************************ Cap. 53 A assustadora dor do vazio - Parte 2************************
Dentro do quarto Geisty permanecia deitada enquanto à sua volta doutor Hector e duas enfermeiras se movimentavam agitados aplicando sedativos leves e analgésicos ao mesmo tempo em que faziam uma avaliação de seu estado de saúde.
Para a amazona de Serpente tudo parecia muito confuso, uma vez que o mundo se desdobrava ligeiro à sua frente, num ritmo muito mais rápido do que eram capazes de registrar seus olhos ensonados e sua percepção comprometida. Mas, mesmo atordoada era capaz de sentir fortes dores pelo corpo que inevitavelmente a faziam questionar o motivo de estar ali.
E foi com a voz fraca e rouca que perguntou à equipe médica que a cercava:
— O que houve... comigo? — fez uma pausa para respirar, enquanto cansada e com os olhos perdidos tentava manter a cabeça firme sobre o travesseiro para talvez assim conseguir focar a visão naquelas pessoas. Foi quando encontrou o rosto sério e compenetrado de doutor Hector — Você é médico? Onde eu estou? — perguntou ofegante.
— Você está no Hospital de Athenas. — ele lhe respondeu com voz tranquila, porém receosa, mas empenhado em lhe passar tranquilidade emendou: — Não se recorda de ter dado entrada porque acabou de acordar e ainda está atordoada, mas aos poucos vai se situar, não tenha pressa. Está sendo muito bem cuidada, fique tranquila e descanse.
A italiana o encarava sem conseguir processar ao certo aquelas informações, pois tudo que sua mente era capaz de captar naquele momento era a dor constante que sentia.
Em um movimento instintivo tentou se movimentar na tentativa vã de se pôr sentada, mas uma pontada forte no abdome a fez desistir no ato.
— Ahh... ai... dor... — disse ao deixar a cabeça tombar para trás encolhendo os ombros. Tentou levar as mãos à barriga, ao ponto exato em que sentia a dor mais intensa e concentrada, mas estas foram contidas de pronto pelo médico que com gentileza as tomou com as suas e as pousou de volta na cama.
— Por favor, mantenha-se parada ou os acessos podem se soltar e lhe causar ainda mais incômodo. Você já vai se sentir melhor, Geisty. Reforçamos os analgésicos.
Geisty voltou a olhar intrigada para o médico que evitava olha-la de volta.
— Doutor... os meus filhos... meus bebês... Está tudo bem com eles, né? — ela disse, e ouvir aquilo fez gelar o peito da equipe médica que em silêncio profundo trocaram olhares apreensivos entre si enquanto a amazona, alheia a eles, encarava o rosto alarmado de Hector — Eu... estou grávida, doutor... e eu... acho que me lembro... eu passei mal... depois do jantar e... — fechou os olhos fazendo uma careta quando sentiu um leve enjoo.
Havia algo de muito errado.
Ela pressentia.
Embora ainda não soubesse o que de fato seria.
Não se recordava de ter chegado ali. Sua última lembrança era o macarrão desastroso de Shina que a fez passar mal do estômago e a fez vomitar várias vezes. Lembrava-se do mal-estar, de Afrodite lhe insistindo para que fossem ao hospital... Lembrava-se também de estar muito nervosa pelo fato de Saga ter saído em um missão repentina e recordou-se que não havia tido notícias dele ainda, mas não se recordava em absoluto de ter dado entrada no hospital.
— Saga!... — murmurou reabrindo os olhos e buscando o rosto do médico que lhe aferia a pressão pela segunda vez — Meu... meu marido, doutor... onde está... meu...
— Tente relaxar, Geisty. Precisa descansar. — disse aflito o médico.
Geisty sentia a cabeça dar voltas. Súbito sua mente desenhou a última lembrança que guardara antes de tudo se apagar. Estava sentada no chão do banheiro de seu quarto no Templo das Bacantes, e Afrodite estava a seu lado lhe dizendo que iria pedir a Aldebaran para que voltasse da adega, onde recebia um carregamento de bebidas, para poder acompanha-la ao hospital.
— Então... Afrodite me trouxe aqui?... E... — sussurrou, mais como uma constatação feita para si mesma, e quando se deu conta a equipe médica havia se retirado sem responder nenhum de seus questionamentos.
No entanto não estava sozinha no quarto.
Havia alguém mais ali. Podia senti-lo.
Quando girou levemente a cabeça para a direção da porta eis que, surpresa, constatou ser Shaka de Virgem, parado de pé e em silêncio.
— Sha... Shaka? — ela sussurrou receosa.
Porém, havia algo diferente nele.
A costumeira presença de espírito daquele cavaleiro, sempre serena e benevolente, agora parecia carregar um peso desalentador, lúgubre. Da mesma maneira seu rosto, permanentemente iluminado e glorioso como uma manhã de primavera, agora exibia uma máscara soturna.
O achou deveras abatido, magro, muito mais sério e circunspecto que de costume, e longe daquela altivez tão natural à sua figura.
Mesmo de olhos fechados podia sentir que ele olhava para si fixamente.
Percebeu o peito se apertar e o sangue nas veias gelar a ponto de fazer seus ossos tremerem...
Era medo que sentia.
A presença de Shaka ali na verdade lhe causava pânico.
Por que ele?
Ele que nunca deixava a Sexta Casa Zodiacal por nada nesse mundo a menos que sua presença fosse estritamente necessária, e sabia que quando a presença do cavaleiro mais próximo de Deus era solicitada significava que algo muito grave havia acontecido. E pelo que se recordava, Shaka havia saído em missão junto de Saga rumo ao México. E seu marido não estava ali...
Ela acordara em um hospital e ao invés do marido recebia a visita de Shaka, sozinho.
Algo estava errado, muito errado!
Em silêncio enquanto o observava caminhar lentamente em direção a seu leito, Geisty rogou aos deuses do Olimpo e à Atena que se apiedassem de si. Que Shaka não fosse um arauto do caos, mas tão somente uma visita amiga, porque não tinha coragem de sequer tecer alguma possibilidade em sua mente que justificasse a presença dele ali. Justo ele.
"Não é nada... Não aconteceu nada... Ele está bem... Eu estou bem... Meus filhos estão bem... Acalme-se Geisty... Acalme-se já!". Geisty tentava se convencer em pensamento.
Virgem parou diante do leito.
Por um momento eles apenas ficaram em silêncio. Ela analisando o rosto lívido e inexpressivo dele. Ele a preferir enfrentar uma hoste vil de espectros saídos direto dos portões do Inferno a ter que ser o portador de tão terrível notícia.
O indiano inclinou-se ligeiramente para o lado e puxou a poltrona para se sentar, então quando já estava acomodado voltou o rosto para ela e abriu os olhos.
Aquele gesto inesperado foi recebido pela amazona como um soco forte dado diretamente em seu peito.
Os olhos de Shaka de Virgem eram famosos por serem arautos da morte, e tal fama não se construíra à toa. Ela sabia.
Agora sim estava certa de que algo muito grave havia acontecido.
Os olhos de Virgem exibiam uma melancolia tão sufocante que a fez estacionar a própria respiração e tencionar todos os músculos do corpo dolorido involuntariamente. Se não estivesse sedada certamente teria uma crise de pânico.
Que os deuses tivessem piedade si.
— Shaka... O que foi que... — perguntou sem mais conseguir conter ou disfarçar sua tensão, enquanto tentava decifrar o mistério contido nas feições graves do virginiano antes mesmo que os lábios dele pudessem responder sua pergunta.
Após uma breve pausa, olhando para aqueles olhos violetas ansiosos e sentindo o ar circular por seus pulmões como que o queimando por dentro tão grande era a aflição que lhe consumia, Shaka estendeu a mão a ela.
— Pegue minha mão. — disse em tom baixo e moderado, e quando a amazona executou a tarefa lhe apertou a palma suavemente acendendo seu Cosmo — Buda dizia: Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o Sol, a Lua e a verdade... Sua mente, Geisty, está negando o sofrimento e novamente lhe escondendo a verdade. Ela assim o fez no passado, lembra? Quando me procurou em meu Templo há pouco mais de dois anos.
Séria Geisty fez um gesto afirmativo.
Estava sonolenta, mas sequer piscava, pois sua intuição não podia ser calada pelos sedativos.
Ela sabia que algo ruim havia lhe acontecido. Só não queria aceitar.
— Do que... está falando... Shaka? — ela sussurrou visivelmente nervosa. Seu peito subia e descia em movimentos acelerados.
Com cuidado, e monitorando o tempo todo o Cosmo da amazona com o seu, Shaka conduziu a mão dela até o ventre vazio ainda inchado pela gestação recente e a colocou sobre o corte da cesariana, que estava protegido por um curativo sob o tecido do lençol e da fina camisola que cobria seu corpo.
Ela acompanhou atenta esse movimento com os olhos, mas foi quando seus dedos finos tocaram o local e sentiram o extenso curativo alguns centímetros abaixo do umbigo que sentiu seus ossos gelarem e seu espírito gritar doente por socorro.
Arregalando os olhos e em sobressalto a amazona tentou se curvar e olhar para baixo, para seu baixo ventre, mas o Santo de Virgem a impediu pousando gentilmente a mão em seu ombro a mantendo deitada.
Geisty então voltou os olhos alucinados para o cavaleiro encontrando os dele cravados em si, enquanto tateava o curativo em seu ventre com seus dedos trêmulos e gelados.
— O que... o que é isso? O que... — ela murmurou em desespero. Seus lábios tremiam em demasia e seu estômago revirava — Shaka...
Shaka engoliu em seco. Sua garganta lhe apertava tanto que era difícil respirar.
— Na mesma noite em que Saga e eu estávamos em missão no México... — Virgem dizia quase num sussurro, mas ela parecia não ouvir suas palavras. Tudo que ouvia eram os clamores de seu espírito e os roncos hediondos do terror que engoliam sua vontade, devoravam suas esperanças, dilaceravam sua sanidade.
— Meus... meus filhos... meus filhos... meus bebês... — a amazona repetia, agora passando as mãos alucinadamente pela barriga quando súbito puxou o lençol para baixo e as meteu por debaixo da camisola, agora sentindo precisamente o curativo extenso.
Seu corpo todo fremia descontrolado.
— Houve um atentado... ao Templo de Baco...
Nessa hora Geisty congelou ambas as mãos sobre o curativo no ventre e olhou para o indiano, em pânico.
Aquelas palavras abriram uma porta nefasta na mente da amazona trazendo à tona lembranças daquela noite que haviam sido encarceradas no mais profundo de sua mente, e que agora, como uma chama repentina que é acesa no escuro revelando um espaço que antes era preenchido pelo nada, reverberaram na velocidade de um turbilhão.
Recordou-se em detalhes da ação covarde dos russos, do som ensurdecedor dos tiros, do cheiro forte da pólvora que ardia suas narinas, dos estilhaços rasgando seus pés... Recordou-se do sangue a escorrer volumoso entre suas pernas, da dor excruciante, do rosto demoníaco do homem que lhe apontava uma lâmina quando de repente Afrodite invadiu seu quarto e o impediu que a matasse, e o ódio... O ódio nu que sentiu ao vivenciar novamente tudo aquilo fez arrepiar sua pele. Agora também sentia a dor no ventre mais intensa, brutal, a lhe apunhalar sem compaixão, então sua mente foi tomada pela mais pura manifestação do desespero.
— Shaka! Meus... filhos... MEUS BEBÊS! — corria as mãos pela barriga novamente enquanto com os olhos arregalados e cheios de lágrimas encarava o rosto firme do virginiano — Meus bebês... Eu não... eu não estou sentindo meus bebês mexerem... Não estou sentindo eles dentro de mim, Shaka, não estou sentindo eles aqui dentro!
Diante do desespero da amazona, e fazendo um esforço hercúleo para conter o seu próprio, Shaka segurou nas mãos geladas dela as apertando levemente e as trazendo para seu peito.
Aos soluços sufocantes ela olhou nos olhos dele.
— Quando você foi trazida para cá apresentava um quadro grave de eclâmpsia... Também tinha perdido muito sangue e estava quase inconsciente. — disse o virginiano olhando profundamente nos olhos dela — Foi preciso fazer uma cesariana de urgência...
— NÃO! — ela o interrompeu — Não!... Ainda não era hora! — suspirou trêmula segurando a respiração por um instante assim como as lágrimas insistentes que brotavam de seus olhos e teimavam em escapar. Sabia que precisava manter a calma, que não podia pensar no pior, mesmo que seus instintos fossem o seu pior inimigo naquele momento.
— Sim, não era hora ainda, mas... — Shaka interrompeu-se não conseguindo concluir a frase.
Aos prantos Geisty tentava se pegar ao instinto e amor maternal que gritava dentro de si com vozes ensurdecedoras lhe inflando de uma esperança quase entorpecente e irracional.
— Tudo bem... tudo bem... está tudo bem... — sussurrava em desespero e arfante, com os olhos alucinados cravados em Shaka — Foi feita... a cesariana... mas eles... eles... os meus filhinhos... eles estão bem, não estão? Os meus... bebês... eles... estão bem?
Virgem ficou em silêncio.
Os lábios dela tremeram.
— Shaka... — ela suplicou com a voz espremida, quase muda.
Já Virgem parecia ter perdido a sua.
— Shaka... os meus bebês... eles... estão bem, certo?... Isso é... um hospital... eles nasceram e estão seguros, não estão? — ela perguntou em agonia quase palpável.
Mas como resposta teve somente o silêncio do outro.
— RESPONDE! — ergueu a voz fraca em aflição para em seguida sussurrar em prece — Pelos deuses, Shaka... Me responda!
— Naquele dia... quando me procurou no meu Templo, há dois anos, eu lhe disse que em nossas vidas a perda é inevitável... — disse enfim o Santo de Virgem que mantinha os olhos azuis ainda presos aos violetas dela alarmados em terror. Simplesmente não conseguia dizer.
— Não! — a exclamação escapou de seus lábios trêmulos em um sopro tímido, porém temeroso. A negação era tudo ao que podia se agarrar naquele instante em que até seus pés gelavam ao ponto de parecerem não existir para mantê-la de pé mesmo que estivesse deitada.
— Absolutamente tudo é inconstante...
— Não... — a voz do indiano parecia mais distante sendo abafada pelo barulho de seu coração que batia alucinado — Shaka, por Atena... os meus filhos... Me diga que eles estão bem. — sua voz tinha tom de súplica — ME DIZ QUE ELES ESTÃO BEM!
Virgem, que tinha os dedos das mãos entrelaçados aos dela, os apertou com força na mesma hora em que baixou o olhar e com os olhos parados mirava os lençóis do leito. Não suportava mais encarar os olhos de Geisty e ver impressa neles a dor que só as mães que perderam seus filhos conheciam.
Já havia presenciado aquele mesmo olhar uma vez. Quando ajudou a lemuriana fugitiva a trazer Kiki ao mundo, e sabia que jamais seria capaz de esquecê-lo. Agora novamente...
— Eu... — disse o indiano fazendo uma pausa — Tudo que mais queria era poder lhe dizer que sim... Geisty... mas...
A Amazona sentiu seu corpo já fragilizado ser golpeado em um açoite firme pela notícia.
O coração mesmo débil pelo choque tentava reagir com batidas fracas, mas a dor, esta implacável, era muito maior e se espalhava por todos os músculos que compunham seu corpo o castigando com violência até atingir-lhe aguda o útero, como a lâmina fria de uma espada que travessa a carne.
Em reflexo levou a mão de longas unhas até o ventre o apertando com força entre os tecidos do lençol rosa claro de algodão. Sua dor extravasava descontrolada em um choro convulso, desesperado, entre lágrimas incessantes dos olhos que fitavam congelados o rosto prostrado do virginiano no mais pleno desespero. Da boca aberta, alarmada, Shaka pode presenciar o som da agonia, e esta era muda, como o ensaio de um grito que morrera afogado pelo próprio pranto que a consumia, assim como ar de seus pulmões que eram inundados de dor.
Ela também apertava os dedos dele com força, enquanto seu coração parecia ser rasgado por dentro com a lentidão angustiante de um pesadelo interminável.
— Eu... sinto muito. — ele deu a sentença, e nessa hora os lençóis rosa claro nos quais mantinha a mirada fixa tingiram-se de negro.
O Santo de Virgem na mesma hora ergueu a cabeça e levantou os olhos em sobressalto, então os correndo atentos e arregalados pelas paredes daquele pequeno espaço as via derreter ligeiro feito cera de vela que desvaece quando consumida pela chama. À medida em que iam se desmanchando atrás de si as paredes revelavam o nada, o escuro e frio vazio que com seus tentáculos negros infatigáveis avançava, cada vez mais perto, e mais perto...
Os olhos azuis celestes de Shaka então voltaram-se para o chão quando sentiu este tremer, e ao olhar para seus pés os viu suspensos no ar poucos metros de um grande fosso que se abria faminto debaixo da cama para onde tudo ali que se desmanchava escorria, para dentro daquela escuridão infinita.
Do lado de fora do quarto Afrodite e Mu também sentiram o tremor e ao olharem para a porta essa também se derretia.
— Isso é... uma ilusão! O Cosmo dela está descontrolado! Nós precisamos... — dizia Peixes apreensivo quando foi interrompido por Mu que segurou em sua mão.
— Nós não vamos interferir. — disse o ariano com a habitual fisionomia serena, embora seu rosto não fosse capaz de ocultar a tristeza que o assolava.
Dentro do quarto o mundo todo de Geisty de Serpente escorria para dentro daquele fosso voraz aberto pelo vazio de sua alma. Ela mesma desejava se desfazer e escorrer por ele, consumida por uma dor para a qual sabia jamais encontrar alento.
Embora estivesse sob efeito de sedativos o Cosmo da amazona se elevava a níveis surpreendentes e inimagináveis, e aquela ilusão tão nefasta quanto poderosa projetada por ela nada mais era que um retrato realista e sombrio de seu sofrimento.
Ali ela sentia como se todo seu mundo, alicerçado na esperança e decorado com a mais genuína felicidade, se desfizesse e lhe escapasse irremediavelmente.
Imóvel na cama, hirta feito uma figura sacra esculpida pelas mãos de um artista barroco, tinha os olhos esgazeados projetados para o alto e iluminados em púrpura que vislumbravam o nada, e este estava a cada segundo mais perto de engoli-la.
Não conseguia chorar.
Sequer era capaz de respirar.
Estava nula, incorpórea, etérea.
Mas eis que quando a escuridão do vazio estava prestes a consumi-la para sempre com seus hediondos tentáculos que já se enrolavam em suas pernas, como num passe de mágica esses transfiguraram-se em labaredas de luz que desvaeciam no ar feito poeira cósmica e lentamente ganhavam o espaço na forma de partículas brilhantes de luz dourada que ascendiam ao céu num balé cheio de majestade.
Assim também foi com as paredes que derretiam.
Aos poucos aquela luz de ouro as reconstruía, tijolo sobre tijolo, reforçando seu fundamento desde a base e varrendo as trevas para longe.
O vazio agora era preenchido pelo lampejar de milhares de estrelas que tilintavam graciosas produzindo uma doce melodia que acalentou o coração da amazona, e o fosso famélico aos poucos se fechava dando lugar a um tapete majestoso composto por flores de lótus que se abriam em cores e aromas lhe dando as boas-vindas.
Nesse sublime espaço tocado pela luz divinal daqueles milhões de estrelas cantantes, sobre o campo imaculado de lótus ergueu-se um altar, e nele havia um trono de ouro onde ela, Geisty, reinava absoluta.
De olhos fechados e feições serenas ela permanecia imóvel sentada no trono.
Ali ela sabia que estava segura.
"Respire."
A voz de Shaka de Virgem lhe deu o comando que foi obedecido de pronto. E quando o ar entrou em seus pulmões Geisty sentiu como se esse tivesse a capacidade de purifica-la, de enche-la de uma vida que estava prestes a deixar escapar por seus dedos.
"Abra seus olhos, Geisty."
Quando abriu os olhos a amazona viu o rosto de Shaka.
Ele estava de frente para si, e seus olhos a abraçavam com ternura e uma bondade que raramente enxergava neles.
"Como vai ser agora, Shaka?"
Ela perguntou firme, convicta.
"Isso nós vamos viver, juntos."
Ele lhe respondeu com igual convicção.
"Como?"
"A vida, Geisty, só pode ser vivida, jamais respondida."
Então o cavaleiro lhe estendeu a mão, e quando a amazona a pegou e se levantou ficaram frente à frente.
"Vai ser tão difícil sem eles."
Ela lamentou.
"Vai. Mas não estará sozinha. Estarei a seu lado. Eu e também Mu, Afrodite, Shina, Marin... Seus amigos. Todos te queremos bem."
Ele abriu os braços e a acolheu em seu abraço.
Ela deitou a cabeça no peito dele e chorou baixinho.
Pouco a pouco as estrelas foram se apagando, as flores de lótus que recobriam o solo davam lugar ao piso frio de mármore esverdeado e a luz dourada que envolvia a tudo se esvanecia deixando o quarto na penumbra confortável de antes.
No leito do hospital Geisty agora chorava copiosamente agarrada a Shaka, que com o tronco debruçado sobre ela a apertava em seus braços esperando seu tempo.
Não a soltaria.
Ficaria ali até que ela colocasse para fora toda aquela dor. Não importando o tempo que levasse. Manteria sua promessa.
Do lado de fora do quarto era possível ouvir o choro da amazona, o que fez Mu e Afrodite consolarem-se um ao outro com extremo pesar.
Após longos minutos, quando conseguiu enfim afrouxar os dedos que seguravam com força desmedida os cabelos longíssimos junto das roupas do virginiano, Geisty deu um último soluço antes de ser vencida pelo cansaço e com a voz tão baixa que Shaka só pôde ouvir porque estava colado a ela fez a segunda pergunta que ele mais temia ouvir naquele dia:
— Saga... por que Saga... não está... aqui?
Virgem respirou fundo e afastou-se minimamente apenas para poder olhar nos olhos dela.
— Saga... se perdeu.
O rosto dela se contraiu numa nova expressão de choro e desespero.
— Atena... não! Não!
— Ele não suportou perder os filhos, e frente à possibilidade de também perder você ele sucumbiu ao mal que vive dentro dele. — disse Virgem com extremo pesar.
— Não... não, pela poderosa Hera... por que isso está acontecendo? Eu não vou suportar, não vou suportar! Não quero passar por isso sem ele... Sem meu Saga... Não posso ter perdido ele também... Eu não vou conseguir... Não vou!
Em meio a um choro convulso ela repetia essas palavras como um mantra funesto, então Shaka a abraçou novamente e lhe permitiu viver mais aquele pesar até que exausta ela adormecesse.
Lentamente o indiano se afastou a ajeitando entre os lençóis e enxugando delicadamente seu rosto molhado com uma das toalhas brancas que estavam em cima da mesinha ao lado.
Ficou mais uns minutos ali, apenas olhando para ela, e sua tristeza era tão grande que parecia poder segura-la com os dedos.
Tocou a campainha solicitando uma enfermeira e quando esta entrou no quarto lhe relatou o que havia acontecido, que tinha colocado a paciente a par de sua triste realidade e que por isso seria necessário que a monitorassem a partir de então, pois ela precisaria agora de toda a atenção dos médicos.
Enquanto a enfermeira fazia alguns exames de praxe em Geisty, como aferir pressão e temperatura, o Santo de Virgem deixou o quarto, mas ao cruzar a porta e dar de cara com Áries e Peixes nem ao menos olhou para eles, passando direto por ambos e já seguindo pelo corredor que dava acesso à saída da Ala 5.
— Dido, nos vemos mais tarde. — Mu se despediu às pressas do amigo e seguiu Shaka, pois sabia que agora era o esposo quem precisaria de apoio.
Afrodite acenou positivamente com a cabeça e logo em seguida deu uma espiadela para dentro do quarto vendo Geisty dormir. Soltou um suspiro longo e pesado, e com a cabeça baixa retornou a seu quarto no fim do corredor.
Já fora da Ala 5 Shaka seguiu a passos ligeiros por um extenso corredor até chegar a uma porta de vidro que guardava uma saleta de espera onde havia um bonito e muito bem cuidado jardim de inverno.
Ali ele sentou em uma das cadeiras brancas de estofado de couro, apoiou os cotovelos nos joelhos e baixou a cabeça metendo os dedos por entre os cabelos loiros. Visivelmente perturbado ele esfregava as unhas contra o couro cabeludo a ponto de machuca-lo devido a força que empregava e os movimentos repetitivos.
Quando chegou ali Mu sentiu o coração se apertar ao se aproximar do esposo e vê-lo naquela situação. Sabia que a tarefa que havia pedido a ele lhe seria deveras penosa, assim como também conhecia bem a forma nociva com que ele lidava com as próprias emoções.
Foi pensando nisso que devagar se agachou em frente a Shaka e com todo amor e carinho que tinha por ele tocou delicadamente suas mãos o forçando a soltar os fios loiros para parar de ferir a si mesmo. Em seguida trouxe as mãos dele até seu rosto e depositou em cada um de seus dedos beijos gentis.
Após esse gesto de amor o lemuriano soltou uma das mãos do indiano para tocar seu queixo e fazê-lo erguer o rosto para que pudesse olha-lo nos olhos.
— Obrigado, meu amor. — Mu disse quando finalmente as íris esmeraldas divisaram as safiras azuis tumultuosas, visto que reconhecia que havia sido rude e que o esposo só havia passado por aquilo para poupa-lo.
Shaka viu, através dos olhos de Mu, toda a tristeza que ele também sentia. Tinha ficado magoado como a forma como o ariano o tratara momentos antes de entrar naquele quarto, sim, mas o que era sua magoa comparada a toda dor que vivenciavam naqueles dias e que a pouco presenciara dentro daquele quarto?
Ela era uma gota solúvel num oceano de lamento.
Pensando nisso Virgem suspirou profundamente com seus olhos benevolentes a delinear o rosto amado do lemuriano, então levou uma das mãos a este e o acariciou com ternura, e sem dizer nada inclinou-se para frente e depositou um beijo em seus lábios mudos.
— Vamos para casa. — disse por fim voltando a encarar os olhos verdes do marido — Eu quero te propor uma coisa e tenho certeza que vai estar de acordo, mas precisamos conversar e não quero que seja aqui.
Mu apenas acenou positivamente com a cabeça e se levantou trazendo Shaka consigo pela mão.
Quando já estavam ambos de pé antes de saírem o lemuriano abraçou forte o marido, confortando a ele e a si mesmo.
— Enfrentaremos tudo isso juntos, Luz da minha vida. Estaremos junto dela. Não a deixaremos sozinha, e eu... — sussurrou rente ao ouvido de Virgem — Eu sempre estarei aqui para você, Shaka.
— E eu para você, Mu. Sempre juntos.
