Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
CAMPO DE TREINAMENTO
53: Nem no inferno há ira como a de um Winner desprezado*
*Ditado comum em inglês, é uma referência à frase do autor William Congreve contida no livro The Mourning Bride (1697), "(...) nor hell [has] a fury like a woman scorned". Em português: nem no inferno há ira como a de uma mulher desprezada.
O major Merquise foi o primeiro a notar a mudança de atitude no time Wing. Quando os rapazes chegaram à aula de simulação, não estavam conversando nem fazendo brincadeiras. Até mesmo Duo, geralmente o mais comunicativo estando feliz ou bravo, agia arredio. Entretanto, ocupado em ensinar, Zechs não pôde questionar a mudança. Nem foi capaz de alcançá-los no fim da aula, pois tinham prova de artes marciais.
Atribuiu à preocupação deles com Heero e à obsessão de encontrar evidência da corrupção de Kushrenada, e retornou ao escritório para analisar os resultados das avaliações do dia, uma atividade que ultimamente ocupava suas horas junto ao jantar.
Enquanto isso, após terminarem com artes marciais, os três rapazes foram ao refeitório, e Quatre preparou para a estreia do ato "namorado traído".
Duo estava na fila, com Trowa logo atrás, inclinando-se sobre seu ombro para sussurrar em sua orelha de vez em quando. Até mesmo a proximidade adicional atraía olhares de alguns outros times.
"Ei, ouviram alguma coisa do Heero?" Ben perguntou, aproximando-se de Duo enquanto procuravam onde se sentar.
"Nada novo," Duo suspirou, relanceando para Trowa e sorrindo de leve. Ah é, ele podia muito bem ser um ator. Não se vive em L2 sem esse tipo de habilidade básica de sobrevivência.
O olhar de Ben passou de Duo para Trowa, então para Quatre, que fulminava com o olhar sua bandeja enquanto andava. "Que pena," Ben comentou.
"É," o rapaz de trança concordou. "É uma droga," sua voz saiu neutra, quase indiferente, mesmo sendo uma tortura para ele fingir se importar tão pouco.
Dessa vez, o rapaz do time do Jason franziu o cenho. "Você tá legal, Duo?"
O rapaz de trança deu de ombros. "Tô."
Trowa sentou-se ao lado de Duo, forçando Quatre se sentar do lado oposto. O loiro conseguiu mostra uma expressão magoada, batendo a bandeja na mesa um pouco mais forte do que necessário.
Merda, está sendo mais difícil do que ele esperava, Duo percebeu. Faltou muito pouco para alcançar o amigo e confortá-lo. Mas haviam concordado com o plano, e deixou seu ombro roçar contra o de Trowa durante a refeição.
Ben sentava-se na diagonal de Duo, revezando olhar para sua comida e para o rapaz de L2. Contudo, manteve-se em silêncio, aparentemente considerando a situação.
Quando Duo esticou a mão para pegar o sal, Trowa fez o mesmo, suas mãos se encontraram no meio do caminho. Murmurando "desculpa", Trowa desviou o rosto como se tímido.
Estavam no meio da refeição quando Adam e Austin chegaram, acomodando-se a mesma mesa e puxando conversa sobre mobile suits. Duo se juntou entusiasmado, feliz de poder agir normalmente ao menos nesse momento.
Quatre se levantou antes de terminar de comer, lançando um olhar doloroso aos companheiros de time. "Vejo vocês dois no quarto." Saiu rápido, deixando para trás rostos confusos.
"Qual é a do loirinho?" Austin perguntou encarando Duo.
"Sei lá eu," respondeu, recostando-se na cadeira e deixando sua coxa encostar na de Trowa. "Ele tá cheio de frescura o dia todo."
Ben olhou para Adam, que deu de ombros, então voltou-se para Duo. "Sem querer ser enxerido, Maxwell, mas você e o Quatre não são amigos?"
"Éramos," Duo respondeu tranquilo, virando-se rápido para Trowa e desviando o rosto, como se estivesse sendo evasivo.
"Eram?" Ben perguntou incrédulo, o rosto ficando avermelhado de nervoso. "Aquele cara salvou a sua pele de ser mandada pra prisão, Duo. O que poderia acabar com a amizade de vocês?"
Dessa vez, Duo olhou mais demoradamente para Trowa, e abriu um sorriso falso para Ben. "Ei, merdas acontecem." Levantou-se e pegou a bandeja, dando as costas para a mesa, mas parando ao lado do acrobata. "Te vejo lá fora," murmurou, permitindo que os outros ouvissem de propósito. Então se retirou para depositar a bandeja onde deveria e esperar na escada do refeitório.
Todos os olhos da mesa agora miravam Trowa, que manteve uma máscara de indiferença. "Acho que já vou indo," murmurou.
Austin teve outra ideia e, após trocar uma olhadela com Ben e os outros integrantes do time Jason, levantou-se e barrou o caminho do acrobata. "Espera aí, Barton. Tem alguma coisa rolando entre vocês. Quer nos contar o que está acontecendo?"
Trowa rebateu com um olha frio. "Não é da sua conta."
"Até parece," respondeu rápido. "Uns dias atrás, estava todo mundo cuidando do Maxwell, se sentindo mal por ele estar triste já que o Yuy caiu fora. Agora, vocês estão agindo esquisito e não é da conta de ninguém?"
O moreno alto sentiu-se culpado. Os outros dois times foram incrivelmente solidários, e era difícil deixá-los de fora. Contudo, era necessário se esperavam enganar Kushrenada em acreditar no plano de fuga de Duo.
"O que acontece dentro do time Wing só diz respeito aos seus integrantes," Trowa falou com a voz neutra.
"Não receberam notícias ruins do Yuy, receberam?"
Trowa balançou a cabeça em negativa. "Não recebemos notícia nenhuma."
"Então qual é a de vocês?"
Suspirando pesado, Trowa fez um gesto com a bandeja. "Quer sair da minha frente, Pritchard? O Duo está me esperando."
"E por quê?" Ben questionou semicerrando os olhos com desconfiança. "Achei que estavam andando vocês três juntos por segurança. Aonde o Quatre vai sozinho?"
Trowa rodou os olhos. "Ele e Duo não estão se dando muito bem agora. Dá um tempo."
Olhares curiosos seguiram o acrobata enquanto ele cruzava o refeitório e deixava sua bandeja na pilha. Quando ele abriu a porta, Duo estava logo ali, e pegou sua mão quando saiu.
Andaram pelo campo devagar, sabendo com certeza que a última coisa vista pelos outros antes de a porta se fechar foram eles dois de mãos dadas, e adivinhando que ao menos alguns tentariam dar outra espiada pela porta ou janela.
"Odeio isso," Duo sibilou, aproximando a cabeça de Trowa.
"Eu sei. Mas se funcionar, a fofoca vai chegar no Kushrenada que você e Quatre estão se estapeando por mim."
"E a fofoca vai ser que eu sou um galinha vira-casaca," Duo resmungou.
"Vamos desmentir tudo depois," Trowa o assegurou. Apertou a mão que segurava de forma reconfortante. "Lembre-se, depois de provarmos que o K. está envolvido na morte de Lowe e com distribuição de drogas, podemos contar a verdade pra todo mundo."
Duo abriu um sorriso sem humor. "Você é gente fina, Trowa."
"Estou aprendendo a ser," respondeu baixo.
Isso arrancou uma risada do rapaz de trança. "Pare de se martirizar, Tro. Já te falei, estamos quites. Nós dois tínhamos muito o que aprender sobre trabalho em equipe antes de chegarmos aqui. E acho que estamos mandando muito bem."
Trowa abriu a porta do quarto e Duo entrou primeiro, apenas para Quatre envolvê-lo num abraço. "Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz!" o loiro exclamou.
Duo abraçou o amigo de volta. "Eu também," suspirou. "Droga, Quat. Não sei se vou conseguir." Afastou o loiro. "Você tava com uma cara de cachorro abandonado."
"Jura?" Quatre perguntou sorrindo. "Eu estava tentando fazer cara de gatinho encharcado."
"Seu palhaço," Duo murmurou, soltando o amigo e indo até a cama de Heero. "E todo mundo ficou nos encarando! Começou a cair a ficha."
Quatre esperou Trowa fechar a porta antes de abraçar o namorado, enterrando o rosto na camisa dele.
"Não é tarde demais para desistir," Trowa falou sombrio, sentindo o namorado estremecer. Seus olhos verdes preocupados, enquanto ele guiava Quatre até a cama e sentaram. "Com o seu dom de empatia, você deve ter sentido a hostilidade lá. Eu senti, e não sou muito bom em ler os sentimentos das pessoas."
"Ben estava confuso... um pouco desconfiado," Quatre comentou baixo, recostando-se em Trowa enquanto o outro massageava suas costas com movimentos circulares para relaxá-lo. "Adam também. E Austin ficou meio irritado." Olhou para Duo, que havia exageradamente jogado um braço na frente do rosto. "Talvez o Austin achasse que se você desse um pé na bunda do Heero, ele seria o próximo da fila," adivinhou.
Duo contara para o amigo sobre a conversa no vestiário, e grunhiu. "É, ele pode ter achado isso mesmo." Suspirou pesado. "Percebeu mais alguma coisa?"
"Bom, estávamos sendo vigiados," Quatre o assegurou. "Garanto que gente mais do que suficiente nos ouviu para espalhar o rumor."
"Tro e eu andando de mãos dadas deve ter reforçado," Duo contou.
"Vocês andaram de mãos dadas?"
"Andamos... mas ficamos perto o suficiente para parecer que estávamos tentando ser discretos," o rapaz de trança acrescentou.
"A propósito, Maxwell," Trowa comentou. "Foi um bom toque. Aquela parte na porta foi boa."
"Odeio a minha porra de vida," Duo respondeu. "Com certeza vai ser difícil consertar isso depois."
"Imagina se o Heero ainda estivesse aqui," Quatre comentou com uma risadinha nervosa.
"Eu não conseguiria," respondeu decidido. "Se eu tivesse que agir como se tivesse dado um pé na bunda dele com ele bem aqui? Nem a pau." Ele esfregou o rosto com as mãos, o cansaço da noite anterior o alcançando. "Vou tentar dormir um pouco. Podem me acordar em meia hora para eu estudar para a prova de amanhã de mobile suit?"
"Claro," Quatre respondeu olhando para Trowa com malícia e inclinando-se para um beijo.
"E não façam muito barulho, beleza?" Duo acrescentou sem abrir os olhos. "Sem gemidos, por favor."
"Duo!" Quatre exclamou ultrajado, corando.
Trowa apenas sorriu e o puxou para um beijo.
Apenas momentos depois, uma batida nítida na porta assustou Duo, que sentou-se repentinamente, enquanto Trowa e Quatre se separavam. "Entra!"
O major Merquise entrou, frios olhos azuis semicerrados.
"Nossa. Notícia ruim vem a cavalo," Duo sorriu, esfregando os olhos sonolentos.
O major fixou um olhar congelante no rapaz de trança. "Então sabe porque estou aqui."
O recruta de L2 assentiu, bocejando de leve. "Quer fechar a porta, senhor? Prefiro que seja uma conversa particular."
Zechs bateu a porta com força e foi até a escrivaninha para sentar-se em sua beirada, de frente para Duo, sentado na cama de Heero. "Fale, Maxwell."
"Você primeiro," o recruta sugeriu. "O que ouviu?"
"Ouvi que você deu um pé na bunda do Yuy, sem ele nem saber, para ficar com o Barton, quebrando o coração do Winner no processo."
"Caralho! O telefone sem fio aqui é muito bom!" Duo se admirou.
"Me diga que estou errado!" o militar exigiu irritado.
"Opa, machão. Não quer esfriar a cabeça um pouco?" Duo repreendeu com graça. "É claro que está errado."
O major pareceu ser pego de surpresa com a resposta. "Está?"
"Está sim," Duo falou, deixando de lado a brincadeira e mirando o major com um olhar sério. "Ainda estou perdidamente apaixonado pelo Yuy, e o Barton está louquinho pelo loiro angelical ali."
Merquise olhou para Trowa e Quatre, ambos sentados em lados opostos na cama de Winner tentando parecer inocentes. Então se virou com uma careta para Duo. "Explique-se."
"O plano," o recruta de trança falou. "Falamos para você que bolaríamos um plano, e foi o que fizemos. O problema é que você não estava no seu escritório mais cedo e não deu para te contar, e agora o plano mudou um pouco mesmo."
O agente da ASMS esfregou cansado as têmporas. "Talvez seja melhor o Winner explicar."
"Não! Eu consigo," Duo insistiu. "O plano é Tro e eu fingirmos que terminamos com nossos parceiros para ficarmos juntos. O Quatre vai falar com o Kushrenada e dizer que quer se vingar de mim por ter roubado o namorado dele. Aí ele vai falar que eu estou planejando uma fuga no domingo à noite. Enquanto o Kushrenada vai atrás de mim, Trowa e Quatre vão entrar no escritório dele e pegar o que precisamos do computador."
Zechs balançou a cabeça com uma expressão cética. "É arriscado demais, e você nem sabe o que está procurando no computador."
"Sabemos sim!" Quatre interviu. "Kushrenada é o líder de uma rede de contrabando de drogas. Temos uma planilha de voos e listas de passageiros da vez que hackea—ahm, quero dizer, que fizemos uma varredura no sistema. Só o que precisamos é achar uma ligação e providenciar nomes, datas e transações financeiras."
"E registro de ligação," Duo contribuiu. "Ainda precisamos localizar a ligação que causou a morte de Lowe... uma ligação para L1."
O major ainda mantinha a careta. "Vocês tem ideia de quantas coisas podem dar errado num plano como esse?"
"Major," Duo chamou num tom conspiratório. "Você tem ideia de quantas coisas deram errado nas nossas vidas? Cada um de nós está aqui porque deu algo errado. Agora finalmente temos a oportunidade de fazer algo certo."
"Eu reconheço sua determinação em fazer Kushrenada pagar pelos crimes que cometeu, mas questiono seus métodos..."
"Não temos alternativa," Duo afirmou. "Uma chance." Inclinou-se para frente, olhos índigo implorando. "Precisa nos dar uma chance, senhor. Pode ajudar o Heero, e é só o que podemos fazer por ele."
O major Merquise esfregou os olhos por um momento, considerando o plano e o desespero deles. Embora preferisse que eles esperassem até após se formarem, sabia que a impaciência não permitiria. Nem pensava que teria tempo de aprontar uma armadilha depois que o programa acabasse. Era mesmo uma posição de agora ou nunca.
"Se eu deixar que continuem com o plano," falou devagar. "Primeiro, me mantenham informado. Quero saber de cada movimento que fizerem e cada detalhe."
Os três rapazes concordaram com a cabeça.
"Segundo, próxima vez que eu falar com o Chang, vou repassar a informação. Se ele achar que é perigoso demais para vocês, vou pisar no freio."
Duo franziu o cenho de leve. "Que tal deixar eu falar com ele?" Abriu um sorriso sedutor. "Posso ser muito persuasivo."
"Estou começando a perceber isso," respondeu seco. "Muito bem. Se Chang se opor ao plano, vou dar um jeito de você conversar com ele... mas somente se concordar em aceitar a decisão dele." Abriu um sorriso selvagem em resposta. "Afinal de contas, você está sob a custódia dele, Maxwell."
"Mal posso esperar para ter dezoito anos," Duo resmungou.
"Corram para as montanhas," Merquise respondeu. Apreciou os rapazes. "Vocês três conseguiram fazer o campo todo falar sobre o que aconteceria se o Yuy voltasse e descobrisse que o namorado já partiu pra outra."
Duo ergueu o rosto esperançoso. "Você ainda não deve ter ouvido nada a respeito, ouviu?"
Zechs balançou a cabeça em negativa. "Ainda não. Espero receber notícias amanhã quando a coronel Une entrar em contato." Notou a expressão desapontada do rapaz de trança e sorriu de modo reconfortante. "Não se preocupe, Maxwell. Você sabe que o Chang está lá com ele para o que der e vier."
"Eu sei."
"E, sinceramente, é melhor ele não estar aqui para ver esse plano maluco de vocês. Eu já vi como o Heero olha pra você, Maxwell, e para qualquer um que se aproxima. Ele poderia interpretar o papel de namorado ciumento assassino muito bem."
"Interpretar?" Trowa zombou. "Eu já vi ele ciumento, senhor. Não acho que ele precisaria fingir nada."
"Hum, falando em interpretar," Duo interrompeu. "Você vai pedir para o Wufei contar o plano para o Heero, né?"
"Prometo pedir para o Chang repassar a mensagem... principalmente se eles voltarem antes da formatura. Não gostaria que Heero acreditasse em qualquer rumor solto por aí."
"Pode apostar," Duo reafirmou.
O major se levantou, espreguiçando-se. "Bom, tenho que terminar de planejar mais aulas." Brindou-os com um sorriso brincalhão. "Os exercícios de mobile suit de amanhã vão desafiar até mesmo vocês três."
"Nesse caso," Duo suspirou. "Vou voltar a dormir."
Merquise foi até a porta, mas parou, olhando de volta com seriedade nos olhos azuis frios. "Mais uma coisa, Maxwell. Nunca mais me chame de machão ou vai servir na cozinha pelo resto de sua carreira militar. Entendido?"
"Sim, mach—ahm—senhor," Duo murmurou sonolento, sorrindo consigo mesmo.
Na manhã seguinte, os rapazes continuaram a atuação. Após a calistenia e o banho, Quatre comeu o café da manhã de frente a Duo e Trowa, que se sentavam perto o suficiente para parecerem confortáveis um com o outro e conversaram com vozes baixas para ninguém os ouvir. E, outra vez, saíram separados, Duo e Trowa indo em uma direção enquanto Quatre seguia para outra.
O loiro viu Ben e Adam se juntarem a ele. "Ei, Quatre, o que tá rolando com vocês?" Ben perguntou de supetão.
"Vocês quem?"
"O seu time. Por que parece que o Barton e o Maxwell estão feito unha e carne de repente?"
Quatre desviou o rosto fingindo uma expressão de desgosto, mas os outros dois pararam na frente dele.
"Fala sério, Winner. Nós te ajudamos a sabotar o ônibus que ia arrastar o Maxwell pra prisão. Até esses dias, ele estava apaixonado pelo Yuy. Quer mesmo que eu acredite que isso mudou?"
Quatre considerou os rapazes, nos quais aprendera a confiar, estremecendo de leve. "Preciso que acreditem nisso, Ben." Sustentou o olhar preocupado. "Confie em mim."
Os rapazes do time Clip trocaram olhares pensativos, então Ben falou de novo. "Você está aprontando alguma coisa."
"Bem que eu queria lhe dizer," Quatre falou.
"Não precisa." Ben virou-se para Adam, que assentiu com a cabeça. "Se alguém perguntar, até onde eu sei vocês estão brigados, e o Maxwell é um traidor escroto."
Quatre concordou. "É o que parece. Certo?"
Adam bufou. "Você devia ouvir a conversa no vestiário," murmurou. "Austin viu o Maxwell e o Barton se pegando atrás do prédio e quase teve um infarto. Ele queria saber se todo mundo traçou o Maxwell menos ele."
"Merda," Quatre murmurou. Talvez o plano estivesse funcionando um pouco bem demais. "Concordem com tudo que andam falando, tá?"
"Tá, mas você nos deve uma baita explicação," Ben avisou. "Para o Jase também. Ele mandou uma carta perguntando como estão as coisas. Ele vai querer saber da história toda quando respondermos."
Quatre assentiu. "Preciso ir. Tenho que cuidar de um assunto antes do almoço."
E que assunto. Após as aulas matinais, ele deveria entrar no escritório do Kushrenada e trair seu melhor amigo. Mesmo sendo apenas uma atuação, ainda tinha uma sensação ruim no estômago, porque sabia que ao executar o plano, Duo estaria em perigo, enquanto ele e Trowa infringiriam todas as regras do campo de treinamento e algumas leis. Tudo poderia se voltar contra eles fácil... ou poderia valer muito a pena.
"Quatre Winner. Preciso ver o diretor, por favor," Quatre falou baixo para a secretária do escritório de Kushrenada.
Ela analisou o rapaz com cuidado. "Posso informá-lo da razão de sua visita?"
"Informação," o loiro respondeu sem pestanejar, encarando-a fixamente.
Ela se levantou e foi até a porta da sala, batendo de leve antes de abrir e colocar a cabeça para dentro. Embora não pudesse ouvir o que estava sendo dito, Quatre assumiu que o diretor aceitara vê-lo, pois a secretária abriu por completo a porta e gesticulou para que ele entrasse.
O homem de olhos fulvos lançou um olhar analítico e calculista para o rapaz, recostando-se contra a cadeira e pressionando os lábios. "Tem algo o incomodando, Winner?"
"Você disse que quer o Maxwell," Quatre comentou. "Pode ficar com ele."
Uma elegante sobrancelha se ergueu numa expressão cética. "Posso? Não foi você quem falou que ele não fez nada de errado? Se não me engano, suas exatas palavras foram: você não pode provar o que não é verdade, não foram?"
"Quer uma desculpa pra mandar ele pra prisão ou não?" o loiro perguntou impaciente. "O tempo está passando. O treinamento só vai durar mais uma semana."
Kushrenada fez um show ao dar de ombros. "Não sei, Winner. Qual o seu preço?"
"Só se livre dele."
"Como?"
"Ele está planejando uma fuga. Prometa capturá-lo e não foder com tudo como das outras vezes que tentou armar pra cima dele, e te dou os detalhes."
Os olhos do diretor estavam focados no rosto do rapaz, como se tentassem determinar a sinceridade pela sua expressão. "Conhecendo Maxwell como conheço, ele provavelmente está planejando uma fuga desde o primeiro dia," falou com frieza.
"Ele planejou."
"E há quanto tempo sabe do plano?"
Quatre deu de ombros. "Tempo suficiente."
"Mas esperou para me contar? Por quê?"
"Porque até agora não tive motivo para querer que ele sumisse."
O diretor abriu um sorriso sabichão. "Então é verdade. Assim que o Yuy saiu de cena, ele começou a trepar com o seu namoradinho."
"Minhas razões são irrelevantes. Você quer ele ou não?"
"Claro que quero. Mas o moleque é mais escorregadio que uma enguia. Por que devo acreditar que você pode me entregá-lo?"
Quatre jogou o rascunho e as anotações de Duo na mesa.
O diretor averiguou as folhas, ficando tenso ao perceber a exatidão das informações contidas ali. "Aquele moleque salafrário." Ergueu o rosto com prudência. "Como sei que o Maxwell desenhou isso? Você mesmo poderia ter feito."
"Vai ter que acreditar em mim," Quatre falou com mais calma do que sentia. Podia captar a hesitação do diretor... seu ceticismo... e sabia que estava na ponta da faca. O homem poderia rir na sua cara ou engolir a história.
"Assumindo que você está dizendo a verdade," o diretor falou devagar. "Este mapa não inclui data ou hora."
"Não, mas isso eu posso te passar."
"Primeiro, me dê um motivo. Como você mesmo me lembrou, o treinamento está quase acabando. Por que o Maxwell não esperaria mais uma semana?"
"Porque mesmo que ele esteja trepando com o meu namorado, ele ainda quer sair pra ir atrás do Yuy," Quatre revelou ríspido – amargo. "Ele tá cagando pra Academia. Nunca se importou." Mirou um olhar raivoso no diretor. "Além do mais, com Chang e Yuy fora, ele está com medo que você o pegue fazendo alguma coisa sem ter ninguém pra livrar a cara dele. Ele está com medo de você."
A última afirmação trouxe um brilho astuto nos olhos cruéis e uma sugestão de sorriso nos lábios de Kushrenada. "Faz bem em ter medo," falou com frieza. "Ele matou o meu irmão e sabe que é minha missão de vida arrancar uma confissão dele."
"Então... pode acreditar em mim e capturá-lo no ato... e vencer ele. Ou pode continuar sendo um babaca desconfiado e deixa-lo escapar pelos dedos." Quatre cruzou os braços. "Sinceramente, tanto faz pra mim. Ele vai dar no pé de qualquer jeito."
"Então por que me contar sobre o plano de fuga?"
"Porque ele sumir daqui não é o suficiente," Quatre falou num tom tão vingativo que surpreendeu a si mesmo. "Quero ele jogado numa jaula para nunca mais voltar. E quero que ele sofra pelo que tirou de mim." Encarou um olhar frio no homem um pouco surpreso. "Ninguém passa a perna num Winner e escapa ileso."
Aos poucos, um sorriso perspicaz se abriu no rosto de Kushrenada. "Ora, eu não acreditaria que um menino quietinho se tornaria um tigre. Acho que o subestimei."
"É comum em subestimarem," Quatre concordou. "Pior pra eles," acrescentou ameaçador.
O diretor riu. "Pois bem. Parece que o Maxwell finalmente mexeu com a pessoa errada... um erro que ele se arrependerá. Quando e onde?"
"Está vendo onde a cerca está marcada um pouco mais escuro?" Quatre indicou no mapa na frente de Kushrenada. "Domingo à noite. Ouvi ele contar para o Trowa que vai sair por volta da meia noite. Tem umas tábuas soltas no banheiro do quarto, ele as usou antes para fugir." Embora odiasse revelar tal segredo, Quatre sabia que o diretor verificaria a história. Seria típico para o homem sem escrúpulos checar o quarto enquanto estivessem em aula.
Kushrenada assentiu, um brilho triunfal nos olhos fulvos. "Fez a escolha certa vindo me procurar, Winner. Nós queremos a mesma coisa e temos meios de consegui-la."
"Você vai conseguir pegá-lo no ato, não vai? Não fode!" O loiro pressionou, mostrando ao homem seu olhar mais imperioso.
O rapaz foi confrontado com um rosto vermelho de raiva. "Eu não vou foder, moleque. A única razão pela qual Maxwell se safou até hoje é pura sorte e a inocência de Chang. Ele não terá nenhuma dessas duas coisas domingo à noite." Levantou-se e ofereceu uma mão. "Bom trabalho, Winner. Me mantenha informado se algo mudar."
"Vou fazer a minha parte," Quatre falou sem se intimidar, forçando-se a apertar a mão oferecida. "Apenas faça a sua." Virou-se sem esperar ser dispensado e andou apressado para fora do escritório, sentindo o olhar em suas costas o seguindo.
Foi difícil não correr pelo campo e se jogar no chuveiro para lavar a sensação vil do aperto de mão. Contudo, Quatre resistiu ao instinto e manteve um passo constante em direção ao refeitório.
Duo e Trowa já estavam lá, sentados lado a lado almoçando. Quatre pegou uma bandeja, embora não tivesse apetite, e jogou um sanduíche e uma bebida nela, andando para se sentar com Ben e Adam entre ele e seus companheiros de time.
Duo olhou em sua direção, uma pergunta estampada no índigo de seus olhos, e Quatre tentou projetar uma resposta afirmativa sem mudar sua expressão facial. Não teve certeza se estava sendo bem-sucedido quando o amigo continuou franzindo a testa.
Os dois se encarando não passou despercebido, nem o fato de Trowa interrompê-los cutucando Duo no ombro e oferecendo um cookie. O rapaz de trança piscou confuso, virando-se para o moreno alto, aceitando a oferta com um pequeno sorriso e um olhar agradecido.
Então Quatre surpreendeu a todos levantando-se e jogando sua bandeja nos dois companheiros de time antes de sair batendo os pés.
"Puta merda!" Duo rosnou, tentando, sem sucesso, salvar o que sobrara do seu almoço. Levantou-se, virando como se para seguir o loiro, mas parou quando Trowa o segurou pelo pulso.
O moreno alto apenas balançou a cabeça uma vez, como um aviso, segurando com firmeza o pulso, e Duo voltou a se sentar olhando para o seu companheiro de time com uma expressão preocupada.
Ele sabia que era só uma atuação. Certo? Então por que parecia tão real para ele? Quase conseguia sentir a hostilidade de alguns dos times que consideravam amigos, e sabia que sua aparente traição a Heero manchava sua reputação. Embora Ben, Adam e Troy tivessem parado de questionar, Austin parecia ainda mais nervoso e outros aliados não conversavam nem com Duo nem com Trowa. O rapaz de trança não sabia se conseguiria tolerar a indiferença por mais três dias e meio.
"Vou voltar para o alojamento, Tro... estudar um pouco antes das provas."
"Vou com você," Trowa falou com um suspiro. Levantou-se do seu modo costumeiro, lento e desinteressado, mas ambos queriam encontrar o outro colega claramente irritado o mais rápido possível.
Um integrante do time de Austin, Richie, fulminou-os com o olhar. "Por que não deixam o Winner em paz? Acha que ele precisa de vocês dois esfregando na cara dele?"
Duo virou uma praticada expressão de confusão. "Esfregando o quê?"
"Você sabe o quê."
"Bom, talvez eu queira que você fale em voz alta," Duo rebateu com frieza.
"Você tá trepando com o namorado dele agora que o seu se escafedeu, e bem debaixo do nariz dele. Acha que não é óbvio?"
"Eu acho," Duo falou num tom cortante, "que não é da sua conta." Havia notado alguns rapazes do time do Kyle observando com atenção a algumas mesas de distância, e sabia que estavam escutando cada palavra de Richie.
Austin riu sarcástico. "Não, mas é da conta do Yuy," comentou grosseiro. "Espera só ele voltar, Maxwell."
Duo demonstrou seu espanto ao outro rapaz, mas não pela razão que a maioria pensava. Ele odiaria que Heero voltasse antes de o plano se realizar e poder revelar que era tudo uma mentirinha. Contudo, para os outros, sua expressão poderia comunicar seu medo pela volta do namorado ciumento. "Quer saber, Austin? Ele não vai voltar. Se eu achasse que voltaria, eu daria no pé." E com a dica misteriosa, virou-se e saiu do refeitório com Trowa o seguindo de perto.
Uma vez do lado de fora, Trowa passou o braço pela cintura de Duo, e o rapaz de trança se inclinou para o lado dele buscando o calor reconfortante. "Que merda, Tro. Acho que não consigo continuar com isso."
"Só mais uns dois dias," Trowa tentou acalmá-lo. "A essa altura, o K. deve ter ouvido que você me roubou do Quatre. E se foi no escritório dele que o Quatre tinha acabado de ir, ele o convenceu da sua escapada. Precisamos aguentar até domingo e teremos a prova que precisamos para botar esse desgraçado na cadeia."
Enquanto o time Wing se ocupava planejando contra Kushrenada, Wufei e Heero tomavam um chá de cadeira no espaço-porto esperando, impacientes, o primeiro voo disponível para a Terra. Haviam gastado a metade do dia com documentação para liberar Heero, recolhendo testemunhos do legista e dos funcionários do laboratório para comprovarem as descobertas das autoridades de L1. Então, contataram a coronel Une pedindo autorização para usarem o transporte militar se não conseguissem um voo comercial em tempo hábil.
Após algumas horas de sono inquieto, foram ao espaço-porto onde foram informados do atraso de seis horas do voo devido as difíceis condições atmosféricas da Terra. Wufei tentara várias vezes ligar para o Acampamento Peacecraft com a intenção de avisar Merquise que Heero fora inocentado e estavam retornando. Entretanto, além do atraso, a tempestade na Terra interferia com a comunicação.
"Dez tentativas!" Wufei exclamou, fechando o celular com força outra vez.
"Celulares não ligam fora do planeta," Heero o lembrou. "Nem mesmo o seu."
"Os telefones fixos também não funcionam," murmurou. "Dependem dos satélite, que estão inúteis com tanta interferência."
"Eu falei que você deveria ter ligado da prisão," Heero deu de ombros, recostando-se em sua cadeira e esticando as pernas.
"Liguei para a coronel Une," o capitão o lembrou. "Mas chegar no espaço-porto parecia prioridade naquela hora. Achei que teríamos todo tempo do mundo para ligar daqui. Como eu deveria saber que os satélites estariam fora do ar?"
"Quer uma sugestão?" Heero perguntou, tentando se manter calmo e relaxado, mesmo começando a se irritar com a demora. "Ligue para o centro de detenção e peça que eles tentem pela frequência deles. Podem mandar uma mensagem para o seu coronel informar ao major Merquise que estamos voltando."
Wufei conferiu o telão com os horários de embarque. "Acho que tenho tempo para ir lá fora ligar."
Heero o olhou com um pouco de bom humor. "Por que tenho a impressão que não quer só avisar o meu time? Será que você está impaciente para falar com o major?"
Seu amigo corou ante a sugestão. "Yuy, apenas quero informar meu comandante que tivemos sucesso em limpar o seu nome e estamos no caminho de volta."
"E que você está morrendo de vontade de ter aquele encontro íntimo?" Heero acrescentou, fechando os olhos e colocando os braços atrás da cabeça como travesseiro.
"Não gosto de ficar devendo," respondeu tenso.
Heero bufou com cinismo. "Ah-hã. Você andou pensando no que falei, não foi? Pensando sobre ter um parceiro com força e inteligência igual?" Abriu pela metade um olho revelando um brilho azulado. "Pensando nos ombros largos, no cabelo esvoaçante... nos olhos azuis-claros... o queixo bem definido e nos lábios–"
"Chega!" Wufei interrompeu, empurrando as botas de Heero com as próprias. "Pare enquanto é tempo ou vou te largar para você achar seu caminho de volta pra Terra sozinho. E não vou te dar permissão para namorar o meu filho adotado."
"Nossa. Como o Duo diria? Você é muito grosso... Wuffers."
"Yuy!"
Heero deu uma risadinha, sem conseguir esconder sua felicidade. "Caramba, Fei, é muito fácil te zoar! Não é à toa que o Duo não consegue resistir." Seu tom se suavizou ao mencionar mais uma vez o amado, e Wufei percebeu de imediato.
"Não é só o que ele não consegue resistir, não é?" o chinês falou. "Você fez aquele rapaz ficar caidinho por você."
"Gosto de pensar que é mais do que uma queda," Heero comentou sério.
"E é," Wufei o assegurou. "De ambos os lados." Quando o amigo ergueu uma sobrancelha, o capitão continuou com um tom malicioso. "Admita... você está pensando naqueles ombros esbeltos e musculosos, e em como a trança reluzente de cabelo castanho balança logo na base das costas quando ele anda... nos olhos violeta... no queixo firme..."
"Tá bom! Você venceu!" Heero riu, erguendo as mãos se rendendo. "Somos dois bobocas apaixonados, você e eu, esperando desesperadamente para cruzar a distância daqui para a Terra num piscar de olhos em vez de esperar chegar uma porcaria de nave e passar a tempestade na estratosfera."
"Sabe como é bom ouvir você rir?" Chang perguntou, balançando a cabeça com um sorriso amplo.
"Tão bom quanto é ouvir você," respondeu cálido. Heero se recostou de novo, dessa vez ajeitando sua jaqueta entre a cabeça e a parede para ter um travesseiro improvisado. "Vamos tirar uma soneca enquanto podemos, Fei. Tenho a sensação de que nenhum de nós dois vai ter muito tempo de sono na primeira noite de volta no acampamento."
Wufei ficou grato que os olhos de Heero estavam fechados para não verem o seu rosto corado. Entretanto, para dizer a verdade, ele estava mesmo ansioso pelo encontro íntimo com Zechs Merquise... e ele pensara naqueles ombros largos e no cabelo esvoaçante mais vezes do que admitiria.
Continua...
Resposta aos comentários:
Diana Lua, kkkkkkkk concordo totalmente sobre a "doçura extra" da Snow! Também acho que nesse ponto a fic fica melosa até demais, o Heero vira completamente outra pessoa de tão apaixonado. Não que seja necessariamente ruim, mas como você mesma disse, pelo contexto é um pouco exagerado... Acho que por isso eu tinha deletado essa parte da fic da minha memória, porque eu também não lembrava de jeito nenhum dela! Obrigada pelo comentário e espero que goste desse capítulo! Beijos 3
Litha-chan, uhull! Comemorando que fui responsável pelo primeiro chilique de 2017 kkkkkkkk o bom é que esse capítulo (53) gera ainda mais expectativa de como vai ser quando o Heero chegar e descobrir essa "putaria" do Duo pegando geral kkkkkk Também espero que tenha mais Boot Camp traduzida, estou comprometida a terminá-la esse ano! Deseje-me sorte XD Bjs
