someone to love you
capítulo 51
O fim de semana passou rápido demais e, ao nascer a manhã de segunda, Rachel encontrou-se tendo que encarar outro dia de escola, mais uma vez. Com seu iPod tocando baixinho ao lado, ela enroscou-se mais profundamente em seus lençóis, não querendo ainda sair do calor reconfortante. De olhos ainda fechados, ela deixou a mente vagar, reprisando vários momentos de diversas conversas as quais ela dividira com Jesse nas últimas 48 horas. Depois de não terem se falado no começo da semana, era como se eles simplesmente não conseguissem deixar de conversar. Ela até mesmo optara por participar das revisões dele com Jesse, em vez de romper a conexão retomada. Lembrando vários momentos em que as palavras e atitudes de Nate a fizeram rachar de rir, ela sorriu, radiante por saber que Jesse tinha conseguido encontrar um amigo tão bom na UCLA – e que ela, através da mesma pessoa, fora apresentada a duas das meninas mais simpáticas e genuínas que já tinha conhecido. Nate, aparentemente, era uma influência positiva tanto na vida dela quanto na de Jesse.
Ela foi puxada de seus pensamentos pelo soar de uma batida gentil. Relutantemente largando as cobertas, ela cruzou o quarto e abriu a porta. O pai estava do outro lado, mais do que levemente preocupado pelo olhar que lhe destinara.
"Você está bem, filhinha? Não é normal que você não esteja pronta e tomando café antes que o seu pai esteja pronto para ir trabalhar".
"Por que ele está indo tão cedo? Não são nem sete horas!"
"Tem certeza?"
Olhando para o relógio, ela percebeu que era muito mais tarde do que imaginara.
"Ai, nossa! Eu realmente não sabia! O tempo passou rápido!"
"Está mesmo bem?"
"Sim, papai, estou bem. E não vou me atrasar, prometo".
"Tudo bem. Eu mesmo tenho que ir, então te vejo de noite".
Eles se despediram, e Hiram abraçou-a rapidamente antes de dirigir-se ao andar inferior. Agudamente ciente de que os minutos estavam passando depressa, Rachel fechou a porta atrás de si e correu para o chuveiro.
Os corredores de McKinley High estavam fervendo. Karofsky e Azimio, que em teoria não deviam pôr os pés na escola até quarta-feira, estavam no momento tomando um chá de cadeira na sala de espera do escritório do diretor Figgins. Um arrepio percorreu Rachel quando ela avistou a dupla, e ela abraçou-se com mais força a seu fichário, como se pudesse se defender que um ataque em potencial. Furtivamente, ela espiou o rapaz que a atacara no estacionamento, tentando sondar seu humor. Ela a primeira vez que ele interagia com outros alunos desde a postagem no blog de Jacob, e ela perguntou-se distraidamente como ele estava lidando com o fato de que fora forçado a assumir-se. Apesar de ele parecer irritado, ela não tinha muita certeza se era por causa das atuais circunstâncias ou pela recente revelação de sua opção sexual.
Quando Jesse inicialmente lhe contara que Karofsky era gay, ela não pensara muito nos sentimentos daquele que a atormentara. Ele a magoara, repetidamente – tanto física quanto emocionalmente – e apesar do fato de que ela geralmente não era uma pessoa vingativa, uma parte dela firmemente acreditava que essa retribuição era mais do que devida. Por outro lado, ter que aceitar a própria sexualidade – se é que ele já tinha chegado a esse ponto – podia provar ser uma experiência traumatizante, e ter tal segredo revelado ao mundo antes que ele mesmo o aceitasse em sua plenitude podia provocar um trauma de proporções épicas.
Ela devia se preocupar. Sabia disso. O fato de que Jesse revelara o segredo de Karofsky de uma maneira tão descuidada devia ter um peso. Se ele fizesse o mesmo com o Kurt, enquanto este ainda estivesse no armário, ela teria ficado extremamente enfurecida. Ainda assim, de certa forma, ela tinha dificuldade em sentir qualquer compaixão por Dave Karofsky. Sim, isso podia explicar os atos dele e sua postura de bullying, mas ele repetidamente sentira prazer na dor e na humilhação alheia, e tinha ameaçado matar Kurt. Quer ele falasse sério ou não, não tinha importância nenhuma. Fora o suficiente para levar o aterrorizado jovem a Dalton em um esforço de escapar de possíveis repercussões de algo que ele nunca procurara nem iniciara.
Ela dissera as mesmas conclusões a Jesse quando o assunto surgira em uma das conversas do fim de semana. Ele estivera seriamente questionando se tinha ido longe de mim, e restara a ela assegurar-lhe de que, apesar de ele não ter agido com extremo bom senso, ela entendia que a atitude dele nascera de um misto de raiva e frustração, e ela não o culpava por reagir como reagira. Quando ele perguntara como os alunos de McKinley estavam tratando Karofsky, ela lembrara que, já que o atleta e seu comparsa estavam sob suspensão, não houvera nenhuma consequência real, de qualquer tipo. Com um pouco de sorte, quando a dupla voltasse às aulas, algum novo escândalo já teria surgido para desviar a atenção de todos.
E isso deixava apenas a reação dos pais dela para motivo de preocupação. Ela tinha bastante certeza que o método escolhido de vingança de Jesse não os impressionaria. Era a primeira coisa que ele fazia desde sua reconciliação que podia nublar a opinião que os pais dela tinham dele, e colocá-lo sob uma ótica negativa. Esperando evitar a qualquer custo esse resultado em especial, ela e Jesse juraram manter segredo dessa pequena informação.
Arriscando dar outro olhar para os dois atletas, ela percebeu que eles agora estavam envolvidos em uma conversa relativamente agitada. Sem querer que eles a avistassem, ela abaixou a cabeça, virou as costas e dirigiu-se ao armário de Noah.
Quando fora informado de que o diretor Figgins queria vê-lo na segunda-feira logo cedo, Dave pensou a princípio em ignorar a convocação. Fora suspenso. Não havia absolutamente motivo nenhum para que ele pisasse na escola por mais alguns dias. Além do que, estava curtindo o tempo livre, vendo filmes, navegando na internet, jogando videogame e treinando passes de futebol com Azimio.
Karofsky sentiu a raiva que sempre borbulhava bem abaixo da superfície surgir dentro dele ao contemplar como o resto de seus parceiros de time tinham tratado-o desde que Jacob postara no blog. Na primeira manhã, eles o evitavam como o diabo fugia da cruz, e as coisas não melhoraram muito desde então. Nem um deles havia telefonado ou mandado SMS. Na verdade, Azimio era o único que lhe dirigira uma palavra. Apesar de serem amigos há muito tempo, essa demonstração de lealdade fora surpreendente, para dizer o mínimo. Acomodando-se na cadeira, Dave inclinou-se de modo que suas palavras não fossem ouvidas.
"Por que não me ignorou como os outros?" Ele perguntou.
"Por que ignoraria? Não é como se eu acreditasse em qualquer coisa que aquela fuinha escreve. Achei que alguém estava aprontando pra ti, e eles inventaram a mentira mais ultrajante que puderam. Quero dizer... qual é. A gente anda junto desde o primeiro ano. Se você fosse viado, eu ia saber".
Dave deu um suspiro discreto de alívio. Por que não percebera isso antes? Isso era reparável. Só precisava dar um susto no tal Ben Israel para ele escrever uma retratação. Pela primeira vez em dia, ele começou a acreditar que sua reputação podia recuperar-se, que ele podia esconder a verdade mais uma vez. Agora, se apenas Figgins se apressasse e desse seguimento a essa maldita reunião, ele podia voltar ao videogame e avançar mais algumas fases.
Como se tivesse lido sua mente, o diretor Figgins apareceu e convidou os dois rapazes a entrarem em seu escritório. O estômago de Dave embrulhou-se quando ele viu que a técnica Beiste estava em um canto da sala, com uma expressão pétrea. Todos os seus instintos lhe diziam que, seja qual fosse o motivo para essa reunião forçada, ele não ia gostar do resultado. Não sendo pessoa de fazer rodeios, a técnica começou a falar assim que a porta se fechou.
"Vocês dois estão com sérios problemas...".
Leroy havia acabado de voltar à sua mesa depois de outra reunião interminável quando sentiu o celular vibrar em sua coxa. Tirando-o do bolso, ele se surpreendeu com o nome que apareceu no visor.
"Jesse? Mas que surpresa!"
"Bom dia, Sr. Berry. Como tem sido o seu dia até agora?"
"Como sempre é. Está tudo bem?"
"Está sim. Na verdade estou ligando para pedir um favor".
"E qual é?"
"O Nate me disse que a Júlia, a Grace e a Amy gostariam de fazer algo para comemorar o aniversário da Rachel, então eu queria saber se o senhor consideraria dar uma pequena festa improvisada nessa sexta-feira".
O rosto de Leroy iluminou-se diante da sugestão de Jesse. Mesmo há quilômetros de distância, o adolescente reconheceu o entusiasmo na voz do homem mais velho.
"A gente disse a ela que faria algo quando ela voltasse de Nova York, então seria uma completa surpresa para ela, e eu sei que ela ia adorar. Que maravilhosa ideia!"
"Fico feliz que o senhor aprove. Agora, quanto à lista de convidados...".
Com metade do almoço tendo se passado, Rachel estava escondida em um canto remoto da biblioteca, ocupando-se com seu mais recente trabalho de inglês, quando detectou um leve movimento por perto. Virando a cabeça, sobressaltou-se ao ver Santana repentinamente ocupando a cadeira diante de si.
"Por que está aqui?" Sussurrou ela, esperando não chamar a atenção da bibliotecária.
"A gente precisa conversar, anãzinha".
"Sobre o quê?"
"Amy Howell, e o que ela sabe sobre mim".
"Ah. Isso".
"É. Isso. Agora que você e o St. Safado se assumiram, não tem motivo pra ela usar aquilo contra mim, certo?"
"Certo".
Apesar de Rachel manter suas respostas curtas, algo em sua voz disparou alarmes de aviso na mente de Santana. Estreitando os olhos, a latina observou atentamente a morena baixinha, que não se preocupou em usar a showface de sempre.
"Você já sabe o que é", resmungou Santana.
"Sei".
"Aquela vaca quebrou a promessa! Ela jurou que só contaria se eu deixasse escapar que você estava de novo com o St. Jerk, e eu não deixei! Guardei esse bafão pra mim por semanas!"
"Não foi culpa da Amy. Foi a Grace que me contou".
"Quem diabo é Grace, e o que ela tem a ver?" Disparou Santana.
"É minha amiga. E é prima da Amy. Tudo veio à tona no dia que o Prof. Schue te deu o solo nas seletivas. Eu estava reclamando sobre isso com a Grace, ela opinou que você não merecia a honra, e partiu daí".
"Você contou pra mais alguém?"
"Não".
"Nem pro traíra do teu namorado?"
"Ainda não. Você não me deu motivo. Mas se tivesse votado contra mim no outro dia..." Rachel deixou a ameaça no ar, implícita, mas clara.
"Eu não ia votar contra você", Santana confessou em voz baixa.
"Porque eu sei um segredo seu?"
"Porque seria burrice e suicídio te expulsar. Não gosto de ti, mas admito o teu talento. Somos um time mais forte contigo do que seríamos sem você".
"Nossa, obrigada, Santana. Acho que é a coisa mais simpática que você já me disse".
"E vou negar até a morte se você pensar em contar a alguém".
"Os seus segredos", Rachel enfatizou o plural, "estão seguros comigo. A não ser que você queira me prejudicar, ou alguém de quem gosto. Se isso acontecer, vou usar tudo que tenho contra você".
"Entendi".
"Ótimo. Agora suma, por favor, pra que eu possa voltar ao meu trabalho", Rachel pediu com educação.
Sem mais uma palavra, Santana ergueu-se e dirigiu-se casualmente à saída. Antes mesmo que a latina sumisse de suas vistas, a completa concentração de Rachel voltou a seus livros e anotações espalhadas na mesa. Ela tinha planos para as férias, e estava decidida que nada – nem mesmo tarefas de última hora – os prejudicasse.
Jesse e Nate saíram da enorme sala na qual passaram as últimas três horas escrevendo sem parar, vomitando todo o conhecimento de história de teatro que tinham adquirido ao longo do semestre. Cada um deles exibia um sorriso enorme. Soltando um grito de alegria, os amigos se parabenizaram, ambos completamente confiantes que suas revisões tinham lhe permitido tirar dez nessa prova em especial.
"Três a menos, só falta uma", vibrou Nate. "Quero celebrar".
"Eu também. Vamos comer".
Ao percorrerem o campus em direção à sua pizzaria preferida, Nate parou por um momento, curtindo o calor do sol e sentindo o cheiro da grama recém- cortada.
"Vou sentir falta disso", lamentou-se, tocando o casaco leve enquanto olhava para o céu azul e sem nuvens.
"Eu falo que só, mas não estou te forçando a ir", retrucou Jesse. "Se não pode suportar o frio, então se sinta à vontade para ficar".
"Como se eu fosse te deixar ir sozinho pra cidade grande e curtir aquilo tudo. Estou apenas tirando um momento para aproveitar a melhor coisa de estar em dezembro na Califórnia. Não pode me negar isso".
"Não nego, Steadman. Se não fosse pela Rachel, eu também não estaria cogitando uma transferência. Gosto daqui. Mas prefiro estar no mesmo fuso horário da mulher que eu amo".
"Eu que o diga! A Ju me ligou ontem de manhã, toda feliz com a festa do Carl e da Emma, e eu tive que lembrar a ela que não eram nem sete da manhã aqui ainda".
"Ela achou algum jeito de se desculpar?"
"Com certeza! Foi a melhor trepa-"
Nate calou-se subitamente e corou quando percebeu exatamente o que ia revelar. A boca de Jesse curvou-se em um sorriso maroto diante da escorregada do amigo.
"Tem que ter cuidado com essas meninas católicas. Elas não são tão inocentes quanto parecem", ele brincou.
"E por isso eu vou ser eternamente grato", Nate brincou de volta.
"Mas vamos voltar ao motivo do telefonema da Ju. Vai ter uma festa?"
"Você soube que meu tio e namorada casaram em segredo há algumas semanas, certo?"
"Soube, a Rachel me contou".
"Bom, aparentemente o Carl decidiu que queria dar um festão durante o Natal para celebrar a ocasião. Naturalmente eu vou levar a Ju como minha acompanhante. A Grace vai levar o Vince, e o Stefan vai acompanhar a Amy..." Nate franziu a testa. "Droga, cara, você e a Rachel são os únicos no nosso grupinho que não vão estar lá. Acho que o Carl não vá se importar se mais duas pessoas aparecessem. Deixe-me ver se posso te descolar um convite. Isso é, se você tiver interessado".
"Parece divertido. Quando é?"
"Domingo que vem".
"Dia 19? Que horas?"
"Lá pelas seis".
"É provavelmente possível. A Rach e eu devemos chegar de Nova York umas 4 horas. Não sei se vamos chegar a Lima na hora do jantar, mas podemos passar na festa depois".
"Talvez eu possa convencer o Carl a montar um karaokê".
"A gente sempre topa uma cantoria".
Pegando o telefone, Nate revirou a lista de contatos até que localizou o número do tio. Digitando-o, ele esperou ansioso que a voz familiar atendesse.
"Alô?"
"Oi, tio Carl".
"Oi, Nate. Não estava esperando que você ligasse hoje. Não está ligando pra dizer que não vai vir pra minha festinha, está?"
"Pelo contrário. Esperava que você considerasse acrescentar mais umas pessoas à lista...".
Rachel bateu levemente na divisão de vidro que separava a sala da Sra. Pillsbury-Howell do corredor. A mulher em questão ergueu o rosto diante do som e convidou a jovem a entrar.
"Queria me ver?"
"Queria, Rachel. Sente-se, por favor".
"Estou em algum tipo de problema?"
"Ah, não. Não é nada disso. Perdão se meu chamado lhe passou uma ideia errada. É por um motivo particular".
Abrindo a gaveta de sua mesa, Emma pegou um pequeno envelope e o passou a Rachel, que percebeu imediatamente que estava endereçado a Rachel Berry e Jesse St. James.
"Parece um convite".
"E é. Para minha recepção de casamento", admitiu Emma.
"Você quer o Jesse e eu presentes? Por quê?"
"Porque se não fosse por você, não teria acontecido um casamento. A conversa que tivemos há algum tempo esclareceu muitas coisas. Percebi que eu tinha algo especial, que valia à pena, bem diante de mim, e que devia parar de perder meu tempo com uma fantasia. O Carl é um ótimo homem e tem muito a oferecer, mas precisei que outra pessoa me apontasse isso para que eu o apreciasse totalmente. Então eu queria lhe agradecer, e esse foi o melhor jeito em que pensei".
Rachel abriu o envelope e examinou o cartão que continha, sorrindo levemente quando viu o local escolhido. O evento aconteceria no clube. O mesmo lugar onde ela e Jesse se reencontraram na noite do casamento de Burt e Carole.
"Terei que ver com o Jesse se a gente vai poder ir. Ele vai chegar de LA nesse dia, e eu vou voltar de Nova York, mas se pudermos, vamos ficar felizes em ir".
"Você vai a Nova York? Seus pais vai lhe levar para ver uma peça?"
"É uma história meio longa, mas não. Eles me deram de aniversário um ingresso para Wicked, mas não podem ir".
"Você vai sozinha? Tem certeza que é seguro?"
"Bom, já que planejo me mudar para lá em cerca de um ano e meio, vai ser uma boa oportunidade para eu me adaptar ao lugar. Quero dizer, já estive lá com meus pais antes, mas é diferente explorar tudo sozinha. Estou animada".
"Acho que você é bem corajosa, Rachel".
"Tenho sonhos, e eles me dão força e coragem. Assim como meu estupendo namorado".
"Eu nunca tive muito contato com o Jesse quando ele esteve por aqui ano passado. Se vocês forem no domingo, espero ansiosa que eu possa conhecê-lo um pouco".
"Ele é uma pessoa maravilhosa. A senhora vai gostar dele".
"Tenho certeza que sim." Emma olhou para o relógio. "Já lhe prendi aqui tempo demais. Sua última aula começou há 20 minutos".
Pegando uma nota de explicação para o atraso dada pela coordenadora, Rachel guardou o convite em sua bolsa e, assim que estava fora da sala, digitou um rápido SMS a Jesse, pedindo que lhe telefonasse assim que pudesse. Embora estivesse tocada pelo gesto da Sra. Pillsbury-Howell, domingo era o dia em que ela e Jesse deviam celebrar seu aniversário, e ela não tinha muita certeza se queria passar mesmo que uma parte do tempo deles em uma sala cheia de outras pessoas. A comemoração que tinha em mente eram de natureza bem mais privada. Foi arrancada de seus pensamentos eróticos quando seu telefone tocou segundos depois.
"Oi, Jesse. Achei que você ainda estaria em prova".
"Essa prova foi logo cedo. Já acabamos".
Ela pôde ouvir a exultação na voz dele, junto com um grito abafado, o que significava que Nate estava por perto.
"Vocês dois parecem felizes. Como acham que foi?"
"A gente tem quase certeza que tirou 10", ele respondeu, com voz de triunfo. "Na verdade, estamos comendo pizza agora para nos recompensar por um trabalho bem feito".
"Eu queria estar aí".
"Eu também. A pizza está ótima, mas você é muito mais gostosa", ele sussurrou, sugestivo.
Uma onda de desejo a inundou, e o rosto dela esquentou ao rir baixinho diante do que ele dissera.
"Menos de uma semana", murmurou ela, arrepiando-se de ansiedade.
"Mal posso esperar. Tenho planos pra você", ele lembrou a ela.
"Ah, é. Quanto a isso..." Ela começou, repentinamente hesitante. Ele percebeu a mudança imediatamente.
"Alguma coisa errada?"
"Não exatamente errada. Mas a Sra. Pillsbury-Howell me deu um convite para a festa de casamento dela e o Dr. Carl, e é no domingo".
"Uau! Isso foi rápido!"
"Do que está falando?"
"O Nate acabou de ligar pro tio pra pedir que a gente fosse acrescentado á lista de convidados, já que o resto dos nossos amigos estará lá".
"Então você não vê problema em ir?"
"Não. Por que teria?"
"É o dia depois do meu aniversário. Nosso primeiro dia juntos depois de ficarmos longe quase duas semanas. Achei que você ia querer fazer algo a sós. Só nós dois".
"Eu com certeza quero. Mas pode esperar até depois da festa, não acha? Além do que, acho que a gente pode escapar alguns minutos, como fizemos na última vez que estivemos no clube".
A voz dele estava carregada de promessas, e ela corou mais ainda.
"Vai cantar pra mim de novo?"
"É possível. O Nate vai tentar convencer o tio a montar um karaokê".
"Estou me animando mais e mais a cada minuto", admitiu ela. "Mas tenho que ir. Já perdi mais da metade da aula de espanhol".
"Não prefere continuar falando comigo? Você pode tirar 10 na aula do Schuester mesmo se nunca mais abrir o livro".
"É uma oferta tentadora".
"Tentação é meu nome do meio", ele rosnou em voz baixa.
"Hum, o Nate está te ouvindo?"
Jesse riu alto diante da pergunta inocente.
"Não. Está completamente absorto falando com a Julia enquanto eu falo com você".
"Ah. Já que é assim, posso gastar mais alguns minutos".
Adotando sua expressão mais contrita, Rachel quase esgueirou-se para a sala, dando seu melhor para não perturbar a aula em progresso. Diante do olhar curioso do Prof. Schuester, ela explicou com uma expressão completamente séria que fora chamada à sala da Sra. Pillsbury-Howell, e que a conversa de ambas fora mais longa que o planejado. Dando de ombros, o professor voltou a prestar atenção em outros alunos, dando mais detalhes para as lições de casa passadas.
O eco da campainha final mal acabara quando Mercedes apareceu ao lado de Rachel, com a boca franzida em uma linha fina e raivosa. Aprumando os ombros, a morena baixinha preparou-se para a ladainha que a colega ia começar. Não teve que esperar muito.
"Ele foi meu amigo primeiro. Se tiver que fazer uma escolha, ele vai escolher a mim".
"Não faço ideia de quem você está falando".
"Não se faça de idiota. É o Kurt. Ele me disse que foi jantar na sua casa semana passada".
"E daí?"
"Ele não vai aprovar a sua reconciliação com o St. Sacana só porque não é mais parte do New Directions. Ele entende as repercussões em potencial. Por mais que você tente manipular a verdade, ele vai se opor tanto quanto eu".
Rachel esforçou-se para manter a expressão neutra. Antagonizar Mercedes não ia beneficiar Kurt. Melhor dar uma versão da verdade que faria bem a todos os envolvidos.
"Eu o convidei porque meus pais queriam falar com ele".
"O quê?"
"Meus pais. Sabe, os dois homens gays que me criaram? Eu mencionei algumas coisas que o Kurt viveu para eles, e eles se ofereceram para ajudá-lo. Para serem mentores, se ele quiser. Eu não estava tentando roubar o seu amigo. Só queria ajudar".
"Ah. Que legal da sua parte, isso", Mercedes admitiu com relutância.
"Achei que fosse. O Kurt também pareceu gostar do gesto. Mas tenho certeza que você tem razão quanto a ele não confiar no Jesse. Não precisa se preocupar quanto a isso".
"Quem falou que eu estava preocupada? Só estava dando um aviso amigável".
"Sei. Agora, se não se importa, vou pra casa?"
"Como é? Vai furar o glee de novo?"
"O Prof. Schue já escolheu as músicas das regionais?"
"Não, claro que não".
"Então não estou interessada em participar de um trabalho que supostamente é para me fazer bem ou me dar uma lição. Quando ele quiser levar os ensaios para a próxima competição a sério, ficarei feliz de dedicar tanto tempo ao ensaio quanto o resto do pessoal. Mas agora tenho coisas melhores a fazer".
Sem dar uma chance de resposta à jovem perplexa ao seu lado, Rachel saiu atrás de Noah. Quanto mais cedo ele a levasse ao seu carro, mais cedo ela estaria em casa, aproveitando um encontro via skype com Jesse.
Kurt estava curtindo um café de fim de tarde com Blaine quando o toque de seu celular interrompeu sua conversa. Vendo o nome de Rachel em seu visor, ele atendeu de imediato. Depois da noite passada na casa dela, sentia-se mais próximo dela do que antes.
"Oi, Rachel. Estou n'O Grão de Lima com o Blaine".
"Oi, Kurt. Lamento interromper, não vou demorar. Só queria te avisar sobre uma conversa que tive com a Mercedes".
"Foi sobre mim?"
"Foi. Como soube?"
"Ela ficou bem bravinha quando soube que eu fui à sua casa. Era como se ela tivesse direito de exclusividade à minha amizade. Eu disse a ela que você e os seus pais estavam me ajudando com uma coisa, e parei aí".
"Então pensamos parecido. Eu disse qualquer coisa assim. Mas ela continuou falando sobre como eu não devia tentar te puxar pro meu lado no referente ao Jesse, que você nunca aprovaria".
"Então está querendo me dizer que ela sabe que eu e ele agora somos amigos também, e que ela vai me dar um carão pela minha deslealdade?"
"Na verdade não. Concordei com ela que você não confiava nele".
"Você mentiu?!" Kurt quase gritou de choque.
"Menti. Não era realmente da conta dela, e agora você pode lidar com isso como assim desejar".
"Valeu, Rachel".
"De nada. Falo com você depois. Diz oi ao Blaine".
Assim que desligou, Kurt olhou em choque para o jovem à sua frente.
"Realmente não sei por que demorei tanto para apreciar a boa pessoa que ela é".
"Vocês estavam ocupados demais competindo".
"Foi o que ela disse. Fico tão feliz que isso tenha ficado para trás".
"E, porque vocês agora são tão íntimos, a gente vai à festa que os pais dela vão dar pelo aniversário dela".
"Eu sei. Foi tão inesperado receber o telefonema dele, mas estou tão animado. Não é ótimo que ele esteja planejando uma surpresa dessas?"
"Pelo que você disse, os dois pais dela são ótimos. Mal posso esperar para conhecê-los".
"Você vai adorá-los." Os olhos de Kurt brilharam quando ele olhou para o rapaz que ele esperava que logo fosse mais que um amigo. "Agora vamos falar de coisas importantes. Que tipo de presente a gente compra pra ela?"
Amy estava enroscada em uma cadeira no quarto da prima, falando exatamente da mesma coisa que Kurt e Blaine. Ela e Grace ficaram radiantes ao receber o convite para a festa improvisada de Rachel, e estavam ansiosas para ajudar a tornar a noite o mais especial possível para a garota que já tinha se tornado quase uma irmã para ambas.
"Não quero presenteá-la com algo simples como um cartão-presente do iTunes", insistia Grace.
"Concordo. Mesmo que ela o use, não é especial o bastante. Principalmente pelos 16 anos dela", declarou Amy.
Enquanto continuavam a debater ideias, o telefone de Amy tocou com o hino do Lima Prep que ela usava como toque.
"É o Jesse", ela disse a Grace enquanto atendia ao telefone. "E aí, estranho. Como está?"
"Eu vou bem, Ames. E você?"
"Não podia estar melhor. Está ligando por causa do aniversário da sua namorada?"
"Estou. Tenho um favor a lhe pedir".
"Vá em frente".
"A Rachel não sabe, mas estou planejando encontrá-la em Nova York no sábado e..."
As palavras de Jesse foram sufocadas pelo grito deliciado de Amy diante da novidade.
"Essa é coisa mais romântica que já ouvi! Você vai ganhar pontos com isso!"
Grace deu um olhar inquisitivo para a prima, claramente curiosa.
"Jesse, estou com a Grace e ela está louca para saber do que estamos falando. Posso colocar em viva-voz?"
"Claro. Oi, Grace".
"Oi, Jesse. Parece que você está planejando algo impressionante".
"Como falei pra Amy, estou indo pra Nova York no fim de semana".
"Uau! Você precisa mesmo dar um curso. Como ser o namorado perfeito, em cinco lições fáceis", Grace brincou. "O Vince, o Stefan e o Nate podem ser os primeiros clientes".
Jesse caiu na risada diante da sugestão da garota.
"Não sei se eles iam querer os meus conselhos, mas fico lisonjeado que você me considere perfeito".
"Não fique se achando", alertou Amy.
"Não ficarei. O Nate ajuda a minha humildade. Agora, já que sei que a Rachel vai me ligar logo, gostaria de falar sobre o motivo do meu telefonema".
"O favor que você mencionou?"
"Isso. Acho que vocês duas vão à festa dela na sexta?"
"Não vamos perder por nada no mundo", assegurou Grace.
"Ótimo. Então é isso que eu preciso que uma de vocês faça...".
Enquanto ele dava detalhes de seu pedido, Amy e Grace não podiam deixar de sorrir enormemente ao perceberem o que esperava sua amiga em uma questão de dias. O décimo sexto aniversário de Rachel Berry aparentemente seria um que ela não ia esquecer nunca.
