A viagem de volta não foi tão tranquila quanto a ida, por duas ou três vezes enjôos me atormentaram, causando em Edward um pânico incrivelmente irritante. Não que eu não estivesse feliz com todo seu zelo comigo e nossos filhos, mas o excesso estava ultrapassando todos os limites do bom-senso. Tentei lhe explicar, por algumas vezes, que tudo aquilo era comum em meu estado, mas ele não quis me ouvir, começou a se martirizar como se isso fosse ajudar de alguma maneira.

Irritada com tudo aquilo e disposta a não estragar nossa lua-de-mel com aquela situação frívola, desliguei-me de tudo a minha volta, aconcheguei-me no peitoril de Edward, sendo automaticamente envolvida por aqueles braços frios que eu tanto amava, fechei meus olhos e me forcei a mergulhar na inconsciência de um sono profundo e um pouco conturbado.

Edward me acordou com delicadeza quando estávamos para aterrissar, um sorriso gentil e tímido em seus lábios. – Achei que gostaria de estar acordada quando nos encontrarmos com Renesmee. – sua justificativa foi mais que suficiente para me fazer despertar instantaneamente; a saudade que sentia de minha pequena se fazia como um poderoso combustível naquele momento. – Como está se sentindo? – prosseguiu ele quando comecei a reunir meus pertences.

Ponderei por um breve instante, permitindo que meu corpo falasse mais alto que meus sentimentos. – Acho que estou bem... – declarei por fim, me permitir ponderar por mais alguns poucos segundos e retomei minha atividade anterior. – Um pouco cansada da viagem, mas bem...

Edward assentiu satisfeito e me ajudou com minha bolsa. – Os enjôos passaram? – indagou ele novamente enquanto me ajudava a levantar e sair da aeronave, ponderei novamente antes de responder, eu me sentia um pouco indisposta sim, mas Edward com certeza me privaria de caminhar por mim mesma quem dirá matar as saudades da minha filha.

-Passaram. – menti descaradamente, Edward parou no mesmo instante e me olhou ceticamente. – O que foi? – me fiz de desentendida e segui o caminho para pegar nossas malas. Edward bufou e me acompanhou.

-Francamente Bella! – reclamou enquanto colocava nossas malas em um carrinho. – Estamos casados! Eu te conheço um pouco! E você voltou a mentir absurdamente mal desde que eu descobri sobre Renesmee. – senti minhas bochechas corarem, virei-me de costas para ele e segui em direção ao saguão do aeroporto. – Não finja que não me ouviu, Isabella! – grunhiu ele e no mesmo segundo estava ao meu lado com nossas coisas.

Parei abruptamente e me virei para ele, irritada pela primeira vez em semanas, apontei o dedo indicador em sua direção. – Escute bem, Edward! – grunhi sentindo uma irritação desconhecida por mim em relação a meu marido desde tempos antigos. – Estamos a semanas longe de nossa filha, eu a quero em meus braços e não vai ser você com seu instinto super protetor se preocupando com minúcias que ira me impedir, está me ouvido?

Edward estava surpreso com minha atitude explosiva, na verdade, até eu estava, mas não iria voltar atrás, a saudade de Renesmee apertava meu peito com uma força descomunal, esmagadora, um sentimento horroroso sufocava-me e a única capaz de extingui-lo era minha menina.

-Bella... – Edward chamou-me ainda surpreso, suas mãos soltaram o carrinho e me envolveram em um abraço acolhedor. – Ei. Querida, não precisa ficar nervosa, ninguém vai te impedir de ver Renesmee, está bem? Fique calma, não precisa se exaltar. – Envergonhada com minha própria reação explosiva escondi meu rosto na curvatura de seu pescoço. Senti os lábios macios e frios dele beijando meus cabelos e suas mãos confortando-me carinhosamente.

-Desculpe, eu apenas... – eu nem sabia ao certo o que dizer, não havia motivos para aquela atitude explosiva, Edward nada havia feito além de zelar por minha segurança e a de nossos filhos.

-Shh... – sussurrou ele impedindo-me de explicar o inexplicável. – Está tudo bem, está tudo bem... Apenas se acalme, por favor. – Ele afastou meu rosto de seu corpo e me fitou, seus olhos, assim como seus lábios sorrindo encantadoramente. – Pense que assim que você se acalmar vamos nos juntar aos outros. – Um sorriso surgiu em meus lábios com tal idéia, Edward estava certo, deveríamos estar felizes, nossa filha logo estaria em nossos braços, tínhamos uma família maravilhosa, e logo dois pequenos milagres estariam conosco, não havia motivo para reações agressivas ou culpa.

Edward se aproximou lentamente e logo após um leve roçar de lábios, envolveu-me em um beijo majestoso e calmo, repleto de amor e zelo, envolvi sua nuca com meus braços, me aproximando o máximo que minha barriga permitia, tentando nos fundir, tentando nos fazer um. E naquele instante, na mais importou.

Quebrando aquele momento maravilhoso, Edward começou a se afastar, rindo divertido. – Você é tão humana... – fiz careta diante de seu divertimento, eu não tinha culpa se meu marido era irresistível e eu parecia nunca estar saciada completamente dele. A contra gosto me afastei revirando os olhos, deixando claro meu desagrado.

-Vamos, - exigi voltando a caminhar. – Nossa filha está esperando! – Edward riu mais ainda e envolveu minha cintura enquanto com a outra mão empurrava o carrinho, seguimos tranquilamente para o saguão e, automaticamente, comecei a procurar pro entre aquela multidão de pessoas, aquele grupo tão deslumbrantemente destoante, a ansiedade foi tomando conta de cada célula minha e senti meu coração acelerando, onde eles estavam?

-Shh... – Pediu Edward ao pé de meu ouvido. – Não precisa se desesperar, eles estão ali no canto, a sua direita... – No mesmo instante virei meus olhos na direção indicada e então eu os vi, exatamente onde Edward dissera, todos eles, em toda sua beleza singular que tanto se destoava em meio a multidão, fazendo-me estacar onde estava e ofegar. Foi naquele momento em que eu a vi.

Linda e perfeita como sempre foi, minha menina estava no colo do avô Carlisle com uma rosa branca nas mãos, seus olhos pousaram em mim, um sorriso grandioso surgiu em seus lábios, ela pulou do colo do avô e veio correndo em nossa direção.

Tomada por pela emoção de ver minha filha novamente, sorri como nunca havia sorriso antes, me desvencilhei de Edward e corri da melhor maneira possível ao encontro de Renesmee, ouvindo um, cada vez mais distante, "Bella, calma..." o qual ignorei totalmente, eu não tinha olhos para mais nada a não ser minha pequena vindo ao meu encontro.

A distância parecia grande demais, o tempo corria tão lento quanto nunca antes aconteceu, parecia que eu jamais chegaria até Renesmee, muito embora eu corresse mais que meu corpo agüentava... Quando finalmente consegui alcançá-la, a embalei em meus braços com força, apertando-a o máximo possível contra mim, ergui-a no colo, deixando-a apoiada sobre minha enorme barriga, mesmo que isso me causasse um grande desconforto, não havia nada no mundo que fosse tirá-la dali. – Oh meu amor... – sussurrei em meio a beijos e lágrimas. – Que saudades de você... Que saudades...

Renesmee envolveu meu pescoço com força. – Eu também mamãe... – sussurrou ela manhosa, fazendo meu coração se apertar mais ainda.

-NÃO! – Ouvi uma dúzia de vozes diferentes gritando ao nosso entorno e diversas mãos tentando tirar Renesmee do meu colo, contudo eu não permitiria. Esperei tempo demais para tê-la de novo e não soltaria por nada nesse mundo.

-Bella vamos, solte Renesmee. – pediu Edward apreensivo tentando pega-la de mim sem sucesso algum, cada vez mais eu apertava minha menina contra mim. – Bella estou falando sério! Pelo amor de Deus! Você está apoiando-a em sua barriga! – grunhiu ele começando a se exaltar, mas eu não queria soltar, não queria me separar de minha filha, nunca mais.

-Bella... – Chamou Carlisle parecendo apreensivo, seu tom de médico fez com que eu voltasse levemente para a realidade, sentindo minha barriga doer absurdamente, entretanto, eu ainda não queria soltar minha menina, meu peito apertava como se solta-la fosse mandá-la para longe de mim novamente; eu sabia que eram os hormônios da gravidez agindo em mim, contudo eu não conseguia me controlar.

Ao invés de soltá-la, eu me ajoelhei no chão, causando um pânico maior ainda nos Cullens. – Bella, por favor. – implorou Edward também se ajoelhou ao nosso lado. – Por favor, meu amor... – mesmo angustiado como estava, ele ainda respeitava meu momento com Renesmee e não a arrancava a força de meus braços.

-Eu não quero machucá-la mamãe... – sussurrou Renesmee se afastando lentamente, um sorriso iluminado reluzindo em seus lábios. Lágrimas compulsivas escorriam por meus olhos; me vi afagando minha menina como se fosse a primeira vez que a via, nunca mais desejava me separar dela. Edward beijou a cabeça de nossa filha murmurando um "obrigado, querida" e, juntamente com Carlisle, me ergueu novamente.

-Está se sentindo bem? – perguntou Carlisle com sua postura de profissional preocupado. Suspirei, contorcendo levemente meu rosto em uma careta, minhas mãos pousaram sobre minha barriga dolorida, mentalizei um rápido pedido de desculpas aos meus pequenos explicando-lhes minha atitude.

-Estou... – declarei muito embora ainda sentisse um desconforto, pela expressão de Carlisle e Edward eu podia ver que eles sabiam que minha declaração não era verídica, mas nada disseram.

-Vamos para casa, sim? – pediu Edward cansado enquanto pegava nossa filha no colo, beijando-a com um sorriso terno nos lábios. Rosalie enganchou um de meus braços e Carlisle o outro, Emmett assumiu o carrinho com as bagagens, Alice e Jasper nos acompanharam de perto, abraçados.

A volta para casa foi tranquila embora minha barriga continuasse dolorida, Renesmee parecia alheia a isso e eu fiz questão de querer saber todos os detalhes de sua estada com seus tios e avós, desde seu comportamento até seus dias na escola e sua alimentação.

Risadas e carinhos vindos de Renesmee fizeram da volta para casa um momento especial para todos nós no carro, Carlisle e Esme no banco da frente e Edward, Renesmee e eu no banco de trás, nossa pequena princesa em nosso meio. Eu podia ver os olhos de Edward furtivamente me avaliando com preocupação pelo ocorrido no aeroporto, mas eu estava mais que disposta a ignorar aquilo, eu não queria muito pensar que eu poderia ter machucado meus outros filhos.

E foi o que fiz. Ignorei toda e qualquer preocupação ou dor, passamos o dia em família, distribuindo presentes, mostrando fotos, ouvindo as "aventuras" de Renesmee, mas eu sabia que não sairia impune, cedo ou tarde Edward viria me criticar, e foi o que ele fez, assim que colocamos nossa menina para dormir.

Está seria nosso primeiro dia em nossa casa nova, os Cullens, juntamente com Renesmee, haviam tratado de organizar os detalhes pendentes e a casa estava pronta para uso, com exceção do quarto dos bebês, estes ainda estavam vazios como eu havia desejado anteriormente.

Edward e eu estávamos em nosso quarto, eu estava terminando de colocar uma camisola quando ele me envolveu em um abraço por traz e descansou as mãos frias sobre minha barriga, sua hálito gelado encontrou meu pescoço, arrepiando-me e tão logo um beijo em meu ombro selou aquela doce tortura. Foi impossível não ofegar, eu estava nas mãos de Edward, e ele sabia disso. – Você me ama? – sussurrou ele.

Meu coração se acelerou e eu estremeci. – Sim... – consegui responder com dificuldade. Senti Edward esboçar um sorriso contra minha pele. Seus lábios envenenando minha pele.

-E você vai ser sincera quando eu perguntar? – sussurrou ele novamente, criando uma linha de beijo até o outro ombro.

-Sim... – sussurrei muito baixo, meu corpo começando a clamar pelo de meu marido, apreciando e desgostando daquela tortura.

-Bom... – declarou ele satisfeito. - Você está se sentindo bem? Sua barriga doe? Não minta para mim Isabella! – grunhiu ele autoritário e incrivelmente sedutor. Novamente ofeguei, meu corpo logo começou a clamar pelo de Edward; nós havíamos acabado de voltar de lua-de-mel, eu não deveria estar tão sedenta por seu corpo. Malditos hormônios!

-Eu estou bem... – sussurrei tentando capturar seus lábios, mas ele recuou, frustrando-me. Ele não tinha acreditado em minhas palavras. – Um pouco dolorida. – Admiti a contragosto. – Mas estou bem.

Percebi Edward se controlando para não brigar comigo, contudo me fiz de desentendida, eu não queria brigar, não na nossa primeira noite na casa nova. Toquei com delicadeza seu rosto pedindo, silenciosamente, que deixemos aquele fato de lado, que nos tornássemos um, como éramos.

Ainda preocupado, Edward cedeu e com delicadeza me conduziu até nossa cama, e permitiu que os desejos mais profundos do prazer nos envolvessem como se nada mais importasse...

(...)

Quase no mesmo instante em que senti o corpo de Edward se afastar do meu, despertei. Meu corpo já havia se acostumado e até mesmo viciado ao de meu marido e agora se fazia quase impossível dormir tranquilamente sem tê-lo ao meu lado. Abri os olhos em tempo de ver Edward deixando o quarto apressado, mantendo a velocidade humana; aquilo me inquietou, não era fome, eu tinha certeza, Edward havia caçado antes de deixarmos o Brasil e mesmo que fosse, ele iria durante o dia para poder levar Renesmee com ele.

Inquieta, me levantei, vesti rapidamente minha camisola e me cobri com um robe qualquer; sai do quarto a procura de Edward, vozes baixas, estando uma delas bem angustiada e até mesmo chorosa, vinham do quarto de Renesmee, aquilo me preocupou, o que estaria acontecendo?

Me aproximei do quarto, a porta estava levemente aberta e pude ver através dela, Edward estava sentando na cama, vestindo apenas uma calça de moletom, Renesmee estava encolhida em seu colo, soluçando assustada. Meu coração falhou com aquela cena, estava prestes a adentrar no quarto e tomá-la em meus braços quando ouvi Edward falar.

-Shh... Está tudo bem querida, eu estou aqui com você... Nada irá acontecer, papai não vai deixar, eu prometo... Fique calma. – sussurrava ele amorosamente, suas mãos afagavam com delicadeza os cabelos de nossa menina.

Tomada pela surpresa e por mais algum sentimento desconhecido por mim, me mantive onde estava, fiquei em silêncio, apenas observando pela fresta, ciente que Edward estava concentrado demais no sofrimento de nossa menina para me perceber ali.

-Foi tão horrível, papai, aquele zumbi estava tentando me comer. – chorava Renesmee desolada, suas lágrimas molhando o peitoril de Edward e a cama em que sentava.

-Calma, querida, não foi real... Shh... Já passou. Foi só um pesadelo, não era real, nenhum zumbi vai tentar comer você. – prometeu ele paternalmente, contudo Renesmee continuava assustada. Ah... Então Renesmee havia tido um pesadelo. – suspirei mais aliviada por não ser nada realmente preocupante, muito embora todo aquele medo de minha menina estivesse me partindo o coração.

-Tio Emm disse que os zumbis gostam de comer criancinhas... – Soluçou Renesmee. A raiva me tomou, Emmett, sempre Emmett! Eu não precisava nem perguntar para saber que ele havia dado um jeito de deixar Renesmee assistir algum filme de terror envolvendo zumbis. Eu iria matá-lo!

Edward parecia ter a mesma opinião que eu, mesmo mantendo a voz mansa, sua expressão era demoníaca, e eu sabia que seus pensamentos estavam em possíveis maneiras dolorosas de matar Emmett, e vendo minha filha naquele nível de terror, eu não seria contra a qualquer atitude de Edward.

-Tio Emm está errado! – declarou Edward com firmeza. – Nenhum zumbi virá procurá-la, querida, eu te prometo, não há o que temer eu estou aqui... Nada de mal vai lhe acontecer... – Edward continuava repetindo isso a todo instante, até Renesmee se acalma, fato que demorou mais uns dez minutos e então, quando as lágrimas já haviam secado, Edward recomendo a nossa menina que voltasse a dormir, garantindo que nada lhe aconteceria, que ele estaria ali caso algum zumbi, ou qualquer outro monstro viesse pegá-la.

Renesmee ainda não parecia convencida, apertava com força o ursinho de pelúcia e olha apreensiva para todos os lados. – Mas e se eles estiverem no armário esperando para me pegar? – indagou a pequena olhando assustada para o armário. Achei que Edward fosse cortar de uma vez todo aquele medo de nossa filha e mandá-la dormir, mas não foi o que aconteceu.

Edward sorriu com delicadeza e se levantou. – Eu vou olhar então se não há nenhum monstro no armário. – Com paciência, ele foi até o closet e passou um bom tempo lá e só voltou depois de gritar "Não tem nenhum monstro aqui.", Nessie pareceu bem mais aliviada, mas seu rosto ainda não estava totalmente tranqüilo.

-Você pode olhar de baixo da cama também, papai? Por favor? – pediu ela num sussurro. Em instantes vi Edward retornar e se ajoelhar ao lado da cama, para então olhar de baixo da cama.

-Não, nada aqui também! – jurou ele, levantou o corpo e ficou na altura de Renesmee. – O quarto está seguro! – um sorriso grandioso surgiu nos lábios de nossa filha e ela abraçou o pai com força.

-Obrigada papai. – meus olhos se encheram de lagrimas com aquela singela cena, Edward pode ter errado muito, assim como eu, mas uma coisa era certa, ele era um excelente pai, amava nossa filha mais que tudo nesse mundo, e eu sabia que já amava nossos filhos que ainda estavam em minha barriga também.

Naquele instante eu percebi que não importava se Edward era um vampiro ou não, se era capaz ou não, ele lutaria pela felicidade de nossa família, sempre arrumaria tempo para levar nossas meninas no balé, ou nosso pequeno ao futebol, sempre estaria a postos para intervir em uma briga entre as crianças, que sempre que preciso ele iria fazer o que estava fazendo naquele momento, tomando nossa filha assustada nos braços, fazendo segredo junto a si, fazendo dos seus passos mais por nossos filhos, mais por nossos tesouros.

Edward beijo o topo da cabeça de Renesmee e a ajudou a se deitar e antes que eles pudessem me perceber ali eu voltei ao meu quarto, ao som da canção de ninar soando pela doce voz de Edward, lágrimas ainda escorriam por meus olhos, a emoção de ver aquele momento tão intimo, tão encantadoramente único fez-me crer que eu havia "escolhido" o homem certo para ser pai de meus filhos. Pai e filha. Em seu pequeno e secreto momento na calada da noite. Eu não poderia estar mais realizada.

Os dias seguintes foram mais tranqüilos ou não, depende muito do ponto de vista, Edward quase matou Emmett por ter deixado Renesmee assistir um filme com zumbis, mas desistiu de tal idéia quando a própria Rosalie quis matar o marido pela estupidez e os demais Cullens ficarão muito bravos com toda essa história.

E finalmente, começamos a preparar o quarto dos bebês, compramos moveis e utensílios, ursinhos e começamos a preparar o enxoval. Claro que finalmente era hora de pensar em dois pontos importantes, os nomes e os padrinhos; Edward e eu acabamos por escolher sem problema algum os padrinhos e concordamos que cada um deveria escolher um nome, contanto que o outro concordasse com a escolha, mas tínhamos até o nascimento para decidir.

Edward acabou se tornando cada vez mais protetor para comigo, coisa que estava me irritando profundamente e acabou gerando algumas pequenas brigas entre nós, mas nada muito sério. Por diversas vezes saí com Edward ou Alice ou Esme ou Rosalie para comprar roupinhas para os bebês, mas nada foi tão marcante como naquela tarde agradável em que meu marido e eu estávamos caminhando tranqüilos no shopping.

Como fazíamos em todas as lojas de bebês, entramos naquela também e começamos a escolher algumas coisas; eu estava distraída e tagarelando frivolamente com Edward quando subitamente ele ficou quieto.

-Edward? – chamei ainda atenta aos brinquedos e ursinhos que escolhia, estranhei o silêncio, fiquei irritada por estar falando sozinha. – Edward? – quando novamente não obtive resposta me virei brava. - Edward você está me ouv...? – minha voz morreu ao vê-lo tão compenetrado observando as roupinhas em sua mão. A preocupação me tomou. – Edward? – segui rapidamente até ele e toquei-lhe o braço. – Edward o que houve?

Ele nada disse, apenas me estendeu a roupinha em sua mão, seus olhos com um brilho intenso, eu podia ver a emoção dominando-o sem a menor dificuldade, eu conhecia aquele brilho, se vampiros pudessem chorar, Edward estaria chorando agora. Peguei a roupinha e a olhei, estacando no mesmo instante.

Era um uniforme de beisebol, idêntico aos que os Cullens usavam em suas partidas, mas no tamanho miniatura. Lindos. Graciosos. Uniformes completos, listrados, com direto a bonés e sapatos. Então eu entendi a emoção de Edward porque ela também se fez minha. Eram dois novos Cullens que estavam chegando, e seriam tão incrivelmente milagrosos como Renesmee era. Edward estava degustando pela primeira vez a sensação de ser pai desde o inicio, estava vivenciando aquilo que lhe fora tirado na primeira filha.

E em seu olhar eu consegui perceber o quanto ter estado ausente lhe doía, o quanto ele gostaria de ter feito o que estava fazendo agora, o quanto a vida tinha lhe arrancado. Entretanto, também vi naqueles olhos ocres intensos a determinação de ser um bom pai para nossas crianças, não só para brigar com eles ou lhes garantir uma vida confortável, mas um pai que se fizesse presente em todos os instantes, que lhes ensinaria coisas banais como jogar beisebol e também ensinaria o que eram valores e princípios. Um pai carinhoso, um porto seguro, assim como ele fora alguns dias atrás naquela noite escura para Renesmee.

Edward sempre estaria preso a sua adolescência, e talvez, daqui a algum tempo, eu também estaria, após algum tempo não poderíamos assumir nossa direito de pai e mãe perante os outros, e isso lhe doía, eu sabia que sim, também me apertava, mas ele sempre estaria ali, sempre seria o que nossos filhos mais precisassem... Um amigo, um companheiro, um confidente... Um pai.

Lágrimas se formaram em meus olhos, assim como um sorriso sereno em meus lábios, meu coração de mãe respirava tranqüilo vendo que nunca, jamais meus pequenos tesouros estariam desamparados, nunca lhes faltaria um abraço depois de um pesadelo, nunca lhes faltaria um beijo depois de daquele tombo de bicicleta, nunca lhes faltaria aquele sorriso orgulhoso após uma nota alta, ou aquela torcida vibrante em meio ao seu grande jogo de futebol. Finalmente aquela carência que nunca consegui suprir com Renesmee seria erradicada, para todo o sempre.

Encontrei o olhar de Edward, deixando-o saber toda minha alegria com todo aquele simbolismo, era nosso tempo, era o tempo de nossos filhos, e nós poderíamos comemorar felizes, por quê... Bem ou mal, certo o errado, preparados ou não, éramos pais, e haviam três preciosidades maravilhosas dependendo de nós.

Edward tomou minha mão e puxou-me para perto, seus lábios capturaram os meus com delicadeza e glória, degustamos da felicidade e do medo do desconhecido tão claro que estava por vir.

Mais dias se passaram, Edward estava a cada dia mais insuportável, não me deixava sozinha um minuto se quer, me impedia até mesmo de tomar um copo de água sozinha, desde que voltamos do Brasil ele não mais saiu para caçar, seus olhos já estavam mais negros do que qualquer escuridão que eu já tenha conhecido, as olheiras sobre seus olhos a muito não se faziam tão intensas, os hormônios estavam me matando, tudo parecia absurdamente errado e minha paciência chegou ao limite.

Foi então, em um dia nublado, como quase todos em Forks que eu explodi, fiquei nervosa e agressiva e mandei todos os Cullens caçarem, bem longe de dali, e que Edward fosse com eles, por um bom tempo.

-Bella, - Edward tentava me dissuadir, tentava se aproximar para me abraçar, contudo eu recuei com afinco e firmeza. – Tente ser razoável, queria. Não há necessidade deu ir caçar, eu estou bem. Venha, vamos sentar...

-NÃO! – Gritei com raiva. Meu dedo indicador foi na direção da sua cara. – Você e todos os seus irmãos, juntamente com seus pais vão caçar! E bem longe daqui! Eu não quero ver a cara de nenhum de vocês até amanhã! Não quero mais vê-lo aqui até que seus olhos estejam tão claros que eu possa ver meu reflexo neles! – Minha voz era autoritária e raivosa, eu podia sentir meu coração disparado e minha barriga endurecer, mas eu não ligava, tudo que eu queria era que Edward com aqueles olhos escuros e toda aquela proteção bem longe de mim.

-Bella, por favor... – Tentava ele. – Você não pode se estressar e... – eu o cortei.

-Exatamente! – exclamei. – Eu não posso me estressar e eu só irei me acalmar quando você estiver bem longe daqui! – ouvi Renesmee, a qual estava atrás de nós sentada em seu cadeirão almoçando suspirar resignada, ela me conhecia bem e sabia que seria em vão qualquer tentativa de Edward de me fazer mudar de idéia.

-Ao menos deixe Esme ficar com você, seus olhos estão claros... Ou quem sabe Rosalie, ela também está alimentada e... – novamente eu o cortei cutucando seu peito com meu dedo.

-Eu quero todos vocês bem longe daqui! – fui firme. – Se há alguém que pode ficar esse alguém é minha filha e só!

Edward estava a beira do histerismo, desesperado para conseguir qualquer coisa. – Bella você está a ponto de dar a luz, e se... – Novamente o cortei.

-Se alguma coisa acontecer eu ligarei para Ângela, e quanto antes você for, antes você volta, está perdendo tempo aqui. – minha agressividade era irracional até mesmo para mim, mas eu não estava disposta a ceder, nem um milímetro que fosse.

Edward se calou por um momento, angustiado, procurando algum argumento, alguma maneira de falar que não fosse me alterar mais do que eu já estava, ele sabia que aquela discussão não estava me fazendo bem. - Ao menos, prometa-me que irá me ligar se sentir qualquer coisa. – pediu ele a beira do pânico.

Voltei-me em sua direção e o encarei ferozmente, minhas mãos foram para o bolso da sua calça e dali eu retirei seu celular, taquei-o no chão com força e pisei em cima, destruindo o aparelho sem dó alguma. Edward me encarou desacreditado. – Agora se sua família gosta do celular deles é bom que todos eles estejam aqui. – apontei para o balcão da cozinha. – Antes de vocês partirem e suma daqui de uma vez! – ordenei gesticulando a porta dos fundos.

-Bella... – Edward tento argumentar, entretanto, bastou um simples olhar para se calar. Ele não sabia o que fazer, contudo, eu sabia que ele estava a ponto de ceder. O silêncio intenso entre nós era quase palpável, eu não agüentava mais Edward ou qualquer outro dos Cullens me tratando como se eu fosse feita de porcelana, eu precisava de um pouco de descanso deles. Renesmee foi quem quebrou o silêncio:

-É melhor vocês irem papai. – disse ela com toda sua delicadeza, Edward encarou-a numa mistura de surpresa e incredibilidade, eu podia ver em seu olhar a mistura de sentimentos aos quais ele simplesmente não estava acostumado em seus noventa anos de vida, sabia que era difícil ir contra seus hábitos, mas agora, ele não tinha muitas opções. – Tudo ficará bem, - prometeu nossa menina em toda sua inocência e graça. – Eu estarei aqui com a mamãe, e vocês estarão de volta amanhã ao amanhecer, não há o que temer, tudo dará certo.

Cansada psicologicamente daquela discussão, me afastei, permitindo aos dois um pouco de privacidade, muito embora eu ainda estivesse ouvindo-os e os observando do outro lado da cozinha. Renesmee sorriu graciosamente. – Mamãe precisa de descanso... Precisa espairecer um pouquinho... – Virei-me de costa, fingindo não ouvir o que diziam, pelo reflexo da janela vi Edward pegar nossa filha no colo.

-Você já viu a mamãe nervosa assim? – indagou ele em uma voz mansa. Renesmee assentiu com a cabeça.

-Na maioria das sextas a noite ela ficava assim, exaltada, mas ela sempre estava bem novamente no domingo. – fechei meus olhos respirando fundo, ainda me surpreendia como Renesmee percebia coisas que jamais pensei deixar transparecer. Pelo tom angustiante em sua voz eu conseguia perceber o medo envolvendo-a, e a ansiedade em realizar minha vontade para que talvez eu não tivesse que apelar para qualquer coisa com meu passado aos sábados.

Doeu-me ver o quão traumático toda minha história havia sido para minha filha, mesmo que eu tivesse me empenhado ferozmente em não deixar-lhe tomar conhecimento de nada. Mas algumas coisas, só o tempo poderia levar.

Depois de muito recear, Edward e os demais Cullens acabaram por acatar meu pedido, apenas depois de Renesmee e Carlisle insistirem muito, Carlisle não gostava da idéia de deixar Renesmee e eu sozinha, mas alegou que o mal que estava me fazendo toda aquela situação era pior que um eventual contratempo.

Renesmee foi montar seus quebra-cabeças e por um bom tempo, eu a ajudei, distraindo-nos com aquele passatempo tão antigo para nós. Próximo à hora do almoço, Renesmee foi para o piano tocar um pouco enquanto, ao som daquelas melodias tão delicadas de minha filha, eu me coloquei a preparar o almoço.

Mal tinha começado, eu me dei conta do quão mal acostumada Edward havia me deixado, uma tarefa tão simples como aquela estava me cansando excessivamente, minha barriga estava dura, tensa, eu sentia a dificuldade me atingir até mesmo no simples ato de andar.

Tentei ignorar o máximo possível aquela dor incomoda em meu ventre e em minhas pernas, tentei convencer a mim mesma que aquilo não era nada, mas no fundo, eu estava apavorada.

Panelas no fogo. Uma dor aguda. Água fervendo. Uma nova dor. O Tic Tac do relógio. Meu ventre se contrai. As teclas do piano a tocar. Meu ventre relaxa. Um mexer no refogado. Mais uma dor. A respiração ofegante. A dor se acentua. Eu conhecia essa dor. Eu não queria me ouvir. Meus punhos se cerram. Eu tento me acalmar. Mais uma dor vem. Meu fôlego é arrancado de meus pulmões. Tento me segurar na pia, mas não mais tenho forças. A dor persiste. Um grito agudo escapa de meus lábios. Caio no chão.

-Mamãe? – ouso a voz apavorada de minha menina, sinto suas mãozinhas sobre meus ombros. – Mamãe, o que houve?

Tento acalmá-la, dizer que tudo estava bem, que não era nada demais, mas, puta que pariu que dor! Eu não me lembro de ter doído tanto quando fora Renesmee a nascer. Um novo gemido fugiu de meus lábios quando uma nova contração veio. Minhas mãos seguravam com força minha barriga, na esperança furada de tentar conter a dor, minha respiração ofegante não se fazia suficiente para respirar. Eu estava em pânico.

-Os bebês... – consegui dizer, minha cabeça se apoiou no armário da cozinha, minhas unhas quase perfuravam minha pele. – Vão nascer... – Lágrimas se formaram em meus olhos e rapidamente escorreram por meus olhos, sem eu nem mesmo saber se eram de alegria ou medo, dor ou plenitude.

O rosto de Renesmee ficou branco e ela ficou estática em minha frente, somente quando uma nova contração me fez gemer de dor ela se recobrou, levantando-se rapidamente. – Vou ligar para tia Âng! – não, não! Os bebês iriam nascer! Não era Ângela que eu queria comigo! Não desta vez! – mais uma contração. Um novo grito. Eu estava perdida.

As lágrimas escorriam por meu rosto compulsivamente, a dor me assustava, me alegrava... Tentei me levantar, mas fora inútil, eu era refém da dor. – Filha! – chamei, impedindo-a de ir até o telefone, no mesmo instante ela voltou, ajoelhou a minha frente, eu podia ver o medo em seus olhos, a vontade de chorar e ser fraca ameaçando tomá-la, mas minha filha tentou não demonstrar nada disso. Tentou me tranqüilizar e eu lhe fui grata por isso.

-Eu estou aqui, mamãe, tudo vai ficar bem. – um sorriso tão sereno surgiu em seus lábios que me passou uma paz magnífica, a qual eu fui muito grata. Renesmee se levantou e apagou todos os fogos do fogão acesos. Mais uma vez lhe fui grata interiormente por sua maturidade.

-Filha... – chamei ofegante, a dor estava aumentando. – Preste atenção no que a mamãe vai lhe dizer... – pedi tentando me manter firme, minhas mãos pressionando cada vez mais minha barriga. – Preciso que você vá encontrar seu pai. – pedi antes de reprimir um gemido, eu não conseguiria me manter sã por muito mais tempo. – Siga seu cheiro, fique atenta aos ruídos, vá aonde ele costuma te levar para caçar... Não sei. Ache-o, por favor!

Renesmee assentiu, séria, e começou a se levantar. – Certo, deixe-me apenas ligar para tia Âng... – cortei-a, segurando-a pelo braço, impedindo que se afastasse.

-Não! – gritei. – Apenas vá encontrar seu pai! Por favor... – Renesmee franziu o cenho, nervosa. Tentei manter minha respiração profunda, querendo não assustar muito Renesmee, mas esta tarefa estava se mostrando cada vez mais difícil.

-Mas mamãe... – Renesmee tentou argumentar novamente, seu pânico cada vez mais claro para mim; eu queria acalmá-la, dizer-lhe que tudo estava bem, mas, diabos, no momento eu estava precisando que alguém dissesse isso para mim! E não o contrário!

-Renesmee preste... Agr... Preste atenção... – falei ofegante. – Seu pai esperou muito por isso... Não posso tirar esse momento dele! Não posso! Ele já se odeia por não ter estado no seu nascimento... Arg... Não posso negar-lhe esse momento. – lágrimas começaram a rolar por meus olhos. – Por favor, vá depressa, querida! Faça isso por mim! Por favor... – pedi num sussurro quase inaudível. – Apenas... Por favor, vá.

Vi os olhos de minha menina se banharem em lágrimas, comovida, ao mesmo passo que vi a determinação e a força nascer em seus olhos. Ela assentiu, confiante. – Eu vou voltar logo. – Renesmee beijou minha testa e se levantou. – Eu prometo! – e então desapareceu, em sua velocidade sobre-humana.

Finalmente sozinha eu me permiti gritar, com força, liberando toda a dor até então reprimida. Minhas mãos pressionavam com força minha barriga, numa tentativa frustrada de manter os bebês ali por mais tempo.

-Pense, Bella, pense...! – ordenei a mim mesma, eu precisava adiar o parto, o que eu poderia fazer, o que? – uma nova contração. Um novo gemido. - Por Deus que dor horrível!

Minha mente divagou por tudo que vivi no nascimento de Renesmee, por todos os livros que li sobre esse momento, por qualquer informação que eu já tivesse adquirido e então me lembrei. – Um banho... Isso! – Eu havia lido em um livro qualquer que a água quente costumava acalmar o bebê. Também relembrei-me de como Renesmee ficava serena quando eu cantava.

Então era isso. Devagar, muito devagar, eu comecei a me arrastar em direção ao banheiro, minha voz rouca e quebradiça começou a cantar, baixinho, a canção de ninar de Renesmee. Eu só precisava ganhar tempo, logo os Cullens estariam aqui, logo tudo estaria bem. Eu só precisava adiar um pouco tudo isso.

A dor aumentava, arrancava-me o ar, perfurava meu ventre sem qualquer piedade e com tamanho afinco que comecei a me perguntar se este seria meu fim. A vida nunca pareceu tão incrivelmente próxima do fim como naquele momento. Aquela dor, aquele desespero não era nada comparado a dor do parto de Renesmee. Agora era pior, muito pior. A dor era dobrada. O medo era triplicado. A força era cortada pela metade...

-Se acalmem, meus amores... – sussurrei em meio as lágrimas quando uma nova contração forçou-me a me curvar tamanha a dor. – Por favor... – pedi angustiada, começando a acreditar que aquilo era inútil, mas eu não iria desistir. Não tão fácil.

Rastejei-me até o banheiro e liguei a água quente, no mesmo instante em que me sentava no piso do banheiro, embaixo da água quente, ainda vestida, permitindo que a água quente caísse sobre minha barriga. Apoiei minha cabeça na parede. Fechei meus olhos. Minhas mãos descansaram sobre meu ventre. Minhas pernas se dobraram, abertas.

Uma breve oração se formou em minha mente. A dor e a anestesia devido ao cansaço físico-emocional me consumiam. Minha respiração ameaçava se acalmar, mas era cortada pela dor que sem qualquer piedade arrancava-me o ar.

Meus lábios balbuciavam, agora já bastante incoerentes, canções tranqüilas, ainda na tentativa frustrada de acalmar meus pequenos apressadinhos. Minhas lágrimas, assim como meu suor, se misturaram as águas do chuveiro, minhas energias foram se afastando de mim tornando cada contração mais dolorosa e intensa. Eu queria fazer alguma coisa. Queria pensar com clareza, achar alguma solução, decidir o que fazer agora, mas eu mal conseguia mais pensar.

Minha mente estava estática na dor e na idéia de que meus pequenos milagres estavam para chegar. Eu queria rir. Eu queria chorar. As emoções se embaralhavam, tão intensas e fundidas que era impossível se perceber qual se sobre-saltava, ou qual era equivocada.

A dor aumentava. Minha lucidez diminuía. Eu logo perderia a consciência, eu sabia disso. Me apavorava a idéia de padecer antes que alguém estivesse aqui para zelar por meus filhos. Talvez continuar embaixo do chuveiro fosse tolice, se eu desmaiasse ali, um acidente pudesse se suceder. Era melhor voltar para meu quarto. Ao menos lá nada poderia acontecer de muito sério.

Com esse pensamento desliguei o chuveiro e comecei a me arrastar para o quarto. Ofegante. Dolorida. Cansada. No meio do caminho uma dor soberana arrancou-me o ar e um grito estridente, cai no chão, contorcendo-me, senti um líquido viscoso por entre minhas pernas, apavorando-me ao perceber que a bolsa rompera. Então havia chegado a hora.

Desisti de tentar chegar a cama, me permiti repousar ali mesmo, no chão do quarto, sem conseguir me decidir se gastava o restante de minhas forças para gritar ou para me manter sã por mais alguns instantes.

Minhas mãos seguravam com força minha barriga. Minha voz já não mais existia. Minha respiração diminuía. A dor aumentava, traiçoeira, encantadoramente traiçoeira. Fechei meus olhos. Pedi aos céus que descontasse em mim todas suas iras e frustrações, mas que não permitissem que nada de mal acontecesse aos meus pequenos tesouros, eles não tinham culpa de nada. Não mereciam sofrer. Era tudo que eu precisava para padecer em paz.

Me concentrei na idéia de ver minha família aumentar. No sorrido de minha filha. No olhar de meu marido. Era apenas esse tipo de pensamento que eu deseja inundar minha mente. Um som estranho de sirene começou a soar cada vez mais próximo aos meus ouvidos. Estranhei. Mas estava cansada demais para tentar entender.

Um estrondo se seguiu e eu pude ouvir a voz apavorada do anjo com quem me casara gritar por meu nome. Nem tive a oportunidade de abrir os olhos e já senti suas mãos acolhendo-me em seu colo. – Bella... Bella fale comigo, Bella! – pedia ele em meio ao pânico. Eu queria dizer-lhe que estava tudo bem, contundo não conseguia mais me mexer.

Senti outras mãos frias tocando-me e uma voz tão doce quanto a de meu marido, seria Carlisle? Provavelmente. Mas eu não tinha como saber com certeza. Então novas mãos, agora quentes, começaram a me tocar e logo algo foi pressionado contra meu nariz e minha boca, o ar ficou mais acessível.

Senti ser-me deslocada por uma taboa e meu braço ser espetado. Eu queria entender, queria compreender o que estava acontecendo e me forcei a abrir os olhos só para então encontrar aquele olhar tão amado por mim. Repleto de medo e glória. – Bella... Oh, Bella. – Edward nem mesmo conseguia falar, devido a emoção, suas mãos tomaram as minhas e as beijaram.

A dor começara a ceder, fato que agradeci interiormente. Olhei a nossa volta e pude ver Carlisle e mais um para-médico, ambos trabalhando com afinco. Estávamos em uma ambulância. E então a consciência me tomou, nossos filhos iriam nascer! Sorri abertamente e voltei a fitar Edward, segurando sua mão com a pouca força que tinha. – Vai ficar tudo bem, meu amor... – jurou ele tentando me tranqüilizar. – Eu estou aqui com você, tudo vai ficar bem.

Soltei sua mão e retirei o inalador de meu rosto, eu precisava dizer. – Eles vão nascer, Edward... – sussurrei quase sem forças, mas meu sorriso era enorme e satisfeito. Era mais uma missão cumprida.

Edward também sorriu abertamente, em estado de plenitude e recolocou o inalador em meu rosto. – Sim, meu amor. Logo nossos filhos estarão aqui conosco, você verá! – ternamente, ele afagou meus cabelos molhados e desgrenhados, observando-me com verdadeira adoração. Mantive meu olhar preso a Edward, ignorando todo o resto, as contrações, a conversa intensa entre os dois médicos, o medo, tudo. Edward estava ali comigo, agora eu sabia que tudo ficaria bem.

Fechei meus olhos por alguns instantes, permitindo que todo o cansaço se apoderasse do meu corpo, concentrei-me apenas nas mãos suaves de Edward afagando-me os cabelos, e sua voz doce prometendo estar ao meu lado a todo momento. As dores vinham, cada vez menos espaçosas, cada vez mais intensas, mas eu não mais sentia dor, Carlisle provavelmente havia me dado uma anestesia ou qualquer coisa parecida.

O percurso foi rápido e quando eu menos esperei, já estava sendo acomodada a uma cama de hospital, repleta de aparelhos e uma equipe médica muito bem treinada. Meus filhos estavam seguros agora. Edward não soltou minha mão nem por um único minuto e isso me acalmava, me transmitia segurança. Eu não sentia mais medo.

-Edward? – ouvi a voz totalmente tensa e profissional de Carlisle chamá-lo. Mantive meus olhos fechados, contudo, me concentrei na conversa que se iniciava.

-Sim? – respondeu ele, sua voz era controlada, muito embora eu pudesse sentir o leve tom de histeria em sua voz.

-Dr. Pedro e eu acreditamos que talvez agora uma cesariana seja a melhor opção para Bella e os bebês. – declarou meu sogro.

Senti Edward ficar tenso, eu também me vi apreensiva, eu não queria uma cesariana. – Bella e eu havíamos concordado que o melhor fosse parto normal. – contrapôs meu marido.

-Sei que sim, Edward. – A voz do meu obstetra soou próxima a mim. – Mas devido ao estado debilitado em que Bella se encontra, talvez possa ser perigoso tanto para Bella quanto para os bebês se insistirmos em um parto normal.

O pânico me tomou naquele instante, como assim perigoso para os bebês? O que estava acontecendo? – Eu quis abrir os olhos e falar, quis abraçar Edward, buscar consolo em seu colo, mas meu corpo parecia não responder aos meus movimentos.

As mãos de Edward apertaram as minhas. – Eles estão em risco? – Meu marido nem mesmo conseguia mais esconder o pavor em sua voz.

-A situação é delicada, mas eles ainda estão bem, os três. Contudo, insistir em um parto normal irá exigir de Bella muito mais energia e ela já se encontra muito debilitada, e quanto aos bebês, eles precisam sair. Se esperarmos mais eles podem sofrer por falta de oxigênio uma vez que Bella ainda não possui dilatação suficiente para ocorrer um parto normal seguro. – Dr. Pedro explicou cuidadosamente, como se soubesse que eu estava ouvindo e tentava não me apavorada.

-Mas a decisão é sua, filho. – interveio Carlisle polidamente. – Se você quiser esperar um pouco, tentar pelo parto normal... Você é o marido e o pai, o que você decidir será feito. – Eu podia sentir toda a apreensão de Edward, podia ver sua luta interna, sua indecisão, sem saber o que fazer, eu podia sentir o medo de tomar a decisão errada apavorando-o. Eu queria poder ajudá-lo, queria poder dividir seu fardo. Tomar juntos a melhor decisão, mas eu não possuía forças para falar, tão pouco para abrir meus olhos. Edward precisaria decidir sozinho, e no final, eu o apoiarei em sua decisão.

Um silêncio conturbado se instalou, eu sentia as mãos de Edward afagando meus cabelos, sentia a tensão, o medo que emanavam dele, percebi sua respiração profunda e quase pude ouvir a breve prece pedindo ajuda escapar por seus lábios, até que em fim, Edward falou. – Existe alguma maneira de Bella estar lúcida e consciente durante a cirurgia?

-Podemos dar-lhe um estimulante. – garantiu Dr. Pedro com firmeza.

Edward apertou minha mão. - Façam a cesariana! – bastou suas palavras escaparem por seus lábios o alvoroço se fez intenso a nossa volta; vozes ansiosas, passos apressados, instrumentos se movendo, aparelhos sendo ligados, tudo parecia muito próximo e muito longe de mim, a única coisa realmente em todo aquele alvoroço era os beijos cálidos de Edward sobre meu rosto.

O tempo se fez inerte, muito rápido, muito devagar. Era difícil descrever. Eu vi meu corpo ser manipulado como um boneco de fantoche, senti-me despertar e conseguir abrir os olhos para ver Edward ao meu lado, assim como senti perder todo e qualquer movimento ou sensibilidade do pescoço para baixo. Tudo pareceu assustador, mas bastava eu firmar meus olhos sobre os de Edward para sentir-me segura e amparada.

Quanto tempo tudo durou? Era difícil dizer... Assim como era impossível descrever as emoções que me tomavam. Meu peito parecia querer arrebentar de alegria e temor. O medo que algo de ruim acontecesse a um de meus filhos era enlouquecedor. O medo de ver a decepção ou a dor nos olhos de Edward eram suficientes para me fazerem orar aos deuses que não permitissem que desgraça alguma recaísse sobre aquela sala.

Ouvi Carlisle narrar algumas coisas para Edward e também escutei-o sussurrar algumas coisas para mim, mesmo mais consciente minha mente parecia alheia a tudo, nada que eras dito conseguia se prender em minha mente. Tudo parecia irreal demais. Foi então que aconteceu...

Afinado. Estridente. Maravilhoso, o choro encantador de um de meus filhos soou acima de qualquer outra coisa. Meu coração disparou ao mesmo tempo em que meus olhos se encheram de lágrimas e logo transbordaram percorrendo meu rosto intensamente.

O olhar de Edward encontrou o meu por um breve segundo e eu pude ver a felicidade e a plenitude ali crescer, nossos sorrisos brotaram rapidamente, Edward tomou minha mão e beijou minha testa murmurando "Obrigado.", logo após Dr. Pedro declarar satisfeito. – É um menino.

Meu peito se aqueceu, senti meu coração fraquejar diante de tamanha alegria. Edward e eu voltamos nosso olhar para o pequeno embrulho choroso no colo do emocionado Carlisle, soluçando de alegria estiquei meus braços, querendo alcançar meu pequeno mocinho chorão.

Meus olhos estavam vidrados na pequena criatura tão magicamente perfeita que fora entregue a mim, emocionando-me ao cessar seu choro assim que se acomodara em meus braços. Seus olhinhos tão pequenos e achocolatados como os meus, encarara-me por um breve instante antes de se entregar ao sono tranqüilo.

Minha mão afagou deslumbrada o pequeno rostinho aconchegado na curvatura de meu pescoço. – Meu pequeno príncipe. – sussurrei em meio a lágrimas, o sorriso cada vez maior em meus lábios. A fascinação dominava-me. Como poderia existir uma criaturinha tão perfeita? Tão maravilhosamente perfeita?

Eu estava petrificada naquele momento, sentido a pele frágil e macia de meu filho roçar-se em meu rosto, sentia seus dedinhos delicados e pequenos tocando-me aleatoriamente. Edward nos abraçava emocionado, apreciando também daquele momento tão intimo, tão puro, quebrado apenas por um novo choro, tão estridente e majestoso quanto o de meu filho.

-É uma menina! – Dr. Pedro declarou exultante. Novas lágrimas, novas emoções. Edward soluçava, um choro comovido, sem lágrimas, sem dor. A alegria e a plenitude nos acertaram firmemente. Carlisle logo apareceu, sorrindo, emocionado, carregando um novo embrulho, desta vez rosa, e o aconchegou em meu outro braço, fazendo minha menina se acalmar no mesmo instante.

-Nossas filhas...! – Sussurrou Edward aos soluços. Seus lábios pressionavam com força minha testa. Seu corpo irradiava alegria. Eu sabia que Edward degustava da mesma sensação de felicidade que eu. Eram nossos filhos. Estavam ali, conosco. Saudáveis. Duas promessas vivas que pedras e buracos poderiam existir no caminho da vida, mas no final, valia a pena o sofrimento.

Os dois pequenos foram levados para rápidos exames e uma limpeza mais profunda, enquanto eu também era limpa e levada para o quarto. Edward se dividiu entre estar comigo e observando nossos filhos com verdadeira devoção.

Tive a graça de presenciar o momento em que Carlisle parabenizou seu filho pela dádiva alcançada, um momento tão puro, tão encantadoramente lindo, onde um pai ensinava seu filho as emoções de ser um pai e aprendia as novas emoções de ser avô.

Assim que fora liberado, nossos filhos vieram se alimentar em meus seios, juntos, tranqüilos, sem presa, permitindo a Edward e eu admirá-los com devoção. Carlisle havia nos deixou a sós, indo avisar as boas novas ao restante do pessoal.

Edward estava sentado ao meu lado na cama, abraçando-me por trás, apreciando nossos filhos, enquanto eles se alimentavam com afinco. O silêncio era agradável e incrivelmente agraciado. – Você já escolheu o nome dela? - perguntei após alguns instantes em silêncio.

Edward assentiu sem tirar os olhos de nossos filhos. – Sim, gostaria de chamá-la de Sophie, vem de Sophia, em latim significa sabedoria, pois eu tenho certeza que não só ela... – ele tocou gentilmente o rosto de nossa filha e em seguida o de nosso filho. – Mas os dois tem muito a me ensinar.

Sorri sentindo novas lágrimas caírem por meu rosto. – A nos ensinar. – corrigi em concordância. – Então será Sophie. Sophie Cullen. – repeti satisfeita com a escolha.

Um breve silêncio se instalou novamente, Edward quebrou-o desta vez. – E você? Já escolheu o nome do nosso pequeno?

Assenti em resposta, soltando uma leve risada ao perceber que ambos havíamos escolhido nomes segundo seu significado. – Ian. – declarei firmemente. – Ian em eslavo significa Deus é gracioso; - minha boca se fechou numa leve linha antes de continuar minha explicação. – Depois de tudo que vivi. Depois de tudo que presenciei, eu não posso negar o quão bondoso Deus é. – Recostei minha cabeça no peitoril de Edward. – Temos muito o que lhe agradecer.

Edward assentiu concordando e beijou minha testa. – Deus tem sido muito piedoso conosco, principalmente ao nos dar nossos três tesouros; Renesmee, Sophie e Ian Cullen. – o sorriso surgiu nos lábios de ambos, nossos olhares se cruzaram e um beijo terno se seguiu. – Eu amo você, obrigado por me fazer o homem mais feliz deste mundo.

-Obrigada por me amar. – respondi antes de beijá-lo novamente ciente de que nossa família era linda e perfeita.


Bom gente, faz tempo que eu não venho aqui, né? Desculpem-me por isso...

Vim apenas dizer que demorei tanto porque estava esperando a copia do capitulo corrigida pela beta, mas como a mesma esta enrolada, eu resolvi postar sem a correção e quando eu receber o capitulo betado eu posto novamente!

Obrigada a todos que tem lido e comentado a fic!

M.R.P.