Capítulo Quatorze

Aches and Pains

(Sofrimentos e Dores)

— Vocês, garotos — disse Granger a Draco —, se não é um na Ala Hospitalar, é o outro! — Ainda que suas palavras fossem exasperadas, seu tom era preocupado, e Wormtail conseguia sentir o cheiro de sua preocupação. Ela se mexeu (provavelmente ajustando a mochila) e ele engoliu um guincho quando um livro pesado o pressionou. O movimento também fez o cheiro do sanduíche de Granger se espalhar pela mochila. Estava a poucos centímetros dele, e ele tivera que desistir do próprio almoço para ter essa carona. Wormtail suspirou.

— Bom, Potter nunca foi de ficar pra trás — disse Draco, mas seu tom também era preocupado. Wormtail se colocou numa posição mais confortável; não era algo fácil de se fazer, já que a mochila de Granger estava cheia. — Deve estar preocupado que eu vou ficar no lugar dele como o favorito da Madame Pomfrey e que vou virar o paciente mais frequente.

— E como estão suas dores de cabeça? — Granger desfez todo o trabalho de Wormtail ao voltar a ajeitar a mochila. A ponta de Esclarecendo o Futuro cutucava desconfortavelmente a lateral de seu corpo.

— Nem melhor, nem pior — respondeu Draco. Granger diminuiu a velocidade, e Wormtail ouviu Draco parar completamente. — Mandachuva. Honestamente, só queria que a Madame Pomfrey se apressasse e descobrisse a causa, ou na próxima vez nem vou procurá-la; vou usar a lareira de Severus e ir ao St. Mungos.

Wormtail fez uma careta de dor ao bater em algo duro; apesar de não chegar a chamá-la de desajeitada, parecia que Granger não era uma pessoa particularmente graciosa. Teria o corpo todo coberto de hematomas para provar, tinha certeza. Ouviu o retrato da Mulher Gorda se fechar atrás deles.

O Salão Comunal parecia estar quase vazio; a maioria dos alunos estaria almoçando no Salão Principal, com exceção do amontado de alunos mais velhos que Wormtail ouvia conversarem do outro lado do Salão. Eles provavelmente tinham levado seu almoço até ali, como Granger e Draco. Wormtail voltou a cheirar o sanduíche de Granger, esperançoso, mas controlou-se.

Aí, algo bateu na lateral da mochila com uma velocidade considerável.

— Bichento! — exclamou Granger, e a mochila foi balançada desenfreadamente. Wormtail conseguia ouvir um sibilo, algo arranhando a mochila e um coração.

A Fera.

Seu próprio coração estava disparado. A mochila balançou mais uma vez, e o tinteiro de Granger caiu em sua cabeça. Wormtail começava a se perguntar se ia sair dali vivo; se a fera não o matasse, o conteúdo da mochila de Granger mataria.

— Saia... Bichento, não... — dizia Granger e a mochila foi pressionada; Wormtail achou que ela a segurava em seus braços.

— Venha aqui, seu monstrengo peludo — disse Draco e ele provavelmente arrastou a fera para longe de Granger, porque seu miado patético parecia vir de longe.

— Ele deve querer meu sanduíche — falou Granger. Wormtail conseguia ouvir a desaprovação em sua voz. — Mas não sei por que; ele tomou um café da manhã generoso...

— Então coma — disse Draco — e ele vai desistir. — A fera uivou, mas Wormtail (seguro nos braços de Granger) não foi descoberto. Uma poltrona gemeu quando alguém, supôs ser Draco, afundou-se nela, mas Wormtail não conseguia sentir Granger se mexer. Ela acabou o fazendo, mas era longe dos sons que vinham de Draco (sua respiração, seu pulso, sua mastigação, o farfalhar de um pergaminho). — Achei que íamos estudar Runas Antigas?

— Ah, sim — disse Granger. — Eu só preciso... banheiro... sabe... Já volto.

— Com sua mochila? — perguntou Draco. A mochila se mexeu; Wormtail assumiu que ela deu de ombros.

Aí, ela começou a andar, diminuindo a velocidade com um "não, Bichento, fica aqui, volto já". A fera uivou de novo, mas Wormtail não a ouviu segui-los e soltou um suspiro de alívio.

Ele foi balançado na mochila quando Granger subiu as escadas para o que ele achou ser o dormitório das garotas. Ouviu o som da porta ser aberta e ficou tenso por um momento, quando ouviu um terceiro coração pulsar e um fungar baixinho. Parecia que uma das colegas de Granger estava no quarto, e Wormtail a ouviu ofegar; depois, nada. O batimento do coração da garota era muito alto, mas ela parecia prender a respiração.

Era óbvio que Granger também notou a garota, porque ela parou de se mover e seu cheiro ia de choque, para preocupação, para... medo? Mas ela não falou com a outra garota, nem foi até ela ou... bem, nem a reconheceu, até onde Wormtail sabia. Admitia não conhecer Granger particularmente bem, mas achava que esse era um comportamento estranho; ela sempre lhe parecera intrometida.

Depois de um segundo de hesitação, Granger se virou e continuou, assumiu que em direção ao banheiro... Sim, era o banheiro; tinha o distinto cheio de sabonete, água e perfume. E ou Granger era excêntrica, ou ela tinha esquecido que segurava a mochila.

Ouviu a porta ser fechada, mas não trancada, e aí Granger respirou fundo. A mochila continuou parada; pelo que conseguia deduzir, ela estava parada no meio do banheiro. Excentricidade era cada mais provável. Numerologia e Gramática caiu em cima de Wormtail quando Granger se mexeu um pouco, roubando-lhe o ar. Algo de metal tiniu ali perto.

Granger murmurou algo que Wormtail não ouviu direito — ele ainda se recuperava do ataque do livro — e, aí, o mundo se moveu.

Seu primeiro pensamento foi que, de algum modo, ela estava Aparatando, mas só os elfos domésticos conseguiam fazer isso dentro de Hogwarts e a sensação não era bem a mesma; não apertava tanto, era mais uma... torção? Rotação? Algo. Até o fim, pelo menos, quando Wormtail foi jogado fortemente na lateral da mochila, e Granger puxou o ar.

Então, o mundo voltou a se mover, só que dessa vez Wormtail conhecia a sensação; ele caía. Fugiu sem se importar se Granger o veria, porque se estivesse sob os livros quando chegasse ao chão, seria morto. Não teve muito sucesso; sua cabeça e corpo estavam um pouco surrados e machucados, mas bem, porém o livro tinha pousado em sua cauda e nas patas de trás. Temeu ter quebrado um dedo — ou até dois — e sua cauda latejava.

Achou ter guinchado, mas não que Granger o ouvira; parecia que ela tinha caído junto com a mochila, porque parecia que ela estava bem ao seu lado. Ela ofegava — ou soluçava, não sabia —, e Wormtail sentiu o cheiro de sangue, e não era pouco. Perguntou-se o que, em nome de Merlin, ela estivera tentando fazer para causar isso tudo.

Pareceu que ficou sentado lá por horas, pesando suas opções, apesar de saber que tinha sido apenas um minuto. Nenhuma opção era ideal; podia sair da mochila mortífera de Granger e torcer para que houvesse uma toalha ou agasalho caídos sob o qual se esconder até que Granger fosse embora. Depois, podia tentar a sorte com as escadas e com a Fera. Ou podia ficar na mochila e esperar que Granger o levasse de volta ao Salão Comunal, de onde seria muito mais fácil ser levado ao dormitório de Harry para procurar pela Capa.

Tinha acabado de decidir que arriscaria a porta aberta do banheiro quando Granger — que tinha ficado imóvel e em silêncio, exceto pela respiração pesada — se mexeu. Wormtail congelou.

Ele a ouviu se levantar, fungar e dizer scourgify. O cheiro de sangue diminuiu um pouco, mas não sumiu completamente. Ouviu-a se mover — não sabia exatamente o que ela fazia, mas supôs que ela estava se livrando das evidências de seja lá o que estivera fazendo — e então, com mais uma fungada e um som de dor, os passos de Granger foram em direção à porta do banheiro.

A porta foi aberta e ele a ouviu sair, ouviu seus passos no carpete do dormitório e ouviu aquela porta ser aberta. Tinha acabado de colocar o nariz para fora da mochila quando a ouviu xingar e viu seus sapatos correrem em sua direção.

Voltou a se esconder quando ela pendurou a mochila no ombro e, então, ela se apressava para sair novamente. Felizmente, ele estava em cima dos livros dessa vez, mas seus movimentos ainda o faziam ser jogado de um lado para o outro e não era particularmente confortável. Sua cauda tinha parado de latejar e estava dormente, e ele não sabia se isso era algo bom ou não.

Granger continuou a fungar ao descer as escadas e não disse nada a Draco ou à Fera no Salão Comunal — Wormtail também não conseguia ouvi-los, então talvez eles tivessem ido embora? Ela não diminuiu a velocidade ao ir para o retrato.

Sabendo que era agora ou nunca, Wormtail subiu pela lateral da mochila e se jogou da abertura. Pousou no carpete fofo e não perdeu tempo antes de correr para se esconder sob uma poltrona, apesar dos protestos de seus dedos quebrados. Granger não percebeu; de fato, ele ouviu um último soluço antes do retrato se fechar atrás dela.

Estivera certo ao pensar que Draco e a Fera tinham ido embora. Na verdade, não havia ninguém no Salão Comunal; até os alunos mais velhos tinham ido embora, apesar de só terem se passado alguns minutos. Mas Wormtail não ia reclamar por algo finalmente dar certo.

Espiou debaixo da poltrona, mas não havia nenhuma pata laranja enorme à vista e, por isso, saiu de seu esconderijo e correu — o mais rápido que seu pé machucado permitiu — até as escadas dos dormitórios masculinos. Alguns dias antes, Perebas tinha dito que fazia um tempo que não via a Capa, mas Wormtail rezou para que isso só significasse que Harry não a estivera usando e que ela ainda estaria no dormitório.

Odiaria muito se sua experiência com a mochila mortífera tivesse sido em vão.

-x-

— Fez muito bem em pressionar uma toalha — disse Madame Pomfrey com aprovação. Hermione se sentia muito zonza e cansada, por isso não fez nada além de assentir. — Você perdeu bastante sangue.

Hermione fez uma careta de dor quando Madame Pomfrey cortou as camadas das suas vestes, suéter e camisa com um feitiço. Apesar de não ser impressionável, estava certa de que perdera uma parte da clavícula e do ombro e, honestamente, não precisava ver. Felizmente, Madame Pomfrey lhe dera algo para a dor tão logo a vira, então também não precisava sentir completamente. Suspeitava que a poção tinha sido misturada a algo para acalmá-la; estivera em uma péssima condição quando chegara.

— E disse que foi seu Vira-Tempo que fez isso? — Hermione olhou ao redor para ver se alguém tinha ouvido (mais por costume), mas a Ala Hospitalar estava vazia. Assentiu. Madame Pomfrey crispou os lábios, e Hermione soube exatamente o que ela pensava sobre alunos do terceiro ano receberem aparelhos mágicos experimentais, mas ela não disse nada além de: — Para mim, parece mais que você se Estrunchou... Sabe o que é isso? — Sabia; tinha sido Ron a lhe explicar a frase "chegou inteira" depois de ter sido Aparatada por Sirius e Harry ao casamento dos Lupin.

— Mas isso não vale só pra Aparatação? — perguntou. Madame Pomfrey colocou uma taça com uma poção grossa e vermelha em suas mãos, e Hermione a bebeu sem questionar. O gosto não era muito bom (de algum modo, doce e amargamente metálico ao mesmo tempo), mas se sentiu um pouco melhor.

— Sim, mas talvez não seja exclusivo; a viagem no tempo não é uma área muito estudada nem documentada ainda. Talvez isso seja normal.

— Mas isso nunca aconteceu — comentou, usando a mão boa para brincar com a corrente em seu pescoço.

— E você não fez nada de diferente? — Hermione balançou a cabeça. — Seus cálculos estavam corretos? — Assentiu. — Você não tentou voltar tempo demais? Ou ir para o futuro? Não levou ninguém com você?

— Não, só minha mochila — disse Hermione. — E isso não é incomum. — Madame Pomfrey lhe ofereceu outra poção. Hermione tomou um gole e quase o cuspiu.

— Esquelesce não é popular — disse ela, irônica —, mas garanto que vai ajudar. — Hermione fechou o nariz com os dedos e tentou beber o mais rápido possível e aceitou, grata, o copo de água que foi oferecido depois. Uma terceira poção apareceu sob seu nariz, e Hermione suspirou. — Essa aqui é para te ajudar a dormir enquanto eu curo isso... — Usou a varinha para indicar o ombro de Hermione. — A não ser que prefira estar acordada enquanto eu te curo?

— Aí eu vou perder Aritmancia — falou, balançando a cabeça.

— Acordada ou dormindo, você não vai para aula — informou a enfermeira. — Nem para qualquer outra aula; você vai precisar descansar depois que eu terminar.

Hermione já estivera na Ala Hospitalar vezes o bastante — normalmente com Harry ou Draco — para saber que não adiantaria discutir.

— Só se você escrever um bilhete para os professores... — Madame Pomfrey acenou uma mão, concordando, e voltou a oferecer a poção. — E o descanso terá de ser no Salão Comunal — falou.

— Irá descansar aqui — disse Madame Pomfrey. — Pelo menos até o horário do jantar, mas é possível que precise passar a noite. — Se fosse honesta consigo mesma, parecia maravilhoso; podia fazer um pouco do dever de casa, mas suspeitava que Madame Pomfrey a faria descansar corretamente. Seria a primeira vez que teria a chance no semestre. Mas não podia.

— Não vai dar — falou. Madame Pomfrey só ergueu uma sobrancelha. — Eu não deveria te contar o futuro... mas se eu ficar aqui, vou dar de cara comigo mesma e... Não posso, dizem que as pessoas enlouqueceram...

— Muito bem, senhorita Granger — falou Madame Pomfrey por fim. — Eu te acordo em uma hora. Mas se quiser ir embora a tempo, terá de beber agora. — Hermione obedeceu.

— Obrigada — disse. Madame Pomfrey voltou a balançar a mão. Hermione tentou não pensar muito sobre a pressão estranha em seu ombro. Suas pálpebras estavam pesadas.

— Então, eu me atrevo a perguntar: será o Malfoy ou o Potter que verei à tarde?

— Os dois. — Supôs que isso não dava muitos detalhes. Bocejou. — E Ron.

Madame Pomfrey disse mais alguma coisa, mas Hermione já adormecera.

-x-

Draco foi sozinho para a aula de Poções, já que Granger não voltara da sua visita ao banheiro e — apesar de ter ficado no Salão Comunal o tempo todo e não ter visto ela passar — ficou surpreso por não a encontrar na sala.

Mas Potter e Weasley já tinham chegado; Potter piscava bastante, e seus olhos estavam um pouco desfocados e sonolentos. Ele estivera dormindo quando ele e Granger tinham ido visitá-lo na Ala Hospitalar depois da aula de Adivinhação, então essa devia ser a explicação, mas parecia que ele não estava sonolento o bastante para deixar de notar o fato de que o quarto membro do grupo não estava ali.

— Onde está Hermione? — perguntou Weasley, franzindo o cenho.

— Sabe tanto quanto eu — falou Draco, dando de ombros. — Ela foi usar o banheiro do quarto e não voltou. — Ninguém estivera por perto a quem pudesse pedir para ver como ela estava, e Draco acabara tentando subir por si mesmo, mas acabou num amontoado humilhante no chão do Salão Comunal. Felizmente, ninguém estivera lá para ver, além do gato de Granger. — No fim, eu precisei vir sem ela.

— Ela vai acabar aparecendo — disse Weasley, olhando para a porta como se esperasse que ela entrasse. — Conhecendo Hermione.

Mas Granger não apareceu, e Severus não comentou sua ausência. Draco trocou olhares inquietos com os outros dois; algo muito sério devia ter acontecido para Granger faltar à aula.

— Hoje — disse Severus, acenando a varinha para a lousa —, vamos preparar uma Solução de Encolhimento. Vocês irão trabalhar sozinhos; as instruções estão na lousa e o que não encontrarem em seus kits, encontrarão na despensa, como sempre. Se não tiverem perguntas, podem começar e tentem terminar faltando dez minutos para o fim da aula. Posso querer testar seu trabalho. — Draco gostava de seu padrinho, mas tinha de admitir que o sorriso que ele deu à turma nesse momento foi bastante desagradável. Longbottom soltou um som triste e baixo.

Pegando um punhado de lagartas e sua faca, Draco começou a trabalhar.

Depois de vinte minutos, as coisas iam bem; a poção de Draco estava púrpura, como deveria nesse estágio, à sua esquerda, Weasley e Finnigan discutiam se os Figos Cáusticos de Ron estavam prontos, e Potter tinha descascado mais figos do que necessário, mas sua poção ainda tinha um tom apropriado de amarelo. Ele apertava os olhos para seu kit, parecendo ter problemas com as etiquetas dos frascos, mas Weasley se inclinou para ajudá-lo enquanto Draco observava, e aí Severus apareceu e tirou pontos de Potter por não saber ler.

Atrás dele, Longbottom fora forçado a desistir da ajuda de Granger, já que ela não estava lá, e Thomas parecia ter assumido a tarefa de ajudá-lo a não cometer erros.

Draco pegava os baços de rato quando aconteceu. Ele já tivera dores de cabeça o bastante para saber que elas começaram com uma pontada forte entre seus olhos, e hoje não foi diferente. Ela veio gentilmente — tão gentil quanto uma pontada podia ser —, primeiro apenas uma pressão, e aí aumentou.

Não, pensou Draco, irritado. Hoje não. Com o estranho episódio de Potter em Adivinhação, o sumiço de Granger e uma noite em que planejava terminar sua próxima carta para o pai sobre o Hipogrifo, Draco achou já ter o bastante com que se preocupar. A estaca — que era como imaginava — empurrou com um pouco mais de força, e Draco empurrou de volta. Quando começou a achar que não conseguiria mais empurrar, a estaca sumiu.

Isso também não era particularmente confortável, mas Draco não estava com dor de cabeça.

— Muito bem — disse Severus, passando por ele em seu caminho para responder a dúvida de Zabini. Draco o olhou, inexpressivo. Ele...? — Está da cor que deve estar — adicionou, usando a mão para indicar o caldeirão de Draco.

Ah. Ele era um idiota. Draco assentiu para aceitar o elogio — que eram raros em Poções, mesmo para ele — e adicionou os baços de rato.

A dor de cabeça ainda não tinha reaparecido, o que Draco achou ser um milagre. Mas o que tinha feito...? Como tinha feito a dor de cabeça ir embora? E se conseguia fazê-la ir só empurrando, então o que a causava?

-x-

Ron tinha acabado de se acomodar em sua poltrona favorita no Salão Comunal quando Ginny se aproximou com Bichento nos braços.

— Ela está lá em cima — disse ela; Ron tinha pedido que ela procurasse Hermione, que não aparecera depois de Poções nem fora jantar.

— Eu podia ter te dito. — Harry apareceu no pé das escadas do dormitório masculino, com um pergaminho conhecido na mão. Na outra, ele segurava o espelho. — Lavender e Parvati também estão lá.

— Parvati quer tomar banho — falou Ginny. — Mas Hermione se trancou no banheiro e não quer sair. — Ron trocou um olhar surpreso com Malfoy e Harry, mas enquanto Malfoy parecia preocupado, Harry só franziu o cenho.

— Você e Hermione não foram até nosso quarto no almoço, né? — perguntou Harry, olhando para Malfoy, que balançou a cabeça. — Huh.

— Por quê?

— Eu... — Ron conhecia Harry o bastante para saber quando ele estava sendo evasivo, o que estava acontecendo agora. — Só achei que podiam ter ido.

— Bem, não fomos — falou Malfoy. — Nenhum de nós. — Harry não pareceu satisfeito, mas não insistiu.

— Tentou conversar com ela? — perguntou Ron.

— Você só pediu pra ver se ela estava lá — falou Ginny, erguendo uma sobrancelha. Ela ficou menos de um segundo em silêncio, antes de brigar: — É claro que sim! — Pausou e disse, cautelosa: — Ela disse para não nos preocuparmos...

— Mas está preocupada — falou Harry, olhando-a. Ron olhou para sua irmã e a viu assentir.

Ginny mordeu o lábio, parecendo culpada. Era uma expressão que Ron conhecia bem. Por ser a irmã mais nova, ela não costumava levar a culpa por muita coisa, mas essa era a expressão que ela usava sempre que levava a culpa.

— Ela parecia... chateada. Acho que ela esteve chorando. — Ron olhou para Harry, que parecia preocupado. — Não conte pra ela que eu disse...

— Seu segredo está seguro, Garota-Weasley — garantiu Malfoy. Ele também olhou para Harry. — E agora?

— Você pode subir — sugeriu Ginny. Ela olhava para Ron com inocência, mas tinha um brilho maldoso nos olhos. Harry, o traidor, claramente sabia do que ela falava e também sorria.

— Cala a boca, Ginny — murmurou Ron. Conseguia sentir as orelhas esquentarem.

— Sim — disse Malfoy de um jeito parecido —, não vamos fazer isso. — Os três se viraram para olhá-lo e, curiosamente, suas bochechas estavam rosadas.

— Teve sua experiência com as escadas, foi, Draco? — perguntou Ginny, sorrindo.

— Não — disse ele.

— Mentiroso — respondeu Harry. Ele sorria tanto que seu rosto quase se partia.

— Quando? — perguntou Ron. Achou que seu tom era um pouco mais compreensível; ele, afinal, tinha tido sua própria experiência.

Malfoy hesitou; era claro que ele considerava não responder.

Mas, por fim, ele suspirou ao ver suas expressões ansiosas — os sorrisinhos de Harry e Ginny, a careta de Ron — e disse:

— Antes de Poções. Quando Granger não desceu...

Em vez de rir, os três se acalmaram com o lembrete.

— Acha que conseguiríamos subir se formos voando? — perguntou Harry, inclinando a cabeça.

— Você não conseguiria, está quase cego — lembrou Ron, e Harry fez uma careta. Madame Pomfrey tinha dito que ele melhoraria gradualmente até a manhã, quando estaria completamente recuperado, mas ainda faltavam várias horas. Apesar de ele estar se virando incrivelmente bem, colocá-lo em uma vassoura não parecia a melhor das ideias. — Mas acho que quem enfeitiçou as escadas deve ter pensado nisso.

— Podemos mandar uma mensagem com o gato — sugeriu Malfoy.

— Mas ela teria de abrir a porta para fazer isso — disse Ron. O rosto de Malfoy se abateu. Mas Harry parecia surpreso. — O quê?

— Acho — disse ele, franzindo o cenho pensativamente — que tenho uma ideia.

Continua.

N/T: Obrigada pelos comentários! :)

Qual será a solução que o Harry achou?

Até semana que vem!