Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.

Referências musicais (Estão por ordem pela que aparecem no concerto):

Piko - Inbijiburu

Diabolik Lovers - More Blood

Nee (Acoustic Ver.) - ShounenT

-X


Olhares

O Ómega retirou as chaves do bolso e entrou em casa pouco depois. Antes de se separar dos amigos, combinou a hora a que se encontrariam no dia seguinte e Farlan insistiu em acompanhá-lo até à porta de casa. Alegou precaução, mas através das feromonas o jovem podia sentir como o Alfa estava feliz e queria passar mais tempo com ele. Isso de certa forma, fazia com que se sentisse culpado, pois ainda que não se importasse com a companhia do Alfa, saber que não retribuía os sentimentos daquela forma, deixava-o com um sabor amargo na boca.

Na sua visão aceitar dar uma oportunidade a Farlan, retiraria um peso da sua consciência relativamente à filha e também criaria a distração perfeita para a ansiedade que o preenchia por dentro, ao pensar na ida para Rose. Os sentimentos do Alfa não estavam a ter a consideração que mereciam, mas Levi tinha sido claro acerca do seu egoísmo e mesmo assim, Farlan aceitou aquelas condições. O mesmo também detetou um certo desconforto com o excesso de proximidade e por isso, na despedida perto da porta de casa, apenas o beijou no rosto.

Se a maioria das pessoas descrevia esse tipo de gesto como algo que criava borboletas no estômago, nele apenas atuava como um murro no estômago, cada vez que pensava na mentira que aquilo representava. Em consequência disso, a ansiedade estava a piorar e quase desejava que assim como na última vez, surgisse algum tipo de imprevisto que impedisse o concerto da banda em Rose.

Dentro dele imperava um pressentimento. Esse sussurrava-lhe algo que não queria que acontecesse, mas era bastante provável. Não por vontade dele, mas porque Christa, Reiner e Hanji que também os acompanharia, iriam querer ver Eren e isso colocava-o numa situação que não queria experienciar. Detestava a ideia de vê-lo novamente. Temia pelo tormento que isso lhe causaria mais vez e não queria mexer no passado.

Contudo, não podia fugir das suas obrigações visto que além do concerto, contavam com ele e o seu grupo para libertar mais Ómegas oprimidos e recolher informações acerca de Rose e Sina. Precisavam saber se quase dois anos depois, continuavam a investir nas seringas com químicos que alteravam comportamentos e instintos nas três espécies. Precisavam de saber se os estudos quanto à mudança forçada da espécie também prosseguiam e se existiam mais vítimas. Havia muitas perguntas sem resposta e prisioneiros, Ómegas silenciados a sofrer… havia quem dependesse deles para escapar e Levi sabia que não podia deixar os seus problemas e fantasmas interferirem na sua missão.

Respirou fundo e assim que acendeu a luz da cozinha, depressa agarrou o punhal que levava sempre com ele. Bastaram poucos segundos para que essa reação mecânica de defesa fosse posta de parte ao encontrar o Ómega de cabelos escuros, sardas no rosto de pé perto da janela da cozinha.

- Marco? O que estás aqui a fazer?

- Aproveitei que o Gabriel está a preparar as coisas para amanhã para sair.

- É de madrugada. – Apontou. – E ele também vai? Sei que o meu tio e talvez o meu pai também acompanhe.

- Sim, ele vai convosco. – Confirmou. – Não interpretes mal. Enviei-lhe uma mensagem a dizer que ia visitar-te e passar a noite aqui. Não quero que se preocupe muito com a minha ausência. Se bem que acredito que esteja ocupado durante a noite toda.

- Ok… - Disse desconfiado. – Aconteceu alguma coisa?

- Queria ver como estavas, já que da última vez em que deviam ir para Rose ficaste bastante agitado, mesmo que poucos tenham percebido. – Começou por dizer. – Mas vejo que o Farlan já esteve a tranquilizar-te… ou não, porque aquilo não me pareceu uma despedida muito feliz da tua parte, apesar de teres deixado que se aproximasse de ti.

- Estavas a espiar pela janela. – Não era uma pergunta, era uma afirmação e viu que o outro Ómega não se apressava a negar, pelo contrário.

- Decidiste dizer-lhe que sim? Porquê? – Perguntou. – Achas que fingir que tens um namorado, vai ajudar a que te acalmes quando estiveres em Rose? Ou é pela tua filha? Pela insistência de…

- Puta que pariu, Marco! O que queres que faça? Reclamas porque estou a ignorar o Farlan! Reclamas porque ignoro a minha filha! Decido resolver os dois problemas e acabo contigo a olhar para mim como se fosse alguma espécie de criminoso?!

- Estás a brincar com os sentimentos dele, Levi! – Acusou.

- Ele sabe que não gosto dele, Marco. – Falou prestes a perder a pouca paciência que lhe restava. - Deixei bem claro que ficaria melhor com outra pessoa qualquer e que estou a fazer isto pela minha filha.

- E achas que isso é certo? – Indagou incrédulo.

Os olhos desiguais olharam fixamente para o Ómega de sardas no rosto e com um certo tom venenoso, respondeu:

- Melhor do que mentir na cara dele acerca dos meus sentimentos, manter a Marca debaixo do nariz dele e acabar na casa dos outros a dar lições de moral.

A expressão magoada fez com que Levi se arrependesse de imediato do que tinha acabado de dizer. Sempre que deixava a raiva levar a melhor, o seu temperamento tendia a magoar os outros ao seu redor e mais uma vez, podia testemunhar isso. Marco não merecia aquele comentário e o ele sabia-o perfeitamente. Aquele Ómega manteve-se ao lado dele, quando devia odiá-lo, quando sofria com as escolhas dele e apoiava-o sempre que necessário.

Viu-o abaixar o rosto e deu vários passos até estar na frente dele.

- Desculpa… eu não queria ter dito isto. Sabes que nem sempre penso antes de falar e tens razão, estou mais nervoso do que quero admitir com a viagem para Rose, com a possibilidade de vê-lo. – Disse e sentiu um aperto no peito ao ver uma lágrima no rosto do outro. – Perdoa-me, Marco.

- O que disseste não é ment…

- Shhh. – Colocou o dedo indicador nos lábios do outro. – Não discordo da decisão que fizeste. Sabes perfeitamente que sempre podes contar com o meu apoio. O Gabriel cuida bem de ti e pode ser que ainda não estejas preparado, mas tenho a certeza que algum dia, tudo se acertará. Eu sou um idiota que está com medo… que continua sem saber o que fazer e que provavelmente, ainda continuo tomar decisões erradas. Desculpa, desculpa-me pelas coisas que te disse.

Marco abraçou-o com força e o outro Ómega retribuiu, deixando as feromonas envolver os dois. Queria que acima de tudo, o jovem com sardas no rosto se tranquilizasse. Até porque imaginava que a visita a Rose também o afetasse, apesar de não ir viajar com eles.


*_Marco_*

A certa altura tive que pedir para que parasse de desculpar-se. Podia dizer que já estava habituado àquelas pequenas explosões temperamentais. Essas que diminuíram depois do tempo em Trost, mas que reavivaram com a proximidade à ida para Rose. Mesmo antes que ele confessasse, eu sabia qual era a razão. Os sentimentos pelo Eren e a grande possibilidade de reencontrá-lo ainda causavam grande impacto na tranquilidade que ultimamente o caracterizava. Tudo isso se quebrava, apenas com a possibilidade de encontrar o Alfa que o fazia admitir que tinha medo. Mais uma prova dos sentimentos que ele queria acreditar que já não existiam.

Expliquei-lhe que mesmo a mágoa, ressentimento ou dor não iriam desaparecer de um momento para o outro. Aliás se prestasse atenção às canções, as poucas que ele compôs, essas diziam bem mais acerca dos seus sentimentos. Normalmente, as músicas eram compostas por Christa ou Isabel, mas alguns solos tiveram a autoria completa do Levi. Nessas músicas, se os fãs deixavam escapar suspiros apaixonados pela voz e pelos sentimentos, amigos que conheciam pelo menos uma parte do passado dele desconfiavam da razão por detrás daquelas letras.

Por muito magoado que estivesse, por muito que desejasse odiar o Eren… existia o oposto.

Podia compreendê-lo e por isso, não estranhei quando me perguntou se queria que desse algum recado a alguém ou tentasse descobrir alguma coisa sobre a Marca daquele que ainda tinha em mim, apesar de outras coisas terem mudado. Ainda não tinha encontrado a coragem para livrar-me da Marca do Jean, mas isso não significava que quisesse reatar a ligação e por isso, agradeci a preocupação mas disse-lhe que o meu foco nas coisas agora era outro. Tinha e passaria a ter outras responsabilidades. Devia seguir em frente. Encontrar forças para seguir em frente.

Devia isso aos meus amigos, em especial ao apoio do Levi e principalmente ao Gabriel. Esse Alfa que me ajudou tanto e proporcionou o apoio, compreensão e uma presença quando queria desmoronar. No fundo, acho que nos apoiámos mutuamente e isso levou a que nos tornássemos progressivamente mais próximos. Considerei que fosse a proteção normal de um Alfa, diante de um Ómega que estava ferido por dentro e considerei que fosse o meu comportamento normal em proporcionar carinho a um Alfa que tinha perdido tanto sem merecer.

Estávamos em cacos e talvez tenha sido isso a juntar-nos. Isso e um empurrão dos instintos.

De uma vida calma, bastante pacata e assente sobretudo em tarefas domésticas passei a uma vida em que a Herdade ocupava grande parte do meu tempo e procurei mesmo assim, não ausentar-me e estar sempre presente caso os meus amigos precisassem de mim. O foco da minha atenção esteve em Levi, desde da gravidez, ao nascimento da pequena e vê-la crescer deixaram-me quase fora da minha própria realidade. Admiti algumas vezes diante de Levi, que de certa forma invejava a gravidez e a sensação de ter um filho nos braços. Desculpei-me devido à situação sensível em que se encontrava e ele dizia não compreender totalmente, mas que não estava magoado com as minhas palavras. Desejou somente que tivesse mais sorte do que ele.

Por distração ou causalidades do destino, falhei a ingestão controlada dos meus supressores e acabei por trancar-me num quarto da Herdade, quando tinha combinado sair com Gabriel. Esse que sempre me retirava da corrida entre uma tarefa e a próxima. Ele queria que relaxasse, aproveitasse melhor a vida em Maria e pudesse rir e conversar descontraidamente sobre outros temas que me fizessem esquecer um pouco tudo o resto. Ambos procurávamos o mesmo, mas naquela noite podia tê-lo afastado. O normal seria chamar pelo Alfa da Marca que eu ainda ostentava, mas em agonia, consegui chamar e entregar-me a outro que não aquela a quem um dia jurei lealdade.

Lembro-me do quanto Gabriel tentou racionalizar e até resistir aos próprios instintos com receio de que eu não estivesse consciente do que estava a pedir, mas eu pedi-lhe, implorei para fazer-me esquecer e criar em mim a vontade de seguir em frente.

Não posso dizer que me arrependo e isso mudou a minha vida. Ele não aceitou que continuasse na Herdade e encontrou uma casa, onde acomodar-me. Aquele Alfa pediu que derrubassem a antiga casa onde viveu com a sua família, pois não seria capaz de residir novamente no mesmo lugar. Portanto, durante o tempo em que demorámos a iniciar aquele relacionamento, ele vivia na base militar e apenas se mudou por mim, para que eu tivesse o conforto que merecia.

Ele era tão bom comigo e eu às vezes, sentia que não merecia um Alfa tão bom.

- Estás mais calmo? – Indaguei, sentado ao lado do Levi no sofá.

- Sim. – Murmurou.

- Ouve. – Coloquei uma mão nos cabelos negros dele. – É normal que te sintas assim. Ficar ansioso é completamente normal, mas independentemente disso quero que te lembres que estarás rodeado de amigos e isso é o mais importante.

- Não gosto que me afete desta forma, que me faça sentir…

Coloquei a minha mão sobre a dele.

- Eu compreendo, mas também sei que és forte. Portanto, vais recarregar baterias e vais chegar a Rose de cabeça erguida. – Sorri e abracei-o mais uma vez.

Sei que o Levi não gostava de sentir-se daquela forma, mas era normal. Ele não podia ser forte o tempo todo e nesses momentos, agradecia por deixar-se tão vulnerável perto de mim. Gostava de poder abraçá-lo, dar-lhe força e trazer o conforto que ele oferecia aos outros, mesmo que por dentro estivesse despedaçado.

Acho que muitos não imaginavam ou não pensavam que aquele que mantinha Maria segura, debaixo de uma aura protetora e acarinhada, sofria tanto em silêncio. Mas jurei a mim mesmo que não deixaria isso acontecer, que estaria presente sempre que ele precisasse. Daria o carinho que também ele necessitava e quando o ouvi agradecer pelas palavras e companhia soube que por mais pequena que fosse, eu tinha feito alguma diferença.

E escondi dentro de mim, os pressentimentos… esses que me faziam ter vontade de obrigá-lo a permanecer em Maria. Não porque tivesse desistido de Eren e da história que podia ter acontecido entre eles, mas havia qualquer coisa que me dizia que não seria fácil. Havia qualquer coisa que me dizia que a ida a Rose seria mais perigosa do que muitos antecipavam e se pudesse, também impediria o Gabriel.

Sei que esconder-nos do perigo não resolve absolutamente nada, mas depois de quase dois anos de vida pacata em Maria, tinha vontade de negar todo o resto. De manter-nos ali, longe de todos os problemas.

Contudo, isso era só um egoísmo momentâneo da minha parte. Nem eu, nem ninguém poderia ignorar que o Eren continuava longe, assim como o Jean… e nem todos aqueles que ainda esperavam por uma oportunidade de escapar. Não podia, não podíamos negar-lhes isso.

A ida até Rose seria sem dúvida um virar num novo capítulo e só esperava que os meus receios não tivessem qualquer fundamento.


As línguas entrelaçaram-se mais uma vez numa dança que ambos conheciam de dominância. As feromonas repletas de desejo serpenteavam lado a lado com a malícia de cada toque. As roupas espalhadas no chão do quarto ilustravam a urgência com que tudo começou, assim que entraram naquela divisão cujas cortinas cobriam as janelas. O ar sufocava e os corpos moviam-se, procurando encaixar um no outro.

Um deles expôs o pescoço, sentindo a barba do outro no seu pescoço antes de colocar as mãos na cintura dele para que se posicionasse melhor sobre ele. A pele arrepiava-se e por vezes, questionava-se se seria somente pelo toque dele ou se a mão biónica que lhe tinham colocado, era sempre tão fria. O outro sempre negava, dizia gostar e para dizer a verdade, também gostava de ver aquele arrepio naquela pele, que não conseguia deixar de marcar.

- Ngh…

- Vamos, não fiques parado. – Sussurrou contra os lábios do outro loiro sentado no seu colo. – Mostra-me o quanto gostas disto. Vá… bem forte e fundo.

O Alfa de olhos azuis ouviu o outro gemer e enquanto regulava a respiração, retirou as mãos dos ombros dele. Esticando os braços, apoiou-as nos joelhos e encarou o outro de frente, antes de começar a deixar que o membro entrasse e saísse dentro dele com os movimentos que aquela posição lhe proporcionava.

- Podes fazer melhor, Mike. – Incentivou e batendo sem querer no frasco de lubrificante sobre os lençóis, que caiu da cama. – Mais…se queres fazer-me esquecer, então faz melhor.

O outro Alfa rosnou um pouco antes de aumentar o ritmo a que movia os quadris sobre o outro. Os gemidos e o som dos corpos a chocar um contra o outro ecoaram pelo quarto. As feromonas misturavam-se e mais uma vez, os dois lutavam contra os instintos para não deixar qualquer marca visível. Embora, os instintos cada vez mais distorcidos pedissem para morder, marcar possessão e consequentemente, consumar a ligação proibida.

A certa altura, Irvin agarrou o braço do outro aproximando-o novamente para mais um beijo, desta vez mais descoordenado devido aos tremores e desespero que ainda percorriam os dois.

Mike deliciava-se mais uma vez com o gosto do outro na boca, quando teve os cabelos agarrados e uma ordem para mudar de posição. Com a brusquidão normal entre eles, esse Alfa acabou com o rosto contra uma almofada.

- Nunca pensei que me desse tanto tesão ver-te assim… - Murmurou antes de entrar nele sem qualquer aviso e viu o outro arquear as costas e prender a respiração. Sem tempo para acomodar aquela invasão súbita, sentiu como uma investida atrás da outra roubava a força dos braços.

A mente nublada pelas feromonas repletas de desejo e pela força com que era empurrado contra a almofada, apenas conseguia repetir palavras incoerentes com o nome do outro Alfa pelo meio.

- Ah! Ir…Irvin… ah!

- Só mais um pouco, Mike!

Dava-lhe um gosto especial ver como o outro se contorcia, agarrava os lençóis entre os dedos e mal continha os gemidos. O orgasmo tão perto e ainda assim, obediente ao ponto de não ceder antes dele. Feromonas de submissão alcançaram o seu nariz momentos antes de ambos atingirem o clímax tão desejado.

Os dois caíram exaustos sobre os lençóis e Mike recuperava o fôlego, olhando de soslaio para o companheiro. Esperava que estivesse esgotado o suficiente para não tocar no assunto que os fez discutir, antes de tudo acabar naquele momento na cama. Talvez até fosse melhor controlarem-se, pois começaram a notar alguns comentários ainda que tudo acabasse sempre por dissipar.

Não existiam provas, mas ainda assim todo o cuidado era pouco.

Contudo, não era essa a razão da discussão. A razão estava no hospital e Mike esperava que desaparecesse de uma só vez. Aliás, ele teve dificuldades em disfarçar a satisfação ao escutar que Armin estava no hospital às portas da morte. Se aquele empecilho morresse, na sua opinião, seria menos um problema. Esperou uma maior indiferença pela parte de Irvin, mas o Alfa a meio da expedição ficou bastante agitado e isso era a prova de que a Marca entre ele e o Ómega continuava a funcionar perfeitamente, ao ponto de permitir ao Alfa deduzir que algo teria acontecido. A expedição não ficou comprometida, mas Mike teve que assumir grande parte das decisões, dado que o Comandante não estava tão concentrado.

Honestamente, o Vice-Comandante desejou que o Ómega morresse antes que pudessem regressar, mas ele continuava a agarrar-se à vida patética que lhe restava. Era óbvio que mesmo que fosse um Ómega pertencente à elite, não podia ter tratamentos de saúde por um tempo indefinido. Principalmente, se fosse tida em conta as possibilidades de recuperação.

Imaginando um cenário que Armin sobrevivesse à gravidade do estado de saúde, ele já tinha perdido o direito à vida a partir do momento em que deixava de ser útil e passava a ser um encargo, um fardo. O que significava que já se tinha transformado em algo descartável.

No entanto, Irvin insistia em proporcionar-lhe tratamento. Queria que o Ómega recuperasse a consciência para tentar saber quem era o responsável pelo que lhe tinha acontecido e também pelo incêndio que destruiu a casa dele. O que fazia com que tivesse a viver temporariamente com o Vice-Comandante, ainda que o General já tivesse a tratar de outra possibilidade visto que também não parecia concordar com tanta proximidade entre os dois. Não o dizia diretamente, o que levava os dois a deduzir que teriam que distanciar-se um pouco para não alimentar rumores estranhos.

Porém, nada disso irritava tanto Mike como a preocupação de Irvin pelo estado de saúde de um Ómega, que mais valia considerar como morto. Sim, ele também queria saber quem era o responsável por detrás do incêndio e quem sabe, insultar o idiota por não ter sido capaz de livrar-se do Ómega e assim, terminar com todos os problemas de uma vez.

Mike não confiava naquele Ómega. Tentou sempre vigiá-lo e procurar qualquer comportamento estranho, mas além do ódio mútuo que Armin não conseguiu disfarçar assim tão bem, não encontrou nada de especial. O que por um lado devia tranquilizá-lo, mas por outro lado, deixou-o um pouco desconfiado. É certo que as circunstâncias do ataque eram estranhas, dado que a avaliar pelo estado do Ómega, tudo levava a crer que tentaram obter informações através dele e como ele não falou, o resultado era aquele: ter sido torturado até ficar às portas da morte.

Se chegou àquele extremo seria seguro pensar que não tinha aberto a boca para dizer alguma coisa que não devia? Era o mais lógico. Ter morrido por lealdade ao Alfa.

Mike desejava que tivesse morrido e não estivesse a arrastar a preocupação do outro Alfa.

"Talvez aproveite a chegada da tal banda de Maria e todos os preparativos para voltar ao hospital e acabar com isto de uma vez por todas", pensava e ouviu que Irvin já tinha adormecido, "Vou eliminar a tua preocupação e assim, voltarás a dar-me toda a tua atenção. Não quero que penses em mais ninguém. És meu. Esperei muito para te ter para agora ter que perder o meu tempo a ouvir-te falar dele", acariciou os cabelos do Comandante, "Sou tudo aquilo que precisas".


Eren proibiu-a de abrir a porta, quando não estivesse em casa. A única exceção seria Jean, mas pela hora avançada da noite, a Ómega de cabelos repletos de dezenas e dezenas de pequenas tranças teve momentos de hesitação. O seu Alfa não estava em casa e pela hora da visita, questionou-se se a visita teria outro propósito como avisar, que algo de errado tinha acontecido.

Assim que abriu a porta com o roupão branco com desenhos de pequenas estrelas nas mangas, o Alfa entrou praticamente sem pedir licença, assustando um pouco a rapariga que fechou a porta com calma. Em seguida, foi ao encontro dele na sala e mais uma vez, viu-o julgá-la pelas roupas quase infantis que utilizava.

"O que esperava? Saí da cama a meio da madrugada! Não procurei nada mais aceitável", pensava irritada, enquanto se aconchegava no roupão, que fazia conjunto chinelos também com desenhos de estrelas.

- Boa noite, Capitão Kirschtein. – Cumprimentou ainda um pouco confusa.

- Temos que falar, Nicole. Esquece as formalidades.

- Aconteceu alguma coisa com o Eren? – Questionou ansiosa.

Parte dela dizia que essa não seria a razão, mas por outro lado queria eliminar por completo qualquer suspeita acerca do Alfa com quem vivia.

- Ainda não. – Respondeu num tom irónico. – Mas vai acontecer e preciso que tu colabores comigo.

- Faço o que puder para ajudar o Eren. – Afirmou com convicção e sentiu um certo orgulho em si mesma, já que aquele Alfa estava a contar com a ajuda dela.

- Tu e ele não podem ir ao concerto dos No Name.

Silêncio.

A rapariga de pele escura ainda ponderou que tivesse escutado mal. Olhou mais uma vez para o Alfa, quebrando com ele a regra imposta de que nunca deveria erguer o olhar diante de uma classe superior, exceto quando lhe fosse dada permissão. Só que assim como Eren não exigia isso dela, também Jean não dava importância a essas regras. Aliás, naquele momento, o contacto visual era essencial para que Nicole tivesse a certeza que tinha escutado bem.

Eram quase quatro da manhã e aquele Alfa veio até ali preocupado com um concerto?

Ela costumava sentir um certo receio de rir na frente daquele Alfa, mesmo quando Eren o fazia abertamente após algum comentário e incentiva-a a não ter medo. A Ómega ainda assim evitava por não querer faltar ao respeito, só que naquele momento mais do que rir, queria perguntar quantos copos de vinho bebeu antes de aparecer ali na casa de Eren para dizer aquele absurdo.

As feromonas do Alfa espalhavam alguma agressividade, mas mais do que isso havia agitação, ansiedade e tensão. Todos esses sintomas poderiam ser explicados facilmente pelo álcool, como testemunhou em outras ocasiões, mas aparentemente ele estava sóbrio.

Instintivamente, sabia que mesmo que aquela situação fosse absurda, não devia deixar transparecer isso a menos que quisesse irritar e agitar ainda mais o Alfa.

- Será que me podes explicar melhor do que estás a falar? – Pediu educadamente.

A forma como olhou para a Ómega até fez com que ela se sentisse insultada, mesmo na ausência de palavras. Ela quase arqueou uma sobrancelha. Era suposto ela saber por que razão ele estava às quatro da manhã na casa do Eren a falar do concerto de uma banda? O senso comum dizia-lhe que não, mas aguardou pelas palavras do Alfa. Este pegou no telemóvel e aproximou-se dela, quase esfregando o aparelho na cara dela.

- Quem é este?

- Um dos vocalistas da banda? – Distanciou-se do aparelho para poder ver melhor o ecrã, já que ao contrário do que Jean pensava não precisava enfiar-lhe aquilo na cara. – É o Rivaille. Também és fã?

- Não, caralho! – Disse irritado. – Mas como aquele idiota não parava de ouvir as músicas e tanta gente fala do mesmo, resolvi ver o que era e encontrei isto!

- O Rivaille? – Indagou confusa.

- É um Ómega, certo?

- Não faço ideia. É evidente que há Alfas na banda, mas tendo em conta a estatura, suspeita-se que seja um Beta ou Ómega, mas não é fácil saber coisas sobre os elementos da banda. A equipa que os acompanha controla fotos, entrevistas e informações muito bem. – Sorriu um pouco e logo voltou a ficar confusa. – Mas continuo sem perceber o que tem a banda a ver com o Eren ou com o facto de irmos ao concerto depois de amanhã.

- A sério? Como merda não sabes do que…?

"Claro que não. Ela realmente não sabe e o Eren obviamente também não tocou no assunto", conclui ao entender a razão por detrás do olhar que o estava a julgar como um lunático.

- Jean?

- Assim como eu, o Eren também tem uma história mal resolvida. – Falou, optando por descartar detalhes e ficar-se pelo essencial. – O Ómega que o deixou por uma estranha coincidência faz-me lembrar esse vocalista.

- Tens a certeza? – Perguntou curiosa.

- Ou é muita coincidência ou é mesmo ele! Acredito que mesmo aquela cabeça oca tenha procurado fotografias da banda e deve ter visto as semelhanças.

- Ele gosta das músicas, Jean. – Começou por dizer. – Mas então, voltemos ao tema. Partindo do princípio que este é o mesmo Ómega…

- Com um nome diferente. – Interrompeu o Alfa. – Tens mesmo a certeza que o nome é Rivaille?

- Certeza absoluta, sou super fã da banda. – Confirmou. – Queres impedir que os dois se reencontrem, é isso? Ele e… será que o nome que querias confirmar era Levi?

Os olhos surpresos do Alfa repousaram sobre a Ómega.

- O Eren falou-te dele?

- Não. – Negou. – Só que já o ouvi dizer esse nome à noite, enquanto dorme. Sabes como ele adormece com os fones nos ouvidos e usualmente, sou eu que vou retirá-los e confirmar que está tudo bem com ele.

- Sim, tratas dele como se fosse uma criança. Aliás, nem sei quem dos dois é pior. – Comentou o outro.

- Quando perguntei quem era o Levi, apenas me pediu para nunca mais repetir esse nome à frente dele e tomei isso como um sinal para não tocar mais no assunto. – Explicou. – Mas imaginei que fosse alguém especial para deixá-lo com aquele ar tão triste. Se for verdade e não estiveres só a fazer confusão, talvez fosse bom que os dois se reencontrassem.

- O Ómega trocou-o por outro Alfa e apunhalou-o, antes de fugir para Maria. – Cortou Jean rispidamente. – Não acho que tenham muito mais para conversar.

- É por isso que o queres impedir de ir ao concerto? Para impedir um reencontro que pode nunca acontecer porque pode nem ser a mesma pessoa? – Perguntou calmamente.

- Posso saber porque não te irritas com isto?! – Falou mais exaltado, fazendo a Ómega estremecer um pouco. – É o teu Alfa! Ou melhor seria, se partilhassem a mesma cama em vez de estarem a brincar com a ideia de ser quase família! Estás à espera do quê para deixar que te marque e…

- Se ele alguma vez quiser, eu…

- Nem parece que gostas dele! – Acusou o Alfa e perante isso, os olhos amendoados da Ómega fixaram-se neles com convicção.

- Devo-lhe a minha vida e tudo o que tenho. Não admito que questiones os meus sentimentos.

- Não admites? – Ironizou. – Querida, tu devias estar na cama com ele e não a brincar às casinhas. Se tivesses a cumprir o teu dever de Ómega, provavelmente nem estaríamos a ter esta conversa!

A Ómega sentiu o rosto quente e com a voz trémula respondeu:

- Como disse, devo-lhe a minha vida e tudo o que tenho, mas ele nunca demonstrou esse tipo de interesse por mim. Eu gosto dele, mas… bom, se alguma vez quisesse não iria contrariá-lo.

- E que tal esforçares-te?

- Essa história mal resolvida entre ele e o Levi não vai desaparecer, só por forçar alguma situação. – Retrucou com a voz trémula, mas decidiu olhar o Alfa nos olhos. – Ele ainda ama esse Ómega e eu não vou fazer nada para prejudicá-lo. Se existir uma ligação entre o Rivaille e esse Levi, será bom que se reencontrem e quem sabe, resolvam a situação entre eles. Não vou impedir, posso até ajudá-los. – Ouviu o Alfa rosnar, mas não se calou. – Se tudo não passar de uma coincidência, vou continuar ao lado dele.

- Tens a noção de que se os dois se acertassem, tu serias a primeira a perder, certo?

- O Eren não me abandonaria sem mais nem menos. – Declarou, sentindo-se cada vez mais trémula com as feromonas agressivas do Alfa, que se sentia desafiado. – Provavelmente, iria levar-me com ele.

- É o teu sonho servir de vela entre os dois? – Provocou.

- Sei perfeitamente que se ele me deixasse aqui, a minha vida nunca mais seria a mesma e por isso, apenas iria acompanhá-lo, mas depois teria a minha própria vida. – Baixou o rosto, incapaz de continuar ver como o Alfa se irritava.

- Seria uma história tão bonita, não é? Só tu e as tuas ideias patéticas e infantis poderiam considerar isso como um cenário plausível. – Disse em tom de escárnio.

- Sei que só estás assim agitado porque sabes que existe uma possibilidade dos teus amigos aparecerem para te explicar a razão por detrás dessa Marca cada vez mais apagada. – Falou a rapariga entre a irritação e o pânico que cresceu ao escutar os passos na sua direção.

A Marca naquele Alfa desvanecia com a passagem do tempo e à medida que aquilo se ia tornando cada vez mais evidente, a irritação e comportamentos mais agressivos iam aumentando. Nicole não conhecia a história de Jean, mas desconfiava que também o Ómega dele estivesse em Maria e quem sabe, estivesse a construir uma nova vida. Se as coisas continuassem assim, a Marca acabaria por ser quebrada mais cedo ou mais tarde.

No entanto, era consciente de que tocar naquele assunto teria um efeito nocivo e despertaria os instintos agressivos mais uma vez. Porém, não aguentou ouvir tantas acusações e exigências daquilo que aquele Alfa pensava ser o correto a fazer. Tudo isso, partindo do princípio que as suspeitas dele teriam algum fundamento.

- O que foi que disseste, Ómega? – Perguntou num tom perigoso, mesmo à frente dela.

Instintivamente, tudo lhe dizia para negar e pedir desculpa ao Alfa. Deixar que as feromonas de submissão afagassem o ego dele e terminar as coisas por ali. Contudo, desde que começou a notar determinados comportamentos em Jean, como se quisesse impedir Eren de pensar no passado, passou a nutrir alguma raiva por ele. Até algum desrespeito pelo comportamento dele porque só podia concluir uma coisa:

- Como sabes que corres o risco de ser infeliz o resto da vida porque estás a perder o teu Ómega, também não queres dar uma oportunidade ao teu amigo de ser feliz. É isso que eu penso! – Falou e rapidamente, levantou-se para sair da sala.

Com o coração a ecoar bem alto nos seus ouvidos, prendeu a respiração para não inalar aquelas feromonas que a rodeavam e com as pernas tremidas, tentou alcançar a entrada da casa. Tropeçou devido ao pânico e caiu no corredor. Assim que o fez, escutou os passos do Alfa que a seguiram e quando pensava em levantar-se, as feromonas do Alfa forçaram-na violentamente em submissão, fazendo com que o corpo batesse contra o chão. Não podia mover-se.

O corpo estava pesado, como se fosse esmagado contra o chão de madeira.

Queixou-se da dor que sentia por ter aquela submissão forçada sobre ela e continuou a não encontrar forças para tentar levantar-se.

- Com quem pensas que estás a falar, Ómega? – Abaixou-se ao lado dela e quando ia colocar a mão sobre os cabelos dela, a porta abriu-se.

- Posso saber o que estás a fazer?

As feromonas hostis e territoriais espalharam-se, empurrando com efetividade Jean para trás que se ergueu e deu alguns passos para trás, vendo o olhar fixo nele.

- Ela…

- É o meu primeiro e último aviso, Jean. Pouco importa se és meu amigo ou não, se lhe tocas, se a obrigas a submeter-se, se voltas a repetir uma coisa dessas… vais-te arrepender. – Rosnou e ordenou ao amigo que saísse e Jean optou por não desafiar o amigo na própria casa. Saiu em seguida, não sem antes receber um empurrão e logo ouviu a porta fechar-se com um estrondo atrás dele.

O moreno de olhos verdes teve que respirar fundo algumas vezes antes de dissipar as feromonas e ir ao encontro da rapariga que sentada no chão ainda se abraçava com tremores no corpo e sem levantar o rosto.

- Estás bem, princesa? – Perguntou, depois de colocar um joelho no chão para ficar à altura dela e viu-a assentir. – Desculpa se também te assustei, mas não esperava encontrar-me com esta situação. O que aconteceu?

- A culpa é minha. – Murmurou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

A Ómega ponderava se seria uma boa ideia contar toda a verdade ao moreno. Teria que falar acerca das suspeitas de Jean, acerca da identidade do vocalista. No cenário de tudo não passar de uma coincidência ou confusão causada pelo estado alterado do Alfa, podia correr o risco de tocar desnecessariamente num assunto que magoaria Eren ao trazer lembranças dolorosas.

Caso não fosse coincidência e existisse um fundo de verdade, também havia duas vias distintas. Uma delas, Eren seria apanhado de surpresa e a curiosidade podia provocar algum risco da parte dele para tentar ver Rivaille de perto ou desistir do concerto por não querer encontrá-lo (ela não acreditava muito nessa possibilidade); mas e se Eren de facto tivesse notado as semelhanças e quisesse ir ao concerto não só pela música, mas também para confirmar as suspeitas?

Será que devia correr o risco de tocar naquele assunto sensível? Afinal, ele próprio ordenou que ela não repetisse o nome do Ómega na frente dele e isso incluía tocar no assunto como um todo.

- Não acredito nisso. – Disse Eren. – O que quer que tenhas dito ou feito não justifica o comportamento dele.

- Acho que queria falar contigo e como não o esperava a esta hora, não o recebi como deveria. – Disse, procurando acalmar-se e inspirar aquelas feromonas tranquilas do Alfa para ajudar nesse processo. – Sem querer falei da Marca dele e sei que não devia falar de um assunto desses.

- Hum. – Acariciou o rosto da Ómega e pegou na mão dela para que se levantasse do chão. – De facto, é um tema a evitar, mas ainda assim não permito que te trate desta forma. Vou falar com ele novamente e assegurar-me que isto não se repete.

- Eren, estou bem. – Assegurou com um pequeno sorriso. – Também disse o que não devia e ele recebeu o teu aviso, acho que estamos quites. Por favor, não quero que se zanguem por minha causa.

- Bom, então mudemos de assunto. Horas de voltar para a cama, certo? – Viu a Ómega assentir. – Vamos lá. Ainda não podemos desregular as nossas horas de sono antes da grande noite. – Brincou.


Já era noite quando chegaram a uma pensão próxima à fronteira de Rose e Maria. A banda recebeu ofertas para estadias em hotéis de luxo. Os mesmos que se localizavam na zona mais próxima de Sina ou no centro de Sina, mas eles preferiam ficar próximos à região de Maria. Caso fosse necessário regressar rapidamente ou pedir auxílio, não queriam estar totalmente inseridos na boca do lobo.

A viagem realizou-se com várias carruagens escoltadas por soldados de Maria. Entraram em Rose ao cair da noite e como era expectável, alguns fãs estavam na estrada para os receber com boas vindas e coros de algumas canções. Farlan e Reiner apareceram para deleite dos fãs, mas Eld preferiu manter-se longe dos olhares, assim como Levi que escolheu a carruagem onde estava Hanji, Petra e Isabel. As Betas e Ómega conversaram entre si o tempo todo e portanto, o jovem de olhos diferentes teve tempo de ausentar-se sem que o incomodassem. Ele que escolheu propositadamente uma carruagem diferente dos outros colegas da banda, principalmente Farlan.

Deixou que por exemplo, Oluo fosse com eles e vivesse um pouco dos momentos de uma fama com a qual dizia não se interessar, mas que no fundo todos sabiam que também queria ter integrado a banda. Embora, Christa tenha dito de um modo pouco ou nada subtil que ele não correspondia aos padrões de beleza em geral e acho que Petra partiu o que restava do ego dele naquele momento ao concordar. Ele deprimiu-se durante algum tempo e porque Levi estava irritado de o ver suspirar todos os dias nos treinos, chamou-o à parte para falarem durante o que se tornou um bom bocado e terminou com ainda mais admiração pelo Ómega. Oluo nem sempre disfarçava a devoção que tinha pelo rapaz de cabelos escuros, principalmente depois de saber que ele era um Elo Primitivo. Aquele Alfa que cresceu com aquelas lendas, olhava para o rapaz como se fosse a reencarnação de todas as histórias e sonhos que teve em criança e ainda que Eld e Gunther pudessem ter momentos semelhantes, esses dois disfarçavam melhor.

Contudo, o Alfa que mordia a língua continuamente encontrou ainda mais admiração quando Levi na sua inocência questionou-o por que razão não estava com Petra se gostava tanto dela. Acrescentou que sempre os via como um casal por estarem quase sempre juntos.

O que seria um comentário completamente normal, se fosse mesmo verdade, mas ouvir da boca do Ómega (alguém que já admirava) incentivar a relação dos dois e interpretar aquilo como um sinal sagrado de que mesmo os antigos já predestinavam o amor dele com a Petra… enfim, aumentou ainda mais a admiração do Alfa e consequentemente, acabou por tentar imitar a forma de falar ou de vestir do Ómega. Os colegas às vezes consideravam assustador e Petra descrevia como ridículo.

Com a paragem das carruagens, Levi deixou de perder-se nas lembranças da vida em Maria que muitas vezes se cruzavam com o que tinha acontecido em Rose. O Ómega ajustou as faixas que levava sobre os olhos mais uma vez, antes de sair da carruagem e erguer a mão discretamente a um grupo de fãs. Ele odiava todos aqueles gritos histéricos e mesmo que brindasse as fãs com indiferença, tinha a certeza que elas continuariam a gritar.

Só que mesmo que quisessem ser discretos na chegada, tal não era possível. Ao escolher as carruagens decoradas num estilo entre o moderno e gótico não podiam passar despercebidos.

Em Maria existiam poucos veículos a motor e com as receitas das vendas de bilhetes e outros materiais associados à banda, até poderiam ter encomendado um veículo ou mais do que um de Rose, onde as fábricas residiam. Porém, embora pudesse ter deslocações mais lentas, todos concordaram que preferiam os transportes mais simples e deixaram que Christa, Isabel, Petra e também Hanji se dedicassem a personalizar o transporte.

- Mal posso esperar para comer qualquer coisa! – Dizia Isabel, vendo como todos se acomodavam na entrada da pousada, enquanto Christa e Hanji falavam com a rececionista e também com o responsável do local acerca do número de quartos e comodidades, apenas para garantir que tudo correspondia ao solicitado.

- É um sítio bastante simples, mas acolhedor. – Comentava Petra junto de Oluo e Gunther, que também apesar de não integrar a banda, acompanhava o grupo como medida de segurança.

- Sim, parece bastante agradável. – Concordou Gunther.

- Embora pudessem ter escolhido algo mais luxuoso. – Acrescentou Oluo.

- Não estamos a fazer turismo. – Relembrou Petra.

Entretanto, Farlan ia tentar aproximar-se de Levi que se afastou do pai e do tio trajados com as respetivas roupas militares. O Ómega aproximou-se da receção depois de Christa e Hanji já terem as chaves nas mãos e estarem a distribuir não só pelos elementos da banda, mas também pelos soldados que os acompanhavam.

- Rivaille sou uma grande fã tua! – Disse a rececionista, uma Beta de olhos azuis e cabelos castanhos lisos e curtos à altura do queixo. – Desculpa a falta de profissionalismo, mas é a primeira vez que tenho a oportunidade de te ver de tão perto.

- Sei que pediram quartos partilhados, mas mudei de ideias. Prefiro um quarto só para mim. Suponho que ainda exista algum disponível.

- Claro! – Respondeu entusiasmada. – E…

- Sim, posso deixar um autógrafo onde quiseres. – Concluiu para alegria da Beta, que depressa retirou uma t-shirt com a imagem da banda do interior de uma pequena saca. – O teu nome?

- Fabiana! – Respondeu com um sorriso rasgado. – Tens uma voz linda, Rivaille!

- Obrigado. – Murmurou, escrevendo na t-shirt com uma caneta dada também pela jovem atrás do balcão que se sentia nas nuvens e colocou a chave de outro quarto na frente do rapaz. – Se quiseres posso chamar os meus colegas para também assinarem.

- A sério? Não te importas?

O rapaz virou-se na direção dos colegas que o viram fazer sinal para se aproximarem e assim, enquanto todos assinavam, teve a oportunidade de pegar na mala e dirigir-se ao quarto que tinha pedido. Porém, quando já estava mesmo diante da porta ouviu a voz do Alfa a quem estava a tentar ignorar.

- Rivaille?

Colocou a chave na porta, mas não a abriu para virar-se para o Alfa que se aproximava e como não sabia quem poderia ou não estar por perto, optava por usar o nome artístico e não o real.

- Sim?

- Ah, está tudo bem? Estás… um pouco distante desde que começámos a viagem. – Falou um pouco sem jeito e era visível o receio de dizer alguma coisa errada.

- Não se passa nada. – Falou. – Estou só cansado da viagem.

- Tens a certeza que não fiz ou disse alguma coisa? – Indagou.

As palavras de Marco voltaram à memória do Ómega. Será que ele realmente tinha o direito de fazer aquele Alfa fazer-se sentir daquela forma? Mesmo que tivesse sido sincero e esclarecido que não o amava e que estava com ele pela filha e nada mais. Mas o que ganharia, dizendo que a conversa de dar-lhe uma oportunidade talvez fosse um erro? Como podia dizer-lhe isso, depois de tão pouco tempo? Mesmo que Marco não concordasse, se calhar, podia esforçar-se um pouco mais para ver se podia ou não resultar. Pela filha. Pelo carinho que ela merecia e ele nem sempre conseguia dar e também para… o distrair e não pensar na pouca distância que o devia separar de um certo Alfa, que temia ver a qualquer momento agora que estava em Rose.

- Entra. – Murmurou, abrindo a porta do quarto diante do olhar confuso do Alfa que teve a sua mão agarrada para entrar.

- Pensei que fosses ficar pelo menos com a Petra por perto. – Disse Farlan, vendo o Ómega fechar a porta e pousar a mala num canto antes de aproximar-se dele.

- Gosto do meu espaço e vocês sabem disso…e a única razão para não fazer isto no corredor, é porque não seria bom partir o coração de tantas fãs, não achas? – Indagou diante do ar ainda confuso do Alfa que teve uma das mãos do rapaz a agarrar a gola do casaco para puxá-lo e encostar os lábios aos dele.

O contacto entre os dois durou poucos segundos, mas assim que se preparava para distanciar, o loiro colocou a mão na sua cintura. Podia sentir as feromonas dele, a forma como o tinha afetado com algo que não pretendia que passasse muito dali. Afinal, queria apenas silenciar as perguntas do outro.

- Só mais um beijo. – Pediu.

Levi fechou os olhos e inspirou as feromonas do Alfa para que algo o ajudasse a entrar naquele momento e não terminasse a empurrá-lo para fora do quarto. Farlan viu isso como um sinal encostar os lábios novamente e notava como o Ómega suprimia totalmente as próprias feromonas. Parte dele desconfiava que fosse para esconder o desconforto, mas residia alguma esperança em que o outro talvez não quisesse demonstrar que estava a gostar do momento.

Quanto ao jovem com heterocromia queria envolver-se naquele momento, mas não podia. Não conseguia. Não era a mesma coisa. O corpo não queimava, não desejava aquele Alfa. Em vez de distrair a sua mente, somente o fazia recordar as mãos de um certo moreno no corpo dele e a forma ardente como o beijava e deixava sem fôlego.

Ao sentir a língua do Alfa, instintivamente queria empurrá-lo, mas silenciou esses instintos. Talvez se o provasse, a reação poderia ser diferente e por isso, entreabriu os lábios, ouvindo o Alfa gemer contra a boca dele. Com certeza não esperava que cedesse, mas esse contacto fez com que Levi agarrasse os braços de Farlan, experimentando mover a língua contra a dele.

Não, não era a mesma sensação. Não a de antes, mas permitir-se um beijo daqueles despertou outros instintos. O que lhe diziam para submeter-se às sensações que lhe provocava. Os movimentos cuidadosos da língua fizeram-no suspirar e arrepiou-se com o carinho e cuidado que aquele Alfa lhe dedicava. Não era intenso, mas era doce. Mesmo as feromonas tratavam-no com suavidade e só quando Farlan o fez recuar, até sentir a porta atrás dele decidiu colocar uma mão no peito dele. O Alfa entendeu de imediato o gesto e parou aquele beijo que tinha começado a provocar-lhe a tão desejada distração.

- Desculpa. – Murmurou, retirando também as mãos da cintura do Ómega e recuou alguns passos ao mesmo tempo, que tentava dissipar as feromonas que espalhavam desejo e não escondiam o quanto estava atraído pelo Ómega. – Não queria deixar-te desconfortável.

- Fui eu que provoquei. – Respondeu o Ómega, desviando o olhar. – Mas é melhor saíres agora. Não é uma boa ideia continuar a testar o teu autocontrolo.

- Sim… é melhor. – Concordou. – Até depois, Levi.

"Talvez seja capaz de fazer-me parar de pensar nele…", pensava sozinho no quarto e encostado à porta, colocou uma mão no rosto, "Quanto mais próximo estiver do Farlan, menos terei tempo para pensar nele… mesmo que esteja no concerto, mesmo que o queiram ver enquanto estivermos em Rose".


O recinto estava cheio, lotação esgotada numa noite estrelada onde os fãs levavam os mais diversos adereços da banda. Fossem as t-shirts, as faixas brancas, as luvas pretas sem dedos com pequenas correntes que era a imagem de marca de um dos vocalistas da banda. Apesar das cores usualmente escuras dos elementos da banda, os produtos comercializados naquela noite vendiam também chapéus, pulseiras e estrelas florescentes que os fãs utilizavam, pintando o cenário das mais diversas cores. Os olhos focavam-se no palco, onde uma voz anunciava o início de uma noite inesquecível e os fãs gritavam o nome da banda.

Ouviram-se as primeiras noites num órgão, sobre o qual incidia uma luz amarelada sobre o pianista de serviço conhecido como Ethan (Eld), cujos cabelos loiros eram a única coisa mais visível, pois os olhos escondiam-se debaixo das faixas brancas. As notas algo infantis e divertidas pararam poucos segundos e uma luz um pouco azulada incidiu sobre o elemento com mais fãs, Rivaille na frente com uma guitarra surgia ao lado de Íris, alguém que colaborava somente em algumas canções da banca. Ela segurava o microfone e agitava a cabeça ao som dos acordes fortes da guitarra e da bateria que outro elemento tocava mais atrás, o Théo (Reiner).

A guitarra parou momentaneamente e Rivaille agarrou no microfone nas mãos de Íris para iniciar um verso com palavras rápidas, seguida de algumas palavras mais lentas de Íris (Isabel) cujos cabelos ruivos estavam presos num rabo-de-cavalo caído sobre um dos ombros.

Tondemonai genshou dou yara toumei

ningen ni narimashita

Devido a um fenómeno escandaloso, de alguma forma

Tornei-me invisível

Os dois cantores moveram os quadris em determinados pontos da música para delírio dos fãs que acompanhavam a letra da canção, incentivados sobretudo por Íris que com um corpete preto na parte superior e saia até ao joelho com um corte a meio da coxa, puxava pelos fãs para cantarem o refrão em que Rivaille somente oferecia o ritmo da guitarra.

Com o final da música, Íris manteve-se na frente e desta vez Rivaille recuou para juntar-se mais aos restantes membros da banda enquanto, Íris continuava a animar o público com mais uma música. Assim, ganhavam algum tempo para preparar alguns detalhes da música que se iria seguir e que a avaliar pelos cartazes, os fãs também esperavam.

Assim que soaram os primeiros acordes, os gritos subiram de tom com Rivaille, Ethan e Jay (Farlan) aproximarem-se da frente do palco, ambos com guitarras na mão, antes do Ómega aproximar-se do microfone colocado na frente.

Mou chisiryou wa sudeni koete

Memai wo okosu you na itami ni hatto mega sameru

Já ultrapassei a dose letal

Acordei com uma dor ao ponto de ter uma vertigem

Os gritos subiam de tom ao ver que uma das faixas deixava que um dos olhos de Rivaille, Ethan e também de Jay estivessem visíveis, apesar de que tivessem umas lentes que os deixava com o olho de uma cor vermelha para combinar com as personagens a quem aquela música usualmente acompanhava.

Kono kiba de

Ubau

Com estes caninos

Vou arrancar de ti

Rivaille lambeu os lábios após esses versos, imitando a personagem da série que todos deviam conhecer pois os gritos subiram de tom. Nessa série, a personagem fazia isso enquanto bebia sangue. Sim, por alguma razão que ele não compreendia, havia um fascínio das pessoas com essas criaturas fruto do imaginário.

Ano tsuki wo tsukanda nara ore wo aishi ore wo motome

Yamitsuki ni nare yo more blood in fate

Tsunzaite kizamareta nda owaranai kindan no

Akashi no kazu wa (kazu wa) three six

Assim que tiveres essa lua nas mãos, ama-me, procura-me

Torna-te totalmente devota a mim: mais sangue no destino

Quebrada entre nós para levar a nossa marca

O número destas balas que nunca mais acabam, feridas de balas proibidas… dão um total de 666!

Os três elementos da banda cantavam num coro perfeito a última parte do refrão, voltando a caminhar em direções diferentes no palco enquanto as câmaras apanhavam os mais distintos ângulos dos cantores para deleite das fãs.

Foi numa das vezes em que Rivaille chegou perigosamente perto da parte final do palco que o viu. Sem margem de dúvidas, enxergou-o mesmo no meio daquela multidão. Aqueles olhos eram únicos, seria capaz de reconhecê-los em qualquer lugar e apesar do murro no estômago, soube disfarçar e regressar para o meio do palco a tempo de outro momento que ele acabou por tornar bem mais provocante do que era inicialmente.

Soou um som de disparo e Rivaille puxou Jay pelos cabelos loiros para que se ajoelhasse à sua frente e expondo o pescoço dele. Jay então murmurou para o microfone:

- Hoshiin desho? (Queres mais, não é?)

Depois lamber os lábios e com o ar desequilibrado que o personagem representava na série sempre que se deixava levar pelo frenesim de beber sangue, respondeu:

- Motto motto motto saa! (Quero mais, mais, mais!)

Em seguida, deixou que Jay se levantasse e juntaram-se no centro do palco para repetir mais uma vez o refrão e terminarem os três com um sorriso que exibia bem uns caninos falsos que tinham colocado momentos antes de iniciar a música.

Não havia tempo para questionar o que tinha acontecido em palco, o momento bem mais provocante do que era suposto, mas os fãs não estavam a queixar-se bem pelo contrário e por isso, o espetáculo devia continuar.

O Ómega ajustou as faixas para voltar a cobrir totalmente os olhos e retirou os caninos falsos, enquanto Ethan e Jay avançavam para dar início à próxima música. Enquanto, ele se preparava para o momento em que tivesse que atuar novamente e o seu olhar se perdesse na multidão, encontrando logo nas primeiras filas os olhos verdes que tanto quis esquecer.

Cantar com o grupo era mais fácil para não ceder à tentação de procurá-lo no público, mas quando chegou o momento de canções a solo, soube que iria cometer o mesmo erro.

Entretanto no público ao lado de Nicole, Olga e o namorado da mesma, Daniel; Eren acompanhava a letra mais lenta e num rimo de balada era cantada por Rivaille. Era incapaz de desviar o olhar dele não fosse pelas faixas, acreditaria que o cantor também olhava na direção dele.

Anata ga mata waratte kuretara

Kitto sore dake de

E se sorrisses outra vez para mim

Tenho a certeza de que não precisaria de mais nada

- Esta música é tão linda! – Dizia Olga.

- Ele tem uma voz maravilhosa! – Elogiava Nicole.

E numa das laterais não muito distantes, encontrava-se Hanji que vendo como o concerto estava prestes a encerrar, decidiu que aquele seria o momento.

- Agora, enquanto se dão os últimos gritos, vamos raptar aquele moreno… temos muito, muito que conversar. – Comentava ao lado de um Alfa de olhos azuis.

- Hanji deixa-me ser o primeiro a abordá-lo e cuida dos Ómegas e daquele Alfa que parece que estão a acompanhá-lo. Quero falar com ele primeiro e saber se realmente o meu filho tem ou não razão em manter-se distante dele.

- És o melhor pai do mundo, Axel!

O Alfa riu e fez sinal de silêncio.

- Apenas quero fazer o que é certo e a forma como estava a olhar para o meu Levi… leva-me a pensar que há muita coisa por explicar.


-X-

Preview:

(…) Não parava de falar e o Alfa mantinha a mesma expressão irritada e aproximava-se mais e mais dele que recuava. – Não sei se julgas que estás em algum pedestal, mas para mim… - Chocou contra a proteção de metal que havia naquela zona e a mão do moreno chocou mesmo ao lado do seu rosto.

- Cheiras a outro Alfa. Não o dessa Marca nojenta, mas outro. – Murmurou. – Namorado?

- E se for? – Provocou, recusando-se a abaixar o rosto.

- Também recuas assim perante ele? – Pronunciava as palavras bem próximas ao rosto do Ómega. - Também tremes assim com a proximidade dele? (…)