A fúria de Selene
Tão rápido como pôde, Selene deixou o reino lunar rumo à Terra. Em seu rosto, a expressão de ódio ganhava tons cada vez mais evidentes.
O fato de ela mesma ter de descer ao planeta para reaver Darien e Tristia era de todo humilhante a seus olhos. Agora, graças ao fracasso da Harpia e da intromissão das sailors guerreiras, ela iria se sujeitar a buscar sua dupla de fujões.
Darien e Tristia a haviam traído. Os dois buscaram se livrar dela. Essa traição não seria livre de castigo, um castigo à altura.
Minha própria filha se voltou contra mim... Aquele pedacinho de gente ousou me enfrentar. Mas foi culpa do traidor... Ele me enganou também, queria se livrar de mim pra poder voltar pros braços daquela sem sal da Serena... Fraco gosto...
Esses pensamentos deixavam Selene cada vez mais furiosa. Dessa vez, ela deveria ser realmente dura com os dois, sob o risco de voltar a perder o controle sobre eles em tempos futuros.
Ela não tardou a chegar no ponto exato onde a Harpia havia lhe dito que as sailors estavam: em frente ao portal que conduz ao mundo inferior.
– Ora, ora... Por um segundo, acreditei que não fossem idiotas o bastante pra permanecerem aqui depois da batalha contra minha serva, mas vejo que estava enganada. Vocês não passam de imbecis!
– Selene! – Setsuna posicionou Tristia atrás de si.
As sailors se colocaram em posição de batalha. Era de fato lamentável que ainda estivessem ali. No entanto, precisavam ficar a postos para a qualquer momento entrar no mundo inferior e não podiam simplesmente abandonar o local, por mais segura que fosse essa opção.
– Devolvam agora a minha filha e me digam onde Darien está... Muito embora eu tenha quase certeza de que aquele idiota entrou no mundo inferior por causa daquela inútil da Serena.
– Nós não podemos deixar você levar Tristia, Selene... – Disse sailor Vênus com certa hesitação.
– Ela é minha filha! Quem vocês pensam que são pra dizer que eu não posso levá-la?
A deusa usou um de seus ataques, fazendo com que Mercury e Vênus caíssem no chão.
"E agora vocês", arrematou voltando-se para Michiru e Setsuna.
– Pare! – Disse Tristia, pondo-se à frente das sailors – Por favor, não machuque mais ninguém.
– Tristia, espere! – Gritou Setsuna ao ver a menina correr na direção de sua mãe, segurando a barra de seu vestido.
– Por favor... Mamãe... – A menina já soluçava.
– Tristia, Tristia... – Selene pegou a filha no colo – Diz pra mim, seu pai entrou naquele portal, não foi?
– Ele... Ele...
– Fale, logo, Tristia. Vamos buscá-lo pra voltar pra casa – Disse a deusa, segurando o pescoço da menina e lançando um olhar de advertência para Setsuna e Michiru que ameaçavam se aproximar.
– O que vai fazer com ele?
– Voltar com ele pra casa. Só isso. Vamos, conta pra mim.
Tristia ficou a fitar a mãe indecisa por alguns segundos. Lembrou-se do que aconteceu no palácio lunar, de que Selene estava com as mãos no peito de Darien, dizendo que iria destruir todos os sonhos dele.
– Eu não posso... – E começou a chorar.
Selene pousou Tristia no chão e deu um tapa em seu rosto.
– Quando finalmente chegarmos em casa, eu vou lhe dar a surra que merece. Não adianta tentar proteger ser pai, eu sei que ele só pode ter entrado no reino de Hades atrás daquela estúpida, mas eu vou dar um jeito nisso. E quanto a vocês... Sailors bobocas...
Selene lançou seus poderes na direção das sailors, mas dessa vez não era um ataque comum, nem uma tentativa de petrificá-las. Tão logo aquela rajada de luz dourada atravessou-lhes os corpos, souberam elas reconhecer o que estava acontecendo.
Eram suas sementes estelares que estavam sendo roubadas pela deusa.
Tristia correu na direção delas e parou diante da figura de Setsuna, que aos poucos se desvanecia na frente dela.
– Por favor, não vá...
– Eu sinto muito, Tristia, eu não pude te proteger... co.. como eu prometi ao seu pai...
E desapareceu por completo, bem como as outras sailors.
– Não! – Chorava Tristia, enquanto Selene ria com as sementes estelares roubadas.
– Já chega desse choro! Vamos buscar seu pai!
E Selene pegou pela mão da menina, arrastando até a entrada do portal.
Selene respirou fundo antes de abrir o portal. Entrar no reino dos mortos era algo que não havia feito nem mesmo por Endymion.
Endymion... Foi apenas nesse momento que a deusa percebeu que também o encontraria ali... E sorriu de leve com essa possibilidade.
Endymion...
Com toda essa confusão eu até me esqueci de você.
No final, acho que eu preciso mesmo entrar no reino de Hades...
... e matar dois coelhos com uma cajadada só.
Com os poderes que adquiriu, não foi difícil para a deusa abrir o portal.
Carregando Tristia pela mão, ela entrou decidida no mundo inferior.
Hades deixou Serena em seu quarto e, com toda a raiva que sentia por se ver contrariado, nem percebeu a intromissão de Selene em seu reino.
A deusa já chegou ao local petulante como sempre. Não deu nem ao menos tempo para Caronte dizer coisa alguma. Ela simplesmente o abateu com um de seus ataques e tomou seu barco para cruzar o rio Aqueronte.
Enquanto a deusa se aventurava pelo mundo inferior, Serena saiu do quarto onde Hades a deixou e se aproximou do corpo de Darien.
Ela parou por alguns instantes a fitá-lo ali, deitado no chão, seu corpo inerte e seus olhos fechados.
Um silêncio profundo imperava em toda aquela parte do salão. Serena não mais chorava, apenas limitava-se a olhar aquele homem no chão, culpando-se pelo estado dele.
– Darien... – Sussurrou ela, tomada por um terror crescente ao sentir outra voz se sobrepondo à dela, formando um dueto a chamar pelo jovem.
Ela virou sua cabeça com o coração em disparada. Ela já sabia de quem se tratava, reconhecia perfeitamente aquela voz rastejante.
Era Selene.
– Darien... Mas o que... – A deusa olhava aquele corpo estático no chão.
– Papai!
Foi nesse momento que uma garotinha de cabelos castanhos saiu de trás de Selene e correu na direção do jovem .
Papai?
Serena já sabia da existência da filha de Darien, mas vê-la pessoalmente e já tão desenvolvida tornava tudo muito real. E, de alguma forma, ainda mais incômodo.
A jovem olhava abismada para a menininha que corria tão decidida para se ajoelhar aos pés do corpo do pai, pondo-se a chorar.
– Papai... Volte...
Mas de fato Tristia era tão linda, que foi impossível para Serena não se apiedar da dor que ela claramente sentia.
– O que foi que aconteceu aqui? – Questionou Selene ainda parada, quebrando o encanto da jovem pela menina – Ande logo, sua estúpida! Diz pra mim! O que aconteceu com Darien?
– Ele... Ele...
– Papai! – Gritava e chorava Tristia, interrompendo a fala de Serena.
– Cala essa boca, garota chata! – Disse Selene com raiva – E você, pare de gaguejar feito uma idiota e diz o que aconteceu aqui!
– Darien está morto! – Respondeu a jovem com voz firme.
Selene abaixou a cabeça a refletir por alguns segundos e, em seguida, riu. Seu riso foi se modificando até se transformar numa gargalhada estridente e assustadora.
– Do que tanto acha graça, Selene? – Perguntou Serena já irritada.
– Da sua fraqueza! – A deusa procurava se recompor após tanto gargalhar – Não se preocupe, esse é probleminha que resolvo em menos de um minuto, agora que eu tenho a força do próprio deus da Morte, Tânatos!
Altiva, Selene caminhou na direção do corpo de Darien e empurrou Tristia para longe. Instantaneamente, a menina começou a chorar.
Aterrorizada, Serena correu na direção da menina e a amparou em seus braços.
– Como pode, Selene? Por que a machucou?
– Não me atrapalhe, sua inútil! Mandei você aqui à procura de um e você ainda me perde outro! – Disse, claramente se rereferindo a Endymion.
Diante dos gritos da mãe, Tristia se agarrou ainda mais à Serena e estranhava como aqueles braços desconhecidos conseguiam ser calorosos.
Selene, então, usou seus poderes. Uma aura prateada irradiou ao redor de si e de Darien. A deusa se abaixou.
– Acorde, meu amor.
E, para desgosto de Serena, arrematou sua fala com um beijo nele.
Aos poucos, Darien acordava.
– Darien... – Serena novamente começou a chorar ao perceber que ele estava vivo.
As lágrimas de Serena escorriam pelo seu rosto molhando os cabelos de Tristia, que permanecia em seus braços e a menina entendeu, finalmente, que aquela era a pessoa que seu pai dizia que iria buscar. E ela parecia se preocupar muito mais com ele do que sua mãe.
Darien abria os olhos aos poucos e demorou a se acostumar novamente com a claridade, as imagens se ofereciam turvas diante de seus olhos. Ele pôde ouvir uma voz chorosa a dizer seu nome – ele reconhecia a voz de sua amada.
– Serena... – A voz saía enfraquecida e rouca.
Selene irritou-se. Mais uma vez, ele chamava por ela. Tristia e Serena puderam ver os punhos da deusa cerrando-se, o olhar maligno e as contrações em seu rosto.
– Não, seu ingrato. Sou eu, Selene. Eu... Eu devolvi a vida ao seu corpo.
Foi nesse momento que Darien se deu conta de que a deusa estava ali. Ele procurou se erguer com dificuldade, afastando-se dela.
– Selene...
Darien preparava-se para questionar a presença dela ali. No entanto, parou surpreso diante da presença da própria filha no mundo inferior.
"Tristia!"
– Papai! – A menina se soltou dos braços da jovem sailor e correu na direção dele.
O jovem recebeu a filha em seus braços, mirando Serena.
– Vocês dois... Está na hora de voltar pra casa. Lá, vamos conversar sobre a lealdade que me devem.
Darien posicionou Tristia atrás de si:
– Não...
– Você só piora as coisas quando age assim...
– Deixa os dois em paz, Selene. Eles não querem ir com você! – Serena interveio.
– Não se meta nisso! E quanto a você, comece a andar com a fábrica de choro na minha direção. Quanto menos me irritarem, menos pesado será o castigo pelo que aprontaram.
– Selene, você não muda em nada... – Inundou o salão a voz de um homem que a deusa há muito tempo não ouvia.
– Endymion!
