Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
N/T: Feliz Primeiro-Capítulo-De-Boot-Camp de 2017! Este foi traduzido um pouco na pressa porque eu queria mesmo postar ontem como último capítulo de 2016 – desculpem qualquer erro! –, mas como foi impossível, vamos celebrar o Ano Novo no dia 01/01 [dia do Heero!].
Capítulo dedicado à fofíssima Diana Lua! ;D
CAMPO DE TREINAMENTO
52: Os Melhores Planos
De volta nos alojamentos, os rapazes do time Wing inseriram os dados coletados no laptop, e passaram as próximas horas tentando entendê-los, com pouco sucesso.
Buscaram por padrões nos horários das transferências dos detentos, procurando conexões entre as colônias, mas sem conseguirem uma descoberta. Era desencorajador, pois sabiam que, com a agenda cheia de testes no simulador e provas, não teriam muito tempo para investigar pelo resto da semana.
Eventualmente, a exaustão se instaurou, e decidiram que a necessidade de dormir temporariamente superava o desejo de encontrar uma ligação entre Kushreanda em L1.
Duo pegou o travesseiro de Heero e foi deitar-se ao lado de Quatre.
"Nossa, Quat, sinto tanta falta dele," murmurou cansado.
"Eu sei, Duo." Quatre acariciou a cabeça de cabelo castanho longo deitada no travesseiro. "Mas sabe que Chang vai protegê-lo até ele estar livre das acusações."
Duo rolou para ficar de costas, franzindo o cenho para a cama de Trowa. "Eu sei." Expirou o ar num suspiro explosivo. "Nossa, não sei quando me tornei tão dependente do Yuy."
"Foi quando foi se apaixonou por ele," o loiro ressaltou, cutucando-o. "Sei que eu ficaria perdido sem Trowa."
O moreno alto aproximou-se para abraçar o pescoço de Quatre, num raro gesto de afeição na frente de Duo. "É ao contrário, Quatre," murmurou no pé do ouvido do namorado. "Eu que preciso de você."
Duo grunhiu. "Arrumem um quarto!" Bateu nos dois com um travesseiro, depois o abraçou de novo, enterrando o rosto nele para respirar o cheiro de Heero.
"Boa noite, Trowa."
O acrobata suspirou. "É. Boa noite." Subiu em sua cama acima dos outros dois.
Ainda faltava uma hora antes do amanhecer, quando Quatre sentou-se repentino, acordando Duo no processo.
"Que foi, Quat?" o amigo murmurou sonolento. "Percevejo?"
"Não. Eu descobri!" Quatre falou com urgência.
"Quatro da manhã... descobriu o quê?"
"As naves! Sei porque tem tantas... por qual motivo ele está as usando!"
Duo murmurou um xingamento. "Não dá pra ficar inspirado, tipo, meio dia?"
"Shiu. Escuta." Quatre puxou os joelhos para o peito, abraçando-os, e descansando o queixo neles. "Todas essas naves de transporte... as conexões... é como o Kushrenada está deslocando as drogas."
Duo piscou surpreso. "Acha que ele está com uma distribuição bem maior do que local?"
"Julgando pelo número de voos e destinos, ele tem conexões nas cinco colônias e também na Terra."
"Isso o tornaria um peixe grande," Trowa ressaltou, pendendo a cabeça do lado de sua cama para encarar preocupado os companheiros. "E muito mais perigoso do que pensamos." Pulou e sentou-se na cama de Quatre.
"Sempre achei ele perigoso," Duo resmungou. "O desgraçado me encheu de porrada quando nos conhecemos."
"Isso não é nada comparado com o que ele pode fazer para proteger seu segredo," Quatre alertou. Balançou a cabeça. "Não podemos cometer nenhum erro quando formos até o computador dele."
"Merda, queria que Heero estivesse aqui," Duo suspirou. "Se ele for tão bom quanto diz ser..."
"Ele tem de ser." Quatre o olhou com franqueza e preocupação. "Não sei se você e eu conseguimos... principalmente considerando que precisamos de você como isca."
"Queria mesmo que você parasse de dizer isso," o rapaz de trança reclamou. "Sabe o que acontece com isca?"
Trowa riu sombrio. "Ela é comida."
"É melhor isso não ter sido uma piada sexual..."
"Quem dera fosse. Não, Duo, eu falei sendo literal. Se você fizer a tentativa de escapar, Kushrenada pode considerar essa oportunidade para se livrar de você de uma vez por todas."
"É arriscado demais," Quatre concordou.
"Não!" Duo protestou. "Precisamos acabar com esse desgraçado. Ele armou pra mim, pro Trowa, pro Heero... e aposto como mantém seu nome no banco de reservas, Quatre. Aquele filho da puta soltou pau mandado dele no Jase. Nós temos que ferrar com ele com o que conseguirmos... drogas, assassinato, qualquer coisa."
"Bom, até agora o único plano que tenho é o Austin falar pra ele que você quer dar no pé pra ir atrás do Heero." O loiro deu de ombros. "E é um plano fraco. Abriria caminho para eu e Trowa entrarmos no escritório dele... mas não há garantia que a gente consiga entrar no sistema... ou o que encontraríamos depois de entrar. Ele pode manter os arquivos em outro lugar."
"Dificilmente," Trowa considerou. "Ele passa muito tempo ali, e sente que é o seu território. Acho que o que precisamos está naquele computador dele."
"Então nisso concordamos," Duo falou decidido. "E se me usar de isca é o único jeito de ganhar tempo para fuçar nas coisas dele, então é o que vamos fazer."
Quatre suspirou, descontente, mas concordou. "Acha que Kushrenada acreditaria no Austin?"
Trowa jogou um balde de água fria na ideia. "Não tenho certeza, Quatre. Os caras do grupo do Kyle ainda estão por aqui, e ponho a mão no fogo como pelo menos um deles reporta pro K. regularmente. Ele deve saber que Austin e Duo fizeram as pazes."
"Nesse caso, como vamos vazar o rumor da minha fuga pra chegar no K. de forma crível?" Duo questionou. Sentou-se, ajeitou o travesseiro de Heero e apoiou os cotovelos nele.
"Talvez a gente possa dar um jeito de alguém do time do Kyle ouvir alguma coisa..." Quatre teorizou.
"E se o Merquise pedir para um dos cadetes ou tenentes mencionar que ouviram sobre o plano?" sugeriu o rapaz de trança.
O loiro ergueu uma sobrancelha. "Pode funcionar... se estiverem conversando perto o suficiente dos guardas..." Deu de ombros. "Vamos falar com o Merquise amanhã e ver o que ele pensa."
"E se ele não concordar?"
"Ele tem que concordar, Duo, ou corremos o risco de sermos pegos pelos soldados dele tanto quanto pelos guardas do Kushrenada. Vamos precisar da ajuda dele para as evidências, ele tem que testemunhar que é genuíno."
Duo assentiu com a cabeça. "Vou persuadi-lo a nos deixar tentar, mesmo se eu tiver que prometer fazer o discurso idiota quer Heero volte ou não." Franziu pensativo o cenho. "Acha mesmo que o K. acreditaria que eu arriscaria tudo para escapar e chegar no Heero?"
"Se tivermos sorte, ele não vai analisar os dentes do cavalo dado," Quatre insistiu. "Ele só precisa saber que você está com medo de ele tentar algo contra você e quer se ver longe dele, e chegar no Heero."
"Podemos fazer alguém encontrar o diagrama que desenhei dos postos dos guardas e rotas de patrulha," Duo sugeriu.
"Quando fez isso?" o loiro perguntou com suspeita.
"Um tempo aí," respondeu vago.
Quatre analisou o colega de quarto. "Por quanto tempo planejou uma fuga?"
"Huh, desde o primeiro dia," o recruta de trança admitiu envergonhado. "Sempre faço isso quando me mandam pra um lugar novo. É um... plano de contingência." Ficou orgulhoso em aplicar a frase usada pelo capitão Chang em várias aulas.
"E quando foi a última vez que pensou em usar seu plano?" Quatre pressionou.
Duo sorriu com malícia. "Que horas são?"
O loiro jogou as mãos para o alto. "Não me diga que você realmente está pensando em fugir para ir até o Heero!"
"Pensando, Quat, só pensando," Duo declarou. "Eu não tentaria de verdade. Prometi ao Chang que ficaria e me comportaria... Prometi pro Heero." Ergueu desafiador o queixo. "Não significa que não posso sonhar."
Trowa riu seco, balançando a cabeça. "Sonhar é uma coisa, Maxwell. Mas se for pego com um plano escrito..."
"É só uns diagramas... só rabiscos," Duo se defendeu. "Não escrevi a ideia toda."
"Que bom. Kushrenada adoraria colocar as mãos em você com os planos," Trowa ressaltou.
"Ele não vai," Quatre afirmou. "Me dá o diagrama, Duo. Por segurança."
"Aw, Quat..." Duo cedeu quando viu a determinação no rosto do companheiro. Foi até seu beliche e puxou o pedaço de papel de uma abertura feita no colchão. "Estraga prazeres," murmurou, entregando o papel para Quatre.
O loiro estudou criticamente. "Nossa. Quanto tempo levou pra fazer?"
"Quase uma semana... fiquei de olho nos guardas e no perímetro," Duo contou com modéstia.
"Não foi à toa que não nos pegaram quando fomos até o canil recolher cocô de cachorro. Você sabia cada movimento dos guardas."
"Esse é o meu trabalho como presidiário..."
"Era o seu trabalho," Quatre o corrigiu. "Você está prestes a entrar na academia ASMS, Duo. Ser um preso será coisa do passado."
O rapaz de trança balançou a cabeça com um sorriso torto. "Ainda é difícil de acreditar, né?"
"Para todos nós," Trowa concordou. "Não sei quanto a vocês, mas ainda estou me acostumando com a ideia."
"Acho que vai levar um tempo," Quatre comentou. "Agora, que tal tentarmos pegar mais uma hora de sono... ou pelo menos descansar... até o toque de alvorada*?" Ajeitou-se para deitar entre Duo e Trowa.
Duo deitou-se outra vez, bocejando. "Era o que eu estava dizendo quando você teve um ataque de inspiração, Quat." Enterrou o rosto do travesseiro de Heero, respirando a essência do namorado, e se reconfortado tanto com o cheiro quanto com a presença dos amigos. "Boa noite."
"Boa noite, Duo," os outros dois desejaram em uníssono.
*Toque de alvorada: uma música, geralmente tocada na corneta, para acordar todos os recrutas.
Eles mal caíram no sono quando chegou a hora de acordarem e se arrumarem para a calistenia. O resto da manhã passou num vulto de aulas e provas. Passara do meio dia quando tiveram um período livre entre o almoço e o simulador. Contudo, quando visitaram o escritório do major, ele não se encontrava presente.
"Deve estar por aí bolando provas mais difíceis para a gente," Duo suspirou, contendo um bocejo.
"Talvez a gente consiga falar com ele depois do jantar," Quatre sugeriu.
Viraram-se, topando com o diretor a apenas alguns pés de distância, observando-os com uma expressão convencida. "Posso ajudá-los, rapazes?" perguntou com um ronronar sinistro.
"Pode, se joga da ponte e morre," Duo sugeriu fulminando-o com o olhar.
"Tsc, tsc... Maxwell... ainda tão agressivo," o homem balançou a cabeça. "Da última vez que apareceu no meu escritório, não estava tão hostil."
"Foi um erro tático de minha parte," Duo rosnou, ignorando a mão de Quatre em seu pulso. "Eu devia ter ido armado."
"Baixando o nível para ameaças?" o diretor perguntou.
"Só fazendo uma observação," o jovem de L2 replicou com frieza.
"Vamos, Duo," Quatre o instigou com a voz baixa. "Não deixa ele te provocar. Vamos voltar para o alojamento."
"Ah, Winner... sempre o diplomata, não é?" o homem zombou. "Ainda faltam duas semanas para a formatura, garotos. Duas semanas sem Yuy ou Chang para proteger vocês." Seus olhos se semicerraram num olhar ameaçador direcionado a Duo. "Você acha que tem o Merquise na palma da mão, não acha? Não faz a menor diferença. Você é uma puta, ladrão, assassino de L2, e antes de esse treinamento acabar, vou achar um jeito de provar."
"Não pode provar o que não é verdade," Quatre afirmou, apertando ainda mais o pulso de Duo até doer, literalmente arrastando o amigo enraivecido para voltar ao alojamento. "Vamos, Duo!"
O diretor riu sórdido. "Você é um boboca ingênuo, Winner."
O jovem de trança por fim se rendeu, deixando-se levar pelo puxão, e seguindo seus companheiros. Entretanto, continuou olhando por cima do ombro, assistindo o diretor vingativo até virarem numa esquina e perde-lo de vista.
"Pode me soltar, Quat," murmurou, estremecendo com o agarre em seu braço.
"Desculpa," pediu com sincero arrependimento. Quatre soltou o pulso do amigo. "Só não queria que você fizesse bobagem."
"Eu não ia fazer," Duo o assegurou, muito mais calmo do que seus companheiros esperavam. "Mas eu queria que o K. acreditasse que eu faria." Ante a expressão de dúvida do loiro, sorriu. "Assim ele vai acreditar quando ouvir do meu plano de fuga," explicou. "Quanto mais nervoso e agressivo eu ser, mais ele vai esperar que eu faça algo idiota e espontâneo, não é?"
Até mesmo Trowa pareceu impressionado. "Então toda aquela pose foi um show?"
"Nem toda." Duo deu de ombros. "Odeio aquele cara pra valer... isso não é pose. Mas se eu agisse com calma, ele procuraria por algum truque na manga. Desse jeito, ele vai esperar uma atitude precipitada em vez de uma mentira."
"Nesse ritmo, talvez ele acredite," Quatre concordou. "Desculpa te puxar daquele jeito."
"Não. Foi perfeito," Duo insistiu. "E assim que conseguirmos falar em particular com o Merquise e esboçar o plano, podemos começar a enganar o K."
Os olhos verdes de Trowa cintilaram numa rara demonstração de emoção. "Vou adorar acabar com a raça desse desgraçado."
"Todos nós," o rapaz de L2 sorriu de volta, abrindo a porta do quarto.
Quatre franzia concentrado o cenho. "Eu só queria que a gente tivesse um jeito infalível de passar o rumor pro Kushrenada sobre sua fuga."
Duo deu de ombros. "Desculpa, mas essa puta, ladrão, assassino de L2 está sem ideias." Jogou-se na cama de Heero, colocando as mãos por trás da cabeça.
"Você não é um..." Quatre parou no meio da frase. Por alguma razão, a palavra puta lhe dera inspiração. "Oh, espera. Acho que sei." Seu olhar foi de Duo para Trowa. "E se você não fosse ficar feliz em ter o Heero de volta?"
Os olhos índigo o encararam de volta, céticos. "Quat, odeio te informar, mas eu mataria para ter o Heero de volta."
"Tá, mas o K. sabe disso?"
Trowa percebeu rápido. "Não, ele acha que o Duo é um safado dissimulado... alguém que manipula as pessoas a torto e a direito."
"Exatamente," Quatre declarou.
"Ei!" Duo protestou.
"Isso é o que o K. acredita, Duo. Não eu," o loiro censurou. "Mas é perfeito!"
"O que é perfeito?"
"Suponha que enquanto Heero está fora, você fique entediado e se envolve com outra pessoa."
"Até parece."
"De novo, o K. não sabe disso. Supunha que ele ache que você trocaria o Heero... por, digamos, Trowa."
O queixo de Duo caiu e ele se virou embasbacado para o moreno alto. "Eu e Trowa?"
Ambos caíram na risada no mesmo instante, Trowa segurando a barriga de tanto rir, enquanto Duo se contorcia na cama em histeria.
Winner se levantou com as mãos na cintura. "Que droga, vocês dois! Estou falando sério!"
"Quatre, você tá tirando onda com a minha cara!" Duo falou entre risadas. "Não tem como eu fingir largar do Heero pelo Trowa."
"Ei!"
"Não que você não seja gato, Tro," acrescentou rápido. "Mas o Yuy é um deus, porra!"
Trowa rodou os olhos, mandando um olhar suplicante para o namorado. "Não vai funcionar," previu. "Desculpa, Quatre. De todos nós, é mais provável o Duo ficar com você."
"É, e ser esfaqueado por você?" Duo zombou. "Nem a pau, Tro. O loirinho é seu."
Trowa sorriu brincalhão. "E o moreno alto, bonito e sensual de olhos azuis é todo seu."
"Vocês não estão prestando atenção!" Quatre estressou, encarando irritado a ambos. "E se o Kushrenada achasse que você roubou o Trowa de mim, Duo? Ele não acreditaria quando eu corresse para ele contar sobre seu plano?"
"Oh." Tanto Duo quanto Trowa pararam de brincar, ambos com um brilho especulativo nos olhos. "Pode funcionar..." o rapaz de trança concedeu.
O acrobata fez uma careta, recostando-se num dos beliches. "Como, exatamente, vamos convencer o K. de que Duo largou o Heero por mim?"
"Não largou... apenas encontrou diversão em outro lugar," o loiro respondeu. Sua mente rápida já formulando planos para criar a cena. "Primeiro, vocês dois precisam ser vistos em público... juntos."
"Epa! Pera aí!" Duo advertiu. "Fazendo o que em público?"
Quatre abriu um sorriso maléfico, gostando de um plano capaz de fazer Duo se contorcer. "Bom, no mínimo, se beijando."
"Ack!" O recruta de cabelo longo pulou da cama, dando um passo na direção do loiro. "Ficou doido? Não vou beijar o Trowa, muito menos na frente de alguém que pode contar pro Heero!"
"Igualmente," Trowa concordou neutro, recostando-se numa parede e cruzando os braços.
Entretanto, o herdeiro da fortuna Winner não sucedera na vida sendo um molenga. Fixou nos companheiros um olhar penetrante. "Você quer ou não quer uma chance de entrar no sistema do Kushrenada? Uma chance de acabar com ele por tudo o que fez?"
Duo desviou o rosto. "Sabe que sim."
"Eu também," Trowa admitiu.
"Então colabore," Quatre pediu. "É assim que vai ser: vocês dois dão uma exagerada na demonstração de afeto em público... o suficiente para o campo fofocar. E, Duo, não se preocupe com o que Heero pode pensar. Ele vai ficar sabendo do planejado pelo Merquise para não ter a ideia errada."
O jovem de trança assentiu relutante com a cabeça, estudando o chão para não precisar ver Trowa.
"Daí eu vou até o Kushrenada e conto que você roubou meu namorado e quero você fora do meu caminho."
Trowa observou os suaves olhos azuis-esverdeado e cabelo loiro do namorado, sorrindo. "Quatre..." falou com o tom gentil e carinhoso. "Como você vai convencer um desgraçado como o K. de que você é capaz de ser tão vingativo?"
Quatre sorriu de volta. "Vai ter que confiar que sou capaz."
"Sei lá," Duo interviu. "Você é um cara gentil, Quat. Não sei se o K. vai acreditar que você se voltaria contra mim tão rápido."
"É por isso que vocês dois precisam ser convincentes," o loiro constatou. "E eu também." Uma vaga expressão preocupada passou pelo seu rosto. "Vamos agir como se nos odiassemos... como um time se despedaçando... pelo menos em público."
"Já vi esse filme," Duo comentou com um sorriso seco.
Trowa soltou uma risada curta. "Algumas vezes," concordou. "Talvez não seja tão bizarra a ideia de que o time Wing tenha problemas de personalidade de novo."
"Bom, não para alguém de fora," Quatre acrescentou. "Pessoalmente, sabemos que não é o caso. Na verdade, se não fossemos um time tão unido, nunca conseguiríamos realizar esse teatrinho." Virou-se para Duo com um brilho indefinido nos olhos. "Vou ter que assistir você beijar meu namorado em público. Acha que não vai doer?"
"O que é isso? O último nível do teste de confiança?" Duo brincou. Deu uma piscadela. "Não se preocupe, Quat. Ele é todo seu... não importa se ele beija bem ou não."
"Bem," Quatre corrigiu automático. "Ele beija bem."
"Nossa, valeu," Trowa comentou seco.
Duo soltou uma risada nervosa. "Não se preocupe, Tro. Noite dessas, o loirinho ficou um tempão falando o quanto você é maravilhoso."
Um avermelhado suave tingiu as faces de Trowa. "Caramba, vou me arrepender dessa história toda."
"Não se conseguirmos acabar com o Kushrenada," Quatre o assegurou.
"Tá," Duo falou, sentando-se no canto da escrivaninha e observando o amigo com curiosidade. "Como vai ser nossa escala de horários nesse plano? Quanto tempo temos para convencer o povo que Trowa e eu estamos traindo nossos xuxuzinhos?"
"Começamos hoje," Quatre afirmou. "Até amanhã, o campo inteiro só vai falar nisso, e K. vai ter escutado algum rumor. Quando eu for até ele depois do jantar e contar que quero você fora do caminho, ele já vai saber o porquê."
"E quando vou tentar fugir?"
"Domingo à noite... ou, pensando bem, segunda de manhã. Vou contar para o K. que você usou o horário de visita para avisar alguém de fora que vai te ajudar... talvez uma das minhas irmãs. Ele sabe que vocês se encontraram algumas vezes. Deixaremos essa parte meio vaga, a não ser que ele especificamente me pergunte. Quanto menos detalhes, melhor."
"E o papel do Merquise?"
"Vamos deixá-lo a par o quanto antes, o que pode demorar um ou dois dias, considerando que ele trabalha até ainda mais tarde do que Chang. Mas temos que começar com os preparativos."
"E por preparativos você quer dizer Duo e eu agindo... feito pombinhos?" Trowa procurou esclarecer.
"Isso." Quatre franziu o cenho, visualizando em sua cabeça os detalhes mais uma vez. "Na noite da fuga, você e eu, Trowa, vamos entrar no escritório do K., enquanto Duo age como isca e o Merquise vai junto para protegê-lo."
"Então assumo que devo me deixar levar," Duo sugeriu. "K. vem pra me pegar com a boca na botija, e o Merquise fica por perto para ele não tentar foder comigo, mas mesmo assim me leva para a cela no centro de detenção."
Quatre assentiu com a cabeça.
"O que vai impedir o Kushrenada de me dar um tiro na testa?" Duo questionou, erguendo uma sobrancelha.
"O Merquise precisa aparecer bem na hora que o Kushrenada te pegar no flagra," Quatre explicou. "Acho que nem o K. é idiota o suficiente para atirar em você na frente de testemunhas."
Duo deu de ombros. "Ele me odeia pra caramba."
"Eu sei... é por isso que o Merquise tem de estar inteirado de tudo."
Trowa soltou um assobio por entre os dentes, olhos verdes sérios. "É um plano bem arriscado," notou. "Muita coisa pode dar errado."
"Claro que pode," Quatre concordou. "Kushrenada pode nem morder a isca. Ou pode pedir para alguém vigiar o escritório. E pode tentar machucar o Duo."
"Tentar?" Duo resmungou.
"Mas se der certo," o loiro ressaltou, "vamos entrar no escritório e ter acesso as evidências das quais precisamos para provar que K. é um traficante. Merquise não vai deixar que ele machuque Duo, e a situação toda o manterá ocupado por tempo suficiente para sairmos com nossa evidência. Aí o Merquise pode iniciar a investigação do tráfico do K. aqui mesmo no acampamento por meios normais e legais; com sorte, vai levá-los para algo maior."
"E se não haver algo maior?" Duo perguntou desanimado.
"Nesse caso, estamos ferrados," Quatre respondeu dando de ombros. "Vai ser tudo por nada. Mas não vale a pena tentar?" pegou a expressão preocupada no amigo e se aproximou dele com afeição e preocupação nos olhos. "Ei, podemos desistir a qualquer hora, mano," falou calmo. "Se as coisas saírem dos trilhos, você fica no alojamento em vez de tentar a fuga. Trowa e eu podemos dar no pé se o Kushrenada não sair do escritório, assumindo que ele não sairá até você ser visto saindo do alojamento."
Duo balançou em afirmativo a cabeça, um pouco tranquilizado. "É meio que um plano mal acabado, Quatre... com buracos suficientes para passar um mobile suit no meio... mas se tem uma chance de enfiar a cara daquele palhaço na lama, vou agarrar com as duas mãos."
"Estamos combinados?" Quatre perguntou, olhando para Trowa por confirmação.
Trowa assentiu com um pesado suspiro.
Então Quatre espantou o humor sombrio criado pela discussão e lançou uma expressão travessa para os companheiros. "Beleza. Agora deixa eu ver vocês se beijarem."
"Quê?!" os dois exclamaram.
"Beijem," o loiro insistiu. "Andem. Vocês precisam ser convincentes ou não vai funcionar. Querem mesmo que o primeiro beijo seja no refeitório? Não querem ter uma ideia do que esperar?"
"Não!" Trowa bradou.
"Gosto de surpresas," Duo acrescentou.
O loiro fez uma careta de desagrado. "Se vocês vão fingir que estão se pegando, vão precisar se beijar de verdade, onde alguém pode vê-los." Colocou as mãos na cintura, teimoso. "Beijem agora!"
Os outros dois trocaram um olhar, ambos corando ao mesmo tempo.
Duo desviou o rosto. "Aw, droga, Quat... acho que não consigo."
"Amarelou, Maxwell?" Trowa sorriu malicioso, recuperando a compostura um pouco mais rápido que o recruta de trança.
A cabeça de Duo se ergueu de supetão e seus olhos se semicerraram voltados para o acrobata. "Não era eu que estava com medo de demonstrar que estava louquinho pelo loiro ali! Pelo menos o Yuy sabia das minhas intenções desde o início."
"Não, você precisou quase cair de um penhasco para ter coragem de tomar uma atitude!"
"Galera, isso é contraprodutivo, e temos aula em meia hora," Quatre os lembrou. "Dá para superarem o drama, fazerem as pazes e se beijarem?"
Trowa encarou duvidoso o jovem de trança, empurrando-se da parede e se aproximando até estarem cara a cara. Inclinou-se para frente de leve, e Duo se inclinou para trás nervoso, passando a língua nos lábios.
"Quatre..."
"Vai logo!" o loiro rosnou, tentando não soltar fumaça pelas orelhas de ciúme, mesmo sendo ele mesmo a ordenar que seu melhor amigo beijasse seu namorado.
O garoto de L2 suspirou, erguendo o queixo e fechando os olhos, como se esperando por uma sentença de morte.
Trowa se virou para Quatre frustrado. "Ele não quer..." Mas o brilho determinado nos olhos azuis-esverdeado o fizeram agir. Resmungando um xingamento, agarrou Duo pelos ombros, puxando-o para um beijo.
Ambos mantiveram a boca fechada, olhos fechados com força.
"Puta merda!" Quatre explodiu. "Assim não! Vocês parecem criancinhas abestalhadas!"
Duo se afastou, olhos arregalados. "Não dá, Quatre! Com o que sinto por Heero e sabendo que o Trowa é seu namorado, não consigo!"
"Nem para derrotar o Kushrenada?" Quatre questionou com severidade.
Duo parou, virando-se mais uma vez para Trowa. Então suspirou, agarrou a camisa do moreno alto e o puxou para um beijo menos pudico.
Ainda acabou rápido demais na opinião de Quatre. "De novo," sugeriu, assistindo os dois corarem e se contorcerem, claramente desconfortáveis. "Nossa, que ridículo! Parece até o primeiro beijo de vocês!"
Os olhos de Duo se semicerraram. "Não insulte minha técnica até ter experimentado, Quatre."
Quatre foi até Duo e o agarrou, puxando-o para um beijo profundo e apaixonado, coagindo sua boca a se abrir e enfiando a língua. Suas mãos se entrelaçaram no cabelo castanho e, após um momento, a pose tensa de Duo relaxou e deixou Quatre abraçá-lo.
Trowa limpou a garganta.
Vários segundos depois, Duo gemeu quando Quatre deslizou o joelho entre as pernas dele, esfregando os quadris juntos.
"Eu, ahm, já entendi, Quatre," o acrobata rosnou.
O beijo continuou o suficiente para um Trowa irritado e corado finalmente bater no ombro de Quatre.
O loiro ergueu o rosto com uma expressão irritada. "Que foi?" perguntou impaciente.
"Já chega," Trowa respondeu, tão impaciente quanto. "Já deu pra entender!"
Quatre se voltou para Duo, que estava de olhos arregalados. "Sacou, Maxwell? Entendeu o que quero de vocês dois?"
"Hum... é," Duo ofegou. Afastou-se, corando e arrumou a camiseta. "Caramba, Quatre... se eu soubesse que você beijava assim, Trowa não teria tido chance."
Trowa puxou o loiro para si. "Tira a pata, Maxwell!" grunhiu. "Ou vou te cortar em pedaços e te dar de comer para os leões."
"Caramba. Pegou pesado," murmurou Duo. "Só estava elogiando."
Quatre sorriu convencido. "Você não é nada mau, Duo. Dá pra entender o que despertou o interesse do Jase, do Austin e do Heero." Seus olhos brilharam com malícia. "Agora, beije o Trowa assim."
Duo viu o acrobata encarando-o de mau-humor. "Não se ele me ameaçar de cortar em ped – mmph!"
Foi silenciado pela boca de Trowa na dele, o acrobata puxando-o num abraço apertado e atacando com a língua em seus lábios boquiabertos.
"Mmm..." Duo fechou os olhos, jogando os braços ao redor do pescoço de Trowa e mergulhando no beijo.
"É disso que estou falando!" Quatre comemorou. Ele assistiu os dois por um momento antes de seu sorriso se transformar numa careta. "Tá bom, já chega."
Trowa pegou o olhar semicerrado de Duo e piscou, ambos concordaram em virar o feitiço contra o feiticeiro. O beijo durou longos momentos mais.
"Certo. Parem!" Quatre exclamou frustrado.
Separaram-se sorrindo.
"E aí, passamos na prova do curso intensivo de beijo do Quatre Winner?" Duo zombou, apreciando Trowa.
"Foi... adequado," Quatre murmurou.
"Porque senão podemos praticar bem mais," Duo continuou, inclinando-se na direção de Trowa.
"Não!" Quatre respondeu rápido, colocando-se entre eles. "Foi bom. Faça algo assim no refeitório ou em algum lugar sem parecer que vocês estão tentando ser óbvios. Isso já vai deixar todo mundo de boca aberta."
Duo lançou para Trowa um olhar sedutor. "Ohhh... boca," cantarolou sugestivo.
"Você sabe o que eu quis dizer!" Quatre brigou, ainda se mantendo entre os dois. "Não sei o que é pior... vocês dois tímidos demais para se beijarem ou se divertindo demais."
O rapaz de trança se espreguiçou. "Eu sei, Quat," sorriu. "Estava te zoando. Pode ficar com o Trowa." Tornou-se um pouco sério. "Espero que o seu plano funcione."
"Eu também," Quatre suspirou, fechando os olhos quando os braços de Trowa o envolveram por trás num abraço reconfortante.
Trowa inclinou-se até seus lábios estarem ao lado da orelha do namorado. "Lembre-se anjo, não importa como pareça, você é o único que eu amor," sussurrou.
O loiro suspirou outra vez, derretendo-se contra o namorado. "Você fala as coisas mais doces."
Duo cruzou os braços. "Não temos aula?"
"Ah, é. Verdade," Quatre falou, afastando-se de Trowa com relutância. "Vamos agir meio de mal um com o outro, tá? Isso vai culminar no beijo mais tarde, eu vou ver sem querer e vou fazer um drama."
Duo o analisou. "Não vai se esquecer que é só de mentirinha, né?"
"Nunca!" prometeu.
"Então é isso... Acho que vamos em frente com o plano," Duo falou balançando a cabeça. "É hora do Kushrenada pagar pelo que fez."
"E não será incrível ter nossa vingança?" Quatre comentou.
Heero ocupara-se por dois dias alternando em ler as apostilas que Wufei lhe providenciara, fazer abdominais e flexões, e andar de um lado para outro em sua cela com uma cadência medida para manter seu nível de atividades. Ele sabia muito bem que se preocupar com seus companheiros de time não ajudaria eles nem a si próprio; nem faria o tempo passar mais rápido.
Reunira-se com o advogado militar e rascunharam recursos para serem apresentados à corte, na possibilidade de o caso chegar tão longe. Entretanto, Wufei ainda tinha esperança de as fitas de segurança do hospital mostrarem alguém estranho ou surgir novas descobertas de uma autópsia mais detalhada.
O rapaz japonês passava por mais uma série de flexões quando ouvir a porta de sua cela abrir.
"Chang," falou entre flexões, sem perder um ritmo.
"Yuy," Wufei respondeu enquanto entrava e largava uma mala na cama. "Que tal terminar seu exercício para você tomar um banho e trocar de roupa?"
Heero se sentou com as pernas cruzadas e ergueu o rosto para encontrar uma expressão exaltada em seu amigo. Seus lábios se contorceram num pequeno sorriso. "Novidades?"
"Recebi o resultado dos exames toxicológicos," Wufei falou abrindo um sorriso. "Havia uma substância estranha... e encontraram no tubo de soro, o que os levou a uma perfuração minúscula. Alguém injetou Lowe com o que quer que tenha o matado." Sorriu ainda mais. "Acho que temos mesmo um suspeito... um rosto desconhecido em uma fita de segurança. Os policiais de L1 estão tentando encontrá-lo e questioná-lo."
"Fui... inocentado?"
"Completamente." Wufei apertou a mão que Heero estendeu, puxando-o para um abraço jubiloso. "Você é um homem livre, Yuy!"
"Nossa, Fei! Não posso acreditar!" Heero correspondeu o abraço e afastou-o gentilmente. "Você conseguiu! Você conseguiu mesmo, porra!"
"Não fiz nada," respondeu modesto. "Apenas me certifiquei de que todos fizessem seus trabalhos de forma correta. Só isso."
"Só isso tudo!" Heero exclamou. Olhos analisando o rosto alegre do amigo. "E agora?"
"Preciso conversar com a coronel Une. Depois vamos pegar o primeiro voo para a Terra, de lá, passaremos no quartel-general ASMS. Lá, vamos nos reportar pessoalmente com a coronel antes de nos transportar para o Acampamento Peacecraft."
"Vou poder voltar para o acampamento... para o time... para Duo!"
"Pode se você se apressar e tomar o seu banho. Não quero passar as próximas vinte e quatro horas na nave com o cheiro de prisão exalando de você." Ele apontou para a mala. "Tem uma muda de roupas aí... um uniforme limpo e cheiroso do Acampamento Peacecraft que você vai ter de usar por mais alguns dias. Até você graduar e evoluir para o uniforme ASMS, é claro."
Heero agarrou a mala. "Qual o caminho para o chuveiro, Fei?"
"À esquerda da cela e no fim do corredor... é o chuveiro dos guardas... não dos detentos. Você não é mais um presidiário... nunca mais."
Antes de sair, Heero pausou, olhando por cima do ombro com os olhos azuis acesos. "Duo estava certo, Fei. Você é o cara... O cara."
O capitão Chang ficou ali, com um sorriso sereno no rosto, enquanto seu amigo corria para se arrumar e se aprontar para a viagem de volta. Mais uma vez, o senso de justiça fora completa e certeiramente satisfeito. A única coisa faltando era reunir o time Wing e vê-los sãos e salvos se graduando, longe do carcereiro.
Continua...
