Título: Os Corações Da Questão
Autora: Lab Girl
Categoria: Bones, B&B, 5ª temporada, drama, romance
Advertências: Conteúdo adulto, com linguagem e situações muitas vezes inapropriadas para menores.
Classificação: NC-17
Capítulo: 52/?
Status: Em andamento
Resumo: Às vezes é preciso dois corações para se chegar ao âmago de uma questão.
Os Corações da Questão
por Lab Girl
Parte II: O Encontro dos Amantes
#52: Recordações e Revelações
Ele a puxou pela mão, andando lentamente até uma porta semi-aberta. Empurrando a antiga madeira branca com os nós dos dedos, foi como se abrisse um verdadeiro portal do passado, revelando um quarto intocado de garoto, congelado no tempo.
Os olhos de Temperance percorreram o ambiente com detida atenção a cada detalhe. A cama de madeira com um boné de beisebol pendurado num dos postes da cabeceira... os lençóis azul marinho com motivos esportivos... as paredes pintadas de um branco já machado pelo tempo, cobertas por pôsteres de jogadores e de algumas mulheres que ela não reconhecia, mas que deviam ser ícones de beleza do início da adolescência de Booth. Tudo ali parecia um cenário interrompido.
Ela observou o parceiro caminhar até a janela e abrir as cortinas. A luz do sol entrou no quarto realçando uma nuvem fina de partículas de poeira que se dissiparam no ar dentro de alguns instantes.
"Este era o seu quarto?" ela perguntou, já sabendo a resposta.
"Sim" a voz dele saiu rouca.
Booth estava de pé, diante da janela, os olhos observando tudo, como se ele estivesse relembrando um tempo distante de sua vida.
"Está tudo bem conservado. Parece até que estiveram cuidando do local esse tempo todo."
"Meu pai estava" Booth falou com certa dificuldade. "Pops me disse que ele manteve a casa da nossa família, mesmo depois de ter ido embora. E, nos últimos anos, ele voltou pra cá."
Temperance tentou entender as implicações daquilo. Ela sabia que Joseph não havia simplesmente ido embora. Hank havia lhe contado a verdadeira história. Então, provavelmente o pai de Booth voltara a viver ali nos últimos anos, talvez como uma forma de reviver o passado. Um que ele jamais poderia mudar. Manter a casa do mesmo jeito, os móveis, os pertences dos filhos... parecia algo bonito e triste ao mesmo tempo.
"Talvez ele sentisse falta do tempo em que viveu com vocês" ela falou em voz alta. "Você, Jared, sua mãe..."
Os olhos de Booth voltaram-se para ela, e um sorriso melancólico se formou no canto dos lábios. "Minha mãe..."
De repente, a oportunidade aguçou a curiosidade de Temperance. "Já ouvi histórias do seu pai, mas você nunca me contou muito a respeito da sua mãe."
Ainda sorrindo melancolicamente, Booth sentou-se na beirada de sua cama de garoto. Ele suspirou e, então, bateu de leve no colchão olhando para Temperance, indicando que ela se sentasse ao lado dele. Ela aquiesceu.
"Minha mãe foi a melhor mulher que eu já conheci no mundo" o olhar de Booth se perdeu enquanto ele visivelmente evocava suas melhores lembranças. "Madeleine... ela fazia jingles para comerciais."
"Isso você chegou a me dizer sobre ela" Temperance meneou a cabeça.
"Ela era muito musical. E tinha uma voz linda. Eu me lembro de como ela costumava cantar por horas enquanto limpava a casa, cozinhava ou fazia qualquer outra coisa. Eu ficava na sala ou na cozinha, vendo tv ou fazendo as tarefas da escola, e a voz dela preenchia tudo" um sorriso maior e menos dolorido se expandiu nos lábios dele ao evocar aquelas memórias.
"Ela não quis ser cantora profissional?" Temperance perguntou.
Booth balançou a cabeça, entrelaçando as mãos entre os joelhos. "Ela teria sido, se quisesse. Mas preferiu se dedicar à família. Ao marido e aos filhos" Booth soltou um leve suspiro. "Escrever músicas para comerciais se tornou uma forma de extravasar isso, eu acho... de ter alguma relação com a música, ainda que fosse ínfima e distante, e de ajudar nas despesas da casa."
"Entendo" Temperance tentou soar compreensiva.
"Mas, depois de um tempo, meu pai a proibiu de fazer até mesmo isso. Então, ela só cantava em casa quando ele não estava. E mesmo isso foi ficando cada vez mais raro depois que Joseph começou a afundar no vício..."
Era uma história triste. E dolorida. Temperance sabia bem. Mas ela precisava saber mais. Como poderia ajudar Booth se não conhecia bem a história dele? Ele a havia ajudado tanto com seu pai e Russ... o mínimo que podia fazer era retribuir.
"Como ela morreu?" a pergunta saiu direta e simples, como a própria Temperance. Ela não sabia ser de outra maneira, e nem achava que Booth esperava algo diferente dela.
Os olhos castanhos dele se ergueram e fitaram-na. Ela sabia que a mãe de Booth havia falecido, mesmo que ele nunca tivesse dito isso.
Abaixando novamente os olhos, um suspiro pesado escapou de Booth e Temperance observou os ombros dele descerem.
"Ela ficou doente quando eu tinha por volta de nove anos. Levou tempo até descobrirmos porque ela nos escondeu as dores. Só soubemos quando era tarde demais..." a voz dele falhou por segundos. "Ela tinha um tumor no estômago..."
Gentilmente, Temperance pousou a mão sobre as de Booth, ainda entrelaçadas, sinalizando sem palavras que não era preciso que ele prosseguisse. Ela entendia. Era muito doloroso para ele reviver aquele passado.
"Naquela época ainda não existiam exames e tratamentos avançados como os de hoje" ela tentou confortá-lo com o que sabia usar de melhor - a razão.
Os olhos de Booth lentamente se voltaram para ela, e um sorriso apertado adornou os lábios dele quando os dedos longos apertaram os dela gentilmente.
"Obrigado" ele soltou, de repente.
"Por quê?" ela franziu o cenho, confusa.
"Por estar aqui comigo. Por tudo" ele levou a mão dela aos lábios, roçando os dedos dela com suavidade.
Temperance sentiu um arrepio bem vindo pelo corpo, e não pôde evitar um sorriso diante da sensação quente que se apoderou dela naquele momento.
Agora ela entendia o que ele queria dizer quando falava de amor e todas as suas implicações... de como você sentia que era aquela pessoa com quem deveria estar, de todas as pessoas do mundo.
"O que foi?" ele perguntou, observando que ela estava com o pensamento em algo.
Temperance simplesmente balançou a cabeça. "Só pensando."
"Em que, posso saber?"
"Em como é bom estar aqui com você."
Isso fez um sorriso se abrir no rosto de Booth, iluminando o semblante antes triste dele.
Na verdade, não era apenas nisso que ela estava pensando, ou sentindo. Mas ela ainda tinha um longo caminho a percorrer no que dizia respeito a sentimentos e relacionamento. E Booth, melhor do que ninguém, sabia disso. E justamente por essa razão, Temperance sabia que ele não a pressionaria e muito menos faria exigências que ela ainda não estivesse pronta a cumprir. Ela sabia que o amava, pelo menos não conseguia pensar em ninguém mais por quem sentisse as coisas que sentia por Seeley Booth. Mas, daí a verbalizar isso... ela queria esperar. Se aquilo não passasse de uma reação do seu cérebro? Ela estimava Booth, sentia por ele afeto que superava e muito o que sentia por seu pai, por Angela, por qualquer outra pessoa... confiava sua vida a ele... então, o que mais poderia ser aquilo senão o que ele e as outras pessoas denominavam amor? Contudo, ela não queria se precipitar. Era melhor continuar no ritmo em que estavam, sem pressões e acelerações. Ela acreditava que tudo aconteceria naturalmente com o passo do tempo. Como havia sido até então.
"Por que não me mostra o resto da casa?" ela perguntou, rompendo as próprias reflexões.
"Está bem" ele concordou, levantando-se da cama sem soltar a mão dela.
~.~
Os dois atravessaram o corredor e Seeley mostrou à parceira o quarto do irmão e, em seguida, o quarto maior, que fora de seus pais.
Tudo estava como o seu próprio antigo quarto. Intocado, como se houvesse sido congelado no tempo. Seeley foi tomado novamente pela onda de melancolia. Ele percebeu que Brennan ficou parada a observá-lo por alguns instantes, em silêncio.
Os olhos dele, então, caíram sobre um móvel de madeira escura, uma cômoda onde havia alguns bibelôs, delicadezas que haviam pertencido a sua mãe. Ele soltou a mão de Brennan e esticou um dos braços para tocar uma pequena caixa marfim com um sorriso saudoso no rosto.
Seeley abriu delicadamente a caixa, e uma melodia suave ocupou o quarto. Era uma música doce, agradável.
Brennan aproximou-se mais para ver melhor a pequena figura de uma moça com duas crianças no colo que giravam lentamente ao som da melodia.
"É uma linda caixinha de música" ela comentou, suavemente.
Ele concordou, sem tirar os olhos das figuras no centro da caixinha. "Meu pai deu a minha mãe quando fizeram 10 anos de casados."
Sem querer, os olhos de Seeley marejaram. Então, ele sentiu a mão da parceira tocar a sua e apertá-la com carinho. Fungando, sem encará-la, ele correspondeu ao aperto.
Com cuidado, Seeley fechou a caixinha e virou o fundo para ler o que estava inscrito ali. Seus olhos percorreram as palavras conhecidas... Amor, Joseph.
Inspirando, ele devolveu o objeto à cômoda e só então notou que uma das gavetas estava semi-aberta. Franzindo a testa, começou a fechá-la, porém, ao fazê-lo, deu-se conta de que havia um caderno do lado de dentro, um que não se lembrava de ter visto antes.
Curioso, Seeley abriu melhor a gaveta, revelando um encadernamento antigo, um pouco gasto, no interior. Ele pegou o livro, abrindo aleatoriamente, e seus olhos foram surpreendidos pela caligrafia delicada e conhecida... Foi um dos melhores dias da minha vida. Joseph e eu passamos alguns minutos sentados, apenas observando os meninos brincarem na areia. A brisa do mar e a proximidade dos homens da minha vida foram o suficiente para fazer desta uma tarde perfeita e inesquecível.
Seeley sentiu um nó se formar na garganta. Seus dedos correram, sem que ele percebesse, sobre a folha bordada com a letra de sua mãe. E a lembrança daquela tarde que ela mencionava veio à sua mente. Ele tinha oito anos e o pai havia feito uma surpresa levando a família para a praia num sábado de folga.
"Parece um diário" a voz de Brennan o arrancou de suas memórias de infância.
Seeley meneou a cabeça. "Eu não sabia que ela escrevia um" ele disse, folheando o antigo caderno.
"É uma boa oportunidade para você se reconectar com ela" Brennan murmurou, acariciando de leve um dos ombros dele.
Seeley teve de sorrir, ainda que um sorriso triste. Nem sabia se teria coragem de ler aquele diário. Quantas coisas deviam estar escritas ali? Quantas experiências e sentimentos guardados sua mãe havia confessado naquelas folhas de papel? Ele não sabia se estava preparado para aquilo.
O que ele sabia era que seu coração estava pequeno diante da grandeza dos últimos acontecimentos. Não havia tido ainda tempo de processar tudo, e, em meio ao caos emocional, as memórias de uma vida e de uma família despedaçada agora vinham à tona... ele só não se sentia afundar por causa da presença dela... Bones. Ela lhe dava a certeza de que, fosse como fosse, estaria lá com ele, e isso era o que o mantinha firme.
Virando-se para ela, mergulhando no azul intenso daqueles olhos, Seeley teve certeza de que não importava o que viesse, ele sobreviveria porque ela era seu porto seguro.
"Tudo bem?" Brennan questionou após alguns segundos, como ele continuava a encará-la sem dizer nada.
"Não, mas vai ficar" ele apertou a mão dela na sua e, em seguida, guardou o diário da mãe de volta na gaveta da cômoda.
Sem dizer nada, ele a foi puxando para fora do quarto.
"Booth...?" ela perguntou, incerta.
Seeley parou no meio do corredor e a fitou. "Tem um lugar onde eu quero ir. Você me acompanha?"
Brennan olhou dentro dos olhos dele e respondeu, sem hesitar. "Sempre."
A resposta dela, simples e tão verdadeira, aqueceu o coração dolorido de Seeley. Inclinando-se, ele a beijou suavemente nos lábios e, em seguida, levou-a pela mão para fora da casa, desejando secretamente que sempre fosse a palavra que os mantivesse unidos.
...
Perder um ente querido nunca é algo fácil. Por esta razão não foi nada fácil para mim retomar esta história, que estava e ainda está numa fase de perdas e despedidas. De modo que a carga emocional era muito grande para mim, e preferi lidar com ela quando finalmente me senti pronta.
Este capítulo é em memória de alguém muito especial que se foi da minha vida, mas que permanecerá em meu coração e minhas lembranças. Por me incentivar, por acreditar na minha capacidade e por me dar forças para alçar meus voos… minha tia querida, eu te amo. Para sempre.
In memoriam...
