A alma de Serena
Após perderem a batalha para as sailors, as Harpias se encolheram assustadas. Já imaginavam que, apesar de não terem sido destruídas ali mesmo, teriam ainda de enfrentar a fúria de Selene, que, com certeza, não perdoaria o fato de não conseguir de volta sua filha e seu amante.
Celeno, que era a guarda principal do palácio lunar, porém, tentou tranquilizar suas irmãs.
– A ira de Selene há de se voltar apenas contra mim; vocês devem voltar para casa.
– Mas, Celeno...
– Eu já disse! Vocês não têm que ser punidas, fui eu que não cumpri as ordens dela... Só eu devo pagar por isso.
As sailors não deixaram de se incomodar com os rumos daquele diálogo. Embora as Harpias tenham chegado até elas com malignos propósitos – seqüestrar Darien e Tristia –, não conseguiam deixar de se penalizar com a situação delas.
Selene certamente seria implacável e não teria misericórdia de Celeno, dando um fim à sua existência.
– Espere... – Disse Sailor Vênus – Por que você precisa voltar pra Selene?
– O quê? – Celeno estranhou a pergunta da jovem.
– É isso mesmo! – Deu continuidade à fala de sua amiga Mercury – Por que você precisa voltar pra Selene? Você pode começar uma nova vida com suas irmãs, longe das maldades dela.
Celeno riu.
– Vejo que são bem intencionadas e que são mais generosas do que eu mereço. Seria muito belo se eu não fosse quem eu sou, se eu não tivesse escolhido o lado que escolhi nessa batalha...
– Fala como se fosse tarde demais pra você... – Disse com tristeza Setsuna.
– Porque é tarde demais, guerreira... Se eu simplesmente decidir começar uma nova vida, Selene tratará de destruir tudo à minha volta. É preferível que me apresente a ela agora. Vocês não fazem ideia do que ela fará a vocês. Ela quer o guardião do planeta e a filha de volta e vai destruir o tanto que tiver de destruir pra obter o que quer.
– Mas nós estaremos aqui pra impedir que isso aconteça! – Tornou Setsuna.
– E eu estarei ao lado dela, se Selene me conceder uma segunda chance.
– Lamento por você, então – Disse Sailor Netuno antes que as três Harpias deixassem derrotadas o campo de batalha.
Tristia estava num canto com um ar pensativo e mal se ligava no diálogo entre as sailors e as Harpias.
Sailor Vênus se aproximou da menina:
– Tristia, você está bem?
– Papai... – Sussurrou ela, enquanto uma lágrima caía do canto de seu olho direito.
– Não se preocupe... – Disse Setsuna com brandura – Seu pai logo estará de volta.
– Papai!
Tristia começou a correr na direção do portal, enquanto as sailors a olhavam com espanto.
– Mas o que ela está fazendo? – Perguntou Netuno correndo junto das amigas a fim de acalmar a menina.
– Papai! – Tristia continuava a exclamar diante do portal para o mundo inferior.
Ela chorava e batia contra ele.
Setsuna a segurou e pediu que se acalmasse. No entanto, a menina começou a irradiar uma aura prateada. Pétalas de rosas brancas começaram a cair do céu.
– O que está acontecendo? – Perguntou Mercury.
– Papai... – A menina continuava – Volte!
Até que, por fim, caiu desmaiada nos braços de Setsuna.
– Tristia! – Chamava ela – Acorde!
Enquanto Mercury e Vênus tentavam ajudar Setsuna a acordar a menina, Netuno olhava apreensiva para o portal. A verdade era que Darien havia saído para uma ação muito arriscada sozinho. Talvez as coisas não estivessem correndo bem para ele e a menina tivesse sentido isso.
Darien, você está bem?
Resignada, Celeno regressou para o reino lunar após deixar suas irmãs para trás. Estava disposta a encarar o castigo imposto por Selene qualquer que ele fosse. Ela falhou em sua missão e seu orgulho estava ferido, mas não perderia sua pose altiva de guerreira.
Contaria a verdade para a deusa de cabeça erguida, sem desviar o olhar.
Quando finalmente entrou no já conhecido salão, deparou-se com uma insólita cena. Sentada em seu trono, Selene observava suas estátuas lançando-lhe risos diabólicos. Se, antes, a Harpia estava certa de sua decisão, agora nem tanto.
No entanto, não havia mais como voltar atrás.
– Celeno...
– Minha senhora...
– Onde estão Darien e minha filha?
– Não cheguei a ver o jovem guardião da Terra. E, quanto à sua filha, ela estava junto das guerreiras da princesa da Lua em frente ao portal que guarda o mundo inferior.
– Continue.
– Eu... Eu não consegui trazê-la de volta, minha senhora. Eu fui derrotada pelas sailors guerreiras.
– O quê? – Perguntou Selene erguendo-se – Você não conseguiu nada? Voltou de mãos vazias!
–Sim, minha senhora. Eu falhei em minha missão e estou aqui pra receber minha punição pelo meu erro.
A deusa olhou a Harpia dos pés à cabeça. Chegou mesmo a erguer sua mão para dar-lhe o mesmo destino dos que permaneceram no reino lunar, mas, quando já se preparava para isso, desistiu. E apenas acertou a face de Celeno com um violento tapa.
– Estúpida! Agora terei eu mesma de ir atrás dos dois!
A Harpia suspirou aliviada ao ver a deusa já se preparando para partir sem querer perder tempo.
Já chega de ficar aqui sentada!
Darien, Tristia, o lugar de vocês é aqui ao meu lado.
Não quero mais que fiquem longe. Aquelas sailors metidas não vão poder nos separar.
Serena se permitiu enlaçar pelos fortes braços de Hades e praticamente sumiu no meio deles. E, se antes em alguma coisa ele lhe parecia atraente, agora lhe despertava repulsa.
Hades tentava novamente fazer sua aura obscura se entranhar na jovem a partir de seu beijo. No entanto, percebia que fracassava nessa tarefa. Longe de se entregar como antes, Serena se mostrava fria diante de sua sedução.
– Minha querida, por que se faz de tão fria? Sei que gosta disso... – Disse-lhe o deus, acariciando o seu pescoço.
Darien tinha razão... Você estava me envenenando.
Cada vez que me tocava, que me beijava... Eu era mais e mais tomada pela sua energia negativa. Mas não vai acontecer de novo.
– Deve estar tímida porque estamos dividindo espaço com o cadáver de seu antigo amor... – Prosseguiu Hades – Acho melhor irmos para o quarto. Lá teremos mais privacidade.
– Mas...
– Lá vamos ficar mais à vontade.
Serena olhou por alguns instantes para o corpo de Darien jogado no chão. Lembrou-se de quando teve os terríveis sonhos provocados por Circe e que a obrigaram a se separar dele.
Lembrou-se também do que disse a ele quando finalmente pôde voltar a abraçá-lo, senti-lo, contar-lhe toda a verdade.
– Nunca deixei de te amar... Nunca! Eu só queria te proteger! Porque não suportaria viver num mundo em que você não existisse, Darien!
Viver em um mundo em que Darien não existisse.
Por culpa dela.
Hades pegou Serena pelo braço e praticamente a arrastou para seus aposentos. A jovem se sentia ainda tonta e confusa. Não queria que o deus sequer encostasse nela, quanto mais envolvê-la em seus braços. No entanto, se não fizesse o que ele mandava, com certeza a alma de Darien sofreria as consequências.
E ela não poderia permitir uma coisa dessas. Tudo isso seria culpa dela, que se deixou envenenar pelos ciúmes e caiu na armadilha de Hades.
Se eu não tivesse deixado me influenciar nada disso estaria acontecendo.
E agora nada mais restava. Só tinha uma escolha. Deixar-se envolver pelo deus, aceitar ser sua companheira.
Mas conseguiria?
– E o Darien? Quando... Quando vai fazer com que ele volte?
– Logo, minha princesa. Não se preocupe com isso; eu saberei manter minha palavra. Devolverei vida àquele corpo jogado no chão. Em nada a alma dele sofrerá no meu mundo. Mas também não voltará a ser seu. Que isso fique bem claro desde já.
– Eu entendi isso muito bem, Hades.
– Então... Vamos parar com essa conversa... Venha aqui, minha querida. Você é tão linda, Serena!
Hades segurou Serena pelo queixo e foi trazendo a boca da jovem para cada vez mais perto de si.
Darien, eu não sei o que posso fazer pra sair dessa situação.
Eu... Eu não tenho escolha...
Eu sinto muito...
Quanto mais Hades se aproximava, mais Serena se angustiava. E provocou grande irritação no deus ao começar a chorar.
– Mas o que significa isso? Não quero você chorando desse jeito perto de mim! – Disse-lhe o deus, arremessando-a com força ao chão.
– Vou lhe dar mais algum tempo pra pensar,
Serena. Quero que você seja minha, sem choro ou lamentações. Vou para os jardins, justamente pra evitar descontar a raiva que estou sentindo na alma daquele a quem você matou.
E se retirou, trancando a porta do quarto.
Eu não sei se eu consigo...
Mas, se eu não fizer o que ele quer...
Darien, o que eu faço?
E Serena se viu incrivelmente só naquele quarto ostentoso.
Em breve Hades voltaria e exigiria muito mais que um simples acenar de cabeça para reviver Darien.
