Puppet girl, your strings are mine.
(Garota marionete, seus fios são meus)

(Feel For You – Nightwish)


Havia um fiapo de fumaça dentro da caixa de vidro, segurando uma tocha e ondulando nervosamente de um lado para o outro. Enquanto Bervely encarava a estranha criatura, ela oscilava entre a forma fantasmagórica de um pé só e uma nuvem indistinta de névoa, a depender da velocidade com que se movia. Localizando-a através de sua contenção, a criatura fez um horrível barulho de sucção contra o vidro.

Johanne, à sua direita, se sobressaltou e esbarrou na pilha de livros que estivera investigando. Eles desabaram todos no chão e ela soltou uma exclamação de dor.

— Ouch! O que foi esse barulho? – perguntou, esfregando o pé esmagado por um pesado volume de Criaturas da Floresta e Como Lidar com Elas.

— O novo bicho de estimação de Lupin… acho. – Bervely olhou duvidosa para a coisa dentro da caixa. E ainda tinha gente que lhe julgava por ter uma aranha…

Remus voltava da salinha contígua ao seu escritório, trazendo uma bandeja com três xícaras de chá lascadas. Ele ofereceu uma para Bervely e depois ajudou Anne a pegar uma sem se queimar, enquanto esclarecia:

— É um hinkypunk. Uma criatura dos pântanos, levei para a minha aula do terceiro ano essa segunda.

— Por que o terceiro ano fica com todas as coisas legais? – Anne reclamou, ao mesmo tempo em que tateava seu caminho até uma cadeira. – Eu quero hinkypunks também. E gryndylows! E quanto ao bicho papão, porque não tivemos ainda o bicho papão em nossa turma?

Remus trocou um breve e divertido olhar com Bervely, que ergueu as sobrancelhas por trás da sua xícara. A verdade é que ela não sabia muito bem como fora parar na sala do Prof. Lupin em pleno fim da tarde de terça feira; em um momento esbarrara com a irmã no corredor, e no outro a menina estava lhe puxando pela mão 'para fazer uma visita ao tio Remus, para ver como ele está se recuperando'.

Não muito bem, Bervely reparou. Lupin tinha suas olheiras aprofundadas, e as roupas pareciam frouxas em seu corpo. Ele no entanto se portava de forma tranquila, como se há poucos dias não tivesse empreendido uma transformação feral e compulsória.

— Vou levar criaturas para a sua turma quando você e seus colegas estiverem seguros nos feitiços defensivos. A maioria parece não ter treinado o suficiente deles no ano passado.

— Isso porque o prof. Lockhart era um banana que só falava. – Anne resmungou. Foi a vez de Lupin erguer suas sobrancelhas, um ar de surpresa em seu rosto. Bervely, que teria dito algo parecido sobre o professor, quase engasgou com o chá tentando não rir.

— Essa é uma crítica e tanto. – ele disse por fim, contendo um sorriso. – Espero que no fim do ano, você tenha algo ligeiramente mais positivo a dizer sobre mim.

— Eu direi que você é o melhor professor que já houve em Hogwarts. – Anne sorriu amplamente.

Bervely girou seus olhos nas órbitas. O que ela estava fazendo mesmo em meio ao momento comovente entre afilhada e padrinho? Pousou a xícara ainda cheia sobre o pires e se levantou, alisando a saia de pregas.

— Eu preciso ir, hoje é o meu dia de fazer a ronda. Então se me dão licença…

— Fica mais um pouco, Bevy. – a irmã pediu, girando seu rosto na direção dela. Voltara a usar os óculos antiquados de Andie, que eram grandes para seu rosto, mas cumpriam bem o objetivo de ocultar seus olhos prateados – Você só tem tempo para essas coisas de monitoria agora.

— Você, por outro lado, está com tempo livre demais. Por que é que estava vagando pelo terceiro andar ao invés de estar em aula?

Johanne enrubesceu, virando o rosto para o outro lado e fingindo que terminava seu chá. Bervely estreitou os olhos para aquele comportamento suspeito, mas logo percebeu do que se tratava.

— Poções. Claro. – constatou com uma cara feia. – Nós vamos dar um jeito de você voltar. Vou falar com a Prof. Minerva ou com o diretor, eles garantiram que dariam um jeito de você ter a sua educação mágica integral, se lembra?

— Não adianta, ele não vai me aceitar de volta, ele me odeia.

— Ele não te odeia. – retrucou com impaciência – Ele odeia todo mundo, é meio que a coisa dele.

— Do que vocês estão falando? – Remus interrompeu, preocupado e perdido – Quem odeia Anne?

— Prof. Snape. – a mais nova explicou, deixando os ombros caírem. – Ele me expulsou da matéria depois que eu derrubei poção nos sapatos dele sem querer.

— Longbotton já fez coisa pior… – Bervely argumentou com impaciência.

— Mas isso é diferente!

Tanto Bervely quanto Remus se espantaram com o tom brusco da menina, cujas bochechas estavam muito vermelhas agora. O professor lançou um olhar questionador para Bervely, que deu de ombros; não fazia a mínima ideia de onde aquela explosão viera. O bruxo se aproximou da afilhada e pousou uma mão em seu ombro.

— O que quer dizer, Anne?

— Que Snape me odeia porque ele sabe de quem eu sou filha.

— Isso é ridículo. – Bervely disse automaticamente. Remus formou uma ruga de atenção em sua testa, levando a afirmação à sério.

— Ele disse isso?

— Não… ele não disse, mas eu sei que ele sabe. Ele comentou… qualquer coisa sobre ter olhado minha ficha escolar e encontrado evidencias para a minha inaptidão em poções. E você mesmo falou uma vez que vocês não se davam bem nos tempos de escola, isso era verdade para eles também, não era?

A informação era novidade para Bervely, que se viu inclinada a retornar à sua cadeira.

— Anne, se você se sentir lesada pela conduta de um de seus professores em sala, há coisas que podem ser feitas a respeito. Eu mesmo posso conversar com o diretor. – Remus ofereceu com seriedade, mas não obteve resposta da afilhada, que cruzara os braços e tinha a sua cabeça abaixada.

Bervely aproveitou a janela de silencio para explorar sua curiosidade.

— Snape e Black não se davam bem nos tempos de escola?

O professor olhou para ela com uma expressão incerta. Como sempre, parecia medir o quanto poderia lhe confiar de informação sobre Black, como se ela fosse usar qualquer nova informação de forma perigosa.

— Eles tinham as suas desavenças. Ele e James principalmente, mas nós quatro no fim das contas.

— Vocês quatro? — ela perguntou, já que só estava contanto três, incluindo o próprio Remus.

— Os quatro Marotos. – Anne disse baixinho, esquecendo-se por um momento sua chateação com Snape.

— Marotos? – Bervely nunca tinha ouvido aquela intitulação antes. Pela cara que Remus fez, essa era parte da informação que ele não pretendia liberar.

— Era só um nome para o nosso grupo, coisa de adolescentes. – explicou num tom de banalidade que não a convenceu – em todo caso, éramos eu, James, Sirius e Peter…

Pettigrew? — lembrou-se, sem conseguir disfarçar o desprezo. Aquele fora o bruxo covarde que fizera Sirius ficar doze anos em Azkaban.

— Eles tinham apelidos legais e tudo. – disse Anne, alheia ao franzir de sobrancelhas do padrinho – Faziam sucesso na escola, não é, tio Remus?

— Bem, a questão – Lupin pigarreou, dando a pergunta da afilhada como retórica – É que um dia, Sirius… Black pregou uma peça em Severus, uma de muito mal gosto por sinal, e desde então os dois passaram a alimentar um ódio mútuo que durou o restante dos tempos de escola. Eu jamais poderia imaginar que algo tão juvenil poderia perdurar por todo esse tempo, mas se Anne estiver certa, Snape não foi capaz de superar o seu rancor por todo esse tempo.

— Bom, isso depende do tipo de peça que Black pregou em Snape, não é mesmo? – disse Bervely, que entendia muito sobre guardar rancor.

— Não vem ao caso o que foi. Poderia ter terminado de forma desastrosa, mas James caiu em si no último momento e evitou um desfecho trágico. – Remus finalizou parecendo ligeiramente desconfortável.

— Como em, James Potter salvou a vida dele? – ela perguntou ceticamente. Remus não confirmou, mas estava claro em seus olhos castanho-amarelados que era o que tinha acontecido, e Bervely podia imaginar a humilhação que o padrinho teria sentido ao ter a vida salva por um colega com que antipatizava.

— Qual era a peça que Black queria pregar em Prof. Snape? – Anne perguntou de repente. Bervely também estava curiosa, de forma que olhou interessada para Remus, mas sua expressão tinha se fechado.

— Como eu já disse, não vem ao caso, isso foi há muito tempo.

— Você sempre faz isso! – a menina se queixou, cruzando os braços de novo. – Sempre esconde coisas sobre Black, para não me deixar saber o que ele era de verdade!

— Anne, nós já conversamos sobre isso…

— Não! – ela protestou, ficando de pé. – Eu já sei, não precisa ficar me protegendo! Já sei que ele era assim desde os tempos de escola!

— Assim como? – Bervely olhou de uma expressão transtornada para a outra.

— Um monstro! Black era um monstro desde de sempre!

— Anne! – Remus chamou, mas a menina deu as costas e saiu esbarrando em coisas até o fundo da sala, longe do alcance deles. O lobisomem deu um pesado suspiro e esfregou a ponte do nariz. Claramente não era a primeira vez que aquele dialogo acontecia entre os dois, com um desfecho parecido. Ele abriu os olhos de novo e meneou a cabeça para a sonserina – Black fora da prisão está mexendo um bocado com ela.

— É, nem me fale. – assentiu, olhando por cima do ombro dele, para a irmã debruçada na janela. Sua inquietude era palpável mesmo à distancia.

— Eu ouvi dizer que ela teve uma espécie de crise no Halloween, quando ele invadiu a escola. – Remus comentou num tom baixo e preocupado.

— Ela estava achando que ele viria atrás dela. – lhe respondeu com economia, observando a expressão no rosto de Remus para ver como ele recebia a informação. – Acha que ele faria isso? Vir atrás de uma de nós?

— Eu não sei. – ele disse cuidadosamente – Não foi a torre da Grifinória que ele tentou invadir?

Ela deu de ombros.

— Talvez ele seja arrogante a ponto de pressupor que é onde as filhas dele estariam.

Uma sombra de sorriso perpassou o rosto de Remus, mas se foi tão rapidamente quanto veio. Estava sério quando concordou.

— Na verdade, isso soa como algo que ele pensaria. Aceita mais chá?

Ela assentiu, pensativa. Ao fundo, Anne se movimentava pela sala, tateando aqui e ali os pertences expostos de Remus. Livros de Defesa, pequenos instrumentos mágicos de detecção de magia e proteção, caixas de madeira e miniaturas colecionáveis de criaturas. Bervely sabia que a irmã estava ouvindo atentamente a conversa que se desenrolava entre eles, mesmo que fingisse estar distraída. Seus ombros, por debaixo da cabeleira negra, continuavam tensos.

— Então você também acha que Black sempre foi um monstro, desde a época que você o conhecia?

Lupin deliberou antes de responder, seus olhos dourados perdidos no nada enquanto bebia da segunda xícara. Ela não soube dizer se ele estava fazendo uma revisão do seu julgamento ou se tinha a resposta pronta, mas tentava decidir-se como iria transmiti-la à filha de seu antigo amigo com uma comensal da morte.

— Não. Sirius era uma boa pessoa. Ele era um bom amigo e quando Johanne nasceu, ele tentou seu melhor para ser um bom pai. Então algo aconteceu… e ele mudou. É isso que a guerra faz, Bervely. Ela muda as pessoas.

— Você realmente acredita nisso? – perguntou, deixando-se levar pelo assunto mais do que deveria. Lembrava de ter tido uma conversa parecida com Remus da primeira vez que tinham se encontrado, no velho apartamento de Olivia em Londres, mas naquela época pouco se conheciam e Bervely ainda não sabia qualquer coisa sobre Sirius. Na época, não fazia ideia do quanto Remus estava errado sobre o que Black havia se tornado.

— Se eu acredito? Não é questão de acreditar, é? Os fatos falam por si mesmo. Black nos traiu, isso é toda informação de que preciso. – o tom dele tinha a pretensão de soar neutro, mas não conseguiu. A amargura estava estampada do lado avesso e fazia sombra inevitável em suas palavras.

— E se não fosse? E se houvessem mais coisas… e você apenas não soubesse? – Bervely se ouviu falar, o coração disparar de ansiedade.

Remus lhe olhou em desconfiança. Do que ela estava falando? Bervely estava pronta para abrir sua boca e despejar a verdade, toda ela, num surto de coragem estranho e inconsequente que poderia dar muito errado, caso Remus não acreditasse nela.

A não ser pelo fato de que ele queria acreditar, ao menos era o que ela achava.

— O que quer dizer? – ele lhe perguntou cuidadosamente. Ela respirou fundo.

— Eu…

Um grito estridente cortou a sala, e ambos se viraram para a direção com sobressalto. Para a sua surpresa, encontraram um gigantesco cão negro parado entre os livros, com todos os seus pelos eriçados, olhos vermelhos e dentes arreganhados na direção de Johanne. A sua postura ameaçadora indicava que um ataque estava à caminho, no momento em que ele achasse o ângulo certo de sua garganta.

Como era possível…?

Fora Johanne quem gritara e ela continuava gritando, tendo se abaixado até o chão, as mãos cruzadas sobre o rosto. Bervely saltou da cadeira até o fundo da sala antes que pudesse pensar, se colocando entre a fera e a irmã.

— Mas o que é que você está fazendo?! – exclamou, protegendo a menina às suas costas. No momento em que a fera a viu, se transformou com um plop, se era humana.

E ela soube que havia algo terrivelmente errado.

Sirius Black estava lá – mas não o que vira há poucos dias sob o Salgueiro Lutador, preocupado, com um brilho enérgico em seus olhos escuros. Aquele não tinha brilho nenhum – seus olhos eram vazios, escuros e apagados, bem como o resto do seu rosto. A pele era macilenta, esticada sobre os ossos num tom doente de amarelo. Os braços caídos ao lado do corpo, a postura frouxa, e o pior de tudo, ele não olhava em sua direção, ele não a via, nem a ela, nem a nenhuma outra coisa.

Bervely sentiu um arrepio de profundo horror. Os dementadores tinham-no encontrado, percebeu. Sirius Black não tinha mais uma alma… era um homem dementado.

— Aqui! – Remus estava ao lado delas, chamando atenção da casca oca do prisioneiro. No momento em Bervely pensou que não adiantava, pois ele não iria ouví-lo, então Black se transformou numa lua cheia pairando sobre as nuvens, e o lobisomem floreou a varinha – Riddikulus!

A lua virou uma bola de borracha e saiu quicando pela sala até desaparecer dentro de um baú, que foi fechado com um feitiço de tranca.

— Jô, está tudo bem, isso foi só um bicho-papão, eu sinto muito. – ele correu para a afilhada, que tinha caído no chão entregue à um choro convulsivo. Bervely deu espaço para que ele passasse e a acolhesse, então ela virou a cabeça e olhou de novo para um baú. Seu coração tão enlouquecido e as pernas tão tremulas, que estava difícil entender o que acabara de acontecer.

Bervely desabou no batente da escada, os joelhos enfim cedendo, e tentou se controlar. Johanne estava com a cabeça enterrada no pescoço de Remus, como uma criancinha consolada após ter um pesadelo terrível. Que era mais ou menos como a própria Bervely se sentia, a não ser pelo fato de que fora real e acontecera bem na sua frente.

— Você está bem? – Remus lhe perguntou por cima do ombro da afilhada. Ela assentiu, com a consciência de que devia estar muito pálida.

— Isso foi…

— Um bicho-papão que tenho usado em algumas aulas esse ano. – ele explicou ao mesmo tempo em que dava batidinhas nas costas da menina mais nova. – Anne deve ter aberto o baú sem querer.

— Desculpe. – Anne choramingou, sua voz abafada pelo paletó de tweed do professor.

— Está tudo bem, você não tinha como saber.

Bervely pediu licença e foi até o banheiro do professor, lavando seu rosto na água fria. O espelho mostrou que o susto tinha deixado seus olhos num tom elétrico de violeta, que Bervely tratou de desfazer enquanto tentava tirar a imagem de Sirius Black dementado da sua cabeça.

Quando retornou à saleta, Anne estava de volta à cadeira, bebendo um chocolate quente.

— Eu retiro o que eu disse sobre querer uma aula com Bicho-Papão. – disse em tom de constrangimento ao ouvir a sonserina passar ao seu lado. Bervely deu uma batatinha solidária no topo de sua cabeça.

Remus ofereceu à Bervely uma xícara de chocolate, mas ela recusou.

— Eu preciso voltar para o Salão. Está quase na hora do jantar. – Não pretendia jantar, perdera completamente a fome, mas Remus Lupin não precisava saber disso. Ele já a olhava com atenção redobrada, provavelmente intrigado com seu bicho papão. – Anne, você vem comigo?

— Eu prefiro ir para a minha torre. – ela disse baixo.

— Eu posso acompanha-las. – Remus se prontificou, mas Bervely meneou a cabeça.

— Acho meu caminho, obrigada. Anne… você vai ficar bem? – a menina assentiu. – Tem certeza? Sabe que pode me chamar se precisar. Nesse caso… boa noite.

O professor a seguiu até a saída, e pousou uma mão em seu ombro quando passaram pela porta. Bervely girou o corpo, se afastando do toque dele ao mesmo tempo que o encarava, impaciente.

— O quê?

— Eu imagino que esteja desconfortável por ter seu maior medo exposto dessa maneira. – ele disse, a olhando nos olhos. Bervely não tinha reparado antes mas o amarelo feral podia ser opressor, ao invés de bondoso.

— Não é o que está pensando. – ela disse na defensiva. – Eu não tenho medo de Black.

— Não. – disse o lobisomem, perspicaz. – Você tem medo por ele.

Ela o encarou em desafio silencioso. Não ia permitir que aquele bruxo achasse que tinha algo contra ela.

— Você não deveria, no entanto. – completou ele em tom de conselho e ao mesmo tempo, advertência. Quando ela não fez menção de lhe responder, a parcela de advertência aumentou – Black é perigoso, Bervely.

— Eu não sei do que está falando. – lhe garantiu.

Ainda bem que não lhe dissera a verdade, Bervely pensou, enquanto tomava o caminho para seu dormitório nas masmorras.

Remus Lupin não teria acreditado.

— BD –

No final de novembro, Corvinal esmagou Lufa-Lufa no quadribol.

Essa seria uma informação completamente irrisória na vida de Bervely, não fosse o fato de que era todo o assunto sobre o qual Oliver Wood era capaz de falar na aula de Astronomia que se seguiu à partida.

— Não podemos nos dar ao luxo de perder outra partida, mas Grifinória tem chances, eu estou otimista sobre a taça mesmo com o contratempo do último jogo. – ele proclamou não para ela, mas para o resto do grupo misto que preparava os mapas estelares uns dos outros naquela semana. A outra sonserina sentada à mesa era Pacey, que, muito concentrada nas medições do quarto quadrante, ignorava a existência dos demais colegas.

Era um dom que Bervely não tinha. Não conseguia se concentrar com o falatório incessante do capitão.

— Contratempo, Wood? Seu apanhador despencou da vassoura feito uma fruta podre, se eu bem me lembro – ela comentou, sem tirar os olhos de seu trabalho. Apesar de não estar olhando para o grifinório, podia adivinhar a cara de exasperação que ele fez quando retrucou.

— Harry está resolvendo os problemas dele com dementadores, Black. Mas e quanto ao seu apanhador, como ele está lidando com a própria covardia? Fingir que está machucado para escapar de jogar sob um chuvisco… bem sonserino, se você sabe o que quero dizer.

— Se isso significa que somos bons estrategistas, eu sei exatamente o que quer dizer, Wood. – ela lhe deu uma piscadela por sob a franja comprida.

Ele estreitou os olhos perigosamente, ao alcançar seu olhar. Bervely esperou o rebote com interesse, enquanto que o resto da mesa – três grifinórias que ela não fazia questão de saber como se chamavam – olhavam de um para o outro como se assistissem um duelo de varinhas. A tensão em seus rostos era engraçada, mas justificada, afinal Wood estava alfinetando a monitora-chefe sem demonstrar temor ao perigo e não era como se Grifinória pudesse se dar ao luxo de perder mais pontos.

— Você chama como quiser, não muda o fato de que foi má fé do seu time sair no último minuto e você sabe disso. – ele disse com azedume.

— Se você tem queixas sobre o meu time, por que não conversamos sobre isso no fim da aula? – ela lhe disse muito séria, voltando os olhos ao trabalho.

— Pode apostar que eu tenho. – Oliver resmungou, molhando a ponta da própria pena com muita força no tinteiro, respingando tinta no trabalho da colega.

— Não vale a pena, Oliver. – disse uma das grifinória, baixinho, quando o silencio recaiu sobre o grupo. – A gente esfrega na cara deles a nossa vitória, na próxima partida…

Quando a aula acabou, Bervely dobrou seu trabalho e foi uma das primeiras a sair, se adiantando pela porta antes que os colegas sequer fecharem as mochilas. Ela ficou parada nas sombras do corredor e puxou seu alvo pela gravata quando ele passou, o levando até as sombras detrás de uma pilastra ao pé da torre.

— Então você tem queixas? Eu sou toda ouvidos. – disse, quando estavam ocultos de quem passava a caminho de suas salas comunais. Oliver, passado o espanto pela abdução inesperada, lhe deu um sorriso travesso.

— Eu meio que já superei essa coisa do primeiro jogo, na verdade. Foco no futuro, nenhuma estratagema desonesta dessas cobras que você chama de colegas vai me impedir de ganhar a taça esse ano.

Havia um brilho fanático-obsessivo nos olhos dele que era o de sempre para o assunto quadribol, mas potencializado umas cem vezes, mais ou menos.

— Continue a ofender minha casa, e você vai precisar ser amarrado à sua vassoura para conseguir jogar a próxima partida.

— Uau, agora eu estou com medo de verdade. Você me puxou aqui para me intimidar? Isso é baixo, mas é a cara de "vocês".

Ela lhe deu um sorriso cínico e tirou o pergaminho dobrado do bolso; o mesmo que estivera rabiscando durante a aula, como Oliver identificou.

— Pegue.

— Seu dever de casa? Não me diga que escolheu fazer meu mapa astral? Romântico…

Suas sobrancelhas se franziram para o que obviamente não era um mapa astral e ele lhe lançou um olhar confuso.

— Você disse que só voltaria se eu te desse um mapa, então ai está. Seu mapa. – Bervely explicou calmamente.

— Oh. – o sorriso travesso voltou ao seu rosto potencializado, quando Oliver finalmente entendeu do que se tratava.

Razão pela qual quando a porta do seu quarto se abriu, cerca de uma hora mais tarde, Bervely se perguntou se colocara a senha no mapa. Mas não, ela não tinha, como ele descobrira?

— Cavalheiros batem na porta, pelo menos da última vez que eu chequei. – disse com sarcasmo. No entanto quem acabara de entrar era Tara, ainda com o uniforme do dia e seu cabelo preso num rabo de cavalo desleixado. Ela olhou suspeitosamente para Bervely, num meio sorriso.

— E da última vez que eu chequei, eu não era um cavalheiro. – fechando a porta atrás de si, ela olhou a colega de cima a baixo e seu meio sorriso virou um inteiro, maldoso – Esperando alguém, monitora-chefe?

— Certamente não você. – retrucou, voltando a sentar em frente ao espelho e escovar o cabelo. Ignorou o constrangimento por estar usando um conjunto de saia e blusa que normalmente não usaria dentro do quarto, como Tara bem sabia, pelo jeito com que lhe olhava.

— Pena. Eu aprecio um esmero de vez em quando. – a sonserina ruiva deslizou até a poltrona preta de brocados, que era claramente seu móvel preferido no quarto, e sentou de modo a ficar observando Bervely. Não parecia com pressa.

— Direto ao assunto, Tara, se não se importa?

— Só vim ver se a Wolfsbane ficou pronta. – ela disse mansamente, enrolando um cacho vermelho no dedo. Bervely a via através do espelho, toda languida com seus olhos verdes postos nela de forma interessada.

— Você sabe bem que Wolfsbane só fica pronta quatro dias antes da lua cheia.

— Ah. É que consegui um jeito de escapar da escola esse fim de semana, parece que a minha avó está morrendo e quer que eu dê um pulo na Romênia antes de bater as botas. Eu ia aproveitar e passar em Bae, na volta.

Bervely perscrutou o rosto perfeito da colega no reflexo, sem encontrar nenhum pesar ali, só tédio.

— Seu pai não vai desconfiar se você desviar o caminho? Ele não vai acompanhar você?

— Improvável, é a minha avó materna que está mal.

— Ah. – Bervely terminou de alinhar os fios do jeito que queria e deu um sumiço nas olheiras usando metamorfomagia, discretamente para que Tara não percebesse. – Nesse caso, boa viagem. Wolfsbane vai estar pronta quando você voltar, vamos dar um jeito de enviá-la por coruja.

— Não é seguro. – Tara disse, ajeitando as postura. Bervely rolou os olhos.

— Seu pai não tem como interceptar todas as corujas do país, Tara. Vamos encontrar uma de que ele não suspeite.

Ela fez uma careta incerta, ao mesmo tempo que Bervely se levantava e olhava no relógio.

— Você tem que ir agora. – avisou com firmeza, andando até a ruiva e lhe dando um leve empurrão no ombro. A garota se levantou de má vontade e se inclinou na direção de Bervely, fungando.

— Minha nossa, você está cheirosa. Estou ficando com ciúmes desse jeito, B.

— Vai pro inferno. – disse automaticamente, ignorando o calor subindo ao seu rosto. Não foi até quinze minutos depois ter conseguido espantar a colega do seu quarto que o convidado chegou, batendo na porta.

— Você demorou. – reclamou com leve mau humor, ao mesmo tempo percebendo que Oliver tomara banho e trocara de roupa. Vestia calças de treino folgadas e um casaco preto de mangas que lhe caia proibitivamente bem. Cheirava à loção masculina, o oposto completo do aroma adocicado de cereja que Tara deixava para trás depois de suas visitas.

— Sinto muito, foi a gata de Filch. Precisei despistar ela com um feitiço animado todo o caminho do terceiro andar. É difícil atravessar a escola inteira após o toque de recolher com essa patrulha reforçada acontecendo, sabia?

— Se eles te encontrarem, é só dizer que está indo treinar de novo. Podem até te dar uma detenção, mas ninguém vai duvidar que é verdade.

— Espertinha, você. – zombou, andando até onde ela estava e passando os braços ao redor da sua cintura. O contato com o corpo quente e cheiroso dele era, por mais estranho que fosse, exatamente o que ela precisava. Fechou os olhos quando Oliver beijou um ponto especifico do seu pescoço. – Eles certamente não iam desconfiar que eu estava vindo para o quarto da monitora-chefe sonserina…

— Assim eu espero. – concordou, rouca, sentindo os arrepios familiares subirem pela sua coluna em resposta aos lábios dele escovando seu queixo, bochecha e finalmente lábios.

— Mas acho que temos uma espiã em potencial. – disse, se afastando um pouco dela. – Por acaso você sabia que aquela sua amiga Holmes estava rondando o corredor agora mesmo?

— Ela estava? – ela franziu os lábios, nem um pouco surpresa. – Não precisa se preocupar com Tara.

— Ela, hum… estava aqui com você, antes de eu chegar?

Bervely se afastou para olhar o rosto dele, divertida.

— E se ela estava, qual o problema?

— Bem, é só que… vocês estiveram se beijando ano passado, se eu bem me lembro. – ele corou, tentando bravamente soar casual – Então vocês… estão? De novo, digo?

— Olha só pra isso – ela zombou, enfiando seus dedos no cabelo da nuca dele, arranhando o couro cabeludo de Oliver com as unhas, ao mesmo tempo que um sorriso ferino surgia em seu rosto – Quem é que está com ciúmes agora, hein, capitão?

Ele estreitou os olhos, mas Bervely ficou na ponta dos pés e capturou sua boca macia na própria, decidida a evitar que a discussão tomasse tempo que podiam gastar fazendo outras coisas.

— BD –

Pelo resto da semana seguinte, Bervely teve outras coisas com que se ocupar. Houve um extenso trabalho pratico de estudo das plantas carnívoras na quarta feira e na quinta ela teve os dois últimos horários vagos, o qual aproveitou para pesquisar na biblioteca.

Após de ir jantar, passou no corujal para enviar a sua resposta à Tonks, e não ficou surpresa ao encontrar Anne sentada sobre o batente em que tinham estado conversando no Dia das Bruxas. A menina tinha uma coruja caramelo pousada em sua perna, bicando pedacinhos de biscoito de sua mão.

— Você está sequer se alimentado, garota? – perguntou Bervely com severidade, lhe dando um pequeno sobressalto. Ela logo se recuperou, fazendo o esboço de um bico.

— Luna sempre leva alguma coisa pra mim depois das refeições.

Bervely foi até ela, nada satisfeita com a resposta. O corujal era no geral um lugar desagradável – fedia a dejeto de corujas, era atravessado por uma persistente corrente de ar e podia ser bem barulhento quando a noite caia e as aves despertavam.

— Você ainda está mordida com a coisa do bicho-papão? – perguntou, lembrando-se de como o evento a afetara. Anne estremeceu, comprovando suas suspeitas.

— Eu não quero falar sobre isso. – avisou, virando o rosto.

— Eu só fiquei curiosa para saber se você viu o cão dessa vez, como viu da outra, no Halloween.

— Não. – negou com a cabeça, ainda afagando a corujinha em seu colo. – Mas eu senti. E eu ouvi o rosnado, foi quase como se eu estivesse vendo, porque eu me lembrei… e eu sabia que ele ia me atacar… foi tão horrível.

A voz dela estava ficando chorosa; Bervely decidiu não insistir, por mais que a reação extrema de Anne a perturbasse.

— Remus me contou qual o seu bicho-papão. – disse a menina quietamente, depois de um tempo.

— Aquele velho lobo fofoqueiro.

— Você mentiu para mim sobre não ter medo de Black também.

Bervely percebeu que Remus não tinha lhe dito em que circunstancias estava o seu bicho-papão-Black. Ela não sabia se fora por cortesia, ou ele apenas estava poupando Anne da pior parte.

— Não, Anne, eu não menti. É complicado.

— Isso é o que os adultos dizem quando não fazem ideia do que estão sentindo.

A sonserina deu um pesado suspiro. Achava curioso que Anne a considerasse adulta; mas se fosse mesmo, saberia o que fazer naquele momento. Saberia se devia contar a verdade e arriscar virar a irmã contra si, arriscar a segurança de Black, acabar enviando-o de volta à Azkaban ou pior, concretizar seu novo pior pesadelo (que agora ela sabia bem qual era, graças ao bicho-papão de Lupin).

Balançou a cabeça, recuando.

— Você devia voltar à sua torre, Anne. Vamos, eu te acompanho.

— BD –

Quando voltava ao seu quarto no fim daquela noite, Bervely esbarrou com um elfo doméstico.

Aquele tipo de encontro era raro, mas não incomum. Por mais que os elfos tivessem ordens de estarem imperceptíveis aos estudantes enquanto faziam a manutenção dos quartos, vez ou outra eles se demoravam e eram flagrados entrando ou saindo.

Aquele em especial era familiar, e por um momento, ela achou que era Dobby. Ouvira dizer que após ser libertado por Potter ano passado, o elfo dos Malfoy fora contratado pela cozinha de Hogwarts.

Ao vê-la, o elfo fez uma reverencia longa.

— Miss. Black.

Ela franziu, enquanto a criatura se afastava. Desde quando os elfos de Hogwarts eram estrangeiros? Aquele tinha um estranho sotaque do leste-europeu…

Intrigada, entrou no próprio quarto. Tudo parecia como deixara de manhã – claramente o elfo não fizera a arrumação de rotina. Seu lençol ainda estava revirado, sua camisola embolada no canto da cama e diversos livros espalhados sobre a mesa de trabalho, alguns abertos nas páginas do Elixir de Quasar, assunto do seu último dever de casa.

Tudo como deixara… a não ser por uma presença próxima da sua janela, de costas, observando a visão turva do lago. Seu corpo gelou no momento em que o reconheceu – alto, imponente, em vestes tradicionais bem cortadas. O cabelo ruivo e comprido até os seus ombros, e quando ele se virou, o olhar ferino enfeitando seu duro rosto.

Gavril Romansek estava em seu quarto. Em Hogwarts. Isso, ou alguém soltara um novo bicho-papão em seu quarto.

— Você parece surpresa em me ver, Srta. Black. – ele comentou tranquilamente, um sorriso deformando os lábios. Bervely recuou, procurando por sua varinha, mas a tinha colocado na mochila, fora de alcance.

— Quem deixou você entrar aqui? – perguntou com agressividade por sobre o coração disparado. Claramente não era um bicho-papão, duvidava que eles pudessem falar. – Você não pode invadir o quarto de um estudante! Você não pode simplesmente…

Bervely tentava se manter fria, mas seu cérebro era uma massa frenética de pensamentos. Não é como se estivesse presa ali – estava mais perto da porta do que ele. Por outro lado, estava desarmada, e no minuto que tentasse escapar sabia que ele a impediria, então achou por bem não se mover. Não deixe ele perceber que está com medo, pensou duramente, afastando qualquer traço de nervosismo do seu rosto.

— O que você quer?

— Num plano geral? Uma infinidade de coisas. Não que eu fosse compartilha-las com você, penso que ainda não temos esse nível de intimidade.

— Eu não sei onde Tara está. – ela disse automaticamente. Depois, quis bater sua cabeça na parede, porque se ele não soubesse que a filha estava fora do castelo, agora sabia.

Mas o bruxo riu.

— Acha mesmo que se eu quisesse saber da minha filha, eu viria perguntar a você? Por favor, você se tem em muita alta conta. O que me lembra… parabéns pelo cargo de monitoria. Isso vai ajudar um bocado em nossos planos.

—Não não temos planos. – ela disse com desprezo. – Pensei que tinha deixado claro da última vez!

Ele fez um aceno condescendente com a cabeça e começou a andar pelo quarto dela, dando uma olhada em seus livros e pertences, no seu armário de ingredientes de poções, em suas anotações em cima da mesa. Foi quando Bervely percebeu que a luz passava através dele. Gavril não estava… sólido. Ele parecia sólido o bastante, ela até sentia a presença opressora do bruxo, mas em alguma instancia, ele não era físico.

— Você não está aqui realmente, não é? – percebeu, estreitando os olhos. A descoberta a deixou ligeiramente aliviada, afinal, quanto dano um bruxo sem substancia poderia fazer, mesmo que fosse o Olho de Hórus? – O que é isso, algum tipo de… projeção?

— É exatamente o que é. – parou em frente ao espelho e a olhou com satisfação. Bervely notou que ele não tinha reflexo. – E também, não vem ao caso.

— Eu vou denunciar você à diretoria, Romansek. – avisou, erguendo o queixo – Invadindo aposentos de garotas por ai. Eles vão arrancar você do Conselho Estudantil num piscar de olhos.

— Sim, assim que conseguir provar que eu estive mesmo aqui. O que será difícil já que eu tecnicamente não estive.

— Vou falar sobre a sua projeção. Eles vão saber…

— Cale a boca, Bervely, você gosta demais de ouvir o som de sua própria voz.

Como da última vez, o som foi arrancado de sua garganta à força através de um mero aceno da mão dele. Bem, então ele podia fazer magia mesmo que seu corpo não estivesse lá. Isso não era bom. Bervely avançou para a sua mochila em busca da sua varinha, mas tomou um choque no minuto em que a tocou. Atrás dela, a porta bateu e trancou com dois ruídos secos.

Ela sentiu o familiar aperto de pânico no estômago. Indefesa e vulnerável na presença de Gavril Romansek, por que isso estava se tornando um hábito?

— Agora podemos conversar propriamente. – ele disse bem humorado, vindo para perto dela. A cada passo que ele dava, seu coração batia mais forte. – Vamos começar com algumas coisas que eu sei. Eu sei que você está ajudando seu cachorrinho enquanto ele invade a escola. Eu sei que você está acobertando um lobisomem aqui dentro, pondo em risco todo o corpo estudantil por um capricho de Albus Dumbledore. E eu sei que você está ajudando minha filha a contrabandear poção para um lobisomem fora desta escola.

Bervely tentou se debater no lugar que estava, mas quando tentou se mover, dores lancinantes aferroaram seus membros. Lágrimas brotaram em seus olhos, mas não eram só de dor – humilhação também vinha no pacote.

— Estou desapontado. – continuou Gavril, sem fazer caso da agonia dela – Achei que estávamos do mesmo lado. Eu ajudei você, não ajudei? Seu cachorro pulguento continua vagando solto, aterrorizando estudantes e destruindo a propriedade da escola. O que eu recebo em troca? Não só você se recusa a colaborar comigo, como age pelas minhas costas, ajudando aquela criança ingrata a se livrar do castigo que ele mereceu por ter fugido de casa.

Os olhos dela se estreitaram em repulsa. Romansek acabara de dizer que Bae merecia ser um lobisomem? Ela não tentou falar nada dessa vez, só olhou para ele com o maior desprezo que conseguiu.

— Eu sei o que você está pensando. – fez um gesto arrogante com sua grande mão, ao mesmo tempo que rolava os olhos cinicamente – Que vim aqui para uma retaliação. Errada. Vim lhe dar mais uma chance. A verdade é que acredito em seu potencial, Bervely. Eu sou um homem de muita fé, você vê.

Ela observou o bruxo materializar uma caixa comprida sobre a sua mesa. Era simples, de madeira escura, tinha um par de runas na tampa e nenhuma tranca.

— Meu pedido é simples. Até domingo, eu quero Wolfsbane aqui dentro. Não a poção – ele esclareceu, lhe dando uma piscadela – Sei que a consegue com bastante facilidade na mão da aberração que chamam de professor. Eu quero o livro. O que me diz?

Ela arfou, sem conseguir disfarçar o impacto do pedido. Haveriam implicações em entregar Wolfsbane Edition para ele; e eram muitas. Ela prejudicaria muitas pessoas. Ela decepcionaria pelo menos três. E se Snape sequer desconfiasse…

Sentiu que o feitiço sobre sua voz fora retirado e engoliu em seco, a garganta ardendo.

— Não posso pegar o livro. É regulamentado pelo Ministério, só é entregue nas mãos de pocionistas credenciados, eles controlam a distribuição desses exemplares mais do que controlam os próprios lobisomens!

— Eu tenho certeza que vai dar um jeito de contornar esse detalhe.

— Romansek, eu não vou roubar Wolfsbane para você. Eu não sou uma ladra!

Ele deu o tipo de sorriso complacente de quem sabia que aquilo poderia acontecer. Muito deliberado, retirou de bolso algo que Bervely não reconheceu logo. A luz também atravessava o objeto, mas com algum esforço ela identificou a coleira de couro que fora sua companheira por doze anos e estivera em posse de Black desde o dia da fuga de Azkaban. Seu peito apertou de medo.

— Onde conseguiu…?

— Oh, por favor. Mais fácil do que tirar osso de cachorro. Não vem ao caso como eu peguei, o mais importante é o que acontece quando eu me desfizer dela. Eu posso acidentalmente perda-la perto dos dementadores que estão patrulhando a escola nesse exato momento. Sabe o que os dementadores também são, além de desagradáveis? Ótimos em rastreamento. Essa tira velha de couro os levaria diretamente para seu último dono.

— Você não ganha nada entregando Black, Gavril. – murmurou, suas narinas infladas de raiva. Ele deu de ombros.

— Tem razão, eu não ganho. Você por outro lado, perde um bocado…

— BD –

Quando Tara irrompeu em seu quarto na sexta feira, Bervely não se surpreendeu. Na verdade, ela estava esperando por aquilo.

— VOCÊ PERDEU A CABEÇA COMPLETAMENTE? – a ruiva bradou, batendo a porta com força. Claramente acabara de voltar à escola, pois ainda vestia a sua capa de viagem.

— Tara…

— Revirar minhas coisas daquele jeito! Quem te deu autorização? Mas que merda é que você estava procurando!?

Bervely, que tinha o olhar taciturno, não lhe respondeu de imediato. Ela tinha revirado os pertences de Tara em sua ausência, e não fizera questão de esconder de suas colegas de quarto o fato. Sia e Pacey não tentaram interferir, e dado o estado de espirito de Bervely, não fizeram maiores perguntas. Olga, por sua vez, tentara impedí-la, mas Bervely a afastara para trás com uma azaração consistente de sua varinha.

Ela também revirara o seu próprio quarto. Ainda estava uma bagunça, livros e roupas espalhados por cima de utensílios de poções e ingredientes em caixas e frascos. Tara percebeu tudo aquilo e recuou, horrorizada.

— O que aconteceu no seu quarto?

— Ele sabe, Tara. De tudo.

— Quê? Quem? Do que…

— Seu pai. Ele esteve aqui e ele sabe de tudo sobre Bae, o que significa que ele está espionando você de alguma maneira. Nós!

A ruiva deu um sorriso fraco, incrédulo, e começou a balançar a cabeça negativamente.

— Você ficou maluca, é claro que não… meu pai esteve aqui? Tem certeza que não imaginou?

— Eu não estou louca, se é o que está sugerindo! – Bervely saltou da poltrona preta, na direção da garota. – Ele esteve aqui ontem à noite, e eu estou tão cheia dessa merda! Ele sabe sobre Bae, sobre Wolfsbane, e de alguma forma ele tem mantido vigilância aqui dentro da escola…

— Bervely, calma ai! – ela exclamou, ao ver a menina se aproximar um tanto intempestivamente. – Que interesse meu pai teria nisso? Olha, eu andei pensando… mesmo que ele saiba sobre Wolfsbane, ele não fez nada até agora, eu acho que ele decidiu deixar o Bae em paz depois de tudo que aconteceu…

— Esvazie os seus bolsos!

— Como é?

— Seus bolsos, Tara! – sem esperar, ela meteu as mãos nos bolsos do casaco de Tara, arrancando dali o seu conteúdo. Uma caneta, a varinha de cerejeira, um maço de cigarros. Com um movimento brusco, arrancou o casaco dela e investigou os bolsos de sua calça.

— Bervely! Você está me assediando!

— Não tem graça, Tara! Tem de estar em algum lugar!

— O quê?

Mas os bolsos da calça estavam vazios, e Bervely passou a procurar em seus acessórios. Tara usava uma série de pulseiras com pingentes, um par de brincos longos e três colares de tamanhos diferentes, mas não estava em nenhum deles.

— O Olho de Hórus! – exclamou, irritada. – Não tem nenhum em meu quarto, e nenhum no seu, eu procurei, mas ele tem nos investigado de alguma forma e deve ser por você, porque tudo que ele sabe são coisas que você também sabe, de alguma maneira!

Tara tinha a respiração acelerada, mas parara de se esquivar. Com o olhar um tanto contrariado, arrancou de vez seu casaco e blusa, ficando só de sutiã. Bervely a olhou sem entender, sua visão tomada pela peça meia taça azul escura rendada contra a pele cor de leite. Quando ela levou seus braços para as costas, fazendo a menção de desfazer os colchetes, Bervely alargou os olhos em advertência.

— Tara, n–

O sutiã caiu, lhe propiciando a visão do par de seios pequenos e empinados, auréolas no mesmo tom de rosa dos lábios da garota. O vislumbre distraiu Bervely da sua antiga pretensão, pelo menos até Tara virar-se de lado e lhe mostrar um desenho tatuado na altura de suas costelas.

— É algo como isso, o que está procurando?

Foi como se seus olhos queimassem de ofensa com o desenho ali estampado. Bervely desviou o rosto, incomodada.

— Ele fez isso em você?

— É claro que não – a ruiva retrucou, contrariada – Eu fiz. O Olho de Hórus é um sinal de proteção, mas é só um símbolo, Bervely. Achei que meu pai ficaria honrado se eu o colocasse em mim. Mas ele ficou bem irritado… tentou me obrigar a tirar e tudo.

— É porque ele coloca isso nas pessoas que ele quer controlar, Tara! E até onde eu sei, ele pode estar controlando você.

— Eu sou a filha dele, não um de seus clientes. Você está paranóica, Bervely. E não seria a primeira vez que está imaginando coisas.

— BD –

A caixa negra de Gavril Romansek continuava assombrando sua mesa. Era onde Bervely era suposta a depositar Wolfsbane Edition até a meia noite de domingo, se não quisesse dar aos dementadores a chance de rastrear Sirius Black.

Ela se viu, pela primeira vez, desejando que Sirius não tentasse fazer contato.

O pior de tudo era a sensação de impotência que revolvia seu estômago. Ela não podia denunciar Gavril, o que iria dizer? "Ele projetou a si mesmo em meu quarto e ameaçou entregar Black aos dementadores se eu não roubasse um livro regulamentado pelo Ministério". No mínimo, achariam que estava louca – mas o pior era se a levassem a sério, isso e o seu envolvimento com o criminoso procurado pelo país inteiro.

Tara a evitava. Estava aborrecida, mas Bervely sentia que era temporário e não estava preocupada. Preferia que a garota ficasse longe dela, se insistia em carregar o símbolo do Olho de Hórus no próprio corpo.

No domingo, terceiro dia de lua crescente, Bervely se arrastou para o laboratório de Poções, como era esperado que fizesse. Ela queria ajudar na última fase de Wolfsbane, por mais que sua relação com Snape ainda estivesse estremecida pela sua confrontação no começo do mês, a respeito da expulsão de Johanne da matéria.

Evitou o assunto. Se o problema de Snape era um rancor mal curado com Sirius Black, pouco havia a ser fazer sobre o assunto. E no fundo, Bervely temia o que aconteceria caso o padrinho desconfiasse que ela também era filha do seu desafeto de infância.

— Você pode me passar o extrato de asfódelo por gentileza, Bervely?

— Certamente, Severus. – assentiu, esticando-se sobre o balcão para alcançar o ingrediente. Viu o cenho dele se franzir para o uso do seu primeiro nome, mas o professor não teceu qualquer comentário.

Acima da chama, o conteúdo do caldeirão de prata fervia e liberava um vapor de cheiro forte e corrosivo por todo o laboratório. No momento em que se tornasse mais fluid do que cremoso, uma pétala de flor de lua devia ser adicionada para cada ciclo da poção, e ela estava a postos com o ingrediente nas mãos para despejar no momento certo. Era um trabalho de equipe; Snape não deixaria de mexer enquanto o ingrediente era adicionado, ou a poção desandaria.

— Eu tenho uma pergunta. – anunciou Bervely de repente, franzindo suas sobrancelhas. Dissera a si mesma que não ia tocar no assunto, mas agora que estava ali, lhe parecia estupidez deixar passar.

— O que está esperando, permissão?

Sempre um amor, pensou, fazendo uma careta mental.

— Não é sobre Wolfsbane. – avisou, pigarreando à procura do melhor jeito de se expressar. – Por acaso o senhor teria, eu não sei… enfeitiçado o meu distintivo com algum encantamento além do estritamente necessário?

O prof. Snape hesitou por meio segundo no movimento da concha, antes de continuar mexendo. Nada em sua feição mudou, a não ser um pequeno estreitar de seus olhos escuros.

— Por que a senhorita pensaria isso?

Ela deu de ombros, jogando a última pétala. Não queria antagonizar com ele, mas precisava saber a verdade.

— Notei alguns sinais de que há um sobre-encantamento em curso. – mentiu. Esperou até que ele fizesse o último ciclo, e com muita concentração, diminuísse a chama até a temperatura correta para o cozimento das ervas da receita. Só então o professor ergueu o rosto e a encarou com seriedade.

— Fiz um encantamento para protegê-la de assédio desnecessário. Você deve ter reparado que, mesmo com toda a comoção em torno de Black, ninguém tem se referido à óbvia relação de parentesco que vocês compartilham por meio do mesmo sobrenome.

Ela se sentiu levemente nauseada, mas não desviou o rosto.

— A não ser Percy Weasley, naquele dia após a invasão de Black.

— O feitiço que coloquei em seu distintivo desvia a atenção de alguém que tente fazer a relação entre os sobrenomes na sua presença. A pessoa sequer percebe o que está acontecendo, se distrai no minuto em que a relação começa a se formar em sua cabeça. Weasley parece ter um nível de concentração acima do normal, de modo que conseguiu contornar o feitiço, considerando-se o fato de que este já estava desgastado. Precisa ser recarregado mensalmente para cumprir seu pleno efeito.

Bervely pestanejou, surpresa. Tinha sido tola em pensar que por nenhuma razão as pessoas vinham negligenciando a sua relação de parentesco com Sirius Black. Mas daí a saber que Severus antecipara o problema e encantara seu distintivo antes mesmo de ela chegar à escola…

— Eu nunca pedi esse tipo de proteção, professor. – reclamou, incomodada. – E o senhor deve saber, a essa altura, o quanto considero invasivas as atitudes de interferência em minha vida sem a minha concordância.

Snape estreitou os olhos. Como de costume, ele não mostrava sinais de arrependimento em seu semblante.

— E a senhorita deveria ter aprendido, à essa altura, a aceitar os favores das pessoas que se importam minimamente com o seu bem estar nesta escola.

Ela abaixou o rosto, olhando para a poção que atingido seu ponto de cozimento, resfriava. Era revoltante pensar que o seu sobrenome – algo que prezava acima de tudo desde que se entendia por gente – estava sendo obliterado por um encantamento. Quando as pessoas olhavam para ela, não a viam como um membro de uma das famílias bruxas mais puras e honradas que existiam. Eles não pensavam nisso, passavam para o próximo tópico. E qual seria esse? Quem ela era, a despeito do seu sobrenome?

— De qualquer forma, o encantamento está prestes a espirar. Em alguns dias, você já pode colher os louros de pertencer à mesma família que o homem procurado pelos dementadores no país inteiro. Boa sorte.

Eles não conversaram mais durante os preparativos finais de Wolfsbane. Quando todos os utensílios estavam devidamente lavados e guardados, Bervely se ofereceu para envasar a poção excedente nos muitos frascos sobre a bancada.

— Como quiser. E já que sabe para quem a dose é administrada, pode leva-la você mesmo. Tenho uma pilha de testes do quinto ano para corrigir ainda esta noite.

— Claro. – murmurou, espantada com o voto de confiança. – Hum… professor?

Ele se voltou, a tempo de assistir Bervely tirar o distintivo da própria roupa e estender em sua direção. A sensação era a de renunciar ao seu nome, ou de pedir para ser queimada da tapeçaria da Mui Nobre Casa dos Black, mas mesmo assim permaneceu firme. Atenção indesejada ao seu sobrenome de nada lhe serviria aquele ano.

Snape pousou a varinha sobre o distintivo e ele brilhou prateado por um segundo enquanto o feitiço penetrava. Ela o recebeu de volta sob o olhar favorável do professor.

— Uma sábia decisão, Bervely.

De modo que a aprovação dele só serviu para deixa-la mais culpada sobre o que teria de fazer em seguida.

— BD –

Wolfsbane Edition era protegido por uma série de feitiços de controle de conteúdo. Era impossível cópia-lo magicamente, e se alguém tentasse de forma manual, as letras se embaralhavam e se apagavam.

Wolfsbane Edition não podia ter suas páginas arrancadas. À menor menção de que alguém o manuseava sem a gentileza necessária, o livro se fechava violentamente sobre as mãos incautas. Visto que era um exemplar de capa de madeira com trezentas páginas grossas, a força era o bastante para pelo menos quebrar alguns dedos.

Outro feito impossível era replicar Wolfsbane Edition. Haviam feitiços complexos capazes de reproduzir livros inteiros, mas uma série de recomendações de uso nas primeiras páginas do livro advertiam que, caso sua reprodução fosse posta em curso, o livro se auto-destruiria imediatamente.

Para além disso, a receita era extensa o bastante para ser quase impossível decorá-la. Tinha oitenta e quatro passos, cada um deles acompanhados de particularidades tais quais quantidade exata, temperatura de exposição, tempo de intervalo e número de ciclos. É claro que estas variavam de acordo com a temperatura do ambiente em que se produzia a poção, da luminosidade e o tamanho do caldeirão. Ai entravam as tabelas – ao todo quarenta e duas – para que as conversões fossem realizadas com segurança. Erros na produção de Wolfsbane resultavam na morte do seu consumidor por envenenamento.

Por fim, Wolfsbane Edition era controlada pelo Ministério, da mesma maneira que a identidade de lobisomens era. Para se ter acesso ao livro, era preciso comprovar que a poção seria produzida para – e apenas para – um lobisomem cadastrado no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. O pocionista precisava retirar o livro pessoalmente do Ministério, assinar um termo mágico de responsabilidade sobre o livro e ao fim do uso, devolve-lo ou renovar sua posse com nova assinatura e contrato, uma vez a cada ano. Caso qualquer um desses procedimentos falhasse, ou se constatasse mau uso do livro, o pocionista poderia perder a sua licença.

Bervely nem queria imaginar o que acontecia caso o livro sumisse da prateleira do pocionista responsável.

Eram onze e cinquenta e duas da noite e ela estava sentada em seu quarto, observando a caixa negra sobre a sua mesa com as sobrancelhas muito franzidas. Parte dela esperava que Gavril pulasse dali de dentro exigindo sua encomenda. Não era tão improvável, afinal, o bruxo tinha o condão de surgir nos lugares mais absurdos. Como em seu quarto.

Nada aconteceu, a não ser o agravamento do nó apertado na boca de seu estômago enquanto ela tinha um olho na caixa, outro em seu relógio de parede. A sensação de ser forçada a agir contra os seus princípios era pior do que a própria chantagem, pior do que ser acossada, paralisada e calada em seus aposentos.

Onze e cinquenta e cinco, e ela se perguntou se Gavril de alguma forma tomara conhecimento de qual era o seu bicho-papão. Ora, mas que pergunta. Ele era o tipo de pessoa que tinha a capacidade de olhar nos olhos de alguém e desencravar exatamente a sua maior fraqueza, a informação que poderia usar para conseguir qualquer coisa.

Até um livro estúpido de poções. Um livro que Romansek só queria para provar um ponto. Não é como se ele tivesse a quem administrar Wolfsbane. Afinal, em suas palavras, o próprio filho merecia o castigo de se transformar em fera, por ter escapado do destino que o próprio Gavril decidira para ele.

Onze e cinquenta e sete. Bervely pensou se, em três minutos, ela conseguiria ir até o seu banheiro e vomitar. Mas então, suas náuseas eram morais, eram causadas pelo apodrecimento dos seus princípios. Se ela tivesse que vomitar qualquer coisa, seria uma bela duma vingança pelo que estava sendo levada a fazer. E naquele momento, não havia muito potencial vingativo em seu estômago.

Onze e cinquenta e nove. O ponteiro que marcava os segundos de seu relógio começaram a fazer o caminho do último minuto. Na velocidade de sempre – mas para o gosto dela, mais rápido do que o necessário.

Com um pesado suspiro, Bervely ergueu a tampa da caixa negra de Romansek. Então, cuidadosamente, pegou o livro apoiado em seus joelhos e o colocou lá dentro, fechando a tampa em seguida.

Meia noite.

A caixa tremeluziu e fez um barulho abafado de sucção. Meio minuto mais tarde, tremeluziu de novo e sua tampa se destravou com um estalo. Bervely a abriu, olhando seu conteúdo.

Lá estava a familiar e desgastada coleira de couro com a pedra da lua rachada engastada ao meio, acompanhada de um bilhete curto. Seus olhos queimaram em repulsa para as palavras rabiscadas.

"Boa garota"

(Continua…)