Naquela noite, Amy se assustava com qualquer coisa. Com o som do vento, o sibilar das folhas, os galhos roçantes...

Ficava pensando porque Henry havia agido daquele jeito estranho, mas quanto mais ela pensava, mais lhe parecia que tudo vinha apenas da sua imaginação.

Quando, por fim, ela se deitou e conseguiu pegar no sono, um sonho começou a se formar no seu inconsciente...

Ela estava em uma casa, em Lily's Mansion... Tudo parecia tão quieto e sombrio... A noite os envolvia, mas não havia lua, nem luar, embora também não chovesse... Até as estrelas se escondiam... Pareciam estar todos com medo de sair e se mostrar... todos pareciam saber que aquela noite era a noite das trevas... contribuindo para um clima mais sinistro ainda...

Havia medo e apreensão no ar...

Então, quando se encaminhava para descer a escada para o hall, sentiu o mesmo sentimento inquietante de quando descia aquela mesma escada com Henry uns dias atrás. Mas o que era aquilo? Por que ela sentia aquele temor apenas quando descia bem aquela escada?

Então, antes de descê-la, ela olhou para baixo e viu...

Havia um homem... Perto dele, no chão, caído, estava estendido um corpo sem vida... E agora ele se encaminhava para subir as mesmas escadas que Amy procurava descer. Ele olhou para ela e a viu, viu que ela sabia do seu segredo macabro... ela imediatamente começou a recuar com medo, em pânico... ele com seu rosto distorcido pelo ódio, pela loucura, pela fúria e suas mãos estendidas para frente, mas não eram mãos humanas, eram patas, patas cinzentas... e procuravam instintivamente o que Amy sabia muito bem... o seu pescoço... ele iria matá-la... ela havia descoberto seu segredo... ele não podia correr risco algum... muito menos vindo dela... ela merecia, não era para ter visto aquilo... ninguém deveria ver aquilo...

Amy acordou sem fôlego. Pelo menos ela acordou. Pelo menos aquilo havia um pesadelo.

Ela estava suada a ofegante. Procurou a voz em sua garganta, mas não saia nada. Permaneceu encolhida na cama com medo de tudo aquilo, sem coragem até para se levantar da cama e acender a luz.

Depois de passar um longo tempo com os dentes trincados e os músculos do seu corpo enrijecidos e de repetir a si mesma que tudo não passara de uma pesadelo, enfim esticou o braço e acendeu o abajur. Depois de mais algum tempo, se levantou e correu para apertar o interruptor. Quando o apertou e tudo se iluminou, olhou ao redor até encontrar Buddy na cama improvisada, uma caixinha de sapato com um cobertor acomodado para não ficar tão duro. Ele acabava de acordar, um pouco incomodado com a luz acesa.

Amy olhou para o relógio. 4 horas e 49 minutos. Ainda faltavam algumas horas para o dia chegar e o sol clarear tudo. Desligou o interruptor.

Foi para a cama. Deitou, mas não apagou a luz do abajur. Toda vez que ela fechava os olhos, vinha a imagem daquela criatura enlouquecida, fora de si...

No fim, conseguiu cochilar mais um pouco antes de acordar...

-xXx-

Amy terminava de enxugar o seu cabelo, que molhado, chegava a uma tonalidade mais escura em vermelho. Ela gostava daquela cor, lembrava o cabelo da sua mãe...

Amy sentiu saudades dela. Queria que ela ainda estivesse aqui para acalmá-la depois de ter um pesadelo como o que teve naquela noite. A mínima lembrança do pesadelo ainda fazia seu corpo tremer e seu sangue gelar. Aquele rosto desfigurado pelo ódio... e as patas cinzentas... não mãos humanas, mas patas de animais...

Agora ela não se lembrava com exatidão do que havia se passado nele, parecia haver uma cortina enevoada cobrindo as suas lembranças. Tudo não passava de um indecifrável borrão.

O pior, ela não sabia se era não conseguir se lembrar do resto, ou não conseguir esquecer tudo de uma vez.

De supetão, Buddy pulou da cama e começou a latir, fazendo Amy acordar das recordações infaustas da noite anterior.

Ele pulava e arranhava a porta, desesperado, como se do outro lado estivesse lhe aguardando a mais deliciosa carne. De vez em quando olhava para Amy, suplicante, como se lhe implorasse para abrir a porta e ver o que estava do lado de fora.

– Buddy! Quieto! Você quer ser descoberto?

Amy levantou-se da cama e foi até o seu amiguinho peludo. O seu primeiro impulso foi tapar a boca de Buddy, mas depois se lembrou dos seus novos dentinhos, pontudos e afiados e recuou, não que ela achasse que ele iria lhe morder, mas preferiu não arriscar.

– Que foi? – ela perguntou para ele e ele lhe lançou aquele olhar suplicante de "você precisa abrir!"

Decidiu ver o que era. Afastou-o um pouco com o pé e abriu uma fresta da porta. Depois tudo aconteceu muito rápido. Buddy saiu detrás das suas pernas e pulou pela minúscula fresta. Amy tentou fechar a porta antes, mas, quando viu, ele nem estava mais ali, dentro do quarto, e sim do outro lado da porta, do lado de fora, no meio de corredor.

Pânico.

Desespero.

Pânico e desespero foi o que Amy sentiu.

Buddy era tudo pra ela e se alguém o descobrisse e o mandasse pra fora, para longe dela, ela não sabia o que faria.

Abriu a porta e correu para o corredor.

-xXx-

Ian saia do seu quarto quando ouviu um pequeno trotar vindo do corredor.

Parou e ficou ouvindo, prestando atenção e esperando o que chegaria.

Imagine qual não foi a sua surpresa quando surgiu no seu campo de visão uma bola macia de pelos alvos. O filhote foi até ele e mordeu a barra da sua calça como se o chamasse.

– Ei! Então você é o culpado pela crise de alergia da Natalie? – Ian perguntou sorrindo enquanto se abaixava. Fez carinho no cachorro. Ele parecia dizer "Natalie? O que é uma Natalie? O que é uma alergia? Mas eu não fiz nada de errado, viu? Sou inocente."

Ian nunca havia tido um cachorro, nem mesmo um peixinho dourado. Sempre foi o seu sonho. Lembrava de pedir em todo seu aniversário um cachorro para lhe fazer companhia, mas sua mãe nunca deixara e sempre havia a desculpa de Natalie ser alérgica. Depois de uns anos é que Ian foi se dando conta de que, mesmo Natalie sendo alérgica, eles podiam ter um cachorro sem pelo, ou até um peixinho dourado. A verdadeiro motivo de não ter animais era que sua mãe não gostava, nem queria animais em sua casa. "Isso enfraqueceria os meus filhos" ela costumava dizer. Ele havia, um dia, tido infância?

Parou de fazer carinho e olhou para como o seu pelo estava limpo e sedoso.

– Ei, garoto. O que você está fazendo aqui? Como você veio parar aqui, hein?

Ele havia gostado daquele cachorro.

Buddy lhe deu várias lambidas e depois voltou a puxar a barra da sua calça para a direção em que ele tinha vindo como se quisesse lhe mostrar algo muito importante.

– Que foi? Quer me mostrar o quê?

Naquele momento Buddy parou de puxá-lo e olhou em direção ao corredor. Depois olhou para Ian. Ian não pôde deixar de pensar que aquele cachorro sorriu maliciosamente para ele.

Então Ian ouviu. Primeiro passos, depois um sussurro.

– Buddy! Buddy! Aonde você está? Vem cá, menino.

E Amy apareceu.

– Amy? – Ian falou surpreso e levantou-se imediatamente. Em seguida olhou para Buddy e entendeu o porquê daquele sorriso ladino. "Esse cachorro é esperto. Gostei dele" Ian pensou enquanto um sorriso se espalhava agora pela sua face.

– Ian? – Amy falou um pouco desesperada.

Gente!

Acho que você devem estar bem feliz, né? Afinal, o Ian apareceu! Finalmente! E quem foi que organizou o encontro? Buddy, obviamente! Só um cachorrinho tão especial como esse para unir dois cabeças-duras.

Thata, se lembra que eu te disse que Buddy arrumaria muitas confusões? Essa vai ser a primeira. A primeira de muitas!

E o sonho da Amy? Sonho não, pesadelo! Vocês vão entender mais para frente...

Mas vocês gostaram, não gostaram, acham que Buddy vai conseguir uni-los ...? Reviews!

E beijinhos!