Disclaimer: Por muito que adore a história e as personagens do anime Shingeki no Kyojin, estas obviamente não me pertencem e todo o crédito vai para a criatividade e talento do Isayama Hajime.
Obrigada pelas reviews!
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Inevitável
A última música decorria no recinto do espetáculo. Rivaille encontrava-se na parte central do palco e bastante próximo do público. Cantava uma das musicais mais populares entre os jovens, mas também das mais polémicas, dado que referia as regras de uma sociedade não identificada diretamente. Porém, todos identificavam facilmente Rose e Sina naquelas palavras. Era uma letra contra a discriminação, contra o poder dos Alfas, contra a submissão exigida aos Ómegas.
Uma música como aquela seria impensável há anos atrás, mas pelo reatar das relações com Maria, teriam que aceitar momentos como aquele. Porém, naquelas canções existia muito mais além de um apelo para exigir uns valores diferentes. Aproveitando que se encontrava diante de muitos fãs e numa região que provavelmente, impossibilitou a ida de muitos ao concerto, o Ómega na frente do palco fez uso de algo que ninguém além dos "alvos" poderia ver.
Com o tempo que passou em Trost, aprendeu mais acerca das suas capacidades como Elo Primitivo e de que forma, poderia utilizá-las de modo mais subtil. Aprendeu que a voz era um instrumento poderoso, mas que era necessário dominar para que lhe fosse possível auxiliar os outros sem revelar a sua identidade. Portanto, a ideia de que fizesse parte de uma banda, apesar de ser uma surpresa, acabou por ser bem aceite visto que atuaria como um ótimo disfarce.
Assim, ao longo de todo o concerto, mas acima de tudo durante a última canção espalhou as suas feromonas muito além daquele recinto. As mesmas não seriam detetáveis por Alfas e mesmo os Betas e Ómegas podiam não aperceber-se delas ou não poderiam entender a sensação estranha, que sentiram durante poucos segundos ao longo do concerto.
Levi preferia que não recordassem essa sensação ou sequer notassem as feromonas. Tentou concentrar-se para o efeito mínimo das feromonas. Bastava que fossem tocados pelas feromonas e isso seria o suficiente para o que pretendia.
Os últimos acordes soaram e pouco depois todos os elementos da banda alinharam-se na frente do palco com uma pequena vénia e acenando aos fãs, enquanto acima de tudo Jay, Ethan e Théo agradeciam pelo apoio dos fãs e por terem sido um público incrível durante todo o espetáculo.
Rivaille simplesmente acenava, tentando manter o olhar distante das primeiras filas e apesar da despedida curta antes de deixar o palco, os fãs continuaram a gritar o nome dele, assim como da banda em geral enquanto o Ómega caminhava para os bastidores. Consoante ia caminhando, escutou as felicitações de colegas e também as vozes distantes de Isabel, Christa e Petra a felicitarem a todos pela atuação. Ele parecia ignorar tudo e todos até entrar dentro do camarim improvisado. Lá dentro, respirou fundo à medida que caminhava de um lado para o outro.
Não havia erro.
Ele sabia que o tinha visto no público. Mais do que uma vez, olhou na direção dos olhos verdes e viu sorrisos que não queria ter visto sempre nas suas canções a solo. Viu também alguma tristeza. Viu emoções que não queria atrever-se a interpretar, mas também viu que estava acompanhado aparentemente por duas Ómegas e mais um Alfa que estava bem próximo de uma das raparigas. Ainda assim, sobrava uma e essa parecia bem próxima dele.
"Talvez seja…", tentou parar aqueles pensamentos, "Não importa quem seja. Não tenho nada a ver com isso e se tudo correr bem, não terei que vê-lo novamente. Por que razão tinha que estar neste concerto? Por que razão aproveitei qualquer oportunidade para olhar para ele? Não devia! Devia ignorá-lo! Devia…".
- Posso? – Ouviu uma batida na porta e a voz que reconheceu em seguida.
- Sim. – Respondeu ainda de costas para a porta e ouviu que o Alfa entrava.
- Levi… estás bem? Os outros também estão preocupados e eu imaginei que quisesses ficar sozinho antes de falar do que quer que seja. – Falava num tom compreensivo e mantendo a distância. As feromonas tranquilas também se fizeram notar logo em seguida, procurando envolvê-lo numa atmosfera em que pudesse recuperar a calma.
- Ele estava no público. – Levi ainda de costas.
- Ele? – Indagou, mas em poucos segundos chegou à única conclusão daquele momento. – O… - Fez uma pausa, pensando no que deveria dizer.
Farlan não esperava que Levi se voltasse para ele. Os olhos escondidos atrás das faixas não permitiam que visse a tempestade de pensamentos e sentimentos contraditórios dentro do rapaz de cabelos negros. O Ómega escondia as feromonas, agora mais do que nunca para não demonstrar como estava afetado pela presença de Eren no concerto. Também deduziu que permanecer sozinho naquele estado, apenas pioraria a situação e pensou novamente numa distração.
O Alfa à sua frente podia estar preocupado, detetava nas feromonas mais subtis alguma insegurança agora que sabia da presença de Eren, mas durante o concerto Levi notou outra coisa. Nos momentos em que tornou o contacto entre eles propositadamente mais provocante do que aquilo que ensaiaram, Farlan não conseguiu ocultar totalmente a forma como ficou afetado. As feromonas seriam bem mais sinceras do que qualquer outra palavra e apostando em reavivar a mesma atração, desejo e vontade de tocar, Levi acercou-se dele. Puxou as faixas dos olhos de um azul de tonalidade escura e acariciou o rosto dele.
- Levi?
- Não quero pensar… - Murmurou.
Farlan tomou aquilo como um sinal para diminuir a distância entre eles e beijou o Ómega. Era gentil e suave, mas não o que outro precisava para apagar sentimentos de culpa ou a memória daqueles olhos verdes. Recordando a forma como aquele loiro reagiu, quando em palco o agarrou pelos cabelos para se ajoelhar durante uma das músicas, repetiu o gesto. A reação não se fez esperar, escutou um gemido e as mãos do Alfa vieram para a cintura dele. As feromonas começavam a fugir ao controlo, demostrando a atração e desejo reprimido pelo Ómega. Este que não negou a língua nos seus lábios e deixou que aprofundasse o beijo.
O cruzar das línguas fez com que também Levi se arrepiasse e deixasse que Farlan o fizesse recuar lentamente até sentir um móvel atrás dele. O rapaz com heterocromia mantinha uma mão nos fios de cabelo loiros e outra no braço do Alfa, que gemeu novamente e parecia esquecer completamente toda a insegurança de antes. A mente apagava toda a parte racional e o loiro queria mais daquele gosto viciante na sua boca e aquelas mãos nele. Os instintos diziam-lhe para não esquecer e tratar o outro com cuidado, mas havia a outra parte, aquele lado que queria reclamar para si, o que julgava ser dele. O desejo de marcar possessão por alguém que desejava tanto e agora lhe dava uma oportunidade de o provar e sentir.
Quanto a Levi sentia como a mente não se desligava. Ficava somente perto do abismo, mas não o fazia esquecer os olhos verdes no público. Aquelas mãos, aquela boca contra a dele não o fazia esquecer o moreno, a forma como tudo tinha sido mais intenso nas vezes em que se envolveu com Eren. Por que razão não era capaz de se entregar ao desejo? Por que razão não esquecia o mundo lá fora e deixava Farlan tratá-lo com carinho? Por que razão tinha que sentir que aquilo era errado?
Abraçou Farlan, procurando a mesma chama que sentia com Eren. Queria que o corpo queimasse tal como antes e apagasse qualquer pensamento. Queria acreditar que era possível sentir-se assim com outra pessoa, mas embora gostasse da forma como aquele Alfa o tratava, não conseguia. A frustração e aqueles pensamentos acabariam por verter e notar-se nas feromonas e por isso, quando o loiro subia um pouco a mão por baixo da sua camisa, empurrou-o de leve.
- Rápido demais? – Sussurrou o Alfa.
- Não... – Hesitou. – Não consigo. Desculpa… desculpa, Farlan.
- Huh? – Balbuciou. – Ouve, eu peço desculpa se fui rápido demais, mas…
- Não… o problema não és tu. – Distanciou-se e quando o Alfa tentou agarrá-lo pela mão, bateu na mesma sem pensar. – O problema sou eu! Não consigo fazer isto! – Falou num tom bem mais irritado e frustrado do que pretendia, antes de sair do camarim. – Não me sigas! Quero estar sozinho!
Na última canção, Eren não pôde deixar de notar algo estranho no ar, no ambiente em geral. Diria que não era somente o olfato que detetava algo, mas por dentro também teve uma estranha sensação que não conseguia descrever ou classificar exatamente do que se tratava.
Contudo, decidiu não perder muito tempo a pensar nessa sensação, visto que havia outro pressentimento que o incomodava. Algo que desviava a atenção do seu vocalista favorito, o que não era fácil, dado que esperou bastante para vê-lo de tão perto. Só que a intuição incomodava-o e dizia-lhe que havia alguém a observá-lo. Podia ser paranoia, afinal seria natural depois de tudo o que tinha feito nos últimos tempos, mas Eren não vivia com esses receios em mente. Portanto, se algo assim estava a importuná-lo num momento como aquele, o Alfa soube que havia instintos envolvidos naquele presságio e por isso, tentando não desviar totalmente a atenção do palco, tentou observar algum pormenor fora do vulgar naquele espaço.
No meio da iluminação, vozes, multidão e fumo não era fácil distinguir o que poderia ser suspeito. Consequentemente, teve que aguardar pelo fim da canção e despedida da banda para começar a avaliar melhor o espaço ao seu redor, uma vez que as luzes regressaram ao recinto assim como um anúncio inesperado. A banda No Name daria autógrafos em Sina no dia seguinte.
- Pensei que iria ser em Rose, mas em Sina será ainda melhor! – Dizia Daniel ao lado de Olga que entusiasmada, respondeu:
- Escrevam o que digo! Graças ao meu pai, vou conseguir algo muito raro!
- Como assim? – Perguntou Nicole curiosa enquanto Eren colocava o braço em torno da cintura dela e apontava numa direção para saírem do meio da multidão sem grandes empurrões.
Daniel seguia o moreno, mas os quatro pararam abruptamente quando um homem alto e de farda militar parou na frente deles. O jovem de olhos verdes ergueu o olhar para encarar o outro Alfa de frente. Embora não exibisse feromonas, aquele soldado aparentemente de Maria era sem dúvida um Alfa pela postura imponente.
- Estás na nossa frente. – Falou Eren.
- Preciso falar contigo, Eren Jaeger. – Comentou o homem de cabelos escuros e olhos de azul profundo. – Os teus amigos podem esperar.
- E se eu não quiser ir? – Desafiou o moreno e o outro inclinou ligeiramente a cabeça com alguma curiosidade.
- É apenas uma conversa.
- Moreno maravilhoso, eu cuido dos teus amigos! – Disse Hanji, colocando os braços sobre Nicole, Olga e Daniel que foram apertados contra a vontade deles num abraço quase mortífero.
- Hanji? – Falou Eren incrédulo. – O que estás aqui a fazer? Não podes estar aqui! Se alguém te vê…
- Sem problemas. – Descartou a Beta sem largar os outros três. – Estou muito bem protegida e além disso, quem destes três sortudos que aqui tenho, não quer ir ver os bastidores da banda?
- Vais-nos levar lá? – Perguntou Daniel.
- Claro! Foram selecionados para uma visita especial à banda! Vamos lá! – A Beta piscou o olho na direção de Eren e do outro Alfa que sorriu e acenou à medida que via a investigadora levar os adolescentes com ela pelo meio da multidão.
- Podemos falar, Eren? – Indagou o homem e o moreno olhou desconfiado, mas resolveu acompanhar o desconhecido. Questionava-se quem seria. Ponderou que pudesse ser algum soldado enviado pelo Gabriel para falar com ele. Afinal, o Comandante e a mãe eram próximos e o natural seria que ele quisesse interferir na pouca vontade dele em falar com a própria mãe.
O moreno mantinha-se firme às suas razões, mas teria que mais uma vez explicar que o melhor seria manter aquela falta de contacto. A mãe não devia envolver-se na nova vida dele, sobretudo porque ele desconfiava que ela teria iniciado uma nova página com outro Alfa. Esse que podia até ser Gabriel, visto que Eren ouviu qualquer coisa sobre o Comandante de Maria ter perdido a família numa tragédia. Se os rumores fossem verdadeiros, ele não estranharia que a mãe tivesse iniciado uma nova vida ao lado daquele homem. Aliás, até apoiaria a ideia. Ele sempre admirou Gabriel e, portanto, seria até uma coisa positiva.
O Alfa de pele morena também confiou que Hanji não colocaria os outros três adolescentes em risco, dado que ele era responsável por eles. O Daniel na qualidade de Alfa não estava muito alerta acerca de instintos de proteção. Ele estava mais concentrado na banda e Eren não podia censurá-lo. Portanto, seguiu o desconhecido por alguns minutos até entrarem por uma porta lateral do pavilhão, que o deixou a questionar-se se também teria a oportunidade de ver os No Name, dado que os bastidores deviam estar por perto.
O desconhecido parou na primeira sala, que mais se assemelhava a uma arrecadação e parou para olhar para Eren que arqueou uma das sobrancelhas. Aquele Alfa era bastante estranho. Além do controlo excecional das feromonas, de alguma forma também algo lhe soava… familiar? Talvez fosse a cor dos olhos, traços físicos muito subtis. Não sabia ao certo, mas era uma sensação estranha.
- Ouvi falar muito de ti. – Começou o Alfa. – As primeiras impressões não foram as melhores.
"Hum, então não é conhecido do Comandante Gabriel? Caso contrário, diria que até teve uma boa impressão inicialmente e que entretanto, estraguei tudo. Quem é este tipo afinal?", questionou-se.
- Não foi o Comandante Gabriel que te enviou aqui? – Perguntou.
- Não. – Respondeu. – Vim como escolta da banda, mas acima de tudo porque queria conhecer-te pessoalmente e não apenas através de rumores. Ouvi primeiro as coisas más a teu respeito e só depois ouvi outras versões.
- Alguns diriam que conheceste a história na ordem errada. – Comentou o moreno de olhos verdes, examinando o Alfa que não demonstrava qualquer hostilidade.
- Parece que sim. – Concordou. – No entanto, tentei corrigir isso quando falei com outra pessoa daqui logo após a minha chegada. Um bom homem que me alertou desta tua mudança.
Eren sorriu de lado.
- Conheces o Pixis. – Afirmou sem rodeios. – Então é verdade que ele conseguiu contactos com Maria e além disso, andou a falar de coisas que não lhe dizem respeito.
- Falou porque eu quis saber. Precisava saber quem eras de verdade.
- Por que razão isso seria relevante? – Indagou o moreno.
- Porque magoaste alguém muito importante para mim. – Declarou num tom mais sério.
A postura e tom de voz mudaram naquele instante, assim como as feromonas preencheram o espaço e Eren não teve dúvidas de que se tratava de um Alfa. Um que demonstrava alguma hostilidade, mas pouca, muito pouca e bastante controlada. Chegava a ser intimidante a forma como de uma tranquilidade intocável, repentinamente podia ver uma tempestade nos olhos daquele homem. Porém, ao contrário de muitos que se deixariam levar pela sede de sangue e violência, aquele mantinha-se de pés bem assentes no chão e capaz de manter uma conversa.
Contudo, a mente de Eren depressa procurou por uma razão para aquela afirmação e teve que ficar pela primeira teoria. Era a que mais se devia adequar àquele momento.
- És o Alfa que está com ele agora? – Perguntou com um certo veneno no tom de voz. – Ou és outro além daquele com quem ele estava no palco?
- Reconheceste-o?
Eren deixou escapar um riso irónico.
- Como não? Podia ser só uma suspeita, mas vê-lo no palco e não reconhecê-lo? Impossível e tu acabas de confirmar as minhas suspeitas. – Falou, tentando esconder como os batimentos cardíacos alteraram-se ao ter a confirmação da identidade de Rivaille.
"Aquela primeira selfie dele com aquela fã deixou-me com poucas dúvidas, vê-lo no palco praticamente destruiu as poucas dúvidas que restavam e agora este Alfa apenas está a verificar a minha teoria", concluiu.
- A vida em Maria mudou-o. Antes não se chegava perto de um Alfa sem querer fugir e agora, tem tantos amigos. – Falou, enfatizando a ironia na última palavra. – O que foi? Viste como estava a olhar para mim no concerto e vieste dizer-me para manter a distância? Diz-me, além de ti e do outro, há mais algum na fila par…ah! – Teve que ajoelhar-se com as feromonas hostis que se abateram sobre ele. Como se tivesse recebido um murro forte no estômago e o oxigénio tivesse sido roubado. Incrédulo, o moreno tentou erguer-se e ripostar, mas não era capaz. Todo o corpo tremia e estranhava e ideia de que outro Alfa estivesse a obrigá-lo a uma postura tão humilhante e submissa?
Rosnou ameaçadoramente e apenas escutou passos na sua direção antes de ver o outro Alfa colocar-se de cócoras à sua frente.
- Compreendo que tenhas ciúmes e estejas de cabeça quente. Eu não queria perder a calma contigo, realmente quero uma conversa civilizada, mas há coisas que não posso admitir.
- E se te fosses…
O aroma das feromonas paralisou-o. Entre a agressividade, imponência e força inegável daquele Alfa que era capaz de submeter outro sem a força física, mas apenas com as feromonas, havia outra coisa. Uma característica familiar. Uma particularidade daquelas feromonas que o ligava diretamente a outra pessoa. Não por uma Marca, mas uma coisa muito mais forte, muito mais importante e inquebrável. Laços de sangue.
Com um olhar consternado, olhou para o Alfa olhos nos olhos. De perto, mesmo com a iluminação fraca da sala, reconheceu a tonalidade daquele azul. Só o viu numa pessoa. Num Ómega em que um dos olhos era uma cópia perfeita daquela cor.
- Não é possível… - Murmurou. – Ele não tinha pais…
- Tens um olfato muito apurado, assim como me disseram. – Comentou o outro Alfa.
- Co…como?
- É uma história complicada, mas da qual não vamos falar agora. – Respondeu. – Será que posso confiar em ti para ter cuidado com o que dizes e não me obrigares a fazer isto de novo?
Eren simplesmente anuiu e sentiu um alívio sobre o seu corpo quando a pressão descomunal de antes desapareceu tão depressa como tinha aparecido. Era assustador o controlo que aquele Alfa possuía das suas feromonas.
- Eren por que razão…? – Ia questionar, mas o moreno cortou:
- Não fiquei contente por ter visto o meu Ómega ser marcado por outro Alfa?
- Achas que isso justifica tudo o que aconteceu?
- Ele quebrou a Marca e apunhalou-me.
- Sem razão?
- Claro, a culpa é toda minha. – Ironizou. – Sei que estás a tentar defender o teu filho, mas será que sou mesmo a única pessoa terrível em toda esta história?
- Os dois têm culpa no que aconteceu, só que ainda assim ele…
- Sim, provavelmente encontrou uma forma mais honrada e correta de tratar dos problemas que estão à vista de todos. – Cortou novamente. – Durante muito tempo, pensei que essa também seria a melhor forma de agir e mudar este lugar muito mais podre do que a Cidade das Trevas. As coisas não funcionam assim, quem tem poder e dinheiro não vê o karma bater-lhe à porta. Ninguém entende com palavras que esta sociedade está errada, portanto, se falaste com os meus amigos, Pixis, a minha mãe ou quem quer que seja e te disseram que eu não era assim, podes enviar o recado de volta, eu mudei. Os milagres não existem. Os diálogos, as pequenas manifestações não mudam nada. As pessoas não conhecem o respeito, mas reconhecem o medo.
- Essa não é a forma de mudar alguma coisa. – Contrariou o Alfa.
- É mais efetiva do que a vossa, com certeza. – Retrucou. – Enquanto se esconderam em Maria, provoquei mudanças aqui, instalei o medo pelas consequências que alguns atos podem ter. Tornei a ideia do karma, uma coisa real e não simplesmente um rumor.
- O quanto te corrompeste por dentro para fazer essas coisas?
- Não preciso que olhes para mim com pena! – Exaltou-se ao ver a expressão do outro Alfa. – Não me arrependo do que fiz! Faria tudo de novo!
- Deixarias de novo os teus amigos, a tua mãe? – Indagou uma voz atrás da porta que se abriu, revelando uma Christa com lágrimas nos olhos.
- Era exatamente isto que queria evitar. – Falou Eren num tom ríspido. – Eu não precisava destes reencontros.
- Mas vieste na mesma assistir ao concerto. – Apontou o outro Alfa.
"Porque mesmo sabendo quem corria o risco de encontrar, tinha que ver pelo menos mais uma vez de perto a única pessoa que não me deixou cair totalmente na insanidade", respondeu mentalmente o moreno, vendo os olhos da amiga repleto de lágrimas e além da tristeza, existia também uma mágoa. Aquele olhar quase que lhe recordava do último que viu de Levi.
- Precisa ver-te olhos nos olhos. – Falou ela. – Ver aquele que me dizem que bateu e forçou um Ómega em submissão.
Eren esboçou um sorriso amargo.
- Não sabes com quem estás a falar.
"Não sabes as coisas que fiz e ainda pretendo fazer", concluiu.
- Porquê, Eren? Eu sei que ele também errou, mas…
- Mas eu tinha que aceitar e segui-lo até Maria? Esquecer que me torturaram durante dias a fio, que matei e outros Ómegas morreram devido à minha fraqueza e escolhas erradas! Devia ter fugido para Maria, esconder-me e esperar que as coisas mudassem?! – Falou e incapaz de deixar as feromonas agressivas sob controlo, viu-a recuar ligeiramente.
- Eren, ele também…
- Teve momentos difíceis? Eu sei! Sei disso tudo e da mesma forma que ele fez uma escolha, eu também fiz a minha!
- Estás errado! – Falou e ignorou as feromonas e a forma como os instintos lhe diziam para se manter afastada de um Alfa cada vez mais agitado. – E se realmente ele, os teus amigos ou mesmo a tua mãe já não fossem importantes para ti, não estarias aqui! Vieste porque sabias que nos poderias ver, que poderias vê-lo! Vieste porque a vossa história nunca deveria ter terminado daquela forma! Vieste porque sabes que no fundo, o que quer que andes a fazer está errado e queres a nossa ajuda para sair desse abismo para onde estás a caminhar! – Soluçou. – Por favor, Eren. Abre os olhos. Será que não vês como tudo está errado? O teu lugar é em Maria, ao lado do povo que sempre admiraste… - Estendeu a mão e o Alfa de olhos verdes bateu na mão e Axel teria puxado o jovem moreno, se Christa não tivesse feito um gesto negativo. – Não tenho medo de ti, Eren. Nunca tive nem de ti, nem de Alfa nenhum. Isso não vai mudar agora, mesmo que não te reconheça. Mesmo que esteja a ver tanta raiva nos teus olhos e sabes porquê? Porque ao lado dessa raiva, vejo dor e tu podes esconder isso de muita gente, mas eu sei quem tu és.
- Não, não sabes. – Declarou. – Nada voltará ao que era antes. Eu não pertenço a Maria, eu pertenço a este lugar que me viu nascer e…
"Que também será testemunha do meu último suspiro", concluiu, saindo da sala não sem antes Axel notar algo diferente nas feromonas do jovem moreno e isso fez com que segurasse em Christa que queria seguir o amigo.
- Preciso falar com ele! Isto não…
- Ele escutou o chamado. – Falou e isso fez com que a rapariga parasse de agitar-se.
- Mas os Alfas não deviam…
- Não deviam ouvir o chamado do Elo, mas ele escutou-a e está marcado como tal, portanto, por muito que diga que não é de Maria e que a história dele connosco terminou, ele está errado. A história dele está a cruzar-se com a nossa e não poderá simplesmente ignorar. – Explicou, vendo a Ómega acalmar-se.
- Desculpa Axel… a Hanji disse que querias falar com ele sozinho, mas eu tinha mesmo que vê-lo.
- Eu compreendo e não estou chateado. – Afirmou. – Estou preocupado. Ele está mesmo próximo a um abismo e espero que o facto de ter sentido o chamado seja um sinal de que pode recuar.
- Mas segundo percebi, apenas os Ómegas e alguns Betas poderiam ser atingidos pelo chamado, não é? Por que razão, o Eren conseguiu sentir e ser marcado pelas feromonas desse chamado?
- Só há uma explicação plausível. – Disse Axel, vendo os olhos azuis da Ómega com algumas lágrimas fixarem-se nele. – É o parceiro perfeito. A ligação deles não se quebrou e está a fazer com que o destino de ambos se cruze novamente.
O moreno não queria ter encontrado a amiga, nem trocado palavras com aquele Alfa e parte dele preferia também não ter confirmado a identidade de Rivaille. Graças a tudo isso, perdeu a calma e caminhava sem direção certa por alguns corredores. Praguejou contra si mesmo por não ter saído pelo mesmo local por onde tinha entrado. Queria ir para casa e guardar na memória o concerto e nada mais. Porém, ainda teria que procurar por Hanji para levar Nicole, Olga e Daniel para casa. Embora, sinceramente esperava que os três percebessem que ele não estava com muita vontade de conversar. O que não seria fácil devido ao entusiasmo pelo concerto e por isso, saiu pela primeira porta lateral que encontrou para poder arejar um pouco antes de procurá-los. A última coisa que queria seria transtorná-los com as feromonas. Essas que deixariam as Ómegas com medo dele e o Alfa mais jovem interpretaria como um desafio. Com a pouca paciência que estava, Eren não queria arriscar-se a bater no namorado da Olga.
O Alfa de olhos verdes não esperava encontrar um espaço aberto e completamente vazio, à exceção das duas carruagens considerada pelos fãs, a coisa mais original que já tinham visto. A aparência quase real do transporte era quase devorado pela decoração moderna em tons escuros e algum prateado. Essa última cor reluzia um pouco mais com os raios de uma lua cheia que preenchia o céu estrelado, mas não foi isso que continuou a prender a sua atenção. Havia uma sombra próxima a uma das carruagens, como se tivesse sentado nos degraus da que ficava um pouco mais distante. Quem ali estivesse, ocultava as suas feromonas e estava aparentemente distraído, pois não se moveu ou mostrou qualquer indicação de que tinha visto o Alfa curioso.
Eren avançou com passos silenciosos. Os fãs não podiam estar naquela zona, mas podia ser algum soldado de Maria ou Rose e Sina poderiam ter mentido, enviando espiões como seria o mais provável. À medida que avançava para contornar a carruagem e ver com mais clareza quem ali se encontrava, começava a ponderar outra hipótese que acelerava os batimentos do seu coração. E se…?
Finalmente, viu a figura sentada sobre os degraus assim como a sombra indicava. A cabeça estava encostada na porta fechada da carruagem e o olhar escondido atrás das faixas brancas fixava-se no céu. Os cabelos negros moviam-se ligeiramente com a brisa, acariciando o rosto do vocalista perdido nos seus próprios pensamentos.
Contudo, no momento em que Eren prendeu a respiração, finalmente a distração se quebrou. De imediato, o Ómega se ergueu e se voltou para o Alfa. Expressão em grande parte escondida pelas faixas, mas as feromonas tornaram-se percetíveis para que Eren percebesse que a presença dele ali não lhe era indiferente. Jamais poderia ser.
- Rivaille. – Murmurou Eren.
- O que estás aqui a fazer? – Perguntou o outro.
- Queria simplesmente ficar um pouco sozinho, mas parece que inconscientemente também te queria ver de perto mais uma vez.
- Não tens permissão para estar aqui. – Falou num tom seco. – Sai daqui, Alfa antes que…
- Vais chamar alguém? Com medo de mim, Levi?
- Tch, eu não preciso de ninguém para te expulsar daqui. Eu chego e sobro. – Falou, forçando-se a disfarçar o tremor na voz. O Ómega não esperava cruzar-se com aquele Alfa. Pelo menos, não naquela circunstância. Pensava que os amigos estariam a falar com ele e pretendia manter a distância, permanecendo perto das carruagens e assim, também evitar falar com Farlan sobre o que tinha acontecido. Como é que aquele Alfa tinha chegado até ali? Teria a Christa, Reiner ou até mesmo a Hanji ajudado em alguma coisa? Queria praguejar contra os três. Insultar até!
"Eles não tinham o direito de fazer isto comigo! Eu não queria vê-lo!".
- Com a mesma rebeldia de antes. – Sorriu. – Talvez até um pouco mais.
- Vai-te embora, Alfa.
- Não acredito que não quisesses ver-me. – Falou o Alfa, dando um passo em frente mas deteve-se ao sentir a hostilidade do Ómega. – Pelo menos uma última vez.
- Por vontade própria, nunca mais olharia para a tua cara. – Retrucou.
- É mesmo verdade que conseguem ver através dessas faixas? – Indagou o moreno, ignorando as palavras ríspidas.
- Quantas vezes terei que repetir para te ires embora? – Perguntou, tentando esconder como estava a ficar progressivamente mais nervoso. Estava a perder o controlo das feromonas apenas com a presença dele ali e isso não era um bom sinal. Era um péssimo sinal.
- Queres mesmo que vá embora? Não queres falar uma última vez com aquele que inspirou parte das tuas canções? – Sorriu novamente.
- Não te julgues mais do que realmente és! – Falou. – Aceita que te troquei por outro Alfa e desaparece daqui. – As palavras soaram-lhe venenosas e se pensava que isso seria motivo para expulsar o moreno dali, em vez disso teve os passos na sua direção e instintivamente recuou. Odiava-se por ter sido essa a reação, mas não conseguiu evitar. – Achavas mesmo que alguma vez iria compor uma canção para um Alfa fraco, que cedeu perante a primeira dificuldade que teve na vida? E que me mentiu descaradamente? – Não parava de falar e o Alfa mantinha a mesma expressão irritada e aproximava-se mais e mais dele que recuava. – Não sei se julgas que estás em algum pedestal, mas para mim… - Chocou contra a proteção de metal que havia naquela zona e a mão do moreno chocou mesmo ao lado do seu rosto.
- Cheiras a outro Alfa. Não o dessa Marca nojenta, mas outro. – Murmurou. – Namorado?
- E se for? – Provocou, recusando-se a abaixar o rosto.
- Também recuas assim perante ele? – Pronunciava as palavras bem próximas ao rosto do Ómega. - Também tremes assim com a proximidade dele? – O hálito dele chocou com os lábios do rapaz de cabelos negros, que tentava silenciar os instintos e chamar pela parte racional. Essa diria que devia empurrar, bater e expulsar aquele Alfa dali. Talvez até devesse chamar por ajuda. Tinha a certeza de que se chamasse Farlan, ele viria.
As feromonas do moreno intensificaram-se e atingiram o jovem com heterocromia como uma onda, espalhando arrepios e um ardor que não se recordava de sentir perto de outra pessoa. O adocicado e ao mesmo tempo intenso de antes, acrescia-se de características entre o exótico e selvagem.
Só que as memórias não desapareciam e nelas recordava a submissão aflitiva, as palavras dolorosas que escutou na última vez que se viram. A dor que sentiu com o rompimento da Marca.
Estava paralisado e o Alfa com uma das mãos puxou as faixas para que libertassem os olhos, que era incapaz de esquecer. A luz da lua ajudou-o a destacar mais uma vez a beleza inigualável da tempestade cinzenta e o azul de um mar profundo. A expressão naqueles olhos perdia-se entre a última que viu e o pânico, porque Eren podia deduzir que ele estaria a sentir o mesmo. Aquela atração poderosa que os atraía, que os fazia arder por dentro só com aquela proximidade.
As feromonas daquele Ómega continuavam a ser o mais delicioso que tinha sentido. A suavidade, a vitalidade e mesmo as que carregavam mágoa, tudo o deixava de água na boca. Uma tentação impossível de resistir e por isso, ao mesmo tempo que viu que Levi lhe iria dizer algo, levantou mais o queixo dele e beijou-o.
As mãos do Ómega vieram de imediato para os ombros dele, batendo algumas vezes antes de sentir o corpo do rapaz de cabelos negros e também o dele estremecer com aquele contacto. Assim como na primeira vez que se beijaram, havia eletricidade cada vez que se tocavam. Os dois suspiraram em sincronia e Eren aproveitou os lábios semiabertos para passar a língua e recordar o gosto, o sabor daquele que perdia progressivamente as forças e vontade para impedir o que estava a acontecer. Mal as línguas se tocaram, seguiu-se outro suspiro e também um gemido da parte de ambos. Exploravam a boca um do outro com algum desespero, procurando saciar a saudade que cada um sentiu daquelas sensações que os arrepiavam.
As mãos do Alfa deixaram o rosto ou a cintura e passaram para as coxas do rapaz, agarrando nelas. Instintivamente, o Ómega deixou que o outro segurasse nele, distanciando os pés dele do chão e optando por enlaçar a cintura do moreno sem que as bocas se separassem, mesmo com as respirações agitadas dos dois.
Somente a fricção dos corpos provocou um novo choque que os fez separar os lábios e gemer mais alto. A névoa de desejo pairava na cabeça de cada um e as palavras de antes, os acontecimentos que os distanciaram não faziam qualquer sentido. Apenas aquele momento importava e procuraram mais uma vez os lábios um do outro. Dessa vez, Eren prendeu a língua do outro entre os dentes succionando um pouco e além das mãos a arranharem os seus braços, sentiu também as pernas em torno da cintura apertarem-no mais.
- Levi… - Gemeu, tomado pelo desejo que se mistura com as feromonas de possessão. Prensou novamente o seu corpo contra o Ómega que gemeu com ele, também perdido nas sensações e a incitá-lo cada vez mais. Já tinha conseguido apagar qualquer feromona ou rasto do outro Alfa que tinha tocado nele, mas Eren queria mais e isso significava entrar em terreno perigoso.
Estava a fugir do seu controlo, quando se ouviu rosnar e procurar o pescoço de Levi. Só então, sentiu algo molhado na pele junto ao queixo e ao olhar novamente para os olhos desiguais, encontrou duas lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto.
- Não posso esquecer o que aconteceu. – Murmurou o Ómega com uma tristeza evidente no olhar. – Como queres que esqueça o que aconteceu? Mentiste. Disseste que me ias proteger, disseste que… - Com um nó no estômago e com mais lágrimas a cair, prosseguiu. – Disseste que me amavas e eu acreditei, mesmo sem entender o que era. Eu confiei, acreditei em ti, eu acho até que… - Um soluço cortou as palavras que tinha presas na garganta.
Eren afastou as mãos dele, colocando-o novamente com os pés no chão e retrocedeu ligeiramente, colocando distância entre eles.
- E eu pensei que nunca me irias deixar ou trair. – Falou o moreno. – Nada disso importa agora. Eu só queria um último momento contigo, um último beijo e que soubesses que as tuas canções, as que dizes que nada têm a ver comigo, ajudaram-me a manter a minha sanidade e também a minha vida. A tua lembrança, a tua voz e palavras mantiveram-me vivo, mesmo que me tenhas magoado, mesmo que eu te tenha magoado, esta é a verdade. Por mais confuso e irónico que seja, és a razão pela qual ainda estou vivo. – Engoliu em seco. – Sei que não te mereço, mesmo que os dois estivéssemos errados em tudo o que aconteceu. Se calhar, tudo o que aconteceu foi um sinal de que não estávamos destinados a ficar juntos. Quem sabe fosse um teste e nós falhámos. – Abaixou o rosto por alguns momentos antes de encarar novamente o rapaz que continuava com várias lágrimas no rosto e desta vez, o Alfa também viu a sua visão embaciar-se. – Mesmo assim, obrigado por tudo e espero que algum dia me perdoes por ter quebrado as minhas promessas, Levi. – Virou as costas. – Vou desaparecer como pediste…
- O que aconteceu? – Murmurou Levi. – Responde! O que aconteceu naqueles dias em que te levaram? – O Alfa não respondeu e continuou a afastar-se.
Era uma loucura.
Levi repetiu uma e outra vez que pouco lhe importava o que tivesse acontecido naqueles dias em que estiveram separados, antes da data que os separou definitivamente. Repetiu várias vezes na sua mente que nada, absolutamente nada, justificava o comportamento e as palavras daquele Alfa e que não iria perdoá-lo. Jamais se deixaria enganar novamente, porque tudo seria facilmente explicado por uma mentira. Afinal, já lhe tinham mentido tantas vezes que mais uma não deveria fazer tanta diferença, mas fazia… e era diferente.
Aquelas palavras de Eren, a forma como parecia estar a despedir-se, o que via nos olhos dele…
Mesmo que nada mudasse entre eles e nunca mais ficassem juntos, por mais que essa realidade ainda lhe causasse dor, Levi queria saber o que tinha acontecido. Queria saber se essa verdade colocaria um ponto final definitivo entre eles.
- Espera! – Correu até segurar na camisa do moreno. – Eu preciso saber o que… - Uma vertigem repentinamente, uma forte dor de cabeça desnorteante que se confundia com várias vozes e o aroma a sangue, imagens desconexas de um espaço fechado com barras de metal e cadáveres espalhados, desfigurados aos seus pés.
- Levi? Levi! – Chamava o Alfa vendo que o Ómega parecia estar a sentir qualquer coisa. – O que foi? O que tens?
Os olhos desiguais ergueram-se para olhar para ele, mas pareciam distantes e pouco depois, fecharam-se ao mesmo tempo que o rapaz perdia a consciência. Eren segurou-o nos braços, tocando-lhe no rosto e em seguida no pescoço para se assegurar de que não era mais do que uma perda de consciência. Aparentemente, tudo apontava apenas perda de consciência, mas o moreno estava preocupado. Aquilo tinha sido repentino demais e as feromonas mesmo que por escassos segundos, deixaram transparecer dor. O que indicava que ele tinha sentido algum tipo de dor antes de perder os sentidos e por isso, procurou acordá-lo. Tocou-lhe no rosto e chamou mais algumas vezes pelo nome dele sem qualquer resultado.
A porta que dava acesso aquele espaço abriu-se e o mesmo Alfa de antes apareceu, acompanhado não só por Christa, mas também de outra Ómega e Beta que não conhecia. A primeira desconhecida tinha cabelos ruivos e pela indumentária podia identificá-la pelo nome artístico, a Íris. A outra não reconhecia com um cabelo loiro escuro e que o encarou com desconfiança e diria até alguma hostilidade.
- O que foi que lhe fizeste?! – Perguntou a ruiva, que foi agarrada por Christa.
- Quem és? O que estás aqui a fazer? – Exigiu a Beta antes de ter o outro Alfa fazer-lhe um gesto para se acalmar.
- O que aconteceu? – Perguntou o outro Alfa.
- Não sei. – Respondeu Eren. – Ele estava a falar comigo e repentinam… - Notou que Hanji se acercava juntamente com mais gente e entre eles, reconheceu as feromonas de Olga, Daniel e Nicole que o fizeram pegar em Levi nos braços e virar-se de costas para proteger o rosto do Ómega de olhares estranhos.
- É o Rivaille? – Era a voz da Olga. – Eren, deixa-me ve…
- Fica onde estás! – Ordenou e de imediato, ela parou e apenas Christa avançou com algumas faixas nas mãos e o Alfa de olhos verdes deixou que ela tocasse no Ómega inconsciente para esconder mais uma vez a identidade dele. – Não sei o que aconteceu. Ele perdeu os sentidos de repente. – Falou para que pudessem ouvir sem ter que virar-se para eles.
- Estás a mentir! – Acusou a Ómega de cabelos ruivos. – Fizeste alguma coisa!
- Isabel, por favor. – Pediu Christa.
- Ainda não disseste quem és! – Exigiu a outra Beta.
- Meninos este não é o momento para trocarem acusações. – Disse Hanji, acercando-se também de Eren. – Preciso ver como ele está. Talvez seja só desidratação. – Trocou um olhar rápido com o moreno para que ele não desmentisse aquela suposição.
- Mesmo que seja só desidratação, deviam levá-lo ao hospital. – Falou Olga. – Sei que não devem querer ir diretamente para Sina, que ainda está distante, mas podem ficar com o Pixis. Tenho a certeza que ele também poderá respeitar a privacidade dele, se é esse o problema. – Antes que alguém respondesse, pegou no telemóvel. – Vou ligar ao meu pai para que avise o Comandante Pixis.
- Não achas que devias esperar que eles concordem? – Perguntou Daniel ao lado da namorada.
- Disparate. Ele não pode ser tratado por qualquer um e sabem perfeitamente que o Pixis é o grande responsável por esta abertura com Maria. – Disse, enquanto esperava que o pai atendesse. – Pai? Sim, sim, está tudo bem. Olha, preciso de um favor.
- Quem é o pai dela? – Perguntou Isabel.
- É o General. – Respondeu Nicole timidamente.
- Petra vai lá dentro e tranquiliza os outros. É melhor não juntar demasiada confusão aqui. – Falou Christa e ao ver que a outra ia argumentar. – Vai. Ele está bem. O Eren não lhe fará nada.
Com alguma relutância, a Beta resolveu seguir as instruções da loira até porque imaginava como os Alfas iriam reagir caso vissem Levi nos braços de um desconhecido. Contudo, ela também viu como Axel, que era o pai, não parecia muito preocupado com a presença daquele Alfa de olhos verdes que…
"É impressão minha ou ele tinha uns olhos e traços semelhantes…", parou no corredor, "Aquele Alfa é o pai da…", foi interrompida ao ver Oluo, Gunther, Eld, Reiner e Reiner correr na direção dela, notando a agitação da Beta que respirou fundo para não influenciá-los a qualquer ação impensada. E mesmo assim, Petra não teve a tarefa facilitada porque todos os Alfas queriam passar por ela e ver com os próprios olhos o que teria acontecido e quem estava com Levi.
A agitação deles não diminuiu muito, quando viram o mesmo desconhecido que somente Reiner reconheceu debaixo de uma capa colocada sobre ele, enquanto carregava o Ómega nos braços.
Graças a Olga conseguiram um carro com a condição de que nenhum soldado de Rose e Sina o acompanhassem, exceto Eren que não aceitava a ideia de que lhe retirassem o Ómega inconsciente dos braços, mas também mostrou-se completamente contra a ideia de deixar Nicole para trás. Num tom autoritário que Olga, Daniel ou até mesmo Nicole não estava habituada a ver no moreno, ele ordenou que a última o acompanhasse no carro e os outros dois obedecessem e seguissem noutro veículo atrás deles.
Hanji assumiu o volante com Axel como passageiro ao lado dela e atrás seguia Eren com Levi nos braços ao lado também de Nicole, que ocasionalmente lançava alguns olhares e via o moreno completamente absorto no outro Ómega. Ela pensou que o normal fosse sentir alguma inveja da devoção e atenção que o Alfa de olhos verdes dedicava ao rapaz inconsciente, mas sentiu um alívio ao notar que esse não era o caso. Pelo contrário, ela sentiu um peso levantar-se do peito e diria até estar feliz porque aquilo era sem dúvida a coisa correta.
"A história deles não acabou", concluiu com um sorriso discreto.
- Também queria falar contigo, Eren mas não nestas circunstâncias. – Falou Hanji, quebrando o silêncio.
- É perigoso que estejas em Rose. – Foi a resposta do moreno sem desviar o olhar do rosto do Ómega, que não demonstrava qualquer sinal de ir acordar em breve. – Devias manter-te longe dos olhares.
- É bom ouvir-te preocupado comigo. – Falou a Beta.
- A quantas pessoas exatamente o Pixis esteve a falar de mim? – Indagou o moreno, deixando de olhar para Levi e olhando para o espelho retrovisor onde via os olhos castanhos da Beta focados nele e sabia que também o outro Alfa o observava de soslaio.
- Não esperavas que realmente considerasse aquelas duas míseras cartas que enviaste durante todo este tempo como válidas, pois não? – Perguntou Hanji. – Praticamente, disseste que ficavas contente que estivéssemos bem e que esquecêssemos que tu existes. Achas que eu, a tua mãe ou os teus amigos iríamos simplesmente desistir de te procurar?
- Mesmo que a pessoa que procuravam encontrar já não exista? – Indagou num tom, que se a Beta fosse honesta, a arrepiava um pouco.
- Se já não existe, dá-me um motivo para te preocupares comigo ou mesmo com a… Nicole, não é querida?
- Sim. – Assentiu a rapariga que assistia à troca de palavras em silêncio.
- Gostava que te mantivesses longe de problemas, Hanji. Estão a oferecer uma fortuna pela tua captura e a Nicole está sob a minha proteção. Ela não vai a lado nenhum sem mim, não fica em lado algum sem que eu esteja por perto. – Afirmou.
- Eren, se ainda é assim que sentes relativamente aos Ómegas, estás a tempo de parar toda esta loucura e voltar connosco para Maria. – Falou a Beta e engoliu um nó na garganta ao ver pelo espelho um sorriso que classificaria quase como perturbador.
- Já passei o ponto de retorno há muito tempo. O meu lugar não é em Maria e assim que puderem, deveriam deixar este lugar. – Olhou para Levi e todos podiam ver como a expressão mudava. – Ele não devia correr o risco de regressar a um lugar tão corrompido. Vi na expressão dele que continua a ter a mesma inocência de antes e isso é muito perigoso num lugar como este.
"Vou deixar-te no hospital e assim que estiveres recuperado, espero que regresses a Maria. É verdade que tentaram ocultar o que aconteceu há quase dois anos atrás, mas há gente… gente perigosa que se lembra do que fizeste naquele dia e que não podem saber que estás tão perto", acariciou os cabelos negros, "Vou livrar-me deles, mas não quero vejas. Quero que estejas longe… quero que estejas em segurança".
- Desculpa, vó… - Murmurou a voz infantil, vendo a Ómega dormir profundamente na cama.
A menina de olhos verdes levava um vestido azul-escuro e um casaco fino branco por cima. Calçava uns pequenos sapatos da mesma cor do vestido e dentro de uma bolsinha, levava algumas bolachas. Os olhos de um verde-esmeralda também estavam um pouco embaciados à medida que se distanciava da cama e saía com passos cuidadosos da casa.
"Preciso ver o pai…", dizia a si mesma e assim que saiu entre a penumbra, viu os mesmos Alfas que horas antes estiveram diante de algumas casas. Eles esperavam que as últimas cestas fossem preenchidas pelos materiais que tinham vindo recolher a Trost e que a pequena escutou que seriam transportados para os centros urbanos de Maria.
Mais uma vez notou que a menos que propositadamente ou por falta de cuidado mostrasse a sua presença, os outros nunca se apercebiam que estava próxima.
- Ainda bem que as fe'ômonas não gostam de mim. – Murmurou, gatinhando até ao ponto em que se encontravam várias cestas e aproveitando que os três Alfas estavam distraídos com a Beta que lhes dava indicações acerca dos produtos, a criança levantou uma das tampas da cesta que estava mais afastada. Já havia produtos no interior, mas ainda havia espaço suficiente para que pudesse entrar. Antes que alguém notasse, apoiando-se numa outra cesta e uma pedra próxima colocou primeiro uma das pernas e quando estava a tentar entrar com cuidado, caiu no interior.
A forma como a cesta se agitou fez com que pensasse que a mesma ia cair e revelar que ela estava no interior, mas por sorte a cesta não caiu.
- O que foi?
- Nada, acho eu. – Respondeu um dos Alfas. – Pareceu-me ter escutado qualquer coisa.
- A esta hora não há ninguém fora da cama. – Disse outro. – Está tudo? Eles precisam destes produtos ao amanhecer e nós ainda temos uma longa caminhada pela frente, se queremos chegar lá a tempo e horas.
- Sim, acho que está tudo. Tenham cuidado na viagem.
A pequena manteve-se completamente imóvel e até prendeu a respiração quando ouviu os Alfas aproximarem-se para pegar nas cestas. Eles levariam duas na mão e outra nas costas como ela viu em tantas ocasiões. Com isso em mente, a menina escolheu não só a cesta que estava mais afastada, mas também uma que tinha as cordas de apoio que intuíam que um deles levaria a cesta nas costas. Sorriu satisfeita ao concluir que tinha razão.
- Porra, está mais pesada esta cesta. – Comentou um dos Alfas.
- Queres ajuda? – Ironizou outro.
- Está calado. Dá para levar, mas podiam distribuir melhor o peso. Enfim… vamos andando porque não temos assim tanto tempo até ao amanhecer.
Quando Layla acordou horas mais tarde e viu a cama vazia ao seu lado, ponderou que a pequena tivesse acordado apenas para ir à casa de banho. Afinal, ela insistia em aprender a ir sozinha, mas sempre regressava para pedir ajuda. Porém, não ouviu qualquer movimento e por isso, apressou-se a procurar a neta.
Contudo, depois de procurar em cada divisão da casa, de chamá-la e ver o pijama dobrado num canto da sala, ela sentiu um frio no estômago. Saiu de imediato de casa e assim que viu os primeiros vizinhos, Layla interrogou-os. Perguntou-lhes se tinham visto a criança, mas todos respondiam o mesmo.
A Ómega não queria acreditar. Não podia ser.
Desde que Levi os tinha visitado da última vez e dito que iria para um concerto em Rose, a pequena mostrou-se muito inquieta. Começou inclusive a ter pesadelos e repetia uma e outra vez que não queria que o pai fosse ou então, queria ir com ele. Nunca lhe passou pela cabeça que a criança fosse tão determinada, teimosa e capaz de ir pelo próprio pé. Não era possível e o pior é que não podia saber exatamente que direção tinha tomado.
Afinal, ela tinha nascido com uma particularidade que há muito tempo não se ouvia falar em Maria. A pequena nasceu sem qualquer feromona, sem qualquer indicação da espécie e por isso, sem os aromas, as fragrâncias que ajudariam a encontrá-la mais facilmente.
- Layla o que aconteceu? – Perguntou a Ómega de cabelos grisalhos e feições que também passaram ao seu filho, o Comandante Gabriel.
- Ela desapareceu. – Disse com um tremor na voz. – Tenho medo que tenha tentado ir para Maria sozinha e eu não sei como encontrá-la! E se lhe acontece alguma coisa?
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Preview:
(...) - Pensas o quê? Que te devo satisfação de alguma coisa? – Falou Eren, rosnando e ouviu uma reação semelhante do outro. – Se é só isso que tens para dizer, sugiro que saias agora da minha frente antes que te arrependas.
- Que merda viu em ti? – Perguntou com algum desprezo.
Eren sorriu de lado.
- Viu claramente algo que tu não tens, porque nunca o terás nos braços da mesma forma que eu já tive. – Provocou e viu como Reiner e outro Alfa seguravam no loiro (…)
