Capítulo 55 – O garoto que treina futebol – William Dale


"Primeiro Mistério da W Gakuen – O garoto que treina futebol"

"Há muitos anos, havia um jovem estudante na W Gakuen cujo sonho era se tornar a maior estrela do futebol. Ele treinava todos os dias, faça chuva ou faça sol, sempre que tinha tempo livre. Mesmo que isso significasse treinar sozinho, ele não se importava. Para alcançar seu sonho, ele treinaria sempre, cada vez mais.

Todas as manhãs, o garoto acordava mais cedo que todos os outros, para treinar futebol sozinho no ginásio antes mesmo do café da manhã. Mesmo doente, o garoto nunca perdia um só treino.

Certo dia, em mais um de seus treinos sozinho, o garoto chutou a bola muito forte e, para não perder seu precioso objeto, saiu correndo atrás dele. Após percorrer uma longa distância, a bola finalmente parou no meio da estrada. Aliviado por poder pegá-la, o garoto abaixou-se e colocou as mãos na bola...

Mas não viu o carro que vinha em alta velocidade em sua direção.

Até hoje, se você for de manhã cedo até o ginásio, conseguirá ouvir o garoto treinando futebol, sozinho, até que ele consiga se tornar o melhor do mundo."


Eu achei completamente ridícula a ideia de um fantasma ficar treinando futebol. Já é ridículo treinar futebol sozinho (espero que o sonho do garoto não fosse ser o melhor goleiro, senão ia ser bem mais estranho).

Eu ainda estava no meu quarto, de pijamas, lendo o jornal do Japão. O Júlio me disse que o Itália veio aqui de madrugada, mas eu não ouvi nada; tenho sono de pedra. De qualquer forma, o Japão já sabia tudo o que estava escrito no jornal, então ele deixou eu e o Júlio lermos antes.

- Anda, William! – berrou o Júlio. – Se você não se arrumar logo, vai perder o café da manhã!

- Ei, Júlio! – eu fechei o jornal e pulei da cama. – O que você acha de nós irmos até o ginásio antes do café e verificar essa história do fantasma?

- Qual dos fantasmas? – o Júlio já tinha lido todo o jornal antes de mim.

- Esse aqui que joga futebol, oras. Ele só aparece antes do café, não é? Nós temos que correr!

- Não fala comigo assim, o atrasado aqui é você!


Eu me arrumei na velocidade da luz, e o Júlio e eu fomos para o ginásio correndo (o Japão já havia saído para preparar suas marmitas japonesas ou seja lá que nome elas tenham).

- O futebol é uma arte tão bonita que até fantasmas praticam! – disse o Júlio, emocionado.

- Você não tem medo de fantasmas, Júlio?

- Eu venho de uma família espírita, cara. Tá certo que eu não deveria ficar falando "fantasmas", mas eu estou acostumado a coisas assim.

Nós chegamos na frente do ginásio, e a porta estava fechada.

- Bom, aqui estamos – eu disse. – Quer entrar primeiro?

Antes que o Júlio pudesse responder, veio de dentro do ginásio o barulho de bola batendo na trave.

- Que diabos! Por que hoje eu não estou conseguindo acertar a porcaria do gol?

Eu e o Júlio nos entreolhamos.

- William, tem alguém lá dentro...

- Sim, eu ouvi...

Nós ficamos ali fora parados por mais um tempo, ouvindo a bola acertar ora a trave, ora a parede (intercalado com os berros revoltados do fantasma).

- Sabe, William... – começou Júlio, depois de um tempo. – Essa história inteira não está meio estranha não?

- Como assim?

- Tipo, como é que tinha um aluno, uma pessoa normal, estudando aqui há muito tempo atrás?

- Vai ver a escola não foi sempre dos países.

- E onde que passa carro por aqui? O moleque devia estar jogando bola no fim do mundo, para conseguir ser atropelado!

- Quer parar de tentar colocar lógica no meio da história? O fato é que o fantasma tá lá dentro!

Lentamente, a porta do ginásio começou a abrir. Acho que o fantasma decidiu que era hora de acabar o treino por hoje enquanto nós estávamos discutindo...

- O que vocês estão fazendo aqui?

- Socorro! – eu berrei e saí correndo. – Não é um fantasma, é um cadáver mortinho da silva apodrecendo com dois vermes gigantes digerindo o rosto dele!

- Calma aí – o Júlio me segurou pela gola do blazer. – Eu já vi ele antes.

- Você andou arrombando caixões, Júlio?!

- Cadáver fantasmagórico é sua mãe! – berrou o dito cujo. – Vai entrar pro clube da Thompson de ingratos que xingam a própria nação?

- É, as sobrancelhas são inconfundíveis, o Brasil estava certo. Esse aí – o Júlio me virou na direção dele – é o Inglaterra.

- Ah, prazer, Inglaterra! – eu disse, sem graça. – Não é bom ficar aí, tem fantasmas aí dentro.

- O Brasil me disse que o Inglaterra fica horas e horas conversando com coisas que só ele vê, então eu acho que não tem muita importância para ele ter fantasmas lá dentro ou não, William.

- Ah, saquei. Espera aí! – algo me ocorreu. – Se eu não conhecia o Inglaterra antes, como ele sabe que eu sou britânico?

- Por que você disse "brown bread rotting corpse"[1], imbecil. Quantos americanos você acha que conhecem essa expressão?

- Aposto que o John Thomas conhece – respondi, fazendo birra.

- O que foi que você disse?! O que foi que eu fiz para ter uma população tão mal-educada, Senhor?!

- Mas eu nem sei o que foi que eu fiz dessa vez! Eu só estou falando a verdade, o John sempre sabe de tudo, aposto que ele conhece um monte dessas expressões britânicas também!

- Espera – o Inglaterra tentou se acalmar um pouco. – Você está me dizendo que existe um garoto chamado John Thomas aqui? Quem é o infeliz?[2]

- Um americano que faz inglês com- Ah! Agora eu me lembrei de você, você é o cara que senta perto da porta e está sempre discutindo com a Elisa!

- Presumo que o ruivo que senta na sua frente é o Thomas? Não sabia o nome dele, mas sempre tive esperança que ele pudesse ser britânico... – o Inglaterra suspirou. – Que droga que é justamente o contrário... Bom, com o nome que o coitado tem, é melhor que seja assim.

- Mudando do saco para a mala, Inglaterra... – o Júlio nos interrompeu. – Aquele anúncio do jornal. É pra valer?

- F-foi ideia da Thompson! Eu nunca quis fazer isso!

Eu me lembrava de ter lido o tal anúncio. "Você se acha diferente das outras pessoas? Acha que tem algo de errado com você? Algo inexplicável e aparentemente sem solução? Você não é o único. Junte-se a nós! Falar com Inglaterra (Europa 1) ou Elisa Thompson (Ásia 1)." Quem diria! Aqueles dois, que antes brigavam como cães e gatos, se reunindo para alguma coisa?

- Mas eu posso falar com você, de qualquer forma, né? – perguntou o Júlio.

- Depende. Críticas ou reclamações, vá direto para a Thompson. Eu não quero saber.

- Não, não é isso. É só que... Talvez eu seja diferente dos outros. Sabe, como vocês falaram no anúncio.

- Bloody hell[3], o negócio do anúncio funcionou! – o Inglaterra arregalou os olhos, espantado. Ele pigarreou. – Eu vou falar com os outros e volto a falar com você... Santos, não é?

- É – ele confirmou.

O Inglaterra se despediu e nos deixou para trás, indo tomar café (não literalmente, porque não sei qual é a dele com chá...).

- William...

- Quê?

- Isso quer dizer que... Era o Inglaterra treinando futebol esse tempo todo, e a galera achando que era fantasma?

- Por que você acha isso?

- Porque o Inglaterra saiu daqui levando a bola.


[1] "Brown bread" (literalmente, "pão marrom", em inglês) é uma gíria britânica para "morto", equivalente à expressão brasileira "mortinho da silva". Embora a tradução correta de "rotting corpse" seja "cadáver podre" ou "cadáver em decomposição", aqui a frase "brown bread rotting corpse" equivaleria à frase "cadáver mortinho da silva apodrecendo" dita por William. Lembre-se de que os personagens sempre se comunicam em inglês!

[2] "John Thomas" é uma gíria britânica para "pênis". A autora jura de pés juntos que não sabia disso quando nomeou o personagem, mas agora é tarde demais.

[3] Bloody hell: "inferno sangrento", em inglês. Expressão usada em inglês (especialmente o britânico) para expressar surpresa com misto de indignação.


O segundo mistério é... "A escada cujo número de degraus muda"! Sim, eu sei que esse nome é péssimo...