Capítulo Quarenta e Seis
Mothers And Aunts
(Mães e Tias)
Remus bocejou e virou, piscando até acordar. Ficou imediatamente ciente de que não estava em sua cama e começou a entrar em pânico, pelo menos até que identificou o cheiro do quarto. Dora. Ela não estava no quarto com ele, mas fora ela quem o levara até ali, lembrou-se. Ela o levara para sua casa — bem, a casa dos pais dela — na noite anterior e Andromeda os alimentara e os mandara para a cama logo depois.
Remus estivera cansado demais para discutir e permitira que Dora o levasse até o quarto de hóspedes. Lembrou-se de ter se sentado na cama e de mais nada. Ele devia ter adormecido — ou desmaiara de exaustão — assim que tocara o colchão.
Um pequeno relógio no criado-mudo lhe disse que passava das nove e Remus suspirou; metade da manhã já tinha passado e ele ainda tinha muito o que fazer; precisava contar a Matt sobre Greyback, precisava se encontrar com Dumbledore para discutir algo sobre Harry, precisava visitar Harry — que estava seguro, mas louco de preocupação com Sirius —, precisava visitar Sirius, porque Sirius — ao contrário de Harry — não estava seguro, mas certamente não parecia nem um pouco preocupado. Remus tentaria lhe dar mais informações sobre Harry — sabia que Sirius ia querer — e esperava conseguir fazê-lo sem precisar gritar para acabar com as desconfianças de Dumbledore.
Tanto para fazer... Remus pensou tristemente, sem querer sair da cama, mas sabia que devia. Antes de fazer qualquer coisa, iria para casa trocar de vestes; usava o mesmo par há dois dias.
Suspirou e colocou os pés para fora da cama. Então, algo pequeno e marrom-avermelhado pulou de debaixo da cama e atacou seu tornozelo com dentes e garras afiados. Jogou-se na cama, cobrindo os pés para protegê-los. Seu assaltante fugiu do quarto com um sibilar.
Acho que acabei de conhecer o gato da Dora, pensou, estupefato, ao inspecionar as marcas de mordida em seu tornozelo.
Remus ouviu o som de passos — interrompidos de uma forma engraçada pelo baque de uma mão na parede, o que ele achou significar que Dora tinha tropeçado — e, então, bateram na porta. Antes que pudesse abri-la, entretanto, ela foi aberta para permitir a entrada de Andromeda, não de Dora. Andy — que devia ter sido quem tropeçara — segurava uma pilha de roupas e pareceu surpresa por ele estar acordado.
— Oh — ela disse. — Está acordado.
— 'Dia — disse, sorrindo para ela. Ela retribuiu o sorriso e colocou a pilha de roupas na ponta da cama e lhe entregou um envelope. — Obrigado? — disse, erguendo uma sobrancelha.
— Acredito que isso possa explicar as coisas melhor do que eu — Andy disse brevemente, indicando o envelope. Ele o virou e viu a letra de Dora na frente. — Eu te oferecia café da manhã, mas parece que não tenho permissão.
— Eu... O quê?
— Não tenho a menor ideia, mas ela deve explicar — suspirou, apontando para a carta. Ela se virou como se fosse sair e parou, olhando para Remus novamente. De repente, seu cheiro era nervoso. — Remus — disse, hesitante —, eu... Você esteve no Ministério ontem, não é?
— Sim, eu vi Sirius — respondeu, adivinhando a próxima pergunta. Os olhos de Andy, cinzentos como os de Sirius, encheram-se de lágrimas.
— Eu sei que você provavelmente... eu não devia perguntar... mas você entende, não é? Você também o conhecia... melhor do que eu, provavelmente. Mas... pode me dizer... Ele... Ele mudou? — perguntou.
— Nem um pouco — Remus respondeu com gentiliza.
Andy fechou os olhos por um momento, respirou fundo e voltou a abri-los. Ela parecia... determinada e Remus se viu lembrando-se que, por mais que Andy fosse mais gentil do que Narcissa ou Bellatrix, ela ainda era uma Black, ainda era uma Sonserina e ainda era uma mulher formidável.
— Obrigada — disse. Ela lhe ofereceu um sorriso fraco e saiu. Confuso, Remus abriu o envelope.
Remus, estava escrito na carta.
Se ainda não percebeu, eu fui trabalhar. Eu mandei uma carta para o Matt — você pediu para encontrá-lo para o café da manhã no Caldeirão Furado às nove e meia. Espero que a mãe tenha te acordado a tempo e tenha lhe dado uma troca de roupas.
Dumbledore também apareceu. Ele precisa que você esteja no Ministério ao meio-dia para encontrar com Petunia — não sei o sobrenome dela, ele não o falou, mas ele disse que você saberia de quem ele está falando.
Estarei no Ministério até a uma hora, mais ou menos, então, se já tiver terminado sua reunião, podemos nos encontrar para o almoço? Dê sua resposta à mãe — parece que a verei mais no fim da manhã — e ela pode me avisar.
Dora.
Várias coisas faziam mais sentido agora do que há alguns minutos. Remus olhou para o relógio no criado-mudo — eram nove e vinte, o que lhe dava tempo o bastante — e fuçou nas roupas que Andy lhe trouxera.
Havia uma calça jeans gasta que devia ter pertencido a Ted anos atrás — o homem que vira brevemente na noite anterior era um pouco cheio demais na cintura para que essa calça ainda lhe servisse — e um par gasto de vestes azuis escuras que provavelmente também tinham sido de Ted. O último item era uma camiseta, na qual um bilhete tinha sido preso.
Era para eu ter te dado a camiseta de presente de aniversário, mas acabei guardando no lugar errado. Pessoalmente, Remus achava que as vestes novas e a barra de chocolate do tamanho de um travesseiro tinham sido o bastante para seu aniversário no mês anterior — estes presentes mais os de Sirius e Harry tinham sido mais do que Remus ganhara de aniversário desde que seus pais morreram. Antes tarde do que nunca, eh?
Com um medo cada vez maior, Remus a desdobrou.
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Havia algumas mechas grisalhas em seu cabelo castanho claro, mas fora isso, Andy não mudara. Ela ainda era alta e ainda tinha as maçãs do rosto pronunciadas e os mesmos olhos cinzentos.
Ela ainda se portava como uma sangue-puro — e quando ela tropeçou na soleira, Narcissa viu que ainda era desastrada. A única coisa nova nela, na verdade, eram as linhas de risada nos cantos dos olhos e da boca. Ela não olhou nenhuma vez na direção de Narcissa, mas sabia que Andy tinha que saber que estava ali.
Uma moça — a filha Nymphadora, se Narcissa estava correta — a seguiu para dentro. Ela era muito parecida com Andy, com seus olhos cinzentas e o rosto no formato de coração, mas seu cabelo era muito mais parecido com o que Narcissa se lembrava de Ted e Nymphadora não parecia ter herdado a altura de Andy. Assim como Andy, Nymphadora tropeçou ao entrar.
— E ainda assim, elas vão jurar até ficarem com o rosto azul que não são nada parecidas — comentou Ted Tonks ao entrar pela porta, sem tropeçar, atrás de sua filha e esposa. Sua barriga estava mais redonda do que a última vez que Narcissa o vira e seu cabelo estava um pouco mais ralo, mas sua voz melodiosa e péssimo senso de moda eram os mesmos; ele usava uma graveta amarela e preta, uma camisa listrada branca e azul e calça marrom. A filha parecia ter herdado o senso de moda dele; usava uma saia xadrez vermelha, meia-calça preta, botas de cano alto cheias de fechos e uma camiseta amarela com uma enorme girafa rosa.
— Com o rosto azul, eh? — Nymphadora perguntou, dando um sorriso afetado ao pai. — Assim...?
— Nymphadora, não! — Andy repreendeu, virando-se para eles. Ted e Nymphadora se entreolharam e (na opinião de Narcissa, sabiamente) não discutiram nem fizeram seja lá o que estivessem planejando. — Madame Umbridge — Andy disse, oferecendo um sorriso amigável a Umbridge. Ela lhe ofereceu uma mão. — Andromeda Tonks. Esse é meu marido, Ted, e minha filha...
— Tonks — Nymphadora disse, sendo mais rápida que sua mãe.
— ... Nymphadora — Andy suspirou e Narcissa não tinha certeza se ela estava terminando a apresentação ou falando com sua filha.
— Maravilhoso — Umbridge disse em sua voz de menina. — Sente-se, por favor, senhora Tonks. — Para o completo choque de Narcissa, Andy se sentou ao seu lado ao invés dos outros assentos livres.
— Narcissa — Andy disse, educada. — Lucius. — Lucius, sentado a dois lugares de Narcissa e ao lado de Hydrus, assentiu, tenso. — E como vocês estão, garotos? — Hydrus torceu os lábios e olhou para seu pai, que tinha a mesma expressão. A expressão de Draco era a mesma até Narcissa o cutucar e o repreender com o olhar. A malícia sumiu facilmente e (aparentemente se dando conta de que podia olhar para uma traidora de sangue sem se sentir enojado) Draco a substituiu por uma expressão pensativa.
— Bem, obrigado — ele respondeu num tom frio, mas educado.
— Nós vamos o quê?! — Nymphadora exclamou do outro lado de Andy. Ted disse algo em voz baixa, mas Narcissa ouviu distintamente as palavras "adotar" e "Potter". Umbridge os olhou com menosprezo e ajeitou as vestes rosas.
Augusta Longbottom chegou logo depois e se sentou do outro lado de Ted com um cumprimento animado. Ela era uma mulher muito alta e ossuda, mas nenhum pouco frágil. Ela tinha um gosto pior que o de Ted e Nymphadora, com seu chapéu de águia e bolsa vermelha lustrosa. Seu neto, um garoto gorducho de rosto redondo com enormes olhos castanhos e cabelo loiro, entrou depois dela.
Neville era seu nome — Narcissa não esqueceria nem se tentasse, não quando o garotinho tinha sido deixado mais ou menos órfão por sua irmã. Augusta também não se esquecera; ainda que conversasse com Ted e Nymphadora, ela ignorou Andy completamente e nem sequer olhou na direção de Narcissa. Não podia culpá-la.
— Mãe, estou entediado — Draco disse, cutucando-a.
— Não é apropriado dizer isso — Hydrus sibilou e Draco o olhou brevemente.
— Não estava falando com você, então por que não cuida...
— ... Auror, como meu Frank! — Augusta disse em voz alta. — Você deve ser brilhante, então, querida!
— Er... — Nymphadora gaguejou e o pequeno Neville ofegou quando o cabelo dela ficou rosa. — Eu me dou bem, acho...
— Tonks? — O rapaz que carregava uma bandeja de chá parou e olhou para Nymphadora, apesar de os três Tonks terem se virado.
— E aí, Alfred — Nymphadora disse, nervosa. O homem, Alfred, colocou a bandeja ao lado de Umbridge e puxou Nymphadora para um abraço apertado. — Como você está?
— Muito bem, obrigado — Alfred disse com entusiasmo. — Você?
— Hem, hem — Umbridge disse e Alfred fez uma careta, antes de ir se sentar ao lado dela. Umbridge rabiscou algo em um pedaço de pergaminho preso a uma prancheta e Alfred corou.
— Chegamos, minha querida — Dumbledore disse, acompanhando uma mulher velha e curvada para dentro da sala. Narcissa nunca vira a mulher antes, mas achou que ela devia ter uns noventa anos. A mulher olhou para o lugar vago ao lado de Neville e para o lugar vago ao lado de Lucius. Então, ela se sentou ao lado de Lucius, parecendo arrogante.
Amelia Bones, Rufus Scrimgeour e Thomas Rattler também entraram e se sentaram; Bones se sentou ao lado de Neville, com Rattler ao seu lado, enquanto Scrimgeour se juntava a Dumbledore do outro lado da mulher velha.
— Estão todos aqui? — Umbridge perguntou, sorrindo para todos eles.
— ... idiota. Não é como se pudessem falar se não estivessem — Draco murmurou e Narcissa o repreendeu com o olhar. Felizmente, Umbridge pareceu não ter ouvido, apesar de Nymphadora ter abafado uma risada ao lado de Andy.
— Falta uma... — Dumbledore começou, mas Umbridge o interrompeu com uma careta.
— Bom. Vamos começar, então. Senhora Pettigrew, sua justificativa?
Certamente não... Narcissa voltou a olhar para a dita senhora Pettigrew. Com seus olhos claros e pequenos e nariz pontudo, ela podia ser a mãe de Peter Pettigrew... mas a mãe de Pettigrew era mais nova que a mãe de Narcissa — que tinha completado sessenta anos no fim do ano anterior — e a mulher ao seu lado parecia ter noventa anos.
— O quê? — a mulher, a senhora Pettigrew, disse numa voz aguda, levando uma mão ao ouvido. — Fale mais alto, mulher!
— Eu a convidei a apresentar suas justificativas — Umbridge disse, olhando com desgosto para Pettigrew.
— Oh — a senhora Pettigrew disse, levantando-se novamente. — Bem, estou certa de que todos se lembram que perdi meu Peter — então era ela. A mãe de Peter Pettigrew. Narcissa achou que a dor de ter "perdido" o filho devia tê-la envelhecido. Lucius diria que era uma genética ruim (ela era nascida muggle, se Narcissa se lembrava corretamente). Como se combinado, Lucius encontrou seu olhar — para aquele monstro, Sirius Black. Acho que é justo eu ficar com o filho dele, para substituir o filho que ele me roubou.
Lucius tossiu e Narcissa revirou os olhos para ele, mas também tinha dificuldade em manter o rosto inexpressivo. Não tinha muita paciência para o drama, especialmente quando sabia não existir um bom motivo para tanto.
— Desculpe — Lucius disse quando todos (exceto Pettigrew, que continuava com seu discurso) se viraram para ele. — Engasguei com alguma coisa.
Sim, Narcissa pensou. Com uma risada. Apesar de não saber o que seu pai achara engraçado, Hydrus reconheceu o leve tom de zombaria na voz de seu pai e riu.
—... nenhuma dúvida das minhas habilidades maternas — a senhora Pettigrew disse, fungando. — Meu Peter é uma prova das minhas habilidades como mãe... — Dessa vez, Narcissa bufou; parecia, então, que a senhora Pettigrew era uma péssima mãe. Ela conseguira criar um filho que causara a morte de dois amigos, armara para o terceiro, deixara um bebê órfão e planejara o assassinato do quarto amigo. Ele também fingira a própria morte, passara anos vivendo como o animal de estimação dos Weasley (pensar nos Weasley não tinha sido tão carregado de malícia quanto outrora agora que Draco provavelmente acabaria morando com eles), apenas para fugir deles e ir se esconder como um animal de estimação na casa de Narcissa.
Seria hipócrita se julgasse Pettigrew por jogar nos dois lados até ter certeza de que sobreviveria — ela estava fazendo, ou planejando fazer, a mesma coisa agora —, mas ela, pelo menos, tinha sua família em mente. Pettigrew pensara apenas nele mesmo e, honestamente, não achava que ele valia mais do que os Potter ou Sirius valeram.
Não se importava muito com Lupin — havia algo estranho nele, mas James Potter tinha sido um Auror e tinha muito talento mágico, ainda que fosse um traidor de sangue. E, por mais sujo que seu sangue tenha sido, Lily Potter soubera curar e essa era uma habilidade admirável, não importava quem a possuísse; era possível que Narcissa a achasse ainda mais admirável por ela mesma ter pouca habilidade nessa área.
Sirius, é claro, era um traidor de sangue — e tinha traído a própria família —, mas ele, como James, tinha sido um Auror e um bruxo muito talentoso. Se Bella tivesse conseguido "podar a árvore da família", como ela amava dizer, Narcissa poderia ter aceitado isso. Até teria encorajado, pelo menos até recentemente — a opinião que tinha de Sirius era confusa no momento, especialmente por que ele era (ou tinha sido) o guardião do menino de quem tantas esperanças suas dependiam. Os problemas familiares deviam ficar na — e ser lidados pela — família. E Pettigrew, apesar de quão próximo tinha sido de Sirius, não era da família. Ele não tinha o direito de armar para um Black.
— ... Grifinório corajoso! — A senhora Pettigrew soltou um soluço alto e um Dumbledore melancólico esfregou seus ombros quando ela se sentou. Narcissa revirou os olhos.
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Tonks verificou seu Auxiliar e gemeu; estavam nesse escritório minúsculo e abafado há vinte minutos e já parecia fazer vinte horas. Depois da senhora Pettigrew ter dito o que tinha vindo dizer, os Malfoy tinham se levantado. Lucius tinha tagarelado sobre boas linhagens de sangue e como ele e sua esposa podiam dar uma boa criação a Harry. Narcissa falara do lado financeiro das coisas. Tonks achou que parecia muito que ela estava tentando subornar Umbridge e as expressões amarguradas nos rostos de Scrimgeour e Bones disseram à Tonks que eles pensavam o mesmo. Tonks ficou aliviada com isso; se Scrimgeour e Bones não gostassem dos Malfoy, era improvável que Harry acabasse com eles.
Foi, então, a vez de seus pais; eles falaram rapidamente de como poderiam dar uma casa cheia de amor a Harry e começar a endireitar algumas das coisas que o primo afastado de sua mãe tinha feito. Tonks só ficara feliz por eles não quererem que ela falasse; tinha acabado de ficar sabendo desse plano maluco de adoção de sua mãe e ainda estava tentando processá-lo. Augusta Longbottom foi a quarta e última pessoa a falar; ela falou algo sobre proteções poderosas e sobre colocar Harry e Neville no mesmo lugar, uma história familiar forte, e o pequeno Neville disse que gostaria de ter um amigo.
Umbridge ficou em silêncio por um tempo — ela escrevia algumas coisas e Alfred lia sobre o ombro ela, parecendo pensativo — e Scrimgeour e Dumbledore conversavam em voz baixa. Então, Umbridge ergueu os olhos e anunciou que era hora das perguntas e as coisas foram de mal a pior a partir disso.
Tudo teve um começo inocente; Bones perguntou — e precisou repetir a pergunta duas vezes — se a senhora Pettigrew honestamente achava que daria conta de voltar a viver com um menino.
— Eu estou mais preocupada com a sua capacidade financeira de sustentar o menino — Narcissa disse. — E seus motivos, é claro.
— Oh, como se você fosse tão pura — sua mãe murmurou e Tonks a olhou, surpresa.
— Eu quero o que é melhor para o menino — Narcissa disse, erguendo uma sobrancelha, e, estranhamente, Tonks acreditou nela.
— Ele cresceria em um ambiente seguro — Lucius apressou-se a acrescentar. — A mansão é segura contra intrusos...
— É do que está dentro da mansão que o menino precisa ser protegido — Augusta disse. Ao contrário de sua mãe, ela não se deu ao trabalho de abaixar a voz.
— Está sugerindo que machucaríamos o menino? — Lucius perguntou suavemente, enquanto Narcissa enfurecia-se. — Eu tomaria cuidado com o que está deixando implícito, madame Longbottom, especialmente quando você levou seu neto quase afogado para o St. Mungo's há três meses...
— Só sabe disso porque o seu filho também estava doente — Augusta repreendeu. — Rita Skeeter escreveu um artigo particularmente bom sobre as possíveis causas...
— Eu não discriminaria como esses dois — a senhora Pettigrew apontou para Lucius e Augusta, fazendo a boca larga de Umbridge se esticar em um sorriso. Tonks se perguntou por que ela estava permitindo que isso acontecesse e chegou à conclusão de que ou todas suas perguntas estavam sendo respondidas na discussão, ou era como o teste de aptidão dos Aurores — se criasse o menino.
— Deixando implícito de o que faz o resto do tempo? — Narcissa foi rápida ao responder e a senhora Pettigrew corou.
— O jovem Potter encontraria amigos em Hydrus e Draco — Lucius adicionou suavemente.
— Ou em Neville — Augusta disse. Neville corou.
— Nymphadora será uma irmã mais velha maravilhosa — a mãe disse e Tonks a olhou; tinha certeza de que apenas o venceria no xadrez, compraria doces para ele e lhe ensinara a amaldiçoar pessoas de quem não gostasse.
— Ele se beneficiará mais da companhia de crianças da própria idade — Lucius disse, gesticulando para os primos de Tonks.
— E daremos nosso melhor para não termos favoritos — Narcissa adicionou. Scrimgeour e Bones bufaram ao ouvir isso (Rattler franzia o cenho) e Lucius olhou para sua esposa. Tonks se perguntou se Narcissa tinha percebido que essa tinha sido a segunda vez que ela mencionara coisas, como dinheiro e favoritismo, que provavelmente fariam com que Scrimgeour, Rattler e Bones ficassem contra ela.
— Toda criança precisa de um exemplo — o pai disse, surpreendendo Dora; imaginara que essa tinha sido ideia de sua mãe, mas talvez seu pai também quisesse Harry. Devia querer, ou permitiria que a mãe falasse. — E quem melhor do que uma Recruta dos Aurores?
— Sim, encoraje o menino a arriscar a vida — Lucius disse de maneira fulminante. — Esse é um bom jeito de mantê-lo seguro.
— E acha que ele estará mais seguro com você...
— Agora, Andy — Narcissa disse —, sabe que essas acusações nunca pegaram. — Tonks voltou a olhar para sua tia; algo estava acontecendo. Ela quase imaginou que Narcissa não queria Harry, porque ela parecia estar lembrando Bones, Rattler e Scrimgeour de vários motivos para não permitir que Harry ficasse com os Malfoy. Mas isso era idiotice. De acordo com sua mãe, Narcissa não tinha nem uma pitada de independência em seu corpo, então se Lucius queria Harry (o que ele certamente parecia querer), Narcissa também iria querer. Talvez sua mãe estivesse errada quando tinha dito que Narcissa era esperta.
— Não quer dizer que não eram verdadeiras! — Augusta disse. — Todo mundo sabe que você e sua irmã...
— Eu quero o menino! — a senhora Pettigrew disse num guincho. — Ele é meu por direito... É o justo. Eu perdi meu filho para o Black e agora ele pode perder o filho dele para mim...
— É Harry Potter, não Harry Black, sua idiota… — a mãe começou, mas foi interrompida; a porta foi aberta para revelar duas pessoas, uma das quais era a última pessoa que Tonks imaginaria que apareceria para demonstrar interesse em adotar Harry Potter.
Era Snape, seu antigo professor de Poções. Ele ainda tinha a mesma aparência, desde o cabelo oleoso e nariz de gancho até os lábios crispados e expressão de completo desdém. A mulher que estava com ele era alta, magra e loira, e Tonks tinha certeza de nunca a ter visto antes. Será que era a esposa de Snape? Snape não usava uma aliança de casamento, mas a mulher, sim.
A esposa de Snape... Agora, essa é uma ideia perturbadora. Não era a única confusa pela presença da mulher; Alfred tinha uma expressão enjoada e Tonks se perguntou se ele também chegara à conclusão de ela ser a esposa. Todos os outros — exceto Dumbledore — pareciam confusos, mas foi a expressão confusa de Lucius que pegou Tonks desprevenida; a mulher não podia ser a esposa de Snape ou Lucius teria a reconhecido. Narcissa só parecia pensativa.
— Ah! — Dumbledore disse, parecendo deleitado. — Assumo que não tenham tido nenhuma dificuldade para chegar aqui.
— Nenhuma — Snape disse e olhou para a mulher. — Sente.
Mas ela não se sentou. Em vez disso, ela tirou um pedaço de papel dobrado da bolsa e o ofereceu a Dumbledore, que o leu rapidamente e assentiu, antes de entregá-lo a Umbridge. O rosto de Umbridge ficou lentamente vermelho e Alfred se afastou dela.
— O que é isso?! — Umbridge cuspiu, parecendo furiosa.
— Esses são os formulários que confirmam a minha custódia do menino — a mulher disse, crispando os lábios. Tonks se perguntou exatamente quem era essa mulher. — Acredito que esteja tudo em ordem?
— São muggles...
— Dolores, sabe tão bem quanto eu que nós respeitamos a legalidade muggle no nosso sistema legal — Dumbledore disse agradavelmente. Amelia e Rattler assentiram (mas foram cautelosos, pois não tinham certeza de com que estavam concordando) e Scrimgeour observava tudo com os olhos cerrados.
— E você... você é ela? — Umbridge perguntou por fim. Ela colocou os papéis na mesa e alisou as dobras com os dedos gordinhos. — Você é Petunia Dursel?
— Dursley — a mulher respondeu, tensa. Tonks se perguntou se era com essa mulher que Remus tinha de se encontrar mais tarde.
— Uma muggle? — Lucius perguntou, crispando os lábios. O primo sentado perto dele imitou sua expressão, enquanto Narcissa e o outro primo de Tonks estavam impassíveis.
— Foi o que me disseram — a senhora Dursley respondeu arrogantemente, e o pai sorriu. A senhora Dursley pareceu achar que ele zombava dela, entretanto, e o olhou com raiva e vergonha. Então, ela fixou os olhos pálidos em Umbridge. — Tem mais alguma pergunta idiota ou posso ver meu sobrinho agora?
Os olhos de Dumbledore brilharam e ele definitivamente tentava esconder um sorriso sob a longa barba. Umbridge leu os documentos mais uma vez e, então, com uma expressão de desprezo — que foi retribuída — para a senhora Dursley, jogou as mãos para cima.
— Está bem — disse a contragosto. — Essa reunião está adiada até as duas horas. — Pegou os documentos e os entregou a um Rattler surpreso. — Verifique se tudo está em ordem, pode ser? Odiaria que a senhora Dursley não recuperasse o sobrinho.
Mentirosa, Tonks pensou. Umbridge provavelmente queria que procurassem uma maneira de impedir que Harry fosse com a senhora Dursley. Com um sorriso largo e adulador para a mulher em questão, Umbridge foi até a porta com um floreio.
— Depois de você, querida.
— Obrigada — a senhora Dursley respondeu, crispando os lábios. Seus olhos cerrados encontraram Snape. — Snape, você vem?
E, então, completamente chocada e confusa, Tonks observou Snape — um homem que ganhava a vida assustando aos alunos de Hogwarts e tinha amigos como os Malfoy — levantar-se e segui-la — a uma mulher muggle de meia idade — com uma expressão de completo desprezo no rosto.
Pelo chapéu púrpura e pontudo de Merlin, o que acabou de acontecer?
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— Tia Petunia? — Harry perguntou, erguendo a cabeça tão rápido que ela achou que os óculos dele cairiam. Sua expressão foi de chocada para confusa para preocupada e, por fim, seu rosto era inexpressivo antes mesmo que ela pudesse começar a pensar por que ele estava assim. — O que está fazendo aqui?
— Olá para você também. — Torceu o nariz. Ele se levantou e lhe ofereceu a cadeira em que estivera sentado, antes de arrastar três cadeiras menores de um canto. Ela se deu conta de que Snape e a mulher de rosa tinham entrado com ela.
— Oi — ele disse, voltando a parecer incerto.
— Potter — Snape e a mulher de rosa falaram em uníssono.
— Você é um Auror? — Harry perguntou, olhando para Snape.
— Você sabe quem eu sou — Snape repreendeu.
— Acho que nunca nos encontramos, senhor — Harry disse, ansioso, olhando para a mulher de rosa pelo canto dos olhos. — Não temos muitos visitantes, sabe, porque estivemos nos escondendo... Talvez nos conhecemos quando eu era um bebê...? Quer dizer que conhecia meus pais? — A ordem para que ele não fizesse perguntas estava na ponta da língua de Petunia, mas então ela se lembrou de que não era mais problema seu. Não tinha nada a esconder (ele provavelmente já sabia mais sobre este mundo e seus pais do que ela) e o comportamento dele não refletia mais nela. Era claro que Snape estava confuso, mas Petunia não se importava que o menino o deixava desconfortável.
— Ele era um amigo de sua mãe — Petunia disse. Surpreendeu-se ao oferecer a informação, mas era uma sensação melhor do que a esperada compartilhar isso com alguém (Lily não era um assunto proibido aqui) e gostou da maneira que a expressão de Snape virou uma de amargura.
— Mesmo? — Harry perguntou, sustentando o olhar de Snape. Snape foi o primeiro a desviar os olhos e Petunia sentiu uma pontada de pena pelo homem; ela também nunca conseguira olhar naqueles olhos por muito tempo. Não sem ver Lily e perguntar-se se sua irmãzinha a condenava pela maneira que ela e Vernon trataram o menino. — Terá que me contar sobre ela algum outro dia, senhor. — Snape não respondeu. Harry não pareceu afetado pela falta de resposta ou o olhar duro que recebia; no mínimo, ele parecia se sentir divertido.
Ele parecia bem, Petunia ficou chateada ao notar. Ele ainda estava magro, mas não de jeito pouco saudável, e ele crescera vários centímetros. Achou que ele já estava mais alto do que Dudley. Era irritante por que, em um ano sob os cuidados de um homem supostamente cruel e assassino, ele estava muito melhor do que já estivera quando era responsabilidade dela cuidar dele. Sabia que não tinha sido a melhor guardiã, que não o tinha alimentado o bastante, que não o amara o bastante — não o amara, na verdade —, mas vê-lo assim... Era como se todos os erros que cometera com ele estivessem sendo jogados em seu rosto.
Ela e Vernon tinham feito tudo o que podiam para atormentar a vida dele e aqui estava ele, contrariando-os com sua felicidade. Isso irritava um pouco Petunia, mas ela também sentiu algo caloroso aquecer seu peito.
— O Padfoot... quero dizer, ele... Sirius... está bem?
— Como eu saberia? — ela perguntou.
— Não sei — ele murmurou. — Desculpe. — Ele olhou para suas mãos por um longo momento, seu rosto inexpressivo novamente. Quando ele ergueu os olhos, Petunia não conseguia olhá-los; manteve o olhar fixo no nariz dele e esperou que ele não notasse. — Então, você veio... Quero dizer, veio para me levar embora? — Notou que o menino tinha dito "embora" e não "para casa", ou a maneira que o maxilar dele estava tenso, do jeito que ela vira o pai dele fazer uma vez.
— Acho que será melhor se eu lidar com ele sozinha — Petunia disse. A mulher de rosa franziu o cenho, mas não discutiu. Ela marchou para fora do escritório e Snape a seguiu. A porta foi fechada e Harry e Petunia ficaram em silêncio.
— Bem? — Harry incentivou educadamente.
— Não.
— Você... você não vai...
— Não vou te levar para casa comigo — Petunia lhe disse e Harry pareceu surpreso, chateado e aliviado ao mesmo tempo. Aliviado. Éramos realmente tão ruins com você? Não era uma pergunta que realmente precisasse ser respondida.
Harry precisou de alguns momentos para absorver isso antes de dizer:
— Então por que veio?
— Não foi uma visita voluntária, garanto — disse. Uma parte de sua frustração com toda essa bagunça da custódia (e a necessidade de Dumbledore e Snape de envolvê-la) apareceu em sua voz.
— Desculpe — Harry disse, parecendo falar sério.
— Está tudo bem — Petunia disse, surpreendendo-se. Ela não fora completamente honesta (não estava tudo bem) e, por mais que quisesse culpar o menino e Lily por isso, não parecia certo agora que Harry estava se desculpando. Ele também pareceu surpreso por ela ter dito isso e ficaram em silêncio. — Como você tem... estado? — perguntou por fim.
Viu os olhos de Harry brilharem — do jeito que os de Lily brilhavam antes de ela dizer algo mordaz e sarcástico — e se preparou. Quase pôde vê-lo engolir o que estivera prestes a dizer e suspeitou que era algo nas linhas de, o que você acha?
— Bem — respondeu um pouco tenso.
— Mesmo? — Petunia insistiu, incerta do porquê escolhera agora para demonstrar interesse nos sentimentos de seu sobrinho. Talvez fosse por que, em algumas horas, não voltaria a vê-lo. Ela seria a tia por sangue e nada mais.
— Sim — ele disse como se a desafiasse a contestar isso. Supôs que tinha desistido do direito de receber uma resposta honesta há anos, quando o mandara viver no armário sob as escadas.
— Era feliz? — perguntou.
— Onde? — ele quis saber, cauteloso. Seus olhos estavam cautelosos e curiosos, mas para Petunia eram uma sentença de Lily.
Conosco. Isso também não precisava de uma resposta, e Petunia achava que não ia querer ouvir a resposta que ele tinha para dar. Não tinha pensado que ver o menino novamente seria tão difícil, nem que a faria se questionar. Achara ter aceitado suas decisões há muito tempo.
— Com ele. Seu padrinho.
— Oh — Harry disse. Um dos cantos de sua boca se ergueu e seus olhos foram de um lado para o outro do pequeno escritório-prisão, mas não se focavam em nada.
— Bem? — disse um pouco duramente. Harry sorriu com isso, parecendo reconfortado pelo retorno de sua impaciência e irritação com ele.
— Sim — ele respondeu. — Eu era feliz.
Petunia assentiu e se levantou, apertando a bolsa no peito. Não podia garantir sua liberdade de toda essa bagunça até que todos concordassem que os formulários que entregara eram legítimos. Tinha algumas horas para matar, mas não ia fazer isso aqui. Duvidava que Harry a queria ali e, ainda que não fosse mais abertamente hostil, seus sentimentos confusos não tinham sido mudados num passe de mágica para fazê-la amá-lo e querer protegê-lo.
Olhou para o filho de sua irmã uma última vez e foi embora.
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A bolsa de Petunia Dursley continha um lenço adornado, um perfume, uma carteira cheia de dinheiro muggle e cartões, uma cópia da papelada que entregara a Umbridge, um espelho pequeno, um bloco de notas, chaves presas a um chaveiro da Grunnings, uma reportagem dobrada de uma revista de fofoca e um lápis com o nome "Dudley Dursley" gravado na madeira.
— Suas chaves e lápis têm que ficar aqui — Rufus disse.
— Mas...
— São armas em potencial, madame — ele disse e ela suspirou, mas não os colocou em sua bolsa. — O professor Dumbledore vai entrar...
— Não — ela disse. Albus não ficou surpreso. — Já me cansei de sua intromissão. Vou entrar sozinha, falar o que tenho para falar e depois vou para casa. — Albus trocou um olhar com Rufus, que deu de ombros e abriu a porta.
— Entre, então. Se ele tentar te matar, é só gritar.
Petunia o olhou com desprezo — era claro que ela não apreciara seu humor mórbido — e entrou na cela, a bolsa na mão.
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— Não achei nada de errado — Giovanna Zabini anunciou. Ela era a advogada de Lucius e ele insistira em convidá-la para ler os formulários da senhora Dursley com Bones e Rattler. Narcissa achou desnecessário, mas ela não queria o menino Potter e não gostava muito de Zabini.
— Eu também não — disse Podmore, convidado por Bones. Narcissa imaginou se ele chegara a ler alguma parte dos formulários; para ela, parecia que ele passara a maior parte do tempo olhando para Zabini, que não podia ser descrita como menos do que estonteante.
— Nada? — Umbridge perguntou, amargurada. Zabini balançou a cabeça apologeticamente, mas Narcissa duvidava que tal sentimento fosse sincero. Zabini trabalhava para, ou com, Lucius há dez anos e Narcissa só a vira ser sincera quando insultava alguém ou elogiava uma lei.
— Excelente — Dumbledore disse jovialmente. — Posso ir buscar Petunia?
— Vá — Umbridge disse e Dumbledore se levantou, sorrindo, e saiu.
— Vamos buscar os meninos — Lucius disse, parecendo derrotado. Narcissa segurou sua mão e seguiram Dumbledore para fora. — Onde sua irmã ia levá-los?
— Para almoçar — Narcissa disse; os dois tinham aguentado até a uma hora, mas aí Draco começara a reclamar que estava entediado e com fome e Andy, que tinha acabado de se levantar para ir almoçar, oferecera-se para levá-los com ela. Narcissa prefira ter ido com eles; certamente teria sido mais agradável do que passar mais uma hora numa sala com Umbridge, enquanto Zabini, Podmore e os funcionários do DELM discutiam leis.
— Sinto muitíssimo por não ter podido ajudá-lo mais, Lucius — Zabini disse e Narcissa revirou os olhos quando a outra mulher os alcançou. — Harry Potter teria sorte se morasse com você e seus filhos.
— O que você sabe sobre filhos e o bem-estar deles? — Narcissa riu.
— Meu filho...
— Você tem um filho? — Narcissa perguntou, chocada.
— Blaise. Ele é alguns meses mais novo do que seu primogênito — Zabini disse recatadamente. — E eu sei o bastante sobre crianças para saber que é melhor que ele fique com o pai.
— Impressionante — Narcissa disse astutamente e, então, piscou. Seu choque estava no rosto de Lucius, mas ele o escondeu melhor. — O pai dele está vivo?
— Obviamente, ou Blaise não estaria morando com ele, não é?
— Sabe que não foi isso que eu quis dizer — Narcissa suspirou.
— Sei? — Zabini desdenhou. — Que fascinante; estava certa de que não tinha a menor ideia.
— Então talvez não seja tão esperta quanto gosta de pensar — Narcissa disse, feliz por ter conseguido dar uma reviravolta na conversa.
— Não — Zabini disse —, eu sou. — Narcissa bufou, mas não falou mais; não havia uma resposta segura para isso e suspeitava que Zabini sabia disso.
— Mãe! — Era Hydrus e ele soara profundamente aliviado. Andy e Ted pareciam irritados e Narcissa suspeitou que Hydrus estivera jogando os insultos de Lucius neles durante o almoço. — Pai!
— Vou deixá-los com seus filhos — Zabini disse com um sorriso condescendente; ela tinha deixado claro diversas vezes para Narcissa que ela não achava que a maternidade era uma maneira adequada para uma mulher gastar a vida. — Eu preciso voltar para meu trabalho — e lá estava. Narcissa lançou um olhar venenoso na direção da outra mulher quando ela deu um beijo em cada bochecha de Lucius e foi embora, os saltos estalando no chão.
Hydrus falava em voz alta com Lucius sobre o horror que tinha sido o almoço. Draco, entretanto, não estava com ele; ele conversava tímida, mas alegremente com Nymphadora e Lupin — que ela achou estar ali para ajudar com Potter — sobre Merlin sabia o quê. Talvez fosse sobre a camiseta ridícula de Lupin; Narcissa só o vira usar suéteres e vestes gastas, então não conseguia imaginar o que tinha o possuído para usar uma camiseta do As Pratas de Stumpp.
Era de um tom medonho de púrpura com um lobisomem selvagem na frente e uma lista de datas e locais de shows — As Pratas de Stumpp era uma banda de heavy metal. Lupin parecia tentar esconder a camiseta ao juntar as pontas de suas vestes, mas estava tendo pouca sorte. Narcissa torceu os lábios.
— Se estão aqui — Ted disse —, assumo que Potter vai voltar para a tia?
— A muggle — Lucius disse com desdém.
— Consigo pensar em lugares piores para ele ir — Narcissa disse com um olhar duro para Lucius.
— Eu também — Lucius respondeu, olhando para Lupin, que corou e abaixou os olhos. Narcissa achou isso estranho; a última vez que Lucius insultara Lupin, o outro homem ficara furioso e fizera uma pequena cena no Caldeirão Furado. Entretanto, Lupin só parecia resignado.
Nymphadora, por outro lado, cresceu impressionantemente — e literalmente. Ela cresceu vários centímetros — Lucius precisou erguer a cabeça para olhá-la — e seu cabelo estava no tom de vermelho de um tomate. Draco se afastou dela e foi para o lado de Narcissa, que colocou uma mão no ombro dele e, distraída, pensou que precisara encorajá-lo a ser corajoso.
— Como se atreve... — Nymphadora começou em voz alta, apesar das tentativas de Lupin em lhe dizer que estava tudo bem.
— Nymphadora! — uma voz gritou e era grossa demais para ser de Andy e muito áspera para ser de Ted; além do mais, os dois Tonks pareciam satisfeitos em permitir que sua filha gritasse com Lucius. Narcissa supôs que era uma vingança pelo comportamento de Hydrus durante o almoço.
— Espere, Olho-Tonto — ela ralhou e Draco se encolheu novamente quando o velho Auror mancou de um canto. — Estou ocupada tentando colocar um pouco de bom senso no meu tio idiota e arrogante. Você — adicionou, voltando-se para Lucius, que não parecia saber se devia se sentir insultado ou divertido.
— Eu preciso de você lá embaixo — Moody disse, segurando as vestes dela. — Agora. — Narcissa não conhecia o Auror Moody bem o bastante para reconhecer seu humor com base em seu tom de voz, mas algo fez Nymphadora se ajeitar.
— Está bem — ela disse, soltando-se dele. Moody gesticulou para que ela o seguisse, mas ela não o fez. Em vez disso, sacou a varinha e disse: — Parva Digitum — antes que qualquer um deles pudesse responder. Lucius não pareceu ser afetado. Então, uma expressão engraçada apareceu em seu rosto e ele caiu. Hydrus e Draco ofegaram e olharam feio para sua prima. Narcissa apontou sua varinha para a sobrinha, e a varinha de Lupin estava apontada defensivamente para Narcissa, porque Nymphadora já abaixara a dela. Narcissa encontrou os olhos de Lupin e os dois abaixaram as varinhas.
— Eu vou fazer com que seja expulsa do Programa dos Aurores! — Lucius rangeu os dentes, o rosto vermelho. Ele tentou se levantar, não conseguiu e desistiu. Andy abafou a risada e Narcissa a olhou com exasperação. — Família ou não, que Merlin me ajude...
— Faça uma denúncia, então — ela ralhou. — Mas é meu trabalho defender o público de ataques, sejam físicos ou verbais — adicionou duramente. — Então, acho que irá descobrir que minhas ações foram justificáveis, ainda que pouco ortodoxas. — Lucius abriu a boca. — Eu calaria a boca se fosse você — Nymphadora aconselhou. — Você já ameaçou uma Auror, o que é uma ofensa pela qual poderia prendê-lo...
— É uma Recruta — Lucius disse do chão. Narcissa se perguntou o que sua sobrinha tinha feito com ele, mas ele não parecia sentir dor. — Precisa de um Auror presente...
— Conveniente, não sou? — Moody rosnou, fazendo Narcissa pular; tinha se esquecido dele. E, pela maneira que Lucius empalidecera, ele também. — As acusações não iam pegar, garoto, mas será uma maldita inconveniência para você e nós estamos indo para as celas de contenção... — Lucius fechou a boca, mas seus olhos eram duros. — Foi o que pensei. Vamos, Ny...
— Se terminar isso, eu vou amaldiçoar você também — Nymphadora avisou. Moody riu e olhou para algo dourado, antes de empalidecer e inclinar a cabeça na direção do elevador.
Lupin hesitou antes de ir atrás deles, preocupado, com um:
— Olho-Tonto, disse cela de contenção?!
— Como ela se atreve a atacar o pai! — Draco disse, bravo, olhando feio para as costas de sua prima. Hydrus também parecia irritado e tentava ajudar Lucius a se levantar, mas Lucius cambaleava e voltava a cair. — Maldita traidora de sang...
— Não termine essa frase se sabe o que é bom para você — Narcissa o avisou e Draco a olhou com irritação. Desconfortavelmente ciente da expressão estupefata de Andy, Narcissa disse: — Foi algo cruel a se fazer, mas não foi porque sua tia se casou com um nascido muggle.
— Quis dizer um sangue-ruim — Hydrus corrigiu, fazendo Draco fechar a cara.
— Por que ele pode dizer sangue-ru...
— Conversaremos sobre isso em casa — Narcissa disse, já temendo essa conversa em particular. Hydrus lançou um olhar animado para seu irmão e Draco rosnou em resposta. Ignorando as risadas de sua irmã e o sorriso divertido no rosto de Ted, Narcissa voltou sua atenção para seu marido e juntou-se aos esforços dele de desfazer seja lá o que a maluca de sua sobrinha fizera.
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Tonks, Remus e Olho-Tonto saíram do elevador no andar onde as celas de contenção ficavam apenas para encontrar Scrimgeour, Shacklebolt, Ben, McDuff, Wright, Patel, Robards, McKinnon e um Curandeiro em vestes verdes parados em uma fila no corredor. Conseguia ouvir um homem gritando e barulhos altos de batidas. Também conseguia sentir os Dementadores — e vê-los flutuando ali perto —, mas tentou ignorá-los.
— Eles foram tudo o que pôde encontrar? — Scrimgeour perguntou sem perceber ou se importar com o fato de Remus não ser um Auror.
— São — Olho-Tonto disse.
— O que está acontecendo? — Tonks perguntou, indo até McKinnon e Ben.
— Sirius... bem, não temos certeza — McKinnon disse, os olhos fixos na porta no fim do corredor. — Pirou, Scrimgeour acha; ele está gritando, chamando pelos Aurores, e batendo na porta. Parece que já faz algumas horas. — Isso certamente explicava os barulhos.
— ... certeza de qual estado ele se encontra — Scrimgeour disse e Tonks começou a ouvi-lo. — Não queríamos nos arriscar a simplesmente entrar, o que é o motivo de terem sido chamados aqui. — Wright e Patel trocaram sussurros nervosos, mas Tonks não conseguiu ouvir as palavras. — Não irão atacar Black a não ser que ele ataque primeiro.
— Ouviu isso? — Robards murmurou e McKinnon o olhou duramente. Tonks se perguntou do que isso se tratava.
— Se ele for seguro, então Shacklebolt, Moody e eu veremos o que ele quer... Se não... Não é para Black sair daquela cela sob nenhuma circunstância...
— ... quero conversar! — Tonks ouviu Sirius gritar. — Não vou te atacar, só venha até aqui e...
— Iremos primeiro — Scrimgeour disse, indicando a ele mesmo, Shacklebolt, Olho-Tonto e McDuff. — Você pode ficar de olho nos recrutas para que eles não se metam em problemas. — Olho-Tonto assentiu. — Neles também — Scrimgeour adicionou, indicando Remus e o curandeiro.
Avançaram em conjunto, as varinhas sacadas e prontas, com três Dementadores na frente. Tonks crescera para que pudesse ver sobre a cabeça de todo mundo. Isso a transformava em um alvo, mas pelo menos saberia o que estava acontecendo.
— Afaste-se da porta, Black — Scrimgeour disse e pela pequena janela coberta de barras, Tonks viu Sirius se afastar. Ele sorria como um louco e isso a fez se sentir um pouco inquieta. Scrimgeour acenou a varinha para a porta e a abriu; os outros três Aurores entraram, formando um semicírculo ao redor de Sirius, que não pareceu nem um pouco incomodado. Ele parecia prestes a explodir de felicidade, o que era estranho, considerando sua situação e a proximidade dos Dementadores.
— O que você quer? — McDuff perguntou, desconfiada.
Sirius apenas sorriu e ergueu um pedaço de papel.
Continua.
