Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.

Muito obrigada pelas reviews *-*

Infelizmente o meu computador continua sem dar sinais de vida, mas emprestaram-me outro que vai dando para remediar um pouco a situação...

Enfim, deixo-vos aqui o novo capítulo :D

-X-


Presságios

Já há algum tempo que não era chamado ao gabinete de Irvin e não é que quisesse regressar lá, principalmente se tivesse em consideração a última conversa que tiveram. Teve que prometer a Levi que em circunstância alguma se deixaria levar, como na última vez que ali tinha estado. Era óbvio que o diretor sabia dos seus sentimentos e se não tinha certezas acerca do relacionamento era porque ao contrário de Eren, Levi sabia dissimular bem os seus sentimentos e mostrar-se indiferente, mesmo que por dentro vivesse um tumulto de emoções.

Que se recordasse, não tinha feito nada de errado. Não tinha voltado a faltar às aulas ao contrário da intenção inicial, quando pensou que teria que arcar com despesas imprevistas. Em vez disso, Levi pagou a conta extra e também as reparações, embora primeiro se tenha feito notar à Dona Graça. Aconselhado por Nanaba sobre o que devia dizer num caso daqueles, conseguiu reverter a situação a seu favor, começando com uma conversa em que tentou chegar a um acordo.

No entanto, ao escutar que pretendia manter Eren fora da casa, o professor recorreu aos argumentos legais e após deixar claro que sabia perfeitamente do que estava a falar, conseguiu inclusive descer a renda da casa que os três jovens pagavam e que era um exagero para as condições que lhes eram oferecidas.

Graças a isso, andavam menos aflitos com o dinheiro que tinham, visto que o salário que tanto Eren como Armin recebiam do café ajudava-os a manter um equilíbrio decente das contas em casa. Começavam inclusive a ter mais dinheiro para comprar alguma peça de roupa nova, coisa que já não faziam há bastante tempo.

Claro que nem tudo estava perfeito, mas isso devia-se a outros motivos que foram afastados da cabeça do rapaz com o início da conversa no gabinete do diretor.

- Eren, como sabes a competição em Sina será em maio e não sei se alguma vez terás assistido às competições nacionais dos atletas daquele colégio, mas eles têm uma espécie de hino da escola. – Explicou Irvin. – Tenho assistido aos treinos e penso que mais uma vez, o Levi estava certo. Temos a hipótese de fazer uma grande performance, mas pus-me a pensar em outros fatores que nos podiam destacar. Conversando com alguns professores, todos recordam e falam muito bem das tuas capacidades musicais. Portanto, o desafio que te proponho é o seguinte: achas que consegues compor uma música para a nossa escola?

Aquele certamente não era o rumo de conversa que Eren esperava. Entre tantas pessoas na escola, mesmo as que agora geriam o Clube de Música, ele vinha pedir-lhe logo a ele para ficar encarregue de criar uma música que representasse a escola?

- Fico surpreso que tenha pensado em mim e não...

- Tive garantias de que és a pessoa indicada para isto e também me recordo bem dos teus dotes musicais, aquando das angariações cá para a escola no tempo em que Armin foi o Presidente da Associação de Estudantes. – Falou Irvin. – Confesso que quem falou da tua veia musical com mais detalhe e me revelou que além de cantor e guitarrista, também és um ótimo compositor, foi a Hanji.

- É muito amável da parte dela... – Sorriu ligeiramente. – Mas posso tentar. Preciso de tempo.

- Claro. Darei o tempo que precisares, mas quanto tempo achas que demorarias para pelo menos, poderes dar-me alguma amostra do que já conseguiste fazer?

O rapaz fez um ar pensativo.

- Duas ou três semanas. Talvez, mais cedo ou mais tarde. É difícil prever. Compor não é um processo linear e depende muito da minha inspiração, mas vou fazer o meu melhor ainda que deva acrescentar uma coisa... – Levantou-se, olhando para Irvin com ar mais sombrio. – Faço pelos meus colegas, amigos e professores que merecem o meu respeito. Não por si. Que isso fique bem claro.

- Continuas aborrecido comigo por causa da nossa última conversa?

- Não sofro de amnésia. – Replicou e virou as costas, preparando-se para sair do gabinete. – Trago-lhe novidades, assim que tiver alguma coisa em mente.

- Obrigado, Eren.

Não respondeu e saiu da sala.

Recusava-se a mostrar simpatia ou mesmo tanto respeito como antes, por alguém que o quis fazer acreditar que Levi o ia deixar. Por vezes, ainda podia ver o diretor a vigiá-lo de perto quando estava com o professor, fosse nos treinos que os alunos tinham para a competição com Sina ou mesmo quando os encontrava no corredor ou perto do gabinete, ainda que os dois tivessem o cuidado de ter sempre mais alguém por perto. Nesses casos, normalmente Mikasa, Armin ou mesmo Hanji mostravam sempre um grande apoio e ajudavam ao casal, acima de tudo, quando queriam alguma privacidade.

Nesse dia, Mikasa levava o casaco novo que o irmão lhe tinha comprado no aniversário dela. Cinza, longo e de malha que continuava a fazer-se acompanhar sempre do cachecol que lhe tinha dado em criança e que ainda conservava.

Mais adiante, estava Armin que sorria enquanto Connie e Sasha contavam mais uma aventura da ida dos dois a um restaurante, onde ambos fingiram encontrar algum bicho na comida para não pagar a refeição. Essa foi a conceção de jantar romântico que os dois arranjaram para conseguir comer num restaurante mais caro e acabaram expulsos. Ymir abanava a cabeça negativamente enquanto Christa aceitava um pedaço de bolo que Sasha oferecia.

O grupo continuava o mesmo, exceto pela ausência de Carolina que se tinha distanciado de todos, apenas convivendo o essencial durante os treinos de andebol. Todos sabiam que a razão teria sido o não de Eren aos sentimentos da rapariga, que ainda cumprimentava os amigos, mas não falava muito mais além disso. Também cumprimentava Eren, mas viam que era somente por educação e não por vontade.

O jovem de olhos verdes tinha desistido de insistir em que o perdoasse, até porque já não existia nada a ser desculpado. Ele não podia ser culpado por amar outra pessoa. E portanto, decidiu que não iria sentir-se culpado por causa disso.

Tinha outras coisas em que pensar, nomeadamente em Armin que tentava todos os dias enfrentar a ideia de que tinha vivido uma ilusão. Ele continuava dedicado aos estudos e a levar a vida o melhor que conseguia.

Não obstante, a faceta diante dos amigos a quem tentava dizer que estava bem, quebrava-se ao fim de algumas horas. Em casa, em frente a Mikasa ou Eren ou simplesmente quando deitava a cabeça na almofada e chorava. A primeira vez que escutaram algo assim, tanto a rapariga de cabelos negros, como o jovem de olhos verdes entraram no quarto e sem comentários ou perguntas, deitaram-se na cama com o amigo. Por vezes, dormiam os três, outras vezes no caso de Eren ou Mikasa ter que se ausentar, um deles sempre garantia que Armin não ficava sozinho.

Eren entendia que Jean quisesse manter a distância, mas ultimamente sentia-se cada vez mais culpado por ainda não ter tentado encontrar o amigo. É verdade que Armin não estava bem, mas sabia que o outro também não poderia estar bem, sobretudo porque há mais de três semanas que não se viam. Nem mesmo ensaios, encontros fortuitos na rua, chamadas, nada.

Portanto, os concertos que deram nos últimos tempos, a ausência do amigo fez-se notar com as perguntas insistentes das fãs. Quem tratava de desviar as atenções eram Connie e Reiner, dando desculpas sobre Jean se ter ausentado durante alguns tempos por motivos pessoais, mas que em breve estaria de volta.

Annie também não fazia qualquer comentário e não mostrava espanto ao ver que mais uma vez, Jean não comparecia ao ensaio ou a mais uma noite de espetáculo.

- Faltam só mais alguns dias até ao aniversário e nós ainda estamos aqui a discutir pormenores destes. – Disse Connie, irritado com a indecisão de Sasha e Christa acerca do bolo que pretendiam fazer.

- Vamos comer o bolo e não olhar para ele o resto da noite. – Lembrou Ymir.

- Foi uma sorte a Sarah ter deixado que usássemos o espaço do café para os festejos. – Comentou Armin sorridente. – Tenho a certeza que cabeça no ar como é, nem se apercebeu de que todos lá andam com sorrisos ansiosos pela festa.

- O meu irmão sempre foi uma cabeça no ar. – Concordou Mikasa que lançou um olhar nada contente a um rapaz que quase a empurrou, deixando cair algumas folhas. Para surpresa de todos, este não apanhou mais de metade e simplesmente continuou a correr pelo corredor, distribuindo algumas folhas a todos que via.

Sasha abaixou-se para apanhar um dos papéis, curiosa pelo conteúdo, assim como todos os presentes.

- Espero que não seja uma daquelas coisas de ex-namorado ciumento a distribuir fotos em trajes menores da namorada como vingança. – Comentou Connie.

- Oh, tens que admitir que foi uma coisa divertida. – Falou Ymir.

- De mau gosto. – Corrigiu Christa, abanando a cabeça. – O que diz aí?

- É mais um daqueles mails estranhos que a cada semana, segundo dizem tem chegado a todos da escola. No início, acho que foi apenas para os mails dos professores, mas depois começou a ser distribuído pela escola. – Explicou Sasha. – É outra vez sobre o professor Levi.

- O que é desta vez? – Perguntou Ymir, bocejando em seguida. – Descobriram que já teve um caso com alguém famoso? Não vejo o que possam dizer mais, além de que segundo dizem... – Olhou de relance para Armin e Mikasa. – É bissexual e vem de uma família de posses com origens francesas. Se fosse algo mais interessante...

- "Será que o diretor Irvin sabe que contratou alguém que sofre de distúrbios mentais? Estes foram causados por um acidente que teve nos tempos de escola em que assistiu à morte de dois colegas de turma.

Até hoje, especula-se se terá sido apenas trauma por ter visto a morte de frente ou se terá sido o próprio o responsável? Afinal, famílias com dinheiro têm o poder de esconder factos e inclusive, escapar à justiça".

- Isso é terrível. – Falou Christa. – Quem escreveria uma coisa tão maldosa como essa?

- Os mails estão sem dúvida a perder o controlo. Até para os meus gostos estão a ir longe demais, acima de tudo se a história tiver algo de verdade.

- Ymir!

- Não é por mal, Christa. Não estou a julgá-lo, nem nada que se pareça. Apenas disse isso porque se tivesse no lugar dele e tivesse mesmo perdido alguém em circunstâncias que não podia evitar que nada lhes acontecesse e recebesse uma coisa dessas, anos mais tarde... estas coisas não se esquecem. – Explicou-se Ymir. – Sinceramente, espero que seja apenas mais uma brincadeira de mau gosto e não tenha qualquer fundo de verdade porque da estupidez, estes mails estão definitivamente a pisar o risco.

- Será que o Eren já viu isto? – Perguntou Mikasa baixinho ao amigo loiro que também trocou um olhar preocupado com ela.

- Se viu, já sabes que de cabeça quente, pode até querer bater em qualquer um que veja pela frente até que encontre o culpado, embora... – Armin olhava para uma das folhas, onde estava o mail. – Isto é muito estranho. Inicialmente, pensei que fosse pura estupidez de alunos desocupados a brincar com a net e o que conseguem fazer ou descobrir online.

- Também achas que não é um aluno? – Murmurou Mikasa.

- Alguém quer prejudicá-lo e não, não é coisa de aluno. – Concluiu o loiro. – Vem, vamos aos computadores da biblioteca. – Puxou a amiga que o seguiu, desculpando-se com o resto dos amigos e dizendo que tinham que ver algo na biblioteca. – Inicialmente, pensei tal como a Ymir que fosse só uma brincadeira de mau gosto, mas desconfio que exista uma verdade nisto e se houver...alguém está a tentar prejudicá-lo e eu quero tentar traçar o IP da pessoa que está a enviar isto.

- Suspeitas de alguém?

- Não me sinto à vontade para responder a isso, sem ter mais certezas. – Respondeu.

Entretanto, Hanji também tinha recebido o mail mais recente e assim que leu o conteúdo, dirigiu-se ao gabinete do amigo. Sem bater à porta como era o habitual, entrou e encontrou Levi a fechar o computador com uma expressão que indicava como também já tinha acabado de ler a mais nova informação revelada.

- Levi...

- Há demasiada gente desocupada na internet. – Murmurou entre os dentes.

A amiga fechou a porta.

- Ok, não é o Vasco. – Afirmou e viu o professor encará-la confuso. – Ele não resistiria à tortura que fiz e chegou a dar-me o pin do cartão de multibanco dele só para que me calasse, portanto, ele não andou a espalhar estas informações ou a vasculhar o teu passado à procura destas coisas.

- Andaste a torturar o Vasco? – Perguntou surpreso.

- Um bocadinho, mas aquele totó não teria a capacidade para encontrar uma coisa destas. É alguém que tem meios.

- Ou internet, Hanji.

- Não, Levi. Isto está claramente a subir de tom. Querem prejudicar-te e atingir-te. – Falou preocupada, enquanto via o amigo arrumar as coisas e preparar-se para mais uma aula. – Por favor, fala comigo. Não tentes fingir que isto não te afeta.

- Não me afeta, Hanji. São águas...

- Eram teus amigos. Viste-os morrer, Levi e eu lembro-me que até me contares o que tinha acontecido passaram meses, desde que te fiz a pergunta até conseguires dizer o nome dos dois. – Disse, deixando cair várias lágrimas e nesse momento, o amigo parou o que estava a fazer e aproximou-se da amiga, notando que tremia e começava a soluçar.

- Não fiques assim por minha causa. – Pediu e enquanto a guiava para sentar-se na cadeira, ela apoiou-se bem mais do que o habitual e Levi notou que Hanji não estava a apoiar-se mais por provocação ou mais algum momento afetuoso, estava a... – Hanji? Estás bem? Estás a sentir-te mal? – Preocupado, apressou-se a sentá-la no pequeno sofá que tinha e tocou na sua testa. – Não estás quente... – Deslizou um dos dedos até ao pescoço para avaliar a sua pulsação. – Comeste de manhã? Estás a sentir alguma coisa?

- Comi bem de manhã. – Murmurou. – É só uma tontura.

- Tontura. – Repetiu. – Outra vez? É a segunda no espaço de uma semana. Andas a dormir como deve ser? Não andas outra vez a fazer noitadas por causa das tuas investigações loucas, pois não?

- Não. - Sorriu. – Já passou, estou bem. – Puxou o amigo e abraçou-o. Este retribuiu, não sem antes deixar escapar um "tch" e para sua surpresa foi Hanji que o afastou primeiro. – Esse perfume é novo?

- Não. Foi um que a Nanaba me deu como presente de Natal. – Respondeu. – Ainda não o usei muitas vezes. Porquê?

- É um bocado forte.

- É? – Indagou, cheirando as costas da mão. – A mim parece-me semelhante aos que uso habitualmente.

- Por favor, não uses se não recuso-me a abraçar-te. – Disse, passando a mão no próprio nariz.

- Isso significa que devia encharcar-me nele e assim fugir de momentos como este. – Respondeu e a amiga riu. – Mas deixando as piadas de lado, mais uma tontura que seja e eu arrasto-te até um médico. Isso não é normal. Podes ter as tensões baixas ou coisa do género e devias...

- Levi! – A porta abriu-se, mostrando um Eren que à semelhança de Hanji também estava a desaprender a bater na porta antes de entrar.

- A vossa educação é algo de bradar aos céus. – Comentou o professor, revirando os olhos. – Qual é o problema, pirralho?

- Levi, eu... – O outro viu o papel na mão do adolescente.

- Agora não, Eren. – Respondeu, desviando o olhar. – Não quero falar disso.

- Mas nunca me contaste nada sobre...é verdade?

Hanji percebeu que o clima estava a ficar cada vez mais pesado e erguendo-se do sofá, conduziu Eren para fora do gabinete, dizendo que os dois poderiam conversar mais tarde fora, pois o adolescente tinha aulas para assistir e o professor aulas para dar.

- Professora Hanji...

- Shh. – Beijou o rosto do moreno e perto da orelha murmurou. – É uma memória que o magoa muito, que o atormenta e por isso, Eren não o pressiones. Ele vai abrir-se contigo, mas não o pressiones. Deixa que seja ele a falar-te do assunto.

- Não queria pressioná-lo, mas... – Eren deixou escapar um suspiro. – Não são coisas estúpidas. Isto está a tornar-se maldoso. Querem magoá-lo, Hanji e eu quero partir a cara dessa pessoa.

- Somos dois. – Hanji beijou novamente o rosto do aluno que sorriu. – Vamos descobrir quem está por detrás disso e fazê-lo pagar por isto, ok? – Viu o rapaz assentir. – Mas por agora, aulinhas!


Flashback

- És como um mano mais velho, Levi! – Os braços pequenos envolviam-no num abraço e mostrou a língua a outro menino.

O outro mostrou também a língua.

- Ele ganhou por sorte.

- Ele ganhou porque é o meu man melhor do mundo! – Falava a menina com os cabelos presos em duas tranças. – Diz-lhe, Levi!

A cena sobrepunha-se com outra em que acordava com o corpo dolorido, o cheiro a gasolina e sangue pelo ar. Abria os olhos lentamente e ao piscar os olhos, viu a parte dianteira do carro completamente esmagada, deixando visível apenas o sangue e alguns membros destroçados. Não havia traços reconhecíveis dos pais de Farlan, exceto pela aliança de uma das mãos que quase o fez vomitar ao perceber o cenário que tinha à sua frente. Olhar para o lado não melhorou a situação. O banco do pai do seu amigo tinha sido o mais atingido pelo embate e por isso, além de matar de imediato o pai, fez o mesmo com o próprio filho que jazia prensado e quase irreconhecível e mesmo ao seu lado, estava Isabel que sangrava dos vários cortes espalhados pelo rosto e braços, tal como ele devido aos estilhaços.

- I...Isabel... – Murmurou, forçando-se a mexer dentro do carro e viu a menina ao seu lado abrir os olhos com dificuldade e sorrir.

- Levi...

O cheiro a gasolina tornava-se cada vez mais intenso e algo lhe dizia que deviam sair dali o quanto antes. Não podia fazer nada por três dos ocupantes daquele veículo, mas ainda havia Isabel. Foi isso que o fez, livrar-se do cinto e bater na porta ao lado dele. Bateu uma. Duas. Três vezes. Bateu várias vezes até que percebeu que a única forma de sair, seria pelo vidro estilhaçado e por isso, bateu nos pedaços que ainda sobravam para poderem passar sem se magoarem muito.

- Vamos, Isabel... – Voltou-se para ao seu lado para ver lágrimas nos olhos dela que olhou paras pernas presas no meio de todo aquele metal amolgado. Ele ainda não tinha notado nesse pormenor. Não a tinha visto presa e logo tentou, puxá-la.

- Levi... não vou conseguir sair sem ajuda.

- Vou puxar com mais força.

- Vai chamar alguém... – Engoliu com dificuldade, sentindo o gosto de sangue. – Também estás com sangue... precisamos de ajuda, mano. Vai chamar por ajuda.

- Não saio daqui sem ti. – Bateu contra o pedaço amolgado que a prendia. – Isabel, não consegues...?

- Não sinto as pernas. Não dói muito... – Sussurrava. – Se calhar é bom sinal, não doer tanto. Eu espero enquanto chamas ajuda.

- Não...

- Precisamos de ajuda... como vamos sair daqui?

Debatendo-se com a resposta, olhou para o lado para ver a estrada vazia. Estavam no meio da estrada. Precisava sair e encontrar um daqueles telefones de emergência que existiam em vias rápidas como aquelas. Precisava chamar uma ambulância e deixando uma lágrima cair, prometeu que só ia sair por alguns minutos e voltaria em seguida.

Isabel sorriu. Foi a última vez que a viu sorrir.

Sorte ou ironia do destino encontrou um daqueles telefones a poucos metros e enquanto cambaleava o mais rápido que conseguia, ouviu o som do motor de outro carro e ao virar-se, apenas teve tempo de ver como um condutor descuidado não se apercebera do acidente e embatia violentamente contra os dois veículos que já tinham chocado anteriormente.

- Farlan...Isabel...

Sirenes. Chuva. Sangue. Corpos mutilados.

Entre toda a confusão, enrolado num cobertor e sentado na ambulância, repentinamente, viu a mãe entrar e abraçá-lo.

- Não pude fazer nada. Morreram mãe... não pude fazer nada. A culpa é...minha?

- Não, não mon cher. A culpa não é tua, meu anjo. – Dizia entre lágrimas e beijando os cabelos do filho.

Fim do Flashback


Já há bastante tempo que não tinha esse tipo de recordações. Obviamente que ouvir todo o tempo os alunos ou colegas comentarem sobre o mail daquela semana não estava a ajudar a manter-se indiferente a toda aquela situação. Ainda se perguntava quem teria tanto tempo livre para investigar esse tipo de coisa no seu passado.

Com um nó no estômago, não terminou a refeição e deixou que Hanji petiscasse pela quarta ou quinta vez daquilo que havia no prato dele. Cada vez que fechava os olhos via os corpos mutilados daquelas lembranças de um passado distante que se aliavam a recordações mais próximas em que se despedia de Isabel e logo via como removiam o corpo dela, de Farlan, dos pais deste...

A náusea tornou-se mais insistente e avisou as duas colegas que se juntaram a ele à hora do almoço no gabinete do mesmo, que iria arejar um pouco, pois estava indisposto.

Desde da divulgação sobre o seu salário, permanecer na sala dos professores ou na zona do refeitório reservada aos docentes era algo que Levi começava a evitar. Os colegas faziam questão de recordá-la a cada momento em que lá estava que não era bem visto ou bem-vindo naqueles espaços. Entre eles, Vasco encarregava-se de ser o porta-voz provocador e consequentemente para evitar ceder perante a vontade de desfigurá-lo, Levi passou a passar mais tempo no seu próprio gabinete. Perante essa reação, Petra tentou demovê-lo a não se isolar daquela forma, mas como juntamente com Hanji não o conseguiam convencer a sair, acabavam por juntar-se a ele no gabinete para almoçar ou simplesmente, conversar um pouco. A eles ultimamente, muitas vezes também Irvin decidia fazer parte daquele pequeno convívio.

Assim que saiu da sua sala, encontrou mais alguns alunos que cochichavam e pela forma como o observavam, só podia concluir que o assunto continuaria a ser o conteúdo daquele mail. Não lhes disse nada e apenas passou com a indiferença a que tinha acostumado a maioria dos alunos. Muitos pensavam que não importava o que acontecesse, nada atingia aquele professor. Não o diziam num bom sentido, mas sim para destacar a sua personalidade estranha e distorcida.

Nada que não tivesse escutado antes. Desde dos seus tempos de escola, antes de conhecer Isabel ou Farlan e depois de os perder, retornou ao mesmo. Prometeu que não deixaria ninguém atravessar os muros que tinha erguido ao seu redor porque essa era a única forma de se preservar. Quanto menos soubessem sobre ele, melhor. Menos o poderiam atingir. Pouco lhe podiam dizer que realmente o afetasse.

Criava uma imagem que acabava por afastar os outros. Deixava-os gradualmente menos esperançosos de obter alguma resposta. Desistiam de alcançá-lo e podia desfrutar da tranquilidade do silêncio.

Não era assim tão mau estar sozinho. Foi isso que repetiu a si mesmo durante anos.

Era melhor do que apegar-se a alguém e perdê-los. Era melhor do que deixar que o vissem e depois o pisassem na primeira oportunidade.

Isso até que apareceu Hanji e derrubou uma a uma, cada uma das suas barreiras e o fez entender como na verdade, necessitava alguém que o escutasse naquele silêncio ensurdecedor que criou à sua volta.

"Será que isso me tornou mais frágil?", questionava-se depois de entrar na casa de banho. Aproximou-se dos lavatórios e abriu a torneira. "Deixei a Hanji, o Mike, a Nanaba... será que estou a tornar-me mais vulnerável, deixando que mais pessoas estejam à minha volta? Porque se fosse antes, se estivesse sozinho, não estaria a pensar nisto. Não estaria a deixar que coisas destas me afetassem desta forma. São só comentários, são só palavras...", passou água na cara e ouviu a própria respiração agitada com as imagens dos pesadelos a sobreporem-se àquelas do acidente. Repentinamente, viu sangue. Sangue a escorrer pelas suas mãos, a escorrer da torneira, sangue que manchava o espelho.

- Não, não... – Murmurou, fechando os olhos.

"É só uma crise de ansiedade. Sim, é só isso", repetia a si mesmo.

Recordava-se de ter tido algumas quando era mais novo e se lhe dissessem que voltaria a experienciar algo assim já na vida adulta, diria que era uma piada de mau gosto.

Abaixou a cabeça com as mãos apoiadas no lavatório. Recusava-se a abrir os olhos enquanto não regularizasse a respiração que lhe soava difícil e excessivamente alta aos seus ouvidos. Ecoava naquele espaço vazio, onde estava sozinho. Onde ninguém poderia testemunhar como era difícil manter aquela indiferença a que habituava os outros à sua volta. Tentou respirar fundo mais uma vez e sentiu como a garganta em vez de dilatar e permitir a fluidez do ar, aparentemente se fechava dificultando a passagem do ar. As mãos tremiam um pouco e também a força nas pernas estava a deixá-lo lentamente.

Náuseas. Sensação de vertigem.

Ainda com receio de abrir os olhos, levou uma das mãos aos bolsos e ao notar que felizmente, trazia o telemóvel, pegou nele. Tentou focar-se somente no aparelho à sua frente quando procurou um número em específico e logo tornou a fechar os olhos, ouvindo o toque da chamada.

- Mon cher?

- Maman... – A voz soava-lhe tão mais agitada do que pretendia.

- Mon cher, o que tens? Aconteceu alguma coisa?

- Maman... – Repetiu. – Queria pedir-te um favor. Este fim-de-semana senão te importares...sei que o pai tinha planeado irem sair, mas eu precisava ir a casa...

- Claro, claro. – Repetiu. – O que aconteceu? Por favor, diz-me...

- Precisava ouvir a tua voz. – Admitiu. – Não estava a sentir-me muito bem. – Admitiu e mordeu o lábio por estar a confessar algo que só iria preocupar ainda mais a mãe, mas sentia que não devia esconder-lhe nada. – Há muito tempo que não tinha uma crise de ansiedade, mas só se ouvir a tua voz, acalma-me...

Conversaram durante alguns minutos e tal como esperava, sentia-se mais tranquilo. Sempre tinha sido assim, desde criança. Não importava o que pudesse acontecer durante o dia ou mesmo depois de uma noite de pesadelos, a mãe sabia sempre o que dizer para o acalmar.

No fim da chamada, despediu-se, prometendo à mãe que falariam melhor mais tarde sobre a visita que tanto ela, como o pai, ficariam a aguardar naquele fim de semana.

Estava a fazer o percurso de volta ao gabinete, onde tinha deixado Petra e Hanji quando repentinamente, ao passar em frente a uma das salas sentiu uma mão no braço. O instinto inicial seria bater em que quer que fosse, mas deteve-se a tempo quando ao ser puxado para dentro de uma sala de aula deu de caras com...

- Eren?

- Fui à tua procura no gabinete e só lá estava a Hanji e a Petra que me disseram que saíste. – Explicou, encostando a porta. – Sei que devemos manter uma certa distância na escola, mas estava preocupado. Eu... – Estava claramente atrapalhado com as palavras. – Não quero pressionar-te, nem nada do género. Não precisas de contar-me nada, mas se precisares...eu... posso ficar ao teu lado, mesmo que não digas nada. É só que... ah, sinto que te estão a magoar e eu não quero que me escondas isso. Também não tens que aguentar as coisas sozinho.

Após a surpresa inicial, ao escutar as palavras, mais uma vez chegou à conclusão que deixar outras pessoas entrarem na sua vida não era um erro. Principalmente, se tivesse em conta que entre elas, estava Eren.

Sorriu ligeiramente e agarrou a camisa do adolescente antes de encostar-se ao corpo dele. Envolveu-o com o outro braço e encostou a cabeça ao peito dele, inspirando o perfume de que sentia falta todos os dias em que queria fazer algo assim e não podia. Não diria uma coisa dessas em voz alta, mas sentia falta de passar mais tempo com Eren sem ter que pensar tanto nas pessoas à sua volta. Também não admitia em voz alta que estava a contar os dias para acabar o ano letivo. Não era somente uma questão de o adolescente ser maior de idade, o vínculo dele com a escola teria que terminar para que deixasse de existir qualquer tipo de problema.

Nunca imaginou que fosse tão difícil esperar que esse tempo passasse. Tudo se movia lentamente e por isso, recriminava-se porque tentava dizer a si mesmo que esse tipo de pensamentos não eram maduros da sua parte, que devia racionalizar mais as coisas e ser mais adulto.

Contudo, a partir do momento que reconheceu ter aqueles sentimentos pelo jovem a quem estava abraçado, racionalizar as coisas tornava-se cada vez mais complicado.

Eren retribuiu o abraço e acariciava os cabelos negros com uma das mãos e a outra repousava nas costas do outro que inspirava mais uma vez.

Ambos perdidos no conforto que era estar nos braços um do outro, isto até que num gesto que lhe surgiu naturalmente, Eren beijou os cabelos do outro que sentiu-se ruborizar e isso fez com que se encolhesse um pouco.

- Nã...não faças essas coisas.

- Hum, porquê? – Perguntou Eren confuso por ver que o outro tentava de alguma forma, esconder o rosto no peito dele.

- Por nada... não faças essas coisas de surpresa. – Murmurou e antes que pudesse ouvir mais alguma pergunta, decidiu mudar um pouco o rumo da conversa. – Falei há pouco com a minha mãe. Este fim-de-semana vou vê-la e penso que gostava que fosses e levasses também a Mikasa e o Armin.

- Podemos mesmo? – Viu o outro acenar positivamente. – Tenho saudades da Catherine e também do teu pai. Ligam-nos sempre pelo menos duas vezes por semana para saber como estamos e se precisamos de alguma coisa.

Levi sorriu mais uma vez ao ouvir aquelas palavras. Por vezes, perguntava-se como tinha tido tanta sorte por ter nascido com uns pais assim. Uns pais que sempre estiveram ao seu lado, sempre lhe ensinaram a fazer a coisa certa, não só através de palavras, mas principalmente de gestos.

A certa altura, consultando o relógio e a contragosto, pediu a Eren que saísse da sala na frente, pois ele sairia mais tarde. Precisavam regressar para o resto do dia de aulas, visto que a hora de almoço terminariam em menos de dez minutos.

Os comentários acerca do mail do dia continuaram nas horas que se seguiram, embora de forma mais discreta uma vez que Irvin convocou uma reunião de última hora com todos os professores em que exigiu que deixassem bem claro aos alunos que não seriam toleráveis a disseminação de coisas como aquelas. O diretor frisou que a hipótese de ser um aluno por detrás daquilo ainda não estava totalmente de parte. Mesmo assim, avisou que fosse um aluno ou um dos docentes as consequências seriam graves. Proibiu também que essas informações deixassem os portões da escola, o que seria praticamente uma tarefa impossível, tendo em conta que a internet não era um meio controlável, apenas por vontade.

Cansado pelo acumular de demasiadas noites sem dormir como deveria e também pelo número de aulas excessivo que tinha que lecionar nos últimos tempos, pediu a Irvin que o deixasse adiar os relatórios relativos à contabilidade da escola para outro dia e assim, sair mais cedo para mais uma tentativa de recuperar as horas de sono perdida.

O diretor concordou, mostrando-se inclusive preocupado com o cansaço visível no rosto do professor e chegou a querer conversar sobre a carga horário que ele tinha, mas este como não queria prolongar mais aquele dia, adiou a conversa para o dia seguinte.

No entanto, não esperava encontrar tanta agitação ao deixar o edifício, onde tinha passado o resto do dia. No exterior, os alunos cochichavam perto do local onde os veículos dos professores ficavam estacionados. Dar-se conta desse pormenor não o tranquilizou e chegou a pensar que algum dos alunos teria perdido o amor à vida e teriam feito alguma coisa ao seu carro.

Contudo, não foi nada disso que encontrou.

Parada diante do carro dele estava uma mulher. Alguém que num primeiro momento não reconheceu, pelos óculos escuros e cabelo preso por debaixo de um gorro cinzento de tom claro. Porém, ela sim demonstrou uma reação imediata ao vê-lo. Retirou os óculos escuros e com um sorriso aberto, chamou-o pelo nome.

- Hitch? – Murmurou, reconhecendo a antiga colega da escola secundária.

Ainda estava surpreso por encontrá-la ali quando ela o abraçou.

- Levi! Que saudades!

Felizmente, na perspetiva dele, o abraço durou pouco. Ela logo retirou os braços dele e apenas se manteve à sua frente com um sorriso.

- Hitch o que estás a fazer aqui?

- Tenho umas filmagens por aqui e não resisti em vir visitar-te. Posso convidar-te para jantarmos juntos e pormos as novidades em dia? Tenho tanta coisa para te contar.

A atenção criada em torno deles fez com que Levi concordasse em sair dali, pois os alunos estavam cada vez mais curiosos e só não os viu a tirar fotos mais descaradamente porque lhes dirigiu olhares homicidas.

Enquanto entrava no carro com Hitch, recordou-se que há alguns tempos atrás Hanji e Nanaba o tinham avisado que era provável que recebesse uma visita dela. Na altura, não lhe deu muita importância, pois pensou que seria pouco ou nada provável. Pensou inclusive que a colega pudesse já não recordar-se dele, embora a mãe por vezes o avisasse que a mulher agora ao seu lado, ligava e perguntava sempre por ele.

O que houve entre eles em grande parte do tempo foi somente atracão. Ela sempre soube quando e como provocá-lo e atendia sem hesitações a qualquer fantasia que tivesse. Mais do que qualquer outra química, entre eles havia uma química sobretudo sexual. Hanji chegou a dizer que ele era o único a ver as coisas dessa perspetiva, pois Hitch sempre pensou que havia mais do que isso entre eles.

À semelhança de outras colegas quando o conheceram, também Hitch demonstrou interesse por ele, mas nada correspondido. Ao ver o distanciamento dele e sobretudo que começou a fazer-se acompanhar por Hanji, o interesse dela foi-se diluindo. Pelo menos, até à primeira visita de estudo que tiveram na escola e onde um acidente inesperado fez com que ela passasse a ter uma dívida com ele. Devia-lhe a vida.

Ele voltou para trás.

Voltou por ela quando ninguém se atreveu a fazer o mesmo com receio da própria vida.

Ele voltou por ver que mais ninguém o faria.

Ele voltou porque a ideia de reviver a mesma situação de perder alguém sem poder fazer nada, alimentou a sua coragem e o fez voltar, estender-lhe a mão e trazê-la de volta para junto da família, para junto dos amigos, para a vida que ainda tinha pela frente.

Hitch quis agradecer-lhe. Quis conhecê-lo melhor e ele foi cedendo. Foi deixando que se aproximasse, deixando que se envolvesse com ele e desenvolvesse uma obsessão que sempre tentou ignorar ou classificar como alguma coisa que passaria com o tempo.

No entanto, perante as várias tentativas da ex-colega em criar temas interessantes de conversa ou mesmo fazer alguns comentários insinuantes acerca da sua aparência, recordavam-lhe mais uma vez o porquê de ter estado com ela antes. Foi sobretudo físico. Não havia qualquer interesse em conviver daquela forma e quanto mais falavam, menos coisas encontravam em comum. Ainda tentou em vão suportar mais tempo daquele jantar, mais por cortesia do que por vontade. Só que o cansaço aliado ao desinteresse total pela mulher à sua frente fez com que interrompesse mais uma das suas histórias em que reclamava de um hotel no Canadá que oferecia um mau serviço de quartos.

- Já vais pedir a conta? – Perguntou surpreendida.

- Amanhã trabalho. – Respondeu. – Além disso, acho que já conversámos o suficiente.

- Então, acompanho-te. Deve ficar mais perto do que o Hotel, onde estou hospedada. – Ofereceu-se de imediato.

- Não. – Falou num tom cansado. – Cada um vai para o seu canto. Não vim jantar contigo com essa intenção. – Esclareceu.

- Fiz alguma coisa de errado? – Perguntou num tom magoado. – Dei-te tempo, como pediste. Seguimos caminhos diferentes, mas sabes que ainda sinto o mesmo, não é? Os meus pais adoram-te. Os teus pais também gostam de mim. Chegaste a dizer-me que não acreditavas em casamento, mas não te importavas de ficar comigo.

- Estás a tirar essa frase do contexto. – Replicou, tentando conter a irritação. – Disse isso, mas não relacionado com casamento, Hitch. Sempre soubeste perfeitamente que não pensava ter uma vida em conjunto com ninguém.

- Mas também disseste que era indiferente e se é assim, porque não? – Insistiu. – Tenho a certeza que seria uma boa esposa. Sei fazer tudo o que mais gostas, Levi.

- Já não somos miúdos. – Disse, deixando alguma irritação transparecer no seu tom. – Sempre deixei muito claro o que havia entre nós. Não sei por que razão meteste todas essas ideias surreais de que depois de conhecer os teus pais, iríamos ter algum futuro juntos. Era sexo, somente isso. – Levantou ligeiramente a mão para que ela não o interrompesse. – Nunca saíamos juntos ou passávamos tempo os dois que não fosse por sexo, lembras-te? Caso não te recordes, nunca tivemos nada em comum.

- Eu posso mudar. Fiz um bom curso. Podemos ter outro tipo de conv…

- Estou apaixonado por outra pessoa. – Afirmou sem rodeios, deixando a mulher por momentos incrédula e claramente, à espera que dissesse que se tratava de uma piada.

- É a Hanji?

- A Hanji? Credo! – Disse, revirando os olhos.

- Conheço? Quem é ela…ou ele? – Tentou adivinhar.

- Não interessa. – Respondeu.

- Acho que isso seria o mínimo…

- Para quê? – Perguntou. – Para tentares ameaçar? Não, a Hanji não me contou na altura. A conversa apenas surgiu recentemente e por favor, Hitch mete uma coisa na tua cabeça. Não há, nem nunca houve nada de sério entre nós.

O empregado de mesa aproximou-se e pousou a conta sobre a mesa. Levi foi o primeiro a abrir a carteira e pagar a conta, dizendo ao funcionário que podia ficar com o troco como gorjeta. Ao levantar-se, escutou Hitch chamá-lo e consequentemente, atrair as atenções no restaurante.

Porém, ele nem ao menos olhou para trás e limitou-se a sair daquele local. Só queria ir para casa deitar-se, tentar dormir ou descansar o suficiente para aguentar os dois dias de aulas que restavam.


- Willkommen Fraulein Zoe und Herr Smith. – Cumprimentou Eren ao receber os dois conhecidos no café Kitten que aparentemente, Hanji decidira apresentar a Irvin.

- O teu alemão continua apurado, pelo que oiço. – Comentou o diretor enquanto era guiado pelo aluno até uma das mesas.

- O que vai ser? – Perguntou, mantendo o sotaque.

- Podes sugerir qualquer coisa, querido? – Pediu Hanji. – Uma boa sobremesa, de preferência com chocolate envolvido.

Eren sorriu e mostrou um dos menus que levava nas mãos e aconselhou uma sobremesa com base naquilo que a professora lhe pedia. Não era indiferente a nenhum dos três que apesar de educado, o jovem de cabelos rebeldes tratava Irvin com um certo distanciamento, falando somente o estritamente necessário.

- Estás com alguma agenda secreta relativamente ao Eren?

- Por que dizes isso, Hanji?

- Desde de há algum tempo que o noto distante contigo. – Comentou a mulher de óculos, brincando com o anel que tinha no dedo. – Não farias nada de errado com ele, pois não?

- Claro que não. – Respondeu o diretor. – Sabes bem que nunca tive uma relação fácil com ele.

- Mas ele respeitava-te e agora… é estranho. – Persistiu Hanji.

- Acho que sempre tivemos uma relação difícil, mas estou sobretudo surpreendido e orgulhoso dos progressos que fez este ano.

A professora notava a falta de vontade de Irvin em contar o que teria acontecido. Ponderou em teimar mais um pouco até conseguir obter alguma informação, mas a verdade é que desde que tinha entrado naquela escola, a relação entre Irvin e Eren sempre foi feita de altos e baixos. Por norma, o problema era a irreverência e momentos menos disciplinados de Eren.

Contudo, se o jovem agora estava bem mais calmo e aplicado, não entendia a razão que poderia ter levado os dois a terem novamente atritos. Aliás, até tinha conhecimento de que Irvin já lhe tinha pedido que fosse responsável pela composição da música que representaria a escola na competição frente a Sina.

Então, qual seria a razão?

O motivo mais óbvio que lhe assomava à memória seria alguma suspeita de Irvin relativamente ao que ocorria entre Levi e Eren.

Não obstante, se alguma vez, o diretor tinha desconfiado, a mulher de longos cabelos castanhos e presos, nunca notou nada nesse sentido. Mais do que isso, nunca ouviu nenhuma questão nesse sentido, dirigida a ela que seria quem mais saberia sobre o tema. Ainda que naquele caso, não pretendesse revelar coisa alguma.

Quanto a Eren aguardava que Marco acabasse de preparar as sobremesas que iria levar. Ouvia alguns colegas conversarem perto do balcão e teria ignorado se um deles não lhe tivesse mostrado uma fotografia no telemóvel.

- É teu professor, não é? Ele veio aqui algumas vezes com aquela ali que hoje está com o tipo loiro.

- Sim é. – Confirmou, vendo na fotografia Levi ser abraçado por uma mulher cujo rosto não lhe era estranho.

- Wow, aquele professor conhece uma atriz tão famosa? Achas que…?

- Não fazia ideia. – Respondeu, cortando a pergunta que se seguiria. – Pergunta-lhe quando cá vier. – Desviou o olhar. – Marco, ainda falta muito?

- Só mais três minutos, Eren. – Ouviu como resposta.

Tentou manter-se a leste dos comentários sobre a fotografia e rumores sobre a visita de uma atriz famosa à escola, ou melhor, apenas para ver Levi. Eren não queria assumir nada erradamente e forçou-se a pensar que antes de imaginar o que quer que fosse, falaria primeiro com o professor. Iria apenas perguntar de onde conhecia alguém assim tão famoso que pelo que ouvia, estaria durante duas a três semanas por ali devido às gravações de um novo filme que sairia em outubro.

"Devem ser só conhecidos", repetia a si mesmo, ouvindo mais um dos colegas falar das fotos que pelos vistos, estavam espalhadas pela internet, "Não quero aborrecer-me sem razão. Não quero que pense que me irrito com qualquer coisa ou que fico com ciúmes à mínima coisinha… se bem que, escusava de o abraçar daquela forma. Oferecida de merda".

- Eren podes ir levar o lixo lá fora?

- Ja (Sim). – Respondeu e passou pela cozinha para ir buscar algumas das sacas. Tentou levar tudo numa só viagem e sem ajuda de ninguém para abrir a porta, teve que servir-se do ombro para empurrar uma das portas que dava acesso à parte traseira do café. Chovia pouco, embora o vento estivesse tão gelado que chegava até a dar a sensação que cortava a pele.

O rapaz apressou-se até aos contentores e acabava de atirar a maioria dos sacos para o interior quando se assustou ao ver as pernas de alguém sentado ali ao lado dos contentores. Nunca tinha visto nenhum sem-abrigo ou mesmo gente embriagada por ali, acima de tudo, se tivesse em conta que era meio da semana.

Com cautela, espreitou para ver melhor, pois podia ser alguém que se tivesse sentido mal e deixou cair as duas sacas que ainda tinha na mão.

Abaixou-se de imediato, procurando levantar o rosto vítima de vários golpes e ensanguentado.

- Eren… - A voz soava arrastada. – Desculpa, mas não consegui encontrar outra pessoa a quem pedir ajuda…


-X-

Não há preview porque embora já tenha começado a escrever, as duas páginas que tenho podem revelar bastante sobre o que aí vem e por isso, prefiro deixar o mistério pelo ar dos acontecimentos que se avizinham.

Até ao próximo capítulo!