queixo de Clare não custou a cair depois daquela confirmação.
"Seu sobrinho?" Ela ainda questionou o que julgava ter entendido mal.
"Meu sobrinho, Clare." Elrond repetiu no mesmo tom, olhando agora para o agitado rapaz. "Preciso ajudá-lo."
A enfermeira dessa vez acompanhou o olhar do médico, ainda descrendo naquela verdade que ele lhe confidenciara. No entanto, profissional de salvamento como escolhera ser, sabia que aquele não era o momento para indagações, o aperto de sua mão afrouxou-se com aquela descoberta, e a amizade e confiança que tinha por aquele médico, fizeram-se maior do que seu temor. Ela então deixou o braço do elfo, libertando-o enfim.
"Faremos o que o senhor precisar, doutor. É só nos dizer." Garantiu e recebeu um rápido aceno de agradecimento do curador, antes deste se voltar e caminhar vagarosamente na direção do paciente ferido.
"Espere, Dr. Herodotus..." O outro médico ainda quis retrucar, mas Clare ergueu-lhe uma mão, pedindo silêncio. Ela também estava ficando farta daquela diplomacia totalmente fora de hora, sabia que algo precisava ser feito com urgência.
Elrond se aproximou lentamente, aproveitando-se de algumas virtudes que apenas os elfos tinham e notando que ainda eram eficientes. Preocupado como estava com as vozes a sua volta o jovem ferido não percebeu sua aproximação.
"Largue essa arma, rapaz. Vai matar alguém." A voz de um senhor, provavelmente paciente do pronto-socorro, alertava.
"Não! Eu quero sair...Por favor... Saiam... do caminho... Não quero fazer mal... quero ir embora..." Retrucou o rapaz e seu tom tão sofrido e triste comoveu alguns, que ficaram estagnados sem saber o que fazer.
"Ilúvatar." Elrond deixou escapar um sussurro ao ouvir novamente aquela voz, mesmo corrompida como estava pela dor física e outros males. Quando então sua exclamação, mesmo parecendo quase um suspiro para alguns, foi ouvida pelo ferido, o curador teve a certeza que lhe faltava. O rapaz voltou-se no mesmo instante e os olhos do antigo lorde elfo foram tomados pelas teimosas lágrimas que ele queria conter.
"Afaste-se!" O jovem ordenou, reerguendo a adaga agora na direção do curador.
Elrond não custou a cair em si novamente, percebendo de imediato da gravidade desse novo momento. Ele ergueu então as mãos para pedir que ninguém ali se movesse. O médico sabia que, a sua volta, estavam muitos conhecidos seus, entre pacientes e funcionários do hospital, que o queriam bem, por isso o elfo temia pela atitude que poderiam tomar se o julgassem em perigo.
O grupo estagnou-se mesmo sem o querer e o silêncio que se fez foi deveras perturbador. Elrond deu mais um passo a frente devagar.
"Menino..." Ele chamou enfim. "Sou eu... vai ficar tudo bem."
O rosto do rapaz endureceu e perdeu a pouca cor que lhe restava por entre as feridas e marcas, a princípio ficou imóvel, como se rejeitasse mentalmente o que ouvira, depois franziu o cenho, tombando a cabeça lateralmente com um ar de dúvida inegável. Entretanto, ao sentir que Elrond estava se aproximando mais, reergueu a adaga.
"Está tudo bem..."
"Afaste-se! Eu quero sair... Me deixe... Me deixe sair..."
Elrond sentiu o peito arfar, outras vozes chamavam seu nome agora, pediam que ele se afastasse, que não se arriscasse. Mas o curador não ouvia nenhuma delas. Diante daquele fato extraordinário tudo o que lhe vinha à mente era a necessidade urgente de se concentrar como podia na imagem que tinha ali, naquela situação que precisa ser resolvida antes que fosse tarde, antes que algo inesperado acontecesse e roubasse dele aquela oportunidade. Não, ele faria o que fosse, apelaria para o que fosse, arriscaria tudo o que tinha.
O rapaz movimentou-se mais uma vez, voltando a afastar-se e arrancando outros gritos de alguns mais agoniados. Ele parecia estar se preparando para um tudo ou nada, para uma atitude decisiva. Aquilo era uma evidência inegável, a evidência que faltava para despertar em Elrond a disposição para o risco maior. Ele deu mais um passo a frente, abrindo novamente ambos os braços para pedir que os outros se acalmassem.
"Gwiil, pen-neth... Oinat kai ilya na alkarinqua." (Paz, menino... tudo vai ficar bem.) Ele arriscou, e sua língua materna, não usada há tanto tempo, nunca lhe soou tão mágica. Era como se declamasse um dos cantos da criação, um canto comovente que atingiria o coração de qualquer um, especialmente o coração desesperado de alguém muito especial.
O queixo do rapaz amoleceu e a mão que segura a adaga ganhou um evidente tremor. Naquele instante o silêncio parecia ter se estendido por todos os lugares do planeta.
"Larhink, Legolas." (Calma, Legolas) Elrond continuou, aproximando-se um pouco mais, ignorando os riscos restantes e buscando encerrar as dúvidas que ainda pudessem existir. "Idra ion-nîn... Oinat kai ilya na alkarinqua" (Meu filho amado, tudo vai ficar bem)
Soaram enfim aquelas últimas palavras tal qual um encantamento dos mais belos, o rosto contorcido de dor e angústia daquele jovem ganhou traços serenos, o arfar de seu peito reduziu-se devagar, enquanto ele olhava diretamente para Elrond, mesmo sem o ver.
"Herdir..." (mestre). Ele disse em tom incrédulo, e o curador teve que se conter ao máximo para não abraçá-lo ali mesmo, para derramar as muitas lágrimas que seu coração lhe pedia que derramasse.
"Sim, criança, sou eu. Está tudo bem." Ele retomou devagar a língua comum e quase se arrependeu, pois o rosto de Legolas empalideceu novamente e ele voltou a erguer a adaga.
"Por favor... eu quero sair... Por favor... diga-lhes que... que não vou fazer nenhum mal..." Ele disse, sentindo que o curador estava a um passo dele agora.
Elrond sentiu a garganta apertar-se de emoção, ele queria dar a Legolas a garantia de que tudo acabaria bem, a mesma garantia que sempre oferecera. Mas, depois de confirmada aquela descoberta, sua voz embaraçava-se na emoção da boa surpresa e, naquele instante, tudo o que o curador conseguiu foi erguer a mão direita e vagarosamente envolver o pulso do jovem elfo, aquele cuja mão portava a adaga.
Legolas estremeceu com o contato.
"Por favor..." Ele tentou pedir, mas Elrond aquietou-o.
"Está tudo bem, ninguém lhe fará mais mal..."
"O gás... O gás, mestre..." O arqueiro lembrou em um tom quase inaudível, estremecendo ainda mais ao sentir o braço do curador envolver seus ombros.
"Você vai ficar bom, confie em mim."
Quando Legolas finalmente cedeu, entregando a arma, Elrond teve que erguer a mão direita para conter os colegas que queriam avançar sobre eles.
"Deixe-o conosco agora, doutor." Um enfermeiro pediu.
"Nós o levamos para a ambulância, não se preocupe." Outro confirmou.
"Eu o conheço." Tentou garantir novamente o curador, seu tom de voz mais elevado agora. "Não fará mal a ninguém. Está tudo bem."
"Então o leve para a ambulância, Dr. Herodotus." Pediu o outro plantonista, impaciente e visivelmente consternado com a cena. "O carro está esperando. Todas as vítimas precisam ir para o H.C. Ele não pode ficar aqui."
Legolas apavorou-se com a convincente veemência do jovem médico e seu pavor o fez voltar a mover-se no mesmo instante, mesmo sentindo o aperto do abraço de Elrond se reforçar. Ele queria acreditar, assegurar-se de que aquilo não era um sonho, de que realmente tinha encontrado aquele a quem não imaginava mais ver. No entanto, em seu peito uniam-se, em aterradora lembrança, todos os problemas que tivera, todas as vezes que se julgara seguro e não estava, todas as contradições que o destino parecia reservar-lhe. Somadas, aquelas amargas lembranças, só lhe engrandeciam o temor de forma quase incontrolável.
Para completar o pesadelo havia, agora mais forte e presente, os sons daquelas vozes voltando a se intensificar à volta dele. Vozes cujos rostos ele desconhecia e que discutiam, gritavam, pediam, aconselhavam. Palavras como ambulância, hospital, polícia e quarentena foram se adicionando à dor que também se agravava mais, fazendo-o encolher-se instintivamente. Quando se deu conta, estava agarrado a Elrond, o rosto escondido no ombro do curador como uma criança pequena. Ele ainda ouviu o lorde elfo responder em um tom de urgência, assegurar novamente que o conhecia, que ele não era perigoso.
Mesmo em meio a tanta discórdia era bom demais ouvir a voz de seu mestre, mesmo em meio a tanto temor, mesmo enfraquecida e distante como estava soando naquele momento...
"Doutor Herodotus!" O plantonista agora acompanhava o curador que carregava o corpo quase inconsciente de seu ferido. "Aonde vai levá-lo? Ele não pode ficar aqui. Tem que ir para o H.C."
"Ele não vai a lugar algum." Elrond usou de um tom autoritário que ninguém conhecia e que subitamente deixava claro o quão farto daqueles empecilhos ele parecia estar.
"Mas a ambulância..." Tentou indagar o outro, desta vez mais receoso.
"Peça que aquela ambulância parta antes que percamos o paciente que ela leva então, doutor."
"Mas... Mas..." O jovem médico balbuciou, caminhando ainda alguns passos ao lado do rápido médico. Por fim deixou-se ficar para trás, inconformado, observando Elrond ganhar as escadas com uma agilidade invejável e ser acompanhado pela enfermeira-chefe. Atrás dele um saguão inteiro de pessoas perplexas também parecia esquecido.
"Clare, minha amiga. Abra aqui por favor." Elrond pediu, quando já estavam diante do consultório. "A chave está em meu bolso."
A enfermeira obedeceu, abrindo a porta e dando passagem para o médico e seu paciente. Elrond acelerou o passo, colocando Legolas por sobre a maca e adiantando-se para apanhar alguns medicamentos.
"Preciso de um inalador e de corticosteróides também."
"Aconselho aplicação intravenosa primeiro, doutor." A enfermeira comentou, aproximando-se receosa. "Não será melhor levá-lo até um quarto? Temos um vago no final do corredor, o paciente ganhou alta essa manhã."
"Não, Clare, obrigado." Elrond respondeu desatento, sua concentração voltada inteiramente ao jovem que examinava. "Sabemos que este rapaz não deveria estar aqui, mas já que está, devemos fazer o possível para não comprometermos a integridade do Hospital. Se puder me ajudar lhe serei muito grato, mas se isso for prejudicá-la, eu entenderei."
"Eu o ajudarei no que for preciso, doutor. Mas devo alertá-lo que provavelmente o senhor receberá uma visita do Dr. Tylor mesmo assim." Ela comentou, olhando agora diretamente para o rosto do paciente. Ele tinha belos traços, apesar dos ferimentos, parecia mesmo com um parente do bom médico.
"Agradeço, Clare." Elrond apenas respondeu, procurando deixar a imagem do diretor do hospital longe de suas preocupações no momento, enquanto trazia para a mesa lateral alguns apetrechos dos quais precisava.
Clare ainda ficou indecisa sobre o que fazer, enquanto seu olhar continuava estranhamente preso à imagem daquele rapaz. Por todos os anjos, ele não parecia um criminoso, viciado ou algo do gênero. Depois respirou fundo, dirigindo-se até a porta.
"Trarei algumas roupas para ele." Ela disse ao sair. "E roupas de cama também."
Elrond assentiu com a cabeça. Contudo, assim que a enfermeira fechou a porta, estagnou-se também, apoiando uma mão na maca diante dele e olhando ainda incrédulo para a pessoa que repousava nela. Por Ilúvatar, era mesmo verdade. Ele pensou, tentando desacelerar o enlouquecido ritmo que seu coração abraçara, tentando não pensar em todos os problemas que aquele conflito com certeza ocasionaria.
Sim. Aquele era Legolas e ele estava vivo, estava ferido, mas estava vivo. Legolas estava de volta.
Ele suspirou enfim, pousando cuidadosamente a mão no peito do elfo para sentir melhor a gravidade do que via. A resposta não foi das melhores e seus conhecimentos e instintos de curador aconselham-no mais do que rapidamente. Ainda não era momento para suspiros de alívio ou para a analise do que se passara. Ele tinha que continuar a agir, agir incessantemente, incansavelmente, até que tudo se resolvesse de vez, ou pelo menos se resolvesse por um tempo, como as coisas vinham se resolvendo ultimamente.
Então, qual seria o próximo passo? E por que era tão difícil tomá-lo? Ele ainda se perguntou, ao tentar refletir sobre que atitude tomar. Sabia que não poderia levá-lo para casa no estado em que estava, contudo seria um risco tremendo mantê-lo ali.
Eram dúvidas demais. Era fato que o lugar não lhes seria proteção, pois para tanto precisaria contar com uma colaboração excessiva dos que estavam a sua volta para que nada acontecesse e tal colaboração era difícil de se prever. Afinal Legolas era uma das vítimas do Beco e, se aquela notícia se espalhasse, seria difícil impedir que logo aparecessem mais pessoas além dele querendo saber o porquê, e provavelmente não teriam o interesse positivo que ele tinha quanto à questão.
Elrond encheu o peito de ar e de outras preocupações, enquanto buscava traçar um atalho a seguir. Nem sequer tinha certeza de qual medicamento usar. Uma de suas primeiras descobertas na Terra-média renovada fora que os medicamentos modernos dosedain não faziam nos elfos o mesmo papel e, quando o faziam, muitas vezes a intensidade de sua força era bastante diferente. Além disso, ainda havia o fato de Legolas sempre ter se mostrado sensível a medicamentos de qualquer natureza.
Isso era um problema. Uma questão para a qual ele precisa dos conselhos de um outro alguém.
"Elbereth." Pensou, puxando o celular e acessando novamente um número familiar, dessa vez do aparelho do primogênito. Pobre Elladan, meu valioso guerreiro. Ele pensou e sentiu um aperto no peito ao ouvir a voz sonolenta do filho.
"Ada?"
"Olá, criança. Como está Elrohir?"
"Bem."O rapaz respondeu intrigado, era tarde para que o pai o estivesse despertando apenas para saber notícias do gêmeo mais novo.
"Acha que pode deixá-lo com sua mãe e vir até o hospital? Estou precisando de sua ajuda."
"Claro. É um caso urgente? Tenho que me aprontar."
Elrond silenciou-se por alguns instantes.
"Sim,ion-nin. Mas não tão urgente que eu não possa mantê-lo estável até que você chegue. Não exceda a velocidade, está bem?" Ele pediu e sorriu ao ouvir a risada do filho. Sabia que aquele era um conselho inútil e que o bom Elladan, apesar de ser um dos mais prudentes motoristas que conhecia, aproveitaria o carro potente que tinha para chegar o quanto antes.
"Precisa que leve algo para o senhor?" Ele perguntou e o elfo pôde perceber que o rapaz já se levantara e estava se arrumando para vir.
"Não,ion-nin. Obrigado. Perdoe-me por tirá-lo de seu merecido descanso."
"Sem problemas. Sabe o quanto eu gosto quando trabalhamos juntos." Ele respondeu e um pequeno silêncio se fez até que sua voz ressurgisse. "Ada..."
"Sim?"
"Não é o senhor Alfonso, é?" Ele indagou e o pai sorriu com tristeza. De todos os pacientes que tinha, Enzo continuava a ser o único a quem Elladan tinha dificuldades em atender e ele não compreendia o porquê.
"Não, criança. O estado de Enzo continua estável. Preciso desligar agora. Aguardo por você em meu consultório."
"Certo." O rapaz disse antes de desligar. Elrond fechou o celular e, depois de guardá-lo, surpreendeu-se por encontrar um par de olhos avermelhados voltados para sua direção.
"Olá, menino." Ele disse, passando vagarosamente a palma diante das vistas inchadas do rapaz e apoiando a outra com cuidado na cabeça dele.
"Onde... onde estou, mestre?"
"No meu consultório. Eu trabalho nesse hospital. Vai ficar tudo bem." Garantiu o curador, ainda balançando suavemente a palma diante do rosto do arqueiro. "O que vê, ion-nin?"
"Manchas..." Legolas respondeu com dificuldade, pousando a mão sobre o peito e fazendo algumas caretas de dor. "Estou cego novamente..."
"Não, não está." Garantiu o lorde elfo em seu tom de paz, apoiando ele também a mão por sobre o peito de Legolas e concentrando sua energia de cura para oferecer-lhe algum conforto ao incômodo que sentia. "Seus olhos só estão irritados devido ao contato com o gás. Sua visão voltará. Eu lhe garanto."
Legolas soltou os lábios, mas a resposta que queria dar dissolveu-se na leve sensação de alívio que as mãos do curador agora lhe proporcionavam. Seu peito pesava e ardia, era como se o caminho que ao ar sempre fora conhecido estivesse tomado por alguma coisa que o impedia de respirar plenamente. No entanto, as mãos de Elrond agora aplacavam um pouco aquela sensação, o que fazia com que a energia que o curador estava-lhe concedendo, fosse deveras bem vinda.
"Mestre..."
"Shh... Descanse, criança. Procure não se agitar. Logo estará recuperado." Elrond voltou a garantir, depois de reabrir os olhos, saindo de seu breve momento de concentração, e dar uma rápida olhada por cima do biombo. Sabia que precisava fazer mais, precisava cuidar daqueles ferimentos, medicá-los devidamente, mas estava em um lugar bastante arriscado.
"A... porta... está trancada... mestre?" Legolas indagou receoso, ecoando as preocupações do curador.
"Não, não está. Está apenas fechada. Não se preocupe." O lorde elfo respondeu, descendo o zíper da jaqueta do arqueiro. "Vou tirar-lhe apenas as peças de cima, está bem? Logo Elladan estará aqui e veremos o que faremos primeiro."
"Tranque... tranque a porta. Tranque, por favor..." Ele ouviu o rapaz dizer e, por um instante, duvidou de suas conclusões, olhando para ele como se não o conhecesse."
"Trancá-la, menino?" Ele intrigou-se. "Trancá-la à chave?"
"Sim... Sim... por favor..." Legolas respondeu, apoiando mais uma vez a mão no peito. Depois de um instante de silêncio ele entendeu o sentimento de estranheza que despertara e tentou esclarecer. "Fiquei... muito tempo... em um lugar... um lugar..."
Ele pausou o suplício que parecia ser aquela sentença, mas Elrond pousou devagar a mão em sua cabeça, parecendo esperar ansioso pelo término daquela informação.
"Não... temo mais..." O arqueiro limitou-se a responder. "Não... temo... mais, senhor..."
"Não teme mais lugares trancados?" Elrond indagou incrédulo e o leve aceno de resposta que recebeu, aliado àquela sentença fragmentada que o rapaz deixara por terminar, atingiram-lhe como um golpe de ar frio, lançando-o em um mar de conclusões que ele gostaria de não ser obrigado a enfrentar naquele instante.
"Por favor... mestre... Tranque..."
"Está bem, criança." Ele disse, balançando um pouco a cabeça como que para desfazer-se dos pensamentos que o perseguiam. Se algo conseguira ser ainda mais forte do que a terrível claustrofobia que Legolas enfrentara por toda sua existência, ele não sabia se aquele era o momento apropriado para discutirem o que teria sido. "Não se mexa muito." Aconselhou, por fim e voltou-se então para efetivar o pedido do rapaz. Entretanto, quando o fez, percebeu que já estavam batendo fortemente em sua porta.
"Herodotus!" A voz do diretor do hospital reverberou urgente do outro lado.
"Elbereth..." Legolas clamou, movendo os braços e tentando se levantar. Elrond apoiou uma mão em seu peito.
"Não, criança. Está tudo bem. É o diretor do Hospital."
"Mestre... Eu quero ir embora..."
"Está tudo bem, confie em mim."
"Não..." Ele forçou-se a dizer, sacudindo a cabeça como se aquele novo empecilho fosse a gota d'água e ele não pudesse agüentar mais. Sua voz quase desaparecida era o som da angústia e do desespero. "Elbereth, mestre... Eu não quero... Eu não quero mais ser... ser o problema... como sempre... sempre fui... por favor... mestre... Livre-se... de mim..."
"Criança..." Elrond sentiu como se uma enorme morsa apertasse seu peito inteiro.
"Deixe-me... ir... mestre..." Legolas reforçou mais angustiado, tentando com suas últimas forças se reerguer. "Não devia ter saído daquele... lugar... horrível... eu devia ter... devia ter..." Ele não conseguiu terminar, travando os olhos tão forçadamente que nem mesmo as lágrimas que estavam neles conseguiram espaço para escapar. Elrond desacreditou uma vez mais, por fim respirou fundo, apoiando agora as duas mãos sobre o peito do jovem elfo e obrigando-o a deitar-se.
"Por todos os Valar, criança minha. Filho a quem amo e por quem procuro há tanto tempo." Ele disse em um sussurro, o rosto bem próximo ao ouvido do jovem elfo. "Nunca mais repita essas barbaridades."
O tom do curador aquietou, ainda que forçosamente, o agoniado arqueiro. Legolas reabriu os olhos para enfim as lágrimas que a angústia lhe trouxera conseguissem espaço para escaparem e escorrerem por sua face ferida. Elrond apertou os lábios, apreensivo, mas apenas descansou um pouco a força que fazia com as mãos, deixando-as alguns instantes sobre o peito do rapaz.
"Ainda confia em mim?"
"Sempre... Minha vida... Meu espírito..." Legolas respondeu e Elrond sorriu comovido.
"Então continue a confiar. Sempre." Ele repetiu ao ver o rapaz conter como podia os tremores que aquela voz insistente, ainda a chamar pelo curador do lado de fora do quarto, trazia a ele. "É apenas alguém para quem eu trabalho. Eu o conheço bem. Não faça nada, ion-nin, por favor."
O arqueiro estremeceu mais uma vez ao sentir as boas mãos do curador se afastarem agora. Ainda pensou em levantar-se, chegou a erguer-se em um dos cotovelos, mas por fim acabou por deixar o corpo cair sobre a maca e fechar novamente os olhos doloridos. Apesar do temor presente, não estava em condições de mais nada a não ser confiar em seu mestre e pedir aos Valarque lhes oferecessem a proteção que precisavam naquele instante tão difícil e arriscado.
Elrond afastou-se e abriu rapidamente a porta. Escorregou então por aquela passagem, voltando a fechá-la atrás dele. Diante dela, aguardava-o o cirurgião-chefe do hospital.
"Herodotus. Por tudo o que é mais sagrado, o que se passa?"
Elrond olhou-o nos olhos, pensando em qual resposta poderia se encaixar a tão inusitada situação. Ele tinha que pensar rápido, por mais que sua mente se sentisse amarrada à preocupação que estava dentro daquele consultório.
"Disseram que você está com uma vítima do atentado aqui no consultório. Você enlouqueceu, homem? Ninguém lhe explicou que essas pessoas são uma questão de estado, fazem parte de uma estatística, devem por isso ficar todas em um mesmo lugar, monitoradas e acompanhadas tal qual estivessem em uma quarentena?"
"Tylor." Elrond ergueu uma mão em sinal de paz. "Preciso de sua ajuda nessa questão." Ele disse, mas o alto homem, cujo corpo robusto apertava-se no jaleco branco, sacudiu a cabeça com exagerada veemência. Tylor não era o tipo que tinha a paciência como uma das características de sua personalidade.
"Não posso manter uma vítima do gás aqui, Herodotus." Ele disse, olhando o médico por trás dos grandes óculos. "Está querendo me prejudicar? O hospital, a seu ver, já não tem problemas suficientes com o governo?"
"Escute, Tylor."
"Não há o que escutar. O que, diabos, quer com ele?"
"É meu sobrinho..."
"Seu o quê?" O diretor indagou instantaneamente e, após ouvir a repetição da resposta anterior ficou boquiaberto por alguns instantes. "Tem um sobrinho marginal, Herodotus? Um sobrinho no Beco?"
"Ele não é um marginal, Tylor..." Elrond tentou explicar, mas, embora seu desejo fosse provar o quão erradas estavam aquelas conclusões, ele não sabia o que dizer, nem queria pensar no que Legolas fazia no Beco, ali tão perto deles, tão perto de ser encontrado. Ele não queria pensar naquilo agora.
"Mas estava no Beco fazendo o quê? Comprava drogas então? É um viciado?"
Elrond fechou os olhos, procurando preencher-se da paciência que precisava.
"Não, Tylor. É meu sobrinho apenas." Ele repetiu, organizando como podia suas idéias. "Nós não sabíamos onde ele estava e..."
"Eu entendo..." O diretor ergueu-lhe uma mão, parecendo incomodado por saber daqueles detalhes. Não gostava de tomar conhecimento da vida alheia, achava que isso era estabelecer um vínculo desnecessário e prejudicial tanto com pacientes quanto com empregados e, por mais que admirasse aquele talentoso médico e seu filho, não se deixaria levar por isso a ponto de se arriscar lhes fazendo favores desse tipo. "O plantonista disso que você falou com ele em uma língua estranha. São estrangeiros? Me disseram que eram de Rórdán. Sabe que não empregamos estrangeiros aqui. Se tivermos problemas com a imigração eu..."
"Não sou estrangeiro." O curador respondeu impaciente, olhando novamente para a porta que fechara atrás de si.
"Certo. Sua vida não me diz respeito, Herodotus. Se você diz que não é, eu acredito. Mesmo porque fala bem demais nosso idioma é... Bem... Além disso faz um bom trabalho aqui. Dobramos o número de internações e altas com a sua vinda e a de Enosh para cá. Sabe que estou satisfeito com seu trabalho." Ele desatou um discurso típico seu e que sempre fazia com que Elrohir, quando presente no consultório, rolasse os olhos. O gêmeo mais novo costumava divertir-se imitando aquele discurso em casa apenas para provocar Elladan.
"Agradeço, Tylor." Elrond limitou-se a adicionar a resposta que também lhe era característica nessas situações.
"Quanto ao rapaz... Bem, eu compreendo também o problema... Sei como é esse tipo de coisa. Toda família tem suas ovelhas negras... Eu mesmo também tenho um irmão na cadeia e... Bem... Só que deve entender que não posso mantê-lo aqui e..."
"Não será nosso paciente. Ficará no consultório."
"Herodotus..."
"Precisa de apenas alguns dias, Tylor. Menos do que uma semana, garanto-lhe."
"Francamente, homem! Uma semana? Posso não estar exercendo a medicina plenamente, mas ainda distingo um caso grave de envenenamento quando vejo um. O plantonista disse que rapaz mal pode respirar! Já deveríamos..." Ele interrompeu sua fala então, percebendo que estava se deixando levar pela situação. "Olhe, Herodotus. No H.C. ele..."
"Uma semana, Tylor. Menos até, é só o que peço a você. Disse-me mais de uma vez que me devia alguns favores. Lamento ter que cobrá-los dessa forma." Elrond foi direto então. Há muito tempo ele e Elladan trabalhavam em troca de um salário precário e variável naquele lugar, onde as circunstâncias para o desempenho de um bom procedimento médico encontravam-se à beira do impossível.
Tylor endureceu o rosto.
"Devo-lhe é fato. Mas jamais lhe pedi que infringisse a lei. Não é justo que me peça agora."
Elrond engoliu mais aquela insinuação. Se as inúmeras irregularidades daquele hospital não pudessem ser enquadradas como infrações a lei, ele não sabia mais como qualificá-las.
"Não lhe peço que infrinja lei alguma, meu amigo." Respondeu mesmo assim. "Apenas que me permita ficar com o rapaz aqui até que se recupere. Se algo der errado prometo assumir inteira responsabilidade. Asseguro-lhe que será o único pedido que ouvirá de mim e de meu filho."
O diretor torceu os lábios, parecendo bastante insatisfeito com a situação. Por fim soltou o ar do peito e aquiesceu.
"Certo, amigo... Mas para todos os efeitos ele não está aqui. Você pode usar apenas o seu consultório. Posso ceder-lhe o material que precisa, mas terá sempre que pegá-lo. Nenhum de nossos atendentes pode ajudá-lo com nada, nem medicamento, nem roupas de cama..."
E ele foi enumerando, acrescentando palavra por palavra suas exigências enquanto Elrond apenas movia a cabeça em uma concordância forçada, tentando fazer com que aquela sorte tremenda que tivera fosse o bálsamo que o manteria em pé, que o abasteceria da paz e boa vontade que precisava para o impedir de atirar aquele homem ignorante e presunçoso por aquela pequena janela do corredor. Sim. Havia muito que fazer, mas pelo menos eles tinham um lugar para recomeçar e estavam todos juntos novamente.
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"Venha por aqui, Las. É só passarmos aquelas pequenas moitas e já estaremos lá."
"Até que não caminhamos muito, não é mesmo, Ro?" Legolas indagou, olhando para trás para conferir o caminho que o amigo lhe ensinara.
"Não, principalmente por essa trilha que fizemos. Podemos ficar até quase o anoitecer que ainda chegaremos em tempo para o jantar."
Legolas aquiesceu pensativo, mas a resposta fugiu-lhe completamente com o último obstáculo transposto. Todos os motivos que Elrohir usara para convencê-lo a acompanhá-lo em um dia quente como o que estavam vivendo, mostraram-se mais do que verdadeiros. A paisagem a compor aquele cenário era indescritível.
"E então? Valeu ou não valeu enfrentar o calor?" A indagação provocativa do gêmeo despertou-lhe de seu êxtase, mas mesmo assim Legolas ainda precisou que o amigo apoiasse a mão em seu ombro e lhe desse uma leve sacudida para finalmente despertar de seu transe.
"Ei!" Provocou um pouco mais o elfo moreno. "Não viemos aqui para olhar a paisagem." E não disse mais nada, não parecendo também disposto a esperar por qualquer resposta do arqueiro. Ele deslocou-se habilmente por entre os arbustos restantes e a última coisa que Legolas ouviu foi o som do amigo mergulhando naquela água cristalina.
"Impaciente." A voz de Elladan soou e Legolas voltou-se para encontrar o sorriso do gêmeo mais velho. "Ainda bem que as águas da cascata estão em dias de paz, pois ele entraria do mesmo modo se assim não o fosse."
"Nem sempre estão assim?" Quis saber o arqueiro.
"Não. Esse lugar é tão traiçoeiro quanto um cavalo indomado. Acho que é exatamente por isso que Elrohir gosta tanto de vir até aqui." Confidenciou o gêmeo, tirando túnica e botas e aproximando-se do rio. "Mas acho que hoje não vamos ter nenhuma surpresa, em dia claro e azul."
Legolas ergueu os olhos, visualizando com um suspiro o dia acima. Era uma típica tarde de verão, como diziam os elfos de Valfenda e isso não correspondia exatamente à convicção que Elladan pregava naquele momento.
"Chove sempre no final da tarde." Lembrou o arqueiro, observando o amigo entrar cauteloso na água e submergir então para molhar os cabelos.
"Vamos embora antes da chuva." Elladan assegurou. "Venha, Las. Estamos na parte mais mansa."
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A Cascata do Norte era um lugar que despertava as mais diversas emoções em qualquer um que a visitasse. O brilho intenso de suas águas, a temperatura sempre amena e a paisagem que a adornava faziam dela um lugar irresistível, um retrato idealizado e concretizado pela bondosa Yavanna, cujo intuito parecia ser proporcionar a todos uma sensação de paz há muito esquecida. No entanto, sua posição geográfica fazia dela uma armadilha perfeita quando o clima resolvia expor suas excentricidades. Se, um pouco além da foz, uma chuva inesperada e desproporcional se desprendesse do céu, ela fazia com que o volume do rio subisse de forma rápida e assustadora, pegando, muitas vezes, criaturas de todos os tipos completamente desprevenidas.
Graças ao bom Ilúvatar isso não era fato freqüente. Tratava-se de um fenômeno próprio de algumas épocas do ano, ocorrendo na maioria das vezes...
em tardes quentes de verão...
"Segure minha mão, Dan!" Gritava Elrohir, esticando-se ao máximo para alcançar o irmão que se segurava agora em uma pedra saliente no meio da enxurrada. Elladan estendeu o braço, tentando manter o rosto fora da água até que o gêmeo conseguisse alcançá-lo. Nadara o quanto podia para fugir da correnteza e agora nem sequer tinha certeza se queria de fato soltar-se e enfrentar a força das águas novamente. Elrohir enfim segurou fortemente sua mão e puxou-o para a margem segura.
"Pelos Valar, Elrohir!" Queixou-se o gêmeo entre acessos de tosse. "Você nunca aprende. Eu te alertei que o céu estava estranhamente escuro no horizonte. Por que você nunca me ouve?"
Elladan ainda tossiu mais algumas vezes, não esperando, na verdade, receber satisfações ou pedidos de desculpa do irmão. Contudo, a ausência de qualquer resposta, nem mesmo os pouco educados protestos do caçula, intrigou-o. Quando o gêmeo mais velho buscou saber o porquê encontrou o irmão já em pé novamente, seus olhos escurecidos percorriam agora a enxurrada que seguia o caminho sem perder sua força.
"O que houve?" Indagou.
Elrohir apertou ainda mais os olhos.
"Por Elbereth, Dan... Cadê o Las?"
Elladan sobressaltou-se, reerguendo-se de imediato e fazendo os olhos percorrerem o mesmo trajeto feito pelo irmão. Eles empalideceram e se entreolharam algumas vezes até que breves visões da cabeleira loura do amigo surgiam no caminho do rio.
"Ilúvatar!" Clamaram em uníssono os irmãos, correndo rio abaixo.
"Por que ele não tenta nadar para a borda?" Elrohir indagou aflito, atirando-se novamente naquelas águas turbulentas sem aguardar a opinião do irmão. Elladan ainda correu mais um pouco pela margem, procurando algum galho ou outro objeto que pudesse lhe ser de ajuda, mas não sendo feliz. A enxurrada parecia ter carregado o que podia e não podia e isso fazia com que suas águas estivessem ainda mais perigosas, repletas de galhos soltos e outros objetos contundentes. No meio do rio Elrohir já conseguira somar, a seus méritos de guerreiro, mais uma façanha, alcançando o príncipe e envolvendo-o com o braço direito. No entanto o caminho de volta parecia ser impossível e o gêmeo, tentando não se deixar vencer pelo cansaço, agarrou-se a um tronco que boiava, enquanto pensava no que fazer.
Na margem do rio Elladan ainda o acompanhava correndo, seus instintos de curador gritavam-lhe alarmes de todos os tipos. Legolas estava inconsciente e Elrohir parecia estar usando as últimas forças para manter seguro a ambos. Ele acelerou o passo então, pulando obstáculos, equilibrando-se como podia em uma mata cada vez mais densa. Tinha uma idéia arriscada e precisava tentar executá-la o quanto antes. Apressou-se ainda um pouco mais e, depois da virada do rio encontrou quem procurava. Um salgueiro colossal estendia seus galhos gentilmente por sobre as águas, seu sinuoso tronco encurvava-se sobre o rio como se a árvore buscasse mirar-se em um espelho de cristal. Seus galhos eram tão densos que roubavam o brilho daquela região da mata.
"Com sua licença, minha poderosa amiga." Elladan pediu, agarrando-se ao ramo mais baixo e logo alcançando os galhos acima. Uma vez considerando-se em uma posição estratégica conveniente o jovem curador esticou-se para certificar-se se havia de fato sido rápido o bastante. A resposta ofereceu-lhe alguma esperança. Descendo o rio ainda vinham seu irmão e o amigo da floresta.
"El!" Ele gritou, sentindo o coração apertado ao perceber que o grito de guerra ainda fazia o mesmo efeito. Elrohir ergueu mais a cabeça e logo seus olhares se encontraram e nenhuma resposta ou explicação mais precisa foi necessária.
Elladan ainda esperou pelo momento certo, forçando as pernas entrelaçadas no galho, para enfim soltar o corpo, que fez um giro de cento e oitenta graus, deixando-o de ponta cabeça no momento certo. Foram apenas alguns segundos até que sua mão alcançasse a do irmão que, em um movimento arriscado, deixara a tora que o guiava e protegia seguir seu rumo correnteza abaixo, para deslocar-se um pouco mais para a direita, distância suficiente para o resgate.
"Pegue o Las." Elrohir pediu. "Eu nado até a margem."
"Tem certeza?"
"Sim. Não vai conseguir tirar nós dois."
Elladan assentiu, envolvendo a cintura do amigo louro e soltando, relutante, a mão fria do gêmeo mais novo. Foram muitas as batalhas que travaram e, maiores ainda, os pedidos difíceis de aceitar que já ouvira do irmão. Entretanto, desde muito jovem aprendera o que para tantos parecia ser tão difícil. Que Elrohir jamais se arriscava se não tivesse certeza absoluta de sua possibilidade de vitória.
E foi fato. Quando enfim conseguiu superar suas próprias dificuldades e descer do salgueiro com o corpo inconsciente do amigo louro, as mãos do irmão mais novo já o aguardavam.
"Deite-o aqui, Elrohir."
"Ele não se mexe." Observou assustado o gêmeo.
Elladan não respondeu, colocando o corpo do amigo esticado de costas, já havia notado a gravidade do caso ao resgatá-lo das mãos do irmão há pouco: palidez, insuficiência respiratória, ausência de qualquer tremor. Por Elbereth, o caso era grave demais.
Elrohir acompanhava atentamente, lidando com um dos momentos que mais abominava, aquele no qual sua presença se tornava completamente desnecessária. Ele uniu nervoso as mãos ao ver o irmão erguer as pálpebras do amigo e franzir os olhos, depois encostar o ouvido perto dos lábios dele para tentar ouvir-lhe a respiração. Elladan empalidecia a cada instante, deixando clara ao irmão a gravidade do ocorrido.
"Precisa me ajudar." O gêmeo curador disse então, esticando rapidamente o queixo para indicar a direção no tórax do arqueiro que o irmão precisava atender. Elrohir não hesitou, tomando para si aquele papel que o desagradava intensamente. Ele prendeu a respiração ao ver Elladan levantar o pescoço de Legolas com uma das mãos, inclinando-lhe a cabeça para trás. Com a mesma mão, o curador puxou o queixo do elfo para cima, verificou se havia qualquer outra obstrução para entrada e saída de ar que não a própria língua do príncipe. "Devemos fazer quinze compressões no tórax para cada duas insuflações pulmonares, Elrohir." Ele esclareceu em tom rápido e urgente. "O ritmo tem que ser de quinze compressões por tom. Você conta."
"Certo." O gêmeo concordou com voz trêmula, colocando suas mãos sobrepostas por sobre o peito de Legolas e pressionando-o ao ritmo da contagem em voz alta: "E um, e dois, e três, e quatro, e cinco, e seis, e sete, e oito, e nove, e dez, e onze, e doze, e treze, e quatorze, e quinze. Agora!"
Nesse instante Elladan já apoiava seus lábios sobre os do amigo, pressionando-lhe as narinas com o polegar e o indicador e soprando-lhe o ar que lhe faltava.
"Vamos lá, Las." Elrohir ouviu o gêmeo curador dizer baixinho, quase ao ouvido do arqueiro, em um dos intervalos do atendimento. "Volte para nós, vamos."
"Vamos, elfinho verde. Acorde." Ele reforçou em voz alta, após o término de mais uma de suas partes no processo.
Foram momentos aterrorizantes que pareceram durar uma eternidade até que Legolas tossiu e expeliu uma quantidade razoável de água. Elladan fez sinal para o irmão, virando rapidamente o arqueiro de lado para auxiliá-lo. Legolas ainda tossiu mais algumas vezes.
"Shh, tudo bem, tudo bem, mellon-nin." A voz de Elladan pareceu confortá-lo, mas ele não reabriu os olhos, passando agora a tremer muito. O jovem curador nem sequer precisou pedir ao irmão, que já correra assim que fora dispensado de sua tarefa e voltava como um raio com as roupas que haviam deixado na margem mais abaixo.
"As capas apenas." Elladan pediu e Elrohir atendeu prontamente, ajudando-o a envolver o amigo louro nas três capas que trouxeram e livrá-lo do restante das roupas molhadas que usava. O curador ergueu-o enfim, tomando-o nos braços para oferecer-lhe um pouco mais de calor e só então Legolas ergueu as pálpebras com dificuldades, encontrando o olhar ainda preocupado do gêmeo mais novo.
"Elfinho ensopado." Ele sorriu-lhe, não tendo coragem nem de tocá-lo mais. Haviam passado por um momento terrível e ele compreendia mais do que ninguém a extensão que aquela sorte tinha. "Quer me matar do coração, quer?"
Legolas ergueu-lhe os cantos dos lábios, ainda um tanto trêmulo e parecendo bastante confuso. Ele voltou então a fechar os olhos e Elrohir pressionou os lábios preocupado.
"Vai ficar tudo bem." Garantiu o irmão com um suspiro, intensificando um pouco o abraço que fornecia ao elfo louro. "Ele vai sentir uma série de desconfortos, mas logo vai se recuperar."
Elrohir assentiu com a cabeça, ainda olhando o amigo com carinho. Sua mente porém começava a ser invadida por outras preocupações. Preocupações que teriam que esperar, no entanto, por suas próprias soluções, ou complicações.
&&&
"Foram até a Cascata do Norte nessa época do ano." Elrond repetiu, ainda observando bastante insatisfeito a figura do príncipe, agora sentado em sua cama, com as pernas encolhidas e os joelhos envolvidos por ambos os braços.
Elrohir, que ocupava a poltrona do outro lado do cômodo, nem mesmo se deu ao trabalho de repetir a informação. Ele sabia muito bem como se davam os processos de avaliação e condenação do pai e agora tudo o que lhe restava era deixar-se ficar ali, a espera das palavras finais do curador, palavras estas que não o agradariam com certeza.
"O dia estava claro." Elladan, agora sentado aos pés da cama do arqueiro, procurou amenizar a situação. "Íamos sair antes do começo da tarde."
"Iam?" Elrond indagou.
Elrohir bufou baixinho. Ele odiava quando o pai fazia aquilo, usava as próprias palavras deles como provas de condenação.
"Íamos." Elladan repetiu com paciência. "Mas o dia estava mesmo muito calmo e..."
"E não viram as nuvens se formarem." Deduziu o curador em um tom que não buscava de fato parecer convincente. "Mesmo com toda a geografia do lugar lhes sendo favorável para tal."
Elladan não respondeu, porém não desviou seus olhos dos do pai. No rosto sereno, mas cansado do filho, Elrond enfim leu o pedido que o rapaz lhe fazia. Todos ali sabiam muito bem a quem atribuir a culpa daquela situação, inclusive o próprio culpado sabia, por isso o que Elladan lhe pedia fervorosamente era por uma trégua, uma trégua necessária em um momento que parecia ter sido mais difícil do que lhe narravam os filhos.
Elrond leu relutante aquela mensagem uma segunda vez, olhando para o primogênito com carinho e preocupação. Enfim suspirou, virando-se novamente para o príncipe.
"Vou pedir que lhe tragam o jantar aqui no quarto, está bem, Legolas?" Ele indagou. "Quer que os gêmeos lhe façam companhia?"
Legolas ergueu os olhos que continuavam bastante tristes.
"Agradeço." Ele respondeu em um tom quase inaudível. "Eles podem jantar com o senhor, Lorde Elrond. Eu estou cansado... Não desejo comer agora."
Elrond franziu o cenho. Desde que se reencontraram, aquele era o primeiro verão que Legolas conseguira passar em Imladris. Os gêmeos haviam pedido diretamente a Thranduil que substituísse o amigo por outro capitão em sua patrulha e com muito custo e promessas haviam conseguido a autorização, o que eles mesmos consideraram uma incrível façanha. Talvez por mais esse motivo, o acidente na cascata estivesse pesando tanto nos ombros de todos, principalmente nos de Elrohir.
O gêmeo mais novo pareceu captar também a mesma sensação desagradável que o pai percebera nas palavras do arqueiro. Ele ergueu-se então e aproximou-se da cama.
"Está zangado conosco, Las?" Indagou preocupado.
"Não. Claro que não." Legolas apressou-se em responder, mas a negação não agradou ao gêmeo, que se aproximou um pouco mais, sentando-se também na cama do amigo.
"Se está zangado eu vou entender." Ele disse. "Eu estaria muito zangado se fosse você. Eu sou um idiota mesmo, Legolas. Já te disse isso. Elladan me avisou do horizonte escurecido e eu não me importei só porque queria ficar mais um pouco."
"Não foi culpa sua. Foi um acidente." Legolas olhou-o preocupado.
"Acidente nenhum. As águas desceram velozes como uma manada e eu mais do que ninguém conhecia seu poder. São impossíveis. Devia ter dado ouvidos aos conselhos de meu irmão."
"Não são impossíveis. Só eu não consegui sair do rio." Legolas comentou cabisbaixo.
"Não conseguiu porque não deve estar acostumado a uma correnteza tão forte." Elladan comentou. "Mas Elrohir tem razão sobre a força daquelas águas. Nós mesmos quase não conseguimos. Ele teve que me ajudar a chegar à margem."
Legolas não respondeu, mas seu ar entristeceu-se ainda mais. Elrond, que observava de longe a situação sentia que algo nela ainda estava para ser esclarecido.
"As correntezas são tal qual qualquer problema, por mais que estejamos acostumados ou nos julguemos preparados, sempre podemos ser surpreendidos." Disse o curador, sorrindo paciente quando os olhos azuis do príncipe se voltaram para ele. Por Elbereth, por que ele gostava tanto daquele rapaz? "O importante é que aprendamos com essas surpresas." Ele adicionou. "Acho que meus filhos aprenderam uma boa lição hoje. E você, meu bom amigo?"
Legolas voltou a baixar a cabeça, depois olhou rapidamente para os dois irmãos.
"Eu também aprendi..." Disse receoso.
"Talvez queira compartilhá-la conosco." Elrond incentivou-o.
Houve um pequeno momento de silêncio. Até que o príncipe soltou um suspiro muito triste, virando a cabeça para apoiar a face direita nos joelhos dobrados, deixando assim seu rosto fora do alcance de visão do curador.
"Eu não revelei uma verdade que era importante... por isso coloquei meus amigos em uma situação difícil."
Os gêmeos se entreolharam intrigados.
"Que verdade, Las?" Quis saber o mais velho.
Legolas não os olhou mais e nenhum dos dois teve coragem de romper o silêncio do amigo. Elrond então se aproximou, sentando-se ao lado do rapaz e sorrindo ao vê-lo estremecer.
"Está tudo bem se não quiser nos contar." Ele disse, envolvendo os ombros do jovem elfo com seu braço direito. Legolas voltou a estremecer com a presença assim próxima daquele elfo tão poderoso, mas o tremor foi cedendo lugar rapidamente a uma sensação de paz que ele não conseguia descrever. Todos diziam que Elrond tinha mãos abençoadas por um dom de cura que nenhum outro elfo em toda a Terra-média teria, mas Legolas começava a achar que aquilo era uma meia-verdade, ele achava que o Lorde de Imladris não tinha apenas o poder de cura nas mãos. O lorde elfo em si era uma ferramenta poderosa de transformação.
"Seus filhos não tiveram culpa, senhor." Legolas disse por fim, quando Elrond o puxou suavemente, fazendo-o desfazer-se de sua posição defensiva, soltando os joelhos e relaxando um pouco no leito do quarto que ganhara para si.
"Não estou em busca de culpados, Legolas." Elrond respondeu em tom de paz. "Apenas procuro por lições, pois uma lição bem aprendida, mesmo em momentos difíceis, vale mais do que muitos anos de luta ou de paz."
O arqueiro balançou a cabeça em sinal de entendimento e concordância.
"Eu não sei nadar, Lorde Elrond." Disse enfim, com a naturalidade de quem comenta um fato tão banal quanto a posição das estrelas do céu.
Custou alguns segundos até a primeira reação surgir...
"O quê?" Os gêmeos indagaram em uma mesma voz e Legolas sobressaltou-se, mas depois lhes ofereceu um sorriso triste.
"Não sei nadar. Nunca aprendi."
Os dois irmãos se entreolharam rapidamente, em seus semblantes cansados a mesma dúvida os tornava totalmente indistinguíveis.
"Mas nos disse que acompanhava os elfos jangadeiros." Elrohir lembrou inconformado.
"Sim. Mas eles não sabiam disso."
"Não sabiam que você não sabia nadar?"
"Não."
"Mas como seu pai permitiu? Encaixou-o em um grupo que descia o rio naquelas terríveis correntezas sem que você soubesse nadar?"
"Acho que ele também não sabia." Legolas deu de ombros. "É tão natural que todos o saibam... presumo que para ele alguém haveria de ter me ensinado."
Elladan balançava a cabeça inconformado.
"E por que nunca ninguém lhe ensinou?" Foi sua indagação.
"Por que nunca pedi. Tinha vergonha de admitir que não sabia. A maioria dos elfos aprende ainda criança." Ele sorriu então. "Mas sou bom condutor. Meu pai só permitiu que eu guiasse a jangada rio abaixo depois que o mestre jangadeiro comentou que eu era um dos melhores remadores que ele tinha. Mesmo assim eram tão poucas as vezes que trocávamos suprimentos... Não podia perder a chance que tinha de sair da caverna e olhar as outras aldeias, mesmo que fosse de longe."
Os gêmeos voltaram a se olhar inconformados e Legolas começou a se sentir novamente envergonhado pela cena que fizera. Ele baixou mais uma vez a cabeça, mas a abraço leve que Elrond lhe oferecia reforçou-se um pouco mais.
"Eu vou lhe dar dois dias para se recuperar do acidente, meu amigo." Disse então o curador, sorrindo novamente ao receber o olhar intrigado do príncipe. "Depois você poderia ajudar meus filhos a cumprir a tarefa que me devem?"
"Devem-lhe uma tarefa, senhor?" Legolas não compreendeu.
"Sim. Sempre ficam a me dever uma tarefa quando não cumprem nossas regras básicas." Ele disse, olhando agora para os gêmeos. Elladan sorriu brandamente e Elrohir torceu os lábios, incomodado, e desviou o olhar para a sacada entreaberta, o que intensificou o sorriso nos lábios do curador.
"E qual será nossa tarefa, ada?" Elladan indagou, parecendo apenas ele perceber que o tom do pai perdera completamente o descontentamento anterior. Alguma idéia estava na mente do Lorde de Imladris e parecia estar-lhe agradando.
"Temos vários lagos aqui nas redondezas. Lagos brandos em lugares idílicos e seguros. Quando estiver recuperado Elladan e Elrohir o levarão a um deles e o ajudarão a aprender o que lhe falta. Está de acordo?"
Legolas franziu as sobrancelhas, mas depois a amargura de seu rosto desapareceu por completo, restando-lhe apenas uma feição serena que ao curador agradou imensamente.
"Vão ensinar-me a nadar? Os El?" Ele formalizou sua conclusão, e um sorriso diferente adornou-lhe os lábios ao receber o aceno de confirmação de Elladan, um sorriso que fez com que os gêmeos se lembrassem mais uma vez do elfinho dourado da caverna de muitos anos atrás e que tirou do contrariado Elrohir os últimos resquícios de amargura que a situação lhe deixara.
"Que nada!" Brincou por fim o gêmeo. "Eu não vou te ensinar coisa alguma, vou te atirar dentro do rio e você que dê um jeito de aprender."
"Não vai fazer isso, não." Elladan sorriu largamente, depois provocou. "Se fizer, vou deixar a respiração artificial a seu encargo dessa vez."
Legolas enrubesceu intensamente então, mas seu embaraço durou apenas alguns segundos, pois logo já acompanhava o riso fácil que a família de Imladris compartilhava agora, liberta de todas as recordações difíceis que tivera e arquitetando planos para um futuro próximo e melhor.
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Celebrian colocou os ingredientes na máquina, batendo a colher algumas vezes para que o resto do pó se desprendesse dela. Não era muito fã de máquinas de café, achava que o aroma que se emanava delas no momento de preparo não era o mesmo de quando havia o bule e o coador convencionais. Ela voltou-se então para o armário e apanhou duas xícaras. Pelo menos naquela manhã tinha alguma companhia que não apenas os animais da casa.
"Nana, cadê o Dan?" Uma pergunta soou da porta da cozinha antes mesmo do rosto de Elrohir surgir. "Ele disse que não ia trabalhar hoje." Apareceu então o insatisfeito gêmeo, ainda com a cabeça envolvida pelos curativos.
"Seu pai chamou por ele." Celebrian esclareceu, colocando as xícaras e a jarra de café por sobre a pequena mesa. Não costumavam fazer refeições nela, mas estavam apenas os dois, não valia a pena irem até a sala de jantar.
"Quando?" O gêmeo indagou insatisfeito, jogando-se na cadeira, enquanto brincava com um pedaço de gaze que estava se soltando do curativo.
"Ligou do hospital há uns 30 minutos." Ela respondeu, servindo o café do filho. "Acho que Elladan nem sequer chegou lá ainda. Seria bem melhor se vocês todos trabalhassem em um local mais perto daqui."
"Seria bem melhor pegarmos um barco e sumirmos daqui de vez." Resmungou o rapaz, engolindo a bebida e fazendo caretas para o líquido quente demais.
Celebrian sorriu paciente.
"Pare de mexer nos curativos, ion-nin." Pediu então, fingindo não perceber o ar incomodado que transparecia no rosto do filho naquela manhã. "Vai acabar desprendendo as faixas de vez. Elladan não aprovaria. Lembre-se do que ele disse. Dois dias pelo menos."
"Ele disse que ficaria aqui esses dois dias também." Respondeu o rapaz, ainda dando leves puxões no esparadrapo. "Mas ultimamente ninguém consegue fazer o que se propõe. Ada não disse também que estaria em casa nesse fim de semana? Cadê ele? Por que chamou pelo Dan? Foi por causa do senhor Alfonso?"
"Eu não sei, querido." A boa elfa respondeu, olhando agora pela pequena janela que dava para o jardim, enquanto soprava displicentemente o café e o bebia em pequenos goles. Estava feliz por agora haver espaço para flores e árvores em sua vida novamente. Depois de alguns instantes de silêncio voltou a olhar para o filho, sentado diante dela. O olhar insatisfeito e o semblante ainda cansado do rapaz a preocupou.
"Não se zangue com seu irmão, querido. Sabe que seu pai não chamaria por ele se não houvesse necessidade disso. Ele sabe o quanto é importante que vocês fiquem juntos quando um não está bem."
"Eu estou bem." Desconversou o rapaz, ainda dando leves puxões no esparadrapo do curativo. "Por mim o Dan pode fazer o que quiser. Eu não preciso de babá."
Celebrian sorriu paciente.
"Não parece ter dormido muito bem." Ela comentou e Elrohir começou a mover os dedos no esparadrapo com mais força e rapidez. "Vai desfazer o curativo."
"Dane-se." O rapaz bufou. "Vou tirar essa merda."
"Não vai não. A não ser que queira ver seu irmão zangado. Sabe que Elladan quase nunca se zanga, mas ele é terrível quando está com o humor alterado."
A lembrança pareceu fazer o efeito que a mãe desejava, pois Elrohir voltou a apoiar ambas as mãos na mesa com um som de insatisfação, parecendo desistir do que fazia.
"Diga-me o que o está incomodando, ion-nin."
"Nada está me incomodando."
"Dormiu tão pouco para quem estava fazendo um sono mortal. Por que despertou? Teve algum sonho ruim?"
"Não." A voz do gêmeo se aplacou então e seu olhar voltou-se para a paisagem da janela. "Tive um sonho estranho, um pouco ruim, um pouco bom..."
Celebrian deixou a xícara então, unido as palmas e apoiando os cotovelos sobre a mesa.
"Não quer me contar?"
O gêmeo balançou a cabeça, mas depois suspirou.
"Sonhei com um dia no passado... Estávamos na Cascata do Norte."
"Quem?"
"Eu, o Dan e o Las."
A elfa apertou os lábios, percebendo então alguns porquês para a cena que via.
"Estavam nadando?"
"É..." O gêmeo respondeu procurando parecer displicente, seus olhos ainda voltados para a janela.
"Por que diz que o sonho foi bom e foi ruim?"
"Porque foi."
Celebrian sorriu, realmente Elrohir não estava em seus melhores dias.
"Foi bom porque foi com Legolas, mas foi ruim porque algo aconteceu." Ela deduziu e as pupilas do filho deslizaram pelos olhos do rapaz, mas ele não se voltou para mãe.
"Legolas se afogou..." Ele contou depois de uma pausa um tanto extensa. "Mas eu e o Dan o salvamos. Foi difícil... Tivemos que tirá-lo do rio... Depois fizemos respiração artificial... Achamos que ele não ia voltar... Achamos um monte de coisas ruins... mas acabou tudo bem depois..."
Celebrian ouviu atentamente. Ela conhecia aquela história, a ouvira certa vez do próprio marido, mas da boca do filho parecia ganhar ares ainda mais graves.
"Ele precisou de vocês e estavam lá para salvá-lo." Comentou e dessa vez Elrohir não olhou para ela, porém os olhos do gêmeo enegreceram-se com aquela verdade.
"É..." Ele ergueu-se subitamente, ainda menos satisfeito do que antes. "Demos sorte. Nem sempre damos, na verdade quase nunca damos sorte." Completou, depois deixou a xícara na pia, mas não foi além.
Celebrian suspirou, baixando os olhos para seu próprio café e balançando a xícara levemente para ver o líquido preto oscilar. Ela queria saber o que dizer ao filho, mas sabia que havia muitas experiências negativas atadas àquele comentário triste do rapaz. Depois de algum tempo, mergulhada em seus próprios pensamentos, lembrou-se que os silêncios de Elrohir nunca eram bom sinal. Quando se voltou o jovem elfo já enrolava em uma das mãos a gaze que retirara da cabeça.
"Meu bom Ilúvatar." A elfa se ergueu no mesmo instante, mas o rapaz já lhe deu as costas no momento em que se aproximou. "Quantos invernos até você ter juízo, Elrohir Peredhel? Deixe-me ver isso."
"Não tem nada para ver. Estou bem. Já tive ferimentos bem piores do que esse corte a toa." Resmungou o elfo, movendo o corpo para conseguir passar pela mãe, enquanto ela o segurava para observar o ferimento.
"Não sei de quem herdou essa teimosia." Lamentou-se a elfa, puxando o rapaz e forçando-o a sentar-se novamente na cadeira que abandonara.
"De ninguém. Aqui só há um bando de conformados, isso sim." Respondeu o gêmeo e mal as palavras lhe escaparam já estava arrependido. Celebrian, no entanto, acostumada com os repentes do rapaz, não levou a ofensa tão a sério quanto o filho julgava.
"Se fossemos conformados como você diz, nem sequer teríamos feito esses curativos." A elfa retrucou, fingindo uma insatisfação maior do que de fato sentia, mas aproveitando-se que o arrependimento parecia ter aquietado um pouco o filho, para segurar-lhe a cabeça e verificar o corte, agora completamente desaparecido naquela floresta de fios grossos e negros. "Podíamos deixá-lo por conta, mesmo. Afinal já deveríamos estarconformados com o fato de que você é o elfo mais teimoso de toda a Arda."
Elrohir soltou um pequeno som de desaprovação, unindo as mãos por sobre o colo, enquanto fingia ignorar a sensação de ser um elfinho malcriado que aquela situação estava despertando nele.
"Sou um idiota mesmo." Ele enfim retrucou. "Talvez só eu devesse pegar aquela droga de barco e dar sossego a tudo mundo. Talvez devesse fazer algo melhor do que isso até."
Celebrian parou sua vistoria no mesmo instante e Elrohir percebeu que dessa vez tinha sido sincero demais. Quando a mãe afastou-se, puxando uma cadeira e sentando-se diante dele, o jovem elfo começou a sentir a gravidade do que dissera. Poucos foram na vida os momentos em que a mãe olhara para ele com tamanha seriedade.
"Sou um idiota. Sabe que não deve levar a sério as bobagens que falo, nana." Ele tentou remediar o engano, mas o rosto da elfa não se alterou. Pelos Valar, como ela lhe lembrava o avô quando olhava para ele daquele modo.
"É o que pensa, não é?" Ela foi direta, como sempre fora. Nada de rodeios, nada de jogos de palavras, nada de ilusões. Aquela era Celebrian, e por isso era tão difícil quando se zangava com alguém. "Pensa que é responsável por tudo o que acontece, responsável por qualquer um que entre em sua vida. É o que pensa, não é, Elrohir?"
O gêmeo balançou a cabeça, enfim, tentando erguer-se, mas a mãe segurou-lhe ambas as mãos.
"Faça a lista então." Ela disse, olhando-o profundamente nos olhos.
"Que lista?" O gêmeo indagou, retribuindo o olhar, como fazia quando queria mostrar que não tinha medo, de que estava bem.
"A lista do que devia ter feito e não fez. Dos lugares nos quais deveria ter estado e não estava. Faça a lista dos seus erros." Celebrian propôs e enfim perdeu o olhar do filho.
"Quer que lhe dê minha biografia então?" Ele ironizou, tentando novamente se levantar, mas a mãe não permitiu, soltando-lhe as mãos agora e erguendo-lhe forçosamente o rosto com ambas as mãos para ganhar-lhe o olhar mais uma vez.
"Quando começou? Qual foi o primeiro?"
"O dia que nasci?" Propôs o rapaz com um sarcasmo extremo que não alterou, porém, o olhar que a mãe lhe direcionava.
"Estou falando sério, Elrohir. Você não era assim. Tinha, admito, o péssimo hábito de julgar-se culpado por todas as pequenas coisas que aconteciam. De achar que seu irmão sempre fazia tudo melhor do que você. Mas essa amargura não lhe era característica, muito pelo contrário, os empecilhos em sua vida sempre o motivaram a ser melhor. Se algo não saía certo da primeira vez você o refazia quantas vezes fosse necessário. Se seu irmão se saísse melhor, você o fazia mostrar-lhe todos os caminhos. Por Ilúvatar, Elladan pode ter-lhe tentado passar lições de paciência e até ter conseguido, mas toda a perseverança que seu irmão tem ele aprendeu com você."
Elrohir baixou o rosto, balançando-o em leve reprovação e Celebrian uniu as mãos por sobre o colo, olhando o entristecido filho com paciência e afeto.
"Nem tudo nesse mundo está em suas mãos, Rohir-nin." Ela disse e o apelido de infância fechou sua sentença como um bálsamo para ambos.
"Eu sei, nana." O gêmeo concordou, mas sua respiração ainda rápida e sem ritmo mostrava à mãe o quanto suas palavras ainda não tinham atingido o objetivo certo.
"Eu sei que você sabe, elfinho. Sei que a idéia está aqui." Ela comentou, apoiando o indicador na testa do filho. "Mas quando vai senti-la aqui." Completou, colocando a palma por sobre o peito do rapaz. "Quando vai se dar paz?"
"Quando eu merecer essa paz."
"E quando será isso? Quando achar que já pagou o suficiente por todos os erros que acha ter cometido?"
Elrohir se levantou enfim, com um som de insatisfação que deu àquela cozinha um tom quase fúnebre. Celebrian circulou a mesa antes dele e trancou a porta, segurando a chave com força.
"Quer parar!" O gêmeo enfim mostrou sua irritação. "Acha que eu não derrubo essa merda de porta se eu não quiser?"
"Derrube então." A mãe não se intimidou, avançando em sua direção e fazendo-o recuar instintivamente. "Responda a minha pergunta e pode sair do modo que quiser, girando a chave ou colocando a porta abaixo. Eu não vou me importar."
"Eu não vou responder."
"Por quê?"
"Porque não vou mentir, não vou dar a resposta correta que você espera de mim."
"E que resposta você acha que eu espero?"
"Aquela que vocês todos esperam que eu dê. A que eu sei que não tenho culpa, eu sei que a vida é assim e que não podemos estar em todos os lugares e cuidar de todos a quem amamos e blá-blá-blá. Eu não vou dizer isso porque eu não acredito nessa merda toda."
"Acredita em que então, Elrohir?"
O gêmeo irritou-se ainda mais, voltando-se agora para a pequena janela do lugar. Celebrian aproximou-se devagar, tocando cautelosamente o ombro do filho, que enrijeceu com o contato.
"Não foi culpa sua, ion-nin."
"Não foi culpa minha o quê?" Indagou com rispidez o jovem elfo.
"Meu seqüestro, meus ferimentos, minha saída desse lugar há tanto tempo."
O gêmeo afastou-se então, seu rosto perdera completamente a cor de uma forma que Celebrian nunca havia visto. Ele esperava tudo, menos que a conversa com a mãe tomasse um rumo tão direto. Eles jamais haviam conversado sobre aquele assunto, faziam-no vez por outra através de rodeios, exemplos escondidos em entrelinhas, mas nunca diretamente.
Celebrian respirou fundo. Durante tanto tempo ela quisera ter com o filho aquela conversa, e agora, mais do que nunca, visualizava a razão de seus temores.
"Eu o amo tanto, elfinho. Acha que estou dormindo e não vejo sua dor?" Ela continuou, sofrendo ao ver o rapaz empalidecer ainda mais. "Sei que pensa que o que houve foi culpa sua, sei que se julgava meu protetor, que acha que deveria estar lá... Era o que dizia desde pequenino, lembra-se? Que era meu protetor..."
"Pare,nana."
"Não, querido." Ela disse, parada agora no meio da cozinha, parecendo querer dar espaço para o filho respirar enquanto dizia algo de extrema importância. "Não minta mais, não ignore mais o que você sente ou não vai ter paz."
"Foi há muito tempo." Elrohir desconversou, sacudindo a cabeça. "Muita coisa aconteceu depois... Eu não penso mais nisso..."
"Pensa sim... Mesmo com seu coração voltado para Legolas como está agora, você, no fundo, ainda pensa." Ela disse em um tom diverso que fez com que Elrohir sentisse um estranho calafrio. "Eu sei o papel que ele tem em sua vida."
"O que quer dizer?"
"Eu vi, querido. Vi e vejo até hoje, até há poucos instantes. Vejo a verdade todos os dias." Ela reforçou e o rosto do filho enrijeceu, os olhos escuros voltados para ela com emoções indecifráveis.
"Não estou entendendo..."
"Há tempos eu percebo como você o trata. Como sempre buscava protegê-lo. Seu pai me contou todas as vezes, e não foram poucas, em que você se arriscou por ele."
"E daí?" Elrohir indagou confuso.
"Você sabe. Você o defendia porque ele parecia não ter ninguém por ele. Você mesmo dizia que Legolas era só afeto e inocência... Eu me lembro bem. Você o olhou diferente desde a primeira vez que o viu. Todos nós olhamos. Nosso elfinho dourado da caverna. Ele parecia tão desprotegido, mesmo cercado por aquela fortaleza na qual vivia, mesmo trancado e escondido do mundo pelo pai... Você o defendia porque, por esses motivos todos, ele o fazia lembrar-se de mim."
Elrohir desprendeu os lábios e seu queixo caiu devagar, mas logo ele voltou a endurecer o maxilar e avançou em direção à porta.
"Depois do que me aconteceu tudo ficou pior, não foi, ion-nin?Todos esses anos você o defendeu porque temia vê-lo em uma situação como a minha, temia passar por aquilo tudo novamente."
"Pare,nana."
Celebrian apertou os lábios fortemente, buscando forças para uma batalha que já passara da hora de acontecer.
"Não foi culpa sua, Rohir-nin. Não foi culpa sua o que aconteceu comigo. Não foi culpa sua o que aconteceu com Legolas.
"Pare." Elrohir voltou a pedir, em tom mais elevado agora, enquanto segurava fortemente a maçaneta da porta, mas Celebrian não hesitou.
"Não foi, querido."
"Claro que foi!" Elrohir gritou então, voltando olhos escuros como a noite para a mãe. "Quem fazia parte de sua guarda? Quem? Eu! Quem deveria estar lá com você, quem deveria ter cortado o pescoço de qualquer maldita criatura repugnante queousasse tocar em você? Quem? Eu! Eu deveria estar lá porque era minha obrigação."
"Era sua obrigação como era a de qualquer um que estivesse em seu lugar. Naquele dia, você não estava lá, querido, porque tinha outra obrigação tão importante quanto me proteger. Naquele dia você era necessário em outro lugar. Você e seu irmão salvaram uma vila inteira de pessoas." Ela completou. "Gente jovem, crianças... Nossos... Nossos caçulas, ion-nin. Crianças indefesas que teriam perecido sem a ajuda de vocês."
"Pare..." O gêmeo pediu então, voltando-se de costas mais uma vez, sua voz perdeu o compasso, fazendo com que o pedido ganhasse tons de clemência aos ouvidos da mãe. Ele apoiou a palma por sobre a porta trancada e a testa sobre ela. "Não quero mais falar sobre isso... minha cabeça está doendo. Abra a porta, por favor, nana."
Celebrian desprendeu os lábios, aproximando-se novamente.
"Tive tanto orgulho de vocês." Ela comentou, voltando a apoiar a palma nas costas do filho, em sua mente a visão do passado ainda estava tão clara quanto a do presente, no entanto, naquele momento ela ganhava novos tons. "Eu me lembro bem... Era tudo escuridão e dor... Então a luz surgiu. Eu abri os olhos e vocês estavam lá. Podia ver você,Rohir-nin, podia vê-lo brilhando naquela mata escura..."
"Pare,nana... por favor." Elrohir pediu enfim e a mãe percebeu, pela voz embargada do filho, que aquela verdade finalmente fazia seus efeitos. Ela suspirou e o acompanhou quando o rapaz, dobrando os joelhos, soltou o corpo diante da porta e foi ao chão devagar. A elfa ajoelhou-se então, ainda apoiando a mão por sobre as costas do filho.
"Eu o via de longe, ion-nin." Ela continuou, descendo os dedos pelos cabelos negros do jovem elfo. "Eu via os dentes brancos de um lobo feroz, a espada implacável reduzindo a nada o que cruzava sua frente. Fechei os olhos com uma sensação de segurança que... que julgava que não fosse sentir mais... Despertei novamente enfim em Imladris, nos braços de seu pai... E quando ele me confirmou que não havia sido um sonho... quando ele me relatou o que vocês dois tinham feito para conseguir me resgatar. Por Varda, eu senti tanto orgulho que..."
Elrohir, que mantivera os olhos fechados até então, voltou-se devagar. As sobrancelhas curvadas que aquela oração sem final geraram o faziam parecer ainda mais com o pai. Diante dele, a mãe o olhava com a infinita paciência de sempre, no entanto, seus olhos, agora cristalinos pelas lágrimas que o banhavam, pareciam aprisionar uma revelação importante.
Eles se olharam por mais alguns instantes, até que duas lágrimas escorreram pela pele alva e rosada de Celebrian e ela enfim sorriu um riso tão triste que quase roubou do filho o desejo de saber como aquele relato terminaria
"Diga,nana..." Ele pediu cauteloso e Celebrian levou a mão ao rosto, cobrindo os lábios como se não pudesse realmente conter o que estava para sair deles. Ela respirou fundo então, soltando as mãos por sobre o colo e respondeu:
"Eu senti tanto orgulho de vocês... pelo que fizeram por mim... pelo que já faziam por todos que... que a voz que me chamava... que me autorizava a ir... cessou..."
Elrohir pressionou os lábios com força, seu queixo ainda mais endurecido. Celebrian ergueu então a mão direita e pousou com suavidade e zelo por sobre a face do filho.
"Rohir-nin...Eu senti tanto orgulho que o bom Mandos julgou-me ainda forte para ficar."
O jovem elfo soltou enfim os lábios, tentando prender no peito as emoções que aquela descoberta lhe despertava. Inútil, seu peito começou a arfar terrivelmente, o coração batendo tão depressa que seu eco causava-lhe uma sensação de dor no peito. Ele ainda tentou dizer algo, algo que encerrasse aquele momento comovente, algo que o fizesse crer que tais sensações de afeto eram desproporcionais e fora de hora. Inútil, aquela revelação tinha um valor impagável, abria-lhe a janela e inundava-lhe o cômodo de uma luz tamanha, inundava-o de uma esperança teimosa, uma esperança que ele temia sentir.
Celebrian balançou suavemente a cabeça, olhando-o com serenidade e só então ele sentiu que ela não o olhava apenas, que estava ali, com ele, lendo seus temores, descobrindo-lhe as incertezas. Ela não invadira sua mente, limitara-se a entrar com delicadeza, sem que ele percebesse ou sentisse desejo de se opor. Sua mãe rompera-lhe as barreiras que nenhum outro jamais conseguira.
"Existem muitas formas de se salvar alguém, ion-nin." A voz doce dela, ecoando em sua mente, foi sua última confirmação. "Não se julgue incapaz por uma oportunidade perdida... Outras... outras virão... Outras oportunidades virão para você como vieram naquele dia... Outras oportunidades para ajudar aos que você ama... para... para salvar aqueles a quem você preza... Elas virão, meu guerreiro. Elas virão, Rohir-nin."
