- Parte 56 -
Amy foi conduzida até uma sala de aula vazia. Lá ela pôde ver quem a havia levado até lá. Era Jasper.
- Jasper? O que você está fazendo aqui? - ela perguntou, com a expressão confusa.
- Vim consertar o meu erro, Amy. Voltar para a pessoa que eu nunca deveria ter abandonado.
Amy balançou a cabeça, confusa.
— Pela boca inexistente da Hello Kitty! — exclamou a garota — Eu acho que bebi demais.
— Eu conversei com Alice — Jasper insistiu — disse que não a quero mais, e mandei ela ir pastar nos campos de Forks com os Cullen.
— Você fez isso?
— É, Amy, eu não tenho mais família. Eu só tenho você, minha Caninha.
— Isso é sério?
— Eu não brincaria com algo assim. Olha, você tem todo o direito de não me querer, é claro. Nesse caso, eu pedirei abrigo ao velho Dumbledore quando o seu ciclo em Hogwarts acabar.
— Olha que ele cobra um preço caro — e Amy balançou a cabeça, recusando-se a pensar no tal preço.
— Não importa — disse Jasper bravamente — pagarei o preço que for, só para ter você perto de mim por mais algum tempo.
— Ah, Jazz…
— Me dê mais um chance, minha querida alcoólatra…
— Todas, minha fuinha descabelada e assustada!
E se beijaram longamente, com todo o gosto do vinho e da reconciliação.
Christine acordou um tanto esquisita — e atrasada — na manhã seguinte. Após tomar banho e se arrumar às pressas, ela deixou o salão comunal quase correndo, esperando pegar o final do café da manhã. Respirou aliviada ao perceber que as amigas ainda estavam à mesa.
— Bom dia, pessoal — ela saudou, sentando-se ao banco ao lado de Anne.
— Perdeu a hora? — indagou Amy — O que ficou fazendo até tarde com Snape?
A garota arregalou os olhos.
— Não falemos mais nisso — balbuciou.
— Tá tudo bem, Chris? — indagou Anne.
— Estaria, se vocês me deixassem em paz para me arrepender de meus erros passados.
Anne e Amy se entreolharam com estranheza.
— Mas está faltando gente nessa mesa… Cadê o Jake?
— Falando no diabo, eis que ele aponta o rabo — disse Anne olhando adiante, e vendo que Jacob se aproximava, junto de Jasper.
— Não fale este nome à mesa do café da manhã — repreendeu Christine.
— Diabo?
A garota fez o sinal da cruz.
— E eu vou trocar esta roupa — declarou, muito séria — estou parecendo uma meretriz.
Christine passou como um raio por Jacob e Jasper, que tomaram seus lugares junto às respectivas namoradas.
— Ah, desencosta, Jake — resmungou Anne — cruzes, você está frio.
— É, eu reparei — estranhou o lupino — mas precisa me tratar assim?
— Ah, deixa de bichisse, garoto, estou farta de carinhos.
— Vocês trocaram de temperatura? — indagou Amy — Jazz, você está pelando.
— É, eu notei. E se não tivesse notado, diria que você tinha bebido demais.
Amy fez uma cara de nojo.
— Eu não bebo mais. Só de falar na bebida, fico com nojo.
Jake olhou significativamente para Anne, que deu de ombros.
Enquanto isso, Christine corria para o dormitório, rezando — e literalmente — para que ninguém a visse naqueles trajes que julgava promíscuos. Mas encontrou quem menos queria ver no corredor das masmorras, e ele trajava uma capa num tom vermelho-berrante-perolado, e era impressão da garota, ou havia um ou outro cacho de baby liss nos seus cabelos e uma franja diagonal?
— Bom dia, flor do dia! — ele exclamou, de braços abertos para a garota — Gostou do modelito? Encontrei numa mala que Gilderoy Lockhart esqueceu em Hogwarts. Mas o que foi, minha delicada raposinha, que cara é essa?
— Fique fora do meu caminho, Satanás! — disse Christine, recuando.
— Chris, você está bem, minha flor de lis?
— Você — ela apontou o dedo no rosto de Snape, ameaçadoramente — foi mandado pelo Capiroto, não é verdade? Para me desvirtuar!
— Mas que conversa é essa, meu amor? Vem aqui, me dá um abraço, que eu estou carente.
E Snape tentou abraçar Christine, mas a garota deu um pulo para trás, empunhado a varinha.
— Fique longe de mim — ela disse, ofegante — eu não vou cair no seu pecado!
E desatou a correr até o dormitório, enquanto Snape debulhava-se em lágrimas.
— Mas o que é isso? — indagou a voz grave às suas costas.
Ao se virar, Snape deparou com um Dumbledore trajando roupa de motoqueiro, com direito a óculos escuros e tudo.
— Que merda é essa? — falou o velho — Viadinho não fica vivo aqui não! Ou tu toma a tua linha, ou leva pipoco de Avada.
— Sim, senhor — assentiu Snape, choramingando como uma criancinha — com licença.
E se retirou de cabeça baixa.
Anne já estava a meio caminho da sala de Poções, quando Jake a puxou para o estratégico vão na parede de pedra.
— Vem aqui, amor — ele sussurrou — quero amar você antes da aula.
— Que amar o que, Jake! — falou a garota — Eu quero sexo! Sexo puramente selvagem e sem sentimento.
E Anne começou a beijar o namorado com ferocidade, sem se incomodar com a frieza de sua pele. Porém, quando abriu o zíper do garoto, ela recuou.
— Jake, o que é isso?
— Não sei, eu acordei e… E estava um pouquinho menor.
— UM POUQUINHO? TÁ MINÚSCULO!
— Ah, Anne, queira compreender. O amor reconhece outras coisas…
— Amor é o caralho! Me deixa em paz, Jacob, já que a única coisa decente em você não é mais tão decente assim. Eu deveria ter escutado meus pais… Além de lobisomem e sangue-ruim, agora você tem um pardal no meio das pernas.
E a garota saiu enfurecida, enquanto Jake guardava, com pesar, o pobre amigo.
— Amy, você é diferente sóbria — observou Jasper, enquanto eles faziam juntos o caminho para as masmorras — não sei, parece mais inteligente, como uma verdadeira corvinal.
— …Que não sou, e por causa da maldita bebida. Por esses e outros motivos, eu decidi largar o vício, mas… Ei, Jazz, é uma briga ali, não é? Na porta da sala? Anda, vai lá acalmar os ânimos com seu poder.
E realmente Harry e Draco se engalfinhavam, mas parecia haver qualquer coisa de anormal na briga.
— Eu já disse que não te traí — implorava Draco, às lágrimas — por favor, Harry, acredite em mim.
— Acreditar? Não, eu não vou acreditar! Nós mal começamos e você já estava dando bola para Parkinson!
— Não estava! Hermione viu que eu só estava conversando…
— Hermione! — exclamou Harry com raiva — Ora, pro inferno essa sangue-ruim!
Jasper ergueu a mão em direção aos brigões e começou a executar seu poder. O que aconteceu, porém, foi que Harry ficou ainda mais enfurecido, quase como um cão raivoso, e pulou em cima de Draco, espancando-o.
— Parem agora mesmo! — exclamou Snape, separando os dois garotos com um feitiço — Dois meninos tão talentosos brigando assim, droga! Vamos, dêem as mãozinhas e façam as pazes, sim? Eu sei que vocês se gostam!
E Harry olhou para os olhos azuis e marejados de Draco e não resistiu. Abraçou o garoto com força e estalou-lhe um beijo nos lábios.
— Ah, o amor é lindo! — suspirou Snape — Seja como for! E falando nisso, por onde anda a minha raposinha?
Jasper pediu licença e entrou na sala, seguido por Amy.
— Meu poder saiu pelo avesso — ele resmungou — isso nunca aconteceu antes.
— Jazz, estão acontecendo muitas coisas estranhas — observou Amy — primeiro a sua pele quente, agora o seu poder às avessas. E Harry e Draco? Eles não se odiavam? Isso sem falar naquela roupa ridícula do Snape, e no modo carinhoso com que ele falou com os garotos.
— E quanto à sua aversão à bebida?
— Isso foi uma resolução que tomei, não vem ao caso. E olhe para Anne — apontou discretamente para a mesa da frente — ela não suporta estar ao lado de Jake. Não era ela que o amava, que era louca por ele?
— Meus queridos — disse Snape com um grande sorriso, à frente da sala que o olhava com estranheza, mas sem dar muita importância — vamos ficar quietinhos, por favor? Muito bem… A aula de hoje…
Mas Christine interrompeu, entrando na sala com uma vestido preto que ia até os pés e fechava no pescoço. Os luxuriantes cabelos estavam presos em um coque, e um terço no pescoço completava a produção beata.
— Ah, até que enfim, meu amor — sussurrou Snape — estive com saudades.
— Fique longe de mim — ela disse, segurando o crucifixo e estendendo-o na direção de Snape — seu corruptor de moças puras!
— Você pura, meu amor? Tantas noites nós…
— Filho do Cramulhão — a garota sussurrou — quer mesmo que me perca nos teus caminhos malignos, não é? Mas não me perderei, porque o Senhor é maior!
Dito isso, a garota foi se sentar, deixando um Snape triste para trás.
— Isso também é estranho — reparou Amy.
— Mas como eu dizia — retomou Snape — a aula de hoje será diferente, porque sei que meus pequeninos andam muito cansados por conta dos estudos para os N.I.E.M's, não é verdade? Então hoje a aula será de desenho livre! Vamos, soltem a criatividade, crianças!
A0 contrário do que era de se esperar, todos começaram a desenhar pacientemente, menos Christine, que ainda olhava Snape desconfiada, e Amy, que tentava entender aquilo tudo.
Ao término da aula, a ex-cachaceira esperou que todos os alunos se retirassem, para poder ficar a sós com Snape. Enquanto isso, ia Anne em direção à sala de Transfiguração, com Jake em seu encalço.
— Anne, eu não mereço essa forma de tratamento — resmungou ele.
— Tem razão, eu deveria te lançar uma Avada, aí sim você teria o que merece.
— Caramba, Anne, o que eu te fiz? Eu te amo, cara. Será que você não pode ver o que está dentro do meu coração?
Anne parou e olhou cuidadosamente para o namorado.
— Eu não tenho uma máquina de raio-x, Jacob.
E o garoto balançou a cabeça, decepcionado, mas não conseguiu mais contestar.
Finalmente o último alun0 deixou a sala de Poções, e Amy aproveitou para ter com Snape, que cantarolava, conjurando passarinhos.
— Professor Snape — chamou Amy cuidadosamente — podemos trocar uma palavrinha?
— Quantas você quiser, miguxa! Aceita um licor?
— Não, eu não bebo, obrigada.
— Você?
— É, eu não bebo mais, mas deixemos isso de lado. Snape, você não notou que coisas estranhas estão acontecendo hoje?
— Notei que acordei mais sensível, e notei também que todo o mundo está me dando patada. Primeiro a minha amada, depois o Tio Dumbie que sempre foi fofuxo comigo. Ah, que mundo injusto! Eu sei que ninguém me ama! Desculpe, mas não posso ser perfeito!
E Snape caiu em um choro inconsolável, enquanto Amy lhe dava palmadinhas encorajadoras no ombro.
— Eu sempre fui o exilado — prosseguiu em seu lamento — desde os tempos de menino. Nunca tive amigos, meu pai me odiava, os meninos me humilhavam na escola. Eu deveria já ter me matado com uma faquinha de rocambole! Mas quando eu pensei no suicídio, ah, ela apareceu na minha vida, a Chris. E agora ela foge de mim como o diabo da cruz! Ou melhor, como a cruz do diabo!
E embarcou em outra crise de choro, que Amy novamente tentou consolar.
— Não fica assim, miguxo Sev. Olha, é pra resolver os nossos problemas que eu estou aqui.
E ele ergueu o rosto arrasado de lágrimas.
— Resolver? Como?
— Olha, tudo isso é muito ê viu os carinhos de Harry e Draco? Ora, Snape, aqueles garotos se odiavam. E Anne Hale, que do nada começou a tratar mal o namorado! Isso sem falar na Chris, né, que nós sabemos que, se tem uma única coisa que ela aprecia numa igreja, é o confessionário, onde, segundo ela, é apropriado a uma rapidinha.
— É, eu que o diga! Mas o que você acha que está acontecendo, miguxa?
— Não sei, mas tudo está ao contrário, não é? Isso não é normal…
— Ei, espera, acho que já ouvi falar de algo assim… O Feitiço do Contrário.
— Que feitiço é esse?
— Não me lembro bem, querida, eu li algo sobre esse feitiço em meu quarto ano. Recordo que acontecia exatamente o que você diz estar acontecendo… As pessoas mudavam completamente, para o seu oposto.
— E onde podemos achar mais informações sobre isso?
— Creio que na sessão reservada da biblioteca, por se tratar de magia muito avançada.
— É para lá que nós iremos, então.
— Ah, Madame Pince não nos deixaria pegar um livro da sessão reservada sem antes nos encher de perguntas, mesmo tendo uma autorização de um professor, no caso, eu. Ela ficaria o tempo inteiro à espreita, aquela rabugenta.
Amy sorriu.
— Não no dia do contrário.
McGonagall chegou atrasada à aula, e todos os alunos ficaram espantados ao vê-la trajando apenas cinta-liga vermelha, salto alto e um robe preto.
— Bom dia, queridos! — saudou os alunos, sentando sensualmente sobre a mesa — Desculpem-me a demora, é que Dumbledore fica querendo a todo o momento, sabem como é. Ai, nunca estive tão saciada em toda a minha vida!
Alguns alunos mais fortes fizeram cara de nojo, os mais frágeis, entretanto, vomitaram ali mesmo. Christine se limitou a fazer o sinal da cruz, e Anne a dizer "tedioso". Mas a professora continuou a aula, como se nada estivesse fora do normal.
— Bom, na aula de hoje aprenderemos a transfigurar penas em vibradores. Ah, eu sei que vocês gostaram, safadinhos!
— Vou transfigurar a varinha dela num crucifixo. — resmungou Christine — Pecadora! Vade retro, filhote de cruz credo!
— Que horror de aula! — falou Jake.
— Eu vou prestar atenção — rebateu Anne — porque com as novidades, né, Jake, talvez eu precise de um...
— Onde está a Caninha? — indagou Jasper melancólico.
— Deve estar pecando por aí — respondeu Christine.
E Jasper deu um suspiro cansado, mas não discutiu.
A hipótese de Amy não podia ser mais exata: Madame Pince realmente estava um amor, mais doce que toda a Dedosdemel em uma tarde de primavera.
— Bom dia, meus queridos! — ela disse — No que posso ser útil?
— Madame Pince, querida, eu gostaria de um livrinho da sessão reservada.
— Ah, é claro, Severus, meu querido! Pode pegar quantos livros quiser, afinal, o livro é do aluno e do professor!
Amy olhou meio desconfiada, mas se lembrou que era dia do contrário.
— Vamos logo, Snape — murmurou a garota — antes que ela mude de ideia.
— Ah, Severus — chamou a bibliotecária — você tem algum compromisso para esta noite? Sabe, cansei de ser amarga, quero encontrar um amor.
— Oh, me desculpe, doce senhora, mas já sou comprometido — falou Snape, dando um grande suspiro — e amo tanto a minha linda donzela!
— Donzela? — cochichou Amy — Aí já é forçar a amizade, Sevinho.
— Bom, tudo bem — falou Madame Pince — depois eu vejo se o Filch tem um tempinho livre…
— É, vai lá falar com ele — disse Amy impaciente, puxando Snape pelo braço — e nós vamos tratar de um outro assunto, né, Snape?
— É, é verdade.
— Você lembra do nome do livro?
— Não, mas lembro que a capa era preta.
— Nossa, ajudou bastante, muito obrigada.
— Ah, não fala assim, Srta. Sparrow — e os olhos negros do homem emo começaram a lacrimejar — você também vai me dar patada?
— Não, eu não vou, miguxo. Bom, vamos procurar os livros de capa preta.
Eles levaram quase três horas para achar o tal livro, uma vez que 90% dos volumes possuíam uma capa preta.
— É este! — esganiçou-se Snape quando encontrou o livro — É este mesmo, eu lembro! Oba, nós encontramos! Viva, miguxa!
Amy olhou meio espantada, mas decidiu não discutir. Apenas apanhou o livro e levou-o a uma das mesas, enquanto Snape a seguia, e Madame Pince, por sua vez, o seguia com olhos de lamento. A garota, sem a bebida, era ágil e eficiente, e não tardou a achar o tal Feitiço do Contrário. Leu-o para si e fez anotações, enquanto Snape vagava os olhos pela biblioteca, pensando em Christine. Ao terminar, a garota fechou o livro, já sabendo de cor o tal feitiço.
— É o seguinte — começou — o Feitiço do Contrário foi elaborado por e para pessoas que não estão satisfeitas com suas vidas, e gostariam que elas fossem exatamente o contrário daquilo que são. O problema é que, ao executar este feitiço, todo o mundo bruxo acaba comprometido. Neste momento, Snape, até o Ministro deve estar tendo atitudes estranhas, tipo montar um escorregador no próprio escritório e brincar nele de vestido cor-de-rosa.
— Eu não quero sonhar com isso — disse Snape, fazendo beicinho.
— O feitiço só pode ser executado durante um eclipse, quando a lua, oposto do sol, se mistura a ele. Houve um eclipse ontem, não é?
— É, é verdade.
— Então alguém executou o feitiço.
— Precisamos descobrir quem é, então, para reverter.
— Não, nós mesmos podemos reverter, executando o contra-feitiço.
— Então façamos já!
— Não, Snape, não é tão simples. Primeiro precisamos esperar cair à noite, para fazermos sob a lua. Segundo explica o livro, existe um feitiço que implica num raio de sol saído da varinha. Sim, um facho de luz escaldante. Devemos lançar este feitiço em direção à lua, para causar um eclipse artificial, e aí dizemos as palavras do contra-feitiço.
— E você acha que o raio de sol realmente vai chegar à lua, miguxa? Isso não é meio impossível?
— Nós somos bruxos, Snape, e as coisas mais brisadas e impossíveis são normais para nós.
— É, tem razão. Então esperamos chegar a noite e fazemos o contra-feitiço. Mas tem algum risco?
— Tem. Precisa-se de muita, muita habilidade e determinação para se lançar o raio de sol à lua, porque só se tem uma chance de tentar.
— E se não conseguirmos?
— Vamos ficar assim para sempre… Ao contrário.
— Há registros de pessoas que não conseguiram?
— Há cinco casos em toda a história, quatro sem sucesso.
— Então alguns bruxos ficaram ao contrário até o fim de suas vidas?
— Sim, e provavelmente muitos que pereceram em Azkaban, eram, na verdade, boas pessoas.
Os olhos de Snape voltaram a lacrimejar.
— Mas isso é muito triste.
— É, é muito triste — falou Amy impaciente — e será mais ainda se você ficar emo pelo resto da vida.
— Eu não sou emo! Só sou sentimental, poxa. Acho até que este meu novo eu não tem nada a ver com o tal feitiço.
— É, esse é um dos sintomas. A pessoa fica achando que tomou uma resolução e abraça a causa, esquecendo-se, assim, de todas as possibilidades de seus novos hábitos terem a ver com práticas ilícitas de magia. Você entendeu?
— Não.
— Tá, esquece. Eu também achava que eu havia mesmo me curado da bebida, mas agora eu sei que não. E, vamos, que quero tudo como era antes!
Amy e Snape aguardaram impacientemente pela chegada da noite, e a garota ficou a postos assim que a lua apareceu no céu.
— Ai, Srta. Sparrow — choramingou Snape — eu te ajudaria, mas tô tremendo de medo. Só de pensar que isso pode sair errado e eu posso nunca mais ter a minha raposinha, já me dá vontade de chorar.
— Poxa vida, achei que seria bom contar com a ajuda de um professor, alguém mais experiente, e dei com os burros n'água. Você só sabe chorar e se lamentar, Snape…
— Ah, não fala assim.
E ele iniciou outra crise de choro, dessa vez mais baixo.
— Tudo bem, miguxo. Fica quietinho e você será útil, tá?
— Eu vou ficar. — ele assentiu, sentando-se ao chão e abraçando as próprias pernas, como uma criancinha.
Amy balançou a cabeça e pôs-se a concentrar no feitiço. Era tudo ou nada, e o nada era mais provável. Quatro das cinco pessoas que tentaram lançar o feitiço à lua, não obtiveram sucesso. Mas ela precisava tentar, precisava correr o risco, porque queria aqueles a quem amava de volta, fossem o que fossem. E a garota pensou em cada um de seus amigos, olhou confiante para a lua, a varinha em riste… E pronunciou as palavras mágicas.
— Isso! — murmurou Snape.
E o raio de sol saído da varinha de Amy foi subindo, e subindo. Quanto mais alto ficava, mais a varinha parecia pesar, e a garota começava a entender porque nunca dava certo. De repente, a varinha começou a queimar a sua mão, como brasas muito vivas. Ela gritou, mas não soltou a varinha, mesmo que a dor fosse lancinante e o suor banhasse seu rosto. E então, aconteceu. O raio de sol envolveu a lua, tornando-a alaranjada, e a noite ficou clara como se fosse meio-dia. A varinha ainda queimava a mão de Amy, mas ela praticamente não sentia mais, tão absoluta era sua felicidade. E enunciou as palavras do contra-feitiço, que dissiparam o raio de sol da varinha, e a noite voltou tão repentinamente quanto havia ido embora. Amy deixou-se cair ao chão, absolutamente cansada. Olhou para suas mãos, esperando encontrá-las sem pele, e respirou aliviada ao entender que as queimaduras eram ilusórias.
— Por Merlim! — exclamou Snape, erguendo-se de uma vez e olhando para as próprias roupas — O que deu em mim? Essas roupas ridículas!
— Acho que tudo voltou ao normal — disse Amy, explodindo de felicidade — vamos beber pra comemorar?
— Talvez — a voz de Snape retornara ao mesmo tom grave e severo de sempre — mas antes preciso trocar essas roupas e… E desfazer essa franja horrenda.
Amy riu consigo mesma, e alto. Pegou a varinha e as anotações e rumou de volta para o castelo, muitos passos atrás de Snape, que corria desabalado.
Enquanto isso, no dormitório, Anne e Christine pareciam despertar de um transe, em meio a uma conversa sobre religião.
— Então, Chris…?
— Então o que? — indagou a garota, perplexa.
— Você estava falando sobre a luta entre Jacó e o Senhor, no livro do Gênesis…
— Que mané Gênesis? Mas… O que deu em mim, cacete? No que eu estava pensando há um minuto atrás? Eu não entendo. Jacó? Gênesis?
— Falando em Jacó, eu preciso conversar com o Jake — disse Anne, quase às lágrimas — eu fui tão dura com o meu lobinho hoje, e não sei porque. Não sei o que deu em mim. Alguma coisa muito estranha aconteceu, Chris.
— Aconteceu — falou a outra garota, arrancando os botões que fechavam seu vestido de beata no pescoço — mas não quero nem saber. Quero mesmo encontrar Snape! Fui!
— E eu o meu Jake.
Christine tomou o caminho da sala de Snape, que estava totalmente vazia quando ela chegou. Então a garota decidiu esperá-lo, não sairia dali até se "desvirtuar".
E Anne procurou Jacob pelo salão comunal, mas sabia que ele poderia muito bem estar em seu dormitório, chorando as pitangas. Todavia, sua intuição de namorada apaixonada dizia que ele vagava pelos corredores das masmorras. E estava certa. Anne encontrou Jake assim que deixou o salão comunal.
— Amor, me perdoa — ela pediu, lançando-se ao pescoço do namorado — eu não sei o que deu em mim.
— Tudo bem — ele disse, com um grande sorriso — todos ficaram estranhos mesmo, de alguma forma, mas agora passou. Até o meu amigo aqui voltou ao normal!
— Ai, Jake, eu te amo! — e pulou no pescoço do namorado, beijando-o efusivamente.
— Eu também, coelhinha — ele balbuciou, enquanto ela o engolia.
E Snape passava por ali…
— Que overdose de fofice — ele disse entediado — acho que vou vomitar um arco-íris.
E se retirou para sua sala, não antes de ouvir qualquer comentário de Jacob a respeito de suas roupas. Ao abrir a porta, ele estacou.
— Chris? O que você está fazendo aqui.
A garota lançou-se para ele, arrancando-lhe a bizarra capa escarlate.
— Pra brincar de escravos de Jó é que não é — ela disse maliciosa — se bem que eu gosto da parte do "tira, põe, deixa ficar".
E rasgou o que restava das vestes de Lockhart. Não obstante, Snape fez o mesmo, arrancando e despedaçando os vestidos de beata de Christine. E se amaram loucamente pelo resto da noite.
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No dia seguinte, no café da manhã, Amy já acabara com uma garrafa de hidromel, enquanto narrava toda a sua trajetória com Snape, sobre a execução do feitiço e etc. Foi quando ouviu uma voz abicharada chamar seu nome. Pensou que estava delirando.
— Vai lá — falou Christine — Dumbledore está te chamando.
A garota estranhou, mas encaminhou-se, trôpega, até a frente do Salão Principal, diante de todos os alunos.
— Esta menina — disse o velho, ajudando Amy a manter o equilíbrio — e o gatinho do professor Snape, nos salvaram de um mal terrível! Um feitiço obscuro, que os senhores não devem ter conhecimento, mas que foi o que causou toda aquela estranheza de ontem. Imagine que eu virei machão! Ah, que horror! Muito obrigada... Digo… Obrigado, Srta. Sparrow! Vou recompensá-la com troféu de serviços prestados à escola e um barril de vinho do tamanho do Sr. Black!
Todos aplaudiram. Era bom que tudo voltasse a ser como antes. Era bom que fossem eles mesmos, ainda que não fossem nada normais. E quem disse que é bom ser normal?
