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Ane olhou Yacob no caminho de seu quarto e suspirou ao ouvi-lo:
_Menina Akane, lave-se agora para não se atrasar para o jantar. –ele era rígido, mas usava de um afeto agraciado pelos anos vividos. Ela deu espaço a um sorriso desmaiado no rosto e agradeceu. Depois, pediu:
_Yacob, me faça um favor: encomende duas de dúzias de donuts das mais recheadas e gordurosas e mande entregar uma dúzia aqui e outra no Paterno amanhã de manhã, pro café.
As sobrancelhas de Yacob brincaram divertidas na testa marcada da idade.
_Pois não, senhorita. Suponho que eu deva acrescentar sorvete de chocolate à encomenda.
_Oh, Yacob, só você sabe tratar uma mulher. –a moça elogiou carinhosamente, buliçosa e lânguida.
_Senhorita Yuy, não me comprometa. –ele rebateu o comentário de modo monótono e até esnobe. Ela riu e meneou a cabeça, aos poucos se sentindo mais como si mesma.
_E talvez um pacote daqueles ursinhos de gelatina… –e acrescentou, só pela comédia. Yacob não tinha tempo para criancices, mas distanciou-se com uma alegriazinha nos olhos idosos.
Todos os Yuys se encontraram na mesa do jantar. Dante desgostou de ver a filha na mesma roupa do almoço, mas essa era uma questão pessoal e que não cabia mais discutir. Olhou o filho e o notou cansado, contudo Athina foi quem indagou Heero sobre o exame.
_Acha que foi bem? –com a doce e orgulhosa expectativa de mãe, investigou depois da breve conversa evasiva dos dois sobre como tinha sido a prova.
_Sim. –mesmo que desejasse, não conseguiria dizer mais. Sua resposta lacônica transmitiu confiança e Athina sorriu, brilhante, sem descartá-la. Entretanto, aquilo encerrava o assunto e a mulher olhou os arredores da mesa, procurando apoio.
Ane sorriu para a mãe e para o irmão e desenterrou de seu acervo algo em pretexto para novo diálogo. Só Athina participou. Nada incomum.
Heero observou as duas mulheres conversando e sentiu-se preso em um déjà vu. Respirou fundo e concentrou-se em cortar seu filé, do qual pouco tinha comido, e foi como se uma onda tivesse vindo cobri-lo de uma sensação forte que já há algum tempo ele não experimentava. Essa onda não recuou sem causar sinais visíveis de sua presença. Ao passo que as vozes das duas mulheres permeavam o ar sem perturbá-lo, Heero baixou o fito para o prato, e preparou-se para ser engolfado outra vez pela presença do vazio. Era mesmo como se fosse entrar no mar: ele prendeu o fôlego e premiu os lábios, a vaga de melancolia lavou-o todo.
Se a vida dele continuava, ele não podia continuá-la assim. Olhou primeiro a mãe, que dava alguma opinião com ânimo, e depois observou Ane, assentindo atentamente às palavras da mãe. Agora, só dependia dele manter o vazio no oblívio em que morara estas últimas semanas. A visita dele era inoportuna e Heero não queria abrir nenhuma brecha para interessá-lo a permanecer. Se a maré vinha de novo, era da obrigação do rapaz lutar.
Engoliu um pouco de ar e pensou rápido. Deu uma palavra breve sobre o assunto das mulheres assim que houve um intervalo entre a fala delas e imediatamente chamou a atenção das duas. Athina o cobriu com seu fito de amor e com um gesto de cabeça mostrou interesse ao que ouvira. Ane levantou as sobrancelhas, aguçada como um gato curioso, e sorriu com despretensão, em solene aguardo por mais.
A sensação de estar exposto e vulnerável o fez hesitar por um instante. Sabia que ali estava a brecha que sua psique poderia aproveitar para a auto sabotagem, para a instituição plena do império do vazio que o drenaria como já havia drenado meses atrás. Contudo, cada rosto voltado para ele ali lhe era de todo familiar, os olhares não eram traiçoeiros e, consequentemente, dignos de uma confiança que Heero ousava conceder em raros momentos a pessoas rigorosamente selecionadas.
Por isso, engoliu um pouco de ar e deu prosseguimento a suas ideias, decidido a continuar a participar até que o fluxo da conversa se tornasse natural.
Desse modo, mais um tom foi adido aos comuns, e a composição dos diálogos pouco a pouco se tornou mais rica e viva.
Dante seguia alheio, feito nada de importante acontecesse em sua mesa. Não era assombrado pelo mesmo mal que Heero, no entanto tinha seus próprios problemas de tirar o sono.
O humor do jantar sofreu um crescendo positivo e terminou aliviado da tensão incômoda. A sobremesa foi apreciada em um silêncio de repouso, contente e sereno, dentro do qual cada Yuy organizou o que ouviu e descobriu durante a refeição.
Heero esteve ansioso por este momento, desgastado pelo próprio esforço conversacional e sem motivação de sobra para prosseguir qualquer assunto. Faltava tomar gosto pela atividade, faltava prática. Andava percebendo-se muito despreparado para muitas atividades.
Ele saiu da mesa sentindo-se pronto para dormir. Imaginava que aquela noite seria uma de sono denso e merecido. Não havia mais o que estudar, de repente. A consciência talvez não estivesse imperturbada, porém estava permitida a dormir.
Não se deu conta de que Ane o acompanhava até ouvi-la suspirar. Lançou um fito de soslaio suspeitoso e ela tinha um sorrisinho infantil pintado no rosto feito uma pincelada leve e precisa de tinta vermelha. Heero não gostou.
_De repente sou merecedor de sua preciosa atenção? –ele interrogou, entediado, parando na porta do próprio quarto.
_Isso não quer dizer que eu te perdoei.
_Não preciso disso.
O sorriso da moça tornou-se mais sincero e menos espevitado.
_A verdade é que… está além de mim conformar-me com sua decisão, porém, não dá para viver com uma mágoa dessas. Não irá me fazer bem.
_Que altruísta. –ele rebateu, jocoso e pouco impressionado.
Ela riu, sem desanimar.
Ele entrou, entretanto, deixou a porta aberta, e Ane percebeu que ela estava livre para ficar.
_Gostei da nossa conversa no jantar hoje. –comentou, aleatória, reassumindo seu ar serelepe. Era nesses momentos que Heero estranhava eles serem irmãos e esquecia a idade dela. Ele deu de ombros, sentando na escrivaninha. Sentara lá por puro hábito, tão disciplinado estava depois de estudar todas aquelas semanas.
Ele virou a cadeira para a direção da menina e a encontrou sentada em sua cama.
_Achei o mais natural a ser feito. –ele tentou se justificar de forma despretensiosa. Ela sorriu para dizer que a despretensão dele não fora muito convincente, porém, aquilo era o mais encantador sobre ele no momento.
_Eu fui ver Relena hoje à tarde. –sem rodeios, com a cumplicidade que ela sempre demostrou com o irmão, Ane comentou, mas não sem intenção.
Heero queria ter uma reação àquela frase, uma que colocasse pouca importância ao que ouviu sem ser desdenhoso, contudo. De qualquer modo, não era dele atuar, fingir ou fabricar reações. Por mais lacônico que sempre fora, sempre tinha sido sincero. Em sequência ao anúncio da irmã, ele não conseguiu fazer nada.
O nome da esposa o transformava em um oceano introspectivo, fundo e amplo, no qual facilmente se perdia em deriva.
Ane percebeu ele ficar absorto, as sobrancelhas ficaram tesas e tristes na testa dele – a única feição que revelou algo do que ele realmente sentia.
_Heero, você tem certeza de que não reconsiderará? Recobre o senso.
_Não estou louco, nem errado.
_Não, pode ser que não esteja. Pode ser que finalmente você esteja enxergando a realidade como ela é, e não como você temia que ela fosse todos esses anos.
Ele franziu forte a testa, dando ao olhar azul uma qualidade feroz e bastante contrariada. O que Ane ofereceu a ele em retorno, porém foi um rosto embebido em doce placidez. Era uma expressão sublime demais para combinar com a menina, e nem por isso ela era incapaz de produzir. Por um instante, ela não disse nada.
_Sabe, o que mais gostei do que vi hoje, na hora do jantar, foi o fato de você surgir quase o mesmo de anos atrás. E não só isso. Eu vi uma versão sua ainda melhor do que você era anos atrás. Eu vi um homem diferente do que conheci. Um homem que talvez encontrou um pouco de paz e um pouco de verdade em si mesmo.
A tensão do rosto dele derreteu-se feito neve exposta ao sol. Respirou fundo e desviou a vista.
_Nunca antes você foi assim, por isso estou completamente convencida de que o que você escolheu é fruto de muita deliberação e cálculo. Só que ainda há alguns pontos que você está desconsiderando.
A faculdade de Direito estava fazendo bem a persuasão de Ane. Heero sabia que ela seria uma advogada irresistível por tudo o que conhecia dela. Sua atenção estava captada por aquela introdução, mas seu coração por dentro se encolheu, temeroso do que ouviria – mais motivos para voltar atrás.
_Ane, eu prefiro você furiosa e sem falar comigo. –ele reclamou, indo sentar do lado dela.
_Fale sério. –ela rebateu, risonha.
Ele meneou a cabeça.
_Como está Relena?
Ane suspirou:
_Eu não sei definir. Ela não estava surpresa, mas estava magoada. O divórcio entre vocês já estava decidido, não é?
_Já.
_Em que condições? –Ane arriscou indagar.
_Não é relevante falarmos disso. –Heero sabia muito bem que ela queria brechas para usar de base para dissuadi-lo. Ele sabia bem as condições e preferia não resgatá-las. Trazê-las a baila só significaria recordar daquele Verão ingrato dois anos atrás.
_Está bem. –Ane se refestelava ao ouvir o modo manso de ele falar. Era mesmo um homem novo. –O coração de Relena finalmente se partiu. Quem diria que duraria tanto…
Heero achou o tom de Ane um tanto fúnebre demais.
_Conhecendo-o, imagino que era isso que queria? Desfazer qualquer vínculo para promover um renascimento puro, sem pendências com o passado.
_Sua leitura é filosófica demais.
_Obrigada. –ronronou, cheia de si.
_Não era um elogio. –ele rebateu, rouco.
Ane suspirou, pacientemente.
_Só que não acabou ainda, Heero, e a questão que falta você resolver é: quando você a ver outra vez, porque não tem como impedir isso, só delongar, que comportamento você prefere que ela tenha? O que vai machucar menos? Ela vir cheia de ódio e jogar na sua cara o quão imponderado e cruel você agiu tratando ela assim ou ela surgir totalmente suave e séria, tratar tudo com a civilidade tranquila que só Relena possui e não demonstrar qualquer sentimento sobre tudo além de consentimento?
Heero encarou Ane, que até antes de terminar, só tinha olhado em frente. Os olhares dos irmãos prenderam-se um no outro, afiados e sóbrios.
O que ele ouviu lascou uma camada de suas convicções, e temendo que o abalo se aprofundasse, recorreu a sua pedra de toque:
_Ane, isto não é sobre mim…
_Heero, por favor. –Ane implorou, o olhar tão preso ao dele que já era como se eles fossem apenas um ser.
_Eu já não sei mais como abordar este assunto. –ele declarou, incomodado, e deixou o ar escapar, enfático. –Eu não tenho que provar nada a ninguém, muito menos a você.
_Não tem, é verdade. Só esteja ciente que você está cometendo um mal que, se irreversível, vai trazer arrependimento amargo para sua vida toda.
_Arrependimento eu já conheço, Ane. –ele foi afiado e exaltado ao defender-se.
Ele não queria ter confessado aquilo. Nem para si mesmo tinha admitido abertamente seu arrependimento. Akane o provocou a dizer, ela fizera de propósito.
Desestabilizado de seu eixo, agora havia uma possibilidade de ele ver a situação do ângulo correto. Ane sabia que isso o faria sofrer, mas se ela se abstivesse de provocá-lo, passaria o resto da vida sentindo-se culpada por não ter feito nada para tentar salvar a felicidade de Heero e Relena.
Era de fato fisicamente dolorido para Ane aceitar que ela não podia resolver o assunto, que ela não podia provocar uma mudança drástica de pensamento, que ela não podia voltar no tempo, que ela não podia obrigar Heero a ser e fazer o que ela queria e sabia certo. Era o veio de Dante nela. Contudo, inversa ao pai, Ane não agia e pensava assim de forma arbitrária e tendo em vista seu prazer, mas só queria que tudo desse certo para aqueles que ela amava. Era um defeito, era uma virtude – nenhuma das duas definições a livravam de ser mandona, às vezes.
_Faça um uso positivo dele então, Heero. Aprenda com ele. É pra isso que o arrependimento serve: para crescer. –ela mordeu o lábio. Hesitou em entrar no próximo tópico. Decidiu que já tinha causado dor suficiente no irmão, e resolveu que talvez outra pessoa pudesse seguir aquela ideia. O acaso também era um bom remédio. –Eu sempre vou estar do seu lado, Heero. Até mesmo se eu não me conformar com uma escolha sua. Por bem, eu digo que a vida é sua. Você deve escolher o que quer, quem vai ser… é bom ver essa segurança em você. –e acabou falando demais, mas não se preocupava muito com isso. Com Relena, não conseguiu achar o que e como dizer em consolo. Com Heero, não conseguia parar de falar. Seu amor pelos dois era tão grande que tinha dificuldades em gerenciá-lo e acabava se perdendo um pouco em suas intenções.
Era melhor ir para separar-se dele.
Sorriu e bagunçou o cabelo dele carinhosamente e deu boa-noite.
Os ombros de Heero caíram ao ver a portar cerrar-se atrás da irmã.
Iludido como estava, preferiu acreditar que o arrependimento sentido conduzia àquele renascimento puro que Ane mencionara, expurgado e aquém de toda dor passada, sentida ou provocada.
Depois de uma ducha, Heero deitou-se para tirar o peso do dia de suas costas. O dia que seguia estava longe de ser fácil.
Relena ecoava este pensamento, também em sua cama. Jantou bem pouco e então lia para ocupar a mente. Mesmo assim, entremeada ao texto estava a pergunta pungente sobre quando sentiria prazer nas coisas outra vez. Fazer-se de forte tinha ficado para trás e talvez fosse a hora de consultar um terapeuta. Os últimos cinco anos foram mais difíceis do que sua vida toda. Algo estava errado.
Apagou as luzes e continuou pensando. Ela tinha o poder de controlar sua vida. Dependia dos outros, desejava amor, desejava amar, porém no centro de tudo precisava haver uma Relena confiante. Ela precisava cuidar bem de si em primeiro lugar.
A resiliência devia estar em sua genética. Descendente de escandinavos, a habilidade para sobreviver condições aparentemente inóspitas era inerente e espontânea. Mesmo se ela quisesse desistir, não conseguia.
Pelo menos o café da manhã surpresa conseguiu arrancar-lhe um sorriso. Uma cesta com uma caixa enorme de donuts, sorvete de chocolate, ursinhos de gelatina, macarons e flores estava em cima da mesa de jantar, sem nenhum cartão.
Manon também estava divertida com o presente e olhou a moça ao ouvi-la concluir:
_Só pode ser obra da Ane. –e preparou-se para se empanturrar das guloseimas sem pensar nas consequências.
Manon foi convidada a participar do desfrute matinal. O sorvete elas guardaram para depois do jantar.
Relena mandou uma mensagem de agradecimento para cunhada depois de ter se organizado para começar o dia de fato.
Ane respondeu com um convite para acompanhá-la na solução de algumas questões para sua próxima festa. Seria tão divertido e distrativo, Relena não tinha dúvidas, mas preferiu não ir e ficar no Paterno para pensar no que fazer.
Pensar mais. Ela ainda não tinha aprendido. Quando começaria a agir?
Porém, o que faria?
Ia feito uma heroína de romance Harlequin confrontar Heero em seu escritório de altíssimo padrão, causar uma cena, exigir direitos que não sabia bem se lhe eram devidos, pedir para ele ficar? Ou aprovar sua partida?
Suspirou, sentindo-se ridícula.
Diante da tela de seu laptop, abriu a caixa de e-mails, as propagandas se alastravam a uma data qualquer de três semanas atrás. E havia no meio de tantos alertas do Facebook uma mensagem que devia ter sido lida por ela há uns quatro dias. Era um contato da editora do irmão da senhora Baumgarten, oferecendo-lhe oficialmente uma posição como editora assistente em uma obra específica daquele autor que ela já tinha avaliado antes.
A moça corou de pasmo e inquietação. O coração achou uma cadência abrupta e a temperatura da sua pele aumentou.
Quando Nine mencionara, tudo parecia tão informal e distante, quase impossível. E há quatro dias, tudo tinha mudado para oficial e próximo, completamente possível. Havia uma porta aberta para um futuro diante de sua face, brilhando com a claridade ofuscante do monitor de LCD.
Era a segunda surpresa do dia. Pressionada esmagadoramente para decidir, agarrou seu peito para tentar conter a palpitação. Cada rufar cardíaco anunciava a dúvida: o que ia responder?
Por que justamente aquele momento adverso tinha de servir de pano de fundo para uma decisão tão auspiciosa?
A vida não obedece mesmo nenhuma regra a não ser as suas próprias. E Relena imaginava que ironia não seria a palavra exata para definir sua posição, contudo, apesar de tudo o que ela já havia lido, estudado e aprendido, não achava nenhum termo para satisfazer uma definição.
Respirou fundo e fechou o e-mail. Quatro dias era muito tempo de silêncio. Precisava dar uma resposta pelo menos até a manhã seguinte. Do contrário, suas chances poderiam estar perdidas para sempre.
Ficou inquieta até o almoço, comeu pensando se devia comunicar alguém sobre a proposta, animada e assustada, cheia de expectativas.
Antes do jantar, agiu. Telefonou para o número indicado na mensagem e esforçou-se para conter a euforia ao ouvir a voz da recepcionista elegantemente lhe saudar:
_Editora De Witt.
_Boa tarde, aqui é Relena Yuy. –e em outro momento menos pungente, ela teria estranhado seu próprio nome.
_Boa tarde, senhora Yuy. Como posso ajudá-la?
_Gostaria de marcar uma reunião com o senhor De Witt.
_Pai ou filho?
_Ah… eu não estou bem certa. Eu recebi um e-mail sobre uma posição como editora assistente.
_Pois não, senhora Yuy. O senhor De Witt que a senhora procura é o pai, senhor Bas De Witt.
_Quando posso vê-lo? É urgente, porém, seria uma visita breve.
_Amanhã, por volta das quatro horas, o senhor De Witt poderá atendê-la.
_Obrigada.
Encerrou a ligação para encarar o dia com outros olhos. Sua situação penosa fora deslocada do centro do palco para o pano de fundo, de fato. Mal podia esperar pelo amanhã.
Era diferente a situação no outro extremo da cidade. Depois de um dia especialmente ocupado no escritório, Heero sentava-se à mesa de jantar frustrado por não ter conseguido parar um momento para levar os documentos ao Paterno. A expectativa o estava arrasando como nunca antes e ele, que nunca tinha conhecido a ansiedade, experimentava-a monopolizando vez por outra os seus pensamentos.
Ver Relena era o que espantava. E a ciência de que isso era inevitável o paralisava. Talvez tivesse sido culpa dele mesmo o tempo ter faltado para que a tarefa fosse cumprida. Ele não era assim, do tipo que procrastinava o cumprimento de uma meta. Contudo, sentia em si que ver Relena, ao invés de contribuir para o sucesso de seu propósito, o arruinaria.
Vê-la certamente o faria fraquejar e inspirar contradições em seu espírito. Contudo, justificava-se dizendo a si mesmo que aquela era uma passagem que ele ia ter de cruzar para pagar definitivamente os maus que perpetrara.
Se tudo isso tinha tomado a mente do rapaz em cerco, mais motivo era para dar cabo ao que temia. Durante a refeição daquela noite falou menos sem deixar de participar, entretanto. Fazia o tempo passar mais rápido e era disso que ele precisava, mas ele de fato era novo nisso – a ansiedade deseja tanto o amanhã, que o retarda sofrivelmente.
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A camisa de seda preciosa brilhava como pérola. A escova descia pelo longo cabelo dourado em um movimento suave e preciso, repetido à perfeição. Relena queria uma aparência que transmitisse ao mesmo tempo segurança e jovialidade, sucesso e simplicidade. Conferiu os detalhes da maquiagem, alisou a saia preta, rodada e volumosa, e calçou os sapatos azuis. Uma borrifada do perfume favorito finalizou o conjunto.
_Manon, estou saindo. –avisou, já na porta, e sem aguardar qualquer retorno, deixou o apartamento.
O porteiro chamou um táxi minutos antes, e atravessando a porta giratória, saiu para conquistar o mundo, seu sorriso irradiando luz mais forte que o sol.
Tudo era de extremo bom gosto, porém minimalista, no andar da editora De Witt que Relena conheceu. Ao chegar às três e quarenta, foi recebida pela mesma mulher que atendera o telefonema. Ofereceram-lhe café e água, mas ela estava animada demais para poder se concentrar em outra questão que não fosse a entrevista.
O senhor Bas De Witt surgiu do mesmo elevador que ela dez minutos depois e vendo a moça tão linda, à moda de Grace Kelly, sentada na poltroninha da recepção, já sabia que se tratava de Relena. As feições dele lembravam a da irmã, só não tão brandas.
_Vamos para meu escritório, senhora Yuy? –e ao passar por ela, convocou com um gesto enérgico e voz de trovão.
_Claro. –ela refez do choque em instantes e o seguiu rapidamente, do jeito que aparentemente ele gostava de conduzir as coisas.
_Sente-se, por favor, fique à vontade.
_Obrigada, senhor De Witt.
_A pauta de nosso encontro. –ele pediu, olhando-a nos olhos com assertividade.
_O e-mail sobre o cargo de editor assistente que recebi. –ela mencionou, quase divertida.
_É claro. Quase me esqueci.
_Desculpe, foi cinco dias atrás, mas só pude vê-lo ontem.
_Imagino que esteve ocupada com o caso do senhor Stefans, seu pai. Ele está bem?
_Sim, senhor.
_Isso é bom. O que não é bom é que, infelizmente, eu não pude segurar a posição e a preenchi na segunda-feira.
Pelo menos, a forma direta de ele conversar fez a notícia ruim feri-la menos.
_Entendo. Eu agradeço muito a oportunidade, de qualquer modo. –e sorriu tão elegante que Bas não resistiu soltar um suspiro.
_Não, não estou te dispensando.
_Desculpe? –seus lábios ficaram levemente partidos depois de ela falar, sua expressão ficando suspensa.
_Você vê, Setembro se aproxima. –ainda era fim de Julho, porém, um homem de negócios como ele e com aquela personalidade quase não via o passar das horas. –Nessa época acontece o que chamamos de Rush de Outono e muitos manuscritos e indicações e autores irão inundar este escritório como folhas secas. Eu nunca tenho pessoal suficiente para analisar este material. Gostaria de integrá-la nessa equipe.
O sorriso se expandiu em seus lábios rosados e o brilho azul de seu olhar se intensificou. Contente, respirou fundo antes de pronunciar:
_Eu aceito. Imagino que este seja um trabalho voluntário? –e a atmosfera aberta a permitiu perguntar.
_Não, não, você será paga. Os horários são bem flexíveis. Acho que vou precisar de você aqui só nas duas primeiras semanas de Outono, depois, é só cumprir os prazos, no seu ritmo.
_Parece maravilhoso. –aquilo era ainda melhor do que a posição de editor, pois provavelmente ela poderia continuar com as aulas, ao menos aquele ano. –Eu continuo muito agradecida pela oportunidade, senhor De Witt.
_Eu não posso perder um ponto de vista como seu, senhora Yuy. Sua resenha foi muito útil em todo o acompanhamento publicitário do livro.
Mostrando um sorriso diferente, mais contido e inteligente, ela meneou a cabeça.
_Vou precisar dos seus dados para o contrato, algumas fotocópias, fale com Lex sobre isso antes de sair. Se surgir algum material promissor antes do rush, posso enviá-lo para você?
_Pode sim.
_Ótimo. Viu, pensou que sairia daqui com as mãos vazias? –e De Witt brincou debruçando na mesa. –Bem, imagino que isso seja tudo. Posso ajudá-la em algo mais, senhora Yuy?
_Por enquanto, não.
Levantaram-se
_Benvinda a Editora De Witt. –ele apertou a mão dela, caloroso.
_Obrigada.
Retornando a recepção, perguntou por Lex, e a recepcionista chamou pelo telefone a próxima pessoa que Relena precisava conhecer.
Lex era o De Witt filho. Ele era dez anos mais velho que ela, embora Relena jamais pudesse adivinhar. Ele tinha uma expressão perdida e pura nos olhos claros, marmóreos, e durante o tempo que passaram juntos, ela acabou se lembrando de já tê-lo visto em um dos bailes de Primavera. Prestou atenção no sorriso que ele abria, vigoroso e esperto, mas sua personalidade não era tão dinâmica. Usava de metodismo para mostrar sua eficiência, gostava de ter tempo para ponderar e dar espaço para digressões.
Lex mostrou os dois andares onde funcionava a administração da editora. Explicou que parte da impressão acontecia em um galpão de uma antiga fazenda, a duas horas da cidade, e outra parte acontecia na China. Apresentou algumas pessoas, contou breves detalhes da história da empresa, fez Relena parte da equipe. Sentou-a em seu escritório, ainda mais arrojado e prático do que o do pai, e deu-lhe uma lista de documentos a serem copiados, ajudou-a a preencher algumas folhas de cadastro e fez perguntas extremamente relevantes ao motivo do encontro sobre os interesses e o contexto acadêmico de sua nova empregada. Pareceu interessado o tempo todo em que Relena falou. A atenção dele foi até um pouco incômoda até ela se acostumar.
_Venha a qualquer hora nos ver, se desejar, enquanto não surge trabalho para você. Se tiver quaisquer dúvidas… –dizendo assim ele parou para escrever em um bloquinho de post-it que saiu de seu bolso. Usava um pequeno lápis amarelo, dos mais simples e baratos, apontado quase até o fim, embora a borrachinha estivesse intacta. –Procure minha irmã, Lea.
Relena apanhou o pedaço de papel e sorriu.
_Obrigada.
Ele mesurou com a cabeça e assistiu ela entrar no elevador.
Na calçada, respirando fundo e absorvendo o espírito da cidade, Relena pensou que Nova York às vezes se lembrava de sorrir. Caminhou um pouco sem destino, só para concentrar-se em sua felicidade, e depois entrou no primeiro táxi que conseguiu parar.
Era uma conveniência muito grande Heero ter encontrado um lugar para estacionar quase em frente ao Colosseum. Deixou o carro e andou os poucos metros até o prédio de seu antigo apartamento. Tinha conversado brevemente com a mãe na noite anterior, depois do jantar, e pediu para deixar o apartamento do Paterno para Relena. O apartamento de quase dois milhões de dólares era a herança de Athina, fato que, entretanto, não fez a mulher pensar para conceder sua permissão. Ela abriu uma expressão de benevolência para o filho e perguntou-se porque ele insistia com aquele proceder sem sentido, porém enriquecido de um cuidado e bondade que ele nunca antes pareceu capaz de manifestar. Será mesmo que era preciso perder o bom senso para se tornar humano?
Heero passou pelo porteiro e ouviu o boa-tarde seguido de um aviso de alguma reunião de condomínio naquela sexta. Ele encarou o homem e apenas processou a informação, ação impensada por ele no passado, que então faria questão de esclarecer impetuosa e rudemente que não vivia mais ali e que não era problema seu.
Era tudo tão familiar que era automático. Apertou o botão do andar no elevador sem olhar, sabia exatamente o momento que a porta estava pronta para abrir e quanto tempo o elevador ficaria esperando-o caso ele quisesse voltar atrás. Respirou com esforço e seguiu até a porta. Eram quatro horas, ele não tinha deixado o escritório e tantos afazeres para chegar até ali e desistir.
Hesitando um pouco, ele sentiu a adrenalina aumentar. Estava com as chaves, só que preferiu bater. Quanto mais tempo demorava em ser atendido, mais a ansiedade roía seu coração. A porta abriu cinco minutos depois, ele ouviu as diversas volta de chave que foram necessárias, e a face de Manon se revelou aos poucos.
_Senhor Yuy? –ela pronunciou baixo, encarando-o com interesse. –Boa-tarde.
Ele passou por ela sem dizer uma palavra, desconfortável. Parou poucos passos dentro da sala e virou sobre o ombro, procurando Manon e acompanhando ela mover-se até ele.
_Boa-tarde, Manon. Eu vim ver a senhora Yuy.
_Sinto muito… ela não está.
A expressão no rosto dele relaxou de uma vez.
_Ela demora?
_Não sei dizer.
Ele assentiu, movendo-se um pouco a esmo pelo ambiente. Manon o observava, estática em seu lugar, registrando a confusão na qual ele mergulhara.
_Fique à vontade para esperar. –Manon adicionou, incerta de que isso o consolaria.
Ele assentiu, reagindo mecanicamente. Sentou-se no sofá e diante do imprevisto, considerou o que faria. Seus pensamentos o absorveram de tal forma que quando deu por si, Manon tinha sumido.
Abriu a pasta, tirou o envelope com os documentos do divórcio e os conferiu. Estavam devidamente sinalizados, eram redigidos da forma mais sucinta, clara possível e podiam ser compreendidos por qualquer um sem dificuldades, ainda mais por Relena.
O rapaz ficou meia hora sentado, prestando atenção a cada detalhe do ambiente, percebendo coisas que tinham chamado-lhe a atenção só agora, depois de quase dois anos morando ali. Os livros na mesa de café. As flores perto da TV. As molduras metálicas dos quadros pequeninos na parede da porta. A estampa do tapete. Aquelas testemunhas discretas de uma história tão tempestuosas estavam ali também para ver o rapaz ceder à fraqueza.
Às cinco horas, ele levantou-se, foi até seu escritório, deixou o envelope cerimoniosamente sobre a mesa e procurou Manon.
_O senhor precisa de algo? –ela estava sempre solícita.
_Não, obrigado. Eu estou indo embora. Não posso esperar mais. –ele explicou, colocando importância em suas palavras, sentindo-se idiota por dentro.
_Pois não, senhor Yuy. –ela fingiu não notar que ele estava fugindo. Quase sorriu, achando-o infantil. Não o julgava por ter medo de confrontar sua futura ex-esposa. Isso ainda atrapalhava mais na compreensão de porque a separação tinha de ocorrer.
_Deixei um envelope para a senhora Yuy sobre a mesa do escritório. –ele observou, ainda com uma importância fabricada, parado em frente à porta.
_Eu a avisarei. –Manon o seguia e compreendeu a mensagem implícita na observação do rapaz.
_Muito obrigado. –ele murmurou gravemente.
Manon abriu a porta para ele em silêncio. Ela levava a situação de forma neutra e despretensiosa, ao mesmo tempo Heero achava detectar algo desapontado nos movimentos dela. Ela deu um sorriso de despedida e o viu mesurar com a cabeça.
Ele não sabia como despedir-se sem soar mais patético do que já fora nos últimos três minutos.
Agraciado com uma segunda conveniência, não resistiu em agarrá-la. Ao sair do prédio, atravessou a Rua 116 aproveitando os últimos segundos do semáforo e diminuiu o ritmo dos passos ao se aproximar do carro. Ia abismado com sua auto sabotagem.
Demorou em dar a partida, a mente tão perturbada.
O toque de seu celular repetiu-se duas vezes em um intervalo regular, soando distante, e conseguiu trazer sua atenção para fora de sua mente. Apanhou o aparelho com pressa, viu um alerta de e-mail, vindo do escritório.
Em uma teclada rápida, ele leu a mensagem, e notando sua urgência, partiu imediatamente.
Ao retornar ao apartamento, por volta das sete horas, Relena estava reluzente e leve. Pela primeira vez em dois anos, ela esqueceu-se completamente de todas as pessoas do mundo e só ficou maravilhada com sua própria sorte. Estava tão satisfeita com a oportunidade de trabalhar para De Witt. Já havia ligado para o pai e contado tudo e o entusiasmo natural de Stefans foi a novos níveis contagiando-a ainda mais.
Enquanto ia para o quarto, lavar-se para o jantar, que já devia estar quase pronto, lembrou-se de mandar uma mensagem para Akane avisando-a do seu sucesso.
Manon colocava a última travessa sobre a mesa quando Relena apareceu. A mulher sorriu em cumprimento, pôs as mãos na cintura e murmurou:
_Deu tudo certo?
_Sim, fui contratada! –e riu, deixando vazar um pouco da empolgação que estivera borbulhando em seu peito.
_Que maravilha, Relena! Meus parabéns! –e Manon aproximou-se para dar um abraço na moça.
_Sim, sim! Obrigada, Manon!
_Vamos tomar champanhe para comemorarmos. –ela sugeriu, voltando prontamente para a cozinha, para pôr a garrafa para gelar.
Depois, elas se se sentaram à mesa da sala de jantar e tomaram a refeição, e Manon, assistindo tanto brilho no olhar da moça, se perguntava como anunciaria que Heero trouxera os documentos do divórcio. Sabia que era uma fraqueza, porém, Heero colocava nela um fardo tão pesado, que decidiu que só daria a notícia no dia seguinte. Relena merecia aquela felicidade intacta.
Relena demorou em acordar no dia seguinte. A ingênua alegria que se instalara em seu peito a permitiu dormir profunda e tranquilamente, de modo a reabastecer todas as energias que viera gastando em prol dos outros.
Ela não se sentia culpada de sentir-se tão contente. Fazia tempo que não era visitada por tal onda de felicidade, talvez ela merecesse um pouco depois de tantos desafios e dissabores.
Porém, nunca ficara inconsciente de sua transitoriedade. Tanto que não se abalou demais quando Manon informou que havia alguns documentos para ela na mesa do escritório.
Pendências. Havia muitas, tantas, que certamente deixaria várias sem solução. Contudo, uma certamente seria resolvida, e era aquela sobre a qual o documento tão eloquentemente tratava. Não era preciso abrir o envelope para saber seu conteúdo.
Ela olhou o arredor e prestou atenção aos pequenos detalhes do cômodo que não se alteraram nem minimamente desde que ela o tinha decorado. Heero passara muito tempo naquele escritório sem nunca tomar posse dele.
Ao invés de sentar na poltrona atrás da mesa, ela levou o envelope para o sofazinho e começou a estudar seu conteúdo.
E ao final da primeira página, tudo tão frio e praticamente abordado, ela começou a chorar. Era àquilo que se reduziram todos seus medos, suas dúvidas, seus sonhos, suas ousadias e seus conflitos. Cobriu os olhos com as mãos e soluçou, querendo se controlar. Não ia recuar. Não fora feita assim. E ao final da última lauda, ela suspirou, somente melancólica, tendo vencido as lágrimas a contragosto.
A linha que havia sido separada para seu nome era-lhe pouco convidativa.
A assinatura de Heero, por sua vez, já marcava o papel com a determinação de sempre. Relena ficou estudando cada traço, cada ângulo do desenho que representava a acedência do rapaz, mistificada.
Assinar o papel era tão, tão simples! Quase libertador.
Mas depois de assinado o papel, como explicar sua decisão ao mundo?
Como explicar sua decisão a si mesma?
A insegurança rastejou por seu íntimo e encobriu seu raciocínio com uma sombra voraz.
Em meio aquele turbilhão perturbador, havia algo que ela podia facilmente apontar, isto é, que, se ela assinasse aquele documento, o faria contra sua vontade.
Deixou as folhas de novo sobre a mesa e se afastou, feito a mera presença dos papéis a desorientasse.
Ficou à toa pelo apartamento, vagando, alimentando o ócio assistindo TV, lendo inutilidades na internet, procrastinando o que já estava determinado.
Ela não tinha forças contra aquilo. A vontade dela não superava a de Heero. No lado mais fraco daquela disputa, amargava-se ao saber que não tinha outro curso a não ser se render.
Por quê?
Depois de um almoço muito silente e pensativo, ela foi para a suíte da Primavera e sentou-se na escrivaninha. Entretanto, não lhe ocorria o que fazer ali. Se pegava o caderno, a página ficava em branco sem motivar força para ela levantar a caneta. Se pegava um livro, este ficava aberto no mesmo lugar, hipnotizando-a com uma única linha da qual ela não conseguia sair em sua leitura.
Tinha que agir, porque decidir já não estava mais em seu poder, e se arrepender depois.
Quando o celular dela começou a tocar, demorou em ela dar-se conta. Estava em um tom baixo, e tão logo ela reconheceu a música que ouvia distante, tão logo ela se agitou em procurá-lo, uma vã esperança de que fosse Heero querendo conversar. O celular estava em sua cama, perdido entre os travesseiros, e por pouco não teve tempo de atendê-lo.
No identificador, viu de raspão que era um número não cadastrado.
_Alô? –murmurou, cautelosamente.
_Relena… sou eu, Colette. –a vozinha doce e lacrimosa revelou. Colette sempre parecia ansiosa e emocionada, então seu timbre aflito não significava muito.
_Oi, Colette. Como vão as coisas? –relaxando, Relena tentou assumir um ar mais conversacional, pondo de lado as terríveis meditações que estiveram perfurando sua mente.
_Tudo bem. –evasiva, Colette respondeu.
_E o bebê? –Relena interessou-se, calorosa.
A essa menção, do outro lado da ligação, Colette sorriu, automática:
_Ah, Léonce está ótimo. Sim… –e devaneou um pouco, o olhar procurando o bebê que a aguardava em seu carrinho. Suspirou e recordou-se do que estava fazendo. –Hm… Relena, desculpe, peguei seu número com Astuce. –explicou, pelo hábito de não querer dar má impressão. Ainda tinha medo de ser inconveniente, já que todos sempre eram tão ágeis em julgá-la mal.
_Imagine, não tem problema. –Relena, entretanto, nunca fora assim, e estava curiosa sobre o que levara a moça a telefonar-lhe.
_Talvez eu devesse pedir para conversarmos pessoalmente, só que cheguei à conclusão que vai ser menos embaraçoso assim, por telefone. –e ao passo que começou a dar justificativas, Relena começou a ficar preocupada. Pelo visto, a aflição de Colette não era do tipo comum.
_O que houve? –e foi pronta e pressurosa a perguntar.
Ouviu a respiração da moça ficar áspera. Imaginava as feições agoniadas que Colette exibiu ao relatar, de uma vez, ao modo que sempre fazia quando tinha de falar de algo sério:
_Na segunda-feira, eu vi Heero e Sylvia juntos na Ferrara. Eles saíram e ficaram conversando um pouco e depois… hm… eles se beijaram. –Colette engoliu seco, colocando-se no lugar da amiga que a ouvia. –Depois, eles se despediram e saíram cada um em uma direção. Eu não conseguia acreditar no que estava vendo…
Houve silêncio, Colette já tinha previsto tal. Preocupada, tentava encontrar algo para quebrar aquele vácuo, porém sentia-se chocada também pelo que dizia. Era difícil rever a cena, as sutilezas do momento que ela preferia não ter flagrado.
_Você contou isso a mais alguém? –falando muito baixo, Relena precisou confirmar, temendo que Colette tivesse sido vítima de seu próprio espírito simples.
_Não, a ninguém. –Colette apressou a defender-se, soando curiosamente infantil. O corpo de Relena, retesado de uma vez pela revelação, cedeu instantaneamente em alívio. –Eu até demorei para falar com você porque estava aflita sobre o que era o mais certo a fazer. Mas finalmente pensei que, se fosse eu, eu ia querer que alguém me contasse, eu queria que alguém fosse leal a mim. –e sabia também que ficaria machucada com notícia tal. Sua voz estava muito lamuriosa.
_Colette, por favor, não fale sobre isso a mais ninguém, nem a Kyria, nem a Sylvia ou Heero… –Relena pediu em tom segredista, sem nem saber por que, com medo de sua própria voz.
_Eu entendi. –Colette soou acolhedora. –Eu sabia que se contasse para você, você saberia a coisa certa a fazer. –adicionou, contemplativa, algo que Relena não podia entender. –Eu sinto muito, Relena. –e encerrou, retomando seu timbre amuado.
_Obrigada, Colette. Eu vou desligar agora. –em transe, Relena avisou.
_É claro. –e Colette ouviu o silêncio e sabia que de fato não conseguiria dizer mais nada. A ligação se encerrou e ela estalou os lábios, frustrada, desejando que Relena e Heero conseguissem se resolver de algum modo e não quebrassem sua ilusão de amor perfeito.
O tique-taque do carrilhão soou incrivelmente alto no próximo segundo. Relena mergulhara em mudez total. O que tinha ouvido era-lhe, em primeiro momento, horrível demais para ser verdadeiro. De fato, o que era realmente horrível não tinha sido dito, só concluído, produzido a partir de uma informação de um acontecido sem contexto. O carrilhão parecia tocar cada vez mais alto, proporcional à profundeza do silêncio que envolvia a moça. O som parecia acelerar também, embora isso não fosse o caso. Era o coração de Relena que tocava com intensidade.
Seria mesmo possível Heero continuar apaixonado por Sylvia? Seria mesmo possível ele mentir tão friamente e traiçoeiramente?
Se a resposta fosse sim, há quanto tempo ele vinha agindo assim?
Grande ator!
_Desgraçado. –Relena rosnou, ferida, e as lágrimas que escorreram seu rosto brotaram quentes.
Engolindo seco, sentiu o ar meio bloqueado na garganta, a angústia alcançando o ápice provocando a inevitável explosão de choro.
Com vergonha e medo de perturbar Manon, ela correu para o banheiro, fechou a porta e com pressa desajeitada abriu a torneira da banheira ao máximo. Nisso, chorou alto, de puro desgosto, de luto e de ódio.
E se tivesse de explicar o que odiava, se manteria calada como que por juramento, porque em voz alta não admitiria que odiasse a si mesma, a ninguém confessaria sua ingenuidade.
E o amava! E como o amava…
Ele fizera de propósito ou tentara se enganar?
Será que era isso que havia reservado no santíssimo de seu coração, aquilo que ele não dava direito a ninguém ver?
A cabeça dela se tumultuava de perguntas, deixava-a zonza. A banheira chegou a transbordar um pouco.
Tirando a blusa e a bermuda, entrou na água gelada e deixou a dor transformar-se em dormência.
Ela deve ter demorado-se muito em sua ablução porque ouviu Manon bater na porta e chamar seu nome. Só assim ela deu-se conta da penumbra que substituíra a luz do dia. Tirando as mãos da água, viu a pele pálida e franzida. Saiu da banheira de uma vez, causando um grande rumor, despiu seu lingerie e foi se secar.
Manon estava do outro lado da porta quando Relena a abriu, a face tensa entre disciplina e zelo. Relena sorriu raso e sem graça, arrependida de ter demorado tanto em se arrumar sem ter dado qualquer resposta para aplacar a espera da mulher.
_Desculpe, Manon. –murmurou e saiu com ela para a sala.
_Estou terminando o jantar. –Manon avisou.
Relena assentiu debilmente e se sentou no sofá, abraçando as pernas. Pôs o queixo nos joelhos e encarcerou-se no silêncio.
Permitiu aquele sábado simplesmente terminar, sem fazer nada além de enlutar-se.
Ao amanhecer o dia seguinte, tendo dormido mal, Relena saiu para caminhar no parque e espairecer. Andou lentamente debaixo do céu azul, o Verão implacável de Nova York era um pouco mais tolerável nas primeiras horas da manhã, em um caminho sombreado.
Sentia-se diferente.
Definitivamente, uma parte de sua inocência morrera então.
Da primeira vez que suspeitara de Heero, revoltou-se, armou-se de intensidade e estratégias pueris, não queria ser usada, nem feita de boba, seu orgulho não permitiria e lutou por ele.
Agora, suspeitando outra vez, assumira outra atitude. Ficou amarga.
No entanto, antes de tomar qualquer decisão, consultaria sua confidente fiel.
Depois do café, trancou-se no quarto e telefonou Noin.
_Oi, Lena! –o cumprimento foi caloroso e espontâneo, havia um resto de riso na voz que vinha da conversa que ela interrompera para atender o telefone.
_Noin, preciso conversar com você. –Relena respondeu, inquietada.
_Está bem. –foi fácil para ela aceder, mas não compreendeu porque tanta tensão.
_Papai ou Zechs estão aí? –quis se certificar.
_Não, estava falando com Zenia. –Noin explicou, em movimento, procurando um lugar tranquilo para sentar e ouvir a cunhada.
_É um assunto muito sério. –com um suspiro alijador, deu simples introdução ao diálogo.
_Percebi. –Noin comentou, intrigada, não ignorando os sinais.
Relena estalou os lábios. Tudo o que tinha de dizer a faria percorrer uma via dolorosa.
Noin ficou ouvindo o silêncio do outro lado da linha com paciência. Sabia que arranjar forças vinha sendo cada vez mais custoso para a moça.
Relena deixou o ar escapar de novo, ansiosa diante da própria hesitação.
_Noin, Heero pediu divórcio. –preferiu ir por ordem cronológica, embora esse acontecimento não fosse o que mais a transtornava. Em si só, já seria chocante para Noin, porém.
_Oh, não. –ela reclamou, baixo e incrédula.
_Eu sabia que isso ia acontecer, mas não assim, me pegou tão despreparada. Ele… nem conversou comigo a respeito, nem antes ou depois. Ele sempre está seguindo uma programação que eu não consigo acompanhar… não sei que mania é essa… é exaustivo. –desabafando descontroladamente, Relena nunca se escutou tão frustrada.
Noin ouviu atentamente, seu rosto franzido:
_Você precisa de algo? Quer que eu vá aí ficar com você? –se prontificou.
_Não, não quero levantar suspeitas para Zechs. –baixando a voz, Relena comentou.
_Relena, quando você vai conversar com seu irmão sobre tudo isso? –Noin não concordava com esse proceder e pressionou, pensando no bem da moça.
_Quando estiver terminado, assim não haverá mais nada que ele possa fazer. –Relena sinceramente não sabia o que era pior, mas contar naquele momento para o irmão realmente tudo que acontecia estava fora de cogitação.
_Eu não sei… o divórcio pode não ser o suficiente para impedir Zechs de ir tirar satisfação com Heero… –Noin arrazoou, sábia.
Zechs era imprevisível nesse ponto. Ele poderia simplesmente ouvir tudo e acatar a decisão da irmã e nunca mais ter trato com os Yuys, ou ir confrontar Heero e criar um problema ainda mais delicado de se resolver.
_Bem, não é isso que me deixa com medo. –Relena se ouviu admitindo, inesperadamente.
_O que é então? –Noin ficou curiosa.
_Ele se magoar comigo por eu nunca ter dito nada… talvez, eu nunca deva contar a verdade para ele… só… dizer que acabou. –e se encabulou pelo egoísmo, por mais sincero que fosse. Entretanto, ficar em desfavor diante do irmão a terminaria de matar.
_Que loucura… tudo isso é e sempre foi uma loucura. –Noin estava rindo do absurdo, embora estivesse profundamente irritada com ele.
_Eu ainda não assinei os documentos… eu pensei em… sinceramente, não sei no quê pensei. –impacientou-se. –Talvez em conversar com Heero uma última vez, mesmo sabendo que seria inútil? –disse praticamente para si mesma. –Nunca pensei que teria de passar por isso…
_Eu sinto muito. –por ora Noin esperava que isso bastasse para expressar seu apoio.
_Obrigada, mas eu escolhi viver assim… –Relena não podia se esquecer de que sempre haveria uma parte de culpa para si, o que só acrescia sua tribulação. –Só que não acabei, Noin.
_Tem mais, que ótimo! –ela ironizou, tentando aliviar a conversa. Conseguiu arrancar um risinho frágil de Relena.
_Vou vender a história da minha vida pra televisão mexicana. –ela atalhou, impassível, embora gracejasse.
_Pelo menos, vai ficar rica. –prática, Noin apresentou. Era uma história em tanto, digna de sucesso.
_Oh, Noin, não piore as coisas. –mas Relena não achou graça naquela conclusão fria do drama que tanto arrasara seu espírito.
_Foi você quem começou. –Noin a lembrou, suspirante. –Mas chega de enrolação: o que mais aconteceu?
_Eu sei que… Heero encontrou Sylvia, sua ex-namorada, e eles se beijaram. –foi então que o humor abandonou Relena completamente e sua voz começou a rarear.
_O quê? Como assim, Relena? –a programação então foi demais até para Noin.
_Não sei. Não consigo acreditar que ele esteja me traindo… eu… meu Deus, ele não pode ter jogado todo esse tempo comigo, pode?
_Não acredito na coragem dele, Lena! Não, agora sou eu quem vai tirar satisfação com esse rapaz. Ser esnobe e temperamental é uma coisa bem diferente de tratar você assim. Eu não acredito nele. O jeito que ele agiu no meu casamento… quanta falsidade! –quando Noin começou a protestar, por pouco não conseguiu parar, tamanho seu pasmo e sua exaltação.
_Eu não mereço isso, mereço, Noin? –reclamou, sentindo-se péssima, a garganta fechando, os olhos ficando úmidos.
_Olha, Lena, você não merece muito do que aguentou até agora, mas isso está além… isso é inaceitável. Isso é… odioso. –e deixando sua raiva esvair, ela pausou e adicionou uma ressalva –Você tem certeza disso, Lena?
_Tenho. Ele a beijou. –e seus lábios tremeram, o timbre agudo que pronunciou a assertiva veio manchado de lágrimas.
_Você vai dar alguma chance de ele se explicar? –ela indagou com animosidade; era fácil saber o que ela responderia se lhe coubesse.
Relena soluçou alto. A dor tinha retornado a pungir-lhe com grande força, ela nunca tinha sentindo sofrimento tão real.
_Queria poder decidir por você, mas prefiro não arriscar. Afinal, é você quem tem que enfrentar os resultados. Não quero impor nada, é a sua sorte a ser decidida. –Noin adicionou, pensando melhor. Perder a razão de nada ia adiantar. Era hora mesmo de ser mais fria do que Heero havia sido.
Relena estava chorando silenciosamente enquanto ouvia Noin se explicar. Ela estava certa, tão certa, e por isso a fazia sofrer. Porque o que Relena tinha querido tanto ela não podia ter, mesmo se decidisse por tê-lo. Tomar uma nova decisão realmente se tornara como um jogo de azar, no entanto, era o único caminho a seguir.
_Estou perdida. –e o motivo que a tinha mantido calada até então era que, se tentasse falar algo, irrompia em soluços que a tornavam incompreensível.
_Lena? Calma, Lena…
Relena assentiu, tentando engolir o choro, um esforço que não sabia mais fazer.
_O que você decidir, eu vou te apoiar, fique tranquila. Eu sei a verdade do que você passou e nunca vou te julgar, Lena. –e sofrendo uma transformação drástica, a voz de Noin veio calorosa abraçar a moça para dar a ela o que mais precisava: consolo e carinho. –Se quiser voltar para casa, eu cuido de tudo.
_Obrigada, Noin. –Relena agradeceu com dificuldades, apesar de estar respirando mais livremente então. Conversar com Noin a fez sentir-se mais vulnerável, mas aclarou um pouco qual direção tomar.
Relena esperou a hora do almoço passar.
Manon a notou um pouco mais viva desde o jantar do dia anterior. Toda a alegria pela conquista do emprego novo, porém, fora totalmente eclipsada, tornando-se inexistente, esquecida. Depois de ter sido tão ativamente envolvida naquela história, ficava difícil permanecer somente na margem. Mas só iria piorar as coisas tomando mais liberdades.
Depois de meditar mais um pouco enquanto descansava depois do almoço, sentada no sofá, Relena sentiu-se segura do que faria. Controlando a respiração, foi até o escritório e sentou-se atrás da mesa onde tantas vezes vira Heero, encenando autoridade em imitação do que vira o juiz fazer. Ela tinha pouca ou nenhuma lembrança boa daquele lugar.
Curiosamente, fora ali que vira Heero a última vez. Talvez, a última derradeira vez…
Iniciou a procura por uma caneta, mas aproveitando sua posição, resolveu explorar o que cada uma das quatro gavetinhas guardava.
Papel sulfite, envelopes, blocos de anotação, rascunhos preenchidos de rabiscos caóticos, cabos de computador, clipes, grampos, elásticos – nada revelador, nada incriminador.
Suspirou, desgastada, e pegou a primeira caneta que apareceu. Testou em um papel rascunho e procedeu as assinaturas.
Duas vias, muitos vistos e duas firmas para acompanhar as de Heero, já prontas – ele sempre à frente dela.
Bom dia, leitores!
Aqui está o mais novo capítulo e um dos últimos.
Quero agradecer profundamente a todos os leitores que tem acompanhado a fic e sempre mandado reviews.
Não tenho muito a comentar sobre o capítulo, embora imagino que ele deve estar um pouco estranho, talvez apressado. Estou curiosa com o suas expressões a respeito, entretanto.
Acho que não vou consegui realizar meu sonho de terminar a fic esse mês, porém, não demora muito mais. Pensar que a fic vai acabar me deixa bem chateada. Que saudades que vai dar!
Até o próximo capítulo!
Amo vocês!
20.01.2015
