Capítulo Cinquenta e Seis

Doomed to Repeat

(Fadado a se Repetir)

Draco se encolheu no peitoril da janela de seu quarto, como fazia quando criança, e olhou para o jardim atrás da casa. Algo em que sou bom... Refletiu. Passara dias tentando descobrir a resposta para a tarefa que Andrew lhe passara, procurando até nas suas memórias mais antigas de quando ainda tentava ganhar a aprovação de seu pai. Frustrado, bateu o punho contra a parede. Era impossível.

Rosnando, saiu da janela e se despiu, jogando as roupas em uma pilha no canto do quarto para Perri recolher pela manhã. Vestiu o pijama, se garantindo de que as mangas cobrissem seus braços, e se jogou sobre a cama. Draco pegou um dos vários travesseiros que havia sobre sua cama e o apertou contra o peito. Permitiu-se pensar por um momento em quem teria sido se tivesse crescido do jeito que Daphne insistia que Scorpius crescesse. Draco colocou o travesseiro sobre o rosto, esperando que isso bloqueasse os pensamentos traiçoeiros que reforçavam sua crença de que seu filho estava melhor sem ele.

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- Você vai usar a Maldição Cruciatus nele, Draco.

Draco estava parado sobre a figura encolhida, sua varinha apontada para suas costas hesitante.

- Você vai fazer isso, Draco. Ele é um traidor.

A voz fez a pele de Draco se arrepiar, mas as expressões estranhamente parecidas com a de uma cobra o aterrorizava verdadeiramente. A pessoa ergueu a cabeça, e os dedos de Draco convulsionaram ao redor de sua varinha. O rosto pálido de Scorpius se ergueu, coberto pelas sombras criadas pelo fogo.

A varinha escapou dos dedos frouxos de Draco, caindo no chão ruidosamente.

- Não...

- Você ousa recusar minhas ordens? – Voldemort rangeu os dentes, sua voz ficando aguda, até soar como unhas arranhando lentamente uma lousa. – CRUCIO!

Era uma dor parecida com nenhuma outra que Draco já sentira.

- Ahhhh! – seu corpo convulsionou em agonia. Abriu os olhos, quase incapaz de ver Scorpius congelado em horror. – Corra. – ofegou, antes de uma nova onda de dor o acertar.

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- Draco! – Daphne o chacoalhou bruscamente. Pensou em estapeá-lo, mas achou melhor não fazer isso, e continuou a balançá-lo até que ele acordasse ofegando pesadamente.

- Onde ele está?

- Quem?

- Scorpius... – Draco puxou o cobertor até seu queixo. Não conseguia parar de tremer.

- Ele vai passar o resto do feriado com um amigo. – Daphne começou a sair do quarto. – Lembra?

- Fique. – Draco disse de repente. – Apenas por um minuto... Por favor?

Daphne parou por um momento e quase saiu pela porta, mas se acomodou inquietamente em uma das poltronas no canto do quarto.

- Eu estava voltando da biblioteca quando você começou a gritar. – ela puxou as mãos para dentro das mangas do roupão.

- Eu estava sonhando...

- Obviamente.

- Ele estava me obrigando a usar um Imperdoável em... Em Scorpius... – Draco engoliu. Sua boca parecia estar cheia de algodão. – Eu não consegui...

Daphne colocou os pés sobre a poltrona, passando os braços ao redor dos joelhos.

- Eu estava sob a impressão de que você não se importava com o que acontece com ele, de um jeito ou de outro.

- É isso o que você pensa? – Draco murmurou.

- Quando foi a última vez que você perguntou sobre ele? Ou mostrou interesse nele? – Daphne respondeu sarcasticamente. Colocou os pés no chão e se ergueu. – Boa noite, Draco.

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Cansado, Harry colocou um arquivo sobre sua mesa e pegou o último do dia. Draco espiou pela porta, antes de o resto de seu corpo aparecer.

- Estou adiantado. – afirmou.

- Eu sei. – Harry respondeu, anotando algo no arquivo de Draco. – Sente-se. – adicionou, indicando a cadeira com a pena, enquanto procurava um frasco de Veritaserum em uma gaveta e o colava sobre a mesa.

Draco o pegou com um suspiro e cutucou a rolha de cera ao redor da abertura do frasco.

- Como ele é?

Harry olhou para Draco sobre o aro dos óculos.

- Quem?

- Scorpius. – Draco disse quase sem emitir som.

- Oh. – Harry se recostou em sua cadeira e colocou a pena sobre a mesa. – Ele é alegre e inteligente. Tem boas notas em suas matérias. Atencioso. Se dá bem com os outros alunos de sua Casa...

- Em outras palavras, tudo o que eu não sou. – Draco interrompeu amargurado.

- Por que não começamos? – Harry sugeriu, indicando o frasco, desconfortável com o rumo que a conversa estava tomando. Depois de Draco beber a Poção, fez suas perguntas usuais a ele, verificou sua varinha, escrevendo as respostas de Draco em seu arquivo. Fechou a pasta, e estava no processo de recolocá-la em sua mesa e fechar a gaveta quando Draco falou novamente.

- Sou péssimo em tudo. – disse com tristeza.

- Eu não chegaria a tanto. – Harry balbuciou.

- Não. – Draco insistiu como alguém que bebera demais. – Nada do que eu fazia era bom o bastante, não vê? – Harry estava tentado a tentar convencer Draco de que ele não estava falando sério, mas só porque ele estava sob o efeito de Veritaserum não queria dizer que ele perdera seu bom senso junto de suas inibições. – Aquele Curandeiro que eu vejo; e eu sei que você sabe dele, porque meus cães de guarda te contam tudo; eu tenho que dizer a ele algo em que sou bom, e eu tenho pensado e pensado sobre isso por quase um mês. E nada.

Harry franziu o cenho em preocupação. Em todos os anos em que estivera investigando Draco, ele nunca dera mais informação além do pedido. Girou a pena entre os dedos, sujando-os de tinta.

- Você conseguia bloquear o Snape com Oclumência. – disse com hesitação. – Eu tive aulas com ele e isso não era fácil.

- É mais fácil quando você não tem emoções pela pessoa que está tentando bloquear. – Draco disse. – Estou surpreso que ele não tenha lhe dito isso, aquele sadista.

- É algo...

Draco soltou o ar.

- Oh, hurrah! – disse lentamente. – Sou brilhante em algo que não faço há vinte anos. – olhou furtivamente ao redor do escritório. – Você ainda sonha com o Lorde das Trevas?

- Voldemort? – a pena caiu dos dedos de Harry. – Às vezes. – admitiu. – Não tanto quanto antes. Umas duas vezes por ano quando muito.

Draco piscou rapidamente, os portões mentais se fechando.

- Então, você tem sorte. – disse quietamente. – Faz tanto tempo, mas mesmo agora, sua influência nas pessoas... – respirou fundo e começou a se levantar, mas ficou na cadeira. – Ele vai ser um homem melhor que eu, não vai?

- Melhor do que nós dois. – Harry disse tristemente, sem precisar perguntar sobre quem Draco estava falando. Colocou alguns documentos em sua pasta e pegou seu agasalho. – Vamos, eu te acompanho até os elevadores.

Tenso, Draco se ergueu.

- Não sou uma criança, Potter. – resmungou. – Posso ir sozinho aos elevadores.

Harry deu de ombros de modo indiferente.

- Eu tenho que ir embora, de todo modo, e serei eu ou o homem do DELM parado à porta que irá escoltá-lo até os elevadores e até a saída dos visitantes. Ao menos, se for eu, não é como se você fosse um criminoso qualquer.

Draco parecia pronto para vomitar.

- Isso não é nem um pouco melhor do que fazer parte do ciclo íntimo dele.

Os lábios de Harry se torceram em diversão.

- Talvez, mas pelo menos não vamos te matar.

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Draco se sentou em uma poltrona, automaticamente pegando uma bolinha mole.

- Você estava errado. – disse a Andrew.

- Eu estava? De que modo?

Draco apertou a bola ritmicamente entre seus dedos.

- É por isso que eu odiava auto-reflexão quando era mais novo. – começou. – Eu sou ruim em tudo.

- Draco, ninguém é ruim em tudo.

- Eu sou. – Draco insistiu. – Eu passei mais tempo inventando desculpas, choramingando, ou tentando dar um jeito do que realmente estudando na escola.

- É isso, então? Certo. Conte-me sobre as matérias que prestou nos seus N.I. .

O maxilar de Draco trabalhou silenciosamente por um momento.

- Poções, Transfiguração, Herbologia, Defesa, Aritmancia e Feitiços.

- Hm. Se eu me lembro corretamente, na época, para poder prestar os N.I. nessas matérias, era necessário conseguir um Excede as Expectativas nos N. .

- E?

- E Severus Snape ensinava Poções na época, e ele não aceitava ninguém em suas turmas de N.I. que tirasse menos que um "Ótimo". Assim como a professora Vector.

- De grande ajuda isso me foi. – Draco zombou. – Não foi bom o bastante para ele.

- Bom o bastante para quem?

- Meu pai. – Draco jogou a bola par cima e a pegou novamente. – A única vez que ele foi me ver jogar Quadribol, nós perdemos. Não obstante, foi para Potter e seu time e eles eram bons. – admitiu a contra gosto. – Foi um desastre total. A droga do Pomo estava . – lembrou. – Ele ficou claramente desapontado. Foi embora logo em seguida. – colocou a bola na mesa. – Tudo foi de mal a pior a partir daí.

- Por que te importava tanto o que seu pai pensava?

- É idiota.

- Não, não é.

Draco suspirou pesadamente e olhou para o teto.

- Eu queria que ele prestasse atenção em mim. E não apenas me dar sermões sobre o comportamento adequado ou me castigar por meus erros. – fechou os olhos. – Depois da guerra, ele parou de me dar sermões. Apenas me falava todas as coisas que fiz de errado, quando sequer falava comigo. Engraçado... Eu ficava mais feliz quando ele parava de falar.

- Por que acha que foi assim? Quero dizer, você passou sua vida inteira praticamente implorando para que ele te notasse, e quando ele finalmente para de falar com você ou de te dar sermões, isso o deixa, para usar suas palavras, feliz.

- Apenas uma voz a menos me dizendo o fracassado que eu era. Foi quase um alívio quando ele parou de falar comigo.

- Onde sua mãe estava durante isso tudo?

- Minha mãe? Ela estava lá. Quero dizer, ela cuidava da minha educação antes de eu ir para Hogwarts, mas não conversávamos muito. Eu não me lembro de ela tomar decisões sobre algo até meu pai ser preso depois do meu quinto ano. E, depois da guerra, ela foi a única que não recebeu uma punição severa por nossas atividades. Meu pai apenas se fechou depois de seu julgamento terminar. Minha mãe foi quem tomou a decisão de eles irem morar na França, um ano depois disso. Mas teve uma vez, antes de eu começar a escola... Meu pai queria me mandar para Durmstrang, mas minha mãe protestou. Eu não sei como ela o convenceu a mudar de ideia...

- Por que Durmstrang?

- Quem sabe? – Draco deu de ombros. – Talvez porque eles costumavam ensinar as Artes das Trevas. Talvez porque ele quisesse me preparar para assumir o lugar dele quando... – Draco visivelmente se encolheu. – Voldemort voltasse. Ou talvez ele me quisesse em outro lugar. Para o caso de eu me provar uma vergonha para a família e eu pudesse ficar fora da Inglaterra.

- Como era o casamento de seus pais? – Andrew perguntou curiosamente.

- Meu pai tomava as decisões e minha mãe basicamente fazia o que ele dizia, até tudo ficar de ponta cabeça e minha mãe precisar assumir as coisas. Considerando tudo, ela fez bem. De todos nós, ela saiu tão intocada quanto possível. Eles tinham quartos separados, mas vários casais em casamento arranjado fazem isso. Era estranho, depois da guerra, vê-la pensando por si mesma, fazendo as coisas que ele costumava fazer. Era como se ela fosse uma pessoa completamente diferente. Talvez era quem ela era o tempo todo...

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Narcissa pagou o padeiro pela baguette e a colocou no cesto pendurado em seu braço. Virou-se e perambulou pelo labirinto de tendas no mercado, parando aqui e ali para examinar vegetais, ou peixes recém-pescados.

A solidão de sua vida não a incomodava tanto quanto achara que iria. Depois de viver metade de sua vida fazendo o que as outras pessoas esperavam que ela fizesse, Narcissa assumira a posição da qual Lucius desistira e trocara por uma garrafa de licor, com uma facilidade que a surpreendera. E quando Lucius morrera, se maravilhara com a liberdade que tinha para fazer o que quisesse, sem ter de pensar nas regras e regulamentações impostas a ele pelo Ministério. Parou para analisar uma berinjela, erguendo-a em suas mãos quando um movimento chamou sua atenção. Narcissa se virou.

- Lavínia? – a berinjela caiu de seus dedos frouxos. Começou a andar na direção da mulher, em um ritmo sedado e correto, antes de começar a correr. – Lavínia! Livvy! Espere... – a mulher desapareceu em uma esquina e Narcissa a seguiu, desviando-se dos outros compradores, mas a mulher sumira na multidão que havia na praça.

Sua cabeça baixa, Narcissa caminhou de volta para a tenda de vegetais. O vendedor segurava a berinjela machucada com uma expressão indignada. Pegou o vegetal da mão dele, guardando-o em sua cesta.

- Je suis désolée. Sinto muitíssimo... – colocou algumas moedas na mão dele, olhando incertamente ao redor da praça cheia de pessoas. – Estou enlouquecendo... – murmurou para si mesma.

Rapidamente voltou para sua casa e colocou a cesta na cozinha, mandando o conteúdo para o lugar com um aceno da varinha. Sem se dar ao trabalho de se perguntar o porquê, Narcissa foi para o quarto e jogou algumas roupas dentro de uma mala. Quando se deu por si, se viu parada na fila do terminal de Chaves de Portal Internacionais.

- Londres. – disse para a bruxa atrás do balcão. A bruxa lhe passou um pequeno bilhete e, depois de pagar a exorbitante quantidade de ouro, Narcissa foi para o final do corredor.

- Chave de portal para Londres! Chave das 11:42 para Londres! – alguém chamou.

Brigou por um lugar ao redor de um guarda chuva quebrado e colocou um dedo nele, segundos antes de o objeto começar a brilhar.

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Andrômeda convidou Narcissa a entrar.

- Eu não sabia que você estava vindo! – exclamou. – No natal, Scorpius disse que você ia ficar em Nice até o verão.

Narcissa a olhou por um momento, antes de deixar escapar.

- Eu acho que enlouqueci.

Andrômeda explodiu em risadas, enquanto pendurava a capa de sua irmã no gancho perto da porta.

- Oh, bom Deus, o que te faz pensar nisso?

- Estou vendo alguém.

- Já estava na hora de você fazer algo bom para si mesma. – Andrômeda disse secamente. – Ele é tipicamente francês e terrivelmente suave e urbano? – suspirou, piscando repetidamente.

- Não quis dizer isso! – Narcissa bufou, corando. – Eu quis dizer que estou vendo pessoas que não estão lá!

Andrômeda gesticulou para Narcissa segui-la e a guiou até a cozinha.

- Você tem certeza de que não são apenas pessoas aparatando? Você vive em uma vizinhança bruxa...

- Sim, tenho certeza de que não era gente aparatando. Estou enlouquecendo. – Narcissa se sentou na cadeira e olhou para sua irmã. – Você sabe que há casos na família.

- Oh, pelo amor de Merlin. – Andrômeda riu, acenando a varinha para a chaleira. – Se você fosse insana, saberíamos há muito tempo.

- Isso não é verdade! Bellatrix não era maluca até fugir da prisão. – Narcissa lembrou.

- Bellatrix Black Lestrange era uma psicopata desde o momento em que nasceu. – Andrômeda corrigiu. – Quando você tinha três ou quatro anos, ela conseguiu colocar as mãos na varinha de nossa mãe e tentou te enfeitiçar porque você tinha cabelo loiro e não combinava com o resto de nós. A prisão só deixou isso mais claro. – serviu uma xícara de chá e começou a beber o seu. – O que te faz pensar que está vendo pessoas?

Narcissa aninhou a xícara entre suas mãos.

- Você se lembra da irmã mais velha de Lucius?

- Vagamente. Ela estava uns cinco anos a minha frente na escola; e eu não me misturava com seu circulo social depois de sair de casa.

- Quando Draco tinha aproximadamente um ano, ela simplesmente... Desapareceu.

- Talvez ela tenha fugido, como eu.

Narcissa balançou a cabeça.

- Acho que não.

- Por que não? Não é impossível.

Narcissa estudou Andrômeda, enquanto colocava a xícara na mesa.

- Ela não estava com a varinha dela. – disse simplesmente, como se isso explicasse tudo. – Você realmente acha que ela teria ficado satisfeita em viver como Trouxa?

- Coisas mais estranhas já aconteceram.

- Verdade... Lucius disse que eu não deveria mais mencioná-la. Desde desse momento, era como se... Lavínia... Nunca existiu.

- O que ela fez? Apaixonou-se por um nascido trouxa? – Andrômeda perguntou sarcasticamente.

- Não. Pior. Ela se apaixonou por um dos gêmeos Prewett. – Narcissa pegou uma colher e misturou açúcar em seu chá distraidamente. – Fabian, para ser precisa.

Andrômeda franziu o cenho levemente.

- Quando ela sumiu?

Narcissa se sentiu um pouco doente.

- Ela sumiu no mesmo dia que Gideon e Fabian Prewett foram assassinados.

Andrômeda sentiu um arrepio de medo correr por sua espinha.

- Você acha...? – murmurou horrorizada.

Narcissa assentiu lentamente.

- Acho.

- Mas ela não teria sido encontrada?

- Não se Lucius não quisesse que a encontrassem.

Andrômeda mordeu o lábio, antes de perguntar.

- Você quer tentar descobrir o que aconteceu com ela?

Narcissa riu amargamente.

- E como você sugere que isso seja feito?

- Harry. Ele pode descobrir se houve algum tipo de investigação sobre o desaparecimento de Lavínia.

- Harry Potter já sabe muito segredos de minha família. – Narcissa contrapôs.

- Nesse caso, o que é mais um?

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Draco parou do lado de fora da porta do quarto de Daphne, a mão erguida, proto para bater. Ao invés disso, espalmou a mão sobre a porta e lentamente abaixou a cabeça até que sua testa estivesse descansando sobre a madeira.

- Eu não conheço nenhum outro jeito. – disse suavemente. – Não conheço nenhum outro jeito de ser.

Do outro lado da porta, os olhos de Daphne se cerraram e ela saiu da cama, caminhando levemente até a porta. Inclinou-se para mais perto, tentando entender o leve murmúrio do outro lado.

- Eu queria poder começar tudo de novo. Deixar tudo de lado. Eu fui criado para acreditar que esse era o único jeito de viver. Que o status de sangue era a única coisa que importava. Que filhos deviam fazer o que seus pais faziam. Eu não fui capaz de fazer isso, e meu pai nunca me perdoou por humilhar o nome da família. Quando Scorpius nasceu, ele disse que essa era minha chance de me redimir. De criar um filho perfeito. E eu não consegui nem isso.

"Trazer uma criança para essa... Vida... Era impossível para mim. Como eu poderia moldar meu filho para ser o que meu pai queria quando eu não era... Eu não queria fazê-lo passar pelo o que tive de viver. Mas eu precisava tentar. Eu tinha de provar para o meu pai que eu não era uma desgraça colossal."

"Não funcionou, não é? Eu queria que ele fosse melhor que eu, mas isso não era o que eu tinha em mente. Eu pensei que se eu deixasse que ele passasse mais tempo com você quando ele era mais novo, ele seria o que meu pai queria. Você era da Sonserina e é uma sangue puro, assim como eu, então é claro que isso iria ajudar."

"Eu sabia. Eu sabia, quando ele era pequeno, que ele não ia se conformar em ser o que meu pai — e eu — queríamos que ele fosse. E eu te culpei, porque era mais fácil do que pensar que meu modo não era o melhor para Scorpius. E quando ele começou a escola e acabou na Grifinória, melhor amigo do filho de Potter, eu fiquei bravo. Bravo comigo mesmo, bravo com você e Scorpius. Eu demorei um longo tempo para deixar de ficar bravo. Eu levei meses depois da morte de meu pai para perceber que eu não tinha mais que tentar viver as expectativas dele. E, então, eu achei que o mais longe eu ficasse de Scorpius, o melhor para ele. Por que eu deveria arriscar estragar a vida dele mais do que já estava estragada?"

Draco esperou, quase prendendo o ar, meio que esperando que Daphne o escutasse, mas quase certo de que ela não o tinha feito. Depois de um minuto, se afastou da porta firmemente fechada e atravessou o corredor.

A mão de Daphne alcançou a maçaneta. Cuidadosamente abriu a porta, espiando pelo vão, mas a única coisa que viu foi a barra do roupão de Draco quando ele entrou no próprio quarto.

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Narcissa parou dentro do elevador, suas mãos enroladas uma na outra nervosamente. Quando as portas se abriram, respirou fundo e saiu, sua cabeça erguida, olhando para o mundo como se fosse a nova Ministra da Magia. Isso a fez rir um pouco para si mesma. Supôs que isso tinha sido uma coisa que conseguira ensinar a Draco. O vira se comportar dessa maneira várias vezes depois da guerra. Fora como ele conseguira aguentar o julgamento sem desmoronar publicamente. Caminhou pelo labirinto de cubículos, indo em direção ao escritório de Harry no fundo.

A porta estava parcialmente aberta, mas Narcissa bateu levemente na madeira escura. Harry ergueu os olhos do arquivo em sua mesa. Se ele ficou surpreso, não ficara claro em seu rosto.

- Se você quer ver Scorpius, ele está em casa com Ginny. – Harry disse.

- Não é por isso que estou aqui. – Narcissa começou. – Preciso localizar alguém...

- Erm... Essa é mais a especialidade do DELM...

- Não dessa vez. – Narcissa insistiu. – Por que envolve Lucius.

Harry fechou o arquivo lentamente e puxou um pedaço de pergaminho em branco em sua direção.

- Continue.

Narcissa se sentou em uma das cadeiras em frente à mesa de Harry, suas mãos fortemente fechadas ao redor de sua bolsa.

- Lucius tinha uma irmã. Ela está desaparecida desde antes Voldemort tentar te matar.

Harry suspirou e colocou a pena sobre a mesa.

- Senhora Malfoy, a senhora sabe quantas pessoas não foram encontradas naquela época?

- Sei.

- Então, você sabe que podemos nunca descobrir o que aconteceu com...? – Harry ergueu uma sobrancelha confusamente.

- Lavínia. E eu sei...

Harry assentiu e pegou a pena mais uma vez.

- É muito urgente?

- Esperei todo esse tempo, suponho que posso esperar mais um pouco.

- É só que um caso vai ser encerrado logo, e eu quero supervisionar pessoalmente. Agora, o que pode me contar sobre Lavínia?

Continua...

N/T: Há uma one-shot que conta a história de Lavínia. Se quiserem que eu traduza, me falem nos comentários.

Obrigada pelos comentários e até semana que vem.