Capítulo 54
Suikotsu olhou a seu redor. A serena neblina do Fade havia se dissolvido, deixando entrever um pátio de mármore branco. Na parte central, a água cristalina de uma fonte brilhava em uma espécie de dança faiscante, captando a luz difusa para refleti-la em brilhos de cores. Os pássaros emitiam um doce canto, como se lhe dessem a boas vindas e anunciassem sua chegada.
Assim que este lugar existe realmente, pensou.
— bom dia, Suikotsu, filho do Marklon.
Ele se deixou cair de joelhos sem voltar-se e baixou a cabeça.
— Virgem Escriba, honra-me me concedendo uma audiência.
Ela sorriu. Apesar de ter a cabeça inclinada, quando se colocou frente a ele pôde ver a barra de suas negras roupagens. O resplendor que se filtrava por debaixo da seda era tão brilhante como a luz do dia.
— Suikotsu, como poderia me negar? É a primeira reunião que solicitou em sua vida. — Ele sentiu que algo roçava seu ombro, e que o cabelo da nuca formigava
— Levante-se. Agora verei seu rosto.
Ele ficou de pé, destacando-se sobre a miúda figura, com as mãos entrelaçadas diante de seu corpo.
— De modo que não está a gosto no Fade, princeps? — perguntou — E quer a oportunidade de poder voltar?
— Expressou humildemente semelhante petição, se tal coisa não a ofender. Esperei o período requerido. Eu gostaria de ver minha filha, mesmo que só uma vez. Se tal coisa não a ofender.
A Virgem Escriba sorriu de novo.
— Devo dizer que a forma de se apresentar ante mim foi melhor que a de seu rei. Sabe usar a linguagem de uma maneira que não parece a de um guerreiro.
Houve um silêncio.
Naquele momento, pensou em seus irmãos.
Como sentia falta do Sesshoumaru. Ele sentia falta da todos.
Mas a única que queria ver era Rin.
— Ela casou-se — disse a Virgem Escriba bruscamente. — Sua filha se casou com um macho de valor.
Ele fechou os olhos, sabendo que não devia perguntar, mas morria por saber. Esperava que Rin fosse feliz com qualquer macho que tivesse escolhido.
A Virgem Escriba parecia deleitar-se com seu silêncio.
— Olhe para você, nenhuma pergunta. Que magnífico autocontrole. E posto que soube guardar o protocolo extraordinariamente bem, direi o que deseja saber. Foi com o Sesshoumaru, que assumiu o trono. Sua filha é rainha.
Suikotsu deixou cair a cabeça, sem querer revelar suas emoções, tentando evitar que ela visse suas lágrimas. Não queria que pensasse que era frágil.
— Oh, princeps— disse a Virgem Escriba suavemente. — Há tanta alegria e tristeza em seu peito... diga-me, a companhia de seus filhos no Fade não é suficiente para manter seu coração repleto?
— Tenho a sensação de que a abandonei.
— Ela já não está só.
— Isso é bom.
Houve uma pausa.
— E ainda deseja vê-la?
Ele assentiu.
A Virgem Escriba se afastou, dirigindo-se para o bando de aves que trilavam felizes sobre uma árvore branca coberta de flores brancas.
— Que desejas, princeps? Está pensando em lhe fazer uma visita? Algo rápido? Em seus sonhos?
— Se tal coisa não a ofender. — Manteve a linguagem formal porque ela merecia tal deferência. E porque esperava que isso a convencesse.
As negras roupagens se moveram, e entre eles surgiu uma resplandecente mão. Uma das aves, um tordo, posou sobre um de seus dedos.
— Foi assassinado de uma forma ignóbil — disse, acariciando o diminuto peito do pássaro, — depois de ter servido bem à raça durante séculos. Foi um princeps honorável e um magnífico guerreiro.
— Que meus atos a agradem é minha melhor recompensa.
— Verdadeiramente. — Ela assobiou à ave. O ave assobiou por sua vez, como lhe respondendo
— O que diria, princeps, se eu te oferecesse mais do que solicitou?
O coração do Suikotsu começou a bater com força.
— Diria que sim.
— Sem saber qual é o presente ou o sacrifício.
— Confio em você.
— E por que não poderia até ser rei? — perguntou ela ironicamente, enquanto soltava ao pássaro e se colocava na frente dele
— Ofereço de novo a vida, um encontro com sua filha e a oportunidade de lutar de novo.
— Virgem Escriba... — deixou-se cair ao chão novamente
— Aceito, sabendo que não mereço semelhantes favores.
— Não o recriminarei por essa resposta, Mas terá que se sacrificar. Não terá uma lembrança consciente dela, porque não será como é agora. E requeiro uma amostra de sua habilidade.
Ele não compreendeu suas últimas palavras, mas não tinha intenção de perguntar.
— Aceito.
— Está seguro? Não necessita algum tempo para meditar sobre isso?
— Obrigado, Virgem Escriba. Mas minha decisão está tomada.
— Então que assim seja.
Aproximou-se dele. As fantásticas mãos surgiram das negras pregas de sua túnica ao mesmo tempo que o véu que cobria seu rosto se elevava espontaneamente. A luz era tão cegadora que foi impossível apreciar seus traços.
Quando ela segurou seu queixo e sua nuca, ele estremeceu ao sentir sua tremenda força, tão poderosa para esmagá-lo em um segundo.
— Dou a você a vida outra vez, Suikotsu, filho de Marklon. Que encontre o que procura nesta encarnação.
Pressionou seus lábios contra os dele. No interior de Suikotsu apareceu a mesma sensação que tinha tido no dia de sua morte: um estalo de todas as suas moléculas, a fragmentação de seu corpo em mil pedaços E a liberação de sua alma em uma vertiginosa espiral até ficar flutuando no éter.
