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Sexta-feira, Heero não chegou a tempo de jantar. O trabalho acumulado desde a outra semana não o permitiu. Era melhor assim, para não ter de pensar no que tinha deixado para trás. A hora que gastara no Paterno também fora decisiva no atraso de suas tarefas no escritório. Pelo menos, tinha dado conta de acertar tudo até a meia-noite e iniciaria a próxima semana de tábula rasa.

Nunca tinha chegado tão tarde por causa do trabalho antes.

Yacob não olhou com suspeita, mas esperou o mestre acordado, para se garantir, e serviu-lhe algo leve para comer antes de ir para seu quarto.

Fome, Heero não tinha. Lanchara uma pizza inteira enquanto trabalhava. Aceitou, porém, uma fatia de pão caseiro e um copo de leite gelado, só para não ter de ficar refém de seus pensamentos de novo.

Enquanto a mente estava ocupada, não houvera problemas em ficar só. Então, em casa, sem nada para distrair-lhe, subiria a superfície apreensiva o lembrete amolador de sua consciência de que estava em falta com sua missão, e tinha agido irresponsavelmente.

Dava-se conta de que nem sempre executar era tão fácil quanto decidir.

Nem sempre o que parecia infalível em teoria se dava assim na prática.

Nunca se pode prever todos os efeitos colaterais, principalmente quando é o impulso que comanda a ação.

Passou o sábado praticamente só.

Como enfim faltava uma semana para a última festa de Akane, ela ficou envolvida em correrias de preparativos e em pseudo reuniões com as amigas, que pelos seus posts no Twitter não pareciam muito eficientes em decidir ou aprontar qualquer coisa.

Athina preferia não incomodar o filho, permitindo-o sua privacidade com as meditações que ela imaginava ele necessitar fazer. Estava ocupada também, de qualquer forma, com algumas questões domésticas – supervisionava uma organização de seu closet, preparando-se já para as estações frias.

Dante estava no escritório, como sempre, trabalhando, lendo, fazendo telefonemas, ninguém sabia ao certo porque ele se isolava tanto lá. Akane já o tinha flagrado cochilando e Athina às vezes o via observando o jardim pela janela, feito ele fosse proibido de sair da sala, e certamente eram esses momentos propícios para ideias.

Na enorme mansão, seus quatro habitantes podiam passar dias sem se ver, se assim desejassem. Heero analisava sua casa e caía em si de que sentia falta do aconchego do apartamento no Paterno, pequeno, mas confortável, tão bem localizado na cidade, e da rotina natural que podia levar lá.

Ou talvez só se sentisse assim porque estava perturbado.

Foi para a biblioteca passar um tempo ocioso depois do almoço, olhando um tabuleiro de xadrez cujo jogo estava interrompido. Estudando a posição das peças, tentou se distrair criando estratégias e movimentos.

Ora se achava em posição semelhante de um peão frente ao destino, ora via-se determinado em sua direção feito uma torre, ora astuto em suas estratégias como um cavalo, ora orgulhoso pelo seu controle feito uma rainha. E no fim de suas tolas comparações, deixava os olhos cair no rei e sentia-se ameaçado de todos os lados por suas próprias conclusões.

Tinha de conversar com Relena sobre os documentos.

Ao mesmo tempo, daria tudo o que tinha para evitar isso. Não via qual bem sairia desse último encontro.

Mas, e se nunca mais a visse, se arrependeria?

Quanto mais tempo a evitasse, mais difícil seria procurá-la.

E o orgulho? Quanto dele atrapalhava sua visão da questão?

Forçou lembrar-se da sua última memória que guardara do rosto de Relena.

Ia permitir-se essas fraquezas românticas?

Bufou, estalou os lábios e foi para frente das estantes, relancear lombadas com descuido.

Não conseguia se lembrar.

Deixou o olhar perder o foco, levando de repente toda sua atenção em concentrar-se, mas não lhe vinha a última imagem do rosto de Relena.

Ele cobriu os olhos, andou de um lado para o outro. Bagunçou o cabelo e grunhiu.

O que estava fazendo?

Seu coração se acelerou, mas ele fingiu que não era nada. Não ia se abalar. Não era mesmo melhor assim, esquecer-se de pronto? Não sofreria, não sofreria mais…

Estava sofrendo.

Saiu da biblioteca e andou a esmo pela casa, passeou pelos jardins, pela piscina, foi até a garagem. Na visão dos empregados, ele parecia perdido em sua própria casa. Bem podia ser assim.

Ao retornar para o interior da casa, relanceou o armário de bebidas. Subiu-lhe um calafrio, ele parou um instante para olhar as garrafas lá dentro, à distância. Entretanto, bastava de covardias. Subiu para o quarto e deitou na cama na esperança de cochilar e desligar-se daquela ansiedade.

Quando acordou, já estava na hora de jantar.

Sentia-se péssimo, talvez dormir tivesse sido o proceder errado. Foi para o banheiro arrumar o cabelo, lavar o rosto e a boca e tentar tirar as marcas de travesseiro. Até parecia que estava de ressaca. Se tivesse mais tempo, teria tomado uma ducha, mas o mordomo já estava batendo na porta, avisando-o que era esperado.

Encheu o peito de ar.

Tanto Dante quanto Athina lançaram fitos inquisidores ao vê-lo chegar. Heero desviou os olhos e estalou os lábios, sentando-se sem intenção de conversar. Ouviu o pai perguntar da senhorita Yuy, como sempre fazia, Heero não sabia por que ele se dava ao trabalho.

Athina comentou uma ou duas vezes qualquer coisa, tentando chamar a atenção do filho e colocá-lo para falar, porém teve pouco sucesso. Ele só murmurou monossílabos ou assentiu.

Antes de deixar a mesa, a mãe suspirou e sorriu com carinho para o rapaz e deu-lhe um beijo nos cabelos, desejando boa-noite.

Ele foi o único que restou, terminando a sobremesa. Ficou tanto tempo a mesa que a copeira não sabia se podia ir terminar de arrumar a sala de jantar. Até que deu nove e meia, e procurou Yacob que a autorizou ir buscar qualquer que fosse a louça que ficara lá.

Heero estava com uma feição aborrecidíssima, apoiando a cabeça na mão e o cotovelo na mesa, protegendo sua taça de sorvete vazia, o olhar ausente.

_Mestre Yuy, com licença… –Lessa aproximou-se por último, pedindo com dócil timidez.

Heero sobressaltou-se, confuso, e depois bufou.

_É claro.

_Desculpe-me. –ele ouviu a copeira pedir, mas não fez caso.

Só restava um recurso para ele então: adiantar trabalho.

_Toc toc. –parecia que fazia quinze minutos que Heero tinha se sentado em seu quarto escuro, diante do laptop e analisado documentos. Não era o caso. Akane estava em sua porta, risonha, os sapatos na mão, o cabelo bagunçado depois de ter dançado horas. Heero olhou o reloginho do computador: três da manhã.

_Chegou cedo. –ele resmungou.

_Ai, seu mau-humor também. –e riu baixinho e traquina. Foi entrando, deixou os sapatos em algum lugar perto do criado-mudo e sentou-se na beira da cama dele. –Está trabalhando? Sério?

Ele deu de ombros.

Ela suspirou. Apoiou-se no colchão com as duas mãos, soltou as costas e balançou os pés, olhando o teto.

_Heero…?

_Hm?

_Você se importa se eu continuar conversando com Relena?

Ele parou de ler e falou:

_Você realmente quer saber?

_Quero.

_Você me obedeceria se eu dissesse que me importaria?

Ane mordeu o lábio inferior, decidindo.

_Não, eu só me certificaria de não te deixar saber que eu e ela continuávamos bem. –e apresentou. Não tinha como Heero saber se ela falava a verdade ou só importunava.

_Que bobagem. –ele reclamou com um grunhido ríspido. –O que te interessa isso?

_Não quero te magoar.

Absurdo, ele pensou. Suspirou. Virou um pouco a cadeira e mostrou seu perfil contornado pela luz da tela do computador para a irmã. Baixou um pouco a cabeça e juntou as mãos:

_Não vai me magoar. –ele mentiu, a voz fria, mas audível.

Porém com Ane não funcionava fácil:

_Oras, Heero, se não vai ser sincero comigo, seja sincero com você mesmo. –e rebateu com ternura sempre franca.

Engolindo seco, Heero negou com a cabeça, procurando reassumir toda sua frialdade antiga. Não restava muita.

_Cada um faz o que quiser. –relembrou, meio que falando ao vento.

Ane sorriu triste:

_Sempre foi assim. –e se reteve a completar, em um lamento.

_É… –mas então Heero não tinha tanta certeza de que todos tinham esse poder que ali ele tomava por garantido. Sentiu-se muito desconfortável de repente.

Ele voltou-se para os documentos, porém sem interesse então. Olhou as linhas com descaso, deu comando para salvar alterações, desligou a máquina. O quarto mergulhou por instantes em uma escuridão profunda.

_Vai em frente, Ane. –a voz de Heero viajou o espaço, confessional.

_Hã? O quê? –a escuridão ia de pouco a pouco virando penumbra, a claridade da noite vindo do corredor. –Eu não tenho nada para falar.

_Não? –ele estranhou, um riso irônico retinindo na sua pergunta.

_Só que…

_Ah!

Ela permitiu-se riu, cedendo a vitória para ele dessa vez:

_Não precisa ser assim para sempre. –e declarou.

_Teimosa. –ele a provocou, sem muita entonação.

_Você. –ela rebateu, instintivamente, meio brincalhona.

Ele bufou.

Ela bocejou. Rastejou-se pela cama do irmão, apanhou um dos travesseiros e afofou.

Heero saiu da cadeira e foi até a janela. Puxou um pouco a cortina e olhou o vazio noturno. Tudo parecia muito distante.

_Bem, você conhece o ditado… –e ouviu a irmã resmungar.

_Qual? –sem mudar de posição, indagou mecanicamente.

_Amanhã é outro dia.

Heero soltou a cortina e sentou-se no lado livre que Ane deixou na cama. Ficou naquela posição bastante tempo, respirando fundo.

_Por hoje, chega… –cedendo por fim ao consolo mundano da irmã, deitou-se e adormeceu depressa.

Cinco horas depois, Yacob encontrou os dois irmãos dormindo dividindo a cama, do mesmo jeito que faziam quando bem pequenos. Talvez eles fossem incapazes de recordarem-se, tão jovenzinhos que eram, porém Yacob tudo guardava com uma sensibilidade que aparentemente não combinava com ele. Observou suas crianças um instante e bateu de leve na porta.

Ane se remexeu no lugar, apertando o travesseiro que abraçara, e Heero abriu os olhos e molhou os lábios, erguendo-se preguiçoso.

_Yacob… –reclamou, rouco e baixo. Tinha ressecado a garganta dormindo de boca aberta.

_O café está servido. –o mordomo anunciou, neutro.

Heero grunhiu e olhou em redor, encontrando as costas da irmã em sua frente. Suspirou, deitando-se, e voltou a dormir.

Nem o mestre, nem a menina Yuy desceram para o café aquele domingo.

Perto das onze, Heero se levantou. Não se sentia cansado, mas também não estava disposto. Ane continuava dormindo, o rapaz meneou a cabeça e foi para o banheiro.

Saiu do quarto e foi até a cozinha procurar um gole de café, dando susto aos empregados que lá estavam. Todos se calaram e o olharam com expectativa. Lessa até segurou a respiração. Os preparativos para o almoço estavam no auge e as mulheres, entretidas com o trabalho e a conversa, se viram de repente perdidas sobre como agir.

_Bom-dia. –Heero cumprimentou roucamente, sentindo-se estranho. Não era assim que Manon se comportava quando o via. O que tinha dado em todo mundo?

_Bom-dia, mestre. –a cozinheira respondeu como suas únicas palavras e seguiu em suspense, a feição corada, as sobrancelhas tensas.

Ele estalou os lábios:

_Ainda tem café?

_Pois não, mestre, Lessa irá levá-lo para o senhor na biblioteca.

_Não é necessário, eu posso me servir. –ele apresentou.

Uma das faxineiras, que estava sentada na mesa que servia aos empregados, deixou o queixo cair um pouco. O olhar de Heero parou nela depois de percorrer a ampla cozinha em busca de uma garrafa térmica.

_Aqui, mestre. –Lessa apareceu com uma xícara sem pires e a garrafa, pousando-as sobre a mesa. –Açúcar?

Heero negou com a cabeça. Com agilidade, ele se serviu e bebeu. Lessa trocou olhares com as outras mulheres na cozinha e aguardou ele terminar ao seu lado, em silêncio.

_Muito obrigado. –disse assim e decidiu sair logo dali, usando a porta de serviço.

Foi dar um volta pelos jardins, enfiou as mãos no bolso e chutou uma pedrinha, franzindo um pouco a vista por causa da luz intensa do Sol. A atitude dos empregados o deixou intrigado. Ficou percorrendo suas memórias a fim de averiguar se alguma vez os tinha tratado mal.

Entrou em casa pela passagem que vinha da piscina e encontrou o juiz na sala de televisão assistindo ao canal do tempo.

Heero estacou e encarou o pai com dureza, esperando-o falar algo. O juiz o relanceou com um olhar ainda mais duro e tomou fôlego:

_Pensei que também iria perder o almoço.

Heero permaneceu mudo, embora muito atento. Ouviu até a própria respiração.

Dante relaxou seu fito e disse mais:

_Precisamos conversar.

Heero entendeu o que o pai intencionava com sua declaração e procurou a poltrona para se sentar. Não relaxou na postura e só com seu rosto demonstrou que o juiz podia seguir.

_Nós iremos fazer uma viagem para a Flórida amanhã. Surgiram negócios a serem resolvidos.

_O quê?

_Pensei ter sido bastante claro. –desagradado, Dante rebateu.

Heero franziu o rosto. Respirou fundo e tentou se controlar, iniciante na prática dessa habilidade:

_Não para mim. –reclamou.

Dante suspirou, agastado, mas condescendeu a dar mais algumas informações:

_Nosso voo sai às sete horas. Penso em ficar dois ou três dias, mais tempo será desnecessário e excessivo.

Heero sacudiu a cabeça, inconformado.

_Eu podia ter sido consultado com antecedência.

_Não havia necessidade. Verifiquei sua agenda com sua secretária e já ordenei as alterações e remarcações cabíveis.

_É só isso que importa, não é? –Heero ficava furioso com a atitude do pai. Ele não sabia por onde começar para explicar sua irritação. –Eu não quero sair da cidade.

_Por quê?

_Preciso… resolver assuntos com Relena.

_Três dias não farão diferença ao cenário atual.

Heero meneou a cabeça novamente. Era tudo muito incompreensível.

_Posso pelo menos saber qual é o assunto tão urgente que precisa de nós dois? –e cansado de discutir inutilmente com o pai, pediu.

_Conversaremos a respeito disso depois. –Dante avisou. –Preocupe-se em arrumar suas malas. –Dante recomendou, e seu tom de voz dava o assunto por encerrado.

Heero perguntou-se porque tinha de ser tratado assim. Olhou o pai querendo tanto poder abordar essa questão. Convenceu-se ao mesmo tempo que seria mais tempo perdido.

Dante mudou o canal e deu atenção indivisa ao programa que passava. Heero olhou a tela até juntar forças para subir.

Tinha gastado uma hora com tudo isso e de volta ao andar do quarto, encontrou Ane na saleta.

Ela não tinha trocado de roupas ainda ou tirado a maquilagem borrada e prendera o cabelo num nó frouxo. Estava absorta, mexendo em seu celular. Sentindo a presença do irmão, lhe ergueu a vista e suspirou:

_Bom-dia.

Ele assentiu.

_Desculpa, mas eu manchei seu travesseiro de rímel… –e sorriu, sem graça.

Heero revirou os olhos:

_Esse é um problema de Viane. –ele apresentou, aborrecidamente, dando pouca importância ao acidente.

Como ele seguiu andando, Ane se levantou e foi com ele.

_E eu babei também… –ela prosseguiu, travessa, obrigando-o a olhar para ela.

_Eu devia ter te matado quando pude. –Heero reclamou, perplexo com o que ouvia.

_Mas não matou. Bom para mim! –provocou, marota.

_Só para você… –e finalmente sua voz soou um pouco divertida.

Era o suficiente.

Ane amava quando ele brincava.

Ele se recompôs da travessura da irmã e entraram juntos no seu quarto.

Ane o assistiu por um momento e percebeu que ele puxava sua mala que ficara debaixo da cama.

_Não me diga que mudou de ideia…? –e sussurrou, encantada. Seus olhos se encheram de luz e um sorriso puro começou a separar seus lábios.

_Hã? –ele a procurou sobre o ombro e ao notar a alegria e esperança dela, compreendeu ao que ela se referia.

_Oh, não, Ane… –rebateu, perturbado. –Não é nada disso. –completou, exasperado.

O brilho no olhar da menina se dispersou em um desapontamento humilde. Ficou calada, reconhecendo seu erro.

Heero desta vez não ficou furioso, só incomodado. Estava sem energias para condenar um inocente.

_O juiz quer que eu o acompanhe em uma viagem. –decidiu esclarecer, sem conter um tom nervoso sobre a situação.

_Sério? Para onde? –Ane não pareceu surpresa na verdade e aproximou-se mais do irmão que estava concentrado colocando a mala em cima da cama desarrumada.

_Flórida.

_Papai vai sair de férias? Oh, meu Deus! Será que temos um bunker no subsolo? –ela se encolheu e olhou os lados, quase histérica, contornando o rosto com as mãos, franzindo as sobrancelhas, aflita.

_Não, Ane, é uma viagem de negócios. –ele explicou, irritado com a reação louca dela.

_Ah, que alívio. Papai não pode sair de férias. Algo horrível aconteceria se ele fizesse isso… –ela desfez sua encenação relaxando de uma vez e deixando o ar escapar.

Heero meneou a cabeça, indeciso sobre gostar da brincadeira. Ouviu-a rir baixinho de qualquer modo enquanto abria o armário e dava uma olhada. Ainda tinha várias roupas no Paterno, mas nada que fizesse muita falta.

_Aposto que papai não explicou a natureza desses negócios…

Ele negou com a cabeça.

Ela o observou e assentiu, compreensiva.

_Quer ajuda com a mala?

_Não. Nem tenho muito que levar.

_Ufa, ainda bem… não queria mexer nas suas cuecas mesmo…

_Ane!

Ela saiu correndo imediatamente, gargalhando moleca e divertida.

Heero reencontrou o pai no almoço, quando nada sobre a viagem foi citado. Ele também não fez as honras e se esforçou em não parecer contrariado. Já no próximo reencontro, o jantar, o juiz fez o anúncio formal da partida, bem a seu gosto, de um modo sério e cheio de importância. Ele deu quase a mesma quantidade de informações às duas ouvintes, mas ambas já sabiam do fato e por isso elas se limitaram a lançar olhares silenciosos e enigmáticos para o vazio.

Athina havia recebido a notícia perto da hora do chá, que só ela costumava observar, e sem cogitar questionar, deu as ordens para que as malas do marido fossem preparadas. Pediu também que Viane verificasse se Heero tinha se organizado e ficou interessada quando soube que sim. Ali, a mesa do jantar, observou o filho com curiosidade discreta, desejosa de saber como ele lidava com mais aquele capricho do pai. Talvez Dante o tivesse informado melhor sobre os assuntos do negócio, mas ela duvidava.

Heero respondeu o olhar examinador da mãe com paciência e não reagiu. Ela, por sua vez, criou um sorriso elegante e pio, transmitindo ternura ao filho, admirando a recém-ganhada compostura dele.

_Papai, posso ir junto? –Ane foi a primeira a falar depois que Dante terminou seu aviso.

Heero a observou espantado, confessaria que ficara um pouco interessado nos motivos dela de pedir. Não que estranhasse o pedido, mas sim como este tinha sido imprevisível para ele. Observou a face brilhante da moça, os olhos extremamente confiantes, e depois transferiu sua atenção para o pai. Era claro o descontentamento do juiz, que estava julgando a atitude da filha como uma espécie de ousadia.

_Não pode. –ele replicou, monótono. Por mais desobediente que encarasse a moça, não dava qualquer sinal de irritação, diferente de quando respondera ao rapaz naquela manhã.

_Ah, mas por que não? –ela reclamou, atingida, deixando transparecer mais do que devia de sua faceta mimada. –Vocês irão a Miami? Eu… –em seus olhos, havia um gesto de súplica interesseira.

Athina riu breve e bem baixinho, sem interferir, e depois voltou a olhar Heero. Pelo que Yacob confidenciara a ela aquela manhã, pensou que certamente Heero sentiria-se melhor se acompanhado da irmã. Ficava satisfeita de saber que os seus filhos estavam dando-se bem.

_Não, senhorita Yuy. Já chega. –imprimindo mais firmeza, Dante rebateu.

Akane reclamou dessa vez com um murmúrio incompreensível, estalando a língua. Dante não podia ter certeza, mas ela estava colocando uma encenação para tentar ganhá-lo, ou, no pior dos casos, enganá-lo em dizer detalhes da viagem.

_Está decidido. Faça companhia a sua mãe. –e usando de um pouco de aspereza de inquietação, Dante argumentou de novo.

Para Heero, aquela pronunciação foi uma espécie de hesitação. Era curioso assistir aquele outro aspecto do pai.

_Não se preocupe, meu bem… nos certificaremos de nos divertir também. –Athina brincou, piscando um olho para filha, o espírito tão jovem quanto o de Ane.

Ane deixou os resmungos completamente de lado e assentiu:

_Mamãe, que tal darmos aquela festa…? –e fingiu sussurrar, cheia de excitação.

_Oh, com certeza… –Athina anuiu e as duas riram em tom cúmplice.

Dante assistia imobilizado e sem expressão qualquer. Contudo, um segundo passou, e, decidindo que não havia nada importante ali, revirou os olhos e passou a comer.

Diante de situação tão inusitada, Heero só fez menear a cabeça, divertido e perplexo.

Depois disso, Ane começou a falar a mãe sobre o que fizera com Astuce aquela tarde e Athina descreveu a filha um projeto de decoração que começaria na segunda-feira. Elas estavam relaxadas, Heero observou. Ele não quis participar dessa vez, porém entreteve-se com pensamentos e lembranças, tentando descansar a mente. As vozes das duas iam confundindo-se suavemente, arrastando do fundo do subconsciente dele outra voz que há pouco tempo também falava com ele no mesmo tom animado durante o jantar. O som aos poucos veio trazendo a imagem e, antes da feição da esposa se formar, Heero sofreu um sobressalto, forçando com dificuldades tudo para dentro do depósito mental secreto. O que estava se permitindo fazer?

Heero não conseguia dormir. Fosse porque acordara muito tarde, fosse pela perturbação da mente que ocorrera no jantar, eram duas da manhã e não se sentia nem ao menos roçado pelo sono. Nem por toda sua determinação conseguia em paz fechar os olhos.

Frustrado e derrotado, ele murmurou reconhecendo a óbvia razão de seu alerta:

_Relena…

Levantou-se devagar, caminhou pelo quarto e foi até a janela. Não sentia ansiedade, contudo procurava formas de calar o íntimo por observar o vento suave sacudir a folhagem do jardim. O vento não tinha força e mal era notado, em nada aliviava o calor. Heero começava a achar que assim também eram seus argumentos vários para abandonar Relena.

Respirou fundo, contrariado consigo mesmo. Indeciso, não queria se arriscar. Relena sofreria em revê-lo e ele sofreria mais ao vê-la sofrer. E se por isso, persuadido em voltar atrás de sua decisão, sabia que não era só seu orgulho que seria ferido, mas qualquer imagem digna de respeito que Relena podia ter. Ora, esse seria um gesto para magoá-la mais.

Bufou de puro descontentamento. Ligou o laptop e começou a navegar a esmo, querendo se entediar e forçar o sono. Na lista de spams na caixa de e-mail, alertas de atualização no Facebook levaram Heero ao perfil de Relena. Uma armadilha que ele abraçou, perplexo.

Fazia meses desde que ela postara algo ou participava na rede social pela última vez, porém a linha do tempo dela era uma completa novidade para o rapaz.

Ele nunca tinha pensado em fazer qualquer pesquisa na internet sobre ela. Sua curiosidade ficara sem estímulo, afogada pela birra com a situação e toda bronca que experimentou em seus primeiros dias com Relena. Só conseguira concentrar-se em seu grande infortúnio injusto e em como só a crueza poderia reger suas atitudes. Se tivesse sido um pouco menos egoísta…

Mas jamais haveria ganhado tanta percepção de modo diferente. Se tudo tivesse sido diferente, talvez não desse o mesmo valor. Não adiantava ficar preso ao passado, ele precisava tomar para si quem era e as experiências que tinha vivido. Chegara a hora de sair de seu esconderijo de ego e fazer por si aquilo que só ele poderia fazer. Tinha chegado à liberdade que sempre desejara.

Olhando Relena sorrir na fotografia, com uns dezoitos anos, em um baile beneficente promovido pelo clube de campo que frequentara com sua família, ficou tentado a sorrir, mas estava sem graça consigo mesmo. Pesquisando mais no passado, encontrou as fotos da festa de debutante dela. Nunca vira uma garota vestida com tanta elegância juvenil e gala e parecer tão natural. Ela usara um vestido rosa-bebê que a deixava mais loura, mais menina, mais brilhante, mais serena.

A liberdade que Heero alcançara de repente pareceu incompleta para ele.

Respirou fundo, decepcionado.

Fechou o site e baixou a tela do laptop, mergulhando de novo na escuridão.

Era para o bem dela, recitou em pensamentos.

Era para o melhor.

Não podia voltar atrás. Foi assim que fora educado. Seus erros, seus atos, tudo era irreversível e sempre seria cobrado por eles.

Preso na teia de alto padrão e perfeccionismo do pai, nunca entendeu bem o perdão, nunca se sentiu liberado de carga nenhuma. Mesmo quando a mãe lhe mostrava amplas benevolências e paciências, mesmo quando Ane e seus amigos lhe falavam para não se cobrar tanto, ele não conseguia acreditar que era possível viver naquela qualidade de paz consigo próprio.

Estava usando Relena para alcançar isso?

Não estava certo.

Ainda ali sentia a culpa e o rancor, a incerteza e ansiedade, sentimentos que não eram benvindos.

Tomara uma atitude nova, porém no fundo, ela tinha um sabor envelhecido.

Quando ouviu a chamada no alto-falante do aeroporto anunciando seu voo, Heero pareceu despertar de um sonho estéril. Percebeu o pai levantar-se em sua frente, segurando a valise com um ar importante. Heero bufou e o imitou, sem muita escolha.

Se prestasse atenção, não saberia dizer se já passara tempo sozinho com o pai dessa maneira. No mínimo, descreveria a situação como surreal. Não estava nada animado e com visível má vontade foi seguindo o pai para o portão de embarque.

Uma sensação indevida de que estava esquecendo algo o deteve duas vezes, e ele tateou seus bolsos, mas a confirmação de que nada faltava não aplacava aquele mal-estar.

Olhando a passagem estreita e a comissária esperando-o com um sorriso plácido, hesitou o suficiente para o juiz notar.

_Qual o problema? –ele grunhiu, tirando o cartão de embarque do bolso.

_Eu… tenho que fazer um telefonema. –Heero decidiu em ímpeto, se desviando um pouco para longe e apanhando o celular no bolso.

Teclou com agilidade, mas foi atendido pela caixa postal.

_Relena, –murmurou, depois do sinal. –estou indo para a Flórida e volto em três dias. Eu quero conversar com você. –precisava encerrar o recado, contudo não fazia a menor ideia do que adicionar. –Te ligo quando voltar. –e usou uma frase padrão, sem pensar bem no que prometia, para terminar o silêncio e a ligação.

Dante o ficou aguardando, assistindo-o com pesquisa. Heero não entendeu a reação do pai, achando-a tão diversa a personalidade do homem.

Passaram pela comissária e se sentaram no corredor a direita da nave, Dante ocupando o assento da janela. O juiz assistiu a decolagem sem relaxar nenhum músculo da face e Heero jogou a cabeça para trás, apoiando-a no encosto da poltrona, dando-se conta de quão cansado estava, e resolveu tentar cochilar.

-8-8-8-8-

Ao sentar-se a mesa do pequeno escritório, Relena escolheu um envelope e passou a preenchê-lo com capricho calculado. Tinha a mão relaxada, mas de controle preciso, e deslizou a caneta pela superfície de textura porosa. Quando já havia escrito assim, com sua caligrafia, o nome do ex-marido? As consoantes que formavam a palavra primeiro davam voltas floreadas e depois seguiam em padrões áridos. Análogas de sua história juntos, as formas das letras exigiam movimentos abruptos e alternados de rudeza e carinho.

Soltou a respiração, que vinha controlando para conduzir a caneta, e grampeando a abertura para proteger melhor os documentos, contemplou seu trabalho, intrigada. Apanhou o celular depois para fazer o telefonema que terminaria de libertá-la.

Porém, havia algo errado com o aparelho que, aparentemente, estava travado e exigiu insistência para que a ligação acontecesse. Esperou, apertou as teclas, ligou e desligou o BlackBerry, cheia de paciência. Quando o telefone voltou a funcionar, não precisou de dois minutos de conversa para resolver o assunto.

Um mensageiro do escritório viria buscar os documentos em minutos.

Ainda era estranho avaliar tudo que estava acontecendo. Fora tomada por um golpe, ainda não tinha se recuperado da dor da queda. Entretanto, estava tomando decisões que considerava inovações para si e escolhendo e determinando-se a lutar. Não deixaria nunca mais que sua vida passasse sem sua participação.

Brincando com o celular em suas mãos, ela prestou atenção à tela e viu um alerta da caixa postal desenhado no cantinho. Antes de poder investigar, por um motivo que ela não saberia explicar ou poderia entender, o telefone travou de novo.

Finalmente soltando um murmúrio de contrariedade, Relena encarou a tela imóvel do BlackBerry, feito a força de seu pensamento pudesse ter alguma influência ali.

Mas aquele era o sinal claro de fim de uma era. Fazia quase quatro anos que usava aquele aparelho. Devia se considerar uma privilegiada. E como nunca tivera interesse em modelos novos ou aplicativos recentes, esteve sempre contente com seu celular que se provara muito útil tanto na faculdade quanto em sua vida social.

Era mais uma mudança que devia fazer e, pensando bem, estava contente por fazê-la. Influências do passado não eram mais benvindas.

Sentia-se boba por assumir essa atitude, sentia-se idosa, mas não se negava em seguir com a ideia. Qualquer coisa serviria como tábua de salvação do maremoto que se tornara sua vida.

Tinha planejado um dia cheio de atividades e deu assim prosseguimento, voltando para o quarto.

Começou a tirar do armário tudo o que não tinha necessidade imediata e fazer pilhas sobre a cama. Depois do almoço, sairia para comprar caixas. Embora tivesse ficado claro que o apartamento era dela, não sentia nenhum desejo em ficar. Trabalhou na separação por muito tempo, embalada pelas músicas do rádio, quando houve batidas na porta. Já sabendo do que se tratava, foi buscar o envelope enquanto Manon atendeu o mensageiro. O rapaz segurava seu capacete e ficou parado na porta por poucos segundos, trazendo no rosto somente sentimentos contrastantes de paciência e pressa. Relena não teve tempo de se arrepender ou de pensar no que estava fazendo. Tão logo estendeu o envelope para o rapaz, tão logo ele o guardou na bolsa e partiu, o som do zíper ainda ecoava na sala de estar quando a porta se fechou.

Sozinha no ambiente, Relena estalou os lábios e respirou fundo, contente por tudo ter sido tão fácil. Voltou para seus afazeres na suíte da Primavera e, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo pela terceira vez, analisou seus longos cabelos. Ocorreu-lhe que era boa ideia cortá-los e conversou sobre isso com Manon durante o almoço.

_Se quiser, posso cortar sua franja. –Manon sempre a ajudava com isso e não achava trabalhoso.

_Dessa vez, quero cortar todo meu cabelo, Manon. –com um algo de travesso no sorrisinho, Relena esclareceu.

_Por quê? Ele é lindo. –Manon indagou suavemente, percorrendo com os olhos o longo feixe de fios que caia pesado e sedoso no ombro da moça e escorria pela frente do corpo até a cintura.

_Obrigada. Porém, faz tanto tempo que o uso assim… –e pensou em tantas fotografias que tirara e em todos os anos que estivera cultivando aquele comprimento, no peso do passado materializado ali. Queria renovar-se. Estava sedenta por isso.

_Então, comece devagar. –e com cautela maternal, Manon aconselhou. Sabia bem o que havia por trás. Ela queria distrair a mente e não a julgava por isso. Relena lidava tão bem com todos seus desafios. Ela tinha direito de fazer o que quisesse para se sentir melhor, já que seus desejos eram tão simples e naturais. Ao mesmo tempo, por ter aprendido sobre a personalidade e constância de Relena, sabia que ela poderia arrepender-se e uma mudança drástica poderia, além de descaracterizar a moça, trazer-lhe ainda mais amargura.

_Quero me sentir mais dinâmica. –Relena comentou, suspirando, e Manon sorriu.

Na rua, de táxi, Relena procurou um cabelereiro que a pudesse atender naquela tarde. Visitou o salão que Lori frequentava e a recepcionista disse que se ela esperasse três horas, poderia ser atendida no dia. Enquanto Relena esperava, aproveitou para comprar seu telefone celular novo, escolhendo o mais novo modelo de iPhone em um dourado principesco.

Passeou pelas lojas e acabou gastando um pouco em uma loja da Kate Spade. Respirava fundo e mantinha a mente leve, observando as paisagens, as pessoas e o tempo passarem como se não houvesse preocupações em seu mundo.

No salão, explicou que gostaria de algo simples, e a cabelereira que a atendeu cortou sua franja em um dedo e seus cabelos em quase três palmos. Não foi o suficiente para deixá-los em um chanel, mas passavam um pouco do ombro e ainda davam versatilidade para penteados. Escovados e arrumados, emolduravam o rosto da moça com dignidade, a franja levemente dividida de lado conferia um quê de doçura.

_Talvez, em uma próxima vez, poderíamos puxar umas luzes… –a profissional explicou, por mais admirada que estivesse pela beleza virgem dos cabelos loiros escuros. De qualquer forma, naquele dia não havia tempo em sua agenda para o procedimento.

Relena ouviu e simplesmente sorriu, considerando a sugestão. Agradeceu o atendimento e, pagando o serviço, saiu do salão com suas sacolas sentindo uma renovação de espírito infantil e energizante. Sorrindo pela rua, chamou outro táxi e retornou para o apartamento, só então recordando que não comprara as caixas que precisava.

_Relena, Noin ligou e pediu que retornasse. –Manon apareceu pouco depois de Relena ter entrado em seu quarto. Ela tinha jogado as sacolas sobre o sofazinho e estivera pensando o que faria com as pilhas que tirara do armário, pensativa.

_Obrigada, Manon. –virou-se e respondeu, tirando as mãos da cintura. –O que achou? –e sacudiu os cabelos, levemente, exibindo-os.

_Ficou lindo! –Manon achou-a tão encantadora que não sabia exatamente descrever o efeito que uma mera mudança de comprimento do cabelo causou na jovem patroa. Relena procurou seu reflexo em um espelho em sua escrivaninha e apreciou de novo seu corte, trocando sorrisos com Manon.

E, antes do jantar, ela mandou uma mensagem para Noin somente para deixá-la certa de que seu recado tinha sido dado e que mais tarde ela telefonaria. Seu novo celular era rápido, mas ela ainda estava se acostumando com o uso e tudo parecia complicado.

Conversou com Manon despreocupadamente enquanto punha a mesa e esperava os últimos ajustes para a refeição ser servida. Falou do vendedor que a atendeu na loja quando escolheu o celular, das compras que fez, lançamentos tentadores em exibição na livraria que visitou, da conversa jovial com a cabeleireira. Apesar da atenção que Manon dispensava, uma sensação de monotonia pairava dentro de si e suspirava entre uma frase e outra, aborrecida consiga mesma.

E suspirando ainda contra si mesma, ela voltou para o quarto depois da sobremesa para telefonar Noin. A conversa foi breve.

_Zechs e eu fomos convidados para uma soirée ai em Nova York na casa de um cliente e achei que você devia nos acompanhar. –Noin explicou.

_Ir de penetra? –ela riu, jogada na cama.

_Não no meu ponto de vista. Qualquer coisa, eu divido meu prato com você.

Relena riu com mais intensidade.

_Noin, o que está tentando fazer? –e provocou.

_Você sabe que não vai ter nenhum problema. Todo mundo sempre conta uns penetras quando organiza eventos… –Noin discorreu, prática, sem ver nada de mal com a agregação de Relena ao convite. Não imaginava motivos para que seus anfitriões vissem com maus olhos. Zechs tinha um relacionamento bastante amigável com eles. –E você precisa sair mais de casa. Uma dama da sociedade como você, com tão boas ligações… –em parte, Noin falava assim por brincadeira, mas no fundo, sentia que a cunhada precisava viver mais. A posição ilustre que Relena tinha precisava ser aproveitada, os anos de tradição familiar que ela arrastava lhe davam privilégios que ela devia usufruir.

Relena parecia ter ficado mais reclusa depois que se casou, frequentando somente os eventos do clube de campo dos Yuy e as festas de Verão de Ane. Tinha se afastado das antigas amizades, se desligado do clube de campo que frequentava em Nova Jersey e perdido o gosto pelos passeios às compras. A rotina pacata que ela adotara de dar as aulas em Trenton e voltar para casa a mantinha afastada das alegrias simples da vida, como um jantar ou uma sessão de cinema. Com a falta de companhia agradável, era compreensível ela preencher seus dias assim.

Noin não desejava isso para ela e já que Heero definitivamente não era mais uma opção, decidiu que ela traria Relena de volta e a entreteria como sempre até que a moça esquecesse aqueles dois anos atípicos e recuperasse de uma vez para sempre a alegria e vivacidade que sempre tinha quando com sua família.

_Quando eles souberem que foi você quem cuidou do meu casamento, vão até esquecer que você foi de penetra. Eles amaram a festa, ficaram completamente encantados…

Relena meneou a cabeça e acedeu:

_Está bem, eu vou. –e sua voz transmitia com quanto custo ela cedia. –Vocês passam aqui?

_Combinado. E como está se sentindo?

_Totalmente perdida. –e murmurou, conformada e intrigada.

Noin não esperava nada diferente.

_Até quarta-feira. –despediu-se.

_Até. –replicou e ficou olhando o teto. Tinha deitado paralela às pilhas de roupas que devia ter embalado aquela tarde. Seu quarto estava em desordem e ela estava com muita preguiça de organizá-lo, mas se quisesse dormir ali, precisaria fazer algo.

Depois do banho, decidiu.

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Relena ainda estava no meio da sua bagunça na tarde seguinte. Tinha sentado no chão, ao lado da mesinha de centro na pequena sala de visitas que a suíte da Primavera podia abrigar, tentando bordar um motivo de monograma em um lenço. Em seu redor, as pilhas de roupas haviam crescido e também havia pilhas de livros e caixas de sapato. Parecia completamente ilógico o que ela estava fazendo, mas ela não tinha ninguém para julgá-la.

De quando em quando, esticava o braço e pegava na xícara de chá que ficara em cima da mesinha. Manon trouxera o conjunto de porcelana e avisou que ia sair para fazer algumas compras para o apartamento.

A música alta quase impediu Relena de ouvir que havia alguém na porta. Ela terminou um gole do chá praticamente gelado, olhou de novo o resultado de seus esforços e suspirou divertidamente. Saiu desviando-se das bagunças a grandes passadas, ajeitando a roupa, e quando enfim abriu a porta, não conseguiu disfarçar a surpresa, o que a deixou muito embaraçada.

O sorriso de Athina parecia uma lua minguante, luminoso, mas pouco brilhante, discreto, poético e enigmático, mas os olhos dela delatavam a tristeza e o carinho pela pessoa que tinha diante de si.

_Entre, Athina. –Relena incentivou, ainda sem graça por causa de sua primeira reação a visita da sogra.

_Precisava ver você. –a mulher comentou, fazendo-se a vontade.

_Desculpe se demorei em te atender. –Relena explicou, acompanhando-a até o sofá. –Estava distraída e a música estava alta.

A música continuava tocando, vinda do quarto. Athina não parecia preocupada com isso. Sentada com a moça, pegou a mão dela e suspirou:

_O que estava fazendo?

_Arrumações. –disse primeiro, mas porque era mentira, sacudiu a cabeça, voltando atrás. –Na verdade, minha mudança.

_Não irá ficar no Paterno?

Relena hesitou em responder.

_Não há por que. Também, prefiro deixar tudo para trás. –e explicou, desviando o olhar para baixo.

_É natural. –Athina respondeu, a voz sorridente.

_Eu não assinei o documento de transferência de propriedade, Athina. –e levantando os olhos, ela revelou, a claridade vinda da janela iluminou sua expressão resolvida.

Athina inclinou a cabeça:

_Por que não? –e achava aquela uma decisão curiosa, embora típica de Relena.

_Esse apartamento é seu, Athina. Foi sua herança. Não me sinto no direito de recebê-lo assim.

_E eu não consigo imaginar melhor uso do que você vivendo nele, se assim desejasse. A decisão do senhor Yuy de dá-lo para vocês foi a única a qual não me opus. –explicando assim, com voz bondosa, Athina queria fazer Relena sentir-se melhor em relação a tudo que a incomodava.

_Você já sabe de tudo agora, não é? –um pouco amarga, Relena murmurou, falando baixo.

_Finalmente Heero me contou… –Athina comentou jovialmente, apertando forte e sacudindo levemente a mãozinha quente de Relena com a sua. –Mas confesso que eu percebia que tudo era muito atípico para ser real. –e adicionou depois, serena, atenta as reações da moça. Ficava a imaginar o que corria pela mente de Relena naquele instante. Dependendo dos motivos que ela tivera para aceitar casar-se, se sentiria em uma posição vulnerável ali. Provavelmente pensaria que Athina a tomava por mentirosa, ou até por interesseira, por mais que tivesse aprendido que Athina não fazia mau juízo. Para poupar a moça, Athina voltou a falar.

_ Mas confesso também que agora percebo que é real. –e sempre usando extrema bondade, a mulher adicionou, sorrindo calorosamente com o olhar.

Outra vez surpreendida e outra vez embaraçando-se com sua surpresa, Relena fitou Athina em silêncio profundo, indisposta em confirmar o pensamento da mulher, entretanto incapaz de não fazê-lo. Seu rosto pálido e seus olhos exaltados, azuis cristalinos, comunicavam o que suas palavras teimosamente não comunicariam mais.

Athina não a pressionou, não havia necessidade disso. Seguiu com sua expressão serena e carinhosa e com voz controlada e acolhedora:

–Entendo que você e meu filho ainda não conversaram sobre o divórcio. –só que soou um pouco séria naquela frase. Sabia que a situação não era agradável.

_É verdade. Mas não importa, eu já assinei os documentos. Devem estar em processo agora. Mais alguns dias e definitivamente eu e Heero não teremos nada em comum. –e entre lamentosa e conformada, e entre orgulhosa e humilhada, Relena explicou, fazendo o possível para soar indiferente ao comportamento de Heero.

Por um curto instante, houve silêncio. Um pouco de esperteza acudiu Athina, lembrando-a de apresentar:

_Sim, mas Heero está na Flórida agora.

_Está? –a novidade inesperada deixou a moça confusa. –Por quê? –e logo fez a próxima pergunta, intrigada.

_Foi com o pai resolver alguns assuntos.

Relena assentiu, pensativa. Não entendia porque a informação lhe parecia tão interessante. Como tinha dito, deixara de ter qualquer coisa em comum com o rapaz, não se interessava mais por nada que acontecia em sua vida.

_Gostei de seu corte de cabelo. –Athina prosseguiu.

_Ah, obrigada, tive vontade de mudar, nem que fosse um pouquinho. –explicou porque se sentiu à vontade para fazê-lo.

Assentindo, Athina elogiou mais e elas conversaram bastante por mais algum tempo sobre assuntos cotidianos como boas amigas. Os modos jovens de Athina fascinavam Relena, foi ótimo poder conversar e perceber que a mulher tinha interesse real e sincero nela. De certa maneira, Relena a tinha adotado como mãe também e sentir a reciprocidade – ser quase como uma filha para Athina – a consolava que nem tudo em seu casamento com Heero fora tempo perdido e ilusão.

_Meu bem, vim para ter certeza de que você está bem. Quero que saiba que você sempre será benvinda em minha casa e sempre terá minha amizade. Você é uma pessoa maravilhosa, Relena, e merece ser feliz. Estes últimos meses foram incrivelmente difíceis para você. Eu admiro sua resistência. –Athina queria que Relena continuasse parte de sua família, contudo entendia a decisão da moça. –Quero muito que você só escolha aquilo que te faz feliz a partir de agora. –e beijou o rosto da moça, despedindo-se.

Relena viu as lágrimas brilharem nos olhos de Athina e assentiu, assegurando-a de que faria assim. Estava sem qualquer ideia do que falar ou fazer. A mensagem de Athina era emocionante de se ouvir e o carinho dela fazia Relena cheia de gratidão. Abraçou a mulher e abriu a porta para ela.

Lamentava muito a ironia das coisas, mas agora aprendia definitivamente a lição. Colocaria sua felicidade em si mesma e em ninguém mais. Viveria em função de si própria e por ninguém mais. Não tinha por objetivo tornar-se egoísta ou mesquinha. Entendera que as pessoas eram inconstantes demais para tornarem-se depósito de felicidade e no final ela precisava sofrer e enfrentar tudo sozinha. Só ela sabia o quanto doía ser traída por seu próprio coração.

-8-8-8-8-

Sem saber bem quão formal e elegante seria o ambiente da festa que a esperava dali poucas horas, Relena ficou em dúvida ao escolher o que vestir. Escovou os cabelos muitas vezes, jogou-os para um lado e para o outro, tentando deixá-los com uma forma despretensiosa, mas aparência divina, e os enfeitou com uma tiara que imitava uma coroa de louros, o dourado do acessório misturando-se com a cor do cabelo. Ajeitou a franja com os dedos e voltou à deliberação do vestido. A peça que comprara naquela semana era graciosa, mas havia uma possibilidade de ser ousada demais para a ocasião: a cor era um vermelho vistoso em tecido brilhante, o comprimento era mínimo e as costas decotadas. O vestido ficava lindo em seu corpo esbelto, feminino e moderno, a saia ligeiramente rodada dando-lhe ares de boneca.

Vestiu-o e encarou-se no espelho do pequeno closet e o único pensamento que a visitou foi "por que não?". Sorriu, gostando muito de como tudo lhe caía bem. Combinou o vestido com uma anágua com quatro camadas de tule que serviu para manter a saia em um formato interessante. Calçou os sapatos que comprara combinando, vermelhos também, forrados de cetim, extremamente altos, e foi escolher um anel de coquetel.

Olhando para sua mão, lembrou-se da aliança e do anel de noivado. Por que ainda estava usando os dois? Tirou-os com dificuldade e devolveu ambos para suas caixas.

A aliança que Heero deveria estar usando também se encontrava ali. Ela suspirou aborrecida ao deparar-se com a joia. Franziu as sobrancelhas, repreendendo a mera existência daquele anel. Porém, ao fechar a tampa da caixinha, selou com as alianças qualquer pensamento que podia incomodá-la.

Escolheu um anel com uma pedra enorme de citrino amarelo da Tiffany que fora presente de seu pai por ocasião do debute, terminou a maquiagem, arrumou a bolsinha e foi esperar sua carona na sala. Por algum motivo inexplicável, havia certa leveza em seu interior, e ela respirou fundo de satisfação, olhando o bico dos sapatos com interesse infantil.

O porteiro telefonou minutos depois, avisando a chegada de Zechs e Noin.

Com pressa, Relena entrou no carro.

_Caprichou na produção? –Noin brincou depois de cumprimentarem-se.

_Só espero que meu vestido não cause má impressão. –murmurou em resposta, pensativa, embora sem dar muita importância a possibilidade. Sentia-se muito bem dentro dele.

_Pelo menos vai distrair o fato de que você foi de penetra. –Noin provocou, sorrindo.

_Ai, qual gafe é pior? –Relena perguntou-se, bem-humorada, o olhar esperto procurando o olhar de Noin, usando o retrovisor.

_Eu avisei Gracchus que você vai, Lena, não se preocupe. –Zechs esclareceu, encontrando o olhar da irmã pelo retrovisor também. Ela assentiu, animada.

A conversa risonha apressou o trajeto até o prédio de apartamentos onde o anfitrião era dono da luxuosa cobertura.

Relena imaginou que devia conhecer o dono da casa pelo menos de vista, já que um homem rico como ele com certeza comparecera pelo menos a um baile de Primavera. Entretanto, sempre havia tantas pessoas e tanto trabalho durante as festas que não conseguia se concentrar nos dois ao mesmo tempo. Também, fazia relativamente pouco tempo que fora integrada a sociedade nova-iorquina para ter memorizado todos os rostos.

Agora, sobre ela, todos sabiam.

Não era uma condição conveniente.

O ambiente não era formal ou pretensioso e a iluminação débil instalada especialmente para a ocasião ajudou o vestido de Relena perder um pouco do viço e não destoar tanto. Ela sentiu-se mais à vontade assim, porém, por si só, sua presença era atraente e todos prestaram atenção a sua chegada, rendendo miradas fascinadas ou respeitosas como a uma realeza.

Logo reconheceu Dwight e seu amigo Laurell ali, que foram cumprimentá-la e conversar um pouco. Depois, Relena ainda gastou uma hora saudando e trocando palavras cordiais com os convidados pela sala antes de Zechs chamá-la para conhecer Gracchus Dupont e sua esposa.

Os olhos de Gracchus derramaram-se encantados sobre a figura de Relena, mas ela teve a nítida impressão de que ele olhava daquele modo para tudo e todos. A expressão dele era bastante benigna em si, aplacando qualquer sensação de assombro que sua altura e porte largo poderiam causar. Apesar de ser alguns anos mais velho que Zechs, não era menos jovial.

Também a senhora Dupont era jovial e dócil. Ao lado do marido, ela parecia uma dama saída das ilustrações de livros medievais, somente seu vestido de coquetel azul profundo e moderno, com aplicações de cristais evocando um estrelado céu de inverno, contradizia sua beleza e aura de fragilidade e nobreza. Pequenina, seus cabelos eram longos, lisos e louros, sua pele lindamente pálida e seus olhos mostravam uma profundeza infinita e brilho diáfano. Junto de Gracchus, corado e forte, compunha um par improvável, mas a felicidade era clara na forma com que se comportavam.

Relena foi elogiada pelo trabalho com a festa de casamento do irmão e eles fizeram algumas perguntas simpáticas. O bom humor contagiante deles fez bem a ela e a fortaleceu para o que estava para seguir.

Quando o assunto entre eles havia acabado, ela se afastou para pegar mais uma bebida antes do jantar. Foi então que trocou olhares com Sylvia Noventa. Sem forças para desconectar o olhar, Relena tomou um gole de seu drinque, assistindo Sylvia voltar-se para Kyria, falar com ele e desenganchar-se antes de vir em sua direção.

Sylvia veio com um sorriso suave, sem muita intimidade, mas livre de qualquer mínimo rancor que uma vez nutrira. E não entendeu porque a postura de Relena subitamente era de redobrada intriga, para não dizer desconfiança, sem contar que nunca a tinha visto tão fria. Os olhos dela a perfuravam com a qualidade de diamantes.

Respirou fundo e usando de bastante franqueza em sua feição, cumprimentou:

_Tudo bem, Relena?

_Sim. E você? –toda a satisfação, toda a autoconfiança de minutos atrás vacilou. Com timbre amargo, Relena respondeu mecanicamente.

_Estou bem. –manteve o sorriso. –Não sabia que frequentava a casa de Gracchus. –tentou uma conversa trivial.

_Não. Eu só vim conhecê-lo hoje. É cliente da família. –os olhos de Relena não se desviavam ou suavizavam, a frieza não se derretia e a voz saía monótona, sem que ela pudesse evitar. Por dentro, sentia-se queimar, como que de febre, e sua respiração estava tensa.

_Entendo. –Sylvia replicou, incerta sobre como prosseguir. Talvez não fosse mesmo tão fácil assim aproximar-se de alguém com quem criara tantas diferenças. Nunca tiveram tempo de se relacionar, mas isso não foi necessário para que elas vissem uma na outra uma espécie de oponente. Sylvia olhou em redor, sem fazer menção de afastar-se, pensativa.

_E você? –Relena decidiu prolongar o encontro, sentiu seu olhar relaxar um pouco em notar a falta de pretensões e o leve desconforto de Sylvia.

Sylvia voltou a dar atenção para Relena, a expressão de sua face tornando-se cordial outra vez:

_Ele e o pai de Kyria são muito amigos… mas não passamos de conhecidos por enquanto. Os Duponts são muito simpáticos, espero também ser amiga deles. –explicou.

_É verdade. –pela primeira vez em presença de Sylvia, Relena sorriu. Depois, tomou um pequeno gole, sustentando-se no álcool para aquietar as mente. Sentiu-se menos tensa, mais ainda nada à vontade.

Sylvia também apanhou uma bebida para si. Enquanto ela se distraía com o garçom, Relena aproveitou para examiná-la com um escrutínio ainda maior, decidida a descobrir as intenções daquela sobre a qual tinha então secreta antipatia e suspeitas corrosivas. Sylvia não interrompia o sorriso e não parecia em nada falsa. Era enervante para Relena.

Hesitando um pouco, Sylvia umedeceu os lábios e indagou:

_Heero está bem? –era uma pergunta perigosa, mas decidiu fazê-la por isso mesmo. Quem sabe assim sinalizava que sua obsessão estúpida pelo rapaz terminara? Relena não podia pensar que ela fosse dissimulada a tal ponto…

_Está. Viajou para a Flórida. –a intriga de Relena não atenuou, o que, entretanto, não a impediu de responder. O que mais interessava agora não era o motivo da pergunta, mas a reação que a resposta geraria.

A surpresa de Sylvia foi tão espontânea que não podia ser mais nada além de sincera:

_Sério? Trabalho, suponho.

_Sim. –escondendo sua confusão, Relena concordou. Contudo, não conseguiu evitar armar-se.

Sylvia assentiu em resposta, passando um ar compreensivo sobre a situação. Viu os modos de Relena ficarem bastante sérios e incomodados, e por isso murmurou depois:

_Sabe, Relena. Eu lhe devo muitas desculpas sobre como me comportei nos últimos meses. –falou com determinação e singeleza, sem a mínima intenção de autopiedade. –Nós nem tivemos muita oportunidade de conversar, nem mesmo depois de que voltei da Grécia. Imagino que você não saiba, então quero te participar que eu e Kyria estamos noivos. –e dessa vez ela não conseguiu se conter e seu sorriso foi mais borbulhante do que o champanhe.

Era inegável que Sylvia estava morta de amor por Kyria. Ela o procurou com os olhos depois de dizer a novidade. Relena a acompanhou no gesto e viu Kyria dar um sorriso galante e brilhante de completo embevecimento.

Com um suspiro fundo, Relena sentiu a garganta secar. Por dentro, finalmente era como se desmontasse, feito um castelo de areia açoitado por uma súbita e irresistível rajada de vento. O calor febril cedeu, dando lugar a um arrepio cortante.

_Parabéns. –cumprimentou, colocando o copo de lado, e dando um abraço educado na moça, sentindo-se extremamente aturdida. –Desde já, felicidades. –e conseguiu sorrir, discretamente, para não parecer antipática.

Sylvia riu contente e devolveu o abraço:

_Obrigada. Confesso que está cedo ainda, mas os cartões de reserva de data já estão prontos. Logo receberão o de vocês. O casamento será aqui em Nova Iorque mesmo.

_Sim, é claro. –Relena assentiu, esforçando-se em mostrar empolgação, e logo em seguida bebeu um pouco. –No Plaza?

_Sim.

Relena erguera aquele sorriso pálido como um escudo, certa de que ele era a reação perfeita para mascarar a angústia esquisita que a traspassou assim que ouvira a notícia. Olhava o rosto radiante de Sylvia e a viu embelezar-se diante de si, de tanta felicidade, amor, sonhos e expectativa. Quase sentiu inveja.

Sylvia não esperava uma reação muito extrema de Relena dadas suas relações passadas. O que ela mais desejava que Relena sentisse era alívio. Porém, percebeu a moça ficar levemente perturbada. Analisou Relena, pensativa, por um instante. Sorriu e gastou um tempo tirando suas conclusões. Talvez demorasse a Relena poder confiar nela e não poderia julgá-la por isso.

_Conversamos mais depois. –e despediu-se assim, retornando para o lado de Kyria como se nada no mundo fosse mais prazeroso.

Relena assentiu, lentamente, então carregada por pensamentos infelizes.

O anúncio do jantar foi bem-vindo.

Esperando encontrar um abrigo em sua mesa, onde pudesse organizar os pensamentos, tomou seu lugar junto do irmão e da cunhada. Havia também outro casal sentado com eles que Relena conhecia de vista. Ela esforçou-se em ser gentil o suficiente para sobreviver a conversa sem causar nenhuma má-impressão, mas a verdade era que estava sentindo-se horrível.

Às vezes, de longe, via Sylvia e Kyria e insistia em investigar tolamente se a moça não atuava, mas era difícil para qualquer um não acreditar no amor dos dois. A verdade era que este nunca parecera mais forte, o que fazia Relena duas vezes pior. Por que seu coração insistia em capturá-la, tão traiçoeiro? Por que motivo ela deixava-se capturar? Por que a razão a abandonava quando mais precisava atuar?

A resposta só podia ser amor, maldito amor, do tipo mais manipulador.

Relena sentiu fraqueza e foi ao banheiro. Molhar o rosto com água gelada, ficar só e encarar-se no espelho talvez ajudasse a recuperar a clareza.

Estava com uma incômoda vergonha de si mesma.

Respirou fundo, ensaiou uns sorrisos e convenceu-se que estava melhor.

Só a palidez, apesar de todos seus esforços, não desapareceu.

_Você está bem? –Zechs indagou ao vê-la voltar.

_Mais ou menos. –e tentou despistá-lo com um sorriso arisco, os olhos correndo para estudar sua sobremesa belamente apresentada no prato.

_Mais para menos… –ele contestou, meio jocoso para não pressioná-la demais.

Relena careteou e devolveu:

_Agora você vai me pentelhar?

Ele riu e meneou a cabeça. Pegou a mão dela para explicar:

_Não é pentelhação, mas preocupação. Conte o que está acontecendo. –e havia tanta brandura na voz dele que era comovente.

_Não é nada demais. –ela sorriu nervosa, querendo mudar de assunto. Olhou o redor, ficou agradecida por ver que Noin entretinha as outras duas pessoas de modo que elas não notavam o que se passava ali.

_Quem é mesmo a moça com quem falava antes? –Zechs indagou, aleatório, colherando pela primeira vez o flan de caramelo de laranja.

Aquele assunto era pior, entretanto.

_Sylvia Noventa. –limitou-se em sua réplica.

Zechs assentiu, recordando-se.

_Ela parecia muito contente, não é? –adicionou.

_Sim, ela me contou que irá se casar. –e sem querer, seu timbre veio com amargura novamente. Zechs não deixou de notar.

_Que alegria. –e ele comentou apenas para arrematar o tema.

_Sim… –Relena começou a comer a sobremesa.

A noite se estendeu. Tudo que Relena queria era ir embora, mas quanto mais deixasse isso transparecer, pior seria. Tornara-se guardiã de tantos segredos que em si sentia-se escandalosa.

Sentia-se ridícula também.

Ela não queria acreditar, mas o que passava só podia ser algum tipo de punição. Sua confiança em Heero não fora renovada de todo – Colette não mentia – porém certamente havia algo que ela estava ignorando, que devia ser explicado.

Antes do fim da festa, ela pôde conversar com Dwight e Laurell outra vez, bem como com Sylvia e até mesmo com Kyriacus. Ela temia parecer nervosa, inexplicavelmente incomodada, junto aos noivos; ela temia acabar deixando escapar a pergunta que intrigava mais. Não queria aparentar baixa ou vulgar, contudo, tanto da sua paz e seu futuro dependia do esclarecimento daquela pergunta.

Por que você e Heero se beijaram?, soava quase ensurdecedor nos pensamentos de Relena, que só sentiu-se segura ao entrar no carro de Zechs.

Enquanto Zechs e Noin conversavam alegremente, Relena alienou-se no banco de trás, dando toda a sua atenção às luzes que passavam ágeis do lado de fora.

Por mais entretido que Zechs estivesse, não deixou que nada escapasse de sua atenção. Trocou com Noin um olhar perspicaz, notando a esposa tensa. Procurou a irmã no retrovisor e indagou, desapontado:

_Oh, Lena, você não se divertiu?

_É claro que sim. –ela emergiu prontamente, o tom pesaroso, como se devesse algo ao irmão.

Parecia que pouco tinham se afastado do prédio onde Gracchus morava, e Zechs parou. Ele encontrou uma vaga um pouco longe do café em que desejava ir para beber um expresso e tentar extrair de Relena o que há tantos meses vinha perturbando-a. Os três caminharam juntos, o ar do Verão pesando em suas peles. Entraram no pequeno estabelecimento de cabines com sofás de couro verde, acomodaram-se e fizeram seus pedidos. Como Zechs imaginou, o ambiente era tranquilo e estava praticamente vazio.

Ele queria conversar com sua irmã ali para pegá-la desprevenida e também fazê-la mais à vontade. Por alguma lógica secreta, ele achava que a combinação dessas duas condições seria mais propícia em um ambiente neutro e contribuiria mais para que Relena enfim tivesse a coragem de falar.

Porque nunca antes daquela noite ele a percebera tão transtornada.

Ele sabia que Noin sabia. Não se sentia traído ou insultado, respeitava os motivos da irmã. Porém, intrigava-o essa necessidade de excluí-lo do problema. Ele sempre tinha sido confidente da irmã, nunca a tinha rechaçado, sempre fora paciente e tinha desejado seu maior bem. Se Relena chegara ao ponto de ocultar uma circunstância dele é porque o caso devia ser grave.

Ele respirou fundo, com dificuldade, enquanto essas conclusões rolavam em sua mente, os olhos presos na figura da irmã que se sentara sozinha em sua frente, e brincava com o canudo do milk-shake sem ter bebido nenhum gole. Ela pedira a bebida mais por insistência dele.

Como não havia maneira indolor de começar o assunto, Zechs decidiu ser direito, mas não incisivo.

_Faz tempo que venho notado que há algo errado com você, Lena.

Ela olhou-o inexpressiva, sem forças para reagir, incerta também do proceder a adotar.

_Você está muito mudada.

_As pessoas mudam… –ela suspirou, como se tivesse caído em si sobre tal conceito naquela noite.

_Sim, mas sua mudança não me parece natural.

_Eu sei. –por fim ela decidiu admitir, ainda mais depois de tal constatação da parte de Zechs. Sempre tivera sido péssima com mentiras e não melhoraria então.

_Vi que está sem sua aliança hoje.

Essa observação inquietou Relena indevidamente. Ela nem se lembrava mais do detalhe e não cuidou que alguém fosse perceber. Entretanto, sempre tinha sido tão zelosa por seu Tiffany Setting e seu anel de casamento que vê-la sem eles era algo notável.

_Não é a primeira vez que isso acontece. –ele observou. A memória tão afiada levando-o a um episódio em um restaurante nos arredores do Parque Gramercy. Daquela vez, Relena não se explicou e ele tirou a importância do fato. Agora, entretanto, já bastava.

_Como pode você se lembrar disso? –ela murmurou, chocada. Corou contra a vontade. Zechs realmente prestava atenção em tudo a respeito dela. De repente considerava tanta atenção uma invasão de privacidade.

Estalou os lábios.

O que estava pensando? Mais ou cedo ou mais tarde a verdade sobre seu estado civil precisaria ser declarada.

Que fosse mais tarde.

Que fosse em outro lugar.

Que fosse com outro humor e menos drama.

Noin ouvia a conversa incerta do papel que devia desempenhar.

_Seu maior tormento sempre girou em torno de seu casamento. –ele acrescentou, desnecessariamente, apenas deixando óbvio que ele não era néscio. –Você e Heero até me convenceram de que eram felizes… de que tinham escolhido assim… mas essa felicidade de vocês me parece frágil demais. Não deixo de me perguntar por que se casou, Relena.

_Ah, Zechs não precisamos discutir isso. Ainda mais aqui.

Ele bufou:

_Vai continuar me excluindo.

_Não é exclusão. É proteção. –ela contrapôs, em consolo.

_Sua ou minha? –ele não aceitou e atacou com agilidade.

_Não estou disposta a conversar sobre isso. –ela avisou, um tom de desgosto na voz.

_Mas nunca está… –ele reclamou, irritado de preocupação, de confusão, de intriga. –Você e Heero brigaram? Foi isso?

Relena corou um pouco demais. Sentiu-se não só ridícula, mas caprichosa. Tanta vergonha não era necessária. Ainda assim ela era capaz de afogar-se em humilhação. Não sabia como organizar os pensamentos, não via como separar o divórcio de seu deslize e do deslize de Heero e da teimosia insana dele de se punir que a abalava.

_Heero e eu temos muitos assuntos para resolver. –ela revelou, roucamente.

Zechs assentiu.

_E o que te deixou tão nervosa no jantar? –tentou explorar.

_Zechs, você está piorando as coisas. –Noin resolveu intervir, baixo e discretamente.

_Às vezes é preciso que seja assim. –ele contrapôs.

_Eu estou exausta. Você não faz ideia. –Relena reclamou, olhando para baixo.

_Justamente por isso que comecei essa conversa. Eu quero te entender, Lena. –esperou que isso a fizesse segura o suficiente para falar tudo.

_Não é tão simples, Zechs, nem necessário. –porém, a determinação dela trancava definitivamente o irmão do lado fora daquele mistério.

Ele meneou a cabeça, contrariado:

_E você, Noin, pelo visto concorda com a atitude de Relena.

_Ela é adulta, Zechs. Temos que respeitar suas decisões. –esperando não soar desrespeitosa, ela explicou.

Ele estalou os lábios.

_Sim, só que é fácil agir assim quando se tem noção total do quadro. –ele estava cada vez mais irritado e com dificuldades de controlar-se. Olhou em torno, bebeu o café de uma vez e bufou.

Desanimada, Relena seguia encolhida e olhando para seus joelhos rosados que apareciam na saia curta. Respirava com dificuldades e precisou tomar fôlego para murmurar:

_Minha vida tornou-se uma sucessão de erros. É embaraçoso chegar a essa conclusão.

_Do que está falando?

Ela olhou-o outra vez e deu de ombros:

_Nem todos os erros são meus. Claro que alguns são, uns bastante graves.

_Explique-se melhor, Lena, por favor.

O reflexo da moça foi negar com a cabeça.

_Com licença. –o garçom apareceu. –Nós vamos fechar em dez minutos. –e já trouxe a conta consigo.

_É claro. –Zechs soou aborrecido e pagou.

_Obrigado. – o garçom pronunciou educado. –Voltem sempre.

Relena olhou o rapaz com um sorriso sem graça e assentiu. Ela nem bebeu o milk-shake.

Dentro do carro, imperou um silêncio profundo como o do universo. Zechs guiou até o Paterno e ouviu Relena falar baixinho:

_Sei que já esperou demais por esclarecimentos, mas me dê só mais alguns dias.

Zechs a encontrou pelo retrovisor e depois se virou desajeitadamente para olhá-la nos olhos.

Ela deixou suas íris hesitarem em todas as direções antes de adicionar:

_Peça para papai te explicar as circunstâncias de meu casamento. Eu o proibi de fazer isso, então se ele resistir e desconversar, diga que fui eu quem mandou você perguntar. Pode me ligar para confirmar se preciso.

Zechs pareceu mais confuso e enfim triste.

_O resto eu explico depois. Não terei escapatória mesmo. –e saiu do carro. –Boa-noite.

Noin acenou e fechou o vidro.

Relena caminhou lentamente até a entrada. Tirou os sapatos no elevador e logo que chegou a suíte da Primavera, tomou uma ducha, vestiu seus pijamas e foi preparar um sanduíche na cozinha. Comeu devagar, em pé, perto da mesinha de copa, ruminando também seus pensamentos. Ao retornar para o quarto, havia uma chamada perdida no celular jogado sobre a cama. Zechs com certeza já cobrara a verdade do pai…

Mas era o número de Akane.

_Oi, Ane. –Relena retornou.

_Oi. Tentei te mandar um BBM, mas seu número não aparecia mais aqui…

_Ah, me esqueci de avisar… comprei um iPhone. Meu BlackBerry pifou.

_Depois de tantos anos? Por isso que eu não troco de marca. –e meio que pirraçou. Relena riu baixinho.

_Eu pensava que você gostava de ser a mais moderna… o iPhone é o que tem de mais novo.

_Hum, metida…

_Confesso que estou apanhando dele ainda…

_Está vendo? –Akane riu, fingindo-se vingada. –Mas você está bem?

Relena pensou se devia conversar com Akane sobre o episódio da noite e o telefonema de Colette. Suspirou e decidiu:

_Mais ou menos. –ia resolver tudo sozinha com Heero, como devia ser.

_Então tá. Durma bem.

_Você também.


Boa noite!

Ressurjo das cinzas!

Quem diria que eu reapareceria um dia?

Eu ia deixar para postar tudo de uma vez, mas minha querida Lica me aconselhou a não agir assim, então publico agora o que acho que será o penúltimo capítulo.

Espero que tenham gostado e agradeço demais a paciência de todos e o carinho.

Amo vocês!

18.07.2015