************************ Cap. 54 Maman Di - Parte 1************************
Uma semana depois.
Hospital de Atenas, 09:33am
No quarto onde estava internado, já trajando roupas civis e livre da sonda nasogástrica, Afrodite de Peixes ouvia as últimas instruções que doutor Hector lhe passava para que pudesse continuar o tratamento em casa. Sabendo que o metabolismo dos cavaleiros de Atena era diferente dos demais humanos, em especial o do sueco, que se recuperava mais rápido, o médico achou desnecessário que ele continuasse internado e lhe deu alta.
— Nem preciso dizer que deve fazer repouso absoluto, não é? — dizia Hector enquanto prescrevia uma dieta especial para o sueco seguir em casa — A sua cicatrização, embora esteja correndo muito bem, requer cuidados por causa dos pontos internos. Irá seguir uma dieta específica à base de líquidos e alimentos pastosos, e nada de fazer força em demasia ou exercitar-se... Há escadas na sua casa?
— É... tem algumas. — Afrodite respondeu rindo enquanto trocava um olhar com Mu e Máscara da Morte que tinham ido busca-lo para o levar de volta ao Santuário — Só que se o senhor souber quantas escadas tenho que subir para chegar na minha casa vai me dar alta só daqui um ano! Alôca! Mas não se preocupe, doutor, tem elevador. — disse colocando-se no meio dos dois cavaleiros de ouro que ali estavam e lhes dando tapinhas nos ombros.
— Ah, se tem elevador fico mais tranquilo. — o médico falou destacando o receituário no bloco e o entregando ao pisciano — Você não pode subir escadas, também não pode correr, levantar peso, fazer esforço...
— Posso trepar, né doutor? — Peixes interrompeu o médico de súbito, verdadeiramente preocupado e apreensivo com o rumo que ganhava aquelas recomendações.
— Ah, ma che estava demorando para falar merda. — disse o cavaleiro de Câncer — Você só pensa nisso, stronzo?
— Meu amor, se você não transa não venha destransar os transantes, pode ser? Ah, tá boa?
— Eh... bem... — Hector olhava para ele meio sem graça — Eu não recomendo. Qualquer esforço que exija contração abdominal e pélvica é desaconselhável.
— Mas nem bater um bolo*, assim, de leve? — insistiu o pisciano em desalento.
— Não deve cozinhar, pois precisa evitar calor na região do abdome, então, nada de bolo.
— Ah, doutor, acho que não é bem de culinária que ele está falando. — Mu interveio aos risos — Mas, não se preocupe. Ele vai seguir as recomendações certinho, não é, Dido?
Afrodite respondeu com um suspiro longo e desanimado.
— Sim, fazer o que, né? — lamentou.
— É para o seu bem. Repouso absoluto, ok? Em sete dias quero vê-lo. Boa recuperação! — Hector sorriu estendendo a mão para cumprimenta-lo e despedir-se, mas Afrodite ignorou completamente o gesto abrindo ambos os braços e dando um forte abraço no médico.
— Obrigado, doutor, por ter salvo minha vida. — disse o sueco.
Hector o abraçou de volta sorridente.
— Eu não fiz nada sozinho. Devo tudo aos seus amigos. — disse o homem trocando um olhar cúmplice com Mu e Máscara da Morte à sua frente — Eles, e o cavaleiro de Aquário, sim, são seus verdadeiros heróis.
Afrodite então se afastou buscando os olhos do médico.
— Sim eu devo minha vida a eles, mas foi o senhor quem me manteve vivo até eles chegarem, né santa? E isso eu nunca vou esquecer, mesmo que eu esqueça muita coisa. — disse dando um riso faceiro, mas logo em seguida voltou a ficar sério — Mas... antes de ir embora eu queria ver a Mosca. Todos esses dias ela só tem dormido e dormindo... Toda vez que vou lá ela tá tão sonolenta que mal dá para gente conversar.
— É que ela está sendo mantida sedada na maior parte do tempo. — Hector disse visivelmente penalizado — Ela perdeu muito sangue, passou por uma cesariana complicada e ainda apresenta um quadro leve de hipertensão arterial, e dada sua realidade, a qual agora ela tem consciência, seu estado emocional não tem contribuído muito para sua recuperação. Ela é uma amazona, e o descontrole de seu Cosmo pode ser perigoso, então achamos por bem mantê-la sedada até que a pressão se normalize e seu corpo e mente passem a responder melhor às agressões que sofreram.
— Coitadinha da Mosca. — Peixes suspirou mortificado.
Percebendo a agonia do amigo Mu aproximou-se dele e passou o braços por seus ombros.
— Ei, não fica assim. Ela vai se recuperar. Logo ela estará junto da gente no Santuário e poderemos dar todo carinho e apoio que ela merece... Mas, se quiser vê-la podemos passar rapidinho do quarto dela antes de ir para casa.
— Sim eu quero. — Peixes respondeu de pronto, depois todos despediram-se do médico e seguirem para o quarto da amazona.
A visita foi mesmo rápida como Áries havia dito. Geisty dormia como das outras vezes em que Afrodite estivera lá, então como também fizera das outras vezes o sueco ficou alguns minutos velando o sono dela e antes de sair do quarto lhe deu um beijo na testa, sobre a franja impecavelmente arrumada.
Quando chegaram à Casa de Peixes, no último degrau da escadaria Máscara da Morte colocou Afrodite no chão. O havia carregado no colo até ali enquanto Mu vinha ao lado trazendo alguns dos pertences do pisciano.
— Pronto. Bem-vindo de volta ao lar, amico. — disse o italiano com um sorriso no rosto, mas esse logo se desmanchou quando ao olhar para a face de Peixes viu que sua fisionomia estava séria e melancólica, bem diferente do que ele havia mostrado durante todo o percurso quando ao passarem palas 12 casas sorridente cumprimentou os cavaleiros que em seus Templos vieram para fora lhe dar as boas-vindas — O que foi? Está sentindo alguma coisa? Está com dor?
Após algum momento, enquanto ainda olhava fixo para o cume da montanha, em específico para o Templo erguido ali, Peixes respirou fundo pousando a mão sobre o curativo no abdome antes de responder com outra pergunta:
— Como ele está?
Na mesma hora Mu e Máscara da Morte também ergueram seus olhares para o topo da montanha.
— Mal. Nos dois sentidos da palavra. — disse o cavaleiro de Áries — Está irreconhecível, muito pior do que já esteve em qualquer momento antes. Isolou-se no Décimo Terceiro Templo e se comunica apenas para dar ordens oficiais, o que de certo modo é até melhor, pois a presença dele se tornou pesada e insustentável.
Afrodite sentiu o peito e a garganta apertarem. Aquela realidade parecia um pesadelo, mas assim como nos sonhos ruins não havia como despertar por livre e espontânea vontade para fugir dela. Precisava encara-la.
— Ele me odeia... Por causa daquela merda que houve no passado com Aiolos e... — disse baixinho ainda com o olhar vago na direção do Décimo Terceiro Templo, e depois de uma breve pausa voltou-se para os amigos a seu lado — Agora ele vai me odiar ainda mais, porque parte da culpa de ele ter perdido os franjudinhos foi minha.
— Ei! — Mu aproximou-se do sueco e tocou em seu ombro o obrigando a olhar fundo em seus olhos — Vou te dizer o que disse para o Shaka, que também está sofrendo por tomar para si uma culpa que não é dele. A culpa dessa tragédia toda é exclusivamente da Vory v Zakone e seu antigo líder. Você entendeu? Do ódio, ganância e do preconceito disseminado por aqueles russos. "Que não pouparam nem o próprio Camus. E você sabe bem a que me refiro." — a última frase Áries disse a Peixes por telepatia, para que somente ele ouvisse, o que fez Afrodite arregalar os olhos surpreendido.
Peixes baixou a cabeça lamentando, e ainda que tivesse consciência de que de fato a culpada maior era a Vory, não ter conseguido impedir a tragédia e consequentemente o sofrimento de Saga e Geisty o deixava muito mal.
— Você tem razão, mas é difícil aceitar que por tão pouco, questão de minutos apenas, eu a teria levado ao hospital e nada disso teria acontecido... — murmurou o sueco.
— E se Shaka tivesse interpretado de forma diferente o seu sonho... E se Saga tivesse voltado mais cedo... E se eu não tivesse ido a Jamiel... E se... Não, Afrodite. Não há porque nos martirizarmos pelo que não fizemos. Dói, machuca, mas temos que aceitar que fomos sim, falhos, mas também vitimas do destino e de Dimitri. — Mu respondeu sério ao que o pisciano deu um suspiro.
— Eu sei, mas é que... Enfim, agora é encarar o... Coiso.
Dito isso Afrodite ergueu a cabeça e com um comando de seu Cosmo invocou a sagrada armadura de Peixes que veio de pronto cobrir seu corpo. Havia ficado semanas fora, e era necessário se apresentar ao "novo" Patriarca do Santuário como assim mandavam os protocolos exigidos aos Cavaleiros de Ouro sempre que voltavam a ocupar aos seus Templos.
— Quer que io vá com você? — sugeriu Máscara da Morte — Gêmeos está o próprio Hades encarnado.
— Não. — Peixes respondeu colocando na cabeça o elmo da armadura — Eu vou sozinho. Não se preocupem. Sei bem como lidar com o Coiso... apesar de preferir tomar mais umas cinco facadas do Alê do que ter que ficar a sós com ele. Alôca! — sorriu nervoso — Obrigado por tudo, gente. Mu, pode deixar essas casqueiras na sala para mim, por favor? Quando voltar eu coloco a casa em ordem.
— Sim, mas eu te levo até lá em cima. Não pode subir as escadas. — disse o ariano.
— Vou devagarzinho. Agora são poucos degraus. — Afrodite respondeu sorrindo antes de dar as costas e iniciar a subida.
Áries e Câncer ainda ficaram algum tempo ali o vendo subir a escadaria que levava ao Templo do Grande Mestre. Ambos tinham os corações aflitos, mas sabiam que não poderiam interferir.
Já no Décimo Terceiro Templo, ao se anunciar elevando seu Cosmo Afrodite foi recebido por Gigars, e ao solicitar uma audiência com o Patriarca este o mandou aguardar do lado de fora do grande salão enquanto iria verificar se Gêmeos podia, e queria, recebê-lo.
Peixes estranhou de pronto toda aquela situação, que apesar de fazer parte dos protocolos não costumava conter tanta formalidade, já que Saga por várias vezes o recebia ali como um amigo. Seu coração pesou dentro do peito ao constatar que tudo estava tão diferente, e sua aflição só aumentou quando imaginou que ao olhar para o rosto do homem que sempre lhe fora tão querido mais uma vez não o reconheceria em seus próprios traços.
De frente para a porta imensa que selava o grande salão, e que era guardada por dois soldados portando lanças e armaduras, Afrodite abaixou a cabeça e lamentou, até que passados vários minutos finalmente ela se abriu revelando a figura molesta de Gigars.
— Você pode entrar. O Grande Mestre irá recebê-lo. Mas seja breve. Não tome o tempo dele com seus assuntos fúteis, Peixes. — disse o velhote caolho recuando à lateral para dar passagem ao cavaleiro, que lhe lançando um olhar frio adentrou o salão em silêncio.
Ao caminhar pelo recinto Peixes notou algumas colunas destruídas e as rachaduras no piso de mármore. Logo pensou no conflito que havia acontecido ali entre Shaka, Mu e aquela versão maligna de Saga do qual o lemuriano tinha lhe contado. Recordou-se do pavor que sentiu quando Mu lhe expos o motivo, a ordem de execução contra Camus e a tentativa de Gêmeos em escravizar a mente do Santo de Virgem com o terrível Satã Imperial. Por sorte o pior não acontecera, mas só aquela demonstração da vil intenção do Patriarca contra Shaka, e o medo de perder Camus, já lhe bastaram para perceber que todos ali corriam grande perigo, e que os tempos eram de ruim a pior.
Por isso, ao caminhar em direção ao grande trono de ouro Afrodite, embora estivesse demasiadamente apreensivo, manteve uma postura altiva e firme, imprimindo em suas feições uma expressão tão grave que quem o conhecia na intimidade julgaria não ser sua.
De imediato percebeu a aura pesada e opressora que pairava naquele local. O cheiro forte do ar viciado em nada lembrava o aroma agradável de antes, quando aquele lugar sempre tinha as janelas abertas e várias flores em suntuosos vasos gregos o decoravam, algumas delas ele mesmo quem trazia.
Sentiu o peito apertar ainda mais, e sua respiração ficou mais densa e agitada quando já diante do trono olhou para a funesta figura sentada que em toda sua imponência estava imóvel, ereta, vestida em um longo manto branco e dourado, a mesma armadura escarlate hedionda a lhe cobrir os ombros e cabeça e o rosto oculto por uma máscara cerúlea. Alguns fios de seus longuíssimos cabelos lhe caiam por uma das laterais do torso, e estes eram tão negros quanto o céu da noite mais escura.
Mesmo sem ver sua face Afrodite o reconhecera como o homem que no passado quase fora sua ruína. Ele estava de volta, provavelmente tão terrível quanto antes. Seu pesadelo novamente ganhando forma.
Mesmo ciente disso Peixes não era capaz de imaginar, pois a postura circunspecta do Grande Mestre sentado no trono em nada condizia com sua realidade. Dentro de seu peito um burburinho confuso entre raiva e gana agitava o geminiano. Por detrás dos olhos inexpressivos da máscara anil, seus olhos verdadeiros tingidos de escarlate eram do puro e mais nocivo ódio que envenenavam a sua mente tumultuada.
Sem querer se demorar ali com um gesto lento e extremamente formal Peixes baixou a cabeça, dobrou um dos joelhos o encostando no chão e curvou-se para frente com esforço devido ao ferimento no abdome fazendo uma reverência.
— Grande Mestre. Eu, Afrodite de Peixes, acabo de regressar ao meu posto na Décima Segunda Casa e venho me apresentar perante ti. Estou a inteira disposição do Santuário. — disse mantendo a cabeça abaixada.
Ali, com Peixes diante de si prostrado em reverência, a real vontade do Patriarca era saltar em sua garganta e o esganar com toda a sua fúria até sentir a vida dele ser ceifada por seus dedos. Não suportava aquele cavaleiro. No entanto, manteve-se hirto em seu trono de ouro, firme como uma estátua de bronze e emanando tudo o que lhe restava de seu Cosmo fugidio, este que não passava de uma quantia miserável se comparado à imensidade de poder que o Santo de Gêmeos sempre possuíra, mas que era só do que dispunha naquele momento já que fora tudo o que Saga lhe deixara antes de suprimi-lo para o mais profundo do de seu âmago como censura por seus últimos atos contra Áries e Virgem e quem sabe como precaução para os tantos outros que pudesse ser potenciais vítimas de sua nova faceta maligna.
Por conta disso se sentia acuado, já que a simples presença do dourado ali era um perigo para si, uma vez que se em um leve descuido seu Afrodite notasse que estava fraco todos os seus planos iriam por água a baixo.
Precisava livrar-se dele o quanto antes dali.
— Já não era sem tempo, Peixes. O Décimo Segundo Templo é a última linha de defesa do Santuário e está praticamente abandonado. — disse com a voz troante e austera, muito diferente da entonada por Saga, como Afrodite bem se lembrava, o que fez o cavaleiro erguer minimamente o olhar e depois baixa-lo em seguida em desalento.
Saga estava muito longe de estar ali.
— Não está mais. Peço permissão para retomar ao meu posto, Grande Mestre. — disse seco o sueco e agastado por estar naquela presença tão intragável a si.
— Permissão concedida. — abanou no ar a mão direita ornada em anéis do mais puro ouro como quem afasta uma mosca inconveniente.
No mesmo instante o Santo de Peixes se ergueu com cautela e assim que se pôs de pé e em postura firme fez uma breve reverência com a cabeça.
— Com vossa licença. — disse por fim o pisciano dando as costas ao Patriarca para seguir pelo corredor acarpetado que dava acesso à saída.
Assim que o som dos passos de Peixes se reduziram a quase inaudíveis, o Grande Mestre levou a mão ligeiramente trêmula à máscara que lhe cobria o rosto a retirando e soltando um suspiro de alívio enquanto desfazia a postura hirta que manteve por todo aquele curto tempo da presença do pisciano ali, que mais lhe pareceu uma eternidade, então pode relaxar o corpo exausto em seu trono, após manter aceso um Cosmo que mal tinha.
Enquanto engolia em seco para suspirar profundamente em busca de ar, seus olhos mordazes divisavam o escuro do salão principal de seu Templo, e em sua mente a pergunta se repetia: "Como resolveria aquele problema? Como conseguiria restaurar seu Cosmo?".
De uma maneira estranha parecia-lhe que a resposta era óbvia, mas simplesmente não a encontrava, e isso era angustiante.
Angustiante também era o vazio que sentia crescer dentro de si a cada dia, o qual o sufocava de forma lenta e torturante.
Casa de Peixes
Quando finalmente entrou em casa Afrodite despiu-se da armadura sagrada e da dura máscara de frieza que cobria seu rosto. O reencontro com aquela criatura nefasta parecia ter minado o pouco de energia que seu corpo ainda bem debilitado havia armazenado, e agora sentia todos os músculos doloridos e fatigados, por isso caiu sentado no sofá da sala e ali mesmo ficou por longos minutos em silêncio absoluto, e enquanto repassava em sua mente a figura hedionda que se tornara Saga não conseguiu evitar o pranto que lhe brotava da alma e escorria pelos olhos aquamarines melancólicos.
Pouco depois, mais calmo, porém não menos triste, caminhou até o quarto e se deitou com cuidado na cama, de braços abertos. Suspirou exausto e com o olhar vago mirava o teto de gesso branco.
— Oh... estou só! — disse a si mesmo. Estava cheio de vontade de ir até os fundos do Templo onde ficava seu enorme jardim para cuidar de suas rosas. Nunca havia ficado tanto tempo longe delas e certamente estas sentiam tanto sua falta, mas com dores e emocionalmente esgotado sentia que não era capaz ainda — Ah, que vida condenada, Afrodite. Sai do hospital estropiado e fica em casa sozinho... Com frio e com fome... — buscou o Cosmo de Camus no Santuário e o sentiu bem fraco — Hum... onde está aquele viado que ainda não veio me ver?... Será que não voltou da terra dos suínos, mais conhecida como Rússia? — fez uma careta de asco — Por que não voltou? Hum... eu falei para ele que talvez viesse para casa hoje! Humm... O que tanto faz lá? Bom, agora ele é o chefe da porra toda, né... O chefe!... Meu bofe é o Boss absoluto daquela merda lá. O poderoso chefão! — escorregou uma das mãos até o meio das pernas e apertou o pênis ligeiramente rijo — Ai que tesão! — respirou fundo recolhendo a mão e de repente sua fisionomia ficou muito séria — Agora que ele é o Vor mór daquela charufinácea* vai chamar mais atenção ainda... merda.
Contudo, Camus não estava Rússia, mas ali pertinho, em Aquário. Apenas sublimava seu Cosmo para não chamar a atenção dos outros cavaleiros e também do Grande Mestre, já que pretendia visitar o pisciano logo que este chegasse do hospital. Tinha retornado de Moscou na noite anterior e trazido Hyoga consigo, uma vez que o menininho era todo lamentos e não passava um dia sequer sem que lhe pedisse para ver a "amazona" de Peixes, a quem ele já amava incondicionalmente.
Assim que sentiu o Cosmo do namorado de volta à Casa de Peixes, e sabendo que ele estava sozinho, Camus pegou Hyoga, que era pura euforia, e subiu as escadas a passos ligeiros e silenciosos. Antes de procurar o pisciano no quarto Aquário pediu ao filho que aguardasse um momento na sala e seguiu sozinho até os aposentos dando três toques leves na porta antes de abri-la e entrar.
— Mon amour?
Peixes já havia sentido o aquariano entrar em sua casa. Surpreso por ele estar no Santuário e exultante de alegria só o aguardava aparecer ali.
— Camy! — sentou-se na cama de frente para a porta e seus olhos sorriram para o francês — Achei que estava na Rússia! Que bom que está aqui! Vem cá. Eu tô carente. — esticou o braço o convidando a se deitar consigo.
— Que bom vê-lo aqui de novo, ma belle. — Aquário caminhou até ele e apoiando um dos joelhos na cama inclinou-se para frente e trocaram um beijo cheio de saudades antes de Camus segurar em seu rosto e acrescentar: — Eu te trouxe uma visita.
Os olhos vivos de Afrodite iluminaram-se e sorriram em conjunto com os lábios rosados.
— Hyoga! — disse eufórico.
— Sim. Ele está lá na sala. Vista algo apropriado enquanto vou busca-lo. Ele está louco de saudades de você.
— E eu também estou louco de saudades do meu loirudinho! — disse Peixes pulando da cama — Anda, vai lá buscar ele.
Poucos minutos depois Camus batia novamente na porta do quarto de Afrodite. Agora trazia Hyoga em seu colo que ansioso segurava em uma das pequenas mãozinhas o patinho de pelúcia Dudu e na outra uma caixinha pequena de veludo azul turquesa ornada por um laço branco.
— Afrodite, podemos entrar? — disse Camus trocando um olhar vibrante com o filho.
Do outro lado da porta veio a voz que Hyoga esperou tantos dias para ouvir.
— Claro! Entrem meus amores!
Foi com um belo sorriso nos lábios que o ruivo abriu a porta e entrou, e quando Hyoga bateu os olhinhos ansiosos na "amazona" na cama seu rostinho encheu-se de vigor e alegria.
— Diiiii! — ele gritou a plenos pulmões, e na mesma hora Peixes ergueu os braços o convidando para um abraço.
— Meu amor! Vem cá! Corre aqui! — disse o sueco em grego mesmo, que acomodado entre vários travesseiros tinha as pernas cobertas por um cobertor clarinho e usava uma das camisolas com roupão de seda rendada que sempre vestia quando Hyoga vinha dormir em Peixes ou ele descia para passar a noite com eles em Aquário. Como tivera pouco tempo apenas aplicou uma boa quantia de blush nas maçãs do rosto para deixa-lo com aspecto mais feminino e trançou os cabelos rapidamente. Por hora era o suficiente. Havia perdido muito peso e massa muscular nos dias em que ficara internado no hospital e isso também contribuía para deixa-lo ainda mais andrógeno.
Eufórico Hyoga escorregou do colo de Camus praticamente se jogando no chão e obrigando o francês a solta-lo, e assim que seus pezinhos tocaram o solo saiu correu como um foguete em direção a Afrodite.
— Diiiiiiii! — chamou emocionado durante todo o percurso até se atirar na cama, mas antes de abraçar o sueco conteve-se parando em frente a ele com os olhinhos azuis cheios de lágrimas — Eu tava com muita saudade!
— Eu também, mon petite! Muita! Muita! Vem cá! — disse o pisciano esforçando-se para suavizar o tom de sua voz.
— O papai disse que você tá dodói e que era pá tê cuidado! — Hyoga respondeu no mesmo idioma, o qual já dominava bem, em seguida aproximou-se devagar e o abraçou com todo cuidado e carinho.
Aninhando Hyoga em seus braços Afrodite encostou seu rosto ao dele e de olhos fechados vivia aquele reencontro em sua plenitude. Tantas coisas passavam por sua cabeça... Ouvir o riso de Hyoga, sentir seu cheirinho, o abraço, era como ter o coração cheio de vida novamente.
Quando abriu os olhos afastou-se somente para poder olhar para o menininho que lhe dirigia um olhar de verdadeira adoração, então com um sorriso pleno de felicidade chorou emocionado junto dele.
Como aquela pessoinha já fazia parte de seu mundo...
— Mon petite! — disse com a voz embargada enquanto segurando o pequeno rostinho com ambas as mãos lhe depositou um beijo terno na fronte — Eu também estava louca de saudades de você. Olha esses olhinhos!... Eu te amo! Te amo tanto! Vem cá, vem cá! — o trouxe para um novo abraço caloroso, mas agora dirigia um olhar cheio de amor e gratidão para Camus — Eu estou dodói sim, mas já estou bem melhor... Obrigada por trazê-lo aqui, mon amour.
— Se eu non trouxesse ele iria enlouquecer. Ficou me perguntando por você esses dias todos. — Camus, que havia seguido o filho e agora se sentava na beirada da cama ao lado deles, confirmou fazendo um cafuné nos cabelinhos loiros — Ele e o Dudu, não é? — apontou para o patinho espremido entre Afrodite e o filho.
— É que o Dudu também sentiu sua falta Di. Ele cholou. — disse Hyoga.
— Ah, coitadinho do Dudu! — Afrodite respondeu apertando Hyoga nos braços — Mas agora nem ele e nem você precisam mais chorar. Eu já estou ótima! Prontinha para brincar um montão com meu loirudinho! — disse enchendo o menino de beijos, que sorria alegre.
— A nossa Peixinha nos deu um belo susto, mas já passou. — Camus já havia tirado os sapatos e se ajeitava na cama deixando Hyoga entre eles — Por que non entrega o presente que trouxe para ela? — disse apontando para a caixinha de veludo que Hyoga tinha na outra mão.
Ao ouvir aquilo Afrodite arregalou os olhos.
— Oba, presente? — disse sorridente — Você trouxe um presente para mim, loirudinho? O que é?
O menininho se encolheu um pouco tímido e então estendeu a caixinha para Afrodite. Seu rosto estava corado e ele meio sem jeito, mas seguiu em frente, e quando Peixes a pegou, enquanto desfazia o laço com cuidado Hyoga observava atento e ansioso cada gesto seu.
— Hum vamos ver o que é... vamos... — súbito o pisciano calou-se, então ergueu as sobrancelhas arregalando ainda mais os olhos vivazes, maravilhado — Pelo séquito de calopsitas de... ATENA! Hyoga que coisa mais linda! É uma... bailarina!
Dentro da caixa, sobre uma delicada almofadinha de rendas brancas uma presilha feita em ouro branco saltou aos olhos do sueco tamanha beleza e delicadeza. Era uma bailarina que no lugar dos braços exibia graciosas e longas asas que remetiam à famosa peça O Lago dos Cisnes. Seu tutu e seus cabelos eram cravejados com pequenos diamantes que possuíam o brilho majestoso do céu estrelado.
— Sim! É uma bailalina poque ela da minha maman!
Ao ouvir aquilo os olhos de Peixes imediatamente abandonaram a joia dentro da caixa para ligeiros e surpresos divisarem o rosto do menino, então quando seus olhares se cruzaram Hyoga baixou ligeiramente a cabeça e enrolando os dedinhos na barra da camiseta que usava prosseguiu:
— A minha maman moleu, Di... E eu achei que você também ia moler e que eu ia ficá de novo sem uma maman. — confessou choroso — E eu fiquei muito tisti e com medo de você moler, poque eu ia peder mais uma maman, já que agola que você namola o papai, e agola que você cuida de mim você é minha maman, não é, Di? — indagou ao levantar os olhos úmidos e brilhantes para o sueco.
Aquelas palavras pegaram de assalto os dois cavaleiros.
Surpreendido até o mais profundo de sua alma Afrodite estancou a respiração enquanto seu coração parecia até falhar uma batida. Aquela joia era de Natássia! E estava sendo entregue a si com o mesmo valor. Um presente de um filho para sua mãe. Ou será que tinha entendido errado? Sempre entendia errado tantas coisas...
Abalado, confuso, aflito, Peixes ainda em silêncio, já que a voz simplesmente não conseguia romper o nó que se formou em sua garganta e que quase o sufocava, olhou para Camus, e qual não foi sua surpresa ao reconhecer nas feições do aquariano a mesma expressão de surpresa e abalo, uma vez que ele também não esperava por aquilo quando ajudou Hyoga a escolher uma joia da irmã para presentear o pisciano. Julgou ser apenas um gesto de carinho, mas agora estava profundamente tocado, além de muito assustado.
Diante do silêncio da "amazona" Hyoga fez um biquinho, já apreensivo, achando que seria rejeitado.
— Di?... Você não qué sê a minha maman? — reforçou a pergunta com a voz ainda mais chorosa.
Na mesma hora Peixes piscou os olhos voltando à realidade, e focando a imagem de Hyoga diante de si segurava com as mãos trêmulas a caixinha com a joia.
Em sua mente um turbilhão de pensamentos se desenrolavam em velocidade alucinante, o principal deles, e sem sombra de dúvidas o que mais castigava seu coração e vontade, era o fato de que se dissesse sim estaria selando de vez aquela mentira e enterrando qualquer possibilidade de revelar a verdade a Hyoga. Porém, depois do atentado ao Templo das Bacantes ficou mais do que claro para si que a vida e segurança de Hyoga dependiam daquela farsa, mesmo agora sendo Camus o Vor máximo da organização, já que isso lhe dava ainda mais visibilidade, e dentro do mundo do crime quando mais visível você é, mais vulnerável se torna, e mais inimigos conquista.
— Eu... eu... — Afrodite ensaiou uma resposta, mas no fim percebeu que não haveria resposta possível além de uma — Ser sua maman é tudo o que eu mais quero na minha vida, meu amor. — disse emocionado fazendo um carinho no rosto aliviado do menino, que não contendo a alegria ajoelhou-se a seu lado e abraçou seu pescoço lhe beijando o rosto muitas vezes.
— Eba! Eba! Eu amo você Di. Minha maman! Minha maman Di! — dizia feliz como nunca o garotinho russo.
Ao lado deles, trocando um olhar alarmado com Peixes, completamente mudo Camus assistia à cena.
Sabia exatamente a gravidade que aquele ato representava para os três e também as consequências que ele podia tomar. Mas, naquela altura dos acontecimentos não havia mais o que ser feito. Com o corpo todo trêmulo e a garganta apertada inclinou-se para o lado e envolveu a ambos em um abraço apertado. Não estava exultante, tampouco feliz ou emocionado. Estava em pânico! E principalmente sentindo-se culpado.
— Me desculpe... — Camus sussurrou com pesar no ouvido de Afrodite — Eu non sabia que ele... Nunca imaginei que... — fez uma pausa respirando fundo. Sentiu-se ingênuo, pois era tão obvio que Hyoga fosse se apegar a Peixes e ama-lo incondicionalmente em tão pouco tempo... assim como acontecera consigo. — Eu sei o quanto isso é... difícil para você... Obrigado, Ma fleur.
Peixes não respondeu.
Não havia o que ser dito.
Um sentimento dúbio o preenchia naquele instante. De um lado o pavor e a culpa, do outro a alegria em demasia por saber que era para aquela criança uma figura de amor incondicional e proteção.
Fechou os olhos dando um suspiro e só voltou abri-los quando Hyoga se afastou e retirou a joia da caixinha.
— Vou pô a balalina no seu cabelo, Maman Di. — disse já erguendo os bracinhos.
Afrodite engoliu em seco e meio sem jeito baixou a cabeça para facilitar o trabalho do garotinho que com toda dedicação juntou com as pequenas mãozinhas umas mechas de sua franja onde prendeu a presilha.
Camus ao lado levou a mão ao rosto e apertou os dedos contra a fronte. Estava aflito.
— Ponto. Ficou ainda mais bonita! — o menininho sorriu admirando aquela que para ele agora era seu mundo.
— Obrigada... — o sueco respondeu apenas.
A tensão que rondava Aquário e Peixes de repente teve o foco mudado quando o guardião daquela Casa sentiu um Cosmo se anunciar na entrada.
Dicionário Afroditesco
Bater um bolo – masturbar-se
Cafusu – sujeito grosseiro, ruim, sem modos, desagradável
Charufinácea – um bando de gente ruim reunida num mesmo lugar; porcarias
