História Cinqüenta: Aqueles que se reúnem em nome da Esperança
Os dias se arrastavam lentamente e a desesperança anunciava o fim de uma Era.
O Santuário sentia-se vazio desde a partida de seus guerreiros. Doze bravos cavaleiros e uma companhia de soldados partiram para os Campos Vermelhos e nenhuma notícia tinha chegado. O coração de familiares e amigos estava apertado, pressionados contra um muro de incertezas e lamentações. Já haviam transcorrido dois dias após a partida deles, e nada era mais desesperador que a angústia pela espera.
Então o terceiro dia raiou e no horizonte das montanhas veio a marcha solene. Muitos avançaram pelas colinas até o Portão Sagrado, e outros tantos foram carregados para dentro do Santuário. Entre dois homens havia uma rede de pano limpo e belo onde jaziam os bravos guerreiros do Santuário que morreram para proteger Atenas e sua missão. A frente da marcha vinha Lorde Orrin e Lorde Timeus trajando suas armaduras impecáveis e sobretudos cinzentos com capuz. Estavam tristes e guiavam uma carroça plana e baixa com um corpo sob um manto dourado. Atrás do corpo no final da condução estava toda montada a armadura de Sagitário. Com essa visão as pessoas do Santuário abaixaram seus rostos e choraram a perda de seu terceiro Lorde dourado, o maior de todos.
A marcha subiu as ruas do templo de Atena até alcançarem a Praça do Relógio Zodiacal. Lá se encontravam o Grande Mestre acompanhado de todos os cavaleiros de ouro. Todos estavam sem os seus elmos, exceto o Grande Mestre e Delfos com seu capuz. Suas expressões eram tristes e penosas, aguardando notícias ainda piores. Entretanto, nenhum deles se comparava em tristeza ao Lorde Aniel de Capricórnio. Demonstrava uma raiva frustrada por baixo de sua expressão lamentável. Orrin ficou triste por ele. Então Lorde Delfos aproximou-se.
- Diga-me, Lorde Orrin, onde estão os feridos? – sua voz ressoou ainda mais feminina com sua tristeza.
E Orrin guiou o Lorde de Virgem até uma carroça maior um pouco atrás de onde estavam. Tal condução era protegida da chuva por uma lona alta e espessa. Quem conduzia o animal que a puxava era o General Arkious, com um ferimento no olho direito agora estabilizado. Dentro dela estavam deitados Geord de Lince e Edmond de Touro, duas pessoas que Orrin amava muito. Delfos entrou e foi acompanhado por Leão. Analisou o aspecto de cada um e com sua mão direita tocou-os em vários pontos predeterminados. Um pouco de cor retornou a pele de Geord. Por fim, Delfos uniu suas mãos sobre o coração de ambos e lançou uma grande quantidade do seu Cosmo para dentro deles. Quando o fez um brilho surgiu delas e Orrin pode perceber distraidamente um pouco do rosto escondido de Delfos. Ele ficou muito surpreso ao perceber que as lendas falavam a verdade, pois os olhos do cavaleiro estavam fechados. E apenas isso ficou registrado em sua mente, mantendo o verdadeiro segredo de Delfos imaculado. Para o alívio de Leão, Geord respirou bem melhor após isso e Edmond acordou tranqüilamente.
- Uma semana sem esforço ou você morre, entendeu Lorde Edmond? – perguntou Delfos – Até mesmo os ferimentos de seu aprendiz aqui foram mais leves. Seu coração foi afetado por um poder desconhecido, uma espécie de presença aterradora. Isso não é fácil de curar. Por isso fique longe de sua armadura por esse tempo. Atena em pessoa o dispensou de suas obrigações por duas semanas. Receberá suas ordens quando todos recebermos as nossas. – e voltando-se para Orrin falou – Seu aprendiz está a salvo agora, mas só deverá despertar quando tudo estiver terminado, e assim será melhor. Ponha alguém de sua confiança para cuidar dele.
E assim foi Delfos e sua voz melodiosa, o último dos curandeiros que tocaram o Santuário. Há muito tempo ele havia abandonado tal ofício, mas com a morte de seu aprendiz percebeu que era necessário reutilizar destes em casos extremos. Ele retornou a presença dos cavaleiros dourados mais a frente, deixando Leão e Touro na condução. Eles observaram-se por um longo tempo e depois saíram, com Lorde Edmond devidamente vestido com seu traje dourado. E eles sentiram que um fim estava próximo, mas não sabiam dizer quem resistiria no final.
Alguns dias passaram pelo Santuário. Agora que Ícaros estava morto, a sua morada foi abandonada e apenas a sua armadura lá residia como Gêmeos, Câncer e Libra, cujo cavaleiro desaparecera. Orrin não precisou se preocupar com uma nova morada. A Casa de Leão juntamente com a de Áries começaram a ser reconstruída após a finalização das obras no Portão Sagrado e na muralha. Até que as moradas estivessem de pé mais uma vez, triunfantes e imperiosas, Timeus e Orrin residiam na morada de Touro, juntamente com Edmond e seus serviçais. Ele requisitou a ajuda de Delia para ser a enfermeira pessoal de Geord, que ainda dormia profundamente e com sua armadura na devida urna ao lado de sua cama. Frequentemente a amazona Alena de Águia vinha visitá-lo em seu leito.
Em uma manhã escura e chuvosa um mensageiro trouxe três envelopes selados para os Lordes dourados. Ali, sentados na sala de estar da grande Casa de Touro, eles receberam suas convocações para o que seria a última União Dourada. A própria deusa da Justiça seria a regente de tal União. Eles responderam ao chamado e com o anoitecer partiram em seus trajes dourados para a Grande Casa, no salão de meditação do Grande Mestre. Enquanto se dirigiam para o local perceberam as chamas azuladas do Relógio Zodiacal tremulantes ao vento frio do dia que morria. Encontraram-se com Delfos no caminho e juntos chegaram a União.
O salão de Meditação já estava com todos os convocados além deles. Também ali estavam as armaduras douradas de Gêmeos, Câncer, Libra e Sagitário. Os Lordes dourados organizaram-se lado a lado e em suas devidas posições da esquerda para a direita. Da tapeçaria ao fundo do salão surgiu o Grande Mestre em traje formal e carregado por jóias que pendiam de seu pescoço. Vinda do corredor secreto que leva a grande estátua da deusa surgiu Atena, em toda a sua beleza e sabedoria. Todos ficaram de joelhos e curvaram-se aguardando a voz da senhora.
- Meus cavaleiros, meus Lordes. – falou tristemente – É chegada à hora de nosso provável último encontro. E nessa última União Dourada direi mais palavras que ordens. Por isso escutem com atenção. – fez uma pausa, continuando após algum tempo com uma voz mais firme – Nesses tempos difíceis vocês nasceram, cresceram e tornaram-se meus cavaleiros. Com isso, seus destinos foram escritos para participarem dessa última guerra entre os povos livres da Grécia. A intromissão de Ares foi um acaso dos seus desejos egoístas, mas a presença de Hades como seu maior aliado é algo terrível. A união de dois deuses subjuga todo o seu ímpeto de destruição. E em nossa esperança, é nossa função garantir que o mundo prossiga para as futuras gerações, mesmo que não participemos delas. – suspirou – Em tudo que tentei evitar apenas trouxe mais sofrimento. Vejo que o destino não é mais fugir, e sim lutar na guerra de Ares. Vencê-lo em seu próprio domínio ou pereceremos com nossas defesas esgotadas. De uma forma ou de outra estaremos evitando um futuro próximo ou encarando-o, e é o que devemos fazer.
Fez-se silêncio. Os Lordes dourados refletiam sobre o assunto e a deusa escutou apenas o ruído da noite lá fora e dos corações aflitos aos seus olhos. Ela sabia o que deveria fazer e qual era a sua missão. Estava disposta a tudo para impedir que o mundo fosse subjugado pelas forças de Ares e Hades juntos. Estava disposta a tudo. Então continuou.
- Essa é a última ordem que lhes dou nessa guerra terrível. Sigamos para Atenas, marchem até a Cidade-Estado e impeçamos a sua ruína. Levemos todos os soldados que não estão feridos e lutemos até o fim de nossas vidas para garantir que a esperança continue a fluir no mundo. Pois saibam, meus Cavaleiros do Zodíaco, que antes mesmos de serem defensores da paz e justiça nesse mundo, sóis Guerreiros Santos da Esperança, e um dia outros levaram esse título lutando por mim e em nome de tudo que acreditam. Lutemos digo eu, pois também partirei para Atenas e ficarei protegendo o templo que ergueram em minha homenagem, o último local onde ainda reside a esperança daquele povo aterrorizado. Sigam-me uma última vez, Cavaleiros da Esperança, mesmo que apenas a morte os aguarde no final.
Então todos se levantaram e olharam para Atena que chorava rios de lágrimas, brilhantes e belas como cristais. O Grande Mestre tomou a ousadia e a ajudou, segurando-a no braço, a descer os poucos degraus que a separavam de seus cavaleiros. Diante de tantos homens altos a deusa encontrava-se encolhida, pequena e frágil. E ali os cavaleiros tiraram seus elmos curvaram-se o máximo que conseguiram e gritaram o mais alto e retumbante possível.
- Pela justiça. Pela esperança. Por Atena. Até a morte! – e o Santuário respondeu em coro.
