Capítulo LI — Vida de Sereia

Não foi difícil convencer o marido Kazuki. Só precisei fazer drama e dizer que precisava ir a Naha com urgência para dar uma olhada em umas pesquisas genéticas porque, como Administradora do Leste, tinha o dever de começar meus próprios investimentos. Sua exigência apenas foi que Dmitri me acompanhasse e que conversasse com Shippou antes.

Avisar Nagi foi uma questão de mera formalidade, e, se eu julgar apenas pelo sorriso torto dele, posso ter certeza absoluta que ele não acreditou em mim. Só que ele é psicopata: não se importou em me impedir de fazer coisa alguma.

Abri um sorriso gigantesco ao ver meu amigo Shippou me esperando na saída da sala de desembarque. O sorriso dele foi quase tão grande quanto o meu. Quer dizer... Até ele perceber que um dos homens atrás de mim se tratava de um yaoguai. Aí a cara de desespero dele foi impagável. Pude ver interrogações em seu olhar. Apenas peguei toda a coragem que possuía e comecei a explicar o que estava acontecendo para ele, enquanto Dmitri mantinha Hu longe o suficiente para que não me ouvisse.

— Não... Nunca!

Rolei os olhos e soltei um suspiro, pensando em uma forma de convencer a Shippou a fazer parte do meu "estúpido" plano — palavras dele; e de Dmitri; e de Kai; e de Yuna; enfim, de todo mundo que sabia sobre ele.

— Shippou, já fui mais velha que você, me obedeça.

Sei que é algo totalmente idiota para se falar, só que o caso era que Shippou realmente parou para pensar por um instante como se fosse de novo aquela raposinha que me obedecia sem pestanejar. Quando ele sacudiu a cabeça, pude ver aquela obediência incondicional indo embora. Droga.

— Você é completamente maluca... Eu sabia que tinha uma veia suicida, ainda mais com toda aquela coisa de "ah, vamos caçar fragmentos da joia! Êêêê!"... Mas Ka-chan, isso é totalmente idiota. — Ele olhou o yaoguai que estava em pé ao lado de Dmitri a alguns metros de nós dois. — E pior, você traz o inimigo para o meu território, se Sesshoumaru ou Hideo descobre que estou no aeroporto com você e o inimigo... Okinawa vai entrar em guerra.

— Você sabe que não... E deixa que com esses dois eu me entendo depois.

— Desculpa, mas não posso tomar partido disso. — Ele suspirou. — Vou pedir para meus homens levarem o tigre para algum lugar onde ele possa morrer dignamente.

— Não, Shippou!

— Kagome, isso é guerra, caramba.

— Não é! — falei exasperada. — Quer dizer... Pode não ser. Shippou eu não posso mantê-lo em Tóquio comigo, Kazuki está lá e vai denunciar tudo que estou fazendo para Sesshoumaru... E Nagi pode fazer o mesmo. Não sei qual seria a reação do meu marido, mas a dos meus irmãos seria arrancar a alma do Hu.

— Claro que sim, ele é chefe daqueles que mataram o Yuri. Já esqueceu?

— Não, eu não esqueci... Mas não foi ele.

— Ele tentou te matar.

— Sesshoumaru também tentou e olha só: me casei com ele!

Shippou torceu o nariz e cruzou os braços. Pude ver em seus olhos toda a hesitação e dúvida. Ele também estava preocupado, afinal, ele me conhecia bem o suficiente para saber que não desistira da ideia e iria continuar o meu plano com ou sem ele.

— Eu só posso estar bêbado. — ele suspirou. — Tudo bem, mas você fica na minha casa, no meu quarto. E ele fica no hotel com o seu guarda-costas.

— Dmitri não vai aceitar isso.

— 'Tá, eles podem ficar no porão lá de casa.

— Você tem um porão?

— Não, mas vou mandar fazer um. — Ergui uma sobrancelha. — Ok, quarto de hóspedes. Vou mandar meus homens ficarem de olho nesse tigre banguela.

— Não precisa.

— Claro que precisa.

— Shippou, deixa disso. — Suspirei e deixei que Shippou ficasse me encarando, quase como se esperasse que eu mudasse de ideia a qualquer momento. Então lembrei da minha desculpa para aquela viagem. — Preciso de outro favor.

— Sim, eu posso ir para Vegas com você.

— É sério. — reclamei, estreitando os olhos.

— Não estou brincando... Mas tudo bem, me diga. — falou, embora parecesse mais preocupado em observar Hu por cima do meu ombro.

— Preciso de acesso a uma pesquisa que é feita na Base Militar Americana.

— Como? — Ele tirou os olhos de Hu para me observar.

— Eles têm centro de pesquisa, correto?

— Sim, mas...

— Por favor. — pedi, fazendo bico e erguendo as sobrancelhas.

Ele fez cara de paisagem, mas acabou suspirando de novo.

— 'Tá certo, vou ver o que posso fazer. Mas por qual motivo?

— Foi a desculpa que eu dei para sair de Tóquio. Conversei com o Kazuki e Nagi deixando claro que precisava dar uma olhada em algumas pesquisas de órgãos híbridos que o pessoal do Instituto Aoi está fazendo na base e vim embora.

— Alguém acreditou nisso? — ele questionou, estreitando os olhos. Dei de ombros. — Entendo, bom, vamos para casa por ora, você deve estar cansada da viagem.


— Sesshoumaru não vai gostar muito de saber que eu dormi no seu quarto. — comentei baixinho, vendo Shippou abrir a porta do cômodo.

Ele parou para olhar para mim por sobre o ombro.

— Você fugiu da casa dele carregando um yaoguai a tiracolo e está se importando com o que ele vai achar quando descobrir que alguém teve o bom senso de te manter segura? — ele questionou — Você tem problemas para definir prioridades, Ka-chan.

Sim, eu sabia que tinha, mas ele não precisava jogar na minha cara.

Revirei os olhos e entrei no quarto. Talvez vir para Okinawa não tenha sido a minha melhor ideia, já que os detalhes do plano haviam saído no completo improviso, mas realmente havia coisas da qual eu queria me abster, como dar uma lista completa de motivos para Sesshoumaru me jogar do último andar da torre do Tai Group.

— Esse quarto não é exatamente meu. — Shippou explicou — Quer dizer… É, porque tudo aqui é meu...

— Megalomaníaco. — comentei casualmente.

— … Mas este quarto apenas está acoplado ao meu por aquela porta. — explicou, apontando — Essa casa foi modelada para um embaixador mexicano, no século passado, e ele quis fazer quartos acoplados. Acho que ele devia roncar muito e a mulher queria ter um lugar para onde escapar. Ou talvez fosse o contrário, não seria engraçado?

— O lugar todo é muito bonito. — falei, sendo sincera. Eu sabia que Shippou não morava numa mansão, mas não imaginava que ele teria um dúplex de arquitetura mexicana. O local era lindo e charmoso, bem a cara dele.

Olhei para o quarto, que seguia a decoração de todo o dúplex: pé-direito alto, painéis de madeira, cores terrosas e tudo, praticamente tudo, tinha texturas. Havia uma cama de dossel, como aquelas que a gente vê em filmes de época ocidentais, um guarda-roupa embutido de madeira-de-lei que tomava toda uma parede, tapetes de cores claras e um conjunto de estofados confortáveis de estampas florais. A única coisa que evidenciava que eu estava no século XXI era a saída de ventilação cromada no teto e a televisão de plasma na parede.

— Vou designar dois homens para vigiarem o seu yaoguai e Dmitri poder dormir. Coitado do seu guarda-costas, Ka-chan, ele vai precisar de um psicólogo depois que isso tudo acabar. — E suspirou — Nada de trancar a porta que interliga nossos quartos. Você ouviu, né?

— Certo. — garanti. Segui até janela larga de madeira e abri, deparando-me com uma vista linda da praia de Kise. Havia pouquíssimas casas em volta, mas dava para ver um hotel gigantesco uns quinhentos metros à esquerda, na praia — Pensei que você teria uma mansão e uma praia particular. — brinquei.

— E perder a oportunidade de conhecer pessoas? — Shippou questionou, sentando-se teatralmente na cama. — Mas você não errou quanto a praia particular. — comentou com uma risada — Tenho uma garagem aqui perto com bugs. Vamos dar uma volta qualquer dia desses. Seu yaoguai vai adorar, tenho certeza.

— Parece que você está falando de um bichinho de estimação.

— Já ensinou ele a dar a pata?

— Shippou!

— Estava pensando, que tal reviver os tempos antigos e eu dormir escorado em você? Até fico com patinhas de raposa.

Parei por um segundo, encarando-o.

— Você consegue ficar com patas de raposa? — questionei, Shippou sorriu, erguendo as sobrancelhas e eu balancei a cabeça veemente — Não, esquece. Vamos manter o foco.

— Você tem que aproveitar em quanto há tempo, querida. Daqui a pouco Sesshoumaru chega e acaba com a festa, você sabe. — afirmou.

— Ele está ocupado. — falei.

— Bom, então se temos tempo, acho que você me deve algumas explicações. — Shippou completou — Eu vou querer saber por que tenho um yaoguai na minha casa?

— Você foi a primeira opção que me veio à mente, Shippou. Desculpa. — falei, indo na direção dele e sentando ao seu lado na cama — Eu tinha que tirá-lo de Tóquio. Você não vai acreditar nos tipos de barbaridades que Kai estava fazendo com ele.

— Então tudo isso é realmente para salvá-lo? — ele perguntou, desconfiado — Não seria mais simples colocá-lo em um contêiner e mandá-lo para a China?

— Sesshoumaru iria descobrir.

— E não vai descobrir agora? — Shippou questionou, rindo — Kagome, você não pode ser tola o suficiente para achar que ele não vai descobrir. Se brincar, ele já sabe.

Eu suspirei.

— Se estivéssemos em Tóquio, ele provavelmente descobriria, por isso que eu o trouxe para Naha. Você deve conseguir filtrar as informações que saem do seu território, ou não? — questionei, atingindo o orgulho de Shippou.

— Sim, mas não por muito tempo. — Vi Shippou massagear a testa — Vamos por partes, Ka-chan, que até agora eu ainda estou meio surpreso com o andar da carruagem. Digamos que eu fiquei apenas um pouquinho assustado de receber repentinamente o seu telefonema me avisando que estava me esperando no aeroporto de Naha e que ainda não consegui compreender tudo perfeitamente. Explique tudo com os mínimos detalhes.

— Certo… — falei, respirando profundamente — Vamos dizer que tudo começou quando descobri que Kai estava torturando Hu.

— Levando em consideração que é isso que a Yakuza faz, eu não entendo a sua surpresa, Ka-chan.

— Sim... Eu sabia que eles fariam alguma coisa. Só não pensei que seria daquele jeito.

— Ele é o inimigo, Kagome. Eles mataram Yuri e dois dos meus homens. — ele respondeu, muito sério; tão sério que eu fiquei sem palavras, tocando-me de como eu tinha agido mal em trazer Hu para cá, quando Shippou também tinha uma parcela de dor com a qual lidar. — Não, Kagome, não precisa fazer essa cara. Eu prefiro mesmo que você e ele estejam embaixo do meu teto do que ficar pensando em você correndo risco por não poder recorrer a Hideo ou a Sesshoumaru. Só acho que é uma atitude idiota da sua parte.

— Ele é minha responsabilidade, Shippou. Fui eu que o selei. — expliquei, tocando a mão de Shippou — É a mesma coisa de quando eu quebrei a joia de quatro almas. Tudo o que fiz, pelo menos no começo, era por causa do meu senso de dever.

— É... Eu sei que você é assim. — Ele apertou minha mão e respirou fundo — Isso tudo tem alguma coisa a ver com aquela matéria do Yumiuri Shimbum?

Eu sorri.

— Tem, foi ideia minha.

Shippou arregalou os olhos, surpreso.

— Você está me dizendo que Yuna aceitou colocar a reputação do jornal dela em risco por sua causa? O que diabos você ofereceu a ela?

— Ela está há anos tentando negociar com Sesshoumaru alguma abertura para abrir uma sede do jornal em Kyoto, mas ele se recusa a vê-la. Vamos dizer que eu vou dar uma forcinha a ela nesse quesito. — expliquei, piscando um olho.

— Eu pensei que a matéria fosse a forma de Kai avisar aos yaoguais que estava com Hu como refém, sequer passou pela minha cabeça que isso tivesse algo a ver com você. — Shippou explicou.

— Sério? — perguntei animada — Estou contando que Sesshoumaru ache a mesma coisa.

— Ele com certeza vai ligar os fatos, Kagome.

— Não tão simples assim. Antes de tudo, eu uni alguns colaboradores. Dmitri me revelou todos os detalhes acerca das ações de Sesshoumaru. Ah, e Jinx e Arnya estão filtrando as informações que chegam à Sesshoumaru e Hideo. Eles não vão descobrir coisa alguma através do filtro de espionagem deles e a Yakuza também vai manter tudo em segredo. A única forma de Sesshoumaru descobrir alguma coisa seria se ficássemos... brincando no quintal dele.

— Então foi por isso que você o trouxe para cá? Para dar distância entre vocês e Sesshoumaru? — Ele coçou o queixo, pensativo — Mesmo assim, ele vai descobrir. Estamos falando de Sesshoumaru.

— Eu disse, ele está ocupado. Nesse momento Sesshoumaru está caçando a yaoguai que me atacou, isso sem falar que ele vai participar de uma convenção internacional muito importante. Ele tem um monte de coisas para distraí-lo. — afirmei.

— Mas distraí-lo para quê? O que exatamente você está planejando? Se você apenas quer salvar o yaoguai, hoje mesmo o eu despacho para Cingapura. Simples assim.

— Não tão rápido. — expliquei — Eu preciso de algum tempo.

— Para quê? — Shippou questionou. Eu desviei o rosto e vi quando ele se inclinou para tentar estudar minha expressão — Você não pode estar pensando em trazê-lo para o nosso lado, não é, Ka-chan?

Não respondi.

— Não vai funcionar. — Ele sentenciou, levantando-se — Ouça bem, Ka-chan: você é maluca, doida de pedra. Eu vou tomar um banho que é muita informação para processar.

Simplesmente abriu a porta que ligava os quartos e desapareceu por ela. Suspirei e segui para a janela. A primeira coisa que vi quando olhei por ela foi partículas de poeira brilhando e dançando contra um céu claro. Parecia mágica, então tomei como um bom sinal.

Talvez eu fosse maluca, de verdade.


Um youkai raposa engraçadinho havia aparecido no meu quarto dizendo que me ajudaria a desarrumar minhas malas. Depois de se apresentar pelo nome Milo, ele e eu começamos a trabalhar em organizar todas as coisas no guarda-roupas.

Estávamos rindo, enquanto ele contava uma história engraçada sobre Shippou andar pela cidade em triciclos bancando o Pútin, quando o próprio apareceu com Kirara nos braços — Shippou, não o Pútin.

— Você não iria tomar banho, Shippou?

— Vim trazer a Kirara. — explicou — Antes de eu ir, preciso saber de uma coisa: como é que você domesticou o tigre?

Mexi no cabelo, desconfortável, e respondi:

— Dmitri fez ameaças.

— Que tipo de ameaças? — Shippou questionou, estreitando os olhos e soltando Kirara, que pulou no meu colo.

— Do tipo: "olhe torto e sua tigresa já era".

— Ah. Eu logo vi que você parece confiante demais em achar que ele não vai querer arrancar o seu pescoço a qualquer momento. Enfim, vi lá ficar cheirosa que eu vou querer seu corpo emprestado hoje a noite. — Shippou disse, piscando um olho maliciosamente.

— Isso ficou sugestivo.

— Essa era a intenção, meu amor. — Ele fez um gesto displicente com a mão e se afastou. — Se arrume. Te espero na sala de entrada e deixe o cãozinho em casa... Dê um osso para ele se for necessário. E arrume uma bola de lã para o tigre brincar.

— Não fale assim do Dmitri.

Shippou me lançou beijo teatral e saiu acenando como se fosse a rainha da Inglaterra. Rolei os olhos, notando apenas agora que o raposinha havia saído enquanto eu conversava com seu Senhor. Soltei um longo suspiro e segui para o banheiro junto com Kirara.


— Shippou, esqueça.

Ele me lançou um olhar magoado enquanto eu tirava dele o taco de golfe. Um pouco afastados de nós se encontravam dois kitsune trajando uniforme completo de seguranças. De acordo com Shippou, era o castigo por eles terem faltado ao turno passado: ou seja, ficar na praia em um calor de um pouco mais de trinta graus usando terno.

— Ka-chan, é divertido. — ele tentou me convencer.

— Não, é falta de educação. — Respirei agitada. — Pelos deuses, como você pode pensar em sair por aí em um bug acertando as caixas de isopor com um taco de golfe?

— É divertido.

— Alguém pode se machucar!

— Eu vou tomar cuidado.

— Repito, esqueça essa ideia. — Ele cruzou os braços, emburrado. — Às vezes você parece o Daiki. Podemos fazer outra coisa.

— Vamos entrar pelados na água.

— Não.

— Assim fica difícil, você não gosta de nada que eu sugiro. — Ele balançou as mãos. — Certo, começaremos uma saga gastronômica pelos quiosques.

— Essa é uma ótima ideia.

— Comer sempre é. — ele sorriu. — Está com o cartão do seu marido?

— Sim.

— Vingança!

Ri e seguimos até o quiosque mais perto. Para ser sincera, eu não estava muito confortável deixando Dmitri e Hu sozinhos na casa de Shippou, mas ele estava usando a ajuda que estava me dando para que eu desse atenção a ele, ou seja, nem que fosse apenas por hoje, meu amigo queria exclusividade. Para ser sincera, aquilo era o mínimo que poderia fazer para compensar o transtorno que estava proporcionando a ele.

Senti algo vibrar dentro de minha bolsa quando a peguei para colocar na cadeira ao meu lado na mesa do quiosque. Prendi a respiração quando vi o nome de Hideo no visor. Fiz um sinal para que Shippou fizesse silêncio, ele apenas ergueu a sobrancelha em desafio silencioso.

— Oi, Hideo.

— Onde você está?

— Nossa, também senti sua falta, estou com muita saudade, esse tempo que estivemos separados foram realmente difíceis, eu realmente percebo que não sei viver sem você...

Me responda.

— Estou com o Shippou resolvendo alguns assuntos do centro de pesquisa que o Nagi quer para ele.

Ele me disse que você viajou. Aliás, ele me contou que todo esse tempo você estava em Tóquio. O que diabos se passa na cabeça daquele albino desgraçado? Como ele pode lhe levar para Tóquio? Isso sem falar que não engoli aquela história de ele levar você embora de Sapporo. Você sabe disso, né?

— Hideo, calma. Eu fui em Tóquio falar com a Ruri. E antes que você julgue o Sesshoumaru errado, ele me levou para Kyoto.

Ele não tinha o direito. Esse desgraçado ainda ficou impedindo que eu entrasse em contato com você! Pode ficar certa: quando eu ver a cara do seu marido, eu vou desfigurar aquela cara azeda dele.

— Ele sabia que se você falasse comigo iria fazer chantagem emocional para me fazer retornar para Sapporo.

Seu lugar é com sua família!

— Vocês não são os únicos familiares que tenho, Hideo. Não mais. — suspirei. Franzi o cenho, percebendo que essa não era a primeira vez que eu ouvia essa expressão. "Esta não é a sua única família", havia dito Sesshoumaru no funeral do Yuri. Vi-me sorrindo amargamente para mim mesma. Então era isso que ele queria dizer. — Olha, Hideo… — falei, suspirando, tentando ignorar a revelação que tinha acabado de surgir — ... eu sei que você está preocupado, mas eu estou bem, sério.

Kagome...

— Hideo, eu estou em segurança e trabalhando. — Eu o ouvi suspirar do outro lado da linha.

Me ligue! Não fique tanto tempo assim sem falar comigo. — Ouvi o som agudo de um tapa. — Daiki disse que está com saudades.

— Eu também amo vocês. Desculpe não entrar em contato... Esses dias foram realmente agitados.

Tudo bem, cuidado com essa raposa ardilosa, não quero passar por outro casamento.

— Certo. — falei rindo. — Beijos.

SINTO A FALTA DESSE SEU CORPO QUENTE. — ouvi Daiki ao fundo.

Cala a boca... — E com isso a ligação se encerrou.

Soltei um suspiro longo, enquanto guardava o celular novamente em minha bolsa. Ergui a vista, mas sem prestar atenção em Shippou que comentou algo que sinceramente não tenho ideia do que seja.

"Esta não é a sua única família."

Como eu não percebi o que ele queria dizer? Senti-me culpada por não ter notado antes. Ele havia dito que éramos uma família e apenas nesse momento me dei conta. Senti um aperto no peito, seguido pelo já costumeiro calor estúpido. Ergui a mão para massagear o esterno. Droga.

— Está tudo bem? — Shippou perguntou, preocupado.

— Nada. — respondi, respirando profundamente como uma mulher grávida — Está quente, não é?

— Naha é quente, bebê. Ou será que não tem a ver com o tempo, mas com a ideia de nos dois na água nus?

— Você realmente passou muito tempo com o Miroku. — Ele abriu um sorriso amarelo. — O que você pediu?

— Camarão e vinho.

— Tem vinho aqui?

— O vinho foi o meu segurança que trouxe... Preciso tomar algo alcoólico. — Ele se arrumou na cadeira e tirou a camisa, fazendo olhares femininos serem direcionados a ele; notei que estava satisfeito com isso quando me mostrou um sorriso malicioso.

Afastei a conversa de Hideo e minha mais nova constatação sobre as indiretas de Sesshoumaru da mente e me resignei a aproveitar a comida e a bebida com o meu amigo, sentindo-me mais tarde um tanto culpada por ter deixado Dmitri para trás, mas não havia muito que eu pudesse fazer.

Algumas taças de vinho depois, aceitei entrar na água com Shippou (com roupa de banho) e passei a tarde toda evitando que ele ficasse puxando os calções de banho dos banhistas que se aproximavam dele (na verdade ele se aproximava, mas a raposa pervertida tomou como verdade o contrário). Quando finalmente me irritei e acertei ele com uma prancha de isopor — a qual comprei exclusivamente para golpeá-lo — foi que o maldito decidiu que iria me ensinar a surfar, mas não fui bem-sucedida. No final do dia, quando voltamos para a casa dele, encontrei Dmitri com cara de poucos amigos, fingi que não era comigo e fui para o quarto com a promessa de que conversaria com ele mais tarde.


Shippou bateu três vezes na porta que interligava nossos quartos e entrou, encontrando-me sentada na cama, usando meu computador. Eu estava conversando com Souta, perguntando como o pessoal em casa estava. Era engraçado ver o drama do meu irmão por que um professor o perseguia na faculdade, quando eu mesma estava metida em meu inferno particular.

— Vamos jantar fora? — ele perguntou — Você viu o hotel na praia? Ele tem um restaurante incrível. Ah, e ele é meu. Sabe, o hotel e tudo o mais. Vai ser divertido. — Ele olhou no relógio — Você tem quinze minutos para ficar pronta.

Apenas o encarei, fechei meu notebook e me levantei.

— É melhor desistir disso, Shippou. — falei, aproximando-me dele — Eu sei que você está tentando me proteger, mas é melhor parar com esse esforço todo para me mantar longe do Hu.

— Não estou fazendo coisa alguma, apenas aproveitando que você veio até o meu território e mostrando todas as maravilhas que tenho para oferecer caso largue o Sesshoumaru e resolva ficar comigo. — ele explicou, piscando — Vou te mostrar todo o meu "fogo de raposa".

Eu tive que rir, mas não me deixei levar pelas brincadeiras dele.

— É sério, Shippou. — falei com um suspiro resignado.

Ele rolou os olhos.

— O que tem demais em se manter afastada? Se é para ele surtar e sair matando geral, que ao menos seja longe de você, porcaria. — ele despejou, seguindo para a cama e sentando-se, de braços cruzados, com expressão emburrada — Você com certeza sabe que isso de tentar trazê-lo para o seu time não vai funcionar. Não é como se vocês fossem ficar bêbados, bater um papo e se tornar amigos.

— Será que não? — perguntei, provocando-o.

— O quê? Ele é um yaoguai. Ele nos odeia por natureza. Se isso não for suficiente, ele tentou te matar, foi torturado por sua causa, você criou notícia inverídicas sobre as empresas dele e ameaçou a mulher que ele ama. Você tem que convir, as chances de ele entrar para o seu clube da luluzinha não são grandes.

Massageei minhas têmporas.

— Eu só… preciso de algum tempo, Shippou. Você pode assegurar isso para mim?

— Você é muito mimada. — ele reclamou, ainda de braços cruzados — Eu já tinha percebido que você tinha ficado meio excêntrica depois que conviver com seus irmãos, mas acabei de perceber que eles te deixaram com o péssimo costume de conseguir tudo o que quer.

— Ei, calma aí. Por conseguir tudo o que eu quero você quer dizer o quê? Viver com um guarda-costas e obedecer as vontades de Hideo e de Sesshoumaru não é o que eu chamaria exatamente uma boa definição de "mimada".

— Você nos manipula. — ele reclamou — Droga, está bem. Eu vou conseguir uma semana para você. Uma semana sem que Sesshoumaru descubra que você está aqui com o yaoguai e é só. Depois disso você se livra do seu gato de estimação e vai atender todos os meus pedidos de programas de diversão. Combinado?

— Combinado. — respondi, sorrindo para ele. Sete dias seria tempo suficiente. Eu acho.


Meu cabelo estava molhado e eu me dei ao luxo de ficar sem secá-lo. Era Naha e aquele calor subtropical deixava margem para alguns excessos. Saí do quarto usando um short jeans e regata preta.

— Vamos pedir pizza? — disse Shippou, saindo do quarto dele e encontrando-me no corredor. Virei-me para ele, surpresa, vendo-o se adiantar até mim e segurar meu cotovelo, guiando-me até as escadas. — Geralmente fico sozinho aqui no dúplex, então sempre acabo comendo na casa de algum dos meus homens; mas hoje vamos fazer uma festa, o que acha?

Eu sorri para ele e acenei afirmativamente.

— Sua casa é realmente linda, Shippou. Tem o tamanho exato para um grupo pequeno de pessoas. — comentei, enquanto descíamos — É confortável e atraente. Eu iria ficar tão feliz se Sesshoumaru gostasse de coisas aconchegantes assim.

— Falando assim, parece que vocês são um casal como qualquer outro. — ele me provocou. Minha única resposta foi revirar os olhos e observar a sala, estudando Dmitri e Hu sentados nos sofás azul-marinho, bastante quietos e tensos. Sentadas à uma mesa, duas youkais ruivas jogavam baralho. Nem preciso dizer como todos destoavam da decoração multicolorida e relaxante da sala.

— Essas são Ariko e Inaoka, são minhas executoras. — Shippou apresentou. As youkais olharam para mim e sorriram gentilmente. Lembro vagamente do rosto delas, mas não da ocasião em que já as tinha visto. Olhei Shippou, surpresa, e não com o fato de elas serem duas mulheres baixas e voluptuosas, mas sim pelo uso de plural da função.

— São minhas Sombras Caçadoras. — ele explicou, sorrindo para elas. As duas voltaram ao jogo de baralho. — Ninguém com juízo se mete com elas. — Então se inclinou na minha direção — Eu morro de medo delas, Ka-chan.

Acabei rindo, sem acreditar nele. Aproximei-me dos sofás em que meus dois guarda-costas estavam e me sentei. Olhei primeiro para Dmitri, que encarava Shippou acusatoriamente; quase como se eles tivessem um acordo silencioso de me manter longe de Hu e o Senhor do Sul tivesse quebrado sua parte do trato. Depois, olhei para Hu, que mantinha os olhos fixos em algum lugar no teto alto. Ele estava assim desde que havíamos saído de Tóquio: não falava, não criava contato visual, não agia bruscamente. Parecia um verdadeiro autômato.

Isso dificultava muito os meus planos.

Ergui uma mão e massageei minhas têmporas.

— Eu consegui agendar sua visita à Base Americana para amanhã. — avisou-me Shippou, sentando no braço do sofá em que eu estava e apoiando o braço no encosto atrás de mim.

— Já? — perguntei orgulhosamente surpresa — Não pensei que você conseguiria isso tão rápido.

— Querida, financeiramente eu não chego aos pés do seu irmão e do seu marido, mas em questão de contatos, eu me orgulho de superar os dois juntos.

— Não é à toa que na Coreia eles chamam as prostitutas de raposas. — comentei sorrindo.

— Veja que exemplo de ingratidão: sob o meu teto, aproveitando-se do meu corpo e nem fica vermelha para me ofender. — exclamou, fingindo estar insultado. Ele virou-se para Hu — O que vocês yaoguais fazem quando se deparam com uma criatura impertinente?

O yaoguai não moveu um centímetro, fingindo não ter percebido que Shippou estava falando com ele. Meu amigo apenas alargou o sorriso e me encarou. Dei de ombros.

— Enfim... — Shippou suspirou — Eu acho que você me deve uma explicação do motivo de eu estar usando todo o meu charme para conseguir seu acesso às pesquisas, não acha?

— Eu não expliquei? — perguntei.

— Não. — Shippou respondeu. Eu estava pronta para responder quando ele ergueu a mão, mandando-me parar, então ergueu o nariz, como se farejasse algo, e franziu o cenho. — Segure esse pensamento, Ka-chan. — disse-me, encarando a porta de entrada do dúplex bastante sério, como se esperasse alguém. Imitei seu gesto, confusa, e arregalei os olhos ao ver a porta dupla de madeira se abrir e por ela entrar Milo, carregando várias caixas finas de papelão — Pizza!

Tive que fechar os olhos e afundar o rosto nas mãos. Simplesmente não acredito que ele fez esse drama todo por causa de comida. Dmitri soltou um suspiro aliviado/irritado ao meu lado, tornando claro que eu não havia sido a única a ficar tensa com a atuação de Shippou. Apenas encarei meu amigo virar o Senhor da Guerra da Pizza e comandar as gêmeas executoras e Milo, mandando-os pegar pratos, copos, condimentos e bebidas.

Alguns minutos depois todos se alimentavam, exceto Hu, que continuava imóvel, encarando o teto. Eu lancei vários olhares aborrecidos, mas não era como se ele se importasse. Ao final, limitei-me a comer a pizza com as mãos enquanto Shippou sentava no tapete e assistia ao superbowl em uma televisão de plasma embutida à parede.

Pensei em comentar que eu não conseguia imaginar Sesshoumaru fazendo algo como aquilo, mas desisti. Eles dois eram diferentes demais para que eu quisesse compará-los, independente de ambos serem Senhores.

Agora mesmo, enquanto Shippou estava completamente relaxado, Sesshoumaru provavelmente estava em algum lugar cumprindo seus deveres, provavelmente sem dormir ou se alimentar há dias. Por que ele tem que ser assim? O que custa gastar algum tempo consigo mesmo com algo além de obrigações? Um pouco de diversão não faria mal algum.

— Por que você está com essa cara amarrada? — perguntou Shippou, fazendo com que eu voltasse a mim.

— Não estou com cara alguma. — resmunguei.

— Ah, está sim. Vai me dizer que está pensando no Senhor do Oeste? — perguntou, sorrindo jocosamente — Oh, está, não está? Tenho certeza que essa expressão chateada tem algo a ver com o Sesshoumaru; porque ele é motivo para toda a chateação do mundo.

— Você não devia falar assim dele. — resmunguei.

Shippou apenas estudou minha expressão e estreitou os olhos de leve.

— Está defendendo-o? — Então apontou o controle remoto da televisão para mim — Agindo assim, eu realmente vou começar a acreditar que vocês são um casal.

Apenas agitei os dedos da mão esquerda, evidenciando a aliança no meu dedo anular, como se isso desmerecesse qualquer comentário de Shippou. "Eu sou casada com ele, afinal", era o que meu recado deveria significar, mas, quando peguei Hu observando-me, passou pela minha cabeça que o yaoguai, talvez, tivesse interpretado de uma maneira diferente, embora eu não faça ideia de como.

Bom, isso realmente não importa. Mordisquei minha pizza e recostei no sofá procurando ficar o mais confortável possível. Não sabia que poderia ser feito para quebrar aquela tensão que se instalava entre nós e Hu. E sim, eu sou esse tipo de ameba que obriga um inimigo a me seguir e quer que ele sente na roda para contar as histórias de infância.

— Então. Kagome, como é estar casada com o Senhor do Oeste?

Olhei para Ariko ou Inaoka — não sei ainda quem é quem, apenas guardei o nome delas.

— Bom, tem seus bons e maus momentos. — ela acenou com a cabeça, parecendo meio confusa com a resposta, mas ao mesmo tempo, compreensiva, como se entendesse que não poderia ter muito que se falar do meu marido.

— Bons momentos quando ele sai de casa, os maus, quando ele volta. Tipo isso. — respondeu Shippou pegando outro pedaço de pizza, acho que ouvi o rosnado de Dmitri ao lado. — Bom momento, estar aqui comigo; mau momento, não ser casada comigo.

— Por que seria bom ela se casar com você? — questionou a outra executora.

— Como não poderia ser bom? Quem não iria ser feliz casando com uma raposa? — as duas pareceram pensar sobre o assunto.

— Suas exs não pensam assim.

— Inaoko, não ferra tudo. — ele resmungou dando uma bela abocanhada em seu pedaço de pizza.

— Ela está certa. — falou Ariko, que em seguida teve um pedaço de pizza empurrado para dentro de sua boca pelo Shippou.

— Então Kagome, apenas essa resposta vaga sobre seu relacionamento? — Não entendi muito bem o interesse de Inaoko em minha vida conjugal, foi quando recordei que a Yakuza e até minha própria família tinha interesse nesse assunto por um motivo específico.

— Há um bolão sobre quanto tempo vou ficar com casada com ele aqui também?

Ariko e Inaoko se entreolharam. Pior: Shippou engasgou e começou a tossir e precisou beber vinho (o qual ele disse ser importante para o consumo de massas em geral) para conseguir se recuperar. Dmitri estava já em pé, pronto para tomar as dores de seu Senhor, quando o puxei para que sentasse ao meu lado.

— Bom, vamos mudar de assunto. — anunciou a raposa larápia. — Kagome, me conte, como foi sua residência?

— Tirando o susto que Kayanno me deu, as coisas foram tranquilas, mas, por causa de alguns incidentes, Sesshoumaru usou sua influência para terminar a especialização mais cedo, nem pude brigar com ele por ter feito isso pelas minhas costas.

— Kayanno? — Ele coçou o queixo, pensativo. — A menininha matraca que você comentou comigo?

— Não chama ela assim. — reclamei o empurrando e fazendo-o sorrir. — Ela teve uma piora significativa, quase não conseguimos salvá-la, mas Sesshoumaru... — Parei no meio da frase lembrando que não estava apenas com Shippou. — Ele me ajudou com ela.

— Ajudou?

— Sim, posso até afirmar que se não fosse por ele, aquela pobre menininha não estaria mais aqui no mundo dos vivos. — Shippou fez uma expressão de quem "compreendia" o que eu queria dizer, então sorri, descendo do sofá para sentar ao lado do Shippou, para continuar animada — Foi o que passamos com ela que deu a ideia de fazer o instituto.

— Ah. — disse Shippou — Verdade. Vamos falar disso. Você disse que precisava ver as pesquisas por causa desse instituto, por que não me explica?

— Um de meus professores havia comentado sobre as pesquisas da Universidade Nacional em criar órgãos híbridos em porcos que funcionassem no corpo humano para transfusão. — expliquei — Eles usaram as bases da pesquisa do Instituto Aoi, que realiza pesquisas sobre a possibilidade de modificar características do sistema imunológico de humanos para funcionar no corpo de animais.

— Sim, e o Aoi usa as instalações da Base Americana. — Shippou completou — Mas por que criar um instituto?

— Para tentar achar a cura do câncer. — falei. Dito assim, parecia a coisa mais utópica do planeta, mas Shippou não pareceu menosprezar minha ambição, mesmo quando coçou o queixo, pensativo.

— Não seria mais simples apoiar algum instituto que já exista? — questionou.

— Nós não vamos poder usar humanos em alguns pontos da pesquisa. — comentei, então lancei um olhar para Hu, desistindo de omitir informações por causa da presença dele — Lembra do meu ataque? — perguntei para Shippou, tentando não me envergonhar com o fato de falar sobre o assunto na frente do yaoguai. — Eu fui contaminada por um composto que, segundo a teoria de Nagi, foi feito para induzir o envelhecimento no corpo de um imortal. Acontece que esse composto não teve efeito em mim, por ser uma hanyou, e meu sistema imunológico estar preparado para combater envelhecimento por causa do meu lado humano. — Shippou parecia incrivelmente sério, enquanto me escutava. Expliquei para ele os detalhes sobre o sistema imunológico dos youkais completos e o diferenciei dos hanyou e humanos, salientando as possíveis similaridades genéticas entre os três tipos. Dmitri, sentado atrás de mim, também parecia concentrado no que eu dizia, já que era a primeira vez que ele ouvia sobre isso. — Então tivemos a ideia de tentar programar o sistema imunológico de um youkai para combater irregularidades neoplásicas malignas em humanos, o que resultaria, se eficiente, na cura definitiva do câncer.

Shippou imediatamente desviou os olhos de mim para Hu, questionando:

— Há quanto tempo vocês estudavam isso, yaoguai? — Pensei em responder que, levando em consideração que meu pai havia morrido por causa disso, já fazia um bom tempo... Mas resolvi ficar calada e observar a reação de Hu à pergunta de Shippou. — Isso não parece algo que foi feito de uma hora para a outra, concorda?

Estudei Hu, que permanecia impassível, e depois observei Shippou aproximar-se dele. Eu não compreendia as intenções, exceto que, pela forma como apoiou-se no encosto do sofá ao lado do yaoguai e inclinou-se na direção dele, o meu amigo pretendia intimidá-lo. Olhei para Dmitri, questionando silenciosamente sobre o que fazer, mas o meu guarda-costas estava inexpressivo.

— Vocês tinham esse conhecimento por todo esse tempo e a única utilidade que acharam para ele foi trazer morte? — Shippou perguntou entredentes — Vocês podiam salvar vidas, mas a única pessoa que pensou nisso foi uma hanyou que vocês tentaram matar. Vê como isso soa irônico? É por causa de coisas como essa que eu tenho nojo de criaturas como vocês. Não passam de um bando de bastardos incoerentes, que ficam bradando "Vingança!", mas sequer tentam usar o poder que possuem para salvar o mesmo povo que prometem vingar.

Eu vi quando a expressão de Hu mudou, quando seu orgulho foi atingido. Ele simplesmente desistiu de se mostrar indiferente e encarou Shippou com expressão colérica. Eu estava completamente apavorada com a cena que se desenrolava.

— Era isso que vocês diziam quando viam seus semelhantes serem massacrados? "Preferimos vingá-los a salvá-los?" — As palavras de Shippou foram acompanhadas pelo som repentino de deslocamento de ar. Senti os braços de Dmitri em volta de mim enquanto ele me puxava para trás dele, e eu só percebi o que estava acontecendo quando vi ambos em pé, só que Shippou não era mais o Shippou, mas uma criatura bípede gigantesca com chifres, cascos em vez de pés, pele avermelhada e mandíbula poderosa com presas incidentes.

As duas executoras de Shippou apertavam lâminas curtas encurvadas contra o pescoço do yaoguai, enquanto uma das mãos dele pressionava o pescoço da besta parada no meio da sala. Hu estava em sua forma de tigre, fazendo com que eu lembrasse imediatamente do dia que eles atacaram a Yakuza e eu tive tanto medo dele.

Como essa cena acabou por ficar assim?

— Você está em minha casa, Rei Tigre, e é meu convidado por quanto tempo eu desejar que seja. — soou a voz demoníaca da fera — Eu sou Senhor do Sul e sugiro que não me obrigue a lembrá-lo novamente deste fato.

Foi quando compreendi a cena: Shippou havia usado seus poderes de ilusão para tomar a aparência de um Ifrit, um demônio da mitologia árabe, que, uma vez, ele havia me dito ser a figura mais apropriada para representar o terror.

Algo no olhar vago de Hu me dava a impressão de que a aparência de Shippou não era a única ilusão criada por ele, mas que havia alguma que afetava apenas o yaoguai. Depois de vários segundos de silêncio mortal, o yaoguai baixou o braço e, lentamente, foi tomando sua forma humana. As caçadoras afastaram as lâminas de seu pescoço e aí sim Shippou desfez todas as ilusões.

Shippou olhou para mim. Não havia traço de sorriso no rosto do meu amigo, senão preocupação e ira contidas. Ele veio na minha direção, segurou minha mão, e então me arrastou escadaria acima até o meu quarto.

Apenas quando eu me sentei na cama foi que eu percebi como tremia.

— Você vai se livrar dele. — rosnou Shippou — Amanhã.

— O quê? — perguntei com voz sumida.

— Não quero ele por perto. Ele é perigoso, Ka-chan. — disse Shippou, respirando rapidamente.

— É… Você fez questão de mostrar isso. — respondi — Você fez aquilo para que eu ficasse assustada e desistisse de tudo, não é?

— Ele poderia ter quebrado meu poder se quisesse. — Shippou explicou nervoso — Ele poderia, mas não fez. Pode ser, Kagome, que eu não seja capaz de pará-lo caso tente realmente fazer algo contra você.

— Ele não vai fazer nada enquanto Sesshoumaru estiver com a noiva dele. — falei, levantando-me e segurando as mãos de Shippou numa tentativa de acalmá-lo. — Vai ficar tudo bem.

Ele apenas me encarou.

— Kagome, se estiver errada e ele não amá-la como você pensa… Então você está apenas oferecendo seu pescoço de boa vontade. — Shippou disse. E eu me esforcei o quanto pude para não demonstrar como aquelas palavras haviam minado a minha confiança.


Fkake:
E aew galera, espero qu estejam gostando do andar da carroça.
Estava pensando aqui comigo em aumentar o intervalo de postagem, pois sou dessas qu abusa da Ladie e como ela ta com a vida mais corrida que Sonic, postar assim semanalmente esta ficando cansativo para ela, então, peço a colaboração e compreenção de vcs, só para constar, isso não esta definido, avisamos que decidimos no grupo do Face.
Enfim, não sei que mais comentar, não há perguntas a serem respondidas, acho que só um comentário sobre a senha do Sesshoumaru, eu recomendo prestar atenção nela, vamo revelar um dia desses.
Enfim, não esqueçam de comentar, dizer que gostaram e não gostaram, dúvidas e criticas, fiquem a vontade.
Aquele beijo e boa semana para todos vocês.