Pandora caminhou pela escada de nuvens entre os dois titãs – um a cada lado seu, certificando-se de que ela não iria fugir do seu julgamento. Respirou fundo ao avistar a mesa redonda de mármore cintilante. Atravessou a pequena passagem e caminhou até o grande trono dourado posicionado no meio das mesas. Ela ficaria de costas para quase todos eles. Seus cabelos estavam pesados e haviam perdido o movimento da magia; as mechas cor púrpura estavam apenas escorridas seguindo o contorno de sua lombar. Sentou-se no trono de ouro e os titãs posicionaram-se aos seus lados segurando grandes lanças de ouro. Levantou o olhar desafiadoramente e sorriu.
"Olá, pai."
De onde estava podia apenas ver três rostos com clareza. Zeus estava à sua frente. Com seus cabelos grisalhos, com o rosto másculo, o maxilar quadrado e seu porte arrogante de Deus de todos os Deuses. Hera estava a sua direita, os cabelos dourados num tom de mel bem assentados por baixo da grande coroa e um olhar distante. Hera nunca gostara dela, mas Pandora não podia se importar menos. Aquela era Hera e ao contrário do que os livros dos pobres mortais diziam, não havia nada de deusa-mãe naquela criatura. Hera era uma mistura de ciúmes, vingança, atos de desespero e de crueldade desnecessária. Não podia ser menos mortal.
Sorrindo, Pandora observou Atena posicionada à esquerda de seu pai. Os cabelos cor de cobre brilhavam incessantemente, os olhos verdes a encaravam profundamente. Não sabia se devia confiar nela. Não olhou além mas podia sentir a presença de cada um deles. Podia sentir o hálito de vinho de Dionísio. Sorriu.
Um trovão barulhento ressoou entre eles, e o silêncio se fez presente. A voz forte e rouca como um trovão se fez presente. "Pandora roubou uma maça dourada e Cronos exige uma punição. Atena apelou para um julgamento justo."
"Tinha que ser a chata." Resmungou Hermes e Zeus jogou um raio na direção do Deus moreno.
"Cale-se, tormento."
Ares, que estava sentado ao lado de Hermes, ergueu o olhar cor de fogo e observou Pandora por trás. De onde estava podia apenas ver o trono e o topo dos cabelos purpúreos como os raios solares. "Ela revelou os segredos dos deuses a um mero mortal. Brincou com os tempos e com o passado e presente. Deve morrer e seu sangue ser jogado pelo templo do Olimpo."
Zeus observou o Deus leviano. Ares não era o Deus mais apropriado para um julgamento justo. Deus da guerra e violência, temido pelos deuses e pelos mortais por sua sede de sangue e sua falta de clemência por quem quer que fosse. Uma face perfeita, uma beleza impecável abrigando um monstro sanguinário. "
"Se Pandora não continuasse com essa maldita incumbência de provar a nós que esses mortais valem alguma coisa, isso não teria acontecido. Você deu este poder a ela. Você permite que ela vá até a Terra e nos traga esses problemas." Resmungou Hefesto, erguendo-se de seu assento à mesa celestial. Hera o olhou com desprezo.
"Sente-se, tolo desprezível."
"Se ela fosse tão inteligente não teria aberto a maldita caixa!" Gritou ele, e Hera abriu as palmas de modo que fogo o consumiu, instantaneamente. Todos permaneceram impassíveis como se nada estivesse acontecendo. Zeus sinalizou com um dedo e as cinzas desapareceram no ar.
"Esses mortais realmente valiam a pena." A voz melódica e sedutora de Afrodite chamou a atenção de todos. "Eu os observei." Afrodite mirou seus olhos azuis em Zeus, os cabelos escuros descendo em cascatas pelos seus ombros como uma moldura para sua túnica branca. Uma tiara dourada lhe adornava o topo da cabeça. "Havia amor ali. Dos mais fortes já encontrados nas existências destes povos irrisórios. "
"Aquele coração era de fato um bem muito precioso. Algo a ser cobiçado por cada um de vocês e é exatamente por isso que ele mereceu a maçã dourada." Defendeu-se Pandora. Zeus ergueu as sobrancelhas em total incredulidade, a mão sobre a boca, os dedos tamborilando em sua barba acinzentada.
"Ele é o escolhido?"
"Ele é." Resignou a pequena mulher sentada no trono dourado.
"Você não se sentiu ameaçada pela beleza daquela mortal?" Brincou Hermes.
Afrodite mudou de forma, e Pandora virou-se a tempo de vê-la transformando-se em Regina Mills. Hermes sorriu maliciosamente, e Apolo remexeu-se. Ares sorriu.
"Essa era a aparência da mortal?" Riu o Deus da guerra. "Pandora está mais do que certa de trazê-la de volta dos mortos. Um completo desperdício. Deixe apenas o amante morto, eu fico com ela."
"Cale-se." Resmungou Hermes.
"O que foi, Hermes? Está com ciúmes?" Provocou Afrodite, rindo.
"Cale-se sua víbora."
"Conte a eles." Ela voltou a sua forma original, rindo deliciada da reação de Hermes.
Zeus abriu outro trovão, silenciando-os. "O que há a ser contado, Hermes?"
"Nada."
"Uma criança morreu. Uma mulher infértil perdeu seu único filho. Você sabe por que, Hermes? Por causa da sua magia. Porque você ensinou magia aos filhos dos homens. Você é o mais culpado de todos!" Ergueu-se Hera com sua ira abrasadora. "Aquela mulher deu sua vida em sacrifício pela forma humana de sua irmã Pandora. Ela possuía a verdadeira chama de uma mãe."
"Ela era valiosa demais para continuar no meio daquela humanidade perpetuada à desgraça!" Gritou ele.
"O que você fez, Hermes?" O grito veio de Zeus, acompanhado de trovões e raios que cercaram todos os deuses ao redor da mesa celestial.
Afrodite riu. Ela novamente tomou a fisionomia de Regina, provocando o irmão. "O que você fez, pequeno Hermes? Você não tem mais cinco anos de idade, querido. Não pode mais queimar os rebanhos de Apolo e pedir desculpas. Seja homem, ou a representação de um." Ela sorriu, maliciosa. "Se conseguir."
"Ele manipulou a história. Ele manipulou Pandora." Dionísio, pela primeira vez, havia se pronunciado. O Deus sorridente de cabelos pretos e olhos ainda mais escuros, as sobrancelhas grossas e os braços marcados pelos músculos. "Ele manipulou aqueles mortais para condenarem o amante à morte. Ele manipulou o poder de Pandora em sua forma humana de modo que ela tivesse apenas lapsos de sua memória como deusa. Apenas por diversão. Não se enganem, ele não tem interesse na mortal. Hermes não tem interesse em nada nem ninguém."
"Todo esse vinho fez você perder a razão, querido irmão." Sibilou Hermes, furioso.
"Você sabe que não. Eu tenho observado você há muito tempo, Hermes. Poseidon gostará de saber o que você fez com o filho dele, Pégasus. Não haverá lugar neste universo onde você poderá se esconder da fúria dele."
Hermes empalideceu, encarando Dionísio.
"Você fez aquilo?" Pandora havia saído do trono e observava Hermes com os olhos escurecidos. Os cabelos cor de púrpura voltaram a se movimentar, o brilho reluzindo em suas roupas brancas; a pele branca como a neve. "Você pagará por isso, Hermes!"
"Você não pode me culpar. Você sabe muito bem o que o coração daquela pequena mortal possuía. Algo que todos aqui matariam para obter. Você sabia muito bem, Pandora."
"Não é o seu papel, criatura facínora!" Pandora virou-se para Zeus. "Me dê logo a minha punição para que eu possa sair da presença de um ser tão indesejado."
"O que você fez é imperdoável, Hermes." A voz de Zeus continha um grande peso. "Você será enviado à Poseidon na companhia de seu irmão Dionísio."
Hermes se colocou de joelhos, o que chamou a atenção dos outros deuses. Afrodite voltou à sua forma original apenas para fita-lo com incredulidade. Um Deus do Olimpo estava ajoelhado. O mais absurdo de todos os pecados. O maior de todos os excessos. "Não! Não faça isso. Eu imploro. Não faça isso. Poseidon acabará comigo. Ele me matará. Por favor, pai."
"Você se acostumou a dar golpes de sorte e se esqueceu que a sua sorte o alcançaria, meu filho. Seus atos tem consequências. Lide com elas."
Com um movimento certeiro, Zeus fez com que ambos fossem tragados por uma nuvem escura, desaparecendo no minuto seguinte. Ele respirou fundo, e Hera estendeu a mão, segurando a mão do Grande Deus.
"Veja só o que você causou." Ele condenou Pandora, mas Atena ergueu sua espada e a estendeu sobre a mesa.
"Ela não é a culpada. Como Deusa da Justiça, não posso permitir que a condene. Hermes a manipulou. Hera incinerou Hefesto da nossa presença sem um motivo que lhe fosse congruente. Reunir deuses nunca foi uma boa ideia, pai. Não existe limites. Não existe moral. Só existem os próprios interesses."
"Cronos quer alguém punido pelo uso indevido da maça dourada, e eu darei isso a ele."
"Hera está certa." A afirmação assombrou a todos, que paralisaram seus movimentos e cravaram os olhos na deusa de cabelos cor de cobre e olhos verdes. Hera a contemplava com adoração. "Não se trata apenas da maçã dourada. As vidas desses humanos foram manipuladas e mortes foram causadas por capricho de deuses. Isso não pode acontecer. Cronos ficaria ainda mais furioso se soubesse disso. Uma mãe teve seu filho arrancado. O amor mais puro que o amor dos deuses do Olimpo, aquele pelo qual estamos procurando desde a criação dos filhos dos homens foi massacrado pela magia ensinada por Hermes. Afrodite, creio eu, concorda comigo." Atena fitou a morena que a olhava com intensidade por trás das irises azuis, e quando Afrodite balançou a cabeça consentindo, ela continuou. "Eu possuo a solução ideal. Dispense os outros. Este deve ser um acordo entre Zeus e Pandora."
"Mas..." Começou Hera, enciumada.
"Faça como ela disse, Hera. Todos vocês também."
"Amém, eu não aguentava mais." Resmungou Ártemis, desaparecendo rapidamente. Poucos segundos depois, todos os outros também se retiraram da presença deles. Pandora ergueu a cabeça e encarou Zeus; Atenas moveu-se do seu lugar para o lugar de Hera.
Com os olhos do Deus dos Deuses e da Deusa da Sabedoria e da Justiça atentos a ela, Pandora sabia que aquela era sua chance de conseguir algo mais. De consertar as coisas. Sorriu.
"Comece a falar. Eu quero os detalhes." A voz da Deusa resoluta soou como uma ordem, e ela prontamente cumpriu.
