Olá. Essa é a última parte do capítulo INFRINGIR O IMPOSSÍVEL, acho que nela verão porque houve a necessidade dessa divisão. A parte três é a mais curta de todas, mas nela estão duas cenas que, para mim, deveriam até estar em capítulos distintos também, mas decidi deixá-las assim, apenas com uma cena a dividi-las. Quem conhece os gêmeos de Imladris sabe que eles não fazem nada separados, então, nada mais justo do que viverem uma mesmo emoção em um mesmo capítulo. Espero estar agindo corretamente e que uma cena não quebre o clima da outra. Escrever pode ser problemático às vezes.
Desculpe a demora para a postagem. A última parte estava pronta em meus rascunhos, mas não tive tempo de digitá-la. Agora roubei um tempo e o fiz, mesmo sem muita revisão. Espero não ter deixado passar erros terríveis.
Queria agradecer mais uma vez as reviews, fiquei muito aliviada por saber que minha cena final do capítulo 50 (o famoso diálogo entre Elrohir e Celebrian) não saiu dos meus eixos tradicionais e que a cena do afogamento de Legolas ficou convincente (algo em que eu não acreditava de jeito algum). Estou apenas comentando para que percebam o quão importante é, e sempre será, receber a opinião de vocês.
Muito obrigada.
Sadie
Neste mundo nada nos torna necessário, a não ser o amor."
Goethe
51 –INFRINGIR O IMPOSSÍVEL – Parte III
Já era madrugada. Uma madrugada fria e úmida, silenciosa e vazia. Elrond estava sentado diante da maca de seu consultório, seu corpo ali e sua mente dividida por todos os cômodos e corredores daquele lugar. Sentava-se agora diante de Legolas, segurando-lhe a mão para que o rapaz conseguisse desligar-se em um pequeno momento de sono que fosse, mas os sentidos do curador percorriam aqueles inúmeros quartos, checavam os sons que surgiam longe, dava-lhes argumentos, propósitos, visitava seus pacientes inconscientemente.
"Alguém está chorando." A voz do arqueiro o trouxe de volta. Elrond olhou descontente para aquele par de olhos azuis e avermelhados, novamente abertos.
"Durma,ion-nin." Ele disse, apoiando levemente a mão no peito do rapaz. "Sei que está sentindo uma série de desconfortos, mas precisa tentar dormir. Não posso ajudá-lo enquanto não tiver conversado com Elladan."
Legolas fechou e reabriu os olhos algumas vezes, soltando o ar aos poucos, o chiado que ecoava em seu peito doía em Elrond como se fossem agulhas a espetar seu coração.
"Alguém está chorando." O príncipe repetiu e Elrond sorriu conformado.
"Há uma criança na ala infantil." Ele esclareceu. "Vítima de um acidente de carro. Está se recuperando... mas perdeu os pais e a presença dos avós não a reconforta."
O rosto do elfo louro se contorceu e Elrond chegou a arrepender-se do relato triste e totalmente dispensável que fizera.
"Ele quer o urso de pelúcia. Não dorme sem ele."
Elrond franziu as sobrancelhas.
"O que disse, ion-nin?"
"O menino... quer o urso de pelúcia..."
"Como sabe que é um menino?" Elrond sentiu a pergunta escapar-lhe. Era uma criança de dois anos, mal falava algo que fizesse sentido claro, seu choro não poderia ter dado ao arqueiro aquela certeza.
Mas Legolas não respondeu, seus olhos ainda um pouco inchados estavam mais uma vez fechados, ele virou o rosto para o outro lado e deu um leve aperto na mão do curador, depois soltou o ar do peito e pareceu adormecer mais uma vez, ou pelo menos buscar fazê-lo.
Elrond intrigou-se. Seus instintos, no entanto, obrigaram-no a soltar a mão do arqueiro e aproximar-se da porta, abrindo-a com o mínimo barulho possível. Para sua sorte, Clare passava naquele exato instante pelo corredor.
"Precisa de algo, doutor?" A enfermeira aproximou-se de pronto, ao ver que o médico olhara diretamente para ela.
"Sim, minha amiga." Elrond disse, depois parou por alguns instantes, ponderando as palavras que iria utilizar.
"Pois não, doutor. Do que precisa? Estou indo para o almoxarifado agora, posso passar pela farmácia se o senhor quiser. O doutor Enosh já chegou? Decidiram o que fazer?"
Elrond balançou sutilmente a cabeça, esfregando agora a testa com o indicador esquerdo.
"Aquela criança do leito 34... Esta que continua chorando..."
"Sim. Raphael." Clare nomeou-a, ela jamais esquecia o nome de qualquer paciente. Pode ouvi-lo chorar daqui, doutor?" Perguntou então, um pouco intrigada.
"Eu... sim, quando está muito silencioso."
"O senhor tem mesmo bons ouvidos. Pois não ouço nada aqui dessa ala. Bem que eu gostaria, me seria muito útil." Sorriu-lhe então a boa mulher. "O que tem ele, doutor."
"Já indagou aos avós se a criança não tem algum objeto de estimação?"
"Objeto de estimação?"
"Sim... um animal de pelúcia... um... brinquedo de dormir."
"Como um ursinho ou algo assim? Acha que o pequeno está sentindo falta de seu ursinho de pelúcia?"
Elrond abriu a boca para responder, depois simplesmente apertou os lábios, sentindo-se um tanto ridículo por estar levantando uma hipótese como aquela para um caso que apontava para um diagnóstico inteiramente diferente. Clare, porém, assentia pensativa.
"Pode ser..." Ela disse esfregando o queixo. "Vou procurar saber, doutor."
"Agradeço." O curador limitou-se a responder.
"Posso ajudar em mais alguma coisa?"
"Não, por enquanto, Clare. Enosh ainda não chegou."
"Sim, senhor. Qualquer coisa acione o meu bip que estarei aqui no mesmo instante."
"Obrigado."
A enfermeira lhe sorriu, dando as costas prontamente, mas não indo mais em direção ao almoxarifado. Elrond pôde vê-la acelerar o passo e pegar as escadas no final do corredor, subindo provavelmente para a ala infantil. Ele sorriu. Não sabia se, em todos os hospitais, havia pessoas como Clare. Elladan insistia em dizer que não, o que, se fosse de fato verdade, seria uma grande pena.
Elrond suspirou cansado, ainda pensando no filho. Quando se voltou, porém, para entrar no consultório, surpreendeu-se por encontrar, como em um passe de mágica, o olhar intrigadíssimo do primogênito. O curador sobressaltou-se, nem sequer percebera o rapaz aproximar-se.
"Pai."Elladan nem esperou por uma saudação qualquer. "Está com uma vítima do Beco aqui em seu consultório?"
"Quem lhe disse isso?" Elrond encurvou as sobrancelhas.
"Todos do saguão de entrada. Mal cheguei e já fui abordado por aquele plantonista do PS. O homem parecia alucinado e já foi me adiantando uma história muito estranha de um lunático do Beco e uma faca. Disse que era um homem perigoso, um marginal e que o senhor conseguiu desarmá-lo e acabou trazendo-o para o consultório. O que aconteceu? O senhor está bem?"
Elrond sacudiu a cabeça inconformado.
"Vamos entrar, criança." Ele disse, abrindo novamente a porta do consultório e apoiando a mão nas costas do filho.
"É verdade, pai? Havia mesmo outras vítimas?" Elladan indagou, enquanto entrava no consultório, sua atenção ainda voltada para o rosto de Elrond, tentando ler as respostas que o curador parecia querer negar-lhe no momento. "Nem quero pensar no que Einarr vai dizer quando souber. Ele ficou repetindo que havia outras pessoas o tempo todo, mesmo quase inconsciente na ambulância..." Ele disse então, observando intrigado o pai mudar mais um de seus hábitos, trancando a porta atrás deles agora.
Um som estranho interrompeu os pensamentos do gêmeo mais velho e fez com que Elrond se sobressaltasse mais uma vez, adiantando-se e ultrapassando a proteção do biombo. Elladan ficou em pé no consultório, esperando autorização do pai para aproximar-se, não gostava de invadir o espaço de um paciente, fosse um quarto ou uma pequena ala de enfermaria, sem ser convidado.
Elrond deu a volta no biombo para encontrar o que temia.
"Menino!" Ele disse ao ver Legolas novamente em pé, seu corpo arfante encostado em um canto do consultório com olhos bem abertos de pavor. "Está tudo bem. Eu só estava conversando com a enfermeira na porta. Já estou de volta."
Legolas não mudou sua posição, encostando-se ainda mais na parede atrás dele, seu peito movia-se rapidamente e seu rosto contorcia-se de dor. Ele girava os olhos em todas as direções, como se buscasse decifrar algum outro som próximo a eles. Elrond compreendeu e apiedou-se dele, voltando-se para o filho que o aguardava próximo à mesa do consultório.
"Está tudo bem. Elladan chegou." Ele disse, acenando agora para que o intrigado filho se aproximasse. O gêmeo mais velho sentiu um arrepio correr-lhe a espinha ao ouvir-se chamado pelo próprio nome naquele ambiente proibido, mas quando deu a volta e conseguiu compreender o porquê, sentiu subitamente que suas forças iam lhe faltar.
"Elbereth..." Ele clamou e logo o braço do pai estava sobre seus ombros, trazendo-o devagar para mais perto. Elladan ainda piscou algumas vezes, unindo forçosamente as peças daquele quebra cabeças e sentindo uma dor aguda a cada imagem clara que elas formavam. "Pelos Valar, ada." Ele disse em voz embargada, enrijecendo-se como se seu corpo se recusasse a seguir adiante. Seus olhos enuviaram e, em seus ombros, um sentimento de culpa insuportável pesava mais do que se estivesse tentando erguer o mundo todo do chão sem qualquer alavanca.
Elrond não respondeu, ele apenas esfregou o braço do filho com força e Elladan sentiu que havia urgência naquele ato. Ele obrigou-se então a desviar seu olhar do que via e buscar os porquês nos olhos do pai. Mas o curador não correspondeu.
"Elladan está aqui, criança. Vai ficar tudo bem." O gêmeo o ouviu dizer e o pai soltou-se dele, encostando a mão em suas costas e empurrando-o sutilmente para frente. Elladan estremeceu, sentindo a função que lhe era atribuída, mas não conseguindo encontrar forças para executá-la. Por Ilúvatar, Legolas estava naquele Beco, estava soterrado por aqueles escombros. Por quanto tempo teria ficado? Pelo que teria passado sem que eles o tivessem resgatado? Eles que estavam ali... Que estavam ali o tempo todo.
Mesmo com todos aqueles questionamentos o gêmeo tomou o rumo pedido pelo pai, dando passos indecisos por aquele consultório e aproximando-se do amigo louro. Legolas movia então a cabeça, parecendo captar os movimentos perto dele agora. Seu rosto contorcia-se enquanto ele buscava desvendar os sons, usar estes e outros sentidos para entender o que acontecia, para ter certeza do que o mestre lhe dissera. Por fim a expressão de seu rosto se aplacou e ele soltou os lábios em uma expressão que Elladan não entendeu.
"Las..." O gêmeo ainda tentou dizer e sua voz, mesmo comprometida pelas emoções que o tomavam, pareceu soar como o que faltava para o arqueiro. Legolas olhou então diretamente para ele, mesmo sem parecer vê-lo.
"A saudade... é como a sede..." Ele disse, recitando a brincadeira que o gêmeo ensinara-lhe quando ainda era um elfinho e Elladan fechou os olhos, temendo-se incapaz de lidar com uma emoção como aquela. Quando os reabriu o mundo todo parecia cheio de esperança uma vez mais.
"Fico... feliz por encontrar água fresca agora... que meu coração já julgava... já julgava impossível..." Ele forçou-se a dizer, a fazer seu papel naquele jogo de criança que nunca ficou sem seu final, porém não conseguiu esperar mais por qualquer confirmação que fizesse ou desfizesse a idéia de mundo real a sua volta. Ele adiantou-se e tomou o amigo nos braços, mesmo ferido como estava. PorIlúvatar, nem que quisesse conseguiria privar-se daquela oportunidade de fazer aquilo, de percebê-lo real, de assegurar-se de que não estava sonhando. Legolas correspondeu ao abraço com as forças que tinha, apoiando a cabeça em seu ombro.
Foram apenas alguns instantes de lágrimas e alegria até que os sentidos de curador do jovem Elladan voltassem completamente. Ele respirou fundo, parecendo perceber com maior vigor o que estava a sua volta. Ergueu então o amigo e o trouxe de volta para a maca. Legolas permaneceu com os braços a sua volta, como se temesse que ele se afastasse agora.
"Dan... Eu quero ir embora..." Ele lhe disse num sussurro e Elladan sorriu, lembrando-se bem de quantas vezes ouvira essa conversa do arqueiro da floresta.
"Estava com saudades de ouvir essa sua queixa." Ele brincou e roubou um sorriso tímido do cansado amigo no leito. "Logo. Depois que cuidarmos de você." Ele respondeu, puxando gentilmente os braços do arqueiro para que o soltasse e relaxasse novamente naquela maca. "Vai ficar bom em breve e vamos todos para casa."
Legolas soltou o corpo e voltou a fechar os olhos, parecia completamente esgotado.
"O que deu a ele?" O gêmeo indagou ao pai, que observara toda a cena calado. Elrond suspirou, como se ele também se sentisse desperto de um sonho surpreendente.
"Nada, a não ser a ajuda que posso oferecer." Ele comunicou contrafeito. "Tenho em mente os bronco-dilatadores, mas a lembrança do que aconteceu quando fizemos uso deles na ocasião do incêndio não me é motivação. Não sei se devemos arriscar."
Elladan torceu os lábios desgostoso. Malditos medicamentos edain e suas reações terríveis! Ele lembrou-se da queixa explosiva de Elrohir, quando Legolas teve uma arritmia forte, após uma seção simples de inalação em casa. Ele olhou novamente para o amigo na maca e seu coração apertou-se de dúvida, o arqueiro mal podia respirar, fazia um esforço tamanho e sua pele arroxeava-se sutilmente.
"Nem sei como conseguiu levantar-se." Disse em tom inconformado. "Não temos muitas alternativas. Vou tentar a dose mínima de um bronco-dilatador de ação curta. Depois partimos para um de ação prolongada se necessário... um corticosteróide seria mais indicado." Ele completou pensativo, como se falasse consigo mesmo, enquanto afastava-se em direção a porta.
Elrond concordou com a cabeça, mas antes do filho fechar a porta chamou-o.
"Traga o desfibrilador portátil... apenas por precaução." Ele aconselhou, quando o rosto de Elladan ressurgiu na porta. O gêmeo engoliu em seco e assentiu, mesmo insatisfeito, depois fechou novamente a porta, deixando o pai sozinho mais uma vez com seu paciente.
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A penumbra do quarto dava-lhe algo de sagrado. Uma pequena luz por sobre a cama era a única iluminação que se mantinha naquele cômodo de hospital. Elrond caminhava a passos leves pelo lugar, checando os equipamentos do paciente adormecido. Quando já estava quase à porta ouviu uma voz comentar:
"Sou eu que estou fantasioso ou seu semblante parece menos carregado hoje, meu amigo?"
O curador voltou-se intrigado, mas depois sorriu ao ver os olhos de Enzo voltados para ele.
"Seu estado melhorou significativamente." Ele comentou, caminhando de volta para perto do leito. "Isso já é motivo suficiente para minha alegria."
"E a minha." O paciente comentou com um suspiro e um sorriso fraco. "Curiosa é a vida, não é mesmo, Herodotus? Minha saúde deu-lhe alegria, mas foi sua alegria e boa vontade que me proporcionaram essa pequena melhora que hoje te traz esse sorriso."
E o sorriso de Elrond intensificou-se.
"Sempre com palavras de conforto." Comentou, curvando ligeiramente o tronco.
Enzo também sorriu.
"Sim. São. Mas, além disso, algum outro fato soma-se a minha recuperação para afastar de seu rosto o ar cansado e triste que o escurecia ultimamente. Estou certo?"
Elrond silenciou-se por um momento, o olhar paciente ainda analisando o rosto do amigo. Ele havia de fato melhorado, não fora uma melhora significativa como o curador queria fazê-lo crer e o próprio Enzo não se deixava enganar, mas trazia, mesmo assim, uma sensação bem vinda.
"Vê-lo melhor me apraz." Elrond reforçou. "É muito triste entrar aqui e sair sem a oportunidade de uma conversa breve que seja."
Enzo sorriu brandamente, mas seu silêncio e o olhar enigmático que lançava ao médico fez com que Elrond se lembrasse da pergunta anterior, aquele a qual, pelo visto, o paciente ainda julgava não respondida.
"Não sei se vai se lembrar de meu sobrinho..." Ele disse então, pensando em como revelar o que o amigo queria saber sem maiores embaraços.
"Sim, claro. Aquele que foi baleado, não é mesmo? E agora está desaparecido. O bom menino que sempre se complica por tentar ajudar as pessoas"
Elrond soltou os lábios, mas a resposta acabou por roubar-lhe um riso fraco.
"É... esse mesmo." Ele concordou, sacudindo inconformado a cabeça.
"Encontrou-o então?"
"Sim. Encontrei-o."
"Mas que boa notícia!"
"É sim, meu bom amigo. É uma das melhores notícias que tive ultimamente."
"Fico feliz por você, Herodotus. E por ele também. Percebo que são bastante ligados."
"Sim, somos. Tenho por ele o mesmo afeto que tenho pelos meus filhos."
Enzo assentiu brevemente. Depois continuou olhando para o curador com ares de quem espera pelo restante da história.
"Ele... está aqui no hospital." Elrond correspondeu hesitante. "Quando estiver melhor o trarei para conhecê-lo."
"Quando quem estiver melhor? Eu ou ele?"
Elrond silenciou-se, depois baixou os olhos.
"Ele está ferido ou doente? Por isso seu rosto ainda tem algumas sombras, meu amigo?" O tom de Enzo ganhou seriedade então e quando o curador reencontrou seus olhos, percebeu que o interesse do amigo era genuíno.
"Sim... está... Espero que se recupere logo."
Enzo uniu as mãos por sobre os lençóis.
"Soube que você tem um paciente em seu consultório." Comentou.
"Sim... É ele."
"Parece que não andou muito bem... nos últimos dias."
Elrond encheu o peito, esvaziando-o devagar.
"Ele teve uma parada cardíaca... É sensível a medicamentos dos quais precisava imensamente. Tivemos trabalho, mas agora está melhor. Foram três dias muito difíceis."
"Eu lamento."
"Obrigado."
"Ainda está tomando tais medicamentos?"
"Não. Agora creio que poderá recuperar-se por si só. Precisa apenas de atenção. Enosh tem ficado com ele também. Temos trocado nossos turnos sempre que possível."
"Entendo..." Enzo comentou, pensativo. "Estão os dois agora afastados de casa." Lembrou.
"Infelizmente. Mas é por uma boa causa. Minha esposa compreende."
"Ela é uma excelente mulher."
"Sim. Sem dúvida."
Enzo não disse mais nada, ficando ainda a analisar o ar do amigo, colhendo as informações que precisava, por fim comentou:
"A recuperação dele não o preocupa mais, percebo, mas agora incomodam sua mente os momentos difíceis pelos quais ele passou para estar como está..."
Elrond reergueu os olhos surpreso e Enzo sorriu-lhe pacientemente.
"Não faça qualquer indagação." Aconselhou o paciente. "Deixe que lhe conte. Não importa quanto tempo ele venha a precisar para isso."
O curador soltou os lábios, admirado por ver, como em um eco, a mesma convicção que tinha. Ele apenas assentiu, sorrindo novamente para o amigo.
"Gostaria de poder me levantar para vê-lo. Quem sabe outro dia." Comentou então o paciente, repetindo sua brincadeira de sempre e Elrond deu um sorriso amplo, naquele momento o bip em seu bolso soou e ele percebeu que era necessário em outro lugar.
"Eu o trarei, quando estiver melhor." Garantiu o elfo, aproximando-se da porta. "Tenho que ir. Voltarei quando possível. À noite talvez."
"Claro." Enzo concordou, oferecendo-lhe um aceno fraco. "Pena que o rapaz não poderá ver-me, mas talvez seja melhor. Não sou uma imagem muito boa para ser guardada."
Elrond parou por um instante, sentindo uma sensação estranha despertar-lhe com aquele intrigante comentário.
"Deixe de bobagens." Ele brincou, mesmo assim, forçando um último sorriso antes de fechar a porta. No corredor, Clare já o encontrava com alguns apetrechos nas mãos. A seu lado o mesmo plantonista do pronto-socorro.
"Tudo bem, doutor. Pode continuar sua ronda." Ela adiantou-se. "A enfermeira novata acionou o bip do senhor à toa. Apavorou-se apenas porque o senhor Martinho virou a bandeja do almoço e passou a ter uma crise de histeria. Uff, como se aquele homem teimoso não fizesse isso todos os dias."
Elrond curvou as sobrancelhas, acompanhando o relato da amiga com atenção.
"Se deixasse de pensar em trabalho um dia que fosse." O plantonista tomou a palavra. "Onde já se viu, querer usar o laptop e responder aos e-mails dos clientes! O infeliz acabou de sair de duas crises cardíacas, tivemos até que usar o desfibrilador! Por todos os anjos, o que um homem de 91 anos quer com um maldito laptop numa hora dessas?"
"Dê a ele." Elrond aconselhou então.
"Dar-lhe o quê?" Indagou o jovem médico.
"Dê-lhe o computador. Permita que se comunique com quem quer que queira."
"Mas isso é um absurdo, doutor!" Protestou veementemente o outro. "É um paciente em um estado de estresse visível! Quer que sofra um outro infarto?"
Elrond moveu o rosto ligeiramente para a esquerda, mas não respondeu, no entanto o olhar impaciente que o jovem médico recebeu ofereceu-lhe uma resposta que não pareceu agradá-lo.
"Ele tem poucos dias, Herodotus." Protestou o outro. "Sabe que está reduzindo-lhe as chances de prorrogar esse prazo, oferecendo-lhe motivos para se estressar."
"Mais estressado do que está impossível." Clare comentou com os próprios botões e fingiu não perceber o olhar insatisfeito que recebeu do plantonista.
"Clare tem razão, meu amigo." Elrond soltou os ombros. "Não há família em seu quarto, não recebe uma visita. Todos os seus conhecidos parecem ser gente ocupada como ele. Deixe-o fazer o que aprecia. É o mínimo ao qual qualquer paciente tem direto."
O jovem médico ainda manteve seus olhos presos nos do curador, os lábios retorcidos de impaciência pareciam querer indicar que ele esperava por um outro conselho. Por fim bufou contrariado, dando-se por vencido e virou-se, voltando pelo caminho pelo qual viera, sem dizer mais nenhuma palavra.
Clare riu então.
"Só mesmo o senhor. Estou repetindo isso há três dias. O homem infartando e eu repetindo. Acho que, só por essa ajuda, é capaz do teimoso senhor ainda ganhar alta."
Elrond riu também, depois se voltou novamente para a amiga.
"Clare, preciso pedir-lhe uma gentileza."
"Pois não, doutor."
"Sei que sabe da amizade que tenho com Enzo."
"Sim. O Senhor Alfonso é uma figura adorável."
"Ele é. Mas agradeceria se não lhe repassasse as coisas que acontecessem em meu consultório... Não comentasse nada sobre meu sobrinho e seu estado."
Clare franziu o cenho.
"Peço seu perdão, doutor. Mas devo informá-lo que nada disse a respeito desse assunto ao Sr. Alfonso."
Elrond intrigou-se.
"Mas apenas nós dois o visitamos. Não é fato?"
"Sim. Foi um custo convencê-lo a deixar-me tratá-lo. É um bom homem, mas deveras desconfiado."
"Não compreendo. Como ele soube então que havia um paciente em meu consultório?"
"Talvez tenha ouvido comentários no corredor. Muitos ainda estão falando a respeito."
Elrond não pareceu satisfeito. O quarto de Enzo era o último do hall, não ficando, portanto, na passagem dos transeuntes. Além disso, mesmo que fosse possível ao debilitado homem ouvir a conversa dos que se aproximavam de sua porta, não haveria como algumas informações serem de conhecimento de tais pessoas.
"Comentou a alguém sobre o estado de meu sobrinho?"
"Nem sequer o vi depois daquele dia, doutor. Como posso comentar o estado de um paciente que desconheço?" Ela disse em tom indignado agora, mas logo se arrependeu, ao perceber que as perguntas do médico transpareciam apenas uma estranha preocupação. "O que o preocupa, doutor? O Senhor Alfonso lhe disse algo?"
Elrond olhou-a por alguns instantes, pensando no que responder. Por fim balançou a cabeça, soltando um suspiro cansado.
"Nada de grande seriedade." Ele desconversou, apoiando então uma mão no ombro da enfermeira. "Peço-lhe desculpas por meu interrogatório, minha amiga. Estou preso a algumas preocupações e isso às vezes me rouba os modos."
A enfermeira sorriu comovida, depois sacudiu a cabeça.
"Se todos os médicos, ao perder os modos, nos tratassem como o senhor, não haveria tanta confusão aqui dentro." Ela completou, estivando o queixo para a direção da escada que o jovem plantonista tomara um pouco adiante. "Sabe que estou à disposição, doutor. Se precisar de algo, é só chamar."
"Sou-lhe grato." Elrond curvou-se para reforçar o agradecimento e ainda ficou pensativo por mais alguns instantes, vendo a imagem de Clare andar rapidamente pelo corredor e cumprimentar alguém antes de seguir seu caminho. Ele suspirou cansado e ainda demorou alguns instantes para identificar esse alguém, que agora caminhava em sua direção.
"E aí, pai?"
Elrond empalideceu, curvando as sobrancelhas.
"O que aconteceu?" Ele forçou a indagação, recebendo um rápido abraço do gêmeo mais novo.
"Aquela história que os caras daqui contam. Algo sobre um tal de Maomé que não vai a uma montanha... Eu sou a montanha." Ele sorriu largamente e Elrond sentiu uma sensação estranhamente boa ao mirar-se nos olhos claros do filho. O que haveria acontecido? "Cheguei em má hora?"
"Não..." O curador respondeu hesitante e essa hesitação pareceu não passar despercebida pelo filho que logo encurvou, intrigado, as sobrancelhas.
"Tem certeza? Eu só queria ver vocês. Vou voltar ao plantão."
"Como assim voltar?" Elrond caiu em si, segurando o ombro do filho com uma das mãos e baixando-lhe a cabeça com a outra, mas nem mesmo conseguiu encontrar a região do ferimento da cabeça do rapaz. "Quem lhe deu alta?" Brincou então, parecendo satisfeito com o que vira.
"A poderosa Senhora Gilah." O rapaz voltou a sorrir. "Não me agüenta mais em casa e me disse sua frase mais famosa desde que sou menino. Vá arrumar o que fazer!"
Elrond riu então, apoiando a mão no peito para aplacar a saudade que aquela imagem lhe proporcionava.
"Fico feliz por ver que está se sentindo realmente melhor."
"Estou me sentindo super bem." O gêmeo assentiu, olhando displicentemente a sua volta. "Cadê o Enosh?"
"Está em meu consultório com um paciente."
"Ah, que pena. Será que vai demorar? Queria dizer apenas um olá."
Elrond comprimiu os lábios e a coragem para a resposta escapou-lhe. Não contara nada nem mesmo para Celebrian do ocorrido. O estado frágil de Legolas e do próprio Elrohir o forçara a fazer algo do qual não gostava e pelo qual com certeza se arrependeria. Mas agora o mal já estava feito e começava a surgir no horizonte a necessidade de corrigi-lo.
Tempos difíceis, mal saíram de um momento de conflito e já se viam às portas de outro. Foi o que o curador pensou, antes de perceber que seu silêncio havia despertado um ar bastante preocupado no rosto do filho, ainda diante dele.
"Aconteceu alguma coisa, não foi, pai?" Elrohir indagou e a seriedade estava novamente em seu rosto. "O senhor está muito estranho."
Elrond encheu o peito de ar e coragem, por fim ergueu a mão direita e segurou no braço do filho.
"Aconteceu." Ele disse e lamentou por perceber o rapaz estremecer. "Vejo agora a oportunidade de lhe contar, criança, mas preciso pedir sua compreensão, pois passamos por um momento muito difícil aqui."
Elrohir engoliu em seco. Aquela conversa não o estava agradando.
"Passaram por um momento difícil quando?"
"Nestes últimos três dias."
"Por isso não voltaram para casa?"
"Sim."
"Pensei que foi por causa do Senhor Alfonso... Não foi então, não é?" Ele indagou e comprimiu os lábios de insatisfação com o aceno negativo do pai. "Eu sabia. Enosh não ficaria aqui cuidando do Sr. Alfonso. Ele tem um receio danado dele. Eu não sei por quê."
"É verdade." Elrond concordou, apenas para manter-se presente naquele diálogo.
"De quem estão cuidando então?"
O silêncio que se fez então pareceu roubar a pouca paciência que restava ao gêmeo mais novo.
"Droga, pai. O que aconteceu? Por que não podemos ter paz?"
Elrond intrigou-se com o desabafo do rapaz. Pela primeira vez, sentiu que ele na verdade não queria saber o que havia acontecido, parecia muito mais receoso de receber uma notícia desfavorável do que normalmente estaria.
"Vamos ter paz agora, filho." Ele assegurou, segurando com carinho o ombro do rapaz. "O que aconteceu foi difícil, mas agora está tudo bem."
"Então eu não preciso saber o que foi, preciso?" Elrohir indagou e o pai surpreendeu-se mais uma vez. "Posso só dizer olá para o Enosh e ir trabalhar?"
Elrond curvou as sobrancelhas muito intrigado agora.
"Se quiser... Mas acho que seria melhor descobrir... enfrentar os espinhos."
"Tem que ser uma rosa que valha a pena. Não tenho visto nenhuma ultimamente." A voz do rapaz ganhou um tom amargo agora, dando a entender ao pai que a metáfora não fora favorável.
"É uma rosa que vale a pena, é sua mais cara rosa."
Elrohir envergou profundamente o cenho então.
"Lembra-se que disse haver mais vítimas por sobre os escombros?" Elrond comentou com cautela, mas o rosto do rapaz empalideceu profundamente antes mesmo que o pai houvesse terminado sua sentença. Ele deu um passo para trás, olhando inseguro para o caminho do qual viera.
"Não me diga que havia de fato alguém."
"Havia, filho."
Elrohir soltou o queixo por alguns instantes.
"Sobreviventes?"
"Sim..."
"Sobreviventes de fato? Gente que não está morta agora enquanto conversamos?"
"Sim. Escaparam com a explosão na qual você se acidentou. Parece que, tentando fazer mais mal, alguém acabou por libertá-los."
Elrohir uniu as mãos nervosamente.
"Libertá-los? Eram mais de um."
"Eram dois."
O gêmeo soltou um longo suspirou, e sua respiração voltou a se alterar. A mão do pai sacudiu seu ombro brevemente.
"Você estava certo. Foi o que seu irmão ficou repetindo. Que você estava certo e havia realmente por sobre os escombros."
"Eu estava certo." Elrohir disse em um tom baixo, quase para si. Depois reergueu os olhos. "Eles estão no H.C? Sabe como eles estão?"
Elrond apertou o maxilar.
"Um deles foi para o H.C. e passa bem, assim como as demais vítimas que vocês resgataram."
"E o outro?"
"O outro... está aqui."
"Como assim está aqui? Não pode estar aqui. Todas as vítimas dos atentados devem ir para o H.C."
Elrond não respondeu e Elrohir começou a sentir como se uma mão estivesse envolvendo seu pescoço agora.
"Onde ele está?"
"No meu consultório."
O gêmeo ainda franziu incrivelmente o cenho e seu rosto distorceu-se de dúvida, ele então não fez mais pergunta alguma, afastando-se e caminhando a passos largos em direção do consultório do pai. Elrond apressou-se em segui-lo e aquele trajeto curto nunca pareceu tão longo. Quando enfim estavam diante da porta, o curador segurou a mão do filho que já envolvia duramente a maçaneta.
"Eu conheço a vítima, não é? É por isso que o senhor está fazendo todo esse teatro?"
"Sim, filho. Você o conhece."
"Eu conheço todo mundo do Beco, pai. O senhor sabe disso. Todos são pessoas a quem eu respeito, mas ninguém é tão caro para mim lá a ponto do senhor ter uma reação dessas."
Elrond não teve tempo para comentar aquela afirmação, pois a voz de Elrohir já chamara a atenção de alguém dentro do consultório. A porta se abriu e o rosto pálido de Elladan surgiu.
"Einarr?" Ele indagou, mal contendo o tom de surpresa em sua voz. "Por que você está aqui?"
Elrohir bufou.
"Estou começando a me perguntar a mesma coisa." Ele respondeu desgostoso e ainda deu uma olhada rápida por sobre o ombro do irmão, antes que seus olhos encontrassem os dele. Quando isso aconteceu, no entanto, Elrohir voltou a sentir a gravidade dos fatos, agora expressa nas pupilas escuras do gêmeo mais velho.
"Droga, Dan..." Ele deixou o apelido do irmão escapar, enquanto sentia o corpo estremecer por uma expectativa que não parecia nada boa. "O que está acontecendo?"
Elladan olhou para o pai com o ar de um náufrago que pede desesperadamente por ajuda. Elrond respirou fundo.
"Já contei a seu irmão sobre as outras vítimas do atentado. Contei a ele que estava certo."
Elladan assentiu, mas ainda ficou estagnado na porta entreaberta, olhando para o pai com o mesmo ar agoniado de antes. Por fim abriu mais a porta, puxando sutilmente o irmão para dentro. Elrond acompanhou os filhos, fechando a entrada atrás deles.
"Eu conheço a vítima, não é? Por isso estão tendo tanta cautela?" Elrohir indagou, enquanto o irmão limitava-se a continuar puxando-o pelo braço, dessa vez em direção ao biombo branco. O gêmeo enrijeceu o corpo, começando a temer o que veria. Talvez fosse um dos meninos da rua debaixo. Eles eram apenas crianças, Sudhir cansava de dizer, amaldiçoava o velho Laurence por ser tão impiedoso a ponto de jogar na vida corrompida e corruptora pessoas assim tão jovens. E se fosse uma daquelas crianças? E se estivesse ferida? Se estivesse sofrendo? "Droga..." Elrohir parou então, não indo mais além. "Eu não quero saber quem é, Enosh... Me deixe ir trabalhar."
Naquele instante, porém, um som surgiu e Elrohir viu uma mão pálida aparecer tateando o biombo em busca da passagem, então o rosto da última pessoa que ele esperava ver, surgiu.
"Ilúvatar." Ele abriu bem os olhos, mas mesmo assim julgou a imagem irreal.
Era Legolas, ou uma visão fantástica do arqueiro louro. Elrohir não sabia distinguir, nem sequer tinha coragem de conjeturar sobre a cena que via. Fechou os olhos enfim, pensando que, ao reabri-los a imagem teria desaparecido.
Não... Ele ainda estava lá. Elbereth, Legolas estava lá. Uma gaze muito clara vendava-lhe os olhos. Seu rosto estava coberto por marcas e manchas em diferentes tons, avermelhadas em alguns lugares, arroxeadas ainda em outros. A mão do elfo ainda não abandonara o biombo no qual, visivelmente se escorava. Seus lábios se despregaram e o gêmeo julgou que ele fosse dizer algo, mas não, ele apenas inclinou o rosto, como se estivesse se concentrando em algum som.
Naquele instante Elrohir percebeu algo que, em ocasião nenhuma o assustaria, mas que agora o enchia de dor. Ele percebeu que o amigo, na verdade, procurava por ele.
Instintivamente o gêmeo deu um passo para trás, sentindo-se invadido por aquela visão que lhe dava, enfim, provas inegáveis de veracidade, e temendo indescritivelmente saber qual era a extensão daquela verdade.
"Não... não pode ser..." Ele ergueu uma mão em sua defesa.
Elladan baixou os olhos, totalmente atingido pela dor do irmão. Ele não sabia o que dizer e, depois do que tinha passado nos últimos três dias, tentando devolver a saúde ao amigo louro, sentia-se incapaz de dizer qualquer coisa, pois também não conseguia lidar com o mesmo sentimento de culpa e impotência que sabia assolar o irmão agora. Legolas tivera duas crises em suas mãos durante o tratamento com aqueles medicamentos que ele decidira usar, uma delas bastante grave. Ele nem podia acreditar que o elfo tivesse tido condições de erguer-se da maca quando ouviu a voz de Elrohir, por isso limitou-se a envolver o amigo com um dos braços e sussurrar ao seu ouvido.
"Venha, Las. Ainda não pode estar em pé."
Legolas virou sutilmente o rosto, voltando sua atenção para as palavras do gêmeo curador, depois assentiu com a cabeça, mas ainda voltou-se para Elrohir uma última vez.
"Eu só queria agradecer..." O arqueiro disse. "Estava esperando por você."
A face de Elrohir se contorceu, como se aquele comentário o houvesse trazido definitivamente de volta à realidade, tal qual um choque elétrico.
"Agradecer..." Ele repetiu, sem entender. Não podia acreditar que Legolas estivesse fazendo qualquer tipo de insinuação num momento como aquele.
"Sim... agradecer pela canção."
Elrohir sentiu-se imerso na incompreensão mais uma vez. Canção? Ele pensou e quando percebeu os olhos de Elladan estavam voltados para ele. Os gêmeos se questionaram silenciosamente, olhando um para o outro como se esperassem que a resposta fosse dada pelo irmão.
Um silêncio de interrogações se fez depois disso e o único que se sentiu capaz de quebrá-lo foi Elrond.
"Qual canção, criança." Indagou o curador, olhando ainda preocupado para os filhos. Sentia o peso no coração deles e, como em poucos momentos em sua vida, não sabia ao certo como agir.
"A canção de acalanto." Legolas respondeu em tom brando. "Einarr me ensinou o que eram tais canções, e uma em especial, que ele me apresentou no jardim há muito tempo, lembrou-me de... coisas que eu precisava... me lembrar... nas quais... precisava acreditar... e preencheu o coração lá no Beco... quando tudo caiu."
Elrohir ainda custou alguns instantes para fazer a viagem temporal que o amigo, inconscientemente lhe propunha, mas quando aquela imagem do passado lhe voltou à mente, quando a cena do jardim daquele dia respondeu ao menos àquela questão, ele passou a se sentir ainda mais perdido. Voltou a fechar os olhos e quando os reabriu, percebeu que Legolas havia desistido de seu apoio e caminhava alguns passos em sua direção.
"Você tinha razão, Einarr."
"Razão?" O gêmeo ecoou confuso e agoniado o comentário do amigo.
"Sim... Você tinha. Há momentos nos quais não existe consolo maior do que uma canção de acalanto, principalmente na voz de um amigo querido." Ele suspirou, movendo novamente a cabeça e afastando ligeiramente os braços do tronco como se buscasse equilíbrio. "Queria só dizer obrigado, antes que você fosse trabalhar."
Elrohir soltou o maxilar e o ar que saiu de seu peito pareceu, na verdade, fugir dele, deixando-o sem o desejo de até reencher os pulmões. Ele tentou forçosamente, mas parecia impossível, parecia impossível porque teimosos soluços se formavam em sua garganta. O gêmeo então desistiu, deixando-se tomar pelo que queria dominá-lo, pelo choro que continha uma mistura de sentimentos bons e ruins, mas pelo qual todo o seu ser parecia necessitar urgentemente. Ele então avançou alguns passos e tomou o amigo louro em um abraço cuidadoso, como se Legolas fosse uma fina peça de porcelana e pudesse se partir.
"Las... me perdoe." Ele pediu em voz embargada, inconformado por sentir a alegria com a qual o amigo louro retribuía seu abraço. Mesmo enfraquecido, Legolas parecia aliviado por tê-lo enfim perto dele. "Me desculpe... Me desculpe por ter te deixado lá... Me desculpe por não ter te ajudado..."
"Não me deixou." O arqueiro respondeu naquele mesmo tom pacato do qual o gêmeo sentia tanta saudade. "Estava comigo... como sempre... Por causa da canção..."
