************************ Cap. 55 Maman Di - Parte 2************************
"A tensão que rondava Aquário e Peixes de repente teve o foco mudado quando o guardião daquela Casa sentiu um Cosmo se anunciar na entrada."
— Não acredito que esse mal caráter teve a pachorra de vir até aqui. — resmungou, e logo em seguida a voz de Misty de Lagarto foi ouvida fraca, ao longe, chamando a atenção de Hyoga e Camus.
— Afrodite! Posso entrar? — disse o cavaleiro de Prata que aguardava na entrada do Templo.
No quarto Camus olhou para o namorado e disse em tom cordial:
— Non crie caso, Ma fleur. Já disse que Misty se preocupou de verdade com você, e que me ajudou muito a conseguir ficar a seu lado enquanto estava internada naquele hospital. Dê uma trégua a ele.
— Você não tem ideia do que está me pedindo... — resmungou o sueco, mas sem querer de fato criar nenhum conflito, principalmente porque Hyoga estava ali, com seu Cosmo permitiu que Misty entrasse, e esse não se demorou a logo bater na porta de seu quarto — Entre Lagartixa.
Lagarto abriu a porta devagar e quando viu Hyoga e Camus ali sentiu um gosto amargo lhe subir pela garganta. Sabia que estavam ali, estivera vigiando os passos do francês entre as ruínas, mas vê-los junto de Peixes naquele cenário tão afetivo e nitidamente familiar sempre lhe causava extremo desconforto, este fruto da raiva e da inveja que sentia, e a qual conseguia dissimular com maestria. Menos para Afrodite.
— Bom dia! — disse sorrindo e fingindo surpresa — Oh, olha só quem está aqui! Olá Camus, oi Hyoga. Lembra de mim? — perguntou olhando para o garotinho com sua mais simpática fisionomia.
— Sim! Você é o Lobin! O tio Misty! — o pequeno russo respondeu.
— Que saudades de você! Vem cá me dar um beijinho vem! — disse Lagarto já abrindo os braços, e Hyoga na mesma hora pulou da cama e foi até ele executar o cumprimento, que foi mais caloroso do que Peixes gostaria que tivesse sido.
Quando se separaram Hyoga voltou para perto de Camus e segurou em sua mão, e Misty aproximou-se olhando para Afrodite. Reparou na joia belíssima em seu cabelo, na bailarina, e sua raiva apenas fez amargar ainda mais sua boca.
— Seja bem vinda de volta, Escamos... digo... nobre amazona de Peixes. — falou dando um risinho debochado — Como está? Está melhor, querida?
Diante da negação do pisciano em responder Camus tomou a frente.
— Agora está tudo bem. Afrodite está em casa e está se recuperando, non é, mon amour?
— Hum.
— Maman Di está dodói ainda, mas nós vamos cuidá dela, né papai? — disse Hyoga olhando para Camus, que pigarreou e respondeu com um aceno de cabeça afirmando que sim.
Aquilo não passou despercebido para Lagarto. Seu riso de deboche agora intensificara.
— Maman? — disse arregalando os olhos, enquanto Afrodite o encarava como quem olha para um inimigo e está pronto a dar o bote — Ora, ora! Quem diria! Agora então você tem uma nova mamãe, Hyoga! Que doçura! Não esperava menos de você, Afrodite. Sempre tão cheia de amor para com esse menininho... Você não podia ter escolhido mamãe melhor e mais competente, Hyoga.
Afrodite revirou os olhos apoquentado, depois voltou a encarar o Lagarto.
— Já viu o que queria, né? Agora pode ir. — disse o sueco.
— Credo, mas que grosseria, amazona. — deu uma risadinha — Não vai me servir nem um chá? Eu sou visita. Vim saber como está, te dar boas-vindas e saber se meu amigo fez os exames que o médico pediu. Com o coração não se brinca, heim Camus.
— E posso saber porque toda essa preocupação com o meu namorado, bicha? — retrucou o pisciano levando um beliscão de Camus.
— Shii, non use esses termos na frente do Hyoga, merde! — o francês sussurrou próximo ao ouvido do pisciano, depois olhou para Misty e levantou o tom de voz — Eu non fiz exame nenhum porque eu non tenho problema nenhum no coração. Era apenas estresse. Esses últimos dias foram pesados para mim.
— Mas uma coisa você tem que concordar, mon amour. Precisa largar o oxanã* e o padê*. Estou preocupada com você. Já teve dois siricuticos. — disse Afrodite segurando na mão do aquariano sem nem sequer desconfiar que a culpa maior dos siricuticos de Camus era de sua personalidade difícil e intempestiva e nem tanto do cigarro e da cocaína.
Camus meneou a cabeça negativamente enquanto Misty, todo sentindo-se em casa, sentou-se na borda da cama.
— Detesto ter de dizer isso, mas a bela amazona de Peixes tem razão. Precisa parar de fumar... E eu estou preocupado sim, porque Camus é meu amigo, oras, aceite você ou não.
Peixes não podia responder como queria já que Hyoga estava ali e muito do que diziam ele já era capaz de entender, e prevendo que não era prudente, mesmo Afrodite se contendo como estava, deixa-los muito tempo na companhia um do outro Aquário levantou-se da cama fazendo uma proposta para Misty.
— Oui. Somos amigos, e eu lhe sou muito grato por tudo que fez esses últimos dias por nós e por minha família, Misty... Quer me acompanhar até cozinha? Ma belle precisa seguir uma dieta rigorosa para se reestabelecer e está passando da hora de uma de suas refeições. Vou prepara-la, venha comigo.
— Ah, sim! Eu ajudo você, amigo. — Lagarto levantou-se da cama já se pondo ao lado do aquariano.
— Hyoga cuide da Afrodite, sim?
— Pode dexá, papai.— o menininho respondeu ajeitando-se do lado do sueco, que dardejava com o olhar os dois cavaleiros que saiam lado a lado do quarto, e quando ficaram sozinhos completou: — Papai também tlouxe um pesente po tio Misty. Tá lá na sala. — falou despretensiosamente enquanto ajeitava Dudu sobre o travesseiro.
— A Lagartixa não é seu tio, Hyo... — súbito Afrodite interrompeu-se franzindo as sobrancelhas e encarando o garotinho — Pérai... o que disse? O seu pai trouxe um presente para aquele mondrongo do Tejo?
— Pa quem?
— Para o Missssssssty.
— Tlouxe. Eu ajudei a emblulá. Tá lá na sala.
Após um momento em silêncio Peixes retirou-se dos cobertores rapidamente e desceu da cama.
— Amor da mamãe, não saia daí. Eu vou até a cozinha pedir para o seu pai não colocar... quiabo e mel... na minha sopa de... sei lá de quê, tudo bem? Eu já volto, é rapidinho. Não sai daí.
— Tá bom, maman Di. — Hyoga respondeu deitando-se ao lado do patinho de pelúcia, enquanto Afrodite já saia do quarto esbaforido.
Na sala Camus parou chamando a atenção de Lagarto.
— Misty, eu na verdade o chamei aqui para lhe dar isso. — disse caminhando até um balcão de mármore onde havia deixado quando entrou um pacote embrulhado em papel vermelho — Non é bem um presente, mas um gesto de gratidão. — estendeu o pacote ao cavaleiro que o pegou surpreso.
— Para... mim? Puxa, Camus... eu não esperava... E também não precisa me dar nada, além da sua amizade. Essa sim é meu maior presente! — falou transbordando falso carisma e fingida humildade.
— Eu sei, mas depois de tudo o que passei e da ajuda que me deu para conseguir visitar Ma belle eu queria te dar isso. — Camus odiava sentir-se em dívida com alguém e presentear Misty lhe pareceu uma boa forma de aliviar esse sentimento — Abra.
Quando Misty abriu o pacote surpreendeu-se ao ver o conteúdo.
— Por Atena! Isso é... uma raridade! — disse verdadeiramente admirado.
— Sim. É da minha biblioteca particular em Moscou. A primeira edição de Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare, contendo manuscritos e algumas ilustrações pessoais do autor. Esse exemplar é de valor inestimável, mas se quiser vende-lo ou leiloa-lo ele vale uma fortuna. Agora é seu. É minha forma de agradecer tudo que fez por mim e por Afrodite.
— Camus eu... nem sei o que dizer, eu... — Misty gaguejava verdadeiramente surpreso.
— Apenas diga se gostou.
— Se gostei? Mas é claro que gostei! Eu... estou até emocionado! Obrigado, meu amigo. — disse praticamente jogando-se nos braços do francês para abraça-lo radiante.
Logo ali, escondido atrás de uma das duas pilastras de mármore que ficavam no início do corredor que levava ao quarto, Afrodite assistia a tudo rangendo os dentes.
"Que Hefesto martele as minhas bolas em sua bigorna divina! O que essa fodida pensa que está fazendo? Ah, Camus eu te mato, viado! Sonho de uma noite de verão? O que isso significa?"
Afrodite conhecia bem aquela obra.
Desde criança Saga, que era seu tutor, exigira dele várias leituras de clássicos famosos no mundo todo, e obviamente Shakespeare não ficara de fora. No entanto entre as tantas tragédias shakespirianas Peixes se perguntava por que Camus escolhera justo aquela.
Em silêncio recuou para o corredor e encostado à parede puxou pela memória o enredo da trama.
"Helena é apaixonada por Demétrio, mas Demétrio amava veneradamente Hérmia. Hérmia por sua vez ama e é amada por... Lisandro... Desgraçado truqueiro! É um triângulo amoroso!"
Deu uma nova espiadela na sala e viu quando Misty foi embora e Camus seguiu para a cozinha, então pisando firme e bufando de raiva voltou ao quarto onde Hyoga o esperava brincando com Dudu.
Passados pouco mais de vinte minutos Aquário entrou no quarto trazendo nas mãos uma bandeja com sopa de ervilhas e ricota, torradas e suco de melão. Já havia providenciado tudo antes mesmo de Peixes voltar para casa, pois já estava a par do tratamento que ele teria que seguir.
— Aqui está, Ma belle. Coma tudo. — disse colocando a bandeja sobre o colo do sueco enquanto Hyoga o ajudava a se ajeitar entre os travesseiros — Misty já foi embora. E eu e Hyoga também precisamos ir, já que o Grande Mestre está logo ali acima de nossas cabeças e non é prudente nos arriscarmos nos encontrando assim à luz do dia. Voltaremos à noite, depois das 23:00 horas, para passarmos a noite com você.
Peixes apenas lançou um olhar severo ao aquariano. Não disse nada.
— Papai, eu quelo fica com a maman Di! — disse Hyoga.
— Já conversamos sobre isso, mon petite. Non vou me repetir. Nós voltaremos à noite. — disse Camus que inclinando-se segurou no queixo de Afrodite e o fez virar o rosto para poder lhe dar um selinho nos lábios — O que foi, Peixinha? Aconteceu alguma coisa? — perguntou quando sentiu que Peixes não correspondeu ao beijo.
— Nada. — o sueco respondeu seco — Nos vemos mais tarde. — concluiu voltando-se para Hyoga e inclinando-se para beijar-lhe as bochechas rosadas — Comporte-se, meu loirudinho. A noite cantarei para você dormir e dormiremos agarradinhos.
Hyoga sorriu alegre despedindo-se da "amazona" também com um beijo nas bochechas e saltou da cama indo para junto do pai.
Assim que Camus e Hyoga saíram Afrodite rapidamente tomou a sopa de ervilhas, que nunca lhe pareceu tão indigesta. Desceu grossa por sua garganta e queimava em seu estômago como fogo tamanha sua raiva.
Ao final da refeição levou a bandeja até a cozinha e ao retornar ao quarto mudou de roupas, já que sabia que receberia visitas naquela tarde. Vestiu uma calça de algodão larguinha que em uma ocasião pedira emprestado à Mascara da Morte e uma camiseta vermelha surrada que pertencera a Milo. Não sabia porque a tinha escolhido, talvez fora um ato inconsciente, mas a verdade era que, por mais que lhe revoltasse pensar que Escorpião traíra Saga e Geisty os entregando para a Vory, não conseguia acreditar que de fato Milo o fizera de caso pensado, movido por rancor ou vingança. Não. Definitivamente aquilo não combinava com ele, com sua postura sempre nobre e extremamente humana. Havia algo mais nessa história que não foi revelado, mas nada mais poderia ser feito, pois a verdade havia sido levada com Milo para o túmulo.
Suspirou melancólico ao voltar para a cama e ajeitar-se novamente entre os travesseiros.
Nas primeiras horas após o meio-dia Shura chegou ali para visita-lo. Ficaram longos minutos conversando descontraídos até que chegaram também Shina, Marin e Aiolia. Já havia falado com Shaka enquanto Mu e Máscara da Morte subiam as escadarias com ele ao passar por Virgem, e também com Aldebaran em Touro, que inclusive lhe presenteara com um vaso de pimenteira para tirar o mal olhado.
Os cavaleiros e amazonas ficaram ali até chegarem outros amigos de Afrodite; Ágador, o ex faxineiro particular, Héracles, o soldado do Santuário com quem Peixes tivera um caso no passado, Jasão, o ex cozinheiro particular, Jacinto, o ex piscineiro particular e Tirésias, o ex consultor particular para assuntos aleatórios.
Rodeado pelos ex Afrodite esqueceu por algumas horas a chateação que tomava seu espírito e distraído colocou a conversa em dia, mas foi só os amigos irem embora que a indigesta imagem de Misty e Camus se abraçando em sua sala voltou a dominar seus pensamentos.
E tinha o presente... O maldito livro sobre o triângulo amoroso.
Seria aquele livro uma mensagem subliminar de Camus para Misty? Afinal ficara dias, semanas, em coma, e conhecendo muito bem Lagarto como conhecia sabia o tipo de consolo que ele certamente propusera ao aquariano. Não que não confiasse em Camus, em sua lealdade e fidelidade. Não confiava era em Misty. Conhecia como ninguém todas as artimanhas de Lagarto para levar um homem para cama, sob seu consentimento ou não. Misty já havia feito isso antes com Camus, pelo menos é o que sabia, o que impediria de fazer novamente?
— Ai que ódio! — bufou levantando-se da cama para ir até o banheiro tomar um banho e se preparar para receber Aquário e Hyoga.
Ah, Hyoga!
Seu peito apertava ao mesmo tempo que se enxia de amor e alegria quando pensava no menininho russo.
Pouco depois das 23:00 horas Camus chegou com Hyoga em Peixes, mas não acostumado com todo aquele agito, entre viagem, visitas, e fortes emoções, o menininho tinha caído exausto de sono já após o jantar. Aquário sabia que Hyoga acordaria na madrugada ou nas primeiras horas da manhã perguntando por Afrodite, então mesmo dormindo vestiu o pijama nele e subiu para a casa do namorado o levando consigo.
Quando entrou no quarto Camus encontrou o pisciano lendo um livro. Ele vestia a mesma camisola e roupão que usara de manhã, mas tinha caprichado um pouco mais na caracterização com uma maquiagem levinha.
— Mon amour, cheguei. — disse o aquariano caminhando até a cama com Hyoga no colo — Ele dormiu. Estava exausto. O levei para dar um passeio no centro de Atenas para se distrair um pouco, e ele estava tão eufórico que tomou banho, comeu e desmaiou.
— Pobrezinho. Coloca ele aqui do meu lado. — disse Peixes arrastando-se para o lado enquanto arrumava os travesseiros para acomodar Hyoga.
— Ele passou dias preocupado com você, triste, chorando... E sozinho, porque com tantos problemas para resolver non tive tempo nenhum para ele... Hoje foi um dia muito especial para o nosso pequeno. — Camus sorriu cobrindo o filho, depois esticou-se todo e beijou os lábios de Peixes que correspondeu apenas com uma bitoca rápida.
— Hum... sim. Hoje foi um dia especial. Hyoga ganhou uma mãe, não é mesmo? — Afrodite disse em tom ácido encarando os olhos de Camus — E não foi só ele quem ganhou presente, não é Camus?
— Claro que non. Você também ganhou. Uma joia linda e muito especial que mandei fazer para Natássia sob encomenda quando ela estava em turnê com o Bolshoi em O lago dos cisnes. Um presente lindo, non é? — Aquário respondeu impassível, o que deixou Peixes furioso.
— Ora não me faça a Katya*, Camus! Sabe muito bem do que estou falando, santa! — retrucou o pisciano elevando o tom de voz — Hérmia, que era apaixonada por Lisandro que também era apaixonado por ela, mas Demétrio, que era noivo da Hérmia era apaixonado por mim... digo, por você, não... pela Hérmia, então o que ela faz? A Hérmia? Ela marca um encontro com o Lisandro que propõe fugirem! E por quê? Porque "O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."
Encarando o rosto de feições furiosas do namorado Camus soltou um suspiro longo e cansado.
— Já soube do livro, imagino. — disse o francês levantando-se da cama.
— Um livro não! Uma mensagem subliminar!
— O que? Dieu Afrodite! — Camus franziu as sobrancelhas irritado — Non comece com suas teorias malucas, sua desequilibrada!
— E por que deu um presente para ele e não me disse nada?
— Non te contei justamente para evitar essa conversa descabida, merde! — como o aquariano odiava aquela paranoia do pisciano. Sua paciência para os chiliques do namorado era cada vez menor — Foi apenas um presente bobo para agradecer o apoio que ele me deu, por ter me ajudado a estar com você, a cuidar de você. A porra de um LIVRO, cacete! — disse quase sussurrando para não acordar Hyoga.
— Ah-há! Não um livro qualquer, mas uma relíquia como você mesmo disse, santa. — Peixes respondeu também descendo da cama com cuidado — Que conta a história de um triângulo amoroso que acontece na Grécia, no calor do verão, corpos suados, nus, cheios de desejo! Poderia ser um livro de economia, ou de como cultivar minhocas, mas não. É um romance grego, um triângulo. E eu sou quem na história? O burro?
Camus revirou os olhos, deu as costas ao sueco e caminhou para fora do quarto, não teria aquela discussão na presença do filho adormecido.
Afrodite vinha logo atrás dele.
— Ei, não foge não, Truqueira do Aqueronte! Volta aqui! — dizia enquanto com uma das mãos cobria o curativo no abdome e esforçava-se para acompanhar o francês que seguia na frente andando rápido. Tinha muitas coisas a dizer a ele, mas de repente distraiu-se com aquelas nádegas enormes e rijas que rebolativas dentro de uma calça de linho obscenamente justa seguiam pelo corredor.
Tudo que conseguia era olhar com olhos vidrados para aquela bunda redondamente perfeita que pedia para ser acariciada, apalpada, beijada, amada, e o maldito dono dela parecia requebrar os quadris muito mais do que o habitual apenas para provoca-lo.
A essa altura o pisciano já andava curvado, meio encolhido, pois excitadíssimo sentia o baixo ventre contrair e uma dor incômoda irradiar pelo abdome.
Quando percebeu já tinham cruzado a sala e agora entravam na cozinha, e os olhos de Afrodite só ganharam a alforria daquela visão abundantemente instigante quando Camus virou-se de frente para ele e ainda requebrando os quadris colocou ambas as mãos na cintura.
— Você já comeu? Precisa alimentar-se direito para se recuperar logo. Quer que eu faça uma sopa para você? — disse o aquariano com voz firme.
— Não muda de assunto não, gata! — Peixes disse aproximando-se irado.
— Mas você é inacreditável mesmo! Um livro, Afrodite. Um livro! Se é sobre um triângulo amoroso non me interessa, é a porra de um clássico da literatura, sua louca. Desequilibrada! — retrucou Camus agora elevando a voz enquanto esticava o braço e estalava os dedos na frente do rosto do pisciano — Acorda! Você está sendo ridícula!
— E você está sendo ingênua! — Afrodite rebateu avançando sobre Aquário até pressioná-lo contra a pia usando seu corpo para o obrigar a ficar ali, imóvel, e ouvi-lo — Quantas vezes eu te disse, Camus? Mulher, não cai na lábia daquele demônio de ventosa. Não incentiva uma aproximação, não alimenta esse mini Kraken! Quantas vezes já te disse que ele é dissimulado, maquiavélico, que está tramando algo contra a gente, contra nossa família... ele não é seu amigo, Camus. Ele está te enganando! Pelos joanetes do cafusu* do Hades! Por que não me escuta?
Cansado daquela discussão e daquele assunto repetitivo, e julgando que Afrodite só estava tendo um de seus tantos chiliques o ruivo reagiu de forma bem diferente do que costumava agir naquelas situações. Estava de muito bom humor, e não deixaria que o ciúme do sueco atrapalhasse seus planos, por isso, aproveitou que o outro já estava com o corpo colado no seu o tomou pela cintura e o erguendo do chão girou rapidamente invertendo as posições para colocá-lo sentado sobre a pia. Imediatamente em seguida Camus tomou a boca de Afrodite com um beijo afoito e efusivo, cheio de desejo e paixão como queria fazer há dias e não podia.
Peixes de início tentou afastá-lo o empurrando pelos ombros, mas Aquário segurava firme em seu rosto com ambas as mãos enquanto gemia em sua boca e remexia-se todo entre suas pernas o instigando, e toda aquela provocação logo venceu a resistência do pisciano que pouco a pouco cedia ao desejo e à paixão que sentia por aquele homem.
Poucos momentos depois ambos já trocavam um beijo quente, intenso e cheio de volúpia, mas quando Afrodite, já completamente rendido e entregue à luxuria enfiava as mãos por debaixo da camisa de Camus este interrompeu o beijo sem prévio aviso e se afastou.
Ofegante Aquário recuou dois passos enquanto com os olhos de pupilas dilatadas cravados nos do pisciano, que nitidamente o repreendia com uma expressão de descontentamento no belo rosto, enfiou a mão no bolso da calça e de lá tirou um objeto, o qual colocou na mão do namorado.
Na mesma hora Peixes baixou a cabeça e olhou curioso e surpreso para o objeto em sua mão.
Era uma chave presa por um chaveiro de prata com a letra V.
— O que é isso? Que chave é essa? — Afrodite perguntou agora erguendo o olhar para Aquário.
— É a chave do seu iate. — o ruivo respondeu sério, depois enfiou a mão no outro bolso da calça e retirou de dentro uma fotografia que retratava um imenso iate que mais parecia um transatlântico — Pegue. Esse é o Vênus. E ele é seu. Levou dois anos para ficar pronto, mas agora está exatamente do jeito que você queria.
Estático, chocado e completamente embasbacado, Afrodite olhava para Camus com os olhos brilhantes esbugalhados e a boca aberta, e diante de sua expressão até cômica o francês sentiu vontade de rir, mas conteve-se, porém não perdeu a oportunidade de provocar o namorado mais um pouco.
— Eu tive muito medo de perder você e ter de desfrutar do Vênus sozinho, mas você voltou para mim e eu fiquei feliz em poder desfrutar dos restaurantes, piscinas, saunas, mini campo de golfe, cassino, danceterias do seu iate ao seu lado. — caminhou até a mesa onde havia deixado uma caixa grande e luxuosa que Afrodite, furioso como estava nem tinha notado quanto entrou ali, e ao abri-la revelou seu interior repleto de calcinhas vermelhas, todas de rendas — Mas, já que duvida do meu amor e da minha lealdade a você e prefere ficar discutindo e brigando comigo por causa da merde de um livro, vou ter que vender o Vênus, ou sei lá... contratar uns michês para me fazerem companhia lá. — disse remexendo as calcinhas na caixa.
Peixes piscou os olhos ainda estupefato.
Eram tantas coisas ao mesmo tempo, o iate, a briga, o triângulo amoroso, as calcinhas vermelhas, a bunda de Camus, o livro...
De repente pulou da pia e se colocou na frente do aquariano.
— PARA! — gritou a plenos pulmões encarando os olhos avelãs do namorado e segurando em seu rosto com ambas as mãos — Pelas passadeiras de contas e búzios do altar de Dadá, Camus!... É sério isso? Você... você comprou mesmo um... um iate?
— Oui. Non disse sempre que queria um iate? Agora você tem um.
— E... ele tem piscina?
— Tem quatro.
— Tem sauna?
— Tem cinco,
— Restaurante, danceteria, coqueiros?
— Acha que me esqueceria dos coqueiros? Há muitos coqueiros nele, mon amour. Muitos! E também tem salão de festas, doze quartos para convidados e uma suíte master, mini campo de golfe, heliporto, e mais algumas coisinhas.
Vibrante Afrodite pulou no colo do aquariano circundando sua cintura com as pernas e o enchendo de beijos.
— Camy! Não acredito! Achei que nem se lembrava mais do iate! Obrigado, obrigado! Quero passar todos os dias lá com você, só nos dois, só você e eu, e o Hyoga! Ah, Camy, eu amo você, meu mafioso.
— Hum... vai com calma, você non pode se exaltar assim. — disse o francês enquanto apalpava as nádegas do pisciano — Iremos para lá assim que seu médico o liberar do repouso e da dieta, então aproveitaremos tudo juntos, Ma belle. — beijou o pescoço do sueco deliciando-se com seu perfume único.
— Mal posso esperar. — Afrodite disse de olhos fechados, depois os abriu e olhou sério para o namorado — Me perdoa? Eu sei que fiz uma cena, mas eu não estou ficando louco, nem exagerando quando digo para tomar cuidado com aquela Lagartixa cascuda, Camy. Ela não te quer comigo, e ela vai fazer de tudo para nos separar e só vai sossegar quando conseguir. O que eu faço para você acreditar em mim, mon amour?
— Peixinho, non é que non acredito em você, mas pelos deuses ele nunca demonstra essa vontade para mim. E non é possível que ele finja tão bem assim que mesmo eu, que sou especialista em detectar farsas, non consiga perceber. Tudo que ele quer é minha amizade. Non duvido que ele goste de te provocar, mas ele só faz isso porque você sempre cai como um patinho nas provocações dele... Se ele fosse tão maquiavélico quanto diz teria te matado sufocado com um travesseiro lá no hospital, porque ele ficou vários dias sozinho com você naquele quarto.
— Ah não estraga a bosta desse momento lindo defendendo aquela demônia de ventosa? Tá boa? — resmungou o pisciano enquanto o francês o descia de seu colo.
— Non estou defendendo, apenas tentando por um pouco de juízo nessa sua cabeça maluca. Eu sei que tiveram um problema no passado. E você só non me conta os detalhes porque non quer. Mas, para mim Misty, apesar do jeito esquisito, nesses dois anos se mostrou de fato um bom amigo. Na noite do atentado eu vim às pressas de Moscou assim que descobri os planos do Dimitri. Infelizmente cheguei tarde demais e non encontrei ninguém no Templo de Baco, apenas Shina e Misty. Claro que todos me colocaram no topo da lista de suspeitos, non fosse pela ajuda de Misty que me permitiu ficar sozinho com Dimitri antes de Saga chegar, então eu consegui impedir o velho de entregar nossos segredos, tantos os meus com a Vory quanto o nosso relacionamento. Foi Misty também quem me disse o que havia acontecido com você. Faz ideia do que senti quando soube que estava entre a vida e a morte? Eu desabei, Afrodite. Eu senti que entraria em colapso, perdi as forças, a vontade de viver, e aí, naquele porão Misty foi quem me deu forças para encarar a realidade e seguir em frente, e ele me disse para fazer isso por você e por Hyoga.
Peixes ergueu o braço até o rosto do aquariano e acariciou seu rosto com ternura.
— Não sabe como eu gostaria de acreditar que ele fez tudo isso apenas por altruísmo e bom coração mesmo. — suspirou — Enfim. Chega de Lagartixas. Não quero estragar essa noite linda, o meu presente maravilhoso, as calcinhas vermelhas... minha deusa mal posso esperar para ver sua bundona gostosa engolindo elas. — mordeu os lábios e dando um passo à frente escorregou as mãos até as nádegas de Camus dando um apertão forte — Não quero estragar esse nosso momento falando da Cascuda.
— Sim, non vamos estragar. Vamos falar de nós. Daqui para frente teremos que tomar cuidado redobrado, porque agora eu sou o Vor máximo e a Vory ainda tem braços distantes do meu domínio total. Até que eu consiga a confiança plena de todos os membros e núcleos teremos que continuar com a farsa, e... agora tem o Hyoga. Na verdade, estamos mais enrolados do que nunca.
— Apesar de estar em pânico... eu estou feliz por ter ganhado um filho. — Afrodite sorriu sem graça — Se eu tivesse ouvido você e tomado mais cuidado talvez nada disso tivesse acontecido. Talvez a Mosca não teria perdidos os mosquitinhos dela, e o Saga... — baixou a cabeça entristecido — Agora quero fazer tudo certo. Pela segurança de Hyoga, pela nossa segurança. — voltou a olhar para Camus — Serei para esse menino a melhor mãe do mundo! Jamais tão perfeita como Natássia, mas... o protegerei com a minha vida e lhe darei todo amor que tenho.
Camus abraçou Afrodite com força.
— Obrigado, mon amour. Eu lamento muito as coisas terem chegado onde chegaram, mas... eu vou consertar tudo isso um dia, eu te prometo. Um dia todos saberão que Camus de Aquário ama Afrodite de Peixes porque eu gritarei ao mundo! Só peço que tenha paciência.
— Eu tenho. Se o preço que tenho que pagar para amar você é me tornar outra pessoa então eu me tornarei. Eu só quero poder te amar e ser amado por você não importa como e onde. Que seja me tornando uma amazona, e que seja escondido em um quarto de bordel ou em um iate de luxo!... Se bem que no iate vai ser bem mais legal. — sorriu descansando a cabeça no ombro do aquariano, quando de repente a ergueu e olhou para ele — Tem Jet Ski?
— Pelo menos uns dez.
— Ah pelos deuses você é perfeito!
Beijaram-se demoradamente até terminarem no quarto, onde dormiram de mãos dadas junto de Hyoga.
Dicionário Afroditesco
Cafusu – sujeito grosseiro, ruim, sem modos, desagradável
Charufinácea – um bando de gente ruim reunida num mesmo lugar; porcarias
Fazer a Katya – fingir-se de desentendido
Oxanã – cigarro
Padê – cocaína
