Capítulo LII — Fogo de Raposa
Ler o nome "Kazuki" na tela do meu celular fez o meu coração falhar uma batida. Meu primeiro pensamento foi de que Sesshoumaru havia descoberto que eu estava em Naha com o Shippou e havia vindo até aqui me levar para Tóquio a força, ignorando totalmente qualquer politica de boa vizinhança que houvesse entre os Senhores. Isso era algo que simplesmente não podia acontecer agora.
Respirei fundo decidindo se deveria ou não retornar a chamada, uma vez que ela poderia tanto me deixar em maus lençóis quanto me avisar sobre um problema iminente.
Sentei na cama e retornei a chamada, ainda muito aflita, relaxando ligeiramente quando ele atendeu com um simpático "alô".
— Kazuki, algum problema?
— Senhora Kagome, desculpe ligar tão cedo, mas temia que não houvesse tempo para resolver esse pequeno problema se demorasse demais para entrar em contato com você. — Caramba, ele disse problema. Apesar da voz dele estar calma, pude notar claramente sua seriedade.
— O que houve?
— Estou viajando para a Austrália hoje à tarde para resolver umas pendências antes da viagem para os Estados Unidos e surgiram alguns problemas que eu não sei se terei tempo de resolver. Como o problema é em Okinawa, achei por bem que pedir para que você resolvesse essa pequena questão por mim.
— No que posso ajudar? — perguntei, segurando um suspiro aliviado.
— Você poderia passar no escritório de advocacia Kujumashi para assinar alguns documentos? Estamos tendo alguns problemas na alfândega. Uma das empresas financiadas pelo Tai Group está tendo problemas com a autorização de entrada de alguns contêineres com matéria-prima para fabricação de material tecnológico. Aparentemente, a autoridade alfandegária está alegando ser importação ilegal, então precisamos mandar as licenças e um termo de conduta do Tai Group. Como o senhor Sesshoumaru não está em Tóquio, seria necessário que algum procurado dele assinasse em seu lugar. E isso se resume a mim e a senhora.
— Documento? — Sentei na cama, coçando olhos e tentando afastar o sono de minha mente. — Como assim? Acho que não entendi a parte de eu ser procurada sobre qualquer coisa.
— Lhe enviarei um e-mail com a relação de documentos.
— Kazuki, mais devagar, estou confusa.
— Desculpe, senhora Kagome, é que estou com pressa... Bom, basicamente a senhora só tem que assinar uns documentos para o senhor Sesshoumaru.
— Em nome de Sesshoumaru? — falei o interrompendo.
— Sim, ele deixou uma procuração em seu nome para cuidar de todos os assuntos nacionais e internacionais do Tai Group na ausência dele.
— E quando ele deixou essa procuração? — questionei, confusa.
— Ele a tem desde o casamento de vocês. Deixou no cofre para emergências.
— Ele deixou?
— Senhora Kagome, realmente preciso ir, o e-mail logo será enviado. Desculpe o incômodo.
E, com isso, ele desligou, deixando-me ainda mais confusa. Alguns segundos depois recebi o referido e-mail sobre o qual ele havia falado. Estava detalhado, cheio de parênteses e pormenores. Fiquei achando o Kazuki um demônio por algum tempo, mas logo suspirei e segui para o banheiro, a fim de tomar um banho para me recuperar desse maldito susto que havia levado.
Como queria relaxar, enchi a banheira com água quente e escovei os dentes enquanto esperava que ela enchesse. Ainda procurei alguns sais de banho para colocar na água, mas tudo que achei foi loção para babear e um kit feminino de perfumes e cremes de pêssego que achei muito estranho estar ali, uma vez que se tratava de um banheiro de uso exclusivo do Shippou.
Resolvi não me prender a esse detalhe e segui com o meu banho. Os cremes estavam abertos e fiquei tentada a usá-los, mas, por mais que eu não conseguisse imaginar Shippou usando algo do tipo, eu tive que ir até o quarto dele para perguntar.
— Shippou, posso usar aqueles cremes no banheiro? — questionei, sentando ao lado dele na cama, Shippou se espreguiçou, ronronando levemente.
— Creme? — ele abriu o olho esquerdo e se aconchegou no travesseiro de forma preguiçosa, não resisti e fiz um cafuné em sua cabeça.
— Tem uns cremes de pêssego no banheiro.
— Ah, pode usar sim. Nem precisava pedir.
— De quem é? — questionei.
— Himiko. — ele abraçou o travesseiro fechando os olhos, fiquei encarando ele.
— Como assim? Da Himiko?
— Quando ela veio em Naha, ela se hospedou aqui e eu dei os cremes para ela. Ela adora pêssegos.
— E por que ela ficou na sua casa? — questionei, arregalando os olhos.
Ele não respondeu e nem foi preciso, na verdade. Afinal, aquele sorriso sacana que ele deu explicou tudo que eu precisava saber. Suspirei, voltei ao banheiro e comecei a passar o creme em meu corpo, alguns segundos depois que terminei de vestir um vestido azul, vi Shippou entrando no banheiro, tirando a camisa que havia usado para dormir.
— Você ficou bem cheirando a pêssego. — ele comentou começando a se despir.
— Vergonha na cara que é bom, nada. — reclamei saindo do banheiro.
— Já tomamos banho juntos, amor.
— Quando você era criança. — reclamei, fechando a porta do banheiro e encarando automaticamente a porta do quarto. — Dmitri?
— Senhora Kagome... — Ele respirou fundo, tentando não ligar para o fato de ter ouvido a voz de Shippou vindo do banheiro. — Bati na porta, mas ninguém disse nada.
— Tudo bem, o que houve?
— Recebi um e-mail do senhor Kazuki, vim checar se a senhora gostaria de ir agora ao escritório de advocacia.
— Sim, claro. Vou apenas colocar algo mais formal, lhe encontro lá embaixo. — parei voltando a olhar para Dmitri — Por que você chama o seu pai de senhor?
Ele deu de ombros, e apenas disse:
— Não precisa ter pressa, vou alugar um carro. A senhora pode fazer seu desjejum tranquilamente. — E, com uma reverência, saiu. Muito bem, ele está bravo comigo.
Eu sei, eu sei. Era óbvio que o advogado que eles contratariam para me passar os tais documentos seria alguém polido e muito, muito bom em Direito. O fato de ele ser bonito era bônus. Lembro de ter visto um documentário sobre ele ano passado, se bem que era algo tão monótono e chato que a única coisa que eu me lembro efetivamente era de brincar com Aika sobre como deveríamos ir fazer umas cadeiras de Direito para nos depararmos com lindos futuros advogados como aquele. Hideo odiou nossas brincadeiras e mudou de canal.
Só lembro que nome dele era Alguma Coisa Norio. Hoje descobri ser Kujumashi Norio. E simplesmente não parecia ser um advogado, mas sim um modelo de ternos. Bendito seja o deus dos belos genes. Eu estava tão acostumada em encontrar youkais lindos de doer que até estranhava de encontrar alguém tão bonito que fosse humano. Parecia algo sobrenatural — que ironia.
Afastei as lembranças do documentário de minha mente e sorri, cumprimentando-o com uma reverência. Shippou se aproximou com uma xícara de café e Norio o cumprimentou de forma igualmente formal, mas senti certa afinidade entre os dois. Acredito que Shippou o conheça.
Agora questione: onde o Hu está?
As executoras de Shippou ficaram com ele. Queria trazê-lo conosco, porque sou reconhecidamente uma Vida Louca, mas meu amigo raposa foi tão contra que quase pariu um filho enquanto dizia: "não".
— Por favor, senhora Taisho. — Norio me tirou de meus pensamentos, sorri e o acompanhei até sua sala, precisei me conter para não rir enquanto Dmitri lançava um olhar acusatório para Shippou que sentou ao meu lado como se aquilo tudo fosse parte de seus negócios e não de Sesshoumaru.
Voltei minha atenção para Shippou que apenas sorriu inocentemente. Segurei o riso novamente e voltei minha atenção ao advogado que sentou-se do outro lado da mesa.
— Li todo o conteúdo antes de imprimir, de acordo com as anotações que Senhor Yagiu me passou. — Ele me estendeu os documentos e eu fiquei pensando quem era o tal Yagiu. — Senhora?
Balancei a cabeça notando que ele só poderia falar de Kazuki e que eu era simplesmente um displicente por não saber o sobrenome do meu próprio marido.
— Desculpe. — disse, apanhando os documentos. Respirei fundo e comecei a lê-los, buscando em minha mente todos os detalhes que Kazuki havia me pedido para observar.
Nossa, aquilo era realmente cansativo e complexo. Ao final do primeiro documento, fiquei realmente tentada a pedir para levá-los para casa para que pudesse analisá-los perfeitamente. Kazuki havia dito que já lera os documentos anteriormente, mas que havia pedido algumas alterações. Tudo o que eu precisava era ler o que fora alterado, contudo, eu não consegui. Precisei ler todos os documentos do início ao final para só então assinar. Essa era uma das coisas que Hideo mais pegava no meu pé enquanto me ensinava administração: leia tudo; e se tiver dúvidas, leia de novo.
Durante a leitura do terceiro documento, Shippou pediu licença e permaneceu fora do escritório tempo o suficiente para que eu concluísse a leitura do quarto documento. Quando cheguei no quinto e último, foi que eu percebi como o meu pescoço estava doendo. Nori estava dando uma última olhada nos documentos enquanto os separavas em pastas personalizadas com o emblema do escritório e do Tai Group.
Fiquei meio apreensiva quando o vi fazendo aquilo, por mais que eu tenha acesso ao cartão de crédito de Sesshoumaru podendo gastar o dinheiro dele sem ser questionada em nada, aquilo era diferente, eu estava tomando decisões sobre os investimentos dele. Era muita responsabilidade, fiquei realmente preocupada, nutrindo dúvidas acerca de ter realmente verificado todos os quesitos necessários, como se a minha falha fosse decepcionar Sesshoumaru... E eu não queria decepcioná-lo.
Suspirei, voltando a minha leitura, com esse sentimento de aflição levei mais tempo para terminar o documento, voltando sempre para checar se havia realmente entendido bem. Por fim, assinei e entreguei a Nori que repetiu o precedimento dos outros documentos, ou seja, ver se rubriquei todas as folhas e se assinei em todas as páginas necessárias.
— Está tudo certo, Senhora Taisho. — ele anunciou, levantando-se, entendi aquilo como sinal de que poderia ir embora. — Levarei os documentos para a sede do Tai Group em Kyoto ainda hoje.
— Obrigada, se precisar de mais alguma coisa, gostaria de ficar com meu número?
Ele parou por um momento e piscou, como se aquela ideia houvesse ocorrido apenas naquele momento para ele, então sorriu e me estendeu um bloco de notas. Anotei o número do meu celular e me voltei para Shippou, enquanto Norio destacava a folha e a colocava dentro de uma agenda preta.
— Vamos?
— Sim, precisamos correr, antes que mudem de ideia... E o seu guarda-costas está dispensado. — E com isso Shippou se voltou ao Norio. — Tchau, bro. — E me puxou consigo. Acho que Dmitri teve um sobressalto ao notar que eu estava sendo arrastada para fora, mas não pude ver ao certo.
Alguns minutos depois, eu estava no carro com Shippou, indo não sei pra onde enquanto Dmitri estava possivelmente voltando para o dúplex da raposa para ficar de olho no tigre.
— Por que você está com essa cara amarrada? — perguntou Shippou, fazendo-me voltar ao momento presente e parar de divagar — Não estaria, assim, só por acaso, sentindo-se culpada por enganar Sesshoumaru, certo? Por que se você for pensar um pouco, imagine como ele vai se sentir quando descobrir o que você tem feito pelas costas dele. Quase sinto pena dele.
Revirei os olhos e suspirei, irritada. Não respondi, principalmente porque ele acertara em cheio sobre o que me atormentava. Eu não conseguia deixar de pensar no fato de Sesshoumaru confiar em mim para algo tão importante quanto os seus negócios e eu quebrar essa confiança fazendo... bem... tudo isso.
— Eles vão demorar muito, Shippou? — perguntei, mudando de assunto. Estávamos em uma sala de espera refrigerada na entrada da Base Naval Americana a aproximadamente uma hora e meia, esperando que nossa entrada fosse permitida pela Inteligência.
— Eles têm que confirmar seus antecedentes. — explicou Shippou — Eu praticamente fiz um milagre para conseguir isso, sabia? Conseguir acesso à pesquisa do Instituto Aoi é fácil, entrar na Base é que é o verdadeiro exercício de influência.
— Obrigada, Shippou.
— Disponha, bebê. Por você eu não me importo de ficar devendo um ou dois favores. — Ele respondeu sorrindo — Até porque você está querendo fazer algo muito bonito. Tantos de nós vivendo a séculos e você é a primeira a pensar em algo assim.
Sorri para ele.
— É o que nós, tengus, sabemos fazer de melhor. — recitei — Nós temos a habilidade especial de colocar qualquer um dentro de nosso sistema pessoal de defesa.
— Awn. — deixou escapar Shippou, apoiando os dois braços no encosto do sofá e cruzando as pernas — Isso explica porque você é assim, acho. "Olhe lá, é um hanyou que tentou me matar, sente aqui e venha comer comigo; "Hum, Sesshoumaru tentou me matar… Vou confiar nele"; "Ah, um Tigre que tentou me matar, vou salvá-lo". Sério… Você não bate bem da cabeça, Ka-chan.
Eu apenas ri.
— Desculpe-me por preocupá-lo tanto, Shippou. — pedi, aproximando-me para segurar sua mão.
— Não se desculpe. Você é uma das melhores coisas que já me aconteceram. — ele respondeu — Então, depois que você der uma olhada na pesquisa sobre adaptação de características humanas para animais (ou seja lá o que for) do Aoi, você vai fazer o quê?
— Só quero ter algum norte por enquanto. Não sei, não vai dar para criar um instituto de uma hora para outra. Vou precisar de alguns anos. Depois daqui, vou ter que conseguir contatos políticos e financiamento. — Deixei escapar um suspiro — Parece tanta coisa.
— Você é casada com o homem mais influente do Japão e é uma Tsubasa. — Ele franziu o cenho, mantendo um meio-sorriso descrente — Por que precisaria de financiamento?
— Não tenho interesse de que o instituto seja privado. É muito importante que o desenvolvimento da pesquisa tenha cunho público também. — expliquei — Senão o objetivo do instituto pode acabar se perdendo em políticas de lucro, entende? Seria interessante que Sesshoumaru ou Hideo tivessem alguém dos clãs na política, nunca entendi por que eles não têm.
Shippou deixou escapar uma risada.
— Ka-chan, você tem que entender que nem sempre o poder está nos políticos. Às vezes as figuras políticas existem mais para desviar a atenção da real fonte do poder do que para detê-lo. — Ele piscou um olho matreiramente — Na política, um idiota vale mais do que um gênio, já dizia seu pai.
— Meu pai dizia? — questionei. Shippou apenas sorriu.
— Fale-me mais sobre toda essa confusão que você criou e me envolveu. Comece falando sobre a Convenção Internacional sobre Disputas e Arbitragens de Investimentos.
— Pelo fato de saber o nome, acho que você sabe mais do que eu, Shippou. — comentei, estreitando os olhos. Ele apenas sorriu ingenuamente. — Certo. É uma convenção de Direito importantíssima da qual Sesshoumaru tem que participar. Aparentemente ele foi chamado para defender alguma coisa sobre os investidores nacionais e isso é muito importante para o Tai Group e não sei das quantas. Eu realmente não entendo nada dessas coisas. O que sei é que, atualmente, ele está caçando a noiva do Hu e está muito ocupado para perceber o que eu estou fazendo.
— Mas e quanto à convenção?
— É daqui a cinco dias. Isso significa que, mesmo que ele ache a yaoguai, ainda assim eu vou ter algum tempo, porque ele estará ocupado com a convenção.
— E se ele descobrir?
— A convenção é em Washington, mesmo que ele descubra, ainda vou ter bastante tempo. — Então um soldado abriu a porta da sala de espera e interrompeu a resposta que Shippou me daria.
— Eu vou acompanhá-los até os centros de pesquisa. — disse o soldado, em inglês. Shippou apenas se levantou e ergueu a mão para que eu fizesse o mesmo.
Nós fomos guiados por um longo corredor. Nada parecia diferente por ali, apenas portas de metal rígido, canos grossos que acompanhavam o teto e nenhuma janela. Depois de andarmos por uma infinidade de corredores, o soldado nos retirou do prédio e pediu para entrarmos em um jipe de cor verde-camuflagem — se é que essa cor existe. Havia vários soldados de guarda, conforme podia ser visto enquanto passávamos pela Base.
Não havia nada de novo por ali. Soldados ocidentais com roupas de camuflagem ou, ocasionalmente, seus uniformes de oficiais; prédios quadrados, grandes e cinzentos; armas; soldados bombados correndo; mais armas; camuflagem. Havia muito da mesma coisa por ali, mas até que era bem impressionante e assustador.
Conforme o soldado informava, os Centros de Pesquisa ficavam perto dos prédios do Departamento Pessoal e dos Esquadrões de Comunicação. Pensei comigo mesma que essa informação deveria ser apenas a crédito de que não nos perdêssemos completamente se fôssemos deixados sozinhos. Pelo tamanho da Base, eu tinha medo de demorar semanas até me encontrarem caso eu me perdesse de fato ali.
Ele parou na frente de mais um belo e lindo prédio quadrado cinzento. Havia uma cerca viva e gramado; ambos pareciam meticulosamente bem tratados. A sensação de acabamento obsessivo era bastante surpreendente. Descemos do jipe e entramos no prédio, sendo recebidos pelo cheiro de asseio militar. Sim, senhor. Dava para comer no chão, nas paredes, nos tetos… literalmente. Logo em frente da entrada havia um espelho de corpo inteiro e, acima dele, as palavras "YOUR APPEARANCE REFLECTS YOUR PROFESSIONALISM?".
Imediatamente me senti constrangida ao me deparar com uma mensagem tão rude. Se bem que rude é uma expressão que se aplica ao meio militar com bastante naturalidade. Vi Shippou lançando um sorriso torto para a mensagem no espelho e seguimos o soldado, que mal pareceu se importar com aquelas palavras em caixa alta.
Conforme fomos adentrando na instalação, o ambiente foi deixando de ter a aparência de "intocável" e começamos a nos deparar, frequentemente, com pessoas de jaleco e uniformes de radiação (sim, de radiação; lancei alguns olhares preocupados para Shippou, mas ele apenas deu de ombros). Agora havia mais japoneses que americanos e isso me deixou estranhamente mais confortável.
Finalmente saímos dos corredores e entramos num conjunto de laboratórios apinhados de cientistas que davam ordens e discutiam sobre alguma coisa aparentemente bastante séria. Aquilo parecia uma bolsa de valores da ciência. E isso foi tão idiota de se pensar que estou fazendo careta para não dar risada.
Shippou e eu apenas ficamos parados, surpresos, enquanto o soldado batia uma rápida continência e saía. Deduzi, com isso, que havíamos chegado ao nosso destino.
— Senhor Shippou! — exclamou uma mulher, do meio da confusão, vindo na nossa direção. Ela era alta, magra (mas muito magra mesmo), e usava um vestido preto justo por baixo do jaleco. Aliás, belas pernas. Por que todas essas mulheres têm pernas de modelos de meia-calça?! Como essa criatura anoréxica pode ter essas pernas?
— Dra. Hirogame! — Shippou cumprimentou, quando ela se aproximou — Como prometido, eu vim.
— E como prometido, estou aqui para ajudá-lo. — Ela se voltou para mim com um sorriso... estranho. — Dra. Taisho, imagino.
— Sim, prazer em conhecê-la, Dra. Hirogame.
— Shippou me disse que você terminou agora uma especialização em pediatria.
— Sim, há pouquíssimo tempo. Espero começar em breve uma especialização stricto sensu em genética e oncologia. — expliquei.
— Bom, Shippou me falou que você estava interessada em uma de nossas pesquisas específicas. Quanto tempo nós temos para discutirmos sobre ela? — perguntou a Dra. Hirogame — Também gostaria de saber quão familiarizada você está com os termos científicos.
— Pode me tratar por uma completa leiga, que é o que sou. — respondi — Sei que isso vai tornar todo o processo demorado, mas acho que temos pelo menos o resto do dia, não é, Shippou?
Ele deu de ombros mais uma vez, sorrindo.
— Sou apenas o guarda-costas hoje. — respondeu.
Voltei minha atenção para a Dra. Hirogame e meu sorriso morreu. A anoréxica de belas pernas virou a Malévola Demoníaca do Capiroto.
— Bom, eu gostaria de ter mais que apenas um dia para explicar uma pesquisa de 15 anos. — foi o comentário ácido. O que era que eu tinha dito para ela ficar tão irritada? — Bem, vou fazer a explicação que dou para os estudantes do primário. Vai ser profundo o suficiente?
E saiu andando, fazendo um sinal irritadiço para que a acompanhássemos.
— TPM muda uma mulher. — sussurrou Shippou ao pé do meu ouvido. Para impedir a risada, eu tive que me prender ao pensamento de que, se dependesse dessa mulher, hoje seria um dia horrível.
Eu acabei tendo que voltar à Base por três dias. Mesmo as explicações "superficiais" da Dra. Hirogame eram demoradas e cheias de detalhes e termos técnicos. Quatro dias e ela havia reduzido minha razoável confiança na área da medicina em cinzas. Quando eu havia dito a ela para me considerar uma leiga, na verdade eu havia dito com uma certa dose de falsa modéstia, que no final se mostrou uma verdade brutal.
Toda noite, ao chegar na casa de Shippou, eu acabava indo estudar para tentar compreender ¼ dos termos que ela havia usado. Eu me sentia incrivelmente estúpida.
Shippou, que acompanhava o meu desespero pessoal, havia designado aquele dia como "O Dia Em Que Kagome Higurashi Tsubasa Taisho Terminou Seu Estágio De Quatro Dias No Inferno E Por Isso Merece Encher A Cara". Sim, ele havia dito exatamente isso, e até criou uma sigla para designar o "evento".
Resultado: havia uma quantidade absurda de álcool na sala de Shippou e todos ali aparentemente estavam amargurados com alguma coisa. Hu, porque havia sido obrigado a estar ali, quando obviamente não queria ver a cara de nenhum de nós. Eu porque queria matar a Dra. Hirogame. Shippou porque estava perdendo no pôquer contra as executoras dele. E Dmitri por causa de algum motivo muito obscuro que envolvia Shippou, a julgar pelo olhar irritado que ele lançava eventualmente para o Senhor do Sul.
Empurrei uma latinha de cerveja nas mãos de Dmitri. Afinal, Shippou era exagerado, mas eu realmente precisava de um descanso.
Cara, essa dor no meu orgulho realmente estava me incomodando.
Respirei fundo, colocando aquele sentimento de ódio em algum canto remoto de minha mente e fiquei encarando Dmitri, que segurava a latinha sem nem ao menos abri-la. Fiz as honras e a abri. Foi quando recebi seu olhar questionador; apontei para a latinha e depois para a boca dele, deixando claro que queria que ele bebesse logo aquela coisa.
Bom, ele não bebeu, então recostei no ombro dele e comecei apertar o dedo indicador em sua bochecha.
— Não vai mesmo beber?
— Não.
— Por quê?
Ele não respondeu, apenas bufou de raiva. Fiquei olhando para Dmitri, tentando entender o motivo de ele estar tão furioso. Acredito que não é apenas por estarmos em Naha no QG do inimigo. Não que Shippou realmente seja o inimigo, mas enfim, era esse o espírito. Por fim, peguei a latinha da mão dele e comecei a beber.
'Tá, ele realmente estava muito mau-humorado. Não consegui que ele bebesse, por mais que eu tenha enchido o saco dele para aproveitar um pouco da noite uma vez que ele poderia acabar com uma úlcera (a julgar pelo tanto de pimenta que ele e a irmã dele gostam de ingerir), mesmo que não pudesse ter, mas enfim, eu estava convicta naquele momento por algum motivo evidente que não sei explicar.
Chega de cerveja.
— Ka-chan. — Shippou sentou ao meu lado, derrubando um pouco do conteúdo que estava na jarra que carregava. Com um sorriso torto ele encheu um copo que estava em sua outra mão com o líquido azulado do tal recipiente. — Prova esse troço; é criação minha.
— Ser uma criação sua apenas me deixa apreensiva para provar. Acredito que não bebi o suficiente para arriscar meu pâncreas e fígado dessa forma.
— Deixa disso. — ele empurrou o copo na minha mão. — Você é uma mocinha crescida e precisa experimentar o néctar do deus raposa Shippou.
— Certo. — respirei fundo e tomei um gole. — É bom... Prova Dmitri. — Empurrei o copo contra a boca dele, ele só pôde beber, e foi metade do copo em uma golada.
— Kagome! — ele disse ficando vermelho de imediato. Ele me chamou pelo nome, progresso!
— Fique com esse copo... Você gostou, vi que gostou! — Então me inclinei sobre ele e comecei a empurrar a jarra contra seus lábios enquanto o Shippou se levantava para buscar mais. — Aew! Toma tudo gostoso.
Ele segurou minhas mãos e, quando dei por mim, estava deitada sobre o torço dele empurrando a jarra contra ele, consequência foi a camisa dele branca se tornar azul, mas Dmitri já havia bebido uma quantidade incrível. Sentei e fiquei observando-o deitado. Ele passou a mão pelo cabelo, jogando-o pra trás e respirado fundo; seu rosto estava corado.
— Você está bem? — questionei, pendendo ligeiramente a cabeça.
— Sim... apenas... é... Droga.
— Ficou bêbado?
— Não. — Os olhos semicerrados diziam sim. Ele sentou olhando a camisa, em seguida a tirou, notando que a camisa regata branca estava igualmente molhada, resultado foi ele sem camisa limpando o peito com a camiseta.
— Se for fazer stripper, tem que pagar! — gritou Shippou, aproximando-se com outra jarra de bebida azul. Ele me ofereceu um copo. Nossa, aquele troço era realmente doce.
— Se eu estou tirando a roupa, por que eu tenho que pagar?! — Dmitri se levantou e começou a tirar o cinto, aquilo chamou muita atenção do público feminino (ou seja, as duas executoras) no local.
— Ver homem pelado de graça nem pensar. Se quer se despir em minha casa, tem que me remunerar.
— Não vou me despir.
— Por favor. — falei. — Mantenha a compostura.
— Está quente aqui. — Dmitri ofegou, franzindo a testa, e enxugando o suor que escorria por suas têmporas.
— É a quentura do meu Fogo de Raposa que está presente nessa casa para a presença feminina... Pare de senti-la e vá embora com todos os machos!
— Me obrigue.
— Te chuto daqui até Tóquio.
Levantei e fiquei entre os dois. Lancei um olhar severo para Shippou que apenas deu de ombros e saiu cantando uma cantiga japonesa de alguns séculos atrás, logo Milo se juntou a ele em um coral. Ambos foram até a sacada e começaram a berrar e eventualmente proferir palavrões para aqueles que os mandavam calar.
— Raposa maquiavélica. — reclamou Dmitri.
— Não fala assim do Shippou.
— Não acredito que está o defendendo! — Ele tomou o copo de minha mão e bebeu todo o conteúdo de uma única vez. Hum. — Esse... Esse... É ele que está causando todos esses problemas na alfândega para o senhor Sesshoumaru.
— Sesshoumaru nem está aqui.
— E não precisa estar para esse... esse... causar problemas. — ele respirou fundo. — Onde já se viu? Barrar os contêineres apenas por birra.
— Como?
— Ele fica de birrinha no território dele e não deixa a gente trabalhar direito. Daí o Richard tem que ficar xingando tudo que é homem ou mulher para que possam liberar as coisas.
Não entendi nada. Então sorri e fingi que entendi; fiquei ouvindo-o reclamar de como o Shippou era um brocha com diarreia que ferrava com tudo que Senhor Sesshoumaru tentava fazer (foram essas palavras, entre em choque).
Preciso lembrar de nunca mais deixar o Dmitri bêbado... Ou deixar: ele ficou engraçado quando começou a dançar ula de cueca com as executoras do Shippou.
No meio de toda aquela confusão, eu de repente lembrei que Hu estava ali em algum lugar e procurei-o com os olhos. Ele estava sentado no sofá, com o rosto franzido, de quem estava muito incomodado com o que via. Obviamente não havia tocado em uma gota sequer de álcool. Não que isso faça sentido, já que todo mundo ali parecia bêbado por osmose.
— Vou ter que te… — comecei em mandarim, mas então esqueci das palavras correspondentes às que eu queria usar, e completei em japonês — … embebedar também?
Ele lançou um olhar longo para mim, avaliativo, como se não acreditasse que eu estivesse tão bêbada quanto aparentava. Então ergui as sobrancelhas, gracejando. Ou ao menos era para ser um gracejo e eu tenha apenas ficado com careta de Gremlin.
— O que você pretende com tudo isso? — ele perguntou, em um japonês fluente e limpo, interrompendo a minha ação de levantar para ir buscar com Shippou mais daquele troço azul e forçar Hu a experimentar.
Ele fala japonês... Por que ele nunca falou japonês antes? Esse cara safado me deixou apanhando do chinês! Eu imaginava que ele compreendesse o japonês, mas, por via das dúvidas, acabava sempre falando (ou tentando) no idioma dele.
Senti que havia sido traída, mas resolvi deixar isso para lá uma vez que não podia ficar me pegando a esses detalhes torpes enquanto estou "meio" alegre. Melhor pegar mais daquela bebida azulada da raposa. Voltei e sentei ao lado dele novamente, agora dando uma bela de uma golada na bebida.
— O que você disse? — perguntei, bebericando. Senhor, isso aqui é mais doce que mel.
Ele parecia bastante irritado. Levantou-se, expirando, e ficou de pé à minha frente. A gritaria de Milo e de Shippou pararam, mas não me ative a esse fato, apenas me concentrei em Hu, encarando-me, possesso com algum motivo que eu não fazia ideia.
— O que você acha que está fazendo? — ele perguntou — Mantendo-me aqui. Mantendo todos aqui. Para quê?
— Para beber?
Ele bufou, estreitando os olhos. Notei que estava realmente muito irritado, tentei me concentrar no que ele estava falando para não iniciar uma discussão... Estava meio difícil manter minha concentração, mas estava me esforçando...
— Eu não sei se você é uma completa idiota ou se tudo isso é apenas um embuste. — Estava muito preocupada com o fato de ele usar uma palavra tão rebuscada como "embuste", para me importar com o fato de ele estar me ofendendo — Isso é alguma espécie de armadilha? Um tipo inovador de tortura? Não está funcionando.
Pessoas bêbadas não deveriam participar de conversas exaustivas, apesar de que eu estou apenas alegre. Apenas. Fiz esforço para manter minha concentração nele, mas de alguma forma minha mente estava completamente tomada com um sério questionamento: será que há biscoitos na cozinha de Shippou?
Vou lá descobrir.
Levantei-me, mas parei quando Hu soltou um rosnado de frustração. Vi quando Shippou apareceu na sala, com expressão nervosa. Não entendo por que eles estão assim. Deveriam deixar de pensar nos problemas e se preocuparem mais em acabar com o estoque dessa bebida azul que parece algodão-doce líquido.
— Hu… Eu vou atrás de biscoitos, você quer alguns?
Ele fechou as mãos dele em punhos, respirou fundo várias vezes, como se estivesse se controlando para não me bater.
— Você é apenas uma garota mimada. — ele disse, quase cuspindo de tanta raiva — Não faz ideia do alcance da guerra na qual está interferindo, mas acha que vai salvar a pátria fazendo… isso? Esses Senhores deixaram você acreditar que poderia ajeitar uma guerra de trezentos anos apenas com ingenuidade. Você nunca viu sangue ou dor de verdade, sempre foi protegida por alguém, e acha realmente que pode consertar aquilo que não conhece? Se realmente quer conseguir alguma coisa, é melhor me levar de volta para Tóquio e deixar que os Lobos me torturem. Eles tinham mais chance de conseguir resultados do que você.
Eu realmente queria biscoitos.
— Vou entender isso como um não. Shippou, vou atacar sua cozinha. Acho que vou dormir. Ou não. Entããão, boa noite para todos. Até para você, estressado. — disse para Hu. Dmitri fez menção de me seguir, mas então percebeu que era muito mais importante que ele ficasse vigiando o yaoguai e voltou a se sentar pesadamente no sofá.
Então, deixe-me seguir o meu caminho.
A passagem para a cozinha ficava atrás da escada. Linda cozinha. Encontrei a despensa. Estava cheia de todo o tipo de coisa que poderia se encaixar ao que a nutricionista dos meus irmãos chamava de "calorias vazias". Amei essa despensa. Não me contentei com biscoitos e também peguei salgadinhos e refrigerantes. Adorei isso também.
Minhas mãos estavam deliciosamente abarrotadas de comida. Sorrindo, segui para fora da cozinha. Parei quando cheguei na sala, ao ouvir Shippou dizendo:
— Você não a conhece, não faz ideia da vida que ela levou. A Kagome é a mulher mais estupidamente corajosa que eu conheço. As coisas que ela fez, e ainda faz, surpreenderia até mesmo imortais antigos como eu ou você. Então não abra essa maldita boca para falar dela nesse tom condescendente ou eu juro que não respondo por mim.
Nossa, ânimos exaltados. Apenas subi as escadas, entrei no meu quarto, liguei a televisão e iniciei o que eu chamei pessoalmente de "Kagome alegre degustando comidas alegres". Que alegria.
Desci as escadas quando os biscoitos e os salgadinhos acabaram. Bom, acabei entrando em uma disputa com os rapazes de quem bebia mais algodão-doce-da-cor-do-mar e não me recordo do resto da noite.
Ladie
Vocês não fazem ideia da importância desse momento, né? Imaginem que essa fic é uma montanha-russa. Tem aquela subida enorme, lenta, cheio de estalos, que não servem para nada se não te deixar ansioso e em completa expectativa sobre o que irá acontecer quando a descida finalmente começar. Vai ficando tudo mais distante, e mais alto, e bate o desespero, dá a vontade de voltar, você pensa se vale realmente estar ali... Você chega no pico. Tudo para. É a calmaria antes da tempestade. A partir dali você esquece completamente dos questionamentos, por que simplesmente não há tempo suficiente para pensar neles!Como fazer isso se tudo se tornou um surto sem fim, emoção pura, quando você sai de uma curva que te deixa com o estômago embrulhado, com gritos perdidos no vento que assovia em volta de você, e já entra em outra ainda mais alucinante?! Pois é.
Só tenho algo para dizer para vocês. Foram 52 capítulos de subida. Estamos no topo. Está tudo parado.
Estão preparados para gritar?
*sai de fininho*
*Sussurro* Beijos da Ladie
