Capítulo Vigésimo Quarto
Quando Tywin despertou, a cena que viu era uma das mais bonitas que tinha na memória. Catelyn estava agarrada a um travesseiro, nua, os cabelos ruivos espalhando-se sobre o lençol alvo da cama. Ela estava relaxada e descoberta, o quarto estava quente o bastante para que ela dispensasse agasalhos. Ele ficou de pé, observou melhor a cena e serviu-se de água. Uma cena tão bela quanto Joanna amamentando os gêmeos ao mesmo tempo. Ou talvez Sansa em seus primeiros passos, indo diretamente para seus braços.
Ele sorriu. Olhando pela janela descobriu os motivos de ter acordado. Havia uma movimentação do lado de fora, no pátio. O sol sequer havia surgido no horizonte e as pessoas estavam ativas como se...
-Um ataque! –ele murmurou muito baixo, fazendo Catelyn remexer-se em seu sono.
Lembrou-se que Gerion disse que o ataque jamais cessou, os monstros estavam pela costa, pelo bosque e talvez até mesmo dentro da cidade. Quando a gritaria se tornou mais intensa, ele despertou Catelyn.
-Cate, levante. –chamou baixinho.
-O que está havendo?
-Um ataque. Você deve se preparar para voltar ao navio.
-Mas...? –ela estava tonta de sono, olhou para ele não compreendendo- Gerion disse que...
-Eu sei o que Gerion disse. Eu apenas não arriscarei que você fique aqui, num lugar tão desprotegido.
-Venha comigo, podemos zarpar para Lannisporto e...
-Eu não fugirei da batalha novamente. –ele beijou sua testa- Além do que, não parece que esta seja verdadeiramente uma batalha. Vista-se, seu corpo nu está me distraindo.
Ela decidiu não discutir e ergueu-se. Por um instante olhou seu corpo nu diante de um espelho e concluiu que não estava esperando nenhuma criança. Seu ventre estava mais plano do que jamais estivera antes de Hoster ser concebido. Preparou-se para partir sem muita pressa, após um banho, vestindo roupas limpas e ajudando Tywin a amarrar a capa de peles que o abrigaria do frio.
-Está tudo calmo no pátio. –ela comentou, calçando as luvas de couro, olhando pela janela.
-Eu devo ter exagerado. Mas ainda assim, você deve embarcar assim que o sol nascer. –ele a abraçou pelas costas- Está tudo pronto?
-Eu mal desembarquei, Tywin. –ela riu, girando em seus braços e beijando-o- Meu cheiro ainda deve estar no nosso camarote.
-Eu estou ansioso. –ele confessou- Para vê-los.
Ela sabia que ele se referia a Hoster e Sansa. Sorriram um para o outro beijando-se novamente. Quando o horizonte se tingiu de vermelho, Sor. Loras bateu à porta. Tywin foi atender, trazendo Catelyn pela mão.
-O navio está pronto para partir, sua Graça. –o Guarda anunciou.
-O que está acontecendo no pátio, Sor Loras? –Catelyn perguntou, andando pelo corredor, sendo seguida por todos os seus guardas.
-Eu vi uma confusão mais cedo. –Tywin disse.
-É como Lorde Gerion disse. O ataque continua acontecendo. Mas tudo parece estar sob controle. Só há um pequeno detalhe, minha rainha. –Sor Loras pareceu incerto e hesitou.
Catelyn e Tywin pararam de andar e olharam para trás no exato mesmo momento.
-Diga. –Tywin estimulou.
-Lorde Peixe-Negro partiu. –Loras disse- Levou cerca de dez homens de sua guarda pessoal.
-O que? –Catelyn engasgou.
-Ele foi para Riverrun.
-Cate...
-Tywin, isso não pode ser apenas sobre Lysa! Eu não acredito que ele tenha partido sem falar comigo!
-Cate...
-Tio Brynden é um dos meus principais conselheiros, e agora...
-Cate! –Tywin não gostava de ser firme com ela diante de ninguém, mas ela estava ficando mais agitada do que o recomendável.
Ela respirou fundo e o encarou.
-Seu tio decidiu partir. É o que nós devíamos estar fazendo agora.
-Sem Varys, Kevan, Tio Brynden, Melisandre... O que resta deste governo?
-Nossa Rainha. –Sor. Loras respondeu- A senhora devia ler cada um dos informes que chegam. Os Sete Reinos estão unidos, sobrevivendo a este inverno. A Muralha está plenamente guarnecida e foram poucas as cidades que caíram em ataques como o que aconteceu aqui. As pessoas tem o que comer, como se abrigar... desde as Dádivas até o litoral dornês. As pessoas de Porto Real que receberam terras na Campina... estão produzindo no meio de um inverno. Não subestime a si mesma.
-Você ouviu o rapaz. –Tywin a segurou pelos ombros e a girou no corredor, estimulando-a a seguir andando- Vamos embora.
Mas ao chegar ao hall de entrada do palácio, eles precisaram se deter. Gerion, usando apenas calças e um roupão de lã, segurava uma espada. Os guardas lutavam para deixar as portas trancadas e ninguém soube explicar como as coisas saíram de controle tão rápido.
-Sor Loras, leve Catelyn de volta à Torre. –Tywin ordenou.
-Mas Tywin...
-Cate!
Ela o olhou ofendida por um instante e voltou pelo corredor. Mas não teve tempo de chegar às escadas. As janelas do piso inferior foram arrancadas de suas estruturas e Caminhantes Brancos invadiram o corredor. Sor Loras puxou a espada e empurrou Catelyn na direção oposta a Torre, que agora estava completamente obstruída.
-Corra! –ele disse.
Ela obedeceu, voltando para o hall, procurando por tochas pelo caminho e não encontrando nenhuma. No meio do Hall, os servos acendiam uma fogueira, Tywin se preparava para lutar, um escudeiro colocando-lhe as partes de uma armadura incompleta.
-Tywin! –ela gritou, correndo o mais rápido que podia.
-O palácio está cercado! –Sor Loras vinha logo atrás dela, sendo seguido por um grupo de mortos vivos.
Por sorte a fogueira estava acesa, e os homens com arcos e flechas já conseguiam estabelecer alguma resistência. Tywin colocou-se diante da esposa, mantendo-a junto da parede. A espada em suas mãos era inútil, mas ele precisava manter-se ativo.
-Me dê um arco, Tywin!
-Catelyn, abaixe-se e fiquei quieta!
-Você não vai conseguir nada com uma espada assim!
Ele olhou em volta e encontrou uma cadeira. Quebrou o encosto dela e arrancou um longo pedaço de madeira. Usou a toalha da mesa para improvisar uma tocha, e ateou fogo na ponta. Catelyn, aproveitando que o marido estava distraído, correu até um dos soldados e pegou um arco e uma aljava. Eram poucas flechas, talvez duas dúzias no máximo, mas serviam de muita coisa se bem usadas. Ela sentiu-se grata, novamente, por ter aprendido a atirar com Brandon e Lyanna durante a juventude. E também pelas horas de treino na Ilha, que fizeram com que Tywin admirasse sua pontaria.
Voltando para perto do marido, que arrancou a cabeça de dois mortos vivos e agora ateava fogo neles, ela incendiou a ponta da primeira flecha que dispararia, e a usou para livrar um dos jovens das cozinhas de um golpe certeiro na cabeça. A flecha atingiu o peito do Caminhante Branco e ele vacilou por um instante, o suficiente para que o garoto pudesse escapar.
Gerion lutava ferozmente, como se estivesse usando alguma proteção. Por muito pouco seu sexo não estava exposto e mesmo a quantidade de Caminhantes Brancos não sendo muito grande, vinha por todos os lados. O palácio parecia estar tomado e tudo o que eles podiam fazer era continuar lutando. Tywin estava espreitando as saídas, imaginando por onde iria para escapar. Mas foi Sor Loras quem abriu uma rota segura, pelas portas principais. Ele gritou, chamando Catelyn, que correu em sua direção, seguida pelo marido que hesitou por um instante, observando Gerion subir as escadas da torre. Ele ia em busca de Janei.
-Tywin! –Catelyn chamou, uma seta preparada no arco.
-Gerion e a menina! –ele respondeu, parado no portal, olhando para dentro e segurando uma tocha acesa- Vá, Cate! Corra!
-Não. –ela parou ao lado dele, ainda que sob os protestos de Sor Loras, uniu as costas com as dele, vigiando sua retaguarda enquanto ele esperava o irmão.
Os homens da Guarda Real e os soldados Lannister os cercaram, abatendo os mortos vivos que podiam, com flechadas e decapitações. Tudo parecia sob controle. Quando Gerion apareceu, ele trazia um bebê nos braços e era seguido por um par de amas amedrontadas.
-Aqui, Cat. –e entregou a menina nos braços da rainha, pegando o arco das mãos dela- Vamos embora. –E seguiu por entre os guardas, que tinham aberto um caminho limpo até o cais- Porque você ficou para trás, Tywin?
-Você e a menina. –ele disse apenas, passos rápidos seguindo o irmão.
-Você amoleceu bastante. –o outro comentou, espetando uma flecha em chamas em um Caminhante Branco que se debatia debaixo de uma carroça- Catelyn não fez bem a você neste sentido.
Então o som abafado de um grito de dor e susto encheu o ambiente, e quando Gerion olhou para trás, Tywin estava de joelhos. Uma lança apodrecida atravessava seu abdômen. Catelyn, que vinha alguns passos atrás, quase foi atingida, e ele desconfiou que aquela lança fosse para ela. Quando seu grito encheu o ar e seus braços vacilaram, quase deixando a pequena Janei cair, Gerion correu de volta, ajoelhando-se diante do irmão. Catelyn não parecia saber o que fazer, uma das aias retirando a menina de seu colo, ela não acreditava em seus olhos, seu desespero não parecia ter muitos fundamentos. Era puro instinto.
Tywin parecia assustado, e se doía não transparecia em seu rosto. Ele agarrou o cabo da lança e puxou, jogando a arma ensanguentada longe, caindo para frente, nos braços do irmão que, a esta altura, não conseguia segurar as pragas de desespero que inundavam suas palavras.
-Tywin!
-Deite-me no chão. –ele pediu, e Gerion o estendeu no piso de pedra, tentando conter o sangue com as mãos.
-Por todos os deuses... –Catelyn desabou das pernas ao lado dele, puxando sua cabeça para o colo- Tywin...
Por todos os lados a batalha continuava, ainda que não fosse exatamente uma batalha. Consistia em deixar os monstros longe do trio ferido e desesperado que havia no meio da rua.
-Tywin... –Catelyn gemia, chorando sem importar-se com o que acontecia a sua volta.
-Cate, me ouça... –ele pediu, sua voz grave e solene, segurando o rosto dela com uma mão ensanguentada. Ele sabia que era o fim. - Fique calma, respire fundo...
Ela não queria respirar fundo ou ficar calma. Ela queria saber onde andava Lady Melisandre e quanto tempo levaria até que ela chegasse até eles e salvasse Tywin, assim como aconteceu com ela. Catelyn sentiu os dedos pegajosos do marido acariciarem seu rosto e afastarem seus cabelos. Ele pedia repetidamente que ela não chorasse, mas mesmo Gerion não estava contendo aquilo. Mais calma, Catelyn começou a pensar num modo de retirá-lo da rua e leva-lo para o navio. Eles viram uma carroça no caminho, poderia ser útil...
-Cate... Você se lembra quando eu lhe disse que não os veria novamente?
E ela desabou de novo, toda sua calma jogada ao vento, lembrando-se do dia em que colocou Hoster e Sansa num navio que iria para Essos. Tywin dissera aquelas palavras: Eu jamais os verei novamente.
-Nós daremos um jeito, meu amor... –ela disse em meio às lagrimas- Você lutou contra a morte por minha causa, eu farei o mesmo por você.
-Você merece estar viva. –ele disse- Você precisa estar viva.
-Eu preciso de você, Tywin... Não faça isso, não morra agora... Não quando eu não tenho formas de te trazer de volta pra mim, por tudo o que é mais sagrado...
-A primeira vez... –ele hesitou e tossiu, tingindo a saliva com sangue- ... que eu vi você. Você se lembra?
-Nos salões de Riverrun. –ela respondeu, se dando conta de que não podia fazer nada, ainda que seu peito estivesse rasgando-se ao meio. Tywin estava mergulhado em lembranças, estava se agarrando nessas lembranças. Ela o ajudaria. Ainda que aquilo fosse o máximo que ela podia fazer por ele.
-Não... –ele sussurrou- Torneio de Harrenhal. Você estava usando amarelo, de mãos dadas com o rapaz Stark. Eu a vi, não me recordo porque gravei seu rosto para esquecê-lo por tanto tempo e ter essa memória de volta apenas agora. Mas aquela foi a primeira vez que eu a vi.
Catelyn não se recordava dele naquela ocasião, mas sorriu. Ela realmente usou vestes amarelas e em tons de bege durante a maior parte daquele ano, em que perdera uma aposta tola contra Lysa.
-E depois, quando eu a vi em Riverrun... Eu me surpreendi por sua beleza.
-E eu com sua imponência... –ela sorriu, mesmo com lágrimas se derramando.
-Eu fui tão feliz com você... –ele parecia sonhador, olhando dentro dos olhos dela e segurando seu rosto como se a beleza pudesse escapar.
-Oh, meu amor...
-E eu a amo tanto e me arrependo tanto de cada segundo de desagrado que tenha te feito passar...
-Eu digo o mesmo, querido... Perdoe-me por...
-Shhhh... –ele tocou seu lábio com o polegar- Não, você está abonada de toda e qualquer falha... Toda a felicidade e plenitude que eu tive do seu lado, abona qualquer coisa.
-Tywin...
-Você realmente adora o som do meu nome, não é? –e ela sorriu novamente, o que parecia ser injusto diante dele esvaindo-se em sangue- Agora me ouça... Proteja Hoster. Com tudo o que você tiver, proteja-o. Sansa... –ele hesitou, olhando para uma nuvem enquanto pensava no que diria- Sansa está protegida pelo marido, mas Hoster tem você e apenas você. Use o reino, use o ouro, use tudo, mas não deixe nosso garoto morrer. Não deixe que ele cresça sem saber que o pai dele o amou. E não permita que Sansa esqueça disso. E não morra. Não ainda, jovem e bela...
-Eu darei o meu melhor, eu farei o que você quiser...
-Gerion, você irá proteger o reino... Chega de isolar-se nos limites do Oeste, seu lugar é... –e tossiu.
-Eu estarei onde Catelyn ordene que eu esteja. –o homem prometeu- Eu manterei o reino para ela, eu estou a sua disposição. –ele segurou a mão de Tywin e o olhou longamente, percebendo que seu irmão estava se perdendo nos rumos da consciência, ele piscava devagar, fitando o céu azul e brilhante acima deles. Uma ensolarada manhã de inverno- Tywin, eu sinto muito...
-Eu também sentiria, se fosse você. –ele murmurou- Eu senti por Kevan, eu ainda sinto. Por Tyrion. Cersei. –e ao mencionar a filha ele soluçou, deixando uma lágrima escorrer- Cersei...
-Você irá pra junto deles agora. –Catelyn acariciou seus cabelos, sugando sua atenção- Para longe de mim, para junto deles. Você fará tudo melhor na sua segunda chance, em outra vida.
-Por isso não me traga de volta. –ele pediu, a voz num fio- Eu quero ter a chance de fazer tudo melhor.
-Eu traria, se encontrasse um modo. –ela confessou- Assim como você fez comigo.
-Não... eu quero isso... –e olhou para o céu de novo, sua mão perdendo a força e caindo ao lado do corpo- Eu quero isso. –e sorriu, um fio de sangue escorrendo pelo canto da boca, a saliva vermelha recobrindo os dentes- Joanna...
Ele não se moveu mais. Catelyn tentou ouvir seu coração, sentir sua respiração, mas estava acabado. Ela ignorou o fato de ter ouvido aquela ultima palavra, a verdadeira e ultima palavra que ele disse... Joanna. Seu coração rasgava-se de dentro pra fora, ela desejava morrer com ele e não podia erguer os olhos e fitar Gerion... idêntico em aparência, mas não era Tywin.
-Nós temos que... –ela tentou parecer prática, mas seus pensamentos estavam completamente destruídos e inundados em pranto.
-Sua graça, eu peço mil desculpas mas...
Catelyn olhou em volta, parecia que o ataque tinha ficado mais intenso. Ela via uma quantidade considerável de Caminhantes Brancos surgindo pelo lado Leste, e alguns dos homens estavam feridos. Sor Loras a segurou pelo braço e a ergueu, enquanto Gerion lutava para jogar o corpo de Tywin sobre o ombro.
-Gerion... –ela chamou, vendo o cunhado ceder com o peso de um homem de armadura- Me dê o arco...
-Sua graça, não é seguro permanecer aqui nem mais um segundo!
-Gerion, ele vai voltar. –ela murmurou, desvencilhando-se de Loras e segurando o braço do cunhado.
O homem levou um instante para entender o que ela queria dizer. Anuiu com a cabeça e entregou o arco a ela. Com a ajuda de um Sor Loras, que protestava pelo fato de que eles estavam perdendo tempo e expondo-se mais do que o que devia, com um bebê de colo no grupo, arrastou o corpo de Tywin até a sala de uma casa abandonada. Catelyn jogou pedaços de madeira e palha, juntamente com alguns dos guardas, cobrindo o corpo dele. Ela titubeou, olhando para a pira funerária de seu marido, não compreendendo como podia estar agindo de modo tão racional àquela altura dos fatos.
Gerion a retirou da casa, percebendo que as intenções dela eram as de atear fogo nele com uma flecha, mas sua resolução estava sumindo a medida que ela se dava conta de que aquela era a ultima vez que o via.
Ela parou na entrada na casa, e jogou o arco fora. Pegou o archote das mãos de um dos guardas e se aproximou do corpo. Por um segundo pareceu estar rezando e no instante seguinte espalhou o fogo pela palha. Gerion a retirou de lá e por um longo tempo Catelyn não soube quem era, para onde ia ou o que estava sentindo. Toda a bagunça a sua volta, gritos, ataques, golpes e fogo... tudo parecia distante. Havia o choro de um bebê e o suave balançar de ondas... E então uma chuva começou a cair e ela sentiu seu vestido ensopar-se enquanto o mar se chocava contra o casco do navio... O céu chorava tanto quanto ela e tudo o que ela podia pensar era que ele estava deixando de existir... que em algum lugar de Casterly Rock ele estava se desfazendo numa pira funerária precária. Ele merecia muito mais do que aquilo. Ele não merecia morrer daquele modo.
-Eu prometo que o colocarei na cripta. –ela ouviu a voz de Gerion, parado ao lado dela no convés do navio, debaixo de chuva- Você deve seguir com o plano inicial. Eu sei que tudo está parecendo insuportável agora, mas...
-Com o tempo a dor se transforma em outra coisa. –ela disse- Eu já estive nesse vale antes.
-A decisão de Genna em não deixar o navio foi bastante acertada. –ele recostou-se na amurada, onde ela permanecia largada no chão do convés e olhando para o céu.
Ela não queria falar sobre nada, mas anuiu quando percebeu que o cunhado parecia querer conversar.
-Ela amava Tywin.
-Todos amávamos. –Catelyn disse- De nossa maneira pessoal, mas amávamos.
-Nós ficaremos em Lannisporto, Cat. –ele sentou-se no piso, ao lado dela- Eu voltarei a Casterly Rock assim que puder.
-Lannisporto não foi atacada nenhuma vez. É mais seguro para Janei. –Catelyn disse.
-Mas não se pode abandonar Casterly Rock dessa forma. –ele tocou sua mão- Eu farei o que puder pela cidade, mas você deve ir para longe. Winterfell, como planejava.
-Eu ficarei na Ilha.
-Mas a Ilha...
-Eu ficarei lá com Hoster e com o máximo de servos que eu possa abrigar. É distante o bastante para mantê-lo longe desses monstros. É isolado da ameaça de Daenerys Targeryan. É parte dos domínios do Oeste, eu não deixarei o reino completamente.
-Se não for seguro... Se você sentir que não está bem ou se um ataque acontecer...
-Eu terei o Leão do Mar pronto para nos levar para longe. E se sobreviver se trata de fugir, eu fugirei. Por Hoster.
-Por Westeros. –Gerion corrigiu- É o que Tywin iria gostar que você fizesse.
-Tywin... –ela começou um argumento, mas engoliu as palavras. Ela diria que Tywin já não estava ali, e que ele era a outra metade daquele reinado, e que aquela coroa pertencia a ele.- Tywin se foi. E sem ele...
-Você precisa ser forte.
-Eu estou tentando ser.
-As vezes, ser forte, significa chorar. Mas definitivamente não significa adoecer debaixo de uma chuva de inverno em alto mar.
-Eu quero... ficar sozinha, Gerion. –e ele entendeu. Afastou-se e a deixou daquele modo, deitada no chão, recebendo a água da chuva no rosto, e parecendo completamente perdida.
Foi Genna quem a retirou dali, depois de muito tempo. As criadas haviam preparado um banho quente e ela foi enfiada ali até o pescoço. Mesmo contendo o choro, a cunhada esfregou suas costas, secou seus cabelos e a enfiou num vestido. Catelyn foi deixada na cama, coberta com uma pele de urso negro. Aury, a aia principal de Catelyn, ficou velando seu sono, que chegou tão pronto ela tocou a cabeça no travesseiro. Não faltava muito até aportarem em Lannisporto, mas ainda assim era melhor deixar que a Rainha descansasse.
Ela despertou apenas com os sons de um bebê, chorando em protesto a estar num lugar escuro. Percebeu que o barco parecia mais firme e pode ouvir os sons do convés e os característicos ruídos do porto. Abriu os olhos para deparar-se com Sansa, sentada onde Aury geralmente ficava, segurando Hoster nos braços. Ela sabia do que aconteceu, visto que seus olhos inchados e nariz úmido não deixavam brecha para outro tipo de especulação. Catelyn apenas ergueu um pouco do manto e os recebeu na cama. Hoster foi para os braços da mãe e abriu um sorriso, seu primeiro dente parecia estar surgindo na gengiva inferior. Catelyn não pode resistir e também sorriu, aliviada por tê-los ali. Devastada por não ter Tywin consigo.
-Mãe... o que nós vamos fazer? –foi a única coisa que Sansa disse.
-Sobreviver, meu amor. É o que nos resta.
