Olá. Espero que todos estejam bem.

Esse é meu último dia de trabalho de 2007 e estou aqui no laboratório de informática da escola excepcionalmente sem ter nada de urgente para fazer. Que sensação boa! Finais de ano têm sempre esse sentimento gostoso de marasmo em um ou outro momento. Bom pra quem correu o ano inteiro.

Estou aproveitando então para digitar os rascunhos da primeira parte do capítulo O ACASO REESCRITO, espero que gostem. Infelizmente, como sempre, grande parte da ação ficou para a segunda parte, mas alguns esclarecimentos precisavam ser feitos e, como meus personagens gostam de conversar, vez por outra eu me pego em cenas de diálogos intensas que sei não agradarem a todos, mas que para mim acabam ficando impossíveis de serem retiradas. Espero que façam pelo menos um bom efeito.

De antemão já peço desculpas por qualquer erro, a ânsia que tenho em aproveitar qualquer momento livre na maioria das vezes gera textos confusos e mal revisados. Tomara que este não seja o caso. Agora espero atualizar com uma freqüência maior, embora, em período de férias e morando em casa de praia com familiares indo e vindo, eu não possa prometer grandes feitos. Nem tudo são flores quando se está de férias. Infelizmente.

No mais quero desejar a todos um Natal muito feliz e um Ano Novo perfeito. Agradeço infinitamente a boa vontade dos que me acompanharam com inacreditável paciência e afeto. Muito obrigada de coração. Espero que a vida lhes dê em dobro todas as boas sensações que a amizade de vocês me proporcionou.

Beijos

Sadie


"Que importa o sentido
se tudo vibra?"

Alice Ruiz


52 –O ACASO REESCRITO – primeira parte

Havia apenas uma pequena janela no consultório de Elrond. Era na verdade uma basculante colocada displicentemente na primeira parede disponível, mas que, por graça maior, proporcionava a oportunidade exata para que os raios do final do dia atendessem justamente aquele canto do lugar, projetando-se sutis por sobre o lençol muito branco que cobria o paciente.

Elrohir, até então perdido em seus devaneios, se viu acompanhado distraído o caminho daquela luz, por fim seu olhar deslocou-se para os dedos de sua mão entrelaçados aos de Legolas. Por Elbereth, como era difícil acreditar que aquilo tudo era verdade. Ele ergueu a outra mão e afastou devagar os fios de cabelo que insistiam em cobrir o rosto do amigo adormecido, percorrendo com as pontas dos dedos algumas marcas leves que desapareciam devagar do rosto do arqueiro. Elladan havia retirado a gaze das vistas do arqueiro agora, e ficara satisfeito por encontrar as pálpebras já desinchadas e menos escurecidas.

"Não o acorde, Einarr." Elladan preveniu, sentado em uma cadeira do outro lado da maca. Elrohir olhou o irmão por alguns instantes e sorriu, assentindo em silêncio com a cabeça.

"É que ainda parece um sonho..." Ele justificou-se. "Ainda tenho a sensação de que ele vai desaparecer daqui."

"Sei o que quer dizer." O irmão comentou, concentrando seus pensamentos na figura do amigo na maca, mas não conseguindo impedir-se de reviver todos os momentos que ele passara desde que chegara ali. "Eu também custei a acreditar."

Elrohir assentiu, parecendo satisfeito com aquela confissão. Porém, olhando o irmão, outras detalhes também se tornaram claros. "Você parece bastante cansado. Estão aqui há muito tempo. Quando vamos poder levar o Las para casa?"

Elladan nem mesmo o olhou. O rosto do gêmeo mais velho foi tomado por uma sombra de tristeza e o irmão ainda pôde vê-lo olhar para os equipamentos que estavam no pequeno consultório antes de responder.

"Acho que daqui a uns dois dias... Antes se ele melhorar. Legolas é imprevisível."

"Ada disse que vocês tiveram trabalho com ele..." Elrohir lembrou receoso.

"Sim... Muitas surpresas desagradáveis permeiam o caminho da aprendizagem." Elladan confirmou, repetindo, sem intenção, uma das frases que ouviam com freqüência do mentor nos campos de treino dos novatos.

Elrohir torceu desgosto os lábios, tentando ao máximo impedir que a imagem do autor daquela máxima voltasse a assombrá-lo.

"Que hora para você repetir uma frase dessas." Ele disse, mas o olhar entristecido que recebeu do irmão como resposta o impediu de ser mais duro. Na verdade não estava disposto a ser duro com ninguém aquele dia.

Nisso o som de um bip foi ouvido e Elladan apressou-se em puxar o aparelho do bolso. Olhou-o brevemente e seu rosto contorceu-se de preocupação.

"O que foi?"

"Precisam de mim na emergência." Ele respondeu apreensivo. O pai havia saído há pouco para atender a um outro chamado. Tinham o acordo de nunca deixar Legolas sozinho, mas não haviam vivido uma coincidência destas desde então.

O gêmeo mais novo analisou o irmão com cuidado e logo compreendeu a agonia nos olhos dele.

"Eu fico aqui." Ele propôs. "Qualquer coisa, te chamo."

"Certo." A resposta do gêmeo curador foi imediata e ele se pôs de pé, com um audível suspiro de alívio. "É só dar um alô a qualquer enfermeiro que passar pelo corredor e eles acionam o meu bip."

Elrohir riu. Depois lançou um olhar astuto que o irmão conhecia muito bem.

"Claro." A voz dele soou em sua mente. "Eu preciso mesmo de uma droga de bip pra falar com você."

Elladan perdeu-se naquela sensação que parecia fadada a sempre lhe soar como uma agradável surpresa, depois sorriu largamente. Apesar de todos os momentos difíceis, ele não trocaria aquela fase que estavam vivendo por nenhuma outra desde que aportaram na Terra-média renovada. Na verdade, não conseguia deixar de lado as memórias tristes de tempos não tão remotos, dias nos quais as intempéries do destino haviam se colocado entre ele e o irmão. Era uma benção ter com ele uma conexão forte novamente, ter o sorriso de Elrohir a favorecê-lo e a voz dele a ecoar-lhe nos pensamentos como outrora.

"Vou tentar não demorar muito." Disse enfim o gêmeo mais velho e voltou a sorrir ao receber uma piscadela do irmão como resposta. Elrohir parecia muito bem. Muito melhor do que ele julgava que o caçula pudesse se sentir depois de todas aquelas descobertas. O gêmeo parecia leve como quem se vê livre de pesados armamentos depois de uma dura batalha. Elladan não se atrevera a questionar-lhe o motivo, mas vivia agora um medo tolo até de se mover, de sair do lugar que fosse. Mesmo sabendo ser inútil, Elladan de fato temia que aquele sonho bom, que se intensificara agora com o retorno de Legolas, tivesse um fim mais rápido do que ele pudesse agüentar.

Elrohir acompanhou o irmão até a porta, depois a trancou a chave por precaução. Guerreiro que era e para o qual fora treinado toda a sua juventude, sabia que os momentos como aquele eram os que requeriam maior concentração, maior vigília. Conhecia a efemeridade da paz e o quão custoso era prolongá-la. E, embora não soubesse ao certo como intitular o que lhes havia acontecido, se sorte ou conquista, estava disposto a fazer o que fosse preciso para proteger aquela sensação.

Caminhou então para retomar seu lugar ao lado da maca, depois disso ficou alguns momentos olhando para o amigo adormecido. Vagarosamente, a boa sensação que ele saboreava foi consumida pela imagem que via. Legolas movia a rosto em seu sono, e seus lábios se partiam como se alguma palavra fosse escapar por eles.

Elrohir suspirou incomodado, depois lhe retomou cautelosamente a mão para que o amigo sentisse sua presença.

"Tudo bem... Tudo bem, Las..." Ele lhe disse ao ouvido e a melodia de sua voz pareceu ser o bastante, pois o amigo aquietou-se mais uma vez. O elfo moreno voltou a encostar-se na cadeira então, mas ainda estava difícil administrar a dor que lhe causava ver Legolas assim tão ferido e vulnerável. Era impossível não levantar conjeturas de todos os tipos a respeito desse ínterim que ele desconhecia, dessa ausência e do que poderia ter acontecido.

Aquilo não era justo, fosse o que fosse que tivesse levado Legolas por tanto tempo, não era justo. Elrohir sacudiu a cabeça, voltando a sentir com tristeza as marcas visíveis e invisíveis que pulsavam ali, no corpo pálido e enfraquecido do amigo arqueiro.

A sensação foi tão forte que o gêmeo subitamente fechou os olhos, mas então engoliu em seco e os reabriu. Não. Não era justo, mas ele não se deixaria levar por aquela sensação de tristeza. Não, ele não estava lá para sentir pena de si ou de Legolas. Ele era o guardião do amigo e estava lá com o objetivo de protegê-lo e tirá-lo daquele hospital o quanto antes.

Suspirou profundamente então. Um guerreiro sem sua couraça, sem a armadura de guerra não é um guerreiro, ele pensou, percebendo enfim o que havia de diferente. Agora ele recuperara armadura, couraça, punhal, espada. Ele recuperara sua vontade de vencer e ninguém a tomaria dele, ninguém roubaria aquela sensação que o trouxera até o hospital, que o recolocara em pé mais uma vez. Podia chamá-la de felicidade? Sim, talvez em seu íntimo atrevesse-se a tanto. Estava feliz, apesar de tudo, feliz como quem, às vésperas do dia de seus anos, não julgava receber presente algum e acaba vendo que, não só se lembraram dele, mas também souberam dar-lhe o que mais precisava.

Ele sorriu então, lembrando-se de quem fora responsável por essa estranha paz que agora o abençoava.

Valia a pena retribuir o favor.

Puxou o celular do bolso da jaqueta e acessou o número de casa. Logo uma voz doce surgiu do outro lado da linha.

"Já chegou, querido?"

Elrohir respirou profundamente. Ainda se questionando se estava de fato fazendo o que era certo. Por Elbereth como ele odiava mentiras e rodeios.

"Não, mãe. Ainda estou no hospital."

"Por quê? Está tudo bem?"

"Está." Ele respondeu e sentiu, pelo silêncio da mãe, que o fizera com mais rapidez do que deviria. "Está mais do que bem."

"Que bom..." A voz de Celebrian soou evasiva enfim, despertando no gêmeo o súbito desejo de desistir. Talvez o pai e o irmão tivessem razão. A mãe estava tão bem. Valeria a pena trazer a ela uma notícia como aquela agora? "Ligou-me apenas para isso, querido?"

Elrohir mordeu o lábio inferior, olhando novamente para o amigo do leito. Legolas mudou o rosto de posição, como vinha fazendo há algum tempo. Estava decerto sonhando novamente.

"Não vai me dizer o que aconteceu? Seria mais fácil do que me deixar aqui com seu silêncio." Celebrian adiantou-se, surpreendendo o rapaz do outro lado da linha. Elrohir respirou fundo, ainda entre a decisão e o arrependimento. "Aconteceu alguma coisa, não foi, querido?"

"Sim..." O gêmeo respondeu, guiado como sempre era quando em uma conversa com a mãe. Por todos os Valar como era difícil esconder algo quando já havia nela a semente da desconfiança.

"Uma coisa boa ou uma coisa ruim?" A elfa indagou, tentando agora parecer displicente.

"Uma coisa ruim... que resultou em uma coisa boa..."

"Ah... hum... tal qual seu sonho?" A elfa indagou e o tom divertido da pergunta roubou um riso nervoso do gêmeo.

"É... mais ou menos."

"E vai me dizer o que é?"

Era só contar. Por que subitamente estava parecendo tão difícil?

"Vou..." Ele respondeu, decidindo-se por fim sobre o que fazer e engolindo as teimosas emoções que estavam querendo aflorar-lhe. Repartir com a mãe uma sensação era como vivê-la novamente.

"Agora?" A elfa ainda brincou. "Ou vai esperar chegar em casa para que possa me chantagear e pedir-me um café fresco?"

Elrohir sorriu, fechando novamente os olhos.

Agora? Agora!

"Mãe... Lembra-se do atentado no Beco?"

"Sim..."

"Então... Além das pessoas que salvamos, havia outras vítimas soterradas..."

"Minha doce Varda! Então você estava certo!" Celebrian exclamou, esquecendo-se completamente do cuidado com o vocabulário. Seu tom transpareceu tamanha alegria que Elrohir comoveu-se, sorrindo largamente.

"Sim... Eu... Eu estava... Eu estava, nana." O jovem elfo emocionou-se também, deslizando sem se importar para aquela gama de palavras que deveria evitar.

"Ah, querido. Que surpresa! Mas eles estão bem, não estão?"

"Estão... Um deles está aqui no hospital..."

"No hospital onde seu pai e seu irmão trabalham?"

"Sim..." Elrohir respondeu, receoso, sentindo o tom da mãe modificar-se. "Aqui no consultório do ada..."

"Mas seu pai costuma manter pacientes no consultório, Elrohir?"

"Não... Não é de praxe... é só um consultório." O gêmeo respondeu. Havia agora uma ansiedade mesclada à apreensão que queria tomar-lhe o ar. Era como se aquela notícia quisesse escorregar-lhe boca a fora, como se fosse livre e tivesse vontade própria.

"Então por que esse paciente está no consultório de seu pai, querido?" A mãe indagou, parecendo não conter também o desejo de entender o que o filho queria de fato lhe contar.

"Porque... porque esse ele não deixaria sair daqui... Não mesmo... Por nada nesse mundo ou em qualquer outro."

Celebrian silenciou-se então, e Elrohir percebeu que chegara o fim das leves brincadeiras.

"Rohir-nin... Quem está aí?"

Elrohir engoliu em seco e, estranhamente, as lágrimas quiseram voltar a seus olhos.

"Alguém... a quem conhecemos ainda pequenino... um principezinho dourado que vivia em uma caverna." Ele disse, reabrindo os olhos e sentindo-se invadido por aquela verdade com maior vigor do que fora anteriormente. Ele olhou o amigo no leito mais uma vez e voltou a sorrir. "Ele está aqui, nana. Ele está vivo."

Um silêncio envolveu mãe e filho então, criando um instante que pareceu durar uma eternidade, até que, enfim, a voz de Celebrian ressurgiu do outro lado da linha, totalmente modificada pela emoção.

"Meu bom Ilúvatar..." Foi o que a elfa foi capaz de dizer depois do momento de perplexo silêncio. Elrohir emocionou-se mais ao ouvir a voz embargada da mãe. "Ion nin... querido... repita isso para mim, por favor. Repita para que eu saiba que não estou sonhando."

"Não está, nana. É real. Legolas está aqui, está aqui diante de mim."

O gêmeo ainda pode ouvir a mãe respirar profundamente do outro lado da linha, contendo agora as emoções, até que alguns leves e camuflados soluços tornaram-se audíveis. Elrohir apertou os lábios, lutando também para não ser tomado por aquele sentimento tão forte.

"Nana..."Ele chamou, respirando profundamente. "Olhe...Vai ficar tudo bem agora" Tentou garantiu, incomodado com o silêncio da mãe. "Não vamos deixar que nada aconteça. Eu lhe garanto."

"Eu sei, querido... Sei que vão cuidar dele... Mas, escute... você disse... disse que ele estava no local da explosão. Ele está bem, não está? Diga a verdade, Rohir-nin."

"Ele... Sim... Ele sofreu por causa do gás... Mas está melhor e... bem, o Dan disse que ele vai ter que ficar aqui por mais alguns dias, talvez mais dois dias... ele não sabe ao certo."

"Mais dois dias? Elrohir, não me esconda nada, querido, por favor."

O gêmeo voltou a olhar o amigo e a verdade pareceu agarrar-se em sua garganta.

"Ele... foi atingido pelo gás, nana. A senhora sabe como é... Está com algumas marcas por causa do contágio, mas já estão cedendo. Só há um problema... que talvez custe um pouco para se resolver e... mas o ada disse que ele vai melhorar logo...e..."

"Que problema, Rohir-nin?"

Elrohir engoliu em seco. Por que tudo o que é luz tem que ter uma ponta de escuridão em algum lugar?

"Ele... teve os olhos atingidos, nana... Mas... o ada disse que a visão dele vai voltar em pouco tempo".

"Elbereth..."A voz de Celebrian ergueu-se em surpresa e desapontamento. "Ai não... pobrezinho. Ai, Rohir-nin... pobrezinho..."

"Nana, ele vai melhorar. Já está bem melhor do que quando chegou. O Dan disse que está reagindo muito bem. A senhora conhece nosso esquilo... Ele.. Ele vai estar de pé e pronto para outra antes do que todos esperam. Eu tenho certeza."

"Ai, Elrohir... Mas não é justo... Pobrezinho..."

"Eu sei... Eu sei, nana. Também não me conformo e... dá uma vontade doida de quebrar tudo só de pensar... Mas agora não há nada que possamos fazer senão ajudá-lo a se recuperar de todo esse pesadelo... É só o que nos resta... Espero que possamos fazer isso..."

"Está bem... Está bem, querido. Você está certo."Celebrian forçou-se a responder. "Por Elbereth, é que ele já sofreu tanto... Mas estou feliz, estou feliz demais com a notícia."

"Eu também É como se as coisas fossem enfim melhorar."

"Sim, eu sinto o mesmo."

"É... Vão ter que melhorar, ou vou fazer com que melhorem à força." Elrohir respondeu e sorriu ao perceber que roubara um riso da mãe, depois baixou um pouco mais o tom de sua voz ao ver o amigo voltar a se mexer na maca. "Preciso desligar agora,nana, ou vou acabar acordando-o. Só queria lhe dar a notícia..."

"Certo, querido... Obrigada, Rohir-nin. Seu pai e seu irmão não ligariam, com certeza."

"É... Eles são assim. Não querem repartir os problemas... Só que às vezes... Não sei... Acho que às vezes é preciso... ou é justo, pelo menos..." Elrohir disse pensativo e pôde sentir do outro lado da linha a mãe continuar a sorrir.

"Sempre é, Rohir-nin. Sempre é. Lembra-se ainda do que dizia seu avô sobre as rosas e os espinhos, não se lembra?"

"Sim... Para apreciar o primeiro..."

"É preciso tolerar o segundo..." Celebrian completou, feliz por estar repetindo uma frase do pai a quem tanto amava.

Elrohir sorriu, olhando para o amigo mais uma vez.

"Estou feliz com a imagem que posso ver agora. Eu enfrentaria todos os espinhos do mundo por esta rosa rara aqui." Ele disse com o peito cheio de decisão e afeto e sentiu que, do outro lado da linha, sua mãe preenchia os pulmões com o mesmo sentimento.

"Eu também... Eu também, querido. Obrigado por ter ligado, Rohir-nin. Prometa que me ligará novamente com mais notícias quando puder, está bem?"

"Claro,nana. Até mais."

Elrohir fechou o celular e respirou profundamente. A breve conversa com a mãe surtira o efeito que ele esperava. Estava novamente se sentindo seguro de si e de seus objetivos, sentindo as necessidades a sua volta e disposto a atendê-las como pudesse. Ele reergueu as pálpebras e voltou a olhar para o amigo. Havia tanta coisa que queria perguntar a Legolas, mas sabia que aquele não era o momento e que tal momento talvez fosse demorar mais do que gostaria. Ele franziu desgostoso o cenho com aquela perspectiva, antes de perceber que os movimentos do rapaz no leito voltavam a se tornar mais intensos

"Shh. Está tudo bem." Assegurou, reaproximando-se e voltando a segurar a mão do amigo. "Volte a dormir, elfinho. Eu estou aqui com você. Vai ficar tudo bem."

Legolas soltou os lábios, movendo o rosto em direção a voz que ouvia, em seguida ergueu a outra mão e Elrohir segurou a ambas.

"Volte a dormir, Las."

"Elrohir..."

"Eu mesmo. Está tudo bem. Olhe, o Dan pediu para que eu não conversasse com você se acordasse, me disse que deveria ajudá-lo a dormir de novo. Por isso, elfinho, volte a dormir antes que eu tenha que pensar em um modo menos ortodoxo de ajudarvocê a fazê-lo"

Legolas apertou os olhos, movendo o rosto para o lado oposto novamente e contorcendo os lábios. Elrohir intrigou-se, começando a desconfiar que o arqueiro não estava de fato acordado. Quando algumas lágrimas começaram a escorrer pelos cantos dos olhos do amigo a desconfiança tornou-se certeza,

"Las... Las, está tudo bem..." Ele garantiu, apertando ligeiramente as duas mãos do amigo. "Não se deixe levar por cenas tristes... Não agora... Você precisa se recuperar."

Infelizmente para o gêmeo, suas palavras de conforto dessa vez pareciam ineficazes, como se ecoadas em um poço sem fundo. O rosto do arqueiro continuava transformado por uma preocupação evidente e ele apertava agora suas mãos como se alguma dor forte o estivesse torturando. Elrohir preocupou-se mais, olhando brevemente para o biombo branco. Aquela era uma excelente hora para o pai aparecer, ainda pensou, tentando controlar a respiração alterada para que ela não o impedisse de pensar. Legolas virou o rosto mais algumas vezes e soltou os lábios em busca de um ar que não parecia lhe bastar.

"Las... Las acorde, vamos." Decidiu-se então o gêmeo, bastante insatisfeito por ter que contrariar um pedido do irmão. Era sabido que Legolas precisava de descanso para se recuperar, entretanto, a qualidade daquele descanso não estava se mostrando uma ferramenta muito útil. "Vamos elfinho. Saia daí. Siga a minha voz... Eu vou trazê-lo de volta, vamos."

"Elrohir..."

"Isso!" A voz do gêmeo escapou-lhe como um quase desabafo. "Sou eu Legolas." Ele acrescentou com firmeza, em seu melhor tom de capitão de guerra, esperando estar seguindo o caminho correto. "Saia daí, vamos! Estou te chamando."

Legolas curvou as sobrancelhas, movendo a cabeça para a direção do chamado, os olhos ainda fechados, a face ainda contorcida de dor. Aquela não era a reação esperada. Ele voltou a mover a cabeça em todas as direções. Mesmo de olhos cerrados ele parecia buscar por algo, ou talvez compreendê-lo. Elrohir não sabia que explicação dar àquilo e a ausência desse significado claro estava lhe incomodando em demasiado. Ele soltou as mãos do amigo, segurando-lhe o rosto com firmeza.

"Legolas, volte! Vamos! Volte ou vou buscar por você." Ordenou energicamente, repetindo uma ameaça que certa vez se mostrara bastante eficaz. No entanto, Legolas teve uma reação inesperada, ele ergueu as mãos e segurou os pulsos do gêmeo. Elrohir sobressaltou-se, chegando a pensar que o arqueiro fosse desfazer a conexão que ele tentava firmar. Legolas então estremeceu, apertando muito os olhos e trancando o maxilar.

Naquele momento o inesperado mostrou a que veio. A dor que o antigo príncipe enfrentava parecia ser tamanha que transcendeu, por si só, as barreiras que o hábil Elrohir mantinha entre suas mentes e, ainda preso naquele contato que queria efetivar, o gêmeo foi atingido pelo reflexo dela.

Foi como uma sombra densa e fria, uma ausência assustadora, um sentimento de impotência e servidão. A sensação invadiu-lhe um canto da mente, trazendo uma indescritível sensação de frio e tristeza. Porém, para sua sorte, ela se dissipou em seguida. O elfo moreno estremeceu com o acontecimento que não compreendera, soltando o rosto do amigo por instinto e respirando ofegante. Legolas soltou-se dele também, deixando ambas as mãos caírem pesadas por sobre o fino colchão daquela maca.

E o momento estendeu-se, como se fosse eternizar-se e os reflexos daquele choque ainda tecessem suas amarras na mente do elfo moreno. Elrohir ficou sem ação, no ínterim de quem espera por uma instrução qualquer, mesmo sabendo que não havia nada nem ninguém ali que a proviesse. Era uma sensação de completo desamparo que parecia incontornável e prolongava-se mais e mais, fazendo-o sentir-se como se estivesse petrificado e fosse ficar de uma vez por todas naquela cadeira.

PorElbereth, se aquilo que sentira era só uma parte do pesadelo que Legolas enfrentava toda vez que era assolado por imagens de outros tempos, ele começava a compreender porque tal experiência esgotava o amigo com tamanha rapidez, roubando-lhe não só as forças, mas também a alegria. Elrohir fechou rapidamente os olhos, parecendo sentir ainda o ecoar daquela escuridão dentro de si. Foi um reflexo inútil para escapar do que na verdade nem sequer estava mais ali.

"Ilúvatar..." Ele clamou baixinho, forçando-se a mover o corpo que parecia dolorido agora. Ele ergueu uma mão trêmula e pousando-a receoso por sobre o peito de Legolas. Sim, fosse o que fosse presumia-se terminado, pois o arqueiro parecia dormir novamente, respirando de forma quase inaudível, o rosto ainda mais pálido voltado para o lado oposto, as mãos soltas por sobre os lençóis.

Era assustador como uma imagem já contundente como aquela podia se tornar ainda mais incisiva.

"PorVarda e todas as estrelas do céu, gwador-nín,"Elrohir clamou baixinho, apoiando a mão esquerda por sobre a cabeça do amigo. "Eu não quero que você sofra desse jeito mais... Diga-me o que fazer..."

Legolas descolou os lábios, voltando a mover o rosto e Elrohir quase se arrependeu do protesto que fizera, temendo ter aberto para o elfo louro um impróprio espaço para outra desventura como a que vivera. Mas o príncipe apenas moveu as órbitas por sobre as pálpebras fechadas, depois pressionou o maxilar, por fim reabriu devagar os olhos, piscando algumas vezes.

Elrohir soltou o ar que prendera nos pulmões, tentando lidar agora com a triste sensação de ter aqueles olhos avermelhados voltados para ele. As órbitas do arqueiro continuavam a dançar nos globos tal qual quando ele dormia, como se a busca que o atormentasse fosse incessante. O gêmeo moveu a mão que apoiara no peito do amigo então, massageando-o devagar.

"Ei, Las... Está tudo bem agora... Fale comigo..."

Enfim aqueles olhos estagnaram-se, fixos agora em algo que apenas o arqueiro parecia ver.

"Elrohir..." Ele chamou e o tom de sua voz retirou o amigo da posição que estava. Elrohir levantou-se de imediato, encurvando-se por sobre a maca para ouvir o que Legolas queria lhe dizer.

"É, sou eu, gwador-nín. Estou aqui." O gêmeo ofereceu em tom suave, enxugando com cuidado as lágrimas que o amigo derramara. "Já passou.Tente dormir novamente. Você precisa descansar ou não vai sair daqui."."

"Elrohir..." Legolas moveu os olhos, fixando-os tão exatos nos do elfo moreno que Elrohir chegou a imaginar que o amigo tinha recobrado a visão. Então soltou novamente os lábios e um ar frio saiu por entre eles, trazendo arrepios à espinha do gêmeo. Elrohir cobriu-lhe a testa marcada com a mão esquerda e aproximou seu rosto um pouco mais.

"Las, durma. Não tenha medo. Eu vou ficar aqui e volto a acordar você se estiver preso em algum sonho ruim."

A resposta do amigo foi outro breve suspiro. Ele fechou e reabriu os olhos algumas vezes, até voltá-los novamente para a direção do gêmeo.

"Elrohir... Elladan disse que vocês estão... estão em patrulha novamente..."

"Em patrulha?" Elrohir envergou as sobrancelhas com o súbito aparecimento daquele assunto, mas depois aquiesceu e sorriu com a comparação. "É... Somos patrulheiros novamente."

"São soldados..."

"Uma espécie de soldados."

"Ainda estamos em guerra... não estamos, Ro?"

O elfo moreno contorceu o rosto, tentando entender o difícil discurso do amigo convalescente.

"Las... Você está acordado?"

"Passou muito tempo... e agora vocês... vocês são soldados novamente... Se são soldados é porque... porque ainda estamos em guerra, não é? O inimigo não... não foi derrotado."

Elrohir voltou a intrigar-se, depois sacudiu brevemente a cabeça ao entender a metáfora do amigo louro.

"É... De certa forma ainda estamos em guerra... Infelizmente... Mas logo ela vai ter um fim. Pelo menos é pelo que esperamos e ansiamos."

"Se... são soldados... então... não devem ficar aqui... Não devem abandonar o campo de batalha."

Elrohir sorriu com tristeza.

"Não me quer aqui a seu lado?" Ele provocou.

Legolas piscou algumas vezes, pousando a mão sobre o próprio coração agora.

"Aqui... Eu o tenho aqui... É o lugar para os que... nem sempre podem... estar próximos..." Ele disse e Elrohir não conseguiu se lembrar de um momento em que a voz do amigo houvesse soado mais triste.

"Eu também o guardo em meu coração, Las." Elrohir respondeu e sua voz escorregou em alguns tons devido à emoção.

Legolas fechou novamente os olhos, deixando-os assim por tanto tempo que o gêmeo julgou que tivesse adormecido novamente. Entretanto ele os reabriu e brilhavam um pouco mais.

"Na guerra, os papéis... são distribuídos... e não há como descartar... os que não desejam... fazer parte disso..."

Elrohir balançou a cabeça, procurando equilibrar a paciência e a frustração, mesmo sentindo-se incapaz de compreender os devaneios do amigo. Legolas encheu vagarosamente o peito e continuou.

"Não há como não contar... com eles... Só há um modo de fazer com que doa... doa menos... É deixá-los... ir... mas mantê-los aqui... aqui guardados..." Ele completou, batendo agora com pouca força por sobre o peito.

Elrohir continuou a acompanhar com dificuldade aquele raciocínio. No entanto sentia agora que cada palavra triste escondia outras histórias ainda mais tristes. A sentença intruncada do príncipe então acabou por despertar uma sensação de estranha urgência que o gêmeo não compreendeu, mas que passou a incomodá-lo tremendamente.

"Já ficou longe de nós tempo demais." O gêmeo disse então, desvendando a seu modo uma parte do que ainda enchia o peito do arqueiro de angústia e pousando a palma por sobre a face esquerda dele. "Agora vamos estar juntos novamente... E não vai acontecer nada que impeça isso, Las. Eu não vou deixar... Está bem? Acredita em mim, não é? Sabe que não vou permitir que nada leve você de nós novamente."

Legolas fechou os olhos e uma lágrima escorreu por seu rosto.

"Aqui..." Ele apenas disse, voltando a apoiar a mão sobre o peito. "Sempre..."

Elrohir soltou intrigado o queixo, depois forçou o maxilar a fechar-se. Continuava a questionar-se se o amigo estava de fato desperto. Legolas balançou mais uma vez a cabeça, e outras lágrimas escorreram por seu rosto marcado.

"Las... não quero que sofra mais, gwador-nín." Ele pediu em um tom de súplica que não lhe era peculiar, mas que estranhamente era o único ao qual se sentia capaz de recorrer. Estava perdido e precisava demais que o amigo lhe desse uma direção para seguir. "Me diga como posso ajudá-lo a não sofrer mais."

"Não vou... não vou fugir mais..."

"Fugir?"

"Eu sofro... por que preciso, Elrohir... E quando posso... quando há quem me ampare..." Legolas respondeu. "Se sofro agora... é porque conto com sua ajuda..."

Elrohir sobressaltou-se.

"Como... como assim?" Ele indagou surpreso. "O que devo fazer? Eu não entendo..."

"Lembra-se... do carro de Elladan? Quando eu vi o que vi?"

Elrohir contorceu o cenho com a lembrança, tentando entender qual era a associação que o arqueiro tentava fazê-lo inferir.

"Lembro-me... Eu... Nós... estávamos juntos..."

"Mas não... não devíamos... Você estava comigo... quando devia estar em outro... outro lugar..."

Elrohir soltou os lábios para responder, mas nada lhe ocorreu. A história toda misturada daquela forma perdia completamente o sentido. Ele moveu o rosto alguns centímetros, como se encarasse um quebra-cabeça recentemente embaralhado. Por quê? Por que tudo tinha que ser tão confuso? Por que a ordem certa das coisas não podia permanecer estabelecida por um momento que fosse, por um instante de paz apenas?

Foi então que uma idéia quase mórbida lhe ocorreu. O quebra-cabeça embaralhado. Por que estaria assim? Para que a imagem fosse refeita ou fosse corrigida? Ah, Elbereth, e se as peças tivessem sido embaralhadas para que a imagem certa se formasse enfim? E se olhavam todos até então para uma imagem ilusória? Uma distração?

"Legolas... Eu... estou onde não devia estar? É isso que quer me dizer? Que não estou onde deveria?" Ele indagou receoso e Legolas soltou um suspiro triste, assentindo com a cabeça e fazendo o amigo moreno empalidecer ainda mais. "Então... onde eu deveria estar?"

"No campo... de batalha..."

Elrohir soltou os ombros contrafeito, fechando os olhos e esvaziando ruidosamente o peito. Legolas estava ferido, vulnerável. Ele sabia que deveria ter paciência, mas aqueles rodeios todos o estavam enlouquecendo.

"Las, o campo de batalha também é aqui. Alguém tem que proteger você ao menos até que melhore, não é verdade?"

"Meu mestre... está aqui, Elrohir... Esse campo de batalha... é dele..."

Elrohir sacudiu a cabeça com mais força agora, recusando-se, mesmo sem intenção, a buscar a infinidade de porquês escondidos por trás daquela verdade que o arqueiro lhe dizia

"Não, mesmo. Há outros como nós no campo de batalha. Eu não vou sair do seu lado agora... Não como das outras vezes. Não até que você esteja de pé. Não vou... Não me peça."

Legolas fechou pesadamente os olhos, depois ergueu ambas as mãos, apoiando-as por sobre o rosto do gêmeo. Elrohir estremeceu ao senti-lo lendo devagar os traços de sua face como fizera no passado, quando a visão o desfavorecera. Ele procurou aquietar-se, não demonstrar no rosto o que ocupava seu preocupado coração, mas quando Legolas soltou novamente os braços por sobre a cama, ele parecia ter concluído o bastante sobre o que afligia o elfo moreno.

"Abençoados seríamos se pudéssemos criar um lugar... seguro... para... para todos a quem amamos... Mas como decidir quem... ocuparia esse mundo? Como... se há tantos... a se encontrar ainda?" Ele indagou e sua voz declinou rapidamente, sua respiração parecia difícil. "Conhecer o mal... viver nele... é a única forma de encontrar... encontrar o bem... Nem que seja vez... vez por outra..."

Elrohir soltou surpreso o queixo, sentindo-se lido devagar em suas dúvidas, em seus temores.

"Deve ir..." Legolas insistiu e o elfo moreno voltou a contorcer o rosto, sentindo-se mais cego agora do que o amigo diante dele. Ele sacudiu então a cabeça, segurando com força a mão do arqueiro.

"Legolas... diga-me então o que devo fazer." Ele pediu inconformado. "Por que se não me quer aqui, me quer em outro lugar. Que lugar é esse então?"

"Elladan me disse que já... resgataram muitos mortos..."

"É... É sim... Por que, Las?"

"Já resgatou o corpo... de alguma criança?"

"Não." Elrohir respondeu prontamente, no tom de quem havia ouvido uma grande blasfêmia. "Por quê?"

"Eu vi muitas à volta dela..." Legolas declarou enfim e aquele inicio de esclarecimento foi roubando devagar a cor do elfo moreno. Elrohir voltou a aproximar o rosto, buscando não perder detalhe algum daquele importante enigma.

"Viu quem, Las?"

"Crianças... Mas não sei o que vai acontecer... Temo por elas, Elrohir... Sei da dor que será para o mundo inteiro que as cerca... sei da dor que será para nós também... se vocês não estiverem no campo de batalha..."

Elrohir voltou a sentir um frio intenso correr-lhe a espinha. Ele então retomou o rosto do arqueiro nas mãos.

"Quem são? Onde é esse lugar, Las?"

"Eu não sei quem são... Eu só tenho a imagem dela..."

"Dela quem?"

"Não tenho certeza... mas meu coração diz... que é a árvore do gato."

"Árvore?"

"Sim..." Legolas virou a cabeça, pressionando o maxilar e voltando a contorcer o rosto. Elrohir acompanhou o movimento preocupado, mas a afirmação do amigo não conseguia desligá-lo do término daquela explicação.

"A árvore do gato? Que gato, Las?"

"Sim... o gato de Eldarion..."

Elrohir torceu os lábios, insatisfeito e extenuado com aquele quebra-cabeças. Estaria o amigo ainda preso às imagens que vira em seu sonho? Estaria dando a elas a interpretação correta? Eldarion nem sequer tinha um gato em Gondor ou em qualquer outro lugar. Ele sacudiu a cabeça e estava preste a buscar mais esclarecimentos quando uma imagem tomou sua mente.

"Elbereth!A árvore do Parque Central? Aquela do parque que visitamos com Danika e as crianças?" Ele indagou em tom urgente, segurando mais uma vez o rosto do amigo nas mãos. "É a essa árvore que você se refere, Las?"

"Sim... A árvore do gato... do gato de Eldarion... Elas brincam a sua volta... tal qual as borboletas no jardim da minha terra... Lembra-se, Elrohir?" Ele indagou, fechando agora os olhos como se o sono o estivesse dominando e suas palavras fossem meros devaneios. "Meu coração sente pela... pela presença das borboletas... mas... não podemos simplesmente afugentá-las..." Ele completou, a voz enfraquecendo devagar. "Elas são... são frágeis e o mundo é tão verde... para elas... Não podemos tirá-las desse verde... É nossa obrigação mantermos o verde vivo... fazer com que as borboletas não... o temam... É importante ou não... não seremos ninguém..."

O gêmeo sentiu-se confuso, seus olhos deslizavam pelo rosto pálido e ferido do amigo, cujas pálpebras agora se fechavam contra sua vontade. Legolas estava esgotado e não conseguia, mesmo tentando intensamente, ficar desperto. Ele ainda voltou a apoiar a mão no peito do amigo e tentou mover os olhos para sua direção.

"Árvore alguma deve... deve morrer... Árvores e borboletas... são pelo que lutam os... os verdadeiros guerreiros... Por favor, Elrohir... Você já me salvou... Agora... precisa voltar ao campo de batalha..."

Quando a idéia foi concluída, Legolas ainda manteve os lábios desprendidos e Elrohir ficou a espera do que parecia faltar, mas tudo o que o arqueiro fez foi soltar novamente o braço que erguera e deixar o rosto pender para a esquerda.

Elrohir pressionou o maxilar, a mente cavalgando enlouquecida por aquele cenário que o amigo criara. Por Elbereth, estava novamente em seu cavalo, espada em punho, uma batalha terrível à frente. Como enfrentá-la? Como desvendar os pormenores ainda quase indecifráveis? Ele suspirou então, tentando trazer àquilo algum sentido, arquitetar um plano lógico que fosse, mesmo sentindo-se igualmente sem forças. Ele então assentiu para si mesmo, beijando a testa do amigo que parecia ter adormecido sem sua resposta e cobrindo-o cauteloso, antes de se levantar e caminhar até a porta.

No entanto, quando transpunha o biombo, ainda pareceu ouvir a voz perdida do arqueiro. Se ela havia soado ali ou dentro de sua mente mais uma vez, para ele nunca ficou claro, mas naquele momento ela fora urgente e oferecia-lhe mais uma peça para aquele confuso quebra-cabeça.

"Ele... ele vai estar lá, Elrohir... Deixe que ajude, ou... ou não vão conseguir..."

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"Acione o meu bip, acione o meu bip." Repetia o inconformado Elrohir empurrando com força a porta da escada de incêndio. "Por que pede uma coisa sabendo que não vai funcionar?"

"O enfermeiro me acionou, mas eu estava no meio de uma cirurgia." Elladan procurou explicar-se, passando pela mesma saída logo após o irmão. "Não podia simplesmente pedir licença, lavar minhas mãos e ir atender."

Elrohir parou alguns degraus abaixo, voltando-se para o irmão e olhando-o profundamente.

"Por isso não consegui contato com você?"

Elladan baixou a cabeça, passando incomodado o pé pelo chão de cimento rude do degrau no qual estava.

"Não posso estar sempre à disposição." Ele esclareceu, enfim, lamentando admitir a existência daquele empecilho entre os dois. "Tenho que deixar minha mente concentrada em um momento destes."

Elrohir não respondeu e seu silêncio não agradou ao gêmeo mais velho. Ele apenas continuou seu trajeto, empurrando então a porta de saída e ganhando a rua. Elladan acompanhou-o, olhando-o com cuidado, tentando perceber em seus traços o quanto estava zangado. Era triste saber que o que mais o agradava fazer na vida era justamente o motivo que os separara por diversas vezes. Deram alguns poucos passos pela calçada até que o gêmeo mais velho percebeu o irmão passar direto pelo carro deles.

"Einarr..."

"Vou de moto. Chego antes." O gêmeo respondeu rispidamente, sem se voltar, caminhando ainda a passos largos para o lugar onde estacionara seu veículo.

Elladan ensaiou uma resposta, mas ela morreu na amargura das palavras do irmão. Ele apenas ficou parado, observando-o terminar seu trajeto, sentar sobre a moto e ajeitar o capacete para colocá-lo. Antes de sair, no entanto, o gêmeo mais novo ergueu os olhos, voltando-os para ele e os dois irmãos se entreolharam por um breve instante. Elrohir suspirou então, voltou-se e apanhou o outro capacete que sempre carregava pendurado na moto, olhando mais uma vez para o irmão.

"De moto chegamos antes, toron-nin." A voz dele soou suave em sua mente e Elladan fechou aliviado os olhos. Depois ofereceu um pequeno sorriso, tomando a direção do irmão e sentando-se em sua garupa.

&&&

O Parque Central estava exatamente como naquele dia. Fazia frio, mas o feriado propiciara a muitas famílias a possibilidade de uma tarde de diversão. Pais e filhos construíam bonecos de neve, sob um céu com diversos tons de cinza mesclados. Eram tons tristes que carregavam em si a sombra de algumas recordações ainda mais tristes. Os olhos de Elladan irmanaram-se àquela cor quando ele os ergueu e o frio do lugar tomou-lhe o coração. Sensações de guerreiro, sensações estas que o irmão a seu lado parecia compartilhar em todos os tons. Elrohir, porém, não encarava o céu acima ou observava os transeuntes. Ele percorria astutamente o lugar em busca de uma informação especial.

"Lembra-se de qual era?" Elladan leu-lhe os pensamentos, caminhando agora a passos hesitantes e cuidadosos por um chão de pedra que estava mais escorregadio do que parecia estar.

"E como poderia me esquecer?" O gêmeo respondeu sem olhá-lo, saindo agora do atalho e afundando as botas na neve espessa. "Essa infeliz ocupa meus pesadelos desde então."

Elladan sacudiu a cabeça, condenando o vocabulário do irmão silenciosamente. Sabia que não era o momento para recriminações, por mais válidas que fossem. Foram apenas mais alguns passos até estarem diante daquele personagem central de um momento pesaroso de suas vidas. Elladan ergueu novamente os olhos, encarando os poucos raios de luz que escapavam pelos galhos praticamente congelados da árvore, enquanto Elrohir não perdera tempo com recordações, agachando-se e enterrando ambas as mãos na neve que se acumulava por entre as grossas raízes.

"Ainda bem que tenho luvas. Merda. Vão ficar ensopadas." Ele reclamava para si mesmo, enquanto afundava as mãos na montanha fria, puxando, vez por outra, a neve para longe das raízes como um cão à procura de um osso enterrado.

"Ele disse que estaria perto da árvore?"

"Se disse eu não sei. Legolas em seus devaneios parece falar uma língua que só ele entende. Foi um milagre conseguir decifrar alguma coisa no meio de tanta insensatez."

Elladan baixou os olhos com tristeza e Elrohir largou momentaneamente o que fazia soltando um suspiro que parecia refletir a mesma sensação.

"Sinto tanto por ele que às vezes me dá vontade de explodir o mundo..." O gêmeo mais novo admitiu, antes de sacudir os ombros e voltar à tarefa que tomara para si.

Elladan assentiu em silêncio, depois soltou um igual suspiro, com uma igual intenção por trás dele.

"Espero que um dia ele deixe de sofrer assim... Não é justo." Comentou o gêmeo, observando atentamente os arredores. "O cenário não é bem este que você me contou... será que estamos no lugar certo?"

Elrohir parou novamente sua investida, olhando a sua volta, ainda agachado no chão.

"Sei lá... Ele falou em crianças... depois em borboletas... borboletas em um cenário verde... Aqui não há verde, pois é inverno... e não há borboleta alguma pelo mesmo motivo. Eu falo que é um pesadelo decifrar essas metáforas dele..."

Elladan tombou levemente a cabeça, enquanto Elrohir, sem esperar resposta, voltou a fazer o que vinha fazendo.

"Tem razão... é uma metáfora." Ele disse por fim, depois de uma checagem completa pelo que agora era o campo de batalha dos dois. "Borboletas são as crianças e o verde... o verde é a esperança... Você disse que é o que ele falou que devemos defender, não é? Defender as crianças sem que elas temam o verde... Defendê-las sem que saiam daqui traumatizadas..." Concluiu o gêmeo e sua voz ganhara tanta seriedade que o irmão diminuiu o ritmo de sua investida.

"Faz sentido... Mas não há tantas crianças aqui... Pelo menos nisso tivemos sorte. Só espero estarmos no lugar certo."

"Sim e não..." Elladan respondeu então e a hesitação de sua voz fez com que o gêmeo se levantasse de imediato.

"O quê?" Ele indagou, mas logo percebeu que os olhos do irmão estavam fixos em um outro ponto do parque. Voltando-se devagar, percebeu o que despertara aquele temor. Três grupos de professores e crianças cruzavam agora os portões. Pequenos de todos os tamanhos corriam e já rolavam na neve que se acumulava. Alguns tomavam a frente pinoteando e girando como peões arremessados. Outros gargalhavam e atiravam pequenas bolas de neve em seus companheiros.

"Merda..." Elrohir deixou a palavra chiar por entre os dentes. "Diga que eles não vêm para esse lado."

"E onde ficam os brinquedos para os menores." Elladan respondeu preocupado, apontando para o parquinho que ficava a poucos passos da árvore e já oferecendo um sorriso forçado a um pequeno grupo que passara por eles e alcançara os balanços e escorregadores.

"O que mais pode acontecer?" Elrohir apertou os punhos. "Uma tempestade de neve?"

"Nesse momento não seria nada mal." Elladan afirmou, duvidando, no entanto que tivessem tamanha sorte. Uma professora passou por eles e lhe ofereceu um olhar insinuante. "E nem estamos de uniforme." Ele comentou distraído. "Como vamos convencer essa gente toda a sair daqui?"

"Se depender da olhada que aquela te deu acho que convencemos o grupo todo a ir aonde quisermos." O irmão zombou, mas seu tom preocupado não garantiu que a brincadeira efetivasse sua serventia.

"Quem dera..." Elladan respondeu sem sequer olhar para a direção que o gêmeo indicara.

Elrohir esvaziou o peito, voltando a observar o grande buraco que fizera no chão. Um pequenino aproximou-se e fez o mesmo, depois lhe sorriu.

"Estou procurando um osso que enterrei aqui." Ele brincou e o pequenino riu um riso tão perfeito que o coração do gêmeo doeu no peito. A criança depois correu para junto de um outro grupo que se divertia escorregando no piso molhado do chão de pedra. "Droga. Não vamos conseguir mantê-los longe daqui."

"Temos que pensar rápido." Elladan concordou, erguendo os olhos para todas as direções, enquanto Elrohir voltava a se agachar e mexer, agora sem muita ênfase, na neve que movera.

"Tem que estar aqui." Ele reclamou baixinho, rangendo os dentes de frio enquanto voltava a cavar para liberar mais espaço para seu campo de visão. "Será que dessa única vez o nosso elfinho dourado teve uma visão sem serventia?"

"Não teve... infelizmente..." Elladan respondeu em um tom tão transformado pela preocupação que colocou o irmão novamente em pé em segundos. Elrohir olhou-o por alguns instantes, depois acompanhou o trajeto que os olhos do irmão tomavam, para enfim ver o que roubara a paz de sua voz.

"Merda..."

&&&

"Como assim o esquadrão antibombas não vem?" Elrohir indagou inconformado no rádio de sua moto. "Tem um monte de gente aqui, sargento."

"Você já subiu na árvore e verificou tratar-se de uma bomba, Tinek?"

"Subir em uma árvore congelada e cutucar uma caixa que está presa a ela, sargento? A senhora deve estar brincado. Sabe o que acontece quando se aplica peso extra a um galho congelado? Eu preciso pelo menos da magirus pra isso."

"Não é hora para seus desrespeitos, oficial."

"Claro que não. É hora para a merda daquele esquadrão de elite, muito bem pago, vir mostrar serviço aqui."

"O esquadrão está atendendo a uma outra chamada, Tinek. Não ouviu da primeira vez que lhe informei. Temos alarmes falsos, como esse, todos os dias."

"Um oficial não dá alarmes falsos, sargento." Elrohir retrucou indignado.

"Não constatou a autenticidade do fato ainda, - oficial - . O que faz do acontecimento, por enquanto, nada mais do que mero rumor."

"Devo informá-la então da diferença entre um rumor e um alarme falso ou a senhora está com o dicionário aí à mão?"

"Não me irrite, Tinek. Não estou disposta a ouvir suas brincadeiras."

"Com todo o respeito, sargento. Para o que a senhora está disposta, então? Já que sua posição aí é a de atender a chamados e encaminhar viaturas para os locais?"

"Você não se cansa de levar advertências e punições, Einarr Tinek? Por todos os santos, até serviços voluntários pedem alguma disciplina! Eu não vou mais tolerar seus disparates. Vou fazer uma queixa formal ao tenente."

"Ótimo. Aproveite e peça, por gentileza, que ele encaminhe a droga de um esquadrão antibombas para cá."

"Ah, é claro. Vou pedir mesmo que um esquadrão todo se dirija ao parque central em pleno feriado para ver uma caixa que você julga ser uma bomba. O que você quer, que sejamos manchetes dos jornais de amanhã?"

"A senhora sabe bem o que eu quero. Mas agora sou eu quem lhe pergunta. O que a senhora quer? A senhora vai se responsabilizar? Agora mesmo chegou um grupo de quase cinqüenta crianças entre três e sete anos. Excursão de escola com professores e tudo mais. Estão todas em um parquinho que fica a dez metros ou menos da árvore em questão. Pense bem! Como vai ser? Vai mandar um bilhete de condolências às mães junto com uma coroa de flores se estiver errada e eu certo? O que vai escrever nele? Desculpe, achei que meu oficial desbocado tinha enlouquecido?"

Um silêncio ocupou o outro lado da linha e Elrohir apertou os olhos. Ele contaria até dez se acreditasse haver uma pequena possibilidade de voltar a se acalmar com isso.

"Fiquem por aí, oficial, mas não façam alarde." A voz da sargento ressurgiu mais compenetrada. "Nada de ficar retirando pessoas do parque e criando confusão antes do pessoal de apoio chegar. Entendido?"

"E quando eles vêm?"

"Quando esclarecerem a outra denúncia. Até então fiquem por perto do lugar e me mantenham informada. Não se arrisquem ou arrisquem quaisquer outros inutilmente. È só."

Umclick desfez a conexão e Elrohir conteve o desejo enorme de arrancar aquele rádio de sua moto de vez. Maldita burocracia, maldito protocolo, maldita estupidez. Ele subiu então na moto e entrou no parque com ela, apesar de todos os olhares que recebia.

O Parque Central era um ambiente fechado e a presença de qualquer veículo estritamente proibida. Elrohir ignorou os olhares e as proibições, ignorou também o ódio que sentia por estar onde estava e na situação na qual estava, apenas concentrou-se em deslizar da forma mais segura possível por aqueles atalhos escorregadios para poder deixar o rádio o mais próximo que pudesse daquela bendita árvore. Logo o olhar incrédulo de Elladan estava voltado para ele.

"Einarr! Enlouqueceu?" O gêmeo perguntou ao vê-lo descer da moto e voltar a fincar as botas na montanha de neve que se fazia mais e mais espessa.

"Eu? Claro. Só descobriu agora?" Bufou o irmão, em seguida olhou insatisfeito para um grupo de crianças que brincava bastante próximo da árvore. Depois torceu os lábios, voltando a olhar para o problema acima.

Elladan envergou as sobrancelhas.

"Conversou com a sargento?" Ele indagou, enquanto ambos caminhavam para perto da árvore.

"Conversar? E desde quando alguém consegue conversar com aquele orc de uniforme?" Elrohir respondeu indignado, apoiando ambas as mãos no tronco frio e olhando para o galho acima.

Elladan segurou imediatamente o ombro do irmão.

"Como assim? O que está pensando em fazer?"

"Subir nessa merda e jogar a caixa aqui para baixo. O que você acha?" Elrohir rosnou, apertando com força as mãos que seguravam o tronco. Depois soltou o ar do peito e apoiou a testa por sobre uma delas.

"Eles não vem, não é?" Elladan supôs a resposta e o estalar de insatisfação do gêmeo foi uma confirmação que não conformou o irmão. "Como assim? Não acreditaram em você?"

"Estão atendendo a outro chamado."

"Por tudo o que é sagrado! Esse lugar está cheio de gente!" Elladan explodiu, enervando-se como poucas vezes lhe acontecia.

"Nem pense em tirá-los daqui. A central disse que não podemos criar alarde, causar pânico ou coisas do gênero. Escrevam então em nossas lápides isso depois. Aqueles que não criaram confusão."

A brincadeira nem sequer despertou um leve sorriso no irmão, mesmo porque essa não parecia ser a intenção de Elrohir. O gêmeo agora encostava inconformado a testa naquele tronco frio, buscando que a temperatura lhe trouxesse outras sensações que não aquelas que estava vivendo.

"Eu vou matar aquela sargento... Eu vou... depois que tudo isso acabar eu vou acabar com ela..."

Mas foram precisos alguns instantes até que Elrohir sentisse a ausência de resposta do irmão. Ele reergueu a cabeça então e percebeu que Elladan se afastara dois passos e olhava em uma direção específica atentamente. O gêmeo acompanhou-o devagar e percebeu o que chamara a atenção. Um grupo de seis homens em pesados trajes de frio aproximava-se devagar.

"E essa agora." Elrohir levou a mão às costas, em busca da arma que carregava, mas Elladan segurou-lhe o braço.

"Não, Einarr. É ele."

"Ele quem?" Elrohir concentrou-se então, forçando os olhos contra a luz para, enfim, perceber quem o irmão reconhecera. Naquele instante, inacreditavelmente, o frio, que já era intenso, pareceu tornar-se insuportável. Elrohir deu um passo para trás e seu peito começou a arfar sem que ele pudesse conter.

O grupo continuou percorrendo o pequeno trajeto até que estavam bastante próximos. No entanto apenas seu líder prosseguiu no restante do caminho, afundando as pesadas botas na neve. A luz cobria-lhe as costas, roubando-lhe as formas do rosto aos olhos dos gêmeos, mas nem Elladan, nem Elrohir, precisavam de luz alguma para saber de quem se tratava. Estivessem ali, ou na mais sombria das trevas, eles nunca deixariam de reconhecer seu antigo mentor.