Depois de meses de convencimento e longas conversas, quanto ao que seria de fato um crescimento saudável para as crianças, Narcissa se despediu dos familiares e seguiu para a França. Parte dela não estava convencida de que, aquele gesto, era o melhor a ser feito. Se sentia mal por estar traindo o seu melhor amigo, saindo da Londres mágica sem se despedir ou revelar para onde iria. Era horrível pensar em quantas vezes Severus a ajudou sem pedir nada em troca. Não tiraria a razão dele se jamais a perdoasse por aquele ato. Ao se estabelecer em Paris, numa das residências dos Black não registradas no Ministério, mandou uma carta para a família. Na missiva revelava como passara os primeiros dias, a adaptação dos pequenos, o quanto cada um fazia falta na sua vida e, principalmente, que se vira, pela primeira vez, sozinha no mundo.
Aos finais de semana, como prometido, os familiares e os padrinhos, com exceção de Severus, iam visita-la, levar as crianças para passear e, simplesmente, seguir em frente como se nada estivesse ocorrendo. Remus e Regulus, para que tivessem autorização de ir a casa, juraram para Andrômeda, sem entender os motivos, que não revelariam o seu endereço a quem quer que seja. Enquanto isso, o jovem mestre em Poções, investigava em todos os cantos para ter alguma notícia quanto a localização da amiga. Não entendia porque ela havia feito aquilo. Em todas as hipóteses levantadas, não via nada que justificasse aquele distanciamento e, em meio a essas ponderações, decidiu ir atrás de Andrômeda tentar receber qualquer informação. Já estava se aproximando o final do ano de 1983 e não recebera qualquer bilhete ou comunicado. Se sentia como uma cego seguindo por um caminho desconhecido...
Foi assim que chegou à mansão dos Lestrange, aguardando que ela, lhe dissesse qualquer coisa. Para a sua surpresa, quando tocou no assunto, a viu mudar a expressão e ficar séria. A conhecia o suficiente para saber que não lhe revelaria qualquer coisa, por mais que insistisse ou brigasse. Entretanto não desistiu em nenhum instante.
- Andrômeda, você sabe onde a Narcissa levou as crianças? – questionou a encarando. Já começava a perder completamente a paciência diante daquele silêncio.
- Sim, eu sei... foi ideia minha isso – respondeu tranquilamente.
- Como pode? – não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Ela era sua amiga, não podia tê-lo traído tão gravemente e nem ter o distanciado de quem mais amava.
- Ora, Severus... eu nunca pensei que o veria tão desorientado por conta de alguém. Pensei que fôssemos iguais e, creio eu, que você é inteligente para compreender que é melhor se manter afastado até que tudo seja esclarecido. Apenas a família sabe a localização da Cissa. O Lupin foi informado por conta de que ele está morando no Grimmauld com o Regulus. Não há nada de extraordinário – retribuiu o olhar sem se alterar em nenhum momento.
- É mesmo? Na sua percepção apurada das coisas, refletiu que eu, dificilmente, seria um escroto, intrometido... capaz de foder com a sua vida? – esbravejou e ela sorriu como se acabasse de ser elogiada.
- Não, querido! Eu presumi que você fosse sarcástico, rude, esperto e, principalmente, observador. Bem como, alguém muito próximo das definições de recluso, romanticamente sempre indisposto de um modo verdadeiro... contudo, amor, você errou ao dizer que eu fodi com você. Isso é hábito seu com as minhas irmãs! Felizmente, nunca houve nada entre nós - ele bufou o que a fez permanecer com um semblante vitorioso e prosseguir:
- Pelo o que eu lembro, quem se interessou por esse seu nariz, excessivamente grande, foram elas e... deve existir alguma falha genética, que não me atingiu, operando os neurônios delas para que tenham fetiches por alguém que pode servir de castiçal... visto que, se tentarem fixar uma vela em você, seu cabelo oleoso servirá de combustível - ao falar cada uma daquelas palavras, sabia que o atingiria e mudaria o seu foco na conversa. No entanto, o que recebeu de volta foi um olhar de decepção vindo dele.
- Sabe de uma coisa, Andrômeda? Você me parece muito encantadora para uma completa vadia cínica! - cuspiu aquela frase indignado.
- Pare com isso! Eu não vou repetir que foi o melhor a ser feito após a prisão do Sirius – o encarou sacudindo a cabeça em negação.
- Não sei como eu perco meu tempo ouvindo as suas supostas boas intenções e todo esse linguajar infernal. Sinceramente... você se julga muito comovente, compassiva, engraçada e florida ao tentar desviar o meu foco. Sinto te informar, não conseguiu dessa vez! Vejo que você é uma péssima amiga... uma ingrata que me destroça terrivelmente - gritou apontando para acusadoramente.
- Oh, meu menininho tão querido, não fique assim! - disse ironizando, tentando acalma-lo, o que o deixou mais revoltado.
- Porque não vai para Azkaban se esfregar, satisfatoriamente, com o porco do seu marido? Ou, quem sabe, pare de queimar o meu saco e agir como uma cobra psicopata que finge não me ouvir? Você é igual àquela cadela da Bellatrix quando se dedica a me torturar e mentir. Eu fico pasmo de como vocês acham que eu não preciso ter conhecimento do que está sucedendo ou seja incapaz de ajudar – seus olhos estavam em uma coloração negra extremamente perigosa em direção a ela. Estava tão bravo com aquela atitude que, naquele instante, sentia que a odiava profundamente.
- Severus, eu também te amo e, pela última vez, ninguém quis trair a sua confiança. Somente preferimos não revelar onde a Cissa foi com os filhos e alguém do Ministério pode estar atrás de você por ser ex-Comensal da Morte. Além disso, não quero que daqui uns anos, você se torture por se considerar alguém sujo. Espero, igualmente, que se recorde que a cadela, a qual se refere, será sua futura sogra e... espero, amor, que ela não o ataque como uma víbora – tentou se aproximar, mas, estranhamente, o viu recuar.
- Foda-de, Andrômeda! O Lupin sabe, até aquela mulher que alega ser minha mãe também estava ciente da partida, ninguém se prestou a me noticiar ou me deram a oportunidade de me despedir. Caso tenham esquecido, Cissa e eu sempre formos amigos, eu a considero como minha irmã e não pude conversar com ela... simplesmente, desapareceu da minha vida de uma hora para outra. Alegam que é para o meu bem e uma merda sanguinária de baboseiras infindáveis... por um segundo pensaram que estavam me roubando a única pessoa que se sente feliz ao meu ver? Agora graças à atitude de vocês, eu sou miserável novamente – aquelas frases continham toda a decepção que sentia e o quanto se ressentia de tudo aquilo.
- Sevie... quando estiver melhor, nós voltamos a conversar. Eu irei a sua casa... – tentou se reaproximar, sendo interrompida.
- Você pode ir àquela residência quando quiser e fazer o que bem entender, eu não me importo. Não vou mais estar morando com a Eileen, se quer saber. Antes de vir aqui, eu arrumei as minhas coisas e saí de lá. Quero deixar claro que virei aqui, todos os finais de semana, para buscar a Dora e levá-la comigo. Será esse o nosso contato daqui para frente – disse sem emoção se aproximando da porta para ir embora.
- Eu não entendo... - se mostrava confusa com aquela atitude.
- O que não compreende? Eu ia todos os finais de semana passar o dia com a minha mãe, esse era o meu acordo com Dumbledore. Depois disso, não vejo razão para continuar fazendo isso. Posso ficar em Hogwarts ou em qualquer lugar... simples assim - o seu semblante era vazio de qualquer afeto ou remorso.
- Por quê? – perguntou sem entender a dimensão do quanto o entristecera.
- Você não tinha o direito de me omitir isso. Eu sempre me senti responsável pelo Draco... eu sou o padrinho dele, o tenho como um filho e isso foi tirado de mim. Eu sempre confiei em você e fui ludibriado... vejo que me considera um nada. Nossa amizade termina aqui, adeus! – deu as costas e cruzou a porta sem olhar para trás.
Aquela noite, o bruxo não teve como pensar muito a respeito das coisas que ocorreram durante o dia. Tinha de aparatar e contar as notícias quanto aos últimos acontecimentos do mundo bruxo para que Voldemort permanecesse atento. Relatou, detalhadamente, os julgamentos, quem deletara os principais nomes entre os Comensais da Morte, quais foram os que negaram ou fugiram e, principalmente, como Delphine estava se desenvolvendo magicamente. Além dos passos de Dumbledore, dos Aurores responsáveis pelo aprisionamento de muitos e a entrega da Azkaban aos cuidados dos dementadores.
- Severus, meu amigo, quantas novidades boas! – sorriu o Lorde das Trevas o encarando.
- Milorde, sinto não ter mais para lhe dizer... – falou olhando para baixo.
- Sua lealdade será recompensada. É uma pena que não queira casar com o meu Agoureiro... eu me regozijaria de recebê-lo como um filho. Reconheço os seus méritos, depois de tanto esforço, para que eu me preserve forte e poderoso – argumentou com o olhar fixo no bruxo que permanecia ajoelhado.
- Me perdoe, senhor... sua fi... seu Agoureiro, deve merecer alguém mais digno – respondeu desinteressado.
- A menina Black, como ela está? – questionou com atenção aos gestos do outro.
- Eu não sei... – as suas palavras saiam com um som entorpecido.
- Como não? – perguntou ainda mais curioso.
- Narcissa viajou com os filhos e eu não faço ideia da sua localização.. ideia brilhante vinda da minha mãe juntamente com a Andrômeda. – retorquiu.
- Creio que, logo, a encontrará a sua amiga. Acredito que a nossa adorável Andrômeda, certamente, já desconfia que Delphine seja o Agoureiro... quando tiver a confirmação, acabará chamando a Narcissa para ajudá-la – disse fazendo um gesto com a mão para que Severus fosse embora e, assim, ele se retirou o mais rápido que pode.
Aquele ano se encerrara tristemente e, 1984, passou ao sabor do vento. Brigado com uma amiga e com a outra desaparecida, criou a sua máscara mais perfeita... poderia se esconder entre tantos artifícios, expressões impassíveis ou quase desumanas, guardando os seus reais sentimentos e pensamentos nos recantos mais ocultos da alma. A sensação de angustia, trazida pela saudade, era tão grande que não podia definir a dimensão daquelas sensações. Em outro lugar, a pequena Hermione começava, aos poucos, trilhar os caminhos do mundo. Vasculhando cada detalhe, retirando cada pedra ou obstáculo, com a sua curiosidade infantil e a sua crescente sabedoria. Ela tinha fé que todos os rumos a levariam até onde se encontrava o seu coração.
