— Desculpe, eu não posso ir mais rápido que isso.
— Eu não disse nada.
Mais uma vez, o velho Shimazu interrompia sua caminhada para esperar Sharm recuperar o fôlego. Estava com muita pressa, pois mal tinham saído das mediações do vilarejo élfico, o que poderia ser desastroso. Iehisa tinha certeza de que Sharm era alguém importante entre os elfos, e agora, para o seu filho também. Com certeza, logo seriam alvo não só dos soldados Ends, mas, também, dos aliados de Toyohisa. Mas não tinha como apressar Sharm. Ainda nem havia recebido sinal algum da maga outobrista, então, não poderia arriscar fazer o elfo entrar em trabalho de parto agora.
— Você quer que eu te carregue?
— Com todo o respeito, senhor Shimazu, acho que não me aguenta.
— Pensei que elfos fossem criaturas pequenas e delicadas.
— É, parece que as histórias que ouviu sobre nós eram fascinates. Mas, fantasia, é bem diferente da realidade.
— Fantasia? Isso aqui parece mais um pesadelo. - Sharm baixou os olhos parecendo magoado – Não estou falando exatamente de você. Eu me refiro a tudo; a guerra, as criaturas estranhas e assustadoras que eu encontrei… a sua situação também é bem bizarra.
— Eu sei, não queria que as coisas acabassem assim.
— Está dizendo que não queria ter um filho de outro homem; do Toyohisa?
— Não, quero dizer, sim, mas… - Sharm ficou confuso. Não sabia como explicar aquilo a Iehisa. – Não sou o único elfo "especial" que existe, mas, essa minha habilidade não serve pra nada; sempre me trouxe vergonha. Eu só soube dela pouco antes da minha mãe morrer. Eu não gostava de ser assim, mas nunca tive o que temer. Era só ignorar e continuar a vida normalmente. Havia uma elfa de quem eu gostava muito, e eu pretendia me casar com ela e formar uma família, como qualquer elfo normal. Ela era uma das poucas pessoas que sabiam da minha condição. Um dia, ela foi levada pelos soldados e, não sei por que, mas, ela acabou revelando ao inimigo, minha verdadeira natureza. Com isso, ela trocou a sua liberdade pela minha. Passei a ser alvo daqueles soldados doentes, que achavam interessante experimentar algo diferente, pra variar. Quando a Ordem resolveu impedir a nossa espécie de continuar a se expandir, é claro que fui o primeiro a ser capturado e levado com eles. - Iehisa ouvia tudo com muita atenção – Foram longos dias de tortura e sofrimento. Eu só queria morrer, o mais rápido possível. Foi ai que o Toyohisa apareceu e eu descobri que poderia seguir em frente de novo. Só me esqueci que ainda era amaldiçoado e que acabaria o levando a ruína, junto comigo. Mas também, não queria perder a única lembrança dele que me restaria, quando a guerra acabasse. Por isso tentei fugir, pra não causar nenhum sofrimento a ele.
Iehisa não disse nada. Sharm tinha razão. Talvez, depois que a guerra acabasse, realmente não restasse nada de deles; nem de Toyohisa. Era triste saber que a sua linhagem terminaria ali, daquela forma tão covarde e cruel. Mas, aceitar uma criança, concebida naquelas condições, entre os Shimazus, parecia ainda pior. Estava abandonando tudo por seu filho e pela honra.
— Você desistiu de casar, ter filhos, e uma vida normal?
— Só de casar e ter uma vida normal.
Iehisa entendeu que Sharm não desistiria da criança, em hipótese alguma. Até cogitou deixar o elfo fugir, caso ele aceitasse não ter o filho bastardo de Toyohisa. Mas não teve como pedir algo assim, não depois de ver o quanto já era tarde. Agora, não via outra saída menos dolorosa para tudo aquilo.
Caminharam no mesmo ritmo por mais quatro longos dias. O que Iehisa não contou a Sharm é que mudou a trajetória da viajem de propósito, apenas para darem mais e mais voltas; todas inúteis. Sua real intenção era esgotar Sharm ao máximo, impedindo que ele pudesse reagir a qualquer tentativa de fuga. E é obvio que a estratégia deu certo, pois quando chegaram ao destino escolhido por Iehisa, Sharm mal conseguia se manter em pé. O problema é que ele também começou a sentir muita dor.
Mas ganhar tempo também foi importante para esperar pela chegada da maga outobrista, que já havia recebido sua mensagem.
Enquanto Sharm dormia, Iehisa se aproximou sorrateiro, algemando ambas as mãos do elfo. Sharm acordou assustado com o clique e o peso dos grilhões.
— Desculpe, é para a sua própria segurança. - Sharm olhou para as correntes presas ao teto, mas, não disse nada. – O que foi, está se rendendo?
— Não sou burro. Lá no fundo, eu já esperava por algo assim. - Sharm sorriu um pouco – Mas, confesso que tive um pouco de esperança também… de ser aceito.
— Não vou demorar, a maga outobrista já deve estar me esperando.
— Não se preocupe, se demorar muito, talvez você nem tenha que sujar as mãos.
Ouvir aquilo doeu mais do que Iehisa gostaria. Saiu dali o mais rápido que pode. Caminhou um pouco em volta do castelo em ruínas, tentando não pensar em toda a merda que tinha que fazer.
— Parece que a ajuda de que precisa não é algo tão bom assim. Olminu surpreendeu o velho Shimazu, que nem notou a presença da mulher ali. – Disse que se tratava de trazer vida e não tirá-la.
— O que, não confia em mim?
— Aliando-se aos Ends e ao Rei Negro, deixa eu ver… claro que não. Só vim pelo Toyohisa-san.
— Ends, eu nem mesmo sei direito o que é isso. Fui dado como morto pelo inimigo que bateu em retirada. Aproveitei a sorte para tentar achegar até minha aldeia, e avisá-los sobre o perigo e a força do oponente. Mas, quando sai a procura da minha esposa e de Toyohisa, acabei desviando no meio do caminho e cai em uma armadilha bizarra; uma porta que levava a outro mundo.
— Você também encontrou o misterioso homem de óculos.
— Não, o que eu encontrei foi uma garota muito bonita; parecia uma boneca. Expliquei minha situação, e quando falei sobre Toyohisa, ela disse que sabia do paradeiro do meu filho, que poderia me mandar até ele. É claro que eu aceitei na hora. Eu amo meu filho, mais do que tudo, jamais desperdiçaria uma chance de poder vê-lo, ao menos uma última vez.
— Mas, obviamente, esse favor não saiu de graça. Qual foi o preço?
— Que eu matasse os elfos. Fui instruído a destruir cada aldeia élfica e não deixar um único sobrevivente; nenhum mesmo. Ela disse que seria fácil, pois os elfos eram muito covardes e temiam humanos mais que tudo. Quando cheguei aqui, recebi informações de que Toyohisa havia entrado em uma guerra que nem era dele. E que, o motivo disso tudo, eram os elfos. Fui informado inclusive, que, em uma certa aldeia, havia um elfo que oferecia riscos a Toyohisa, e que, quando eu o encontrasse, eu saberia o por quê. Me disseram que se eu matasse todos os elfos, sem exceções, Toyohisa desistiria dessa ideia absurda de liderar o combate, e voltaria para casa comigo, são e salvo. Mas eu não sou burro, sei que ninguém sai de um confronto assim com tanta facilidade.
Assim que me aproximei da entrada da aldeia, dei de cara com duas criaturas muito estranhas. Apesar de serem apenas crianças, eu estava pronto para matá-los e cumprir a minha parte do acordo.
— Então, o que o fez mudar de ideia?
— Um nome, um simples nome. As crianças me olharam e me chamaram de Toyohisa-san. Elas ficaram assustadas dizendo que não tinha como eu ser o Toyohisa mas eu parecia ser. Apenas disse a verdade, disse que eu era seu pai e que estava a procura dele.
— Você os entendia?
— Sim. Me deram amuletos para falar com elfos e gigantes. As crianças ficaram felizes e me levaram até sua casa. Durante o caminho, me contaram toda a história de como conheceram meu filho e como ele salvou sua família. Foi quando… - Iehisa respirou fundo como se a lembrança o perturbasse – … descobri que o tal elfo que eu buscava, provavelmente, era um dos irmãos daquelas crianças. Eu sabia que ele teria informações sobre Toyohisa, porém, ele tinha muito mais que informações. Era o Sharm. Eu não sei quem levou um susto maior; eu quando vi um macho com a barriga daquele tamanho, ou ele, quando associou Toyohisa a mim. Acredito que deve ter levado muito mais tempo para eu entender que aquele elfo carregava um filho do Toyohisa na barriga, do que o elfo perceber que eu era seu pai. Foi ai que entendi porque me escolheram para eliminar aqueles elfos. Eles sabiam a vergonha e a indignação que a situação do Sharm traria a mim, como guerreiro, mas, também, que Toyohisa poderia quebrar se perdesse Sharm e o filho.
— O choque deve ter sido igual para os dois, até porque, Sharm não queria que Toyohisa soubesse do filho. Mas é claro que nós outobristas já sabíamos disso. Sharm sempre teve medo de envergonhar a honra de guerreiro que seu filho tanto venera. Sharm imaginou que Toyohisa não aceitaria a criança, por isso foi embora do acampamento, para se esconder. Toyohisa ficou sabendo do sumiço do Sharm ao mesmo tempo que também foi informado sobre a sua chegada a este mundo. Foi quando meu chefe revelou o verdadeiro motivo pelo qual você estaria aqui. O trabalho que o Rei Negro destinou a você; matar todos os elfos… incluindo, o Sharm.
— Então, ele está atrás de mim por causa do Sharm; o elfo era prioridade.
— Não diga isso. Você não viu o brilho nos olhos dele quando soube que o pai estava aqui, vivo. O triste, foi saber que você estava do outro lado, e que, ainda por cima, tinha a missão de destruir a única coisa boa que ele encontrou nesse mundo; o Sharm. Foi tudo demais pra ele. Espera, se você sabe sobre o Sharm, então, quando você falou sobre trazer uma nova vida, você se referia…
Iehisa abriu a porta onde haviam parado para conversar. Quando entrou no aposento escuro e isolado, a primeira coisa que Olminu ouviu, foi a respiração pesada e aflita de alguém que parecia sofrer.
Era Sharm. O elfo estava ajoelhado e algemado contra dois pilares de pedra. A barriga enorme do rapaz, deixava a cena ainda mais perturbadora.
— Não tive escolha, soube que elfas ficam muito fortes em trabalho de parto. Imaginei que um macho seria mil vezes pior.
— Não seja cínico, você só estava com medo dele tentar fugir.
— Bem, não se preocupem com isso, pois, nesse momento, eu não consigo nem mesmo voltar a me sentar direito. Iehisa foi até Sharm e o ajudou a se sentar de uma forma mais confortável. – Não vou tentar fugir, juro. - Iehisa soltou os pulsos de Sharm, parecendo bastante constrangido.
— Eu não sei como, nunca fiz um parto na vida. Não posso fazer isso.
— Se recusar a me ajudar, vou te amarrar aqui e fazer você assistir eu tentar, e acredite, tenho menos ideia que você da forma como se faz isso.
— Não sei fazer isso de uma forma natural, eu teria que usar magia. - Olminu se aproximou avaliando a situação de Sharm.
— Quê? Como assim de forma natural, você acha isso aqui natural, um homem em pleno trabalho de parto?
— Ele não é um homem comum, é um elfo.
— Não! - Sharm ficou furioso – Não vai usar magia em mim assim, pode ser muito perigoso.
— Fica quieto Sharm. Como acha que essa criança vai sair dai?
— Eu sei como, sou médico, esqueceram?
— Isso é a coisa mais assustadora que eu já vi na vida, e se puder mesmo ser feito de uma forma natural, vai ficar pior. Faz normal então, só anda logo. - Iehisa segurou Sharm por trás em seu colo, para impedir que o elfo se debatesse muito.
— Mas, ele vai sentir muita dor.
— E o que você acha que ele está sentindo agora? Faz ele apagar, sei lá.
— Ficou louco, não posso apagar durante o processo; a criança não sai.
— Que droga, então essa mulher não serviu pra nada.
— Olminu, você sabe o que fazer certo? - Sharm se ajeitou melhor, prendendo os braços entre os de Iehisa.
— Sim, talvez, mas eu estou com medo.
Olminu preparou tudo o que foi possível e começou a pressionar a barriga de Sharm. Iehisa nunca sofreu tanto para segurar um inimigo, como sofreu com Sharm. A força do elfo parecia surreal demais. Até pensou em acorrentá-lo novamente, mas, isso seria muito cruel em um momento como aquele. Acabou suportando toda a dor, sem reclamar. Olminu puxou algo e, finalmente, lá estava ele; o pequeno crânio do bebe. Olminu escutou um forte baque e Sharm quase tombou para trás. Era Iehisa indo ao chão, assim que viu a criança saindo.
— Realmente, ele tinha menos ideia de como se faz isso.
