Capítulo LIV
~Marcela~
"Às vezes, pedimos ao universo paz, um tempo para pensar, para refletir, evitar certas situações, mas, muitas das vezes, ele continua a nos desfiar com novos desafios, novas situações... o que nos resta a fazer? Quando se cai no inferno, o melhor é abraçar o demônio...
As mulheres subiram o elevador e chegaram até a porta de um apartamento. Plácida tocou uma campainha e um rapaz de cabelos louro castanhos atendeu:
– Mamãe! – O rapaz de imediato abraçou Plácida.
– Como foi a viagem?
– Correu tudo bem.
– Vocês voltaram cedo, não foi?
– É que o papai recebeu uma ligação do trabalho e teve que voltar; vão precisar dele logo cedo pela manhã…
– Sei… E onde é que ele tá?
– Foi buscar comida japonesa pra nossa convidada, ele foi com a Eusébia!
– Amável da parte dele!
O rapaz olhou para a moça de traços orientais e vestido azul e perguntou:
– Essa é a Tomoyo, mamãe?
– Sim, filho. Deixa eu apresentar ela pra você… Tomoyo, esse é o Luis Dutra y Garcia, meu filhote!
– Prazer! – Tomoyo o cumprimentou inclinando-se para ele e apertando as mãos em seguida.
Plácida aproximou-se de Luis e sussurrou em seu ouvido:
– Ela não fala bem castelhano, nem catalão, Ok?
– Ok.
Entraram no apartamento e Tomoyo sentou-se tímida no sofá. Plácida tinha ido à cozinha preparar a mesa. Estava em uma terra estrangeira, em um casa estrangeira. Diferente do que aconteceu na Itália onde ela planejou tudo, dessa vez, estava sendo guiada por Plácida nos primeiros passos nesse mundo novo e se sentiu tímida por não estar acostumada com aquele tratamento caloroso dela. Foi então que Luis aproximou de dela para conversar e em um dado momento da conversa, Tomoyo lhe perguntou:
– Você guardou as minhas bagagens?
– Sim, tão no apartamento logo em frente; não se preocupa que tá tudo certinho sem nenhum problema! – O rapaz tirou uma chave do bolso e entregou para Tomoyo. Ele era muito gentil.
Nesse instante, a porta se abriu com tudo. Entrararm um homem e uma garota segurando dois enormes barcos com sushi. Eram Eusébia e o marido de Plácida:
– Voltamos Mamãe!
Plácida saiu da cozinha e foi ajudar o marido e a filha!
– Olá, filhota, olá Prudêncio!
Ela cumprimentou os dois com um beijo:
– Muito sol em Rossilhão?
– Pena que a gente não pode aproveitar mais. – Lamentou-se o marido.
– A gente soube que tem uma japonesa aqui dentro de casa, é verdade? – Disse uma animada Eusébia.
– Sim, sim, mas venham com cuidado para não assustá-la! O Luís tá aproveitando todo o tempo com ela. – Plácida chamou o filho pra tirar um dos barcos de sushi das mãos de Eusébia e mandou o marido e a filha segui-la até a sala do apartamento. – Prudêncio, Eusébia, essa aqui é a Tomoyo Daidouji. Ela veio de Milão e vai morar a partir de agora em Barcelona.
Prudêncio apertou as mãos de Tomoyo depois que ela se curvou para eles e Eusébia ficou excitada. Reconheceu-a de imediato, segurou as mãos dela com tudo e olhou-a animada por um bom tempo:
– Você é a Tomoyo Daidouji? Nunca esperei que a japonesa que a mamãe abrigava seria você!
– Sim, sou eu mesma; me conhece da onde?
– Eu tenho uma amiga que veio do Japão que tá morando aqui que tem um CD seu, ela vai adorar te conhecer! Você tem uma voz belíssima!
– Sério mesmo? Muito obrigado!
– Claro que sim! E outra: mamãe já foi modelo e eu quero seguir os passos dela, eu já tou desfilando, sabe?
Eusébia pegou uma revista da mesinha de vidro da sala e mostrou para Tomoyo.
– Essa aqui sou eu e essas outras são umas fotos que eu tirei. Mamãe falou que daqui há um tempo ela já vai me indicar pra uma agência profissional! Ela mostrou também uma revista com as suas criações! Você é tão diferente do que eu vi! Seu estilo varia entre o "estilo Disney", com aquelas roupas de babado e laço até um estilo mais pop e modernista! Até o jeito como você se veste é meio Disney!
Tomoyo corou com aquilo.
– Tem certeza que não quer fazer moda?
– Eu vou fazer e vou desfilar, pra quando eu me aposentar, eu começar a costurar! Me arranja um bico no seu ateliê?
– Eu vou adorar ter uma modelo cheia de energia como você no meu pessoal!
Tomoyo segurou as mãos dela nas suas e admirou-se muito com Eusébia.
Plácida chamou todo mundo para a mesa e eles sorriram com o estranho gesto de Tomoyo de dizer "itadakimasu" antes de comer a refeição e imitaram-na também.
– Não se sinta constrangida! A gente aqui já viu muito isso no Doraemon e é engraçado ver isso acontecer de verdade…
Tomoyo pegou seu hashi, agarrou o primeiro enroladinho de sushi e levou-o a boca. Mastigou-o e sua mente processava numa velocidade rápida toda aquela informação nova e o gosto do sushi. Céus, como o gosto do sushi era diferente do sushi de sua terra! Era o mesmo sushi, mas o gosto do salmão, do arroz e da alga era diferente. Durante o tempo que esteve na Itália nunca foi à um restaurante japonês porque sabia que o gosto da comida seria diferente de tudo o que já vira; não era a mesma coisa de uma comida feita no Japão. E outra: adorava comida italiana e aproveitou a experiência de estar na Itália e comer as iguarias que tanto amava comer ao máximo.
Outra coisa que parou para pensar foi na imagem de nossa senhora de Fátima na sala, símbolos no tradicionalismo daquela família. Mãe, Pai, um casal de filhos, uma filha adotiva. Eusébia tinha cerca de 14 anos, baixinha, cabelos loiros e curtos como a mãe, usava camisas coloridas, calças e jaquetas jeans e tênis All star como toda adolescente. Já Luis era mais sério como o pai, cabelos loiros e uma franja espessa na testa, magro, era um ano mais novo do que a irmã, preferia camisas polo e sonhava em ser engenheiro como ele. Prudêncio tinha mais de quarenta anos, franzino de cabelos castanhos, era Engenheiro civil de profissão e construíra uma boa parte dos prédios novos de Barcelona, incluindo o que moravam.
Aquela família não era de Barcelona, era de Madrid. Há cinco anos se mudaram para a capital da Catalunha por conta do trabalho do pai e da mãe. Uma típica família tradicional Espanhola. Para ela, era uma experiência animadora conhecer uma, conviver com uma, já que na Itália só convivera com Eugênia. Sentiu falta de Eulália, a menina negrinha de 13 anos que conhecera na Itália pela primeira vez. Ela sabia que ela estava jogando futebol nas Astúrias, mas, comparado com aquela família, ela era um contraste:
– E a Eulália?
– Tá jogando futebol… – Respondeu Luis.
– Acho que não é isso que a Tomoyo perguntou… ela quis perguntar por que a Eulália é tão diferente de nós, não é? – Disse Eusébia e Tomoyo acenou positivamente com a cabeça.
– A Eulália é adotada. Plácida descobriu ela numa caçamba de lixo no Rio de Janeiro, envolta por um monte de sacos plásticos, quando ela viajou pra lá pra fazer um desfile. Ela não tinha nem uma semana de vida… – Disse Prudêncio.
– Ela não tinha nem uma semana de vida e era deficiente. Tinha a perna torta e o médico falou que ela ficaria manca pra vida toda. Tadinha… Resolvi adota-la assim mesmo… recebi uma profecia de um vidente no Brasil de que ela continuaria os meus passos e me daria muita alegria… tenso! – Respondeu Plácida.
– Mas então… por mais um milagre que eu não sei dizer de onde veio… ela fez uma peneira no Rayo, nosso time lá de Madrid e passou! Nem mesmo eu acreditei! – Lúis levantou as duas mãos mostrando surpresa.
– E então… ela continuou a praticar futebol aqui em Barcelona… Ela tá indo bem… Respondeu Eusébia. – Você não acha isso meio suspeito, Tomoyo?
– Se acho… – Tomoyo apoiou o queixo com o dedo indicador e polegar, olhando para o teto e ficou pensando até ouvir um sonoro tapa que Plácida dera na mão da filha.
– Deixa disso, menina! Se for um milagre, menos mal! A menina já sofreu desde quando ela nasceu… respeita a sua irmã…
Enquanto comiam a porta da sala se abriu. Era Eulália, vestindo uma conjunto esportivo vermelho da seleção feminina Espanhola com uma mala nas mãos:
– Voltei gente! – Ela olhou para Tomoyo e a família comendo na cozinha. – Puxa vida, nem pra me esperar!
– E como a gente vai te esperar se você parece que vem voando pra cá e nem avisa pra gente? Dã-ah! Você não via voltar amanhã? – Retrucou Luis. Eulália fez uma cara furiosa.
– Deixa ele, Eulália, vem sentar com a gente… – Disse Eusébia, preparando um prato para a irmã e voltando-se para Tomoyo. – Tomoyo, é verdade que vocês quase doaram a Medula na Itália?
Tomoyo surpreendeu-se com a pergunta.
S&T:FJ
Nos dias que se seguiram, Tomoyo recebeu uma remessa de roupas da sua coleção na Itália e alugou uma loja no centro comercial de Montjuic para começar a vender seus modelitos. Aquela loja foi um padrão para as demais: um interior branco, iluminado por lâmpadas de LED, mobília branca, equipamentos brancos, televisões de no máximo 21 polegadas que davam dicas de moda e orientavam as melhores ocasiões para se vestir as mais diversas categorias de roupas do ateliê Daidouji. Manequins vestindo as últimas novidades na fachada de vidro, os modelitos mais recentes e os passados nos cabides do final da loja. Um amplo estoque no fundo e um sistema inteligente de reservas que garantiam a chegada das roupas para os clientes em no máximo uma semana, a partir da produção delas na Itália e na Alemanha.
Sonhava em ter sua própria confeção Daidouji em solo espanhol e contratou uma empresa de engenharia para estudar o projeto para expandir a fábrica da Itália.
Com a ajuda de Plácida, começou a marcar seus primeiros desfiles na Espanha, a começar pela Catalunha, para divulgar sua marca. Sonhava também em ter seu próprio salão de exposição na cidade e já começava a comprar novos equipamentos de filmagem e gravação para a Daidouji produções.
Criou também um site mundial para o Ateliê, nos idiomas catalão, espanhol, italiano, alemão, inglês, francês e é claro, japonês.
A cereja do bolo foi a fachada totalmente preta e os três kanjis de seu sobrenome em lâmpadas de LED dando o contraste para aquilo: Ateliê Daidouji, escrito em letras brancas encima dos Kanjis.
A Catalunha e a cidade de Barcelona eram os locais onde a jovem estilista decidiu que estabeleceria a si mesma como alguém a ser respeitada no mundo da moda mundial, e também a cidade onde pensava em gerar cerca de 3000 empregos direitos ou indiretos mo meio da crise económica espanhola que deixara 25 por cento da população da Catalunha desempregada, com 50 por cento da massa de desempregados formado por jovens entre 16 a 29 anos com ela.
Mas trabalho não era tudo.
Quando estava cortando uma das caixas com mais um modelito de roupas para a inauguração do Ateliê Daidouji importado da Itália, Plácida fez uma pergunta que se coçava pra fazer:
– Tomoyo, faz umas três semanas que você só trabalha, trabalha e trabalha; não pensa em se divertir não?
– Me divertir? – Tomoyo gargalhou – Eu já estou me divertindo, Plácida. Meu trabalho é minha diversão.
– Eu quero dizer… namorar, passear um pouquinho, ver a cidade, não procurando terreno, espaço e equipamentos, mas… admirando os museus, os prédios históricos… esquecer um pouco o trabalho.
Tomoyo retirou uma imensa filmadora da caixa e deixou-a no chão, fazendo um longo e prolongado silêncio.
– Eu sei que Barcelona é bonita e tudo mais, mas eu não estou com humor de sair por aí e me divertir… gostaria de terminar o que eu estou fazendo primeiro.
Plácida olhou preocupada para ela:
– Eu vi a garrafa de vodca debaixo do rack, Tomoyo, você não me engana não! É assim que você se mantém trabalhando? Na base da bebida?
Tomoyo abriu mais uma caixa com equipamentos eletrónicos e fez um silêncio de morte.
– Você não tem nada a ver com isso, Plácida.
– Eu só quero que você saiba que a Eugênia preferiu morrer pra te ver feliz. Se não for pra você ser feliz, eu não pretendo continuar a te ajudar… você ainda nem fala castelhano, não é?
As duas se entreolharam por um tempo e Tomoyo baixou a cabeça:
– Você venceu, Plácida! Quando eu sair daqui, eu tomo um banho e vou sair pra "badalar" – Tomoyo fez aspas com as mãos e Plácida não escondeu sua felicidade.
– Ótimo! Conheço uma balada boa pra você ir… – Plácida mexeu nos bolsos da camisa e tirou um cartão – Essa aqui se chama "Opium Mar Barcelona", fica perto da praia, em La Barceloneta! Você não vai se arrepender! Tem muito turista estrangeiro gatinho por lá, tá?
Tomoyo pegou o cartão e olhou para ele:
– Um gatinho, é?
– Um gatinho pra aquecer esse seu coração de pedra! Não vira nada se embriagar sozinha só com trabalho e mais trabalho do lado!
Plácida atacou Tomoyo com um ataque de cócegas. Ela, por mais que quisesse, não resistiu e se rendeu ao ataque, sorrindo também.
– Tá, Plácida, eu prometo que eu vou, mas me deixa respirar um pouco, vai?
S&T:FJ
Opium Mar Barcelona era uma casa noturna muito movimentada. Homens e mulheres de diversas idades estavam no local, agitando freneticamente os braços e o corpo ao som da música eletrónica, alguns mais velhos, com os cabelos brancos à mostra se recusavam a envelhecer; o coração deles sempre está jovem, pensou. Outros, tão jovens quanto ela, rapazes e moças que nem sequer tiraram a carta de motorista ou talvez nem tivesse idade para estar naquele lugar pediam licença ao tempo para crescer e aparecer.
A bebida comum era forte e alcólica, nada de água. Wisky, Vodca, Martini. Tudo para fazer o corpo se descontrair e ir em busca de um novo amor, uma nova aventura ou apenas diversão, pensou também. Todos concordavam que ficar nas mesas ou nas cadeiras era a coisa mais careta a ser feita ali. Mas ela, Tomoyo Daidouji, mesmo vestida com o vestido mais curto que tinha, que ia até a altura dos joelhos, com o preto mais básico que tinha, sendo paquerada por três homens gatos da cidade de Barcelona, catalães, loiros ou castanhos, fazendo boa faculdade ou com a vida se encaminhando, nenhum deles chamava a atenção dela.
Tomoyo não entendia porque, mas não tinha ânimo para paquerar naquele lugar.
"Céus! Tem alguma coisa de estranha comigo hoje…"
Bebeu mais um copo de vodca e só agora começou a sentir os efeitos da bebida. Já bebera metade da garrafa de um litro e ainda não sentira nada, comparado aos adultos e jovens que nem bebiam um terço e estavam sorrindo alegres e agitando-se todos, seja na pista ou nas poltronas.
Tomoyo, com seus 22 anos nas costas, já estava com a vida feita, em estado ascendente, mas com o coração duro como pedra. Tão jovem. O último jovem catalão de, 25 anos, que a abordou ainda estava na faculdade de jornalismo; também não a atraiu.
"Será que eu só pesei em trabalho a minha vida toda e nunca pensei em abrir meu coração; agora ele não quer abrir mais?", preocupou-se.
Um frio arrepiante, tão congelante quanto o balde de gelo com inúmeras latas de refrigerante de limão subiu-lhe a espinha.
"Será que eu não vou conseguir amar mais ninguém?"
Tomoyo terminou de entornar a garrafa de vodca que ela bebia com refrigerante de limão e olhou frustrada para o primeiro jovem que a abordou. Ele estava alegre, aos beijos com outra moça que poderia ter sido muito bem ela na pista de dança. Fora o rapaz que mais lhe chamou a atenção.
O problema não era que ela tivesse um coração fechado para o amor, o problema era que
uma sensação fúnebre preenchia o seu corpo desde que saíra do Japão, e se tornou mais intensa depois que Eugênia morreu.
Sentiu que sua vida e sua alma, mesmo tendo dado um salto em sentido financeiro, havia necrosado em alguma parte que não entendia como curar. Sentiu tanto frio que começou a espirrar. Nem mesmo bebendo um copo de wisky quente de uma só vez fez com que se recuperasse.
Mas, de repente, um calor súbito lhe subiu a espinha.
Vestida com uma jaqueta curta que mais parecia casaco de pele, calça jeans com rasgos, botas estilo coturno e uma camisa fina de poliéster, Marcela, a moça da bandana com quem tinha se encontrado nas escadarias do palácio nacional há quase um mês, entrara.
Tomoyo imediatamente pegou os óculos escuros que trouxera e colocou para que não fosse percebida. Não adiantou de nada, porque a primeira coisa que ela viu foi ela e os óculos só ajudaram a denunciá-la.
Usando óculos castanhos, ela logo os retirou e correu acelerada para mesa onde ela estava. Tomoyo conseguiu enxergar mais de perto o estilo de vestir dela. Nada que lhe agradasse, mas achou que Sakura iria curtir uma coisa como aquela, apesar de, assim como ela, Sakura nunca ter aproveitado uma juventude de baladas e festas por conta do seu longo compromisso com Syaoran.
– E aí, se lembra de mim, Japonesa? – Marcela deu um sorriso animador, caloroso, diferente do balde de gelo que estava entre elas. O mesmo sorriso bobo e infantil de Sakura.
– Posso beber um pouco? – Marcela, sem pedir permissão, agarrou a garrafa de Wysky escocês que Tomoyo havia pedido e tomou um trago daquilo.
– Nossa! Isso é forte, viu? Rasgou minha garganta toda!
Marcela abanava a boca com as mãos e tentou chupar um limão para tirar o gosto do wisky. A boca dela ficou tão murcha que parecia que sua boca fazia um "X", exatamente como a cara que Sakura fazia quando se deparava com uma coisa incomum.
Pela primeira vez, naquela noite, ela sorriu, gargalhou com Marcela. Ela entendeu, logo na primeira vez, que Marcela era ousada demais, valente demais, "cabra mulher" demais para não se permitir explorar essa pequena abertura que Tomoyo Daidouji havia dado para o seu coração. Fez isso com consciência plena da responsabilidade que havia de aguentar:
– E aí, Tomoyo, você toma isso é?
– Tomo sim, no meu país as mulheres bebem muito álcool, mais até do que os homens, socialmente!
– Puxa vida, eu só tomei um gole e não aguentei!
Só agora a estilista tinha notado que Marcela lembrara-se de seu nome.
– Você se lembra do meu nome?
– Como eu podia me esquecer! Me sinto em dívida com você, sabe? Aqueles bárbaros quebraram a sua câmera por minha causa, acho que tou te devendo uma…
– Que nada! Aquela câmera eu mesma quebrei quando…
Foi difícil falar "quando eu vi você", mas Tomoyo estava tão alta que falou sem querer:
– Quando você me viu é? Será que eu sou tão gatinha pra você assim?
Marcela corou com aquela palavra de Tomoyo que se derreteu de amores imediatamente por ela, corando a face. Deus! Até nisso ela era parecida com Sakura. Tomoyo tinha o mapa completo do rosto da cardcaptor na sua mente, conhecia cada traço dele como a palma das suas mãos. Ver uma Sakura 2 na sua frente era demais. Tentou ficar mais esperta a partir daquele ponto e ofereceu mais bebida para ela, paga do seu bolso, para ver se ela ficava alta de uma vez e partia dali. Sakura era fraca para bebidas, será que essa Sakura 2 era também? Pensou.
– Bebe aí… – Tomoyo empurrou um copo de martini para ela.
– Ah, não gosto de beber muito não, sabe? Não sou muito boa com bebidas. – Marcela olhou para os olhos fechados e puxados de Tomoyo, o sorriso bobo e inocente da boca pequena e olhou para ela com o olhar mais malicioso do mundo, achando que Tomoyo tinha segundas intenções com ela. Ela também tinha suas segundas intenções.
– Se você insiste…
E Marcela era fraca para bebidas mesmo. Bastou três doses de martini e uma de wysky para ela contar até mesmo a cor da calcinha que usava naquele dia:
– Sabe, eu lutei em Israel, tá ligada? Forças de defesa de Israel, tá ligada?
Marcela entornou mais um copo de vodca e usou o antebraço pra limpar a boca, arrotando logo em seguida.
– Bebi muito refrigerante, não é? Tou malzona…
– Porque você não vai pra casa então? Você…
Não deu nem tempo de Tomoyo terminar de fazer a sugestão que sua boca foi invadida pela língua, pelos lábios furiosos de Marcela que a desejava, que a queria. Ela arregalou os olhos e tentou afastar Marcela.
– Pera um pouco, a gente…
Marcela pôs os dedos na boca de Tomoyo e imitou um gato com a outra mão. Até mesmo quando estava de porre, imitava certinho Sakura, mesmo sem nunca terem se visto ou conhecido. Ou não?
– Aqui é Barcelona! Aqui ninguém liga com a opção sexual dos outros! Eu sabia que você era especial, Tomoyo, eu reparei no seu olhar querendo me devorar naquele dia! Só relaxa um pouquinho e eu vou te devorar também sua gata!
Agarrou o pescoço de Tomoyo com uma força que a arquiteta desconhecia e socou-lhe outro beijo nela, enroscando a língua dela com a sua que sentia escapar. Tentou se soltar, mas Marcela era tão forte que não teve jeito e se rendeu àquilo. Agarrou o pescoço dela também e deu o que ela queria, enroscou a língua dela com a sua antes que ela arrancasse a mandíbula dela. Realmente, os anos que ela diz ter passado em Israel deram resultados.
Soltou-se do beijo e olhou-a com olhos estreitos. Os mesmos olhos estreitos de felicidade de Sakura. Justo ela que escapara para lá, Europa, para tentar se esquecer de Sakura e ela estava logo ali na sua frente. Mil e uma emoções se passavam na mente de Tomoyo naquele instante.
– Você beija bem pra caramba, viu? Nunca tinha provado uns lábios tão bons quanto os seus! Agora vem dançar!
Nunca ninguém tinha beijado Tomoyo com aquela intensidade antes. É fato que, desde aquela noite junto ao rio com Sakura, nunca teve nenhuma experiência sexual com mais ninguém. Marcela dançava animada, agitando as mãos e pés para todo lado com aquela dança frenética. Tomoyo viu a sua estratégia de embebedar Marcela ir por água a baixo. Qual seria o próximo passo dela? Teria como lutar contra aquilo.
Sentiu-se ser puxada por ela e atravessaram a selva de pessoas até pararem na selva de pedra gótica que era a cidade velha de Barcelona sem nem mesmo de dar conta da saída da casa noturna. Os poucos carros na rua naquela hora da noite, o som do mar. A mão de Marcela agitava-se no ar e um carro parou:
– Táxi, Táxi!
– Marcela o que você tá fazendo?
Mais uma vez não conseguiu terminar a pergunta porque Marcela tinha agarrado dela com tudo e dado mais um beijo violento na boca dela. Dessa vez, sentiu tanto o corpo dela entortar quanto o seu.
– Será que o resto do seu corpo é tão delicioso quanto a sua boquinha…
Marcela agarrou o queixo de Tomoyo forçando um bico nela, ao mesmo tempo que deslizava sensualmente a outra mão pelo busto, pela barriga dela, até chegar na virilha.
Um carro preto com portas amarelas parou. O motorista era o mesmo rapaz que fizera o tour com ela pela cidade catalã pela primeira vez.
– Oi, dona! Se lembra de mim? Tou vendo que tá se divertindo; pra onde vocês vão?
– Ah, sim, me lembro! Pra Saint Montjuic, urgente!
A estratégia de Tomoyo havia mudado. O plano agora era abrir e fechar a porta com toda a velocidade do universo. Só que não. Agarrou a maçaneta do carro e perdeu as forças ouvindo a exclamação alta e barulhenta de Marcela:
– P*** que pariu! Estourei no norte! Eu moro em Saint Montjuic também! Vamos pra lá, vamos pra lá!
Sentiu o mesmo agarrão forte de Marcela, dessa vez, no pulso. Ela colocou as duas dentro do táxi de uma vez e Tomoyo tornou a sentir a mesma impotência de antes que não teve nem forças para combater, nem pra protestar quando Marcela disse ao taxista para deixarem as duas no apartamento dela.
S&T:FJ
Marcela não escancarou a porta do apartamento. Ela praticamente arrombou a porta daquele apartamento amplo, cinza e com um design moderno que muito agradou Tomoyo. Paredes cheias de prateleiras, sofás e mobília brancas, um carpete cinza claro que se estendia na sala, a mesinha de vidro na sala conjugada com a cozinha. Uma lareira de mármore que dava um charme pessoal para aquele lugar. Muitos porta-retratos cobriam as prateleiras, mais do que os enfeites, vasos ou estátuas. As janelas eram amplas e iluminavam o cómodo todo, cortinas brancas davam um charme para a sala. Era um duplex aquilo, grande demais para uma pessoa viver sozinha.
Marcela trancou a porta branca com chave e tornou a agarrar Tomoyo, como estava fazendo durante todo o caminho desde que saíra daquele táxi, agora com mais ousadia e privacidade. Marcela colocou as mãos no seio dela e empurrou ela com tudo contra a parede. Depois, jogou ela no sofá da sala e ficou passando as mãos na coxa dela, roçando ligeiramente a calcinha na cintura e encaixando sua virilha com a dela, só pra provocar.
"Pra isso ela tem consciência", pensou Tomoyo, olhando de esgueira para uma foto de Marcela abraçada com um homem de cabelos curtos e barbas castanho loiras como o cabelo dela:
– Você é casada? Ele é seu marido?
– Marido? – Marcela gargalhou – Ele é meu irmão!
– Esse apartamento é muito grande, tem certeza que não tem mais ninguém aqui?
– Só tem eu e você, gatinha! Agora relaxa senão eu não consigo fazer meu serviço direito… – Marcela olhou com malícia para Tomoyo e deslizou suas mãos pelos seios da arquiteta. – Mas bem que… quando você fica tensa desse jeito… deve ficar muito apertadinha… vou adorar sentir meus dedinhos sendo esmagados a cada gemido seu… Eu gosto de enfiar nos dois e lamber os dois, tá? Espero que não se importe… Você é uma delícia mesmo, hein? Vou adorar te provar…
Marcela lambia as orelhas de Tomoyo e colocou as mãos em sua virilha, por cima do vestido, instigando-a freneticamente. A arquiteta estava ofegante e sentia que, a qualquer momento, Marcela acabaria com o longo jejum dela sem sexo.
– Para, por favor, para!
Marcela congelou de imediato, olhando séria para ela, com olhos da mais profunda misericórdia e arrependimento que lembrava muito Sakura. Não tinha jeito, ela era igual, idêntica em todos os aspectos, até mesmo na voz, só não sabia dizer na ousadia:
– Não quer?
Tomoyo, de uma forma que não entendeu o porquê daquilo, se arrependeu do que disse, mesmo não sentindo a fim de fazer amor com ela.
– Não… é que…
A indecisão de Tomoyo levou-a a fazer uma expressão de fúria, excitamento e uma certa dose de alegria da parte de Marcela:
– Você é daquelas que adoram colocar água no chopp, não é? Eu vou te dar um motivo pra você não fazer isso mais, já que as minhas mãozinhas delicadas não deram jeito em você…
Do nada, Marcela ergueu Tomoyo com os dois braços e ela subiu as escadas com ela. Chegou numa porta branca que deveria ser do quarto dela. Marcela entrou com tudo e jogou Tomoyo na cama. Levantou o vestido preto dela, retirou as mangas do vestido, expôs o sutiã branco que a estilista usava e encaixou sua virilha com a dela. Não foi precipitada como estava sendo, foi devagar, devagarinho, beijando ela muito, lambendo as orelhas, o pescoço dela, passando os dedos delicadamente nos bicos dos seios dela por cima do sutiã em movimentos circulares antes de inserir seus dedos dentro da virilha dela, seu objetivo, preparando a alma dela para o que tava por vir.
O colchão e o edredom eram confortáveis, estava muito excitada com aquilo, é claro, mas ela ainda não se sentia mentalmente confortável para fazer sexo com ela e nem com ninguém. Não, não agora, mas também não tinha mais forças para falar com ela, gritar com ela. Tinha até mesmo medo que ela ficasse mais violenta se falasse não.
Mas, no meio daquela movimentação toda, quando as mãos dela quase chegaram em sua virilha, ela adormeceu. Por fim ela estava cansada. A bebida e aquele esforço todo que ela fez naquela noite erguendo-a escada acima, berrando, beijando e dançando a cansaram.
Jogou o corpo dela para o lado. Vestiu novamente o vestido que ela parcialmente tirara e olhou para ela pela última vez. Até mesmo dormindo, Marcela era a cara cuspida e escarrada de Sakura, pois, da mesma forma que Sakura dormia se agitando toda na cama sem ter uma posição fixa para dormir, ela fazia o mesmo.
Correu fora do apartamento dela antes que ela despertasse, assim que ela mexeu as mãos na cama e começou a chamar em estado de sonambulismo puro "japonesa, Tomoyo, volta aqui, eu nem tive tempo de tirar a sua roupa ainda".
Continua…
Por trás do báculo: Esse capítulo é um capítulo interessante. Começo falado da família de Plácida (não esperem muito deles porque já tenho planos para eles, foquem na Eulália, ela sim vai ser importante) e termino com essa "hot" scene que não virou. E olha que na revisão eu coloquei mais tempero e pimenta do que no original! Hehehe! No meio, falei um pouco dos projetos da Tomoyo (que logo, logo vão virar realidade!), espero não ter sido chato, gostei desse capítulo, da aparição da Marcela. Ela é realmente um personagem importante desse texto até o final dele e vai ajudar muito a Sakura e a Tomoyo durante a saga delas na Espanha. Não vejam ela como um estorvo porque ela não é. Ela é um personagem que adorei criar, mas não prometo muita felicidade para ela. Faz mais de um ano que escrevi "Sakura e Tomoyo, a primeira vez" e é ela quem escuta a história. Com o tempo, vocês vão ver como ela é importante!
