História Quarenta e Nove: Guerra e Morte
As nuvens cobriram a vastidão dos Campos e lágrimas brotaram do céu.
Aquilo que se iniciou chegou a um final além do trágico. Apenas restaram sobre a terra dos Campos Vermelhos rios de sangue e corpos. O exército inimigo já marchava a uma distância inalcançável até para os mais resistentes e determinados. A matança teve seu fim, e os atenienses sentiram-se derrotados. Não havia mais esperança em seus corações após a última tragédia. Edmond suspirou.
Contendo as lágrimas, agarrou firmemente o solo. Suas mãos penetraram a relva manchada e ele pôde sentir os vermes famintos que agora vinham para o banquete. Os inimigos partiram e levaram apenas armas e pertences materiais, abandonando aos abutres os seus aliados mortos. Isso apenas revoltou os corações aflitos, e os desesperou diante de tamanha crueldade. "Aos atenienses apenas os túmulos", pensavam vários.
Então todos prenderam o ar em seus pulmões e um novo silêncio se fez em suas mentes. Apenas a chuva que caia ressoava nas armaduras metálicas e apagava os focos de incêndio causados pelas flechas incendiárias. Edmond observou o corpo de Ícaros que jazia a sua frente, sem cabeça. Sua armadura estava banhada em sangue e não possuía mais o brilho de outrora. Deixou-se abater e visou o chão com seu olhar até ser chamado à atenção. Uma mão amiga e iluminada surgiu na sua frente e implorava para que a tomasse, e assim fez o Lorde dourado.
- Levanta-te, Cavaleiro dourado da Casa de Touro, pois a esperança não deve ceder diante do maior dos desesperos – disse a voz amiga ajudando a levantar-se.
Edmond observou bem aqueles rostos. Segurava a mão de Lorde Timeus de Áries e este estava acompanhado por seu aprendiz, Orrin de Leão. Ambos trajavam as armaduras de ouro mais poderosas que jamais vira em sua vida. Mantos belos desciam de seus ombros e tocavam o chão sujo, mas eles estavam impassíveis quanto a isso. Timeus demonstrava uma aparência tranqüila e acolhedora. Já Orrin estava um pouco triste e olhava para Edmond com um grande sentimento de culpa.
- Chegaram tarde, meus amigos. – suspirou Touro – A batalha já findou há algum tempo. Mas a luz que trazem convosco é acolhedora e triste. Pena não conseguirem ter chegado mais cedo.
- O destino escreveu páginas cruéis para nós, mas não nos abalaremos diante das Tecelãs e de nossos inimigos. Trago notícias ruins para um lugar ruim esperando que as daqui não tenham sido mais trágicas. Falarei primeiro antes de nos sentarmos. O inimigo possui aliados…
- Já estamos cientes disso, Lorde Timeus. O senhor da Guerra uniu-se as forças do mundo inferior, comandadas por Hades. Hoje eles se revelaram para alguns de nós e nenhum deles resistiu, assim imagino. Entretanto nossas perdas pelas mãos deles são trágicas. Tenho a impressão que dessa batalha apenas eu retornarei como cavaleiro de Atena, já que o jovem Geord…
- Geord? – intrometeu-se Orrin angustiado – Ele estava aqui? O que houve com ele?
- Acalma-te meu discípulo. Ele está repousando agora, mas precisa de cuidados imediatos. Devemos levá-lo para a Cidade-Estado e cuidar dele antes de partirmos para o Santuário. Isso é tão urgente quanto o que tenho que falar. Ou melhor, a visão pode ser mais esclarecedora.
E Lorde Edmond sinalizou para o corpo a sua frente. Timeus e Orrin ainda não haviam percebido aquela armadura dourada, pois não estava mais brilhante como antes e cobriram-na de sangue. Leão conteve uma exclamação e virou-se abalado, Áries ficou observando sem compreender até lágrimas cobrirem seus olhos. Tentou pronunciar algo, mas a voz lhe faltou. Então Orrin voltou a observar o corpo que ali jazia.
- Em nenhum lugar do mundo jamais encontrei alguém que mais me ajudou, pois o tempo todo ele cuidou de meu coração como se fosse dele. Todo o Santuário deve a este honroso cavaleiro mais que suas vidas. Ele representava a esperança em nossos corações, o anjo de luz que sempre voava para nos resgatar das sombras. E agora ele jaz morto em nossa presença e de forma bárbara. Quem cometeu tal atrocidade? – os olhos e Orrin buscaram em seu desespero os de Edmond.
- O próprio comandante do exército vermelho sujou suas mãos, pois o valoroso Ícaros de Sagitário expulsou dessas terras um inimigo terrível, a divindade do Medo Deimos, que já fora chamado de General Remo. Eu mesmo estaria morto se não fosse pela intervenção do Lorde dourado.
Então ninguém mais disse nada. A esperança parecia ter desaparecido completamente quando uma luz surgiu do corpo de Ícaros. Uma última vez o Cosmo daquele grandioso cavaleiro cobriu os Campos Vermelhos e sua armadura brilhou em chamas incandescentes. Seu corpo foi tomado pela luz e vários projéteis luminosos se lançaram ao ar, logo após descendo. A chuva caiu sobre a armadura de Sagitário que se montou à frente de todos os presentes. Uma aura fraca a rodeava e uns poucos raios do Sol surgiram entre as nuvens. A água límpida do céu lavava o traje e os raios de Sol a faziam brilhar como jóias preciosas que escorriam nas curvas da bela armadura. Toda aquela cena emocionou a todos, e Timeus tomou seu manto com as mãos cobrindo o corpo do cavaleiro. Durante aquela manhã chuvosa apenas um corpo foi erguido e levado até a cidade. Deu-se o nome de "O Cortejo à Esperança".
Esparta, Templo do senhor da Guerra.
A caminhada de volta a terra do céu vermelho durou dois dias. Cansados, mas vitoriosos, Esparta recebeu seus filhos. Entretanto penas uma parte do grande exército retornou, para o desespero de muitos. Ares pouco se importava com seus soldados e famílias. Apenas desejava a guerra, e hora final estava próxima.
Seguiu direto para seu templo e trancou-se na torre mais alta, seu quarto. Ficou circundando a torre através de sua varanda, correndo uma das mãos no parapeito. Estava pensativo e ainda sujo com o sangue de um mortal e as cinzas de seu filho fugiam de seus dedos. Aguardou e chamou mentalmente por seu aliado. Quando se deu por satisfeito, sentou-se em sua majestosa cama e despiu suas vestes de batalha. Levantou-se nu e seguiu para a grandiosa banheira que havia no quarto. Lá relaxou sua tensão enquanto aguardava pela resposta.
Não demorou muito até que uma simples borboleta adentrasse em seu quarto. Ela emanava uma presença poderosa e maligna, e sua cor vacilava com os ângulos de luz que percorriam suas asas. Ares percebeu a presença e se ajeitou melhor na banheira. A borboleta pousou no chão próximo a banheira e fez uma reverência. Então, aos poucos, a borboleta foi crescendo e tomando a forma de um homem alto. Quando sua transformação cessou lá estava de joelhos e encarando o chão um dos servos de Hades, aliado de Esparta.
- O Mestre dos Tártaros envia seu emissário como desejou, senhor da Guerra. – sua voz soava tranqüilamente e era carregada de uma presença sonífera – Sou Bastiaan de Papyllon, da Estrela Terrestre Encantada, servo de Lykaios de Wyvern, ao seu dispor.
- Preste bastante atenção no que direi, subalterno do Tártaro. – a voz de Ares soava autoritária e poderosa – Transmita ao seu senhor que todos os guerreiros que me enviou foram derrotados no campo de batalha, isso somente havendo um único Lorde dourado que nem mesmo os enfrentou. Diga ao seu mestre que seus homens são fracos e que necessito de guerreiros e não de insetos.
- Não precisa se importar em dizer "diga", senhor da Guerra. O Mestre dos Tártaros pode ouvi-lo perfeitamente bem, pois sou um possuidor da telepatia… – fez uma pequena pausa – Meu mestre manda dizer que enviará os mais poderosos de seus guerreiros no último ataque, e assim espera que o senhor o faça.
- Quanto a isso ele não deve se preocupar. Mandei meus guerreiros para a desgraça há muito tempo e na última investida eles não se abalaram. Entretanto, restam-me poucos guerreiros confiáveis e muitos descartáveis. Com o pacto que possuímos sinto-me obrigado a pedir-lhe algo de grande valor para nos ajudar nessa última guerra.
Então Bastiaan deixou a cabeça cair como se tivesse dormido, para o espanto e ira de Ares. Ele já estava pensando em gritar para o espectro quando esse o encarou com um olhar vago e sombrio. O deus da Guerra convocou sua lança que foi ao encontro de suas mãos abertas. Já ia atacar quando reconheceu aquele olhar e recuou. Uma voz sombria e onipotente ecoou de Papyllon.
- Não se preocupe quanto ao valor do que deseja me pedir. Você fez um pacto comigo quando iniciamos essa guerra e, já que estou impossibilitado de abandonar meu reino por causa do Selo de Zeus, qualquer coisa que ajude a alcançarmos nossos objetivos será conferido de bom grado. No final de tudo eu terei o que sempre deveria ter ficado sob minha jurisdição e você terá a sua guerra. O que desejas?
- Pois muito bem. – disse Ares tornando a relaxar em sua banheira – Vamos ao nosso último passo…
