- Parte 54 -

Uma semana sucedeu o incidente na Casa dos Gritos, e Anne andava muito cabisbaixa. Jacob evitou comentar, mas percebendo que a sua coelhinha apenas fitava o leite no café da manhã, sem bebê-lo ou até vê-lo realmente, não pôde mais evitar a preocupação.

— O que é que você tem, minha vida?

Anne deu um sorriso cansado e beijou o namorado nos lábios brevemente.

— Mesmo sendo uma família como a minha, Jake… Não é fácil me sentir uma bastarda.

— Você agora tem a minha família, que não é grande, mas é sua.

— Eu agradeço, Jake, agradeço mesmo. Mas também tem outra coisa…

— O que, coelhinha?

— Snape é um filho-da-puta da pior estirpe. Não mandou nenhuma notícia sobre a Chris. Não sei quando ela volta, ou mesmo se ela está viva.

— Anne, já te disseram que as suas palavras têm poder convocatório?

— Que?

E Jake apontou para a porta do Salão Principal, por onde entrava Christine apoiada em Snape e em uma muleta. Anne correu em direção à amiga, e teria abraçado-a da forma mais desajeitada se Snape não impedisse, dizendo que Christine estava fragilizada. A garota, então, ajudou a amiga a sentar ao banco a seu lado, e Christine o fez, reclamando do gesso na perna direita.

— Senti saudades — ela disse — de vocês dois.

— Fiquei preocupado com você, prima — admitiu Jacob.

Christine passou a mão pela mesa, através de Anne, que estava entre ela e o primo, e apertou a mão dele breve, porém carinhosamente.

— Mas e a Cana? — Christine indagou, sentindo falta da amiga alcoólatra.

— Anda trancada no quarto o dia todo, só sai para as aulas. Nem as refeições ela tem feito direito.

— Por causa do fuinha?

— Por quem mais?

— Mas basta me recuperar, que mato aquele vampiro idiota, com cara de bilau assustado.

Anne e Jake estranharam a ofensa, mas ninguém comentou. Anne estranhou ainda outra coisa.

— Chris, eu não entendo muito de Sectumsempra, mas achei no mínimo diferente um feitiço quebrar-lhe a perna.

Christine deu um sorrisinho enviesado.

— Ah, isso aqui foi outra coisa — falou sem nenhum rastro de constrangimento — Severus e eu inventamos de usar a escada, imagine. Eu me desequilibrei e caí uns degraus abaixo.

O rosto de Snape adquiriu uma coloração escarlate, enquanto Christine apenas sorria e Anne caçava um assunto, qualquer que fosse. Jake murmurou um "vou sonhar com esta porra", mas ninguém ouviu.

— Bem, eu preciso organizar algumas coisas — falou Snape, sem olhar diretamente pra nenhum dos três — fiquei muito tempo fora.

Ele beijou Christine nos cabelos e se retirou, enquanto a garota suspirava ao vê-lo se distanciar.

— E como foi lá, Chris? — indagou a amiga, tirando-a de seu devaneio.

— Como foi o que?

— A sua estadia na casa de Snape, a sua recuperação.

— Ah, eu me recuperei rápido. Rápido o suficiente para aproveitar uma semana inteira sozinha com o Sev.

— Posso até imaginar o que rolou nessa semana — comentou Jake — devo perguntar se a casa ainda está inteira?

— Eu não sou Rosalie Hale, Jake — e Anne franziu o nariz à menção do nome da prima — ninguém destruiu a casa, mas ela já está um tanto destruída por si só.

— Destruída?

— Não exatamente destruída, Anne, mas a pintura está descascando, há uma goteira em cada cômodo, o chão range quando a gente anda, os móveis são velhos e cheiram a mofo, sem falar que é uma casa minúscula, que provavelmente nem caberia 0 Jake dentro. Porém, é a minha futura casa, o lar onde criarei os meus filhos. E eu fico feliz com isso, pra falar a verdade. Aliás, Snape meio que me pediu em casamento.

Jake engasgou-se com o suco de abóbora.

— Casar? — indagou Anne, enquanto batia nas costas de Jake para que ele parasse de tossir — Mas você acabou de fazer dezessete anos.

— Eu também acho meio cedo, mas não há outra alternativa. Quando Hogwarts terminar, eu não terei mesmo para onde ir. Fui deserdada, e logo mais o meu nome será queimado da árvore genealógica dos Black — e deu um sorrisinho de desdém — para macular a tradicional tapeçaria, ao lado do nome de Sirius.

— Você pode ficar por um tempo em La Push — sugeriu Jake — posso falar com o meu pai, nós arrumaremos um cantinho pra você… É, você é da família, afinal.

— Eu agradeço, meu primo, mas quero me casar, ter a minha vida ao lado do homem que eu amo. Quero viver só para Snape.

— Chris falando assim, quem te viu, quem te vê.

— É, Anne, eu tenho mudado bastante. Bom, mas não importa agora. Ajudem-me a chegar no salão comunal, que quero ver a Catiaça.

Amy realmente estivera trancada no dormitório, relendo a carta que Jasper a entregara em uma Páscoa já remota e chorando, agarrada às lembranças do amado. Quando Christine entrou, porém, Amy sorriu e correu ao encontro da amiga, abraçando-a cuidadosamente e a guiando até sua cama, onde Christine sentou e apoiou as muletas.

— Eu sabia que você ficaria bem, Snape é competente e apaixonado. Não deixaria que você morresse em suas mãos, nem que lhe custasse a própria vida.

— Ai, Amy, assim eu choro…

— Mas é verdade. Só que eu não sabia que Sectumsempra quebrava pernas...

— E não quebra — falou Anne — isso aí é resultado de mais uma aventura amorosa de Jessy, na qual ela ficou tão louca que despencou da escada.

— Depois eu que sou a bêbada…

— Deixando a minha vida sexual de lado… — falou Christine olhando para Anne com uma falsa raiva — Amy, nenhum sinal de Jasper?

— Não, Chris, ele foi embora mesmo.

— Mas eu vou atrás dele, ah, se vou! Só preciso me livrar dessa droga de gesso.

— Não, Chris, se ele vier, que seja espontaneamente. E como isso não vai acontecer, esqueçamos.

— Esqueçamos coisa nenhuma! Você está sofrendo, Amy.

Eu hei de aprender a esquecer.

— Não gosto dessa teoria, mas não vamos discutir. O tempo se encarregará de colocar tudo nos eixos. E quanto a mim, eu estou feliz por estar de volta. Na hora em que o feitiço me atingiu, eu só consegui pensar em vocês e em Snape, e temi por morrer sem antes ter dito o quanto eu os amava, ou de ter vivido tudo o que ainda quero viver ao lado de vocês.

As palavras comovidas de Christine foram, entretanto, interrompidas por uma garota que entrava no dormitório. Ao deparar-se com Pansy Parkinson, Christine procurou a varinha ou as muletas. Usaria o que estivesse mais próximo.

— Dumbledore vai anunciar o nome dos vencedores que irão participar do Torneio Tribruxo — informou a garota — vocês não vão ver?

— Ah, que Ronaldo! — exclamou Christine — E eu queria tanto ter me inscrito!

— Eu estou indo — falou Pansy — preciso ver a Mionezinha ao menos de longe!

Christine fez uma cara de nojo enquanto se equilibrava sobre as muletas.

— Vamos lá ver quem foi a bicha de Hogwarts que ganhou? — indagou a garota indo em direção à porta, sendo imediatamente ajudada por Anne.

Amy as seguiu, não antes de pegar uma garrafinha de licor.

Era bom que pudessem participar e um evento escolar, como qualquer estudante. Como pessoas normais. Era isso que as três garotas queriam no momento: Serem absolutamente normais, ainda que isso fosse absolutamente impossível.