Capítulo LIII

~Catalunha~

"Quando tudo deu errado ou não saiu do jeito que queríamos em alguma situação, com alguma pessoa ou em algum lugar, a tendência natural é fugir daquilo tudo, buscar abrigo em um outro mundo, uma nova terra, uma nova situação que pode agregar (ou não) conhecimento de mundo para que o problema seja encarado novamente, de outra perspectiva, outra abordagem, outro ponto de vista. Não adianta nada se refugiar e se exilar se a consciência permanece a mesma e o problema ainda persiste, ele vai continuar a nos perseguir e os erros vão voltar a se repetir porque a alma que os causou é a mesma; a boa notícia é que quanto mais convivemos com um problema, mais nos acostumamos a ele, mais familiarizado ele se torna e até terminamos por assimilá-lo, como um prisioneiro que se acostumou com a cela onde vive, que descobriu com o tempo que suas mãos podia girar a maçaneta e sua mente implorava por serrar as grades da janela, pese a pressão psicológica que sofreu para não fazer o ato; ele poderia, enfim ser livre…

"– Você deve me odiar, não é, pelo que eu fiz? (Fiz isso pensando em você…)

"– Sim. Porque eu não consegui te fazer perceber o que eu realmente sinto(… por você!)

Shoujo Kakumei Utena, fala de Juri Arisugawa para sua amiga do clube de esgrima, no episódio 'Juri, a insatisfeita' do anime.

Nascer, crescer, viver e nunca regredir, sempre avançar…

Não demorou nem três horas direito para cruzar o mediterrâneo. Chegou ao meio-dia na capital da Catalunha e pediu para o serviço do aeroporto despachar as malas para o endereço que Plácida tinha lhe dado. Sentiu fome e comeu no restaurante do aeroporto. Quando sentiu-se satisfeita, pegou um táxi e pediu pro taxista levá-la para o Palácio Nacional da Catalunha.

O taxista olhou para ela e enxergou suas feições orientais. Com certeza era turista.

– Primeira vez em Barcelona?

– Sim.

– Não quer fazer um tour pela cidade antes? É o feriado nacional da Catalunha, as ruas estão em festa… o trajeto via ser um pouco maior, mas prometo não cobrar nada mais por isso…

Sem nada a perder com aquilo, Tomoyo respondeu:

– Pode sim, eu vou aproveitar pra conhecer melhor o lugar…

Entrou no táxi e pôs seus óculos escuros para evitar maiores olhares daquele homem. Mas não ficou com os óculos por muito tempo.

A Catalunha e as ruas de Barcelona estavam em festa.

Por todo o canto onde passava, bandeiras amarelas com quatro listas vermelhas fulguravam nas fachadas das casas, nos prédios públicos, nos apartamentos e nos mastos de algumas construções. Nem parecia que Tomoyo estava na Espanha, mas sim em outro país porque sentiu a falta de bandeiras do país na viagem pela cidade e muitos da cidade falavam que naquele dia não tinham nada que ver ou dever ao governo espanhol.

Pelas ruas, pessoas vestindo camisetas amarelas e vermelhas brandiam a mesma bandeira amarela listrada com quatro faixas vermelhas. Outras, faziam enormes torres humanas que atingiam alguns andares de prédios. Muitas pessoas usavam uma versão modificada daquela bandeira, com um triângulo azul em uma das extremidades e uma estrela branca no meio do triângulo parecida com o design da bandeira de Cuba ou de Porto Rico.

– Aquela ali é a Estrellada. É o símbolo dos independentistas. O governo espanhol proíbe aquela bandeira em eventos públicos, mas, mesmo assim eles trazem… – Explicou o Taxista.

Aquelas pessoas que portavam aquela bandeira gritavam euforicamente "independência, independência! Visca Catalunya", brandindo os punhos cerrados no ar. Na cena mais chocante daquela festa, Tomoyo viu quatro jovens queimarem a bandeira da Espanha em um beco.

– Mas… o que é isso? Eu realmente estou na Espanha ou tá acontecendo alguma revolta contra o governo?

– Que nada! Isso é normal. O pessoal daqui é muito rebelde mesmo… dá uma olhada nisso aqui.

O taxista estendeu um panfleto em inglês onde se lia:

Não comemos jamón, e sim Embotits!

Não dançamos flamenco, dançamos Sardana!

Não temos uma bandera, temos uma ensenya!

A Paella é catalã e não espanhola!

Não temos um El Rey, temos uma Generalitat!

Não temos a Goya, temos Miró!

Nosso santo não é Santiago, é São Jorge!

Não falamos Espanhol ou castelhano, falamos Catalão!

Nosso país não é a Espanha, é a Catalunha!

Tomoyo ficou espantada com aquele panfleto recheado de ódio contra a Espanha.

– Tem certeza que isso não é uma insurreição?

O taxista sorriu:

– Esse pessoal que inventa esse tipo de panfleto sonha com uma independência há anos. Tentaram até agora e vão continuar a tentar… mas quer saber? Nunca vão conseguir! O governo nunca vai deixar, tá no estatuto de autonomia e outra: se já tá ruim com a Espanha e essa crise econômica toda, imagina sem ela! As coisas por aqui ficariam piores… piores!

O taxista desviou o trajeto um pouco da multidão de independentistas que preenchiam aquela rua e tomou um caminho mais tranquilo. Passaram pela cidade velha de Barcelona, o centro da cidade, percorrendo as inúmeras construções em estilo gótico do lugar e passando ao lado dos prédios que Antoni Gaudí dera seu toque pessoal: A casa Milá, A casa Batlló e o Park Guell.

Pela primeira vez, Tomoyo tocou os vidros do táxi e fez uma cara de espanto e assombro como aquilo, como se tivesse gostando do que viu:

– Gosta de Gaudí?

– Se gosto? Eu sou arquiteta de formação, os estilo de Gaudí é o meu preferido! Ele é um Gênio, ele é um revolucionário!

– Já imaginei que fosse arquiteta, só foi eu passar pelas casas góticas pra que a senhora se animasse um poco mais…

– Sabe, eu tou precisando de um pouco de paz e me depara com essa confusão todo não é uma coisa que me anima muito não; e olha que eu tenho uma amiga aqui que disse que seria legal…

– Que amiga, hein? Ela nem falou nada da política daqui?

– Ela bem que falou que Barcelona era uma cidade agitada demais pra que eu descansasse, mas eu não consigo ficar longe das grandes cidades; fui criada em uma sabe?

– Veio direto do Japão?

– Não, vim de Milão…

Com uma pontada de orgulho no rosto por sua cidade, o taxista perguntou enfaticamente:

– Diz pra mim se Barcelona não é melhor e mais bonita que Milão!

Tomoyo gargalhou e os dois continuaram a viagem, até as escadarias do palácio nacional.

– Sabe, nesse palácio aqui fica o museu nacional de arte da Catalunha. Tá fechado hoje, mas amanhã abre. Das sete às nove da noite, tem um show de luzes na fonte. Nesse bairro também fica o complexo olímpico das olimpíadas de 92. Dá uma passada por lá!

– Pode deixar, moço, vou ter um tempão pra conhecer a cidade! Obrigado pelas informações.

– Aqui tá meu cartão, se precisar, só chamar!

– Muito obrigado, o senhor foi muito gentil!

Inclinou-se para o homem em agradecimento e o carro deu partida.

Sentou-se nas escadarias com a bagagem de mão do lado e mandou uma mensagem para Plácida, avisando da sua chegada. A mulher disse que em duas horas estaria lá sem falta. Para curar o tédio, Tomoyo aproveitou para fotografar o palácio Nacional, a fonte, a arena de touros de Barcelona (transformada em um centro comercial depois da proibição das touradas na comunidade autônoma) e a enorme estátua ao fundo que lembrava bastante a estátua da fontana de Trevi, em Roma. Barcelona era tão história como Milão, mas tinha seu charme pessoal, pensou.

Na rua em frente ao museu, as pessoas continuavam a caminhar ostentando enormes bandeirões da Catalunha enquanto outro grupo igualmente numeroso que estava naquelas cercanias desde que Tomoyo chegara e parecia estar há um bom tempo, portava uma enorme bandeira da Espanha. Gritavam "Viva Espanha" em alto e bom som e pareciam ser liderados por uma mulher magra vestida com uma bandana nas cores da bandeira catalã. Quando sentou-se nas escadarias do Museu, um dos homens daquele grupo, com uma bandeira espanhola amarrada nas costas lhe abordou, entregou outro panfleto em inglês que pregava a união com a Espanha e porque a Catalunha era espanhola.

'Tem louco para tudo nesse mundo', pensou Tomoyo lendo aquilo.

De repente, um grupo portando um enorme estrellada, que era a bandeira catalã independentista, apareceu por aquela rua e se deparou com o grupo nacionalista espanhol. A mulher magra usando uma bandeira catalã como bandana na cabeça e uma bandeira da Espanha como capa nas costas que coordenava os gritos de "Viva España!" se aproximou do líder dos independentistas, um homem alto, careca e corpulento vestindo uma camisa de time de futebol azul e grená, e começou a discutir com ele.

"Puxa vida, vai dar confusão!" – Tomoyo pôs a mão na boca e aguardou pelo pior vindo daquilo. Ela pegou o relógio e olhou. – "Ainda faltam meia hora pra Plácida aparecer! Eu preciso sair daqui".

Tomoyo pensou em ligar para o taxista, para Plácida, mas uma cena curiosa entre a mulher e aquele homem a surpreendeu.

Mais nove homens cercaram a mulher e o grupo de Nacionalistas se aproximaram mais daquela multidão. A mulher pegou uma bandeira da Espanha presa em um mastro e começou a afastar aqueles homens, intrepidamente.

O homem branco corpulento reagiu e agarrou o mastro. A mulher não largou por nada daquele mundo o mastro e também reagiu. Com socos e chutes rápidos, nocauteou o homem. Mais dois homens se aproximaram. Ela agarrou o pulso de um e deu um soco nele, depois chutou entre as pernas de outro e ele caiu ao chão ao lado dos outros dois primeiros. Uma mulher da multidão de independentistas tentou agarrá-la com golpes de jiu-jitsu, mas a mulher magra abaixou seu tronco com tudo e a mulher voou no asfalto. A mulher de bandana deu um murro no peito dela e a confusão entre nacionalistas e independentistas estava feita. A vantagem era dos nacionalistas que eram mais numerosos e empurravam os independentistas para o outro lado da rua.

A multidão enfurecia se aproximou das escadarias do palácio nacional e Tomoyo pensou seriamente em correr daquele lugar quando viu um helicóptero preto sobrevoando o local, agitando seus cabelos e a barra de seu longo vestido azul. Pelo visto, parecia de uma emissora de televisão, pois vira um triângulo formado por quatro tiras vermelhas na porta dele e um enorme número 'três' escrito em branco sobreposto ao triângulo. Os brigões pararam com aquilo de imediato e pararam de uma vez quando três ônibus da polícia chegaram ao local.

Um oficial de polícia conversou com o homem corpulento e a mulher de bandana que discutiam freneticamente na frente de Tomoyo. O assunto: a grande questão de independência catalã. Uma van da televisão, do mesmo canal de TV que o helicóptero que os sobrevoava parou e entrevistou Tomoyo, ao vivo.

– Estou aqui na Plaza de Espanha onde uma confusão entre manifestantes independentistas e nacionalistas está acontecendo. Alguma palavra, senhora?

Tomoyo ficou chocada com aquilo e, usando o fraco espanhol que aprendera, respondeu:

– Mui terrible! Mui Terrible!

Tomoyo imediatamente saiu da frente do repórter e deixou que ele continuasse a entrevistar e filmar os brigões. A Polícia resolveu prender os homens e mulheres que aquela mulher havia nocauteado e eles protestaram muito contra aquela decisão. Ela, ao longe, deu a língua para eles e os policiais se interpuseram entre eles e pediram para ela se conter.

A polícia partiu e a procissão continuou. O vento soprou forte sobre a cabeça daquela mulher e desatou o nó da bandana, da bandeira, enfraquecidos pelo combate e Tomoyo teve um choque, como se o tempo tivesse parado.

Não prestara atenção antes, mas os olhos dela eram verdes; seus cabelos, castanhos curtos. Duas mechas de fios que delimitavam os limites da franja dela, se estendiam até a altura do pescoço e uma pequena mecha se encaminhava até o colo do busto, dos dois lados da cabeça. Na copa, uns dois, três fios prolongados que se destacavam dos demais e insistiam para ficar em pé na cabeleira, iam cada um para uma banda daquela cabeça.

Deus! A estatura dela, os contornos do corpo, a roupa, até mesmo a voz dela era parecidíssima com… Os pensamentos de Tomoyo pararam quando sentiu a máquina fotográfica escapar das suas mãos e se espatifar no chão por conta daquele choque.

Um homem segurou a bandana perdida da mulher e uma mulher pegou a bandeira que se desprendeu com o vento.

– Droga! Bando de safados, isso que eles são! – Disse a mulher, tirando a poeira da bermuda jeans curta que usava e da camisa regata amarela.

O homem e a mulher entregaram os pertences perdidos da mulher:

– Calma, Marcela, eles nunca vão conseguir a independência!

– Eu sei disso, Agnes, o problema é a confusão que eles causam na cidade…

– Não só a confusão, Marcela, eles espantam os turistas com esses panfletos idiotas que espalham nas ruas.

– Deixa eu ver, Adrià.

Marcela leu o panfleto, o mesmo que o taxista dera para Tomoyo. Marcela rasgou aquele panfleto em mil pedaços e guardou os papéis no bolso pra não sujar as ruas da cidade que tanto amava.

– É um bando de safados e miseráveis.

– Você podia ser presa, Marcela! – Alertou Agnes.

– Que presa nada! O comissário me conhece…

– Olha aquela chinesa, japonesa ali na escada, quebraram a câmera dela. – Apontou Adrià.

– Quebraram é? Puxa vida, deixa eu ver….

Marcela, Agnes e Adrià chegaram perto de uma petrificada Tomoyo. Marcela agachou-se, pegou a câmera quebrada e entregou para Tomoyo:

– Desculpa moça! Garanto que aqueles safados não vão fazer mais isso…

Tomoyo não falou mais nada. Marcela ficou preocupada.

– Não entende minha língua?

– Marcela, você tá falando catalão! – Alertou Agnes.

– Puxa vida, é mesmo!

Marcela apertou a tecla sap na cabeça e mudou para inglês:

– Tudo bem com você?

O sorriso, o contorno da boca, as orelhas, o tom de voz… Tudo era parecido com Sakura, exceto o nariz arredondado que ela tinha. Ao longe, um carro estacionou e uma voz despertou-a daquele estado:

– Tomoyo? Você tá aí, tudo bem com você? Não aconteceu nada, não foi? – Plácida aproximou-se e tocou em Tomoyo, vendo se estava tudo bem com ela. – Eu vi na TV que tava tendo uma confusão aqui e corri pra te pegar e… – Plácida olhou para Marcela e a identificou, tomando um susto. – Olha ela!

– Ela uma ova! Tava defendendo a constituição! Olha o que aqueles bárbaros fizeram com a câmera dela. – Marcela entregou os pedaços da máquina para Plácida. – Isso só serve pra afastar o turismo daqui… – Depois voltou-se para Tomoyo. – Ela é tão bonitinha!

– Marcela, você não perde uma, paquerando os turistas! – Adrià gargalhou.

Marcela ficou vermelha e ralhou com os amigos como Sakura ralhava com Touya. Parecidíssimo:

– Ei, ei, ei, pera aí, eu só tava ajudando…

– Obrigado, Marcela, mas tenho que ir. Vamos Tomoyo?

Marcela percebeu que Tomoyo estava de partida e foi se despedir dela também.

– Você tá indo é? Tomoyo é o seu nome é? Bonito nome… – Ela ficou olhando para o chão e fazendo um semicírculo com o pé esquerdo, da mesma forma que Sakura fazia, como se não quisesse se despedir dela tão cedo. – Bem a gente se vê por aí… – Ela estendeu a mão e Tomoyo a cumprimentou.

Entraram no carro e Plácida perguntou o porquê de Tomoyo agir tão estranho assim:

– O que foi, Tomoyo, porque essa cara de espanto?

– Porque ela… me lembra uma pessoa que eu não vejo mais faz um bom tempo… um bom tempo mesmo… e eu nunca mais queria ver, pensei em ver, de novo na minha vida…

Plácida olhou para Tomoyo com as sobrancelhas arregaladas.

Continua…

Por trás do báculo: Para saberem mais sobre a questão catalã, tem um excelente vídeo no Youtube: watch?v=mvnh53JCOl4&t=1287s Não é muito longo, tem 40 minutos apenas e achei muito rico em entrevistas, imagens e fatos.

Finalmente, cheguei na Espanha! Isso porque, em 2009, a Catalunha é parte da Espanha… pensei em colocar umas bandeiras da Escócia aqui, mas… a questão escocesa acontece um pouco depois… mas é o mesmo sistema. A Inglaterra consentiu e aceitou o resultado do referendo. A Catalunha tentou a mesma coisa em 9 de novembro de 2014, mas o governo Espanhol declarou o referendo inconstitucional… (e olha que ganhou por maioria…)

Bem, meu foco aqui não é a política, mas contextualizar um pouco. Viram que comecei a fic no meio da treta? É só o que nos aguarda aqui! Esse é o destino final dessa nave louca e não vamos sair da Espanha até o fim da fic, quem sabe uma viagem ou outra aqui e ali, mas nada e mudar o foco. O resto da história vai se passar entre Madrid, Donostia e Barcelona. (Londres… Hehehe!) e prometo não me estender muito com explicações!

Boa leitura, povo!