51.

Finalmente, a negociação

O momento em que o caldo começa a engrossar

Era bem cedo, na manhã seguinte, e Anna estava em pé após a noite mal-dormida, quando um alvoroço tomou conta da Montanha Solitária. Uma companhia de elfos lanceiros atravessava o rio e subia o vale, ostentando a bandeira verde élfica de Thranduil Oropherion e a bandeira azul da Cidade do Lago. Postaram-se diante da muralha do Portão Dianteiro e pediram para parlamentar.

Thorin, Balin e Dwalin se armaram e colocaram cotas de malha, antes de se dirigir ao grupo. Anna os acompanhou, mas Thorin indagou a ela:

— O que pensa que está fazendo?

— Vou com vocês e não quero ouvir discussão. Vejo Mestre Bard no grupo e pretendo falar com ele.

— Anna... — começou Thorin, mas ela o interrompeu:

— Faz parte dos deveres da consorte.

Balin retrucou:

— Mas ainda não houve casamento.

Anna deu de ombros, acariciando a barriga plana:

— Pode até ser, mas não há como negar que já foi consumado.

Ninguém esperava essa resposta, e todos ficaram embasbacados — até Bilbo a encarou, surpreso. Thorin rompeu o silêncio com uma sonora risada:

— Minha pequena de língua afiada! Certamente teremos uma vantagem na negociação.

O grupo chegou até o Portão Dianteiro, formando um escudo humano na frente de Anna. Thorin foi o primeiro a falar — e suas palavras não convidavam ao diálogo:

— Mestre Bard! Pensei que tivesse mais juízo do que aparecer com homens armados para a guerra nos portões de Thorin, filho de Thráin, rei sob a Montanha!

O guerreiro alto e sombrio tomou a frente e respondeu:

— Salve, Thorin! Vejo que decidiu se refugiar atrás de muralhas. Não somos inimigos e estamos alegres que estejam vivos. Não tínhamos certeza se tinham sobrevivido. Agora viemos parlamentar sobre assuntos de mútuo interesse.

Thorin ergueu uma sobrancelha:

— Que assuntos de mútuo interesse poderiam ser esses sobre os quais pretende parlamentar?

Bard respondeu:

— Foi minha flecha que atingiu o velho Smaug e liberou o seu tesouro. Esse é um assunto de seu interesse. Mas entre as riquezas roubadas por Smaug está também muito ouro de Valle, dos meus antepassados. E esse é meu interesse. Mutuamente podemos evitar a guerra falando de compensações pela destruição causada pelo ataque de Smaug provocado por vocês e pela ajuda dada quando vocês necessitaram.

Thorin fechou ainda mais a cara:

— A assistência dos homens do lago, inclusive em bens, será recompensada em seu devido tempo. Mas não falaremos disso com seus exércitos a nos pressionar. Não negociaremos à força de armas, nem vamos responder pelos atos de um dragão.

Bard cerrou os dentes:

— Eu avisei, Thorin, que se provocasse a fera você iria nos destruir a todos. Sei que não era sua intenção e agradecemos o aviso prévio do ataque e o pedido de ajuda para o rei Thranduil.

Thorin pareceu confuso:

— Ajuda a Thrand-?

Anna se adiantou:

— Eu avisei o povo da cidade antes de Smaug atacar, para que se preparassem, e também emiti o recado para o rei élfico ajudar o povo, já que os anões não poderiam fazer isso. — Thorin continuou encarando Anna, que reforçou: — Eu disse a Bard que você não se recusaria a ajudar, devido à longa tradição de cooperação entre os seus antepassados e os dele. Foi por isso também que mandei o seu recado ao rei élfico.

Anna esperava ardentemente que Thorin não desfizesse seus esforços de diplomacia. Em circunstâncias normais, ela esperava que Thorin a apoiaria. Mas as circunstâncias não eram normais e ela sabia disso.

Bard inclinou-se, numa reverência respeitosa:

— Por arriscar sua própria prometida em nosso auxílio, Thorin Oakenshield, nós somos gratos. Por levar isso em consideração, estamos parlamentando, ainda como amigos.

Thorin respondeu com rispidez:

— Pois nós os consideramos como inimigos e ladrões, visto que se postam armados à nossa soleira, com intenções declaradas de se apoderar de nosso tesouro. Repito que o povo da cidade receberá seu preço por sua ajuda quando nós precisamos. Mas o rei élfico, de quem me lembro com muito pouca simpatia, não tem qualquer direito a qualquer parte do ouro dos anões. Que ele tenha trazido soldados até a montanha é ainda mais insultuoso. Portanto, se ainda quiserem parlamentar, devem primeiro despachar os elfos e depois deixar as armas longe da mesa de negociação.

O coração de Anna pareceu levar uma flechada diante dessas palavras. Bard olhou para ela, viu sua angústia e respondeu a Thorin:

— Nós daremos a você tempo para repensar suas palavras. Consulte seus nobres auxiliares — Bard encarou Anna — e use a sabedoria das pessoas que lhe são caras, para lhe dar bom conselho.

Então partiram e Anna viu a angústia crescer em seu coração. Virando-se, viu Bilbo a encarando, com uma expressão indefinível no ar. Mas antes que ela pudesse se dirigir ao hobbit, seu braço foi agarrado com força e ela ouviu Thorin rosnar:

— Acho que precisamos conversar.

Thorin praticamente a arrastou de volta à montanha, antes de a sentar brutamente à mesa e perguntar:

— O que foi aquilo que Bard falou? Você pediu ajuda de Thranduil em meu nome?! E quando foi isso?

Tremendo, ela se justificou:

— Thorin, deixe-me explicar. É uma história longa, nem eu consigo explicar tudo.

Ele rosnou:

— Pode começar a tentar. Agora.

Todos os anões e Bilbo a encaravam, entre curiosos, decepcionados e traídos. Anna queria sumir, mas respondeu, tremendo:

— Enquanto Smaug destruía a montanha, eu obtive ajuda de fora para ir até a Cidade do Lago e tentar alertá-los do ataque.

— Como? Ajuda de quem?

— Lembra-se do segundo dragão? Aquele que estava lutando com Smaug?

Thorin estava ficando impaciente:

— Sim, o que tem ele a ver com isso tudo?

Anna fechou os olhos, tremendo, choramingando:

— O nome dela era Safira e ela falava comigo na minha cabeça.

Fez-se silêncio completo. Bofur comentou, baixinho:

— Pela minha barba...!

Óin indagou:

— O que ela disse?

Enquanto Glóin lhe explicava, Dwalin quis saber:

— Como isso é possível?

— Isso não sei explicar — disse Anna. — Ao contrário de Smaug, Safira era um dragão de água e vivia em paz no lago. Por ser pequena, há muito tempo fugira dos outros dragões no mar. De lá do lago, Safira sentiu minha tristeza e meu medo, e tentou me animar por causa do meu bebê.

— Por quê? E o que ela queria com o bebê?

— Safira gostava de crianças, por isso ficava perto da cidade. Ela me disse que eu estava grávida.

— Por que essa fera a ajudou?

— Smaug certamente iria destruir a cidade e ela queria evitar a morte de crianças. Pediu minha ajuda, pediu que eu tirasse as crianças e disse que iria atrair Smaug para longe da cidade.

Anna sentiu as lágrimas caindo e tremia toda antes de continuar.

— Se Smaug atacasse a cidade, eu sabia que os homens nos culpariam, então falei a Bard em seu nome para tentar aplacar a ira deles, e de Thranduil também. Minha ideia era que, se conseguíssemos derrotar Smaug, teríamos que lidar com nossos vizinhos e era preciso demonstrar boa vontade nesse episódio.

Balin admitiu:

— Bom, eles vieram parlamentar primeiro. Talvez tenha sido por obra sua, pequena.

Thorin já não parecia tão bravo ao indagar:

— Então você e esse dragão combinaram de matar Smaug?

— Safira disse que Bard era um arqueiro famoso, tão bom quanto os melhores de Thranduil. Então falei que Kíli também era muito bom no arco, talvez melhor, e ela garantiu que poderia atrair Smaug para que Kíli pudesse atingi-lo. Mas... eu acho que Smaug terminou matando Safira. Ela não falou mais comigo desde aquele dia.

Bofur notou:

— Você se afeiçoou à fera?

Anna respondeu:

— É difícil explicar. Ela nos salvou e nos deu a montanha de volta.

Dori quis saber:

— Por que não nos disse nada sobre isso?

— Fiquei com medo que me entendessem mal — explicou Anna. — E vocês podiam querer machucá-la também, talvez matá-la. Vocês odiavam muito Smaug e os homens também odiavam o dragão; Safira temia por sua vida.

Os anões se olhavam, sem saber o que dizer. Fíli observou:

— Tem um bom coração, minha tia. Se é capaz de ter sentimentos até por um dragão...

Anna disse:

— Lamento se causei problemas. Garanto que não foi minha intenção. Desculpe se eu o desagradei, Thorin. Só fiz o que julguei certo.

Thorin a encarou, e Anna notou que ele parecia menos irritado.

— Você tem razão, minha pequena: é complicado.

— Thorin — ela arriscou —, por favor, ouça o que Bard diz. Não é uma demanda injusta. E os orcs estão a caminho...

O semblante de Thorin voltou a ficar sombrio:

— Questiona a minha decisão?

Discutir não seria sábio, então Anna sugeriu:

— Só peço que abra seu coração. Não é tarde demais para pensar com calma.

Desta vez, Thorin abriu um sorriso e beijou a mão dela, dizendo:

— Não deve se preocupar com isso, minha joia.

Cada vez que Thorin dizia isso, Anna parecia perder um pouco mais das esperanças. Ela apenas o encarou com olhos tristes e deixou-se ser abraçada pelo homem que amava.

Ao fim daquele dia, uma corneta soou, chamando para parlamentação. Desta vez, Thorin não deixou Anna ir com eles. Ori fez o papel de guarda, com ajuda de Dori e Nori.

Não demorou muito: em menos de 15 minutos, a montanha tinha sido declarada sitiada.

Após uns poucos dias de sítio, Anna percebeu que a situação não tendia a melhorar. Os dias se passavam, inexoráveis, e a ansiedade de Anna só aumentava. Nos primeiros dias, Thorin tentou tranquilizá-la, assegurando que ele nada deixaria faltar a ela e ao bebê deles. Mas Anna sabia que na prática era uma promessa difícil de cumprir.

Uma única vez Anna tentou apontar a Thorin que a situação não tendia a melhorar, e que negociar talvez fosse prudente. Ele foi tão ríspido com Anna que Glóin o repreendeu. Ela percebeu que insistir com Thorin só levaria a um conflito aberto.

Se pensasse menos com o coração, Anna teria visto que era uma luta inglória. Os anões viviam no tesouro, fazendo inventário, contando moedas. Thorin procurava a Arkenstone e pedia aos companheiros a buscassem por todos os cantos e frestas.

— Pois a Arkenstone de meu pai — dizia ele — vale mais que um rio de ouro e, para mim, não tem preço. De todo o tesouro, aquela pedra me pertence, e punirei severamente qualquer um que a encontre e a retenha consigo.

Ao ouvir aquilo, Anna procurou discretamente olhar para Bilbo. O pobre hobbit estava tão apavorado que tinha perdido toda a cor do rosto. A hora de agir não tardava, sentia a moça, com o coração cada vez mais apertado.

Mais dias se passaram, e a ansiedade de Anna crescia. Thorin se mantinha em intensa comunicação com o primo Dáin pelos corvos. Para Anna, foi um alívio que justamente o corvo Roäc tenha dito a Thorin o que ninguém mais se atrevera a dizer. Primeiro, porém, Roäc dissera que Dáin e mais de 500 anões das Colinas de Ferro estavam agora a cerca de dois dias de marcha. Thorin ficou satisfeito ao ouvir aquilo.

— Mas, por estarem vindo do nordeste, passando por Valle, não podem chegar à montanha sem serem vistos — observou Roäc, sombrio. — A batalha será inevitável.

Anna indagou:

— Isso o preocupa, amigo Roäc?

O corvo sacudiu a cabeça, confessando:

— Não acho boa essa ideia. Embora vocês sejam um povo valente, não é provável que vençam o exército que os sitia, e, mesmo que conseguissem, o que ganhariam? O inverno e a neve vêm em seu encalço. Como poderão se alimentar sem a boa vontade e a amizade das terras ao redor? O tesouro provavelmente será a sua morte, embora o dragão não mais exista!

Mas Thorin não se abalou.

— O inverno e a neve castigarão tanto os homens quanto os elfos — disse ele —, e eles podem achar sua moradia aqui no vale difícil de suportar. Com meus companheiros atrás e o inverno em cima deles, talvez fiquem mais maleáveis.

Naquela noite Bilbo tomou uma decisão. Anna estava deitada sem dormir (sono era praticamente impossível) e viu a porta do seu quarto se abrir aparentemente sozinha. Sentou-se na cama e viu Bilbo aparecer em pleno ar, tirando o anel. Ela saltou da cama, suspirando:

— Finalmente...!

O hobbit franziu o cenho.

— Sabia que eu viria?

Anna sorriu:

— Meu caro tio Bilbo, você sempre foi minha maior esperança. Agora me diga: qual é o plano?

— Plano? Eu pensei que você tivesse o plano.

— Bilbo, o que pretende fazer?

— Entregar a Arkenstone a Bard e prometer parte de nossa cota do tesouro.

— Mas Bilbo, isso só faria Thorin sair em guerra contra todos! Não seria melhor entregarmos a pedra para que Bard possa usá-la como garantia de negociação com Thorin?

Bilbo indagou:

— Acha que Thorin vai negociar?

— Não ouviu o que ele disse? Nada para ele é mais importante do que essa pedra: nem o filho, nem eu, nem nossas vidas. Thorin está doente, Bilbo, não ouve ninguém.

Bilbo estava sombrio:

— Acho que tem razão. Bem, lá vou eu.

Anna disse:

— Espere! Eu disse que queria ir com você.

— Anna, o anel só deixa uma pessoa invisível. Não vai esconder você.

— Mas as coisas dentro de seu bolso, por exemplo, ficam invisíveis, não? A Arkenstone ficará à vista?

— Não, claro que não.

— E você não pode levar um camundongo junto da Arkenstone?

Bilbo arregalou os olhos:

— Você...

Ela não o deixou falar:

— Coloque o camundongo perto da pedra. Quando a desembrulhar na frente de Bard, faça isso no chão, com cuidado. O camundongo poderá correr para algum cantinho.

— E se alguém vir o camundongo?

— Diga que é seu bichinho de estimação. Agora vire-se antes de apanhar o camundongo no chão.

Com tudo providenciado, Bilbo foi então à vigia, munido de uma corda, com um camundongo e o Coração da Montanha no bolso. Anna não viu nada do céu negro sem lua. Ela só podia ouvir e sentir.

Então ouviu Bilbo negociando com Bombur para fazer vigia por ele. Depois, sentiu que o hobbit usava a corda para descer a muralha. O pior foi o tempo considerável que Bilbo precisou para chegar ao acampamento. Lembrando-se do livro, Anna temia a parte em que Bilbo decidia cortar caminho pelo rio e caía na água. Eram grandes as chances do camundongo se afogar se ele fizesse isso.

Felizmente, desta vez, Bilbo conseguiu pegar um caminho diferente. Pelo rio, o hobbit invisível foi até uma curva para atravessar a água e ir até o acampamento. Havia um trecho em que o rio era raso e largo, e Bilbo conseguiu seu intento de atravessar pelas pedras. Não foi fácil, pois estava a pé e era muito escuro sem lua.

Mal chegou à outra margem e viu uma meia dúzia de elfos se aproximando. Bilbo achou que era um bom momento para se aproximar.

— Boa noite, meus bons elfos!

Mal tinha pronunciado essas palavras, foi cercado, flechas em riste apontadas contra ele.

— Quem é você? Fale!

— Meu nome é Bilbo Baggins — disse o hobbit — , e estou aqui para falar com Mestre Bard.

Mas as perguntas dos elfos não paravam:

— Você é aquele hobbit dos anões? O que quer aqui?

— Como conseguiu passar por nossos vigias?

— Você é um espião para os anões?

Bilbo devia estar de mãos para cima e respondeu:

— Vim falar com Mestre Bard, como já disse. Meu assunto é com ele, e só com ele, e gostaria de falar agora mesmo, se me permitem, porque está frio e não tenho muito tempo.

Anna sentiu a desconfiança dos elfos, mas também notou a capacidade de Bilbo em negociar quando preciso. Em pouco tempo, ele foi levado à tenda onde estava Bard.

Realmente, pensou Anna, animada pela primeira vez, ela estava em boas mãos.