CAPÍTULO L

UMA DATA MUITO ESPECIAL

Sábado, 16 de agosto. Aniversários à vista.

Takashi foi o primeiro a despertar dessa vez. Era aniversário de William, o que significava que teria que ligar para a Nova Zelândia e dar os parabéns ao garoto, o que significava que teria uma desculpa para falar com sua mãe sem ter que aturar Ken chamando-o de bebê chorão. Não esperou para ver se seus companheiros estavam acordados ou não, apenas se dirigiu ao saguão do hotel em direção às cabines telefônicas que cobravam apenas seis centavos o minuto na ligação internacional. Não poderia adiar muito mais o telefonema porque a diferença de fuso horário – termo cujo significado ele aprendeu durante a viagem – entre os dois países era de cerca de doze horas ou mais.

O telefone tocou na casa de Keiko Takahashi e por alguns instantes a treinadora conhecida por sua disciplina rígida transformou-se em uma manteiga derretida. Ao ouvir a voz do filho do outro lado da linha, Keiko esqueceu de tudo: de sua reputação como treinadora, de seu status no mundo do beyblade, até mesmo de que estava sendo assistida por dois de seus alunos mas promissores e membros dos WATB, William Hopfiel e Emy Fraze.

- Takashi! Como você está? Está bem? Os Taichi estão te tratando bem? Não pegou nenhum resfriado? Está colocando todos os casacos que eu mandei? Miko-chan está de olho em você como eu pedi? Você troca sempre de cueca? Elas estão sempre limpinhas? Você toma banho todo dia?

- Manhê...

- Continua brigando muito com o Ken-kun? Cresceu alguns centímetros? As roupas estão começando a ficar apertadas? Ainda continuam te chamando de Ratinho de Laboratório? Seu pai tem falado com você? Você tem ligado pra ele? As lutas estão muito difíceis? Os treinos estão muito pesado?

- Mãe...

-Está precisando de alguma coisa? Quer que eu mande algumas peças novas para as beyblades de seus amigos? Quantas? Qual o endereço do hotel? Como é a cidade que vocês estão agora? E os adversários? São muito fortes?

- MÃE, CHEGA!

- Desculpe, Takashi... – Keiko ficou extremamente corada, não havia percebido o quão chata estava sendo. O grito de Takashi pôde ser ouvido até mesmo por quem estava a mais de vinte metros do telefone. William e Emy apenas assistiam, divertidos. Sabia que, apensar de tudo, Keiko era apenas uma mãe preocupada com o filho que se encontrava viajando pelo mundo.

- As respostas para suas perguntas: Bem. Sim. Sim. Não. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Claro. Infelizmente não. Não. Graças a Deus não. Não. Não. Não. Não. Não. Pode ser. Quantas puder. Não sei. Legal. Na média.

- Oh, certo. Fico feliz em saber. Agora, me conte as novidades...

Takashi já não estava mais tão certo se queria mesmo falar com a mãe. Keiko obrigou o filho a ficar uma hora inteira contando as novidades do Brasil, obrigando o menor membro dos Taichi a fazer um resumo de tudo que já havia acontecido no torneio brasileiro. A última luta dos Brasil Blade deixou Keiko preocupada e ela só não entrou em pânico porque seu filho afirmou que ninguém tinha se ferido. Quando finalmente terminou, os Taichi já o cercavam e pediam para falar com William, a desculpa perfeita para forçar a mãe preocupada a lagar o fone. Takashi foi o primeiro a falar com o aniversariante, mas teve que ser breve devido à fila atrás de si:

- Oi.

- Oi.

- Feliz aniversário.

- Obrigado.

- Até mais.

- Até.

Em seguida, Takashi deu o telefone para Ken, que se encontrava mais próximo dele.

- Parabéns, você é mais velho do que eu agora.

- Não é minha culpa se você nasceu no fim do ano.

- Idade não é indicação de poder. Eu posso ganhar de você se eu quiser quando a gente se encontrar de novo.

- Você que pensa. Eu estou treinando duro pra da próxima vez não apanhar de novo da Rumiko.

A conversa se estendeu por mais alguns minutos, até Ken passar o telefone para Satsuki. A loira não se conteve em falar apenas com o aniversariante, acabou pedindo para ter uma palavrinha com Emy também, e as duas gastaram quase meia hora falando de assuntos que exigiam um pouco mais de cultura e inteligência do que o que a média dos beybladers possuía. Quando as loiras paradoxais finalmente decidiram parar, foi a vez de Toshihiro cumprimentar William. Como Rumiko já estava há muito tempo pedido para falar, o chinês acabou sendo quase tão breve quanto Takashi.

- Me deixa falar! – Exclamou Rumiko, quase derrubando Toshihiro do banco na cabine. – Oi William! – Toshihiro saiu o mais depressa possível de perto da garota, com medo do que podia acontecer se demorasse mais. Seu cabelo já estava todo bagunçado e ele teria que voltar para o quarto e arrumar tudo novamente antes de deixar ser visto pelos outros. – Como você está? Continua treinando? Quando nos encontrarmos de novo eu vou querer te desafiar novamente, viu? E não vou aceitar outra vitória fácil, quero ver você mais forte do que nunca para que possamos ter uma luta maravilhosa na Rússia!

- Eu vou me esforçar, Rumiko! Você vai ver! – Do outro lado da linha, os olhos de William soltavam faíscas tamanho era o fogo que ardia dentro dele. Rumiko reacendera seu espírito de luta e renovara sua paixão pelo beyblade. – Não haverão mais lutas fáceis para vocês! Nós, os WATB, seremos os campeões mundiais, e nada nem ninguém será capaz de nos parar!

- É assim que se fala, William! – Rumiko ficou realmente feliz em ouvir isso, sentia-se realmente satisfeita consigo mesma quando conseguia animar outra pessoa.

- Agora, mudando um pouco o assunto... Tem alguma garota bonita em alguma das equipes que vocês já enfrentaram?

Rumiko não chegou a cair do banco ao ouvir a pergunta, mas bateu a cabeça na parede plástica da cabine telefônica. Com a certeza de ter criado um galo tamanho família no meio da testa, respondeu a pergunta da maneira mais educada que conseguiu, embora no momento seus instintos de luta também estivessem muito aguçados e sua real vontade fosse de enfiar a mão pelo telefone e puxar William pela orelha até o hotel em que se encontrava, para depois fazê-lo pagar pessoalmente por ser tão idiota, insensível e mal-educado.

- Ah, que pena, você está sem sorte. A única garota que foi nossa rival depois do Torneio da Oceania é a Lily Brum, e o namorado dela tem dupla personalidade e se transforma num louco psicopata cada vez que irrita com alguém. Na equipe brasileira não tem nenhuma garota, e mesmo se tivesse, você não acha que está um pouco longe para conseguir fazer alguma coisa, não?

- Rumiko, você acabou de destruir o meu dia...

- Ah, de nada! Sou eu que agradeço a atenção. Você é uma pessoa muito gentil causadora de calos em garotas inocentes.

Dizendo isso, Rumiko desligou o telefone e mandou que sua equipe se dirigisse para arena para uma sessão de treinos antes do almoço. Ken, Takashi e Satsuki, temendo por suas vidas, seguiram a garota sem reclamar, se perguntando o que havia acontecido para deixar a japonesa tão irritada.


Quando Toshihiro voltou de sua "retirada estratégica", os Taichi não estavam mais presentes, no lugar deles, os Brasil Blade pareciam estar em uma espécie de reunião, sentados em roda no chão do hotel. O que quer que estivessem discutindo, tinham Luiz como centro das atenções. O gaúcho parecia um tanto apreensivo perto dos colegas, algo muito diferente da personalidade provocativa e destemida do gaúcho.

- Oi, pessoal, o que está havendo aqui?

- Oi, Toshihiro! – Quem respondeu foi Felipe, virando-se para cumprimentar o chinês. – Estamos aqui resolvendo uns probleminhas de time. Hoje à tarde o Luiz vai ter um campeonato de futebol, só que ele ficou tão apavorado quando me viu jogando outro dia que agora acha que não terá chance de vencer nem o primeiro adversário, ele está quase borrando as calças de medo e...

- Isso é mentira! – Uma mão vinda de algum lugar acertou um soco na parte detrás da cabeça de Felipe e o líder brasileiro fingiu um desmaio. Luiz era o autor do golpe, e havia uma veia saltando de sua testa. – Eu não estou borrando as calças muito menos impressionado com o desempenho do Felipe. Ele só falou a verdade até o fato de eu ter um campeonato hoje a partir da uma da tarde.

- Ah, que legal! Que campeonato que é?

- É o Campeonato Gaúcho sub-15. Os dois melhores times se classificam para o campeonato nacional em outubro e de lá vão ser escolhidos os melhores atletas para integrar a seleção brasileira que vai para a Alemanha ano que vem jogar o mundial. É o meu sonho como jogador de futebol ser escolhido, por isso eu vou levar meu time à vitória hoje!

- Você não me parecia tão confiante assim agora a pouco, parecia um pouco inseguro ou coisa assim...

- É que ele se deu conta que vai ter que me enfrentar no campeonato nacional!

- CALA A BOCA, FELIPE! – O líder brasileiro, recém recuperado do "desmaio", foi novamente nocauteado pelo amigo/rival gaúcho. – Ah, é que hoje eu estou me sentindo um pouco estranho desde que acordei, alguma coisa relacionada ao fato de não ter mais doze anos a partir de hoje...

- É seu aniversário? – Perguntou Toshihiro, surpreso por ter que dar parabéns para duas pessoas diferentes no mesmo dia.

- Pois é, né? Estou ficando um pouco mais velho...

- E eles deixam garotos de treze anos jogarem na seleção sub-15?

- No mundial do ano que vem, já terei quatorze. E o Felipe vai ter quinze, vai estar na idade limite...

- Grande coisa, se eu quisesse, estava já na sub-17! – Pela segunda vez, Felipe se recuperou dos nocautes.

- Sabe que você fica muito melhor quando está desacordado?

- Sabe que você fica muito melhor usando um vestido de prenda com Maria-chiquinhas na festa junina?

Toshihiro, Ayatá e Cristiano respiraram fundo antes de se levantar e se afastar da dupla que começava outra briga. Carlos, que tirava um cochilo com a cabeça apoiada na parede, nem sequer se mexeu.


Durante o almoço, a tensão em volta de Luiz apenas aumentou. Tanto os Brasil Blade como os Taichi aceitaram de bom grado passar o fim de semana novamente nos gramados auxiliares do Beira Rio vendo Luiz e sua equipe jogarem. Apesar de estar confiante na vitória, o gaúcho ainda estava com uma pequena dificuldade para ingerir alimentos sólidos, e seu time teve que forçá-lo a terminar o almoço sob ameaça de não saírem para os jogos. Chegaram no local marcado meia hora antes do primeiro jogo, sendo logo saudados pelo treinador de Luiz.

- Olá, garotos. – O homem cumprimentou brevemente os beybladers antes de voltar-se para Luiz e dar algumas palmadas carinhosas em seu ombro. – E então, capitão, como se sente num dia tão especial?

- Muito feliz e pronto para a luta! – Respondeu o loiro com convicção.

- Muito bom ouvir isso. Vamos lá, o time já está quase todo reunido.

Dizendo isso, o homem levou o garoto para um lugar mais afastado, dentro da construção principal, onde ficavam os vestiários. O treinador do Internacional era um homem baixinho, ficando careca e com alguns muitos quilos a mais, mas que estava sempre sorrindo e passava confiança a todos que cruzavam com ele. Seu nome era Rui, "apenas Rui", como costumava dizer ao se apresentar.

- Bom, agora só veremos Luiz de novo quando o jogo começar. Vamos procurar algum lugar para sentar. – Anunciou Albert assim que a silhueta de Rui e do sobrinho sumiram por trás da porta de entrada. As crianças se acomodaram nas proximidades do campo do jogo, aguardando ansiosas pelo início da primeira partida.

- Segundo o regulamento, a primeira fase é um triangular, só o melhor time se classifica. Depois acontecem as quartas de final, as semifinais e a final. Cada jogo é dividido em dois tempos de meia hora e a previsão é de que no comecinho da noite o campeão esteja sendo coroado. – Disse Ayatá, fazendo pose de CDF com o livro de regras do campeonato em suas mãos. – Há também premiações para o artilheiro da competição e goleiro menos vazado.

- Que com certeza vai ser do Luiz!

- Assim espero, Cristiano, assim espero...


O começo do jogo até que foi empolgante. Até fazerem o terceiro gol, os garotos do internacional conseguiam ainda variar as jogadas e fazer algumas brincadeiras e exibicionismos. Depois, porém, vieram o quarto, quinto, sexto gol e o jogo começou a ficar muito desparelho, a ponto de Takashi e Rumiko, que não entendiam nada de futebol, reclamarem da falta de técnica do time adversário e da ineficácia de suas jogadas de contra-ataque. E esse ainda era o primeiro tempo. Na segunda metade do jogo, mais quatro gols marcados pelos colorados. Quando Luiz saiu de campo, não estava nem ao menos suado e parecia louco para sentar.

- Ah, eu não acredito que encostei na bola duas vezes o jogo inteiro e ainda só pra cobrar tiro de meta! – Exclamou ele, num tom intermediário entre o espanto e o desapontamento. – Francamente, o nível desse campeonato está bem abaixo do esperado. Se o próximo jogo for assim, eu vou pedir pra cobrar todas as faltas e pênaltis que o juiz marcar, assim eu ao menos faço alguma coisa útil.

- Sabe, isso me lembra o que o Len falou uma vez pra mim e pra Jun depois de um de nossos jogos. A reclamação dele era a mesma, só que ele terminou pedindo pra que eu jogasse um pouco mais desatento e deixasse o atacante passar de vez em quando pra ele ter o que fazer...

- Ah, jogar em time bom é assim mesmo... Ninguém consegue sequer se aproximar de você. Com a gente no São Paulo também é assim, tem vezes que o treinador tem que pedir pra gente maneirar...

Os três jogadores de futebol ficaram divagando sobre seus times até Rui aparecer e chamar Luiz novamente para o segundo jogo do dia, uma vitória tão fácil quanto a primeira, dessa vez pelo placar de oito a zero. Luiz marcou um gol de falta no meio do segundo tempo.

Antes das quartas de final começarem, um dos jogares do time de Luiz chamou os companheiros para observar o final de um outro jogo em um campo próximo. O time do Grêmio Futebol Porto Alegrense estava massacrando o adversário com o placar de quinze a zero. O número dez do time, um garoto alto de cabelos pretos que batiam na altura dos ombros, era apontado como o principal responsável por esse massacre, marcando dez gols durante a partida e dando assistência para os outros cinco. Seu nome era Julio Sallinnas, um centro-avante de quatorze anos. Os olhos de Luiz brilharam ao reconhecerem o rival. Este campeonato havia acabado de ficar interessante.


Tanto as quartas de final quanto as semifinais foram um pouco mais disputadas – Luiz teve que executar algumas defesas fáceis – embora os colorados não tenham encontrado nenhuma dificuldade para vencer com placares de cinco a zero e quatro a zero. O Grêmio, por outro lado, venceu os dois jogos seguintes por dezoito e treze a zero.

- Finalmente um desafio que vale a pena! – Exclamou Luiz pouco antes de se reunir com seu time para a última concentração. – Esse campeonato não teria graça se terminasse sem que a gente enfrentasse um time realmente bom.

- A melhor defesa contra o melhor ataque, vai ser um grande jogo. – Foi o comentário de Felipe. – Se você não conseguir parar esse tal de Julio, é bom perder qualquer esperanças de me vencer um dia, Schester.

- Eu vou pará-lo, assim como te pararei quando chegar a hora, Silva! Nenhuma bola chutada de fora da área conseguiu jamais passar por mim, e essa não será a primeira vez. Como capitão do Internacional Soccer Club, eu vou derrotar qualquer um que se atravesse no meu caminho!

- Esse é o espírito, capitão! Agora vamos para junto do resto do time! – Rui apareceu do nada chamando sua principal estrela. Mesmo estando ausente dos treinos durante o torneio de beyblade, todos no time eram unânimes quanto à convocação do capitão para o campeonato. Luiz era o pilar que sustentava o time, o responsável por dar confiança e garra ao grupo que até hoje nunca falhara com sua responsabilidade. Até hoje.


Os dois times entraram em campo. A final seria um Gre-Nal, o confronto mais conhecido e estimado do estado. Apesar de já estar anoitecendo, o público presente nas proximidades do campo era considerável, e entre eles se encontravam os Brasil Blade e Taichi cumprindo seu papel de torcida organizada.

- Capitães, apertem as mãos. – Foi a ordem do juiz. Os times já estavam posicionados, Luiz e Julio se encontravam no meio do campo para decidir quem começaria com a bola. Por ganhar no cara ou coroa, o capitão gremista reivindicou o direto de começar com a bola, enquanto o colorado escolheu o lado do campo que ficava contra o sol poente. Quando as mãos dos dois garotos se tocaram, Luiz sentiu com se seus dedos estivessem sendo quebrados um a um. Propositalmente ou não, Julio apertara demais a mão do adversário, que esperou até alcançar a goleira que teria que defender antes de mostrar qualquer sinal da dor que estava sentindo. O apito soou.

O ataque gremista era muito veloz, por mais que Luiz gritasse e mandasse a zaga se mexer e marcar, sempre sobrava algum jogador livre. Aos três minutos de jogo, um descuido colorado deixou Julio livre na entrada da área. A bola bateu na mão machucada de Luiz e, para incredulidade e desespero colorado, entrou. Um a zero Grêmio. Ao levantar-se do chão, a única coisa que impediu Luiz de ficar parado feito idiota enquanto tentava assimilar a primeira derrota foi a dor latejante em sua mão, agora mais massacrante do que nunca. Enquanto estivesse nessas condições, seria impossível defender.

O Grêmio voltou a marcar aos dez minutos, novamente com um chute de Julio de fora da área. A precisão do chute do garoto era impressionante, talvez até superasse a de Felipe. O capitão gremista tinha um alvo fixo: o canto direito de Luiz, prejudicado pela lesão recém adquirida. Aos vinte minutos, o placar já estava três a zero para os gremistas. A dor na mão de Luiz tornara-se tão insuportável a essa altura dos acontecimentos que ele teve que pedir tempo.

- Eu não consigo mais jogar, treinador! Não consigo! – Foi a primeira coisa que disse ao ir de encontro a Rui após o apito do juiz. – Dói demais, não tem como eu encostar na bola! – Luiz já havia tirado a luva, e de fato sua mão estava bem maior do que o normal. – Desse jeito vamos acabar perdendo o jogo!

- Não diga bobagens, Luiz! – A exclamação de Rui soou quase como um tapa na cara do garoto. – Tem certeza que é sua mão que impede você de jogar? Será que você não está só um pouco impressionado por ter tomado um gol logo no início do jogo? Será que não está apenas impressionado com aquele camisa dez que precisa jogar sujo para ter uma vantagem? Você não está perdendo o jogo para o Julio Salinnas nem o Grêmio, você está perdendo para você mesmo!

- Ele está certo, cara! – Felipe apareceu de repente por trás do treinador. Ayatá estava ao seu lado e segurava algo que parecia um saquinho disforme entre as mãos. – Olha só pro seu time, Luiz! Eles todos confiam em você, é em você que eles se inspiram pra jogar, você é o guia, você comanda! O que vai acontecer com o time se essa pessoa tão importante desistir de lutar? Você não pode se dar por vencido, Luiz, não você! Lembre de sua responsabilidade!

- Eu trouxe uma coisa que pode ajudar a amenizar a dor em sua mão, Luiz. – O indiozinho se aproximou do goleiro e aplicou na superfície da mão inchada uma espécie de pasta verde com cheiro agradável de flores. – Vai se sentir melhor agora.

- Confie mais nas suas próprias habilidades. Se você não for capaz de vencer hoje, não o aceitarei como meu rival no futuro. – Felipe fez cara de "eu-meu-acho-sou-o-maioral". Propositalmente, irritou Luiz e reacendeu seu espírito de luta. A pomada de Ayatá tinha efeito imediato, a dor havia sumido completamente.

- Haháhá, que piada, Felipe! Mas tudo bem, tu pode esperar, porque o Internacional vai dar a volta por cima e nós vamos com tudo pra cima de vocês também! Vou parar Julio aqui e você lá! – Em seguida, o capitão virou-se para o seu time e gritou ainda amis alto, mais determinado do que nunca – Time, o jogo ainda não acabou! Vamos parar o ataque gremista com nosso trabalho de equipe impecável! Eles têm só o Julio no time deles, mas nós vamos mostrar que o futebol é um jogo de onze!


Com os ânimos renovados, o time colorado entrou em campo novamente. A mudança causada pelas palavras de Rui e Felipe foram sentidas logo nos primeiros lances do reinício da partida. O Grêmio cobro um lateral no seu campo de ataque, criou a chance perfeita para o chute de Julio, mas cada vez que o atacante tentava chutar a bola, um jogador colorado a bloqueava. Ele chutou várias vezes, mas todos os disparos foram desviados antes que Luiz tivesse que se mexer. Quando ele finalmente conseguiu tirar todos os oponentes do caminho, seu chute foi novamente certeiro no "ponto fraco" do rival. Julio já se preparava para comemorar o quarto gol quando foi surpreendido pelo renovado goleiro, que não só defendeu a bola como também a agarrou firme e iniciou o contra-ataque. Por não estarem esperando para essa situação, os jogadores gremistas nada puderam fazer para parar os colorados, que marcaram o seu primeiro gol na partida.b

A partir daquele momento, o jogo entrou em um equilíbrio difícil de se acreditar. Luiz havia voltado ao seu estado natural, agarrava qualquer chute de dentro ou fora da área. Não era mais um gato, como Toshihiro antes o descrevera, mas sim um leão em campo, saltando em direção a bola como se esta fosse sua caça, dominando-a com um simples toque. Sua mão não estava mais inchada ou doía, e os chutes de Julio não mais o assustavam. O primeiro tempo acabou com o placar de três a um. O Internacional tinha ainda meia hora para tentar reverter o placar e marcar três gols. Dois só bastariam para levar a disputa para os pênaltis, mas esse era um pesadelo que todo jogador em sã consciência tentaria evitar.

O Inter saiu com a posse de bola no começo do segundo tempo. O grande entrosamento entre os jogadores acabou criando a oportunidade de revanche perfeita para os colorados, que marcaram seu segundo gol logo aos três minutos de jogo. O time do Grêmio se desesperou por estar com apenas um gol de vantagem e passou a fazer ataques desesperados e impensados contra os adversários, sempre parados pela zaga vermelha. Aos quinze minutos de jogo, após uma cobrança de escanteio, o Inter finalmente empatou o jogo, para desespero dos gremistas presentes.

O gol de empate pareceu ter funcionado como despertador para os gremistas, que pararam de tentar fazer jogadas absurdas e partiram para o ataque de uma forma fria a estritamente racional, comandadas por um Julio cada vez mais determinado. A partir daquele momento, ambos os lados entraram em equilíbrio novamente, e chances de gols foram largamente pedidas para os dois lados, com brilhantes atuações de Luiz e falta de pontaria de vários atacantes.

Dois minutos para acabar o jogo. A zaga do Grêmio recuperou a posse de bola. Os jogadores avançavam, driblando os adversários com uma série de passes rápidos. Nervoso, Luiz coordenava a zaga para marcar aqueles que se aproximavam. Num replay dos primeiros minutos da partida, seu time falhou na marcação, deixando Julio sozinho na entrada da área. Um novo chute, a última esperança gremista de vencer. Luiz caiu na bola com todo o reflexo que possuía, confiante. De olhos fechados, o terror se apoderou de seu corpo ao não sentir a bola entre seus dedos, mas os gritos decepcionados da arquibancada serviram como calmante natural: a bola passara raspando pela trave e era apenas tiro de meta para os colorados.

Final do jogo: Inter 3 x 3 Grêmio. Decisão nos pênaltis. O sol já desaparecera por completo trás das águas claras do Guaíba, as luzes auxiliares estavam todas ligadas. Por mais que a temperatura caísse com a ausência do Astro Rei, o público se recusava a deixar o locar do jogo, ansioso pelo desfecho de tão emocionante e equilibrada disputa. Treinadores e jogadores se reuniram para escolher os cinco "sortudos" que teriam a responsabilidade de cobrar os pênaltis. Surpreendentemente, Luiz ficou entre os escolhidos, bateria a última cobrança colorada. O garoto conseguiu disfarçar bem o choque, mas por dentro estava cada vez mais nervoso, ainda mais porque essa não era sua responsabilidade.

O Grêmio começou a disputa. Apesar de ser um grande goleiro, Luiz ainda estava longe de ser perfeito, e os pênaltis eram sua grande franqueza. Ao tentar adivinhar em qual canto o oponente chutaria, quase sempre caia em armadilhas ou reagia tarde demais, como foi o caso da primeira cobrança gremista. Um a zero. Felizmente os colorados também marcaram o primeiro.

Para a segunda cobrança, Luiz novamente tentou adivinhar o canto. Foi para o lado oposto ao da bola. Pelo Inter, o camisa cinco, Carlos Schneider, acertou os dois postes antes de enterrar a bola nas redes. Foi ovacionado por um longo tempo pelos colorados mais fanáticos.

Terceira cobrança, a situação estava ficando desesperadora. Ele precisava pegar logo um pênalti antes que um de seus companheiros cometesse algum erro. Tinha que se concentrar na bola, olhar apenas para ele e nada mais, apenas na bola... que acabava de passar assobiando no seu lado esquerdo. Felizmente, o Inter também marcou.

Os gremistas já estavam começando a fazer piadas com o goleiro do Internacional, tão bom que mal podia ver a bola se aproximar na penalidade máxima. Irritado, Luiz teve uma certa dificuldade em se concentrar, mas para essa cobrança decidira mudar seus planos e somente reagir depois que a bola já fora chutada. Dessa vez foi para o canto certo, mas faltou-lhe velocidade para alcançar a pelota. Os colorados também marcaram novamente, deixando praticamente tudo nas mãos de seu capitão.

Julio – não podia ser outro – foi o escolhido pelos gremistas. Ao ver o rival delicadamente ajeitar a bola na marca da cal, um fogo ardeu dentro do goleiro colorado. Ele encarou o adversário como se o desafiasse a vencê-lo, e foi aí que a coisa mais estranha do dia aconteceu: por um instante, sentiu como se pudesse ler os pensamentos de Julio. Seus olhares se cruzaram rapidamente, mas depois disso Luiz tinha certeza absoluta sobre para qual canto a bola seria mandada. O juiz autorizou,. Julio correu e descarregou toda sua força no chute. Luiz pulou o máximo que pôde, usou todo seu impulso para alcançar a bola na gaveta do canto direito. Vibrou por dento ao sentir seu soco atingir o alvo e mandar a bola para longe. Defendera a quinta cobrança.

Tudo agora dependia dele. Se marcasse, seu time seria o campeão, se errasse, teria que enfrentar sabe-se-lá quantas rodadas mais de seu pior pesadelo futebolístico. Ajeitou a bola exatamente como Julio fizera antes dele. Seria um duelo interessante, goleiro contra goleiro. Luiz se perguntava o porquê de tal escolha do treinador, visto que ele raramente treinava esse tipo de coisa, não era um goleiro-artilheiro como Rogério Ceni ou coisa assim. Nada disso importava agora, o que estava feito, estava feito, não tinha como fugir. O juiz apitou e suas pernas começaram a correr automaticamente. Seu chute mandou a bola para o canto esquerdo, mas a meio caminho do gol ela estava completamente desviada, com certeza ia para fora. Decepcionado, Luiz virou a cara para não ter que ver o resultado, ao mesmo tempo que a bola também fez uma curva no meio do ar e entrou com força dentro do gol, pegando todos de surpresa. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o capitão encontrava-se soterrado por seus colegas em um montinho festeiro. Eles eram os campeões gaúchos, os melhores. E ele havia vencido seu duelo com Julio.

- Belo jogo, goleiro. Foi o melhor campeonato que eu já joguei.

- Eu digo o mesmo, Salinnas. A propósito, meu nome é Luiz Schester.

- Parabéns, Schester, você tem muito futuro no futebol. – O capitão gremista se aproximara para cumprimentar o adversário depois que os outros jogadores saíram de cima do montinho e se preparavam para receber o troféu e as medalhas. Ele estendeu a mão para que Luiz a apertasse, mas parou ao ver a hesitação do outro. – O que foi?

- Não tenho boas recordações da última vez que tu apertou a minha mão.

- Ah, deixa disso! – Surpreendentemente, Julio sorriu ao lembrar o início da partida. – O jogo já acabou, eu não tenho porquê manter os meus maus hábitos do campo...

- Então foi de propósito que tu quase quebrou meus dedos aquela hora!

- Ah, desculpe. – Mesmo ainda mantendo um traço de riso na face, Julio se esforçava para ficar um pouco mais sério, ou ao menos tentar mostrar que sentia muito. – Eu faço isso em todos os jogos para intimidar os adversários, principalmente em time que o capitão é o goleiro. Como tu mesmo pôde ver, funciona em noventa e nove por cento dos casos.

- Estou feliz em fazer parte desses outros um por cento então! – Luiz finalmente apertou a mão do rival, sorrindo. "Até que ele não é má pessoa", pensou, enquanto pedia que não deixasse seu time se recolher até que a entrega das premiações estivesse concluída, pois ele tinha um pedido a fazer.

Os jogadores gremistas receberam suas medalhas primeiro e aguardaram respeitosamente o término da festa colorada, que incluiu beija-beija da tão cobiçada taça e uma volta olímpica cheia de empurra-empurra e atropelos. Quando novamente a situação estava sob controle, um dos jogadores do Inter pegou o microfone do narrador para fazer um pronunciamento:

- Hey, pessoal, esse último jogo foi incrível, tenho certeza que todos nós, perdemos ou ganhando, nos esforçamos ao máximo e nos divertimos também, porque a cima de tudo, futebol também é diversão. É verdade também que gastamos muita energia na tarde hoje correndo de um lado para o outro feito condenados. Por causa disso, eu, Vinícius Fernandes, e minha família, convidamos todos vocês jogadores para passar a noite comendo de graça na churrascaria do meu pai, sem hora pra ir embora! Quem concorda?

Os gritos exaltados das crianças só confirmavam o óbvio: ninguém era bobo de recusar uma oferta tão tentadora como essa. Assim, cerca de meia hora depois, um ônibus contratado pelas equipes deixou o Complexo Beira Rio em direção a tal churrascaria. A pedido de Luiz, os outros Brasil Blade e os Taichi também foram convidados, e a farra dentro do restaurante se arrastou até a manhã seguinte. Com tanta comida à disposição, energia foi o que não faltou para as crianças abusarem de sua liberdade. Depois de encerrada a refeição, elas ainda jogaram cartas, pularam correram, lutaram, jogaram bola, quebraram alguns móveis, quase levaram os hospitaleiros donos do estabelecimento à falência. Até mesmo o beyblade estava entre as atrações da noite, com os Taichi e Brasil Blade fazendo lutas de exibição sem vencedores que maravilharam todos os presentes.

Depois de uma noite fazendo festa juntos, os times antes rivais acabaram se tornando grande amigos, e Julio não só prometeu ir às lutas remanescentes de Luiz no Torneio Sul-Americano, como também resolveu começar a treinar beyblade para tentar algum dia derrotar seu rival.

Daitenji-san e Zanxam-sensei apareceram de manhã para buscar os beybladers, encontrando-os ainda acordados e sem o menor resquício de sono. Foi só deixá-los quietos na van, porém, que eles finalmente se entregaram, tendo que ser carregados feito bebês para seus quartos. Depois do almoço, a maioria já estava acordada, mas Luiz, de tão cansado, só foi acordar na manhã seguinte, completamente perdido e sem a menor noção do tempo.


Luiz: Ah, finalmente o destaque que eu mereço! (pose de Peter Pan) O Internacional triunfou novamente sobre o Grêmio, mas uma prova de sua superioridade.

James: Ah, nem vem! P Vocês perderam o último Gauchão, não podem falar nada! Aliás, eu não sei porque raios você é colorado! É torturante ter eu escrever a derrota do time do coração para o pior rival desse jeito... ç.ç

Rumiko: James é gremista? O.o

James: Desde criancinha! XD

Rumiko: Então por que o Luiz é colorado?

Luiz: Essa foi a pergunta que ele se fez agora a pouco, Rumiko... ¬¬'

Rumiko: Ah, é... XP

Voz: Hey, o que esse bando de gente está fazendo aqui? (com um taco de baseball na mão em posição ameaçadora) Saindo todo mundo, saindo todo mundo! Hoje o dia é meu, do Luiz e do William!

Felipe: Ah, não, ela veio! Droga, por que as garotas têm sempre que se lembrar dessas coisas... x-x

Voz: Como eu esqueceria do meu próprio aniversário, hein? Como posso esquecer do dia em que todo mundo tem que fazer o que eu peço pra fazer, hein? Como eu posso esquecer o dia em que eu posso aparecer na história mesmo que a minha equipe só vá fazer parte do próximo torneio, hein? Como eu posso...

Coro: Calma, (passa carro buzinando)!

Voz: Não é (passa ambulância), é (passa comboio da polícia)! Quantas vezes eu já disse que não é pra me chamar de (passa um transatlântico cheio de turista acenando), eu tenho um nome muito bonito e ele é (passa a Esquadrilha da Fumaça escrevendo "Parabéns a você" no céu)! ò.ó

William: Sabia que você fica muito bonita quando está irritada?

Voz: sabia que a sua cara é passiva de ficar ainda mais feia e deformada se você continuar com essas insinuações sem sentido pra cima de mim?

William: Tá, tá... eu já entendi a mensagem... ç.ç (se afastando lentamente) POR QUE NINGUÉM GOSTA DE MIM, MEU DEUS? ÒÓ

Coro feminino: Porque você é muito feio e idiota!

William: Isso não é coisa que se diga para um cara no dia do aniversário dele...

Luiz: Mas não é seu aniversário, cara, é só o capítulo que aconteceu no dia do seu aniversário.

Ann: Aliás, a gente podia ter aparecido nele também, não é, John?

John: Usu!

Satsuki: Ah, acho que alguém anda vendo muito Prince of Tennis por aqui...

John: Hey, não me chama de Kabaji! Eu naõ sou um mongolão-capacho-de-capitão-narcisista!

Cristiano: Ao menos você ainda não foi chamado de Ootori...

Felipe: E além do mais, se alguém tem que ser o Atobe nessa história, esse agluém sou eu, o pior rival do Yuy Kunimitsu!

Luiz: Acho que vc devia ser chamado de Atobe por outros motivos...

Felipe: Não enche, Gakuto!

Luiz: Ao menos eu posso voar!

Felipe: Voa nada, aquilo são saltos exagerados...

Luiz: Pra mim são muito úteis...

Toshihiro: A Rumiko seria o Echizen?

Voz 2: Não, eu sou o Echizen! Olha o meu poder e tamanho comparado com o de vocês, senpais! XD

Rumiko: Mas então eu fico como quem?

Satsuki: O Fuji é um tensai...

Toshihiro: Gostei, acho que fica bom pra Rumiko...

Satsuki: E eu votaria em você para Oishi...

Toshihiro: Oishi? Por que?

Satsuki: Porque você sempre se preocupa com o time, oras!

Toshihiro: Gostei dessa, Inui...

Satsuki: (com um copo com um líquido azul na mão e cara de pscopata ) Esse é o novo Hiper Power Remix Renew Satsuki Juice, aproveitem! A probabilidade de vocês só acordarem amanhã é de 100! Mwhahahahahhahhahaha

Voz: Pessoal, vamos correr! AH, ORE WA BURNING! (sai correndo com o taco de baseball na mão)

(debandada em massa, só fica o Carlos dormindo no sofá inocente)

Satsuki: Oh, parece que todos eles sumiram... A probabilidade de eles voltarem apenas na semana que vem é de 97, não é, Emy Yanagi?

Emy: Sim, Satsuki Inui! 97 e aumentando...

(percebem o Carlos dormindo)

Olha, veja, parece que Jiroh Figueiredo esqueceu de correr...

Satsuki: Isso significa que os testes já podem começar...

(A imagem fica toda preta, ouvem-se apenas alguns gritos no fundo e de repente tudo fica silencioso)

Yuy: Pra quem não entendeu nada dessa última idiotice desses bakas, assistam ou leiam Prince of Tennis, a nova mania do James que acabou se espalhando por entre os personagens.

As atualizações a partir de agora voltam a ser semanais, a não ser que o James decida o contrário. No próximo capítulo, o início das quartas de final.

Zannen munnen mata raishuu,

Yuy Kunimitsu