Cold and frosty morning
There's not a lot to say
About the things caught in my mind
(Manhã fria e coberta de geada
Não há muito para dizer
Sobre as coisas presas na minha mente)
Dezembro, 1993 — Hogwarts.
Neve recém-caída estalava sob suas botas à medida em que avançava, as mãos bem fundas nos bolsos e os olhos ardendo a cada vez que olhava para o caminho branco-ofuscante à sua frente. Filch desconfiara, e com razão, quando ela, mais cedo, atravessara as portas da entrada do castelo dizendo que iria até a vila caminhando. Há duas semanas o inverno se estabelecera com firmeza sobre os terrenos e arredores da escola, anunciando a sua chegada com uma geada fina — e naquele dia, último fim de semana do trimestre, Hogsmeade mais parceria um cartão de natal.
Era mais fácil de admirar do que de atravessar; flocos de neve rodopiavam em frente ao seu rosto e grudavam em seu cabelo, o frio desafiava os tecidos grossos de suas vestes e o cachecol, que ela colocara sobre o rosto para proteger o nariz, tornava a respiração difícil. Além do mais, ainda era muito cedo e os estudantes de Hogwarts não tinham começado a chegar, de forma que a trilha para o povoado não fora marcada pela série de pegadas ou pelas rodas das carruagens e estava invisível por debaixo da neve. A brancura fazia com que os olhos doessem. Definitivamente, o inverno não era a sua estação preferida.
Quando finalmente subiu a suave colina sobre a qual Hogsmeade residia, se encontrava sem fôlego. Era como uma vila fantasma — a maioria das lojas ainda fechadas, o vento assobiando entre as casas e os caminhos atolados da neve que não fora magicamente removida pelos moradores. Bervely tirou uma mão enluvada do bolso e a usou para afastar o cachecol do rosto, puxando um fôlego maior, o nariz ardendo com o ar gelado. Ela procurou por qualquer contraste através do caminho na rua principal, seu coração palpitando em ansiedade. Mas além dos postes, casas tortas e montes de neve, não havia nada.
— É claro que você atrasaria. Aposto que sua agenda de prisioneiro fugitivo é cheia de compromissos. — resmungou baixo, recomeçando a andar já que ficar parada no frio não era uma boa ideia.
Passou pelas primeiras lojas, espiando para dentro à procura de algum sinal de movimento, mas Dervish and Banges estava apagada, e Zonkos tinha as cortinas serradas por trás da vitrine. Alguns passos adiante estava o Três Vassouras; no momento que passou pelo pub, a porta se abriu e uma mulher enérgica apareceu apontando para fora o dedo em riste.
— Agora passa daqui, antes que eu chute a sua bunda peluda! Assaltar o estoque de cerveja amanteigada, que tipo de cachorro é você?!
Para a sua tremenda incredulidade, um vulto negro de quatro patas saiu de dentro da estalagem apressadamente, por pouco não lhe atropelando. Ele deu um forte latido quando a viu ali parada, depois, sob o olhar franzido da dona do bar, deu as costas e saiu correndo até sumir num beco mais adiante.
— Desculpe por isso, querida. — disse a mulher, que se chamava Rosmerta, se Bervely bem lembrava — Esse vira-latas é esperto demais para o próprio bem, é a segunda vez que entra de fininho aqui e assalta a dispensa. Eu teria chamado o controle de animais para pegar esse atrevido, mas acho que pode estar apenas perdido. Alguém com certeza o treinou, ensinou uns truques… desculpe, estou tagarelando. — ela sorriu, balançando a cabeça. Era bonita de um jeito descuidado, quase acidental, com cachos acaju em torno de um rosto agradável.— Ainda não abri, mas você quer entrar e se aquecer? Em alguns minutos poderei lhe servir uma bebida quente.
A tentação era enorme, mas não era para isso que Bervely estava ali. Na verdade, ela desconfiava que o motivo continuava no beco esperando, e se o conhecia bem, já estava impaciente.
— Não, mais tarde talvez. Eu preciso… ver um amigo antes.
A dona do Três Vassouras assentiu e disse qualquer coisa sobre uma promoção de almoço, mas Bervely não prestou atenção. Seguiu pela rua e tão logo a porta do bar se fechou, desviou-se da rota e entrou no beco em que o cão sumira minutos antes. Ficava entre uma casa de chá e a estalagem de três andares onde Tara tinha escondido Bae no ano anterior, e era bem estreito e cheio de toneis de ferro obstruindo a passagem. Ao fim dele, Sirius Black esperava recostado no muro, as mãos enfiadas nos bolsos, o cabelo emaranhado todo cheio de flocos de neve.
— Hey, garota.
— Black. — ela estreitou os olhos para a aparência dele, ainda mais desleixada do que há um mês. Vestia o mesmo casaco longo e desgastado sobre as roupas e a barba crescera alguns centímetros; começava a cobrir as runas em seu pescoço. Ele voltara a se parecer como alguém que enfiaria uma criança num saco, jogaria nas costas e sairia por ai assobiando com um machadinho na mão.
— Então você recebeu meu bilhete. — constatou o óbvio, observando-a também. Bervely reparou que ele parou os olhos em sua têmpora, onde a pancada do Salgueiro Lutador já cicatrizara há um bom tempo, deixando uma marca que ela às vezes escondia com metamorfomagia.
— Sim. Aliás, eu não sei como era na sua época, mas hoje em dia a gente usa corujas para entregar cartas, não gatos.
Sirius sorriu brandamente, a despeito do tom azedo dela.
— Então conheceu Caçador? Eu não tinha certeza se ele ia mesmo encontrá-la… é difícil convencer um gato a fazer uma entrega, eles não gostam de sentir que estão sendo usados.
— Deve ter sido por isso que aquele diabo tentou comer minha aranha. Achou que era o pagamento. — Enfiou suas mãos de novo nos bolsos, pois elas voltavam a congelar. — Mas hey, que história é essa de andar por Hogsmeade, e pior ainda, entrar no Três Vassouras? Eles colocaram dementadores para vigiar esse lugar!
Sirius deu de ombros, despreocupado.
— É seguro pela manhã, os dementadores só vem após o por do sol. Além do mais, Rosmerta é uma velha amiga.
— É mesmo? Seus amigos tem o costume de ameaçar chutar sua bunda peluda?
Ele riu enviesado.
— Só os mais chegados. Anda, vamos dar uma volta.
Antes que ela pudesse responder, ele se transformou em cachorro e saiu andando em direção à saída do beco. Com um bufo de exasperação ela o seguiu, ainda que a última coisa que quisesse era circular por campo aberto e nevoento com a sua cara congelando, atrás de um vira-lata engraçadinho que nem devia estar na vila, para começo de conversa.
Mas a rua principal persistia vazia, quando ela conseguiu contornar todos os barris atrás do cão, e o único som era do vento rodopiando junto com os flocos de neve e dos passos deles. Ela o deixou ir mais à frente, disfarçando o fato de que o seguia, a cabeça abaixada contra o vento e as mãos enfiadas nos bolsos. Black tinha a sua espessa capa de pelos negros que parecia suficiente para enfrentar a temperatura, e Bervely o invejou um bocadinho; por mais que as suas roupas de inverno fossem enfeitiçadas, elas nunca pareciam quentes o bastante como eram as vestes usadas em Durmstrang. Os britânicos tinham muito a aprender com os vizinhos europeus em termos de feitiços de aquecimento, talvez sugerisse que os elfos do castelo fizessem um intercâmbio de férias para aprender uma coisa ou outra sobre…
Perdeu o fio de pensamento quando percebeu até onde Black lhe levara. Estavam muito além da última casa do vilarejo, onde o terreno se inclinava em uma colina e abrigava uma antiga construção de madeira podre a que chamavam 'a casa mais assombrada da Grã-Bretanha'. Os alunos tinham a mania de desafiar uns aos outros a entrarem na casa, mas até onde ela sabia ninguém nunca tinha conseguido transpor as tábuas apregoadas às janelas. Curiosamente, a construção não tinha portas nem qualquer outra entrada aparente, e tanto o jardim como o telhado inclinado estavam cobertos por uma espessa camada de neve. Ela sentiu uma onda de desânimo quando percebeu que o cão atravessara a cerca e estava afundando as patas nessa mesma neve em direção à construção.
— Merda. — suspirou, quando ele deu a volta na casa e sumiu de vista. Querendo tudo menos afundar suas botas em gelo, ela saltou a cerca, não sem antes dar uma boa olhada ao redor. Fora a neve, ninguém estava vendo a monitora-chefe invadir propriedade privada, o que lhe servia de relativo consolo. — Escuta seu cachorro pulguento, se você está pensando que vamos…
Mas quando ela deu a volta na casa, seguindo a direção onde ele tinha sumido, não havia ninguém. Um monte de neve caiu em sua cabeça, e quando olhou para cima, ela viu os pés de Sirius sumindo através de uma janelinha do segundo andar. Logo em seguida a cabeça dele apareceu pela abertura.
— Tem uma escada invisível logo onde você está. — ele explicou, vendo a confusão em seu rosto. — É velha e está um pouco instável, então suba com cuidado.
Ela rolou os olhos e tateou a parede; logo suas mãos tocaram uma saliência como um degrau de uma escada de incêndio, embora não pudesse ver qualquer coisa. Descobriu que subir por escadas invisíveis não eram nem de longe seu passatempo preferido para uma manhã de sábado — escorregou e quase caiu duas vezes; quando chegou lá em cima, as luvas estavam encharcadas. Sirius a içou para dentro segurando firme em seus antebraços, o que foi bom, porque quando Bervely pisou no chão as botas molhadas escorregaram numa camada de poeira quase tão alta quanto a neve do lado de fora.
Ela deu uma boa olhada no quarto em que estavam, assim que se estabilizou. Era amplo e escuro, e os móveis não condiziam com a construção modesta. Havia um lustre vitoriano que parecia uma árvore metálica de ponta cabeça, cheia de cristais pendentes, recoberto por diversas camadas de teias de aranha e uma cama enorme de dossel medieval parecida com a que ela tinha em seu dormitório, a não ser pelo fato de que estava partida ao meio, o colchão rasgado e embolorado. Tudo recoberto com tanta poeira que parecia um quadro feito em tons de cinza.
— Como sabia que havia uma escada secreta? É aqui que tem se escondido? — perguntou, avançando tanto para sair de perto da corrente de ar que entrava pela janela quanto para ver mais detalhes do lugar.
— Não, faz tempo que não venho aqui. Era um lugar que eu frequentava muito nos tempos de escola.
— Para fazer vandalismo? — franziu, notando que as paredes estavam todas arranhadas e rabiscadas e que os outros moveis também tinham sinais de ataque, somados ao desgaste do tempo.
— Não. Era um espécie de clube dos Marotos. Nós vínhamos aqui para… ajudar um amigo.
Não foi muito difícil fazer a conexão. Bastou olhar para a porta pendurada nas dobradiças e os arranhões profundos em sua superfície pelo lado de dentro.
— Ajudar um amigo a se transformar em lobisomem? Eu conheci Remus Lupin, lhe contei isso em Tantallon, se lembra? — acrescentou, ao ver a surpresa no rosto dele — E eu eventualmente descobri o segredo dele, só não imaginava que vocês sabiam disso na época de escola.
Esperou Sirius perguntar como ela sabia tanto sobre Remus e estava pronta para desviar o assunto, sem lhe revelar que o bruxo estava em Hogwarts. Já decidira que não ia dar mais motivos para Sirius invadir a escola ou sequer se aproximar do lugar, não quando não os dementadores e o Olho de Hórus estavam rondando os terrenos. Mas o bruxo estava tão compenetrado nas lembranças do passado entranhadas àquela casa que não lhe questionou qualquer coisa. Ele remexia as gavetas e investigava, não procurando algo específico, ela notou, mas tentando achar qualquer coisa que remetesse ao passado.
— Na verdade, Remus foi a razão pela qual nos tornamos animagos. As transformações eram difíceis para ele quando passava sozinho, então viramos animais para poder lhe fazer companhia.
Foi uma coisa boa que Sirius estivesse distraído, porque não viu a culpa cruzar o rosto dela. Por sua causa, naquele mês Remus teria uma transformação dolorosa, solitária e violenta pela frente, sem Wolfsbane.
— Marotos, você disse. — comentou, esfregando os braços arrepiados de frio sob as vestes. — Era como vocês se chamavam? Nome pretensioso.
Ele deu um sorriso enviesado que acendeu seus olhos por um momento. Essa era a parte do passado que não o destruía, ela notou. Os seus tempos de Hogwarts não deviam ser manchados pela culpa ou apodrecidos pelo remorso como eram aqueles da guerra.
— Era como nos chamavam, apenas acatamos a sugestão. Mas tínhamos os nossos apelidos individuais, também.
— Ah, vocês tinham? Por que eu tenho a impressão de que estou prestes a ser submetida a uma considerável dose de vergonha alheia?
Ele girou os olhos nas órbitas e fez um sinal para que ela o seguisse até o corredor. Logo ao pé da escada, cavado na parede com caligrafias diferentes, estavam quatro nomes engraçados ao lado de desenhos. Bervely leu "Pontas", em que o 't' tinha uma galhada torta, "Aluado", com uma lua minguante no lugar do 'u', Almofadinhas, onde o 'o' era uma pata com gominhos, e 'Rabicho', em que o 'i' era retorcido como um rabo e unido ao 'o', que tinha um par de orelhas.
— Meigo. — desdenhou, cruzando os braços para a 'arte' encalacrada na parede, que Sirius encarava solene — Então eu estava certa sobre o vandalismo. Qual deles é você? Rabicho?
— Almofadinhas. — corrigiu com rapidez — Por causa das minhas… patas. Remus dizia que eram as patas mais macias do país, porque ele nunca me ouvia chegar. Mas isso é porque ele vivia com a cabeça na lua.
— Aluado. — ela constatou, observando a caligrafia elegante do bruxo mesmo naquela idade. — Aposto que ele não aprovou esse apelido de primeira.
— Como você sabe? — olhou para ela com desconfiança. Bervely deu de ombros.
— Só pensei que lobisomens não devem gostar muito da lua cheia por razões óbvias.
Na verdade ela tinha pensado no bicho papão de Remus, como aparecera em sua sala antes de ele transformá-la em uma bola de borracha e enviá-la quicando de volta ao baú.
— Ele se acostumou, eventualmente. Combinava com ele. E James era Pontas, porque ele se transformava em um cervo com uma galhada ridiculamente chamativa. — completou, os olhos brilhando de saudosismo.
Ela olhou para o apelido que faltava e não quis perguntar a ele no que Pettigrew se transformava, porque era óbvio que ele era o quarto 'Maroto'. Uma nova corrente de ar vinda do quarto atravessou o corredor e Bervely esfregou as luvas molhadas, sentindo que os dedos ficavam duros.
— Vamos lá pra baixo. Acho que ainda consigo fazer a lareira funcionar, se houver alguma madeira seca.
Percebeu que a expressão dele se tornara pesada, e achou que também pensava em Rabicho. As memórias da escola não eram tão livres de amargor, afinal de contas.
— BD —
Duas velhas cadeiras de perna quebrada viraram lenha para a lareira, cujo fogo se tornara respeitável depois de alguns feitiços inflamáveis feitos pela varinha roubada de Sirius Black. Bervely se encolhera sobre o tapete puído — uma opção melhor do que sentar no velho sofá tomado por traças — e observava o bruxo abanar o fogo cuidadosamente com um velho encarte de compras.
Ele emagrecera. Ela sabia pela forma com que seus ossos se esticavam sobre a pele do rosto e também das mãos, que estavam mais ossudas do que na última vez. Lembrando-se que fizera um assalto à cozinha de Hogwarts antes de sair do castelo, retirou da mochila dois sacos de papel entregues pelos elfos para 'viagem', e tirou lá de dentro metade de um bolo de laranja e umas cinco tortinhas de carne.
— Comida de Hogwarts! — exclamou saudoso, vindo para perto dela no tapete como se houvesse um imã na comida e outro em sua barriga. — Isso está entre o meu top cinco do que senti mais falta naquela prisão dos infernos.
Bervely observou Sirius devorar as tortinhas uma atrás da outra mostrando a mesma ausência de finesse que exibira no castelo Tantallon. Quando viu que estava sendo observado, ele parou com a comida à meio caminho e seus olhos cresceram em alarme.
— Ops… isso era para nós dois?
Ela balançou a cabeça, reprimindo um sorriso. Na verdade não tinha comido nada desde que acordara, mas podia revolver isso quando voltasse ao castelo. Black, por outro lado, só tinha como opção caçar animais na floresta ou assaltar a dispensa do Três Vassouras.
— Então — disse quando toda a comida já tinha sido exterminada, e ele lambia os dedos de um jeito que faria Narcissa Malfoy mandar cortá-los fora — Quais as outras quatro coisas?
— O quê? — Sirius perguntou distraído, revirando os sacos de papel para ver se esquecera alguma migalha.
— Da sua lista de cinco coisas que mais sentiu falta em Azkaban.
Ele se deteve, pego de surpresa com a pergunta. Suas sobrancelhas escuras se franziram enquanto considerava, levando-a a achar que fora mais modo de dizer, que não existia realmente um top cinco até o momento. Se sentiu sem graça por perguntar e desviou os rosto para que ele não percebesse.
— Quadribol definitivamente foi uma delas. — falou o bruxo depois de um tempo, quando o silencio começou a ficar estranho. — Essa foi uma das razões para eu ter ido ao campo aquele dia. Por falar nisso… você tem notícias de Harry? Ele ficou bem depois da queda da vassoura?
Estava demorando, Bervely pensou com desdém e respondeu com uma pequena careta.
— Ele está ótimo. Potter é inquebrável, ele matou um basilisco ano passado, não é uma queda à toa que vai acabar com ele.
Ela se arrependeu de ter mencionado o Basilisco, ja que Sirius se interessou o bastante para fazê-la contar a história. E essa levou à outra, do ano anterior do garoto, onde ele previnira o Prof. Quirrel de roubar a Pedra Filosofal após transpor uma série de proteções colocadas pelos professores e com isso ganhar pontos muito questionáveis para si e os amigos que fizeram com que, no final, Grifinória levasse a Taça das Casas. Sirius não se mostrou interessado em discutir a (in)validade daquela vitória de última hora da Grifinória, ele era todo olhares de admiração para os feitos do afilhado. Bervely gostaria de arrancar aquele olhar abobalhado da cara dele de algum jeito, então ela desviou o assunto quando achou oportunidade.
— As pessoas ainda acham que você está rondando o castelo atrás do garoto. Essa semana houve outra reunião para garantir que Potter fique seguro durante o Natal, desde que ele decidiu passar o recesso no castelo.
— Bem, eu já lhe disse que não estou. — retrucou, encarando o fogo estalar na lareira acesa. Ele também estava com as costas apoiadas no sofá, as pernas longas estendidas ao tapete e os cotovelos apoiados no assento puído, o que fazia com que parecesse relaxado, mas ela notou que o assunto provocara uma leve tensão em seus ombros.
— É de Johanne que você está atrás, então?
A tensão aumentou, e pelo canto de olho ela viu que os maxilares dele tinham endurecido também. Mas Beverly estava cansada de rodear assuntos a respeito dos quais Black não queria falar. Isso fazia parte de uma pungente impaciência que vinha lhe dominando nas últimas semanas.
— Responda a minha pergunta, Black. — exigiu, quando ele ficou calado por quase um minuto encarando o fogo. Ouviu um suspiro exasperado.
— Por que eu estaria atrás dela? — perguntou aborrecido. — O que eu vou querer com uma menina de doze anos que nem se lembra quem eu sou?
— Eu não sei. Talvez seja justamente esse o problema. — retrucou com igual irritação. Sirius fez o favor de olhar para ela, visivelmente incomodado.
— Do que é que você está falando, que "problema"?
— Ela tem medo de você, porque ela não sabe quem você é de verdade. Ela acredita no que os jornais dizem sobre o que fez para ir preso e está aterrorizada de que esteja indo atrás dela para lhe fazer mal de alguma maneira.
Ele pareceu horrorizado.
— Eu jamais faria mal à minha filha!
— Bem, ela não sabe disso. — disse asperamente, seu coração doendo por alguma razão. — E eu gostaria de poder contar, mas eu não tenho nenhuma prova concreta e para ser sincera, acho que ela ouviria isso melhor se viesse diretamente de você…
— Não.
O tom conclusivo dele a exasperou ainda mais, especialmente porque Bervely já previa a resposta.
— Ela está aterrorizada! Você é o bicho-papão dela, Black, pelo amor de Merlin!
A notícia atingiu Sirius como um tapa, o deixando aturdido. Ela viu várias emoções cruzarem o rosto dele, mas a última foi a mesma teimosia de sempre, tornando seu rosto uma máscara rígida.
— Talvez seja melhor desse jeito.
— Como é? — Bervely falou, sem acreditar. — Como isso é melhor?
— Johanne não merece alguém como eu na vida dela. Eu falhei com ela e há uma razão para ela acreditar nos jornais, porque sabe, eles estão certos. Ela está bem agora, e não serei eu a estragar a vida dela mais uma vez depois de todo esse tempo.
— "Bem"? — Bervely cuspiu, meneando a cabeça. — Você é um idiota.
— É, tanto faz. Desde que você não caia na besteira de contar nenhuma asneira para ela sobre mim.
Bervely deixou a cabeça cair para trás, frustrada, esfregando seu rosto com as mãos. Por que tinha ido até ali? Sirius Black era o bruxo mais teimoso e complicado que existia no mundo, e ela sentia que já fizera tudo que estava ao seu alcance para ajudá-lo, mas havia um limite imposto entre eles e, só dessa vez, não era por sua culpa.
E ela estava se cansando de tentar atravessá-lo.
— Eu vou embora. — anunciou, preparando-se para levantar, mas para sua surpresa Black segurou seu braço em um movimento rápido, trazendo-o para sua frente.
— Onde foi que você conseguiu isso?
Falava da coleira, que ela voltara a enrolar em seu braço e se esquecera de tirar, por força de hábito. Bervely puxou seu braço da mão dele e o recolheu junto ao corpo, o coração disparado.
— Eu achei. Você deve ter perdido naquele dia na floresta.
— Mentira. Não minta para mim, garota.
— Você é um hipócrita, Black. Você é o rei das mentiras. Prefere deixar sua filha aterrorizada ao ouvir falar de seu nome do que encarar ela de frente e explicar que ferrou com tudo, mas que não é um assassino. Sai da frente, eu estou indo embora.
Ele não recolheu as pernas, de forma que precisou passar por cima delas para alcançar seu casaco, pendurado na única cadeira que sobrara na sala. Enfiou os braços na manga com violência e já se adiantava para a escada quando o ouviu chamar.
— Bervely.
Seu tom era condescendente. Ela parou com o pé no primeiro degrau, suas mãos segurando firme o corrimão enferrujado de um lado e de outro.
— O quê? — perguntou ferozmente, de costas.
— Você pode voltar aqui, por favor?
— Não.
Suspiro. Ela continuava parada no degrau, sem saber porque já não tinha ido embora. Obviamente ele não tinha nada novo para falar, só a levara ali para ganhar comida e contar velhas histórias sobre animagos.
— Você está certa, garota.
— Eu geralmente estou, então fique à vontade para ser mais específico. — disse com arrogância para o lance de escadas empoeirado. Novo suspiro frustrado às suas costas.
— Você está certa sobre eu não conseguir encará-la e deixa-la saber que é por minha causa que a mãe dela está morta.
Um arrepio desagradável perpassou os braços e coluna dela ao ouvir a afirmação. Bervely negou, as mãos ainda firmes no corrimão.
— Isso não é verdade.
— É sim. Era o meu papel manter a minha família segura e nem isso eu consegui fazer. Eu deixei Olívia sozinha e ela nunca me perdoou por isso, e Johanne também não vai me perdoar. É o direito dela.
— Olívia está morta. — disse com aspereza, sem se importar se estava sendo insensível — E Johanne precisa de um pai.
— Será mesmo? Olhe pra você, cresceu sem um pai… e acabou bem.
Ela deu um riso amargo, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.
— Sério?
O fogo estalava alto, mas não pode abafar o rangido dos passos de Sirius sobre o assoalho apodrecido. Ela tentou investigar o que ele estava fazendo pelo canto de olho, sem querer dar o braço a torcer, mas acabou virando ao perceber que ele tentava despregar umas tábuas do chão, junto à parede.
— Mais vandalismo, Black?
Ele estava sério, no entanto, e finalmente conseguiu arrancar a tábua certa, sob a qual tirou três garrafas de cerveja amanteigada. O rótulo antiquado deixava muito claro de que época elas eram — do tempo de Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas.
— Sabia que tinha guardado isso aqui! Será que é como vinho e fica melhor com o tempo? Bem, vamos descobrir…
Bervely ficou olhando incrédula ele abrir uma das garrafas com a varinha e dar um gole experimental. Fez uma cara duvidosa, depois deu de ombros, como quem resolve que o que não mata embebeda.
— Aceita?
— Nem morta. Isso deve ter gosto de 1980.
— Anda, você parece estressada desde que chegou aqui. Bebe e dá uma respirada. — ele lhe estendeu a bebida, persuasivo. Ela resistiu, mas acabou cruzando a distancia que faltava para pegar a garrafa em sua mão, mas não a abriu. Sirius a olhava com atenção, tentando ler sua expressão e Bervely percebeu que fora um erro achar que ele estava alheio às suas reações para a conversa que estavam tendo há um minuto.
Sob o olhar insistente dele, ela arrancou a tampa e deu um gole mínimo. Tinha gosto de sola de sapato.
— Eu não sou indiferente à Johanne. — ele disse de repente, a voz mais séria do que em qualquer outro momento, lhe olhando nos olhos com intensidade — Eu só não quero atrapalhar a vida dela com tudo que significa ter um pai procurado pela justiça. Já basta… já basta o quanto isso afeta você.
Ela negou, de repente sentindo o ar fugir.
— Não afeta. Bem, afeta um pouco. Mas é diferente, eu que procurei por isso. Eu fui até Azkaban e ajudei você a fugir. Era de se esperar que houvessem algumas implicações.
Ele assentiu, sem tirar os olhos do seu rosto. Bervely se sentiu na cela de novo, frente à frente com ele pela primeira vez no momento em que ele soube quem ela era de verdade.
— Não acho que imaginava o tamanho do problema quando o fez, de qualquer maneira.
— Não importa. — ela disse num fio de voz. Por que não importava mesmo. Sabia que faria tudo de novo. Era estúpido pensar assim, mas faria. Com dementadores, lobisomens, traumas na cabeça, fuga no verão, ameaças de Gavril Romansek, o pacote completo.
— Eu posso ver que eu decepciono você. Por que eu não sou, nem de longe, o que você esperava encontrar quando isso tudo começou. – ele completou num tom sombrio, dando mais um longo gole.
— Ah, faça o favor, não comece com essa conversa de novo. — Bervely fez um ruído de impaciência, pressionando os lábios. Mas ele se adiantou em menear a cabeça de modo que ela não continuasse reclamando.
— Vai ser diferente quando eu provar minha inocência, Bervely.
E ela não continuou negando, porque o encarava num fio de esperança cansada.
— O quão perto você está disso? — perguntou, deixando suas pálpebras pesarem em descrença. Ele, no entanto, aparentava maior confiança do que ela tinha visto em qualquer outra conversa sobre o tema.
— Mais do que antes. Dessa vez tenho um plano.
— BD —
Não importou o quanto pediu, Sirius não lhe revelou seu plano para provar a sua inocência, afirmando que as chances de dar certo eram maiores se fosse segredo completo. A possibilidade de Black achar que ela podia atrapalhar, ou que era inútil para ajudá-lo lhe ofendia, mas esse argumento também não o convenceu.
— Se desofenda. — foi o que ele disse, pondo um fim no assunto. — E pare de pensar sobre isso, você vai acabar ganhando uma ruga no meio da testa.
Ela só esperava que não envolvesse outra entrada desastrosa em Hogwarts, e quando comentou isso, Sirius se desviou do assunto habilmente de volta para o Quadribol. De repente, ele estava perguntando se Potter já tinha arranjado uma nova vassoura.
— Eu não acho que ele tenha, está treinando com uma Shotting Star emprestada da escola o mês todo.
— Como você sabe disso? Não me diga que a monitora-chefe anda espionando os treinos da Grifinória? — perguntou suspeitoso, ao que ela fez uma careta.
— É claro que não, eu mal tolero as partidas oficiais, quanto mais treinos do time adversário, faça-me o favor, Black. Mas como você mesmo disse eu sou monitora-chefe, eu sei das coisas.
Ele lhe encarou com uma suspeita ainda maior. A verdade é que Bervely só tinha aquela informação porque se tornara uma das queixas recorrentes de Oliver quando eles se encontravam por acaso – quando ele estava saindo do treino e ela começando a ronda. Às vezes ele se juntava a ela na ronda para 'garantir que os corredores eram seguros'. Não raro, ele se juntava a ela em seu quarto depois da ronda – claramente não para garantir a segurança da sua cama.
— Bem — pigarreou Sirius, interrompendo seus devaneios — Isso nos leva à razão pela qual te chamei aqui hoje.
— Então tinha uma razão, não era só pra me apresentar o clubinho dos amigos do lobisomem.
Ele ignorou a piadinha, a não ser pelo canto da boca se torcendo.
— Você não teria planos para o resto do dia, teria? O meu pedido envolve um passeio à Londres e pode demorar um pouco.
Quando ele lhe explicou o que queria, Bervely quis bater a garrafa de cerveja amanteigada na cabeça de Black para ver se lhe retornava algum bom senso.
— Você quer que eu vá à Londres comprar uma vassoura para Harry Potter?
— A melhor que você encontrar. — enfatizou — Não importa quanto custar. Eu não estou por dentro dos lançamentos da última década, não dá pra confiar nos vendedores de artigo esportivo que nem jogam quadribol de verdade e eu sei que você não é nenhuma leitora de Artigos para Quadribol, então garanta que alguém que entenda possa lhe dar uma orientação.
— Black, vassouras custam dinheiro. — e essa, ela pensou, era só a primeiro da longa lista de controvérsias que o pedido trazia.
— Ah, isso. Você vai precisar da chave do meu cofre em Gringotes. Ele deve continuar intacto, porque esteve sob um codinome desde que foi adquirido. Meu padrinho me passou sua herança quando eu fugi de casa, já que se o meu cofre estivesse em meu nome meus pais poderiam confiscar, então… bem, longa história. Se lembra de quando estávamos no Hotel em Devon e eu disse que ia pensar em um jeito de pagar a sua dívida com o… o cara do Olho?
Ela assentiu, tentando parecer neutra, embora a mera menção de Gavril Romansek fazia uma veia sua cabeça começar a pulsar.
— Eu fui checar se o lugar que a chave ficou ainda existia. Continua lá, mas eu não pude entrar porque na época não tinha uma varinha para desfazer os feitiços de proteção. Fica em Londres…
Bervely reconheceu imediatamente o endereço.
— É o apartamento de Loren. Eu estive lá ano passado, foi onde encontrei Remus Lupin e descobri que você estava em Azkaban.
— Ah. Certo. — Sirius pareceu desconcertado por um momento, mas logo se recompôs e lhe explicou o restante; onde achar a chave e como retirar dinheiro de Gringotes, algo que ela nunca tinha feito sozinha antes. — … e você pode retirar a quantia para pagar a sua dívida, e quanto queira para você mesma. Imagino que a sua 'herança' por parte de sua estimada mãe não tenha sido entregue no seu aniversário, não é mesmo?
Ela não soube o que dizer; era, estranhamente, a coisa mais paternal que Black fizera por ela desde que saíra da prisão. Sua primeira reação foi avisar que não havia mais dívida — pois fora convertida em perseguição e chantagem — mas não era um assunto no qual gostaria de entrar. Além do mais, ele estava falando novamente.
— Você acha… que poderia comprar algo para a sua irmã? Algo que ela fosse gostar. Sem dizer que eu mandei, claro. Ela gostava de pássaros quando era pequena, não sei se ainda gosta. Ela tem uma coruja?
E lá estava ela sem fala novamente. Bervely não sabia porque seus olhos estavam formigando.
— Bervely?
— Claro. — piscou, sacudindo a cabeça — Vou pensar em alguma coisa. Acho melhor eu ir então. Não acredito que vai me fazer comprar uma vassoura, Black.
Ele sorriu, achando graça da contrariedade dela.
— Não se esqueça de consultar um especialista. Harry precisa da melhor vassoura para poder vencer a Taça esse ano.
— Já passou pela sua cabeça que talvez eu prefira que o meu time ganhe a Taça? O que te faz pensar que não vou entregar a Potter uma vassoura que sei lá, voe para trás toda vez que ele tente pegar o pomo?
Sirius fez um barulho de descrença para a sua ameaça.
— Pensei que você não desse a mínima pra o quadribol.
— Mas eu ainda tenho que prezar pela dignidade da minha casa, está lembrado? Além do mais nós somos os favoritos esse ano, não a Grifinória!
Ele meneou a cabeça, enquanto a acompanhava na subida da escadaria até o segundo andar, onde ficava a saída pela escada invisível.
— Não era você que seguia os lemas dos Black à risca? Aquele que veio antes de todos, como era mesmo? Ah, é, família primeiro… Harry é meu afilhado, o que o torna praticamente seu irmão de consideração.
— Merlin, acho que vou vomitar, pare com isso agora mesmo.
Ele deu uma risada sonora que parecia um latido de cachorro, e algumas batidinhas em suas costas antes que ela começasse a escalar a janela.
— BD —
— Oi.
— Olá. — ele lhe respondeu no mesmo tom, mas com um sorriso reluzente muito controverso em meio a toda a neve e frio circundante.
Fora uma tarefa mais difícil do que o esperado localizar Oliver Wood em Hogsmeade. Como ela não tinha ideia do que grifinórios faziam para se divertir num dia fora do castelo e algumas voltas no vilarejo não resultaram em nada, acabara indo até o correio e alugado uma coruja, com a qual lhe enviou uma mensagem.
Vinte minutos depois e ali estava ele, usando um suéter preto de lã grossa e gola alta, que ela já tinha visto um par de vezes em Hogwarts, nenhuma das quais estivera perto o suficiente para notar o quanto lhe caia bem. Isso e as calças justas de jeans claro, e ele parecia quase arrumado demais para um corriqueiro passeio em Hogsmeade.
Bervely esperou que Oliver chegasse até onde ela estava, em cima de uma pilha de caixotes atrás da Dedosdemel. Para esperar, comprara um pacote de diabinhos de pimenta, mas já estavam no fim.
— Por que você está aqui fora congelando? — ele quis saber, escalando as caixas para sentar ao seu lado. Mesmo com o nariz dormente, sentiu o cheiro de loção e banho e cheiro de Oliver entrar pelas suas narinas quando ele se moveu perto dela. Deu de ombros para a pergunta e lhe ofereceu diabinhos.
— Deixa eu adivinhar, evitando me encontrar em um lugar público? Não, isso queima a língua.
— Fresco. E sim, eu estou evitando virar o novo assunto da escola, não posso encaixar mais isso na minha agenda lotada.
Ele tirou o saco de doce de suas mãos e as colocou entre as suas, esfregando-as. Bervely tirara as luvas quando parara de nevar, mas ainda assim elas pareciam pedras de gelo. As deles por sua vez deviam possuir fogo particular, queimando sob a pele, mesmo que ele não usasse luva nenhuma.
— Vamos tomar alguma coisa quente no Três Vassouras. Podemos fingir que estamos discutindo a sistemática de treinos. Podemos até discutir de verdade, eu deixo você me chamar de capitão bitolado como da última vez. — ele brincou, em seguida levantando as mãos dela até sua boca e soprando hálito quente nelas.
Bervely rolou os olhos. Ela achou melhor ignorar o calorzinho na barriga e o arrepio que se espalhava pelos seus braços quando ele fazia aquilo.
— Não precisamos brigar para eu te chamar de capitão bitolado. E eu não te chamei pra um encontro, na verdade, só quero fazer uma pergunta.
— Ai de Bervely Black se tivesse me chamado para um encontro. — desdenhou, diversão em seus olhos, agora pousando as palmas dela em seu rosto para medir a temperatura. Ela escorregou os dedos para fora das bochechas dele, o atrito contra a pele lhe lembrando que era melhor interromper aquele ritual antes que perdesse o foco. Oliver pareceu ligeiramente desapontado quando ela enfiou as mãos nos bolsos outra vez, agora devidamente aquecidas.
— Eu sei que você deve ter suas coisas para fazer, mas isso será rápido.
— Eu tenho. Na verdade, combinei de me encontrar com Katie para discutir umas táticas que podemos usar contra a Corvinal no próximo jogo. Só eu e ela, porque não queremos o resto do time atrapalhando nossa inevitável e magnética atração.
— Wood. — advertiu, estreitando os olhos. Ele riu, inclinando a cabeça como quem faz uma concessão.
— Faça sua pergunta, Rose.
— É sobre vassouras. Se eu hipoteticamente fosse comprar uma hoje–
— Você vai comprar uma vassoura? — pelo modo como a luz se acendeu nos olhos dele e no resto de seu rosto, ela percebeu que fora uma péssima ideia lhe perguntar. Deveria ter seguido com o primeiro plano e consultado Flint, no que estava pensando?
— Eu disse hipoteticamente. — corrigiu, tentando esfriar a empolgação dele antes que atingisse níveis perigosos.
— Você quer aprender a voar? Eu posso te ensinar. Podemos ressuscitar o Clube de Voo! Você tem jogadores de quadribol na família? Eu acho que você seria uma ótima…
— Oliver! — Ela chamou para a realidade, estalando os dedos — Não é pra mim, ok? Você pode parar de surtar e responder a minha pergunta?
— Para quem seria? Para quem é? — ele parecia um cachorrinho a quem ela já tinha mostrado a bola, e agora não podia fazer nada senão insistir que fosse jogada para ir buscar.
— Não posso contar.
— É pra a Anne? Eu acho que seria uma boa ideia, mesmo que a professora Hooch não tenha deixado ela fazer o teste para o time esse ano, se trabalharmos em sua técnica de voo não vejo porque…
— Anne tentou entrar pra o time esse ano? — ela perguntou surpresa. Oliver assentiu, sua empolgação ligeiramente drenada.
— Tentou, eu soube porque os gêmeos Weasley foram assistir a escalação da Corvinal, huh… à paisana. E eu percebo agora que provavelmente não deveria estar lhe contando isso, não sobre Anne, mas sobre os gêmeos… mas, ela não te contou? — Bervely negou. Ele fez uma pequena careta franzindo seus lábios. — A prof. Hooch disse que era muito perigoso deixá-la mesmo subir numa vassoura sem poder enxergar. Tentei falar com ela, porque ela gostava tanto do Clube de Voo e tudo mais, mas ela não quis discutir o assunto.
Bervely buscou ocultar sua opinião sobre o evento pegando mais um diabinho de pimenta no saco. Oliver não precisava saber que ela ia ter uma conversa seria com Madame Hooch quando voltasse ao castelo.
— A vassoura não é pra Anne, de qualquer maneira.
— Bem, para quem então? Como vou poder te ajudar se você não me dá todas as informações? — De repente, ele torceu o rosto de um jeito desconfiado — Hey, você não está me pedindo ajuda para comprar vassoura para alguém do time da sonserina, né?
Bervely bufou com impaciência, o diabinho queimando em sua língua.
— Quer saber, Wood, deixa pra lá. Eu vou perguntar pro Flint…
— Espera ai. — disse enfático e de cara feia — Eu respondo!
— Ok. — Bervely cruzou os braços, esperando. — Me diga qual a melhor vassoura do mercado.
— Pra quadribol?
— Sim.
— Qual a sua faixa de preço?
— Oliver!
— Okay. Meu deus, como você é esquentada. A Firebolt é a melhor vassoura, acabou de ser lançada. — Mesmo quando ele disse o nome da vassoura, seu rosto todo brilhou de fascinação. — Mas é uma pequena fortuna, então uma segunda boa opção seria…
— Essa está boa. Firebolt, né? Obrigada.
Bervely apoiou seus braços para descer do caixote com um pulo suave, pousando no chão fofo de neve. Oliver desceu também, se apressando para alcançá-la.
— Hey, espera ai. Você vai comprar agora? — perguntou com espanto.
— Por que? É proibido comprar Firebolt na lua crescente ou algo do tipo? — debochou, impaciente.
— É só que não é algo que você vai achar na esquina, especialmente não na de Hogsmeade. Você tem que fazer o pedido para a distribuidora ou então ir em Artigos Para Quadribol no Beco Diagonal…
— Eu sei, Oliver. Não sou uma completa estúpida.
Ele apertou seus lábios um contra o outro. Fazia isso sempre que achava que ela estava sendo pouco razoável. Bervely tendia a aumentar a sua irrazoabilidade ultimamente, porque ver a expressão no rosto dele lhe causava uma estranha satisfação.
— Por favor me diga que você não está pensando em escapar para Londres sozinha nas atuais circunstâncias! — ele disse muito serio. Bervely teve uma vontade quase incontrolável de rir, mas só ergueu o canto da boca.
— "Atuais circunstâncias"?
— Você sabe do que eu estou falando!
— Estava tudo bem ir à Londres quando a lua está em Vênus, da última vez que eu chequei.
Ele intensificou ainda mais sua Cara da Irrazoabilidade da para ela.
— Rose, eu quero dizer: Black. Ele ainda está por ai. — rosnou por entre os dentes. Bervely desviou o rosto, porque ela não sabia que tipo de expressão poderia denunciá-la quando o assunto era Black.
— Ele não vai vir atrás de mim ou qualquer coisa do tipo.
"De novo, no mesmo dia, pedindo para que eu compre outra coisa absurda", completou mentalmente.
— Bem, você não sabe disso.
Ela deu um suspiro pesado e preparou o seu melhor olhar cético para ele.
— Por favor não me diga que você está entrando no modo grifinório protetor, porque eu vou ter que ter que te atingir com o meu punho se você vier pra cima de mim com isso.
— Eu não… urgh. — soprou sua frustração, deixando os braços caírem aos lados do corpo — Por que você é assim? Eu só quero que você fique segura, por que você tem que fazer disso algo ruim? Olha, que eu me lembre, da última vez que você foi sozinha para Londres…
— Eu descobri que meu pai estava vivo e era um criminoso. — disse, cortante. — Não vejo como isso pode acontecer novamente.
Ela avançou pelo caminho que a levaria até a rua principal, ladeado o pequeno prédio de dois andares da Dedosdemel. Podia ouvir rangido dos passos dele lhe seguindo, mas a lembrança da 'última vez que fora a Londres sozinha' tinha lhe recordado do seu retorno: aos prantos, e direto para os braços de Oliver, que na época era praticamente um estranho. Poucas situações tinham sido tão constrangedoras na sua vida. Será que Wood não entendia?
— Rose, espera ai.
— Não fale comigo em público. — ela disse entredentes, apressando o passo. — As pessoas vão pensar que temos alguma coisa.
— Nós temos alguma coisa.
— Nesse momento, tudo que temos é uma divergência de opiniões, a minha sendo a certa, então se não se importa em parar de me seguir… — Ela tentou se desvencilhar dele, mas qualquer movimento brusco sobre toda aquela neve a levaria para o chão, e tudo que Bervely não queria era fazer uma cena no meio de Hogsmeade.
Não que houvesse muita gente para ver. A maioria dos alunos só saia na rua principal por tempo o bastante para ir de uma loja à outra e grande parte deles estava enfiada no Três Vassouras bebendo algo quente.
— Rose, se você não parar de correr, eu vou gritar algo constrangedor bem alto. — ameaçou, dois passos atrás dela e soando aborrecido.
— Vá em frente, mate a si mesmo de vergonha, eu vou fingir que não te conheço. — retrucou com indiferença, praticamente deslizando na neve enquanto seguia em direção à estação de trem.
— Vai ser algo constrangedor para você. Eu vou gritar que Bervely Black tem uma tara por jogadores de uniforme.
— Você não seria louco. — seu rosto esquentou com a mera sugestão, e ela apertou o passo mais ainda, querendo abrir uma boa distancia dele.
— BERVELY BLACK TEM UMA TAR—
Ela girou seu corpo tão rápido que estava em cima dele em dois segundos, tapando sua boca com uma mão e lhe dando socos no ombro com a outra. Longe de surtir o efeito desejado, ele começou a rir por baixo de sua mão.
— Você é um idiota! — tirou a mão da boca dele, só para poder dobrar o numero de socos.
Ao invés de se afastar da violência gratuita, Oliver passou os braços em torno de sua cintura. Ali, no meio de Hogsmeade. Bervely tentou se desvencilhar, mas as botas deslizavam na neve e sem tração ela era um passarinho na armadilha.
— Segurem o mundo, eu fiz Bervely Rose Black corar.
— De raiva!
— Pare de ser adorável ou eu vou ter que te beijar agora mesmo. — ele ameaçou, um brilho perigoso em seus olhos que estavam caramelo claro sob toda a luz do dia. Se havia alguma coisa para se derreter dentro dela ainda, virou liquido naquele exato momento.
— Qual o problema com você hoje, Wood? — perguntou, ao mesmo tempo que se afastava, ofegando ligeiramente. Mas não se afastou muito. A malícia na expressão dele não diminuiu nem um pouco.
— Eu tenho um fraco por garotas de mãos geladas e hálito de pimenta.
— Vá se ferrar.
Ela recomeçou a andar, ouvindo a risada sonora dele atrás de si e a continuidade dos passos dele. Seu coração ainda batia acelerado e uma parte dela, uma muito traidora, queria os braços dele de volta em torno de sua cintura, se possível acompanhados dos lábios macios dos quais já estava sentindo uma falta vergonhosa.
Qual era seu problema?
A estação se tornou visível, uma pequena construção vermelha em arco ao lado dos trilhos. Como era de se esperar, não havia nenhum aluno de Hogwarts à vista, só moradores locais. Bervely soltou um suspiro de alivio ao sentir o ambiente aquecido por feitiços potentes. Era bom poder respirar sem que o ar gelado queimasse suas narinas, para variar.
— Qual trem vai pegar? — ele se aproximou por trás dela, falando mais perto do seu ouvido que o necessário.
— Nenhum.
Havia um grande mapa encantado da Grã-Bretanha em uma das paredes do terminal. Com a ponta da varinha, era possível aproximar as áreas do mapa que queria ver com mais detalhes e localizar pontos bruxos importantes assinalados em cores de acordo com sua natureza. Roxo para instituições públicas, verde para estabelecimentos comerciais, vermelho para pontos seguros de aparatação. Londres, que ao toque de sua varinha se estendeu diante dela com grande nível de detalhes, contava com uma aglomeração verde significativa perto da Charing Cross Road, que era o Beco Diagonal, e outra assinalada em roxo mais adiante em Westminter, que ela sabia ser o Ministério da Magia.
— Vai aparatar?
Bervely não lhe respondeu, inclinando o corpo para olhar mais de perto, compenetrada em localizar um endereço no mapa. Por alguma razão não o esquecera por todos aqueles meses, desde que estivera lá da primeira vez.
— Você pode aparatar no Caldeirão Furado, como fizemos da última vez. Lembra, na Páscoa…
Ela ajeitou a postura, virando-se para ele com seriedade.
— Oliver, sério. Vá fazer um campeonato de queda de braço, ou seja lá o que os grifinórios fazem em seu tempo livre. Eu agradeço pela dica da vassoura, mas assumo por aqui. Vou sobreviver.
— Me deixa ir com você. — ele insistiu, o cenho franzido, as mãos teimosamente enfiadas nos bolsos da calça.
— Não preciso de proteção.
— Então me deixa te fazer companhia.
Ela abriu a boca para mais uma negativa automática… e parou no meio do caminho. Seus olhares se encontraram e ele parecia um filhote de alguma coisa biologicamente programada para ser impossível de ignorar. Bervely fechou os olhos e deu um suspiro longo.
— Minha companhia é tão ruim assim? — o ouviu perguntar, enquanto ainda tinha seus olhos fechados.
— Wood, se alguém nos ver…
— Se alguém de Hogwarts nos ver, você pode dar uma detenção a essa pessoa porque ela não deveria estar fora da escola. Ou então se ela for maior e tiver permissão, você dá uma detenção mesmo assim, sei que pode arranjar um motivo. E se a pessoa não for de Hogwarts, qual a diferença de nos ver juntos? Não vão saber quem a gente é, mesmo.
— Tecnicamente você precisaria de uma permissão para deixar a escola. — argumentou, molhando os lábios ressecados.
— Você tem uma para ir?
— Eu sou monitora-chefe.
— Viu só? Eu não podia estar em melhor companhia. — ele exibiu um sorriso vitorioso irresistível. Ela sabia que era irresistível porque estava, contra toda a lógica do universo, considerando a possibilidade.
— Você não pode contar pra ninguém.
— A quem eu contaria que escapei da escola com uma sonserina esquentada pra comprar uma vassoura? Se bem que, pensando melhor, acho que Katie ia curtir essa história…
— Wood.
— É só uma brincadeira inofensiva. — ele encolheu os ombros, travesso.
— Pessoas já morreram por comentários mais inofensivos, acredite em mim. — ela disse, fuzilante.
Mas Oliver sabia que ela tinha cedido, e nada podia tirar o sorriso de seu rosto naquele momento.
So don't go away
Say what you say
But say that you'll stay
Forever and a day
(Então não vá embora
Diga o que disser
Mas diga que você ficará
Para sempre e mais um dia)
Don't Go Away — Oasis
(Continua...)
