Preparativos
Cresce a tensão na montanha
Nos dias que se seguiram, Anna viu, cada vez mais alarmada, as defesas do Portão Dianteiro serem construídas rapidamente. A montanha ainda tinha ferramentas e materiais anteriores a Smaug, que prontamente foram usados até se transformarem em uma muralha alta graças à habilidade dos anões.
Também entre as preparações de guerra estava a guarda constante. Agora sempre tinha um vigia na guarita onde Anna e Bilbo estiveram antes. Enquanto Thorin continuava avidamente a procurar a pedra de seu pai, os dias se passavam, e a angústia de Anna aumentava.
Suas noites eram povoadas por pesadelos terríveis: Fíli, caído no campo de batalha, varado por flechas, Kíli a seu lado, ajoelhado, louco pela dor da perda do irmão, sendo atravessado por uma lâmina orc do tipo serrilhado. Atrás deles, protegido pelos corpos dos rapazes, Thorin jazia muito ferido, coberto de sangue orc e seu próprio, assistindo à perda de seus parentes. A Linhagem de Durin se desfazia antes seus olhos. Anna acordava aos gritos, antes de chorar amargamente.
Numa tarde, temendo dizer palavras ásperas a Thorin, que parecia a cada dia mais doente pela moléstia do ouro, Anna foi à guarita, tentar acalmar seu coração. Thorin não a ouvia mais, e certamente o desfecho seria trágico. Anna imaginou que a paisagem bucólica pudesse trazer-lhe um pouco de paz, ainda que momentânea.
— Dona Anna? — saudou Nori, que cumpria seu turno de guarda. — Está sozinha?
— No momento estou, Mestre Nori — respondeu ela. — Todos estão muito ocupados, e não me deixam ajudar, por causa de minha condição. Devem saber que gravidez não é doença, e apenas nos meses finais é que se deve ficar em repouso.
Nori comentou:
— Eu me lembro quando Ori nasceu. Ele era uma coisinha tão pequenininha que a barriga de minha mãe nem aparecia muito.
Anna sorriu e comentou:
— Espero que meu filho cresça para ser tão corajoso e adorável como Ori. Pode fazer sua guarda em paz, Mestre Nori. Não quero atrapalhá-lo. Ficarei ali adiante, observando a paisagem.
— Por favor, não saia da guarita.
Anna não tinha qualquer intenção de desobedecer. Ela não queria dar ao anão nenhuma preocupação extra, como ter que cuidar da prometida do rei.
Anna fechou o casaco que usava contra a brisa fria do inverno, capaz de vencer sem esforço o pálido sol já a caminho de sumir do céu. A grande floresta adiante parecia impenetrável e misteriosa.
Com um suspiro, Anna mais uma vez pediu a qualquer divindade que a ouvisse para dar-lhe forças pelo que ela teria que fazer. Já que Thorin estava fora de si, ela teria que salvá-lo de si mesmo e aguentar as consequências.
Seus pensamentos sombrios foram interrompidos pela chegada de um grande pássaro preto. Anna viu que ele era muito velho e dirigiu-se a Nori, falando Westron perfeitamente.
— Saudações, Mestre Anão. Trago notícias.
Nori assentiu:
— Pois, caro Roäc, pode me dar suas notícias e eu as transmitirei a Thorin, filho de Thráin. Ele ficará grato.
— Os exércitos de elfos e homens se aproximam, em breve estarão aqui — informou o pássaro. — Já os soldados de seus parentes ainda estão longe. Não chegarão antes deles.
Anna sentiu um aperto no coração. Nori disse:
— Transmitirei suas informações, Roäc. Somos muito gratos por elas.
O corvo percebeu a presença de Anna:
— Você é diferente.
Nori fez as apresentações:
— Roäc, esta é Anna, futura consorte do Rei Sob a Montanha. Anna, conheça Roäc, filho de Carc, chefe dos grandes corvos da montanha, que estão voltando a Erebor.
Anna ficou espantada quando o animal fez uma mesura:
— Saudações, Anna, consorte do rei. Vejo que não é da raça de Thorin.
— Tenho muito prazer em conhecê-lo, Roäc — cumprimentou Anna, polidamente. — Não, eu sou de uma raça diferente dos anões. Sou da raça dos homens.
O corvo a observou:
— Faz bem em dizer que é humana, quando sua raça está praticamente extinta e desaparecida. Nunca, desde que saí do ovo, há cento e cinquenta e três anos, esperei encontrar uma de seu povo.
Anna ficou intrigada:
— Minha raça? Não estou entendendo, Roäc. Você conhece humanos: fala a nossa língua.
— Mas você não é humana, Anna, consorte do rei. Estranha-me que não saiba disso. Não sei o nome de sua raça em língua humana, nem conheço qualquer humano que possa ter conhecido alguém de sua raça. Talvez os elfos saibam...
Anna respondeu:
— Acho que está errado, meu amigo. Eu sempre fui humana.
— Se é o que diz, eu não discuto. — disse o velho corvo. — Mas muitos têm olhos para ver. Deles não poderá se esconder.
Por que essas coisas viviam acontecendo com ela nos momentos mais impróprios? Ela não tinha tempo para lidar com mais essa novidade. E francamente, tudo isso estava começando a irritar Anna.
"Por que, pelo amor do santo Cristo, eu não podia ter ido parar em Hogwarts? Duvido que lá eu tivesse metade dos problemas que tenho na Terra Média!"
Com um suspiro, fingindo estar pouco interessada, Anna quis saber:
— E como se chama esta raça que diz ser minha? — Anna quis saber. — Diga em sua própria língua.
Roäc obedeceu:
— [Ninfa.] Ou [duende, fada]. Todos esses seres morreram ou deixaram essa terra há muito tempo, viraram apenas lendas.
Anna apenas o encarou, confusa. Nori também a encarou, mas estava admirado. Anna ficou constrangida:
— Tenho a impressão que continuam a ser lendas, meu amigo. — Novamente, deu de ombros:— Não sei o que dizer para que não fique magoado ou desapontado.
Roäc abriu as asas e disse:
— Se não sabe o que dizer, é hora de eu me recolher. Preparem-se todos. Os exércitos estão vindo.
Dito isso, saiu voando, crocitando enquanto Anna sentia mais um peso em seu coração. Pensou na ironia de vir tentar aliviar sua alma e só conseguira mais preocupações.
Mas aquilo não podia ser verdade. Não era verdade. Claro que o velho corvo estava muito errado, mas por que ele diria uma coisa dessas? Estaria gagá? Corvos podiam desenvolver algum tipo de demência ou Alzheimer?
De qualquer forma, Anna avisou Nori que daria o recado a Thorin e desceu para a montanha. Como ela já suspeitava, nada do que ela dissera desviava o fascínio de Thorin pela Arkenstone.
0o0 o0o 0o0 o0o
Anna dormia um sono intranquilo quando foi acordada por uma agitação na montanha. Vestiu-se às pressas e já no corredor ouviu um corre-corre. No Grande Salão de Thrór, onde todos se reuniam, ela finalmente descobriu o que estava acontecendo.
— Chegaram! — exclamou Balin, referindo-se aos exércitos. — E o acampamento deles é muito grande. Devem ter atravessado o vale sob a proteção do crepúsculo, pelas duas margens do rio.
— Todos em guarda!
Anna se ofereceu:
— Thorin, deixe-me ir falar com eles. Posso fazer as negociações com Bard e Thraduil.
Com um ar severo, ele garantiu:
— Você não vai pôr o pé para fora da montanha. Não vou arriscar você, ghivashel. Mestre Baggins, eu o deixo encarregado da segurança de minha prometida. Se alguma coisa acontecer com ela, o senhor vai responder a mim.
Bilbo assentiu, mas Anna pôde ver que ele não estava feliz com a incumbência. Anna sorriu para o hobbit e preferiu não insistir com Thorin para negociar.
O dia se arrastou para Anna. Mais tarde ela soube que uma companhia mista de elfos e homens tinha vindo até a montanha, e os guerreiros ficaram surpreendidos com a muralha e as defesas do Portão Dianteiro. Não houve negociações, e tudo que se viu foi a mudança do acampamento, que ficou entre os braços da montanha, a leste do rio.
Por estarem mais próximos, os ruídos dos exércitos chegaram à montanha. Fíli, Kíli, Bilbo e Anna ouviam as músicas, as danças.
— Quem ouve até pensa que estão numa viagem de recreio — comentou Fíli. — Parecem felizes!
Kíli comentou:
— Ouviram? Estão cantando sobre Thorin.
Bilbo se lamuriou:
— Sentem o aroma? Acho que estão assando carne de veado.
Kíli confessou:
— Gostaria de poder dar as boas vindas a eles, como amigos, e dançar em meio a todos.
— E poder saborear seus assados! — Bilbo voltou a se lamentar. — O cheiro está realmente muito bom.
Anna suspirou:
— Eu só gostaria que Thorin negociasse.
Fíli e Kíli a encararam, admirados, como se ela não pudesse discordar abertamente de Thorin ou como se ela estivesse cometendo algum tipo de traição só por falar o que pensava. Diante do silêncio pesado, Anna lembrou:
— Já pedi isso a ele em várias ocasiões, e ele sabe minha opinião.
Fíli lembrou:
— Como consorte, seu dever é apoiar a decisão do rei.
Anna rebateu:
— Como consorte, meu dever é apontar as melhores opções de ação para o rei. Se Thorin quiser uma vaca de presépio, vai ter que escolher outra pessoa.
Kíli a encarou:
— Vaca de quê?
Anna explicou:
— É uma expressão da minha terra que quer dizer pessoa que diz sim a tudo, que aceita qualquer coisa.
Bilbo sorriu:
— Vocês são dois teimosos.
— Talvez eu seja — admitiu Anna. — Mas vou lutar com todas as minhas forças por minha família, que são vocês e meu bebê. Uma guerra só nos traz promessa de destruição e sofrimento.
Kíli mudou o tom da conversa:
— Se eles estão cantando e dançando, por que não podemos fazer o mesmo?
— Boa ideia! — animou-se Fíli. — Vamos chamar os rapazes para trazerem os instrumentos. Que tal, Dona Anna?
Ela abriu um sorriso:
— Concordo que seja uma ótima ideia. Talvez seja disso que precisamos: mais alegria!
Não demorou muito para que os demais se reunissem com instrumentos resgatados do tesouro e começassem a tocar. Anna reconheceu algumas músicas que tinham tocado antes, na Curva do Rio, há tantos meses. Essas eram alegres, e até Thorin dançou com ela.
Anna sentiu seu coração se acalmar bastante, pois a alegria lhe fez bem. Bilbo também se animou, dançando e cantando tão feliz que Anna podia jurar que ele até se esquecera de comida.
Mas então os anões cantaram uma canção muito parecida com a que tinham cantando muito tempo atrás, na toca de Bilbo, chamada Bag End. Falava da montanha alta e enevoada, para onde o rei tinha voltado, o tesouro tinha sido reconquistado e o dragão tinha sido derrotado. A canção falava da riqueza do rei sob a montanha, do seu poder, e do destino do mal, que era tombar diante dos anões. Anna notou que a canção se transformava em uma canção de guerra e conquista.
Então Anna notou seu coração pesar, pois Thorin sorria e, agitado, calculava em voz alta a distância até as Colinas de Ferro e quanto tempo levaria até Dáin e seus homens chegarem, ou se teriam partido assim que receberam o recado. Anna notou que Thorin parecia contente, mas seu coração afundava em pensamentos sombrios. Bilbo parecia pensar a mesma coisa.
Droga.
Cada vez mais Hogwarts parecia atraente, mesmo na iminência de uma batalha.
Palavras em Khuzdul:
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
