Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Carina Rissi do seu livro Mentira Perfeita.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 44
Sakura
Estava chovendo quando meu turno terminou. Conferi se a mochila estava bem fechada antes de me enfiar naquele aguaceiro. Uma buzina insistente me fez olhar para a rua.
Sasuke!
— Não imaginei que você viesse me pegar — falei, sem fôlego, depois de entrar em seu Honda, jogando a mochila no assoalho para poder prender o cinto de segurança.
Ele não disse nada. Apenas me observou como se não me visse havia décadas.
Sua mão se elevou para se encaixar em minha bochecha. Seu semblante estava rígido, como se ele lutasse contra algo realmente doloroso.
— O que foi? — Preocupada, toquei seu queixo.
Abanando a cabeça, ele fechou os olhos e me beijou. Um beijo repleto de saudade e... medo?
— O que aconteceu, Sasuke? — insisti, quando ele libertou minha boca.
— Nada. Estava com saudade, só isso. — Mas havia uma sombra em seus olhos. O que estava acontecendo? — Temos que ir buscar sua tia. Como foi o seu dia? — Engatou a marcha e acelerou.
— Produtivo. — Bom, quase. — E o seu? — especulei, na tentativa de que ele dividisse comigo o que quer que o estivesse perturbando daquele jeito.
— Nem tanto. Uma das crianças colocou macarrão dentro da impressora. Levei quase a manhã inteira para tentar tirar almôndegas e molho de dentro da máquina.
— Por que alguém colocaria macarrão na impressora?
— Para imprimir em 3D. — Ele fez uma careta. — Ainda não entendi a lógica.
Acabei rindo, e ele chegou a sorrir, mas foi tão breve que mal passou de um lampejo. Qual era o problema?
Ah, claro! Kakashi, lembrei.
— Então você sobreviveu ao confronto com o seu irmão.
— Não foi tão ruim como eu imaginei. — Ele acionou a seta e mudou de faixa. — Ele está bravo, mas não tanto quanto eu achei que ficaria. Eu tinha bons argumentos.
— Que bom.
Então, se não era isso, o que poderia ser?
— E quanto à sua tia? — ele quis saber. — O que você vai dizer a ela sobre a noite de ontem? Ela pareceu bastante decepcionada hoje de manhã, porque nós não estávamos nos agarrando nem nada quando chegamos em casa.
— Eu também notei. E por isso mesmo não vamos dizer nada. Quer dizer, ela vai tentar descobrir se aconteceu alguma coisa. Foi uma sorte ela não ter percebido que eu tive uma noite espetacular só de olhar para mim. Tenho medo que ela entenda tudo errado e ligue para a Allure marcando o nosso casamento para a semana que vem.
Porque seria exatamente isso que aconteceria se ela soubesse — ou mesmo desconfiasse — do que havia acontecido sobre o tapete de sua sala.
A tensão ao redor de Sasuke pareceu ceder, e do nada um sorriso daqueles de tirar o fôlego lhe curvou a boca.
— Ontem foi mesmo espetacular, Pin.
— Ah. — Onde estava meu filtro quando eu mais precisava dele? Minhas bochechas se incendiaram. — Eu não... eu não quis dizer... eu...
— Mas não foi o bastante. — Ele manteve o olhar à frente. Sua fisionomia se tornou séria, como se ele não devesse dizer aquilo. Ou não pudesse. — Eu ainda quero você pra cacete, Sakura.
Inspirei fundo, experimentando um tipo de alívio que poucas vezes senti na vida.
— Eu também quero você, Sasuke — murmurei. — Tanto que chega a doer.
Ele imediatamente voltou o rosto para mim, o olhar intenso, as pupilas fazendo aquela coisa de dilatar...
— Cuidado! — gritei, quando um borrão vermelho passou na frente do carro.
As rodas do Honda travaram e fomos jogados para a frente. Ricocheteei no banco, o cinto de segurança se esticando de súbito, o rosto ficando a centímetros do para-brisa, o coração pulsando erraticamente.
Xingando, Sasuke encostou o carro no meio-fio e ligou o pisca-alerta.
— Caramba, aquele cara é louco! Não podia ter entrado na sua frente daqu... — Mas me calei quando ele enroscou os dedos em minha nuca e me puxou para si. Ele me beijou com força, um beijo afoito e molhado que fez minhas entranhas se embolarem.
— Cacete, Sakura! Não posso bater o carro com você dentro — disse contra meus lábios.
— Sasuke! — Eu o afastei (com alguma relutância de ambas as partes, é verdade) e o fitei a sério. — Você não pode bater o carro de jeito nenhum!
— Então nunca mais me diga esse tipo de coisa enquanto eu estiver dirigindo.
— Que coisa? Que eu quero você?
Ele meio gemeu, meio grunhiu e voltou a me beijar, dessa vez com delicadeza, sem pressa, fazendo promessas silenciosas que eu daria qualquer coisa no mundo para compreender o que significavam.
Quando libertou minha boca, manteve o rosto junto ao meu, a testa apoiada na minha. Mantive os olhos fechados, meus dedos brincando em seu queixo.
— Então, sobre aqueles seus planos... — ele sussurrou.
— O que é que tem? — Acabei sorrindo. Mal podia esperar para ver sua reação.
— Tem certeza que não envolve você nua?
Dei risada e abri os olhos. Ah, meu Deus, como ele era bonito...
— Tenho, Sasuke. E agora acho melhor a gente ir pegar a tia Tsu ou vamos nos atrasar, e os meus planos vão por água abaixo.
— Ok. — Ele sapecou um beijo em minha boca antes de se aprumar. — Mas espero que esse seu plano seja muito maneiro, já que você não pretende tirar a roupa e tudo o mais. A propósito, já que você mencionou a sua tia, vamos fingir que não aconteceu nada entre a gente, certo?
— Certo. E o que acabou de acontecer neste carro não pode se repetir de jeito nenhum quando estivermos em casa, Sasuke.
— E fora de casa? — Seu rosto ganhou uma seriedade pouco característica.
Então, aquele era o momento. Ele me dava a escolha. Deixar rolar o que quer que estivesse acontecendo entre nós ou terminar de uma vez, pondo fim à confusão toda. Um mês antes eu nem teria que pensar, mas agora...
— Eu acho... acho que não tem problema. — Desviei os olhos para minhas mãos retorcidas sobre o colo.
Tenho quase certeza de que o ouvi soltar o ar com força, como se o estivesse prendendo antes.
— Só que, Sasuke, nós temos que ser muito cuidadosos. A tia Tsu não pode descobrir que... que esse lance está rolando. — Experimentei olhar para ele. Algo o divertia, a julgar pelo tremor nos cantos daquela boca suculenta.
— Então — começou —, primeiro nós fingimos para a sua tia que estávamos envolvidos quando não estávamos. E, agora que estamos, vamos ter que fingir que não estamos. É isso mesmo? — Ele coçou a sobrancelha. — Entendi tudo direitinho?
— É.
— Eu só estava verificando... — respondeu, divertido. Levou a mão ao volante, pronto para sair da vaga.
Meu celular emitiu um ruído novo. Relanceei a tela, franzindo a testa.
— Ué...
— O que foi? — Sasuke quis saber.
— É o aplicativo da câmera portátil. Recebi uma notificação de que ela foi ativada. — Cliquei no ícone e o aplicativo se abriu, exibindo uma imagem em tempo real.
Do meu sabotador!
— Não acredito! Faz a volta, Sasuke. Preciso ir para a L&L agora! — ordenei. Minhas mãos tremiam tanto que tive dificuldade para segurar o telefone e firmar a vista.
— Calminha aí, Sakura. Não faça nada de cabeça quente. Pode não ser o seu sabotador.
— Mas é! Ninguém no TI se atreve a mexer numa máquina que não seja a sua. É quase uma regra.
— Você o conhece?
— Eu achava que sim. — Eu não conseguia acreditar no que estava vendo no meu celular. Como pude me enganar tanto?
— Ok. — Sasuke respirou fundo. — E o que você pretende fazer? Como vai provar que é essa pessoa que está fazendo as alterações no site?
— Eu tenho a gravação! — Ergui o celular.
— Que não prova nada além de que alguém precisou usar o seu computador. Até sabermos que realmente foi feita uma alteração no site, você não tem nada.
— Mas... Droga! — Ele tinha razão.
Do outro lado da rua, avistei Sarutobi e Kabuto saltarem de um táxi, usando as pastas para cobrir a cabeça e se proteger da chuva.
— Sasuke, aquele é o meu chefe. Eu tenho que falar com ele. Você pode pegar a tia Tsu?
— Sakura, você não devia... — Ele bufou, balançando a cabeça. — Saco. Tudo bem. Vou buscar a sua tia. Só toma cuidado.
Saltei do Honda, me esquivando dos carros que vinham em alta velocidade até chegar à outra calçada.
— Sarutobi! — chamei. Ele se virou para trás, procurando. Seu rosto assumiu uma postura mais séria quando me viu.
— Sakura! — ele disse assim que consegui alcançá-lo. — O que está fazendo aqui?
— Eu... hã... — Tá, meu plano não ia muito além de saltar do carro e correr atrás do homem. Sasuke tinha razão: até surgir o novo bug — e haveria um —, eu não tinha nada. Olhei para a tela do meu celular, agora cheia de gotas de água. Meus óculos começaram a embaçar, mas a imagem continuava em movimento. — Humm... Eu queria saber se você tem horas.
— Você me chamou no meio desta chuva apenas para saber as horas? — Por sua expressão, ele não estava feliz com isso.
— É que eu acho que o meu celular está com algum problema.
Ele fez uma careta — ou acho que fez; era difícil enxergar com as lentes esbranquiçadas e cheias de gotas — e relanceou o caro relógio dourado em seu pulso esquerdo.
— São seis e quinze.
— Tem certeza que são seis e quinze? — insisti.
— Tenho.
— Certeza absoluta? Que são seis e quinze? — Os pingos gelados entravam pela gola da minha blusa e escorriam por minha coluna.
Ele me olhou com suspeita.
— Certo, Sakura. O que você está armando?
— Nada. Só quero ter certeza de que você está me dizendo que, neste momento, são seis e quinze.
— Já são seis e dezesseis — Kabuto disse, prestativo.
— Tá. Seis e dezesseis, então. — Eu já não conseguia vê-los, então tirei os óculos. Não mudou muita coisa.
— Isso tem a ver com... — Sarutobi se interrompeu sugestivamente.
Fiz que sim uma vez.
Ele coçou uma sobrancelha com o polegar.
— Você está me dizendo que tem alguém agora mesmo na sua mesa, sabotando a L&L?
— Não. Só estou dizendo que são seis e dezesseis e...
— Seis e dezessete agora — ajudou Kabuto, alheio à carranca que Sarutobi lhe dirigiu.
— Obrigada, Kabuto — agradeci. — Então, eu só estou dizendo que são seis e dezessete e eu estou bem aqui, a muitos quarteirões da L&L, falando com você, debaixo desta chuva.
Ele trincou o maxilar e pegou seu telefone. Ligou para a segurança da L&L e solicitou que a câmera fizesse uma varredura no setor de TI.
— Eu posso ajudar. — Criando coragem, mostrei a ele o vídeo em tempo real em que Karin aparecia.
Seus olhos se arregalaram em surpresa. Bom, eu também estava tentando entender.
Por que Karin tentaria me prejudicar? A menos que quisesse a minha vaga para um amigo ou parente, e mesmo assim eu não conseguia acreditar que ela desceria tão baixo apenas para ajudar alguém a arranjar um emprego. Ela sempre foi legal comigo. Desde que nos conhecemos, tentara ao máximo se aproximar de mim. E, exceto por aquela cena no elevador, sempre foi um amor de pessoa. Às vezes até em exagero!
Tudo fingimento. Agora eu via a verdadeira Karin. Era a mesma mulher fria e grosseira que eu vislumbrara naquele mesmo dia, que ficara furiosa só porque...
Espera aí.
Seria por isso? Seria por causa de Sasuke que ela andava me sabotando — e a empresa onde trabalhava? Depois daquele ataque, eu não achava tão impossível.
Mas as alterações foram feitas antes que ela soubesse que eu havia me envolvido com Sasuke.
Ou não? Afinal, Sasuke e eu estávamos fingindo um noivado. Será que ela tinha ouvido alguma coisa a respeito? Ela podia ser tão vingativa assim?
Apenas Sasuke poderia me dar essas respostas, e isso, infelizmente, teria que ficar para mais tarde. Agora eu precisava agir ou acabaria perdendo o emprego.
— Você pediu autorização para instalar uma câmera na sua mesa? — a voz furiosa de Américo me chegou aos ouvidos.
— Hã... não.
Ele sacudiu a cabeça.
— Deus do céu. Quando essa porcaria toda vai acabar? — Inspirou fundo. — Preciso de uma bebida. Vamos lá, Sakura. Você vai ficar comigo até... a porra do meu celular tocar. Se ele tocar.
Não fomos muito longe. Só até a esquina, no barzinho não muito limpo onde quase todos os funcionários da L&L davam uma passadinha para tomar um trago antes de voltar para casa. Não havia mesa disponível, de modo que Kabuto, Sarutobi e eu nos esprememos no balcão. Meu chefe inteirou seu colega do que andava acontecendo enquanto eu quicava na banqueta alta.
Nós três acompanhamos Karin desligar meu computador, pegar sua bolsa e ir embora.
— Então, me conta como é o seu relacionamento com ela — perguntou Sarutobi depois de engolir o segundo uísque. E pediu mais um. — Me faça entender.
— Não sei se sou capaz, Sarutobi. Ela sempre foi muito legal comigo. Eu realmente não entendo por que ela está fazendo isso.
— Que interesse ela pode ter? — O barman colocou um copo com o líquido ambarino em frente a ele. — Por que estaria te sabotando? O cargo dela é superior ao... — O telefone de Sarutobi tocou. Nós nos encaramos enquanto ele levava o aparelho à orelha. — Sim. Não, tudo bem, pode falar. — Ele fechou os olhos, sacudindo a cabeça, e eu tenho certeza de que mentalmente resmungou um palavrão. — Que tipo de problema? Quando isso aconteceu? Tudo bem, vamos resolver o mais rápido possível. — Desligou.
— Então...? — estimulei, já que ele ficou calado.
Aumentando minha agonia, Sarutobi pegou seu terceiro uísque e o virou, pousando o copo no balcão com um baque.
— Preciso ir, Kabuto. Há um bug no site — Sarutobi resmungou. Ah, eu sabia! Sabia! Ele pegou a carteira no bolso do paletó e separou duas notas, deixando-as ao lado do copo. Então me encarou. Estava furioso. — Muito bem, Sakura, vamos dar uma olhada na sua máquina antes de ligar para o Hashirama e dar as boas notícias.
Kabuto apertou seu ombro em solidariedade. Eu assenti com firmeza e segui meu chefe para fora do bar.
Continua!
