Nova Orleans, 17 de setembro de 1999.

Nunca imaginei que o pior de meus pesadelos se daria quando eu abrisse meus olhos de verdade, mas o destino se mostrou sujo, trapaceiro, totalmente baixo, ou será que eu devia nomeá-lo Fred Jones?

Ao acordar, localizei e peguei o papel no criado-mudo, descobrindo o que já sabia: Fred me amava havia muito tempo e mesmo assim conseguira viver sem mim por mais tempo ainda, porém, não poderia viver um segundo sequer com o peso de uma morte na cabeça.

Troquei de roupa sem tomar banho e deixei o meu quarto, correndo para o de Velma. Bati à porta dela freneticamente e ela atendeu-me sem óculos e ainda de pijamas, perguntando retoricamente:

— Aconteceu alguma coisa?

— Fred sumiu. Ele vai fazer alguma idiotice.

Ela piscou e virou-se para verificar um relógio na parede.

— Ainda são dez da manhã. Sabe quantas horas exatamente ele deixou o quarto?

— Não. Droga! Pode ter sido há alguns minutos ou há horas!

— Então se acalme. Pode ser muito cedo para concluir algo tão drástico.

Saquei o bilhete amassado de meu bolso e enfiei nas mãos dela.

— E também pode ser muito tarde. Faz ideia do quanto isto é excêntrico? Fred é um insensível quando quer, pois jamais me escreveu nada, nem mesmo quando ficou longe por meses naquele bendito acampamento de verão. Eu só reconheci a letra dele porque já o vi assinar coisas.

Velma suspirou.

— Tudo indica que ele vai mesmo se meter em problemas, se é que já não se meteu, mas ainda acho que é cedo para o desespero.

— Pelo tom do bilhete, ele pode ter ido já para a Ilha Moonscar! Como quer que eu não me desespere?

Ela ergueu as mãos e anuiu.

— Vamos eliminar algumas hipóteses antes. Espera-me tomar um banho?

Apesar de tudo, senti vergonha de não ter tomado também um banho e desviei o olhar.

— Claro, claro. Eu... vou esperá-la no meu quarto, certo?

— Certo. Eu estarei lá assim que me aprontar.

Voltei ao meu quarto e tomei o meu banho, desejando que Velma não notasse meu desleixo. Após vestir novas roupas mais uma vez, escovei meus cabelos diante do espelho e lembrei porque odiava atividades mecânicas: como raramente precisávamos pensar durante estas, nossa mente escapava à nossa vontade, divagando por lugares quase sempre inúteis e, às vezes, prejudiciais.

Não sei se nos separar havia feito parte da estratégia das criaturas-gato naquela noite de setembro, mas assim aconteceu, e eu não posso imaginar outra maneira de prejudicar mais efetivamente um grupo. Atualmente, estávamos separados de novo, também por um aparente livre-arbítrio de um de nós, contudo, eu não descartaria a influência insidiosa de alguém por baixo dos panos.

Só depois de nos separarmos na Ilha Moonscar, Salsicha e Scooby encontraram os zumbis, eu e Fred decapitamos uma vítima das criaturas-gato, Velma quase caiu em areia movediça, fomos suspensos em pleno ar por magia e deixamo-nos cair em uma armadilha.

Se eu fosse uma criatura-gato, sem dúvidas o mal em mim teria adicionado propositalmente cada detalhe naquela noite. Alguns animais ficam simplesmente famintos, mas outros parecem sádicos, gostando de se demorarem na caçada para temperar a presa com ansiedade; suponho que o elemento humano restante em Lena, Simone e Jacques seria capaz de deixá-los desse modo, assim, haveria uma beleza bem maior na revitalização anual mediante a criação de expectativas durante uma brincadeira coletiva do que no moroso recolhimento das vítimas na hora certa pelas maravilhas do voodoo. Por que eles temeriam arriscar? Tinham os bonecos garantindo nossa prisão e a superioridade física caso os primeiros falhassem. Ora, Lena gabara-se de capturas passadas; nada impedia que ela fizesse aquilo junto dos cúmplices após toda lua de equinócio de outono.

De repente, eu senti muito calor, então tentei levantar-me para ir até a varanda e respirar melhor o ar, mas notei uma estranheza em todo o meu corpo, como se ele já não me pertencesse ou como se eu não estivesse inserida em uma realidade concreta onde algo ordinário como o movimento fosse permitido; descobrir-me naquela situação irreal poderia ser maravilhoso ou muito pior, pois ninguém controlava a irrealidade, ninguém controlava os próprios pesadelos, se não estes nem ocorreriam; nos pesadelos, perdia-se toda a capacidade de lutar, tanto contra as circunstâncias quanto contra si mesmo, ou seja, eu não poderia mais me impedir de enlouquecer nem de morrer e deixar os outros morrerem. Não que eu fosse capaz de fazer tanta diferença. Na selvageria da Ilha Moonscar, a astúcia constantemente era inferior à força animal. Eu não poderia ter, por exemplo, puxado Velma da areia movediça se ela houvesse caído, não poderia ter lutado contra vários zumbis se eles de fato representassem uma ameaça, jamais poderia ter libertado Fred e Velma e Beau do feitiço voodoo. Se tudo dependesse só de mim, Velma teria morrido asfixiada, seu corpo para sempre perdido, talvez junto de outros corpos que não podiam ressurgir conforme a maldição graças à resistência natural sobre eles. Se tudo dependesse só de mim, Fred teria sido soterrado e comido por zumbis, pedacinho por pedacinho, mas eu felizmente não veria seu último suspiro, pois morreria primeiro, já que tenho menos carne. Se tudo dependesse dó de mim, Fred e Beau e Velma murchariam e estariam sujeitos à mesma degradação de perderem a cabeça para céticos imbecis que caíssem na rede de Lena pelos próximos séculos. Só dependera de mim totalmente levar meus amigos para aquele inferno; isso eu pude fazer muito bem.

Eu não sabia como lidar com aquela crise, pois nunca tivera uma com tal combinação de sintomas. Escutava batidas em minha porta há vários minutos, mas não podia atendê-las nem as dispensar verbalmente.

Não sei em quanto tempo reuni coragem para desbravar a escuridão ao meu redor e apressar-me na direção da porta, agarrando a maçaneta e a chave, torcendo-as e puxando Velma contra mim antes mesmo de observá-la.

— Eles fizeram de novo. Estão nos dispersando, nos separando...

Velma me manteve afastada enquanto examinava o quarto para ver se havia mais alguém ali e depois abraçou-me, estapeando de leve minhas costas.

— Você está vendo coisas que já passaram, Daphne.

Pensei nela com o rosto distorcido pela asfixia e tentei soltar-me, virar-me, mas ela só me segurou com mais força, continuando a falar.

— Não precisa pensar em nada disso. Fred só deve ter saído para mais uma busca pelo parque. A alteração evidenciada pelo bilhete pode ter se dado porque todos fomos afetados pelo desaparecimento de Fitzgerald. Ele pode estar começando a voltar à razão. Nossa, quanta irresponsabilidade...

— Eu mereço o que ele fez. Eu mereço o que você fez. Sorte que Salsicha e Scooby não têm um pingo de malícia, ou eu teria mais dois carmas esperando para me pegarem.

— Só eu sou responsável pelas minhas ações. Ninguém me obrigou a acompanhá-la até a Ilha Moonscar nem a negligenciá-la por meses. De todo jeito, não acho que esteja em condições de sair do hotel hoje. Eu procurarei Fred com Salsicha e Scooby.

— É tentador, acredite, mas se você mesma diz que eu só estou vendo coisas que já passaram, não há porque não sair daqui. Além disso, quero esmurrar meu noivo eu mesma quando encontrá-lo.

— E então iremos para Ohio?

— E então iremos para Ohio.

Revigorei-me um pouco falando em tom fútil e inconsequente. Não importava quantos anos houvessem passado: amiga nenhuma merecia aguentar lágrimas e tremores de alguém tão diferente, alguém que não dependia exclusivamente de fatos e deixava-se governar por intuições que já não sabia se provinham da natureza ou da ilusão.

Perdemos quase duas horas enquanto eu sofria e me recompunha. O lado positivo era a possibilidade de Fred voltar por conta própria ao hotel para almoçar, assim, esperamos alguns minutos no restaurante, o que não nos rendeu resultados, então paramos de perder tempo e fomos até o estacionamento. O nosso carro alugado estava lá, o que piorou o bolo em minha garganta.

Falsifiquei um otimismo tosco:

— Pelo menos não vamos nos atrasar caminhando nem ponderando se ele foi muito longe.

Algo incomodou Velma, mas ela não falou, disfarçando o rosto solene e assentindo de um jeito neutro. Apesar disso, analista de todas as possibilidades racionais como Velma era, eu já sabia que ela estava pensando que Fred não precisaria de um carro se houvesse sido levado como Fitzgerald.

Salsicha e Scooby estavam devorando o almoço na cantina do parque quando demos as notícias e perguntas por novidades. Ambos olharam por cima dos ombros, recolheram as lancheiras e foram para os fundos sinalizando para os seguirmos, em nenhum momento parando de levar as colheres às bocas, então foi difícil sentir-me mais intimidada quando Salsicha falou de boca cheia:

— Isso está saindo do controle de qualquer um. Se até Fred desapareceu agora, não há chance de nós termos algum sucesso.

Perguntei:

— Então não o viu?

— Não.

Velma tocou no braço trêmulo de Salsicha como me tocara mais cedo:

— Acalme-se você também.

Salsicha sacudiu a cabeça.

— Nunca aconteceu de Fred ir em uma busca sem ninguém. Ele não é idiota e sabe que estamos lidando com algo muito maior que algum de nós, por mais fortinho que seja.

— O desaparecimento de Fitzgerald lançou uma nova luz sobre a situação. Ainda acredita em algo de sobrenatural neste caso?

Salsicha terminou de comer em um acesso de nervosismo e largou a lancheira.

— Você pergunta a mim? Sei lá. Só tenho certeza do perigo e do meu mau-pressentimento.

— Quanto a quê?

— Eu não pensei bem sobre isso, mas... É nossa proximidade da ilha, acho, e também como alguns pontos daqui parecem com uns de lá. Além disso... eu entendo a suspeita de Fred sobre certas pessoas.

Todos olhamos ao redor antes de prosseguirmos.

— Não posso negar que Ariel é suspeito por aquela atitude antes de irmos à casa de Fitzgerald, embora eu preferisse chegar o histórico de Fitzgerald antes de apontar o dedo. De qualquer jeito, não nos envolvemos em crimes ordinários, estão acima de nós. A polícia já está envolvida.

Scooby revelou:

— A polícia esteve aqui.

— Foi mesmo?

Ele assentiu, e Salsicha complementou:

— Há pouco tempo. Se tivessem feito nada teria sido muito.

— Se eles estão tendo dificuldades, imagine nós. O essencial é já termos dado todas as informações necessárias para ajudá-los. Como Ariel reagiu?

— Ficou normal, ficou frio – Salsicha cerrou os dentes e passou a sussurrar: – Depois do jeito como ele falou de precisar rezar para se comunicar com Fitzgerald, nem consigo mais olhar direto nos olhos dele.

Estabelecemos por unanimidade que, se Fred saíra por conta própria, fora em busca de Ariel, então decidimos observar o novo mandachuva no Parque Dreyfus. Perdemos tempo, pois ele se limitou a fazer as tarefas diárias pelas três horas em que o assistimos e não tivemos nem sinal de Fred atrás de árvores, arbustos ou mesas.

Pensamos que, na melhor das hipóteses, Fred terminara fosse o que fosse e voltara ao hotel, daí retornamos também. Após uma ida frustrada aos quartos, perguntei explicitamente por ele na recepção enquanto um empregado bisbilhoteiro me escutava. O homem esperou que nos afastássemos da outra empregada e seguiu-nos até o elevador. Quando estávamos todos dentro, ele riu e perguntou:

— Já é hora da festinha?

Ficamos confusos e eu o questionei:

— Como?

— Vocês estão com aquele moço loiro, não é?

— Estamos! Você o viu?

Ele hesitou.

— Algum de vocês também faz aniversário hoje?

— Ninguém, nem mesmo Fred.

O homem relaxou.

— Então posso assumir sem medo de arruinar a festa que também querem uns minutos na suíte? Serão responsáveis pela decoração? O hotel tem alguns pacotes exclusivos para tal. Sem querer ser indelicado, comemorar só com um vinho é um pouco... econômico demais. No cassino seria bem mais animado.

Velma, Salsicha e até Scooby me olharam com um pouco de desconforto. O idiota do Salsicha não segurou a risada e murmurou:

— É, Daphne, os últimos dias têm sido estresse atrás de estresse, mas eu esperava que, quando um cara como o Fred quisesse consolo, ele fosse procurar em você.

Eu o belisquei no ombro.

— Não deve ser nada disso que está pensando – virei-me para o empregado, preparando-me para cometer homicídio se a causa daquele meu tormento último fosse uma mulherzinha. Haveria mesmo um terceiro desaparecimento – Quem está aniversariando, afinal?

O empregado ficou vermelho.

— Será que arruinei tudo?

Tirei algumas notas da minha bolsa sem nem olhar de que eram.

— Fale logo. Eu estou procurando meu noivo desde que acordei.

— Madame, calma, ele só colocou uma garrafa de vinho no quarto daquele outro amigo de vocês, o senhor Ariel.

— Isso aconteceu faz muito tempo?

— Ainda não acho que tenha se passado uma hora.

— Há como fazer este elevador descer agora mesmo?

Estendi minha mão para os botões e Velma me deteve, balançando a cabeça em silêncio e depois declarando:

— É melhor discutirmos os preparativos em alguns dos quartos. Ariel pode voltar para um lanche. Eu não saberia esconder a surpresa.

Despedimo-nos do tagarela e ficamos no quarto de Scooby e Salsicha, que explodiu assim que fechamos a porta:

— Eu entendi direito? Eu ouvi direito? Fred vai envenenar o novo chefe?!

Velma o obrigou a sentar e parar de gesticular quinhentas vezes por palavra.

— Não, Salsicha. Ele provavelmente só queria uma desculpa para checar o quarto de Ariel.

Aliviada pela volta de meu raciocínio com as piores possibilidades eliminadas de minha mente, comentei:

— O que me faz pensar que fomos idiotas. Devíamos pedir ao bisbilhoteiro por nossa vez.

Velma objetou:

— Não. Se Fred está seguindo Ariel, está atrás de provas. Se já houvesse achado as provas, certamente se apossaria delas e as deixaria em um lugar seguro. Acho que, nesta altura, já teríamos o reencontrado se ele tivesse conseguido algo de valor. Talvez devêssemos realmente esperá-lo. Se estivermos certos, ele não achará nada e voltará de mãos vazias. De qualquer jeito, não acho que ele se comprometeria frente Ariel, então não há perigo. Somos bons em nos esconder.

Confirmei:

— Sim, ele deve estar observando Ariel de algum esconderijo agora. Nós não o encontramos porque saíamos do parque enquanto ele retornava, mas eu não concordo em deixarmo-lo sozinho.

Velma pensou um pouco e anuiu.

— Ele pode precisar de apoio, mas se nos juntarmos a ele diretamente, há uma grande chance de arruinarmos a empreitada, e, francamente, é a última coisa que eu quero.

Concordei prontamente:

— Se ele finalmente vir Ariel limpo por um dia inteiro, talvez voltemos a Ohio com menos atrito.

Scooby nos acompanhava, virando a cabeça de uma para a outra em toda fala, daí perguntou:

— Ariel é uma criatura-gato?

Ante a mudez de Velma e a minha, Salsicha falou.

— Olhem, vocês estão assumindo muita coisa. Primeiro, que Ariel estará limpo; segundo, que Fred não achou nada; terceiro, que este é um crime comum.

Eu expliquei:

— Se você quiser ficar aqui, tudo bem...

— Eu quero, acredite, mas não posso, você sabe. Tudo que estou pedindo é... – Salsicha fechou os olhos e respirou fundo – Diabo, nem acredito que direi isso. Estou perguntando se o Fred tem mais uma arma e se você sabe atirar.

Arrepiei-me por inteiro.

— Confesso que sei, mas você acha mesmo que precisarei?

— Sobrenatural ou crime comum, é perigoso.

Quando fui para meu quarto, Fred não havia aparecido, mas uma arma estava faltando na coleçãozinha dele, então peguei a outra, sentindo a confirmação de nossas hipóteses.

De volta ao parque, arrumamos pontos de esconderijos próprios para observarmos Ariel, assumindo que Fred se mostraria quando aquele tivesse de sair do parque e voltar para casa. Não ficamos tão longe uns dos outros, combinamos um local de encontro ao fim do expediente e juramos não trocarmos de posição sem absoluta necessidade. Seria bem mais fácil alguém notar-se observado se muitos ficassem em um arbusto só.

Passaram horas e Ariel não fez nada de suspeito até onde podíamos ver, mas certamente trememos em conjunto quando vimos dois vultos desaparecerem na floresta quando já era noite e só a parca luz da lua iluminava o parque.

Nós nos reencontramos no ponto combinado, mas não chegamos a conversar antes de nos redirecionarmos na direção da mesma trilha que havíamos explorado por conta de Clemente. Sabíamos quem eram os dois homens, tínhamos uma lanterna graças a Salsicha e não perderíamos mais tempo hesitando.

A maior parte do caminho era reto e plano, então não podíamos depender de uma lanterna para nos orientar o tempo todo ou seríamos percebidos. Em um momento particularmente arriscado, eu, que estava na frente do grupo, parei e gesticulei para ninguém falar, sussurrando sozinha:

— Não há pontos íngremes pelo que lembro. Vamos desligar um pouco a luz?

Salsicha protestou baixinho:

— Como a gente vai andar por aqui? Não dá para ver a luz debaixo destas árvores.

— Scooby pode farejar.

Se já era difícil convencer verbalmente Scooby a tomar uma posição de vanguarda em uma investigação, era quase impossível convencê-lo com olhares silenciosos e uma lamentável falta de biscoitos, então perdemos minutos só encarando uns aos outros e gesticulando. Finalmente, um irritado Scooby ficou não à minha frente, mas, mediante muito esforço, ao meu lado, usando o focinho para nos levar até Fred e Ariel.

Scooby quis levar-nos para as árvores um tanto quanto acima da trilha, porém, não deixei e escolhi que permanecêssemos nela, tanto por razões de segurança quanto de discrição, afinal, se Scooby já não farejava ninguém diretamente adiante de nós, obviamente era por estarmos sozinhos e termos um melhor espaço para nos mover e correr caso Fred precisasse de ajuda.

Quando avistamos os vultos novamente, escutamos uma conversa em alto e bom tom, além de percebermos que havíamos cometido um erro quase fatal. Corremos para os arbustos do outro lado da trilha, oposta à margem de onde Fred confrontava Ariel.

Reclamei:

— Pensei que não havia ninguém na trilha, Scooby.

Salsicha concordou:

— Sim, cara, que foi aquilo? A esta altura, você já devia lembrar do cheiro do chefe. É a idade?

Ele claramente brincara só para aliviar a tensão do momento, e Scooby normalmente se deixaria levar para acalmar-se um pouco, se é que era possível, porém, Scooby pareceu nem escutar Salsicha naquela vez, afastando-se um pouco além de nós e caminhando em círculos.

— Não tinha.

Scooby respondeu só à minha pergunta. Odiei pressioná-lo em meio ao nervosismo, mas falar também me ajudava a manter-me estável naquela escuridão de flora tão familiar.

— Tinha sim, querido. Ariel está bem ali. Por pouco não esbarramos nele.

Scooby parou de circular e espremeu-se entre mim e Salsicha. Percebi que estava tremendo.

— Não. Não tem cheiro.

Ele revelou aquilo ao mesmo tempo em que ficamos surdos por tiros vindos do outro lado e desesperados para nos abaixarmos. Eu me arrastei para um lado a fim de ver o que estava acontecendo, e por alguns instantes foi perfeitamente possível pela luz que Fred lançava sobre Ariel, intacto apesar dos ataques contínuos de Fred, que até chegou a sair mais da cobertura das árvores e aproximar-se da trilha por uma mira melhor. Já tendo me tornado uma especialista nas novas habilidades dele, sabia que o problema não fora sua mira em tiro nenhum.

Quando uma criatura-gato surgiu por trás de meu noivo e o agarrou, ficamos momentaneamente cegos, pois a lanterna de Fred, ainda na mão dele, era desviada para todos os ângulos com a força das sacudidelas da fera, que tentava imobilizá-lo. Só soubemos o que era por causa dos olhos amarelos brilhando no escuro.

Velma arrancou nossa lanterna apagada das mãos de Salsicha e a ligou novamente. Odiei-me por achar uma pena. Queria continuar cega, queria continuar inocente e iludida, e cheguei a pensar que ela, entre todas as pessoas, devia ser quem mais quereria o mesmo, porém, em vez de perder-se na negação, Velma apontou para o suplício de Fred e encarou-me, mal dando tempo a Ariel para processar a intrusão, ordenando:

— Atira. De um não sabemos, mas o outro parece bem real.

De novo odiei-me, daquela vez por hesitar. Pensei no fantasma do soldado dentre a horda de almas gratas pela libertação; certamente o soldado estivera armado enquanto vivo, e com equipamento de maior peso que minha pistola. Receava ser impotente contra uma criatura possivelmente invulnerável a tudo além da negligência de um ritual anual.

Velma olhou-me com uma fúria assassina, como se nem me reconhecesse.

— Atira, droga!

Ela parecia prestes a tomar a arma de mim e tentar sozinha a qualquer momento, apesar de um dos primeiros conflitos entre ela e Fred depois de nosso tempo na ilha ter se dado justamente por causa da aversão dela pelo uso de armas entre civis. Se até ela podia perder as inibições, eu não devia estar paralisada.

Posicionei minha pistola e chequei rapidamente a trilha, mas Ariel sumira, o que significava que eu tinha menos tempo do que achava, pois ele estaria vindo nos pegar e atrapalhar para favorecer o cúmplice. Concentrei-me em Fred e na criatura novamente, percebendo que esta virava-se para ir embora, levando meu noivo. Ante a improbabilidade de duas criaturas-gato fugirem de uma resistência meramente mortal, senti-me em um mundo fantástico, fruto de minha cabecinha demente, no entanto, logo notei a diferença: eu tinha escolha, livre arbítrio. Podia erguer meus braços, puxar o gatilho e vingar-me de uma vez por todas daqueles amaldiçoados corrompendo minha cabeça, minha vida e meus amados. Assim fiz.

Ergui-me, saí dos arbustos e mirei na cabeça como eles fizeram a mim. Gastei sem cautela toda a minha munição, já que não via risco imediato de atingir Fred. A maioria de meus tiros acabou pelas costas por eu tremer demais e não ser tão boa quanto Fred.

Temi ter o mesmo destino de caçadores e campistas tolos o bastante para atirarem em ursos, mas a criatura tinha menos densidade corpórea, pois cambaleou e perdeu as forças por tempo suficiente para Fred libertar-se e correr em minha direção. Só pude vislumbrar a umidade em seus olhos por menos de um segundo antes de o foco da lanterna de Velma mudar de nós dois para o caminho de onde todos viéramos.

— Vamos! – ela gritou.

Todos voltamos para a trilha e corremos, embora Fred se deixasse ficar um pouco para trás para sempre se assegurar da completude de nosso grupo. Minha segunda vergonha daquela noite seria deixá-lo sacrificar-se por nós pela segunda vez em tão pouco tempo, mas eu não podia evitar e duvido que alguém pudesse, com os sons pesados de patas chocando-se contra o chão conforme nos perseguiam. A criatura chegava tão perto às vezes que podíamos ouvir seu rosnado furioso.

O rosnado chegou tão perto de nós que eu praticamente pude senti-lo no ouvido, então soube que Fred novamente estava em perigo. Parei e virei-me, disposta desta vez a lançar-me na criatura se necessário, já que não tinha mais munição. O vulto escuro mais distante não havia alcançado Fred ainda, como eu pensara, então Fred mirou velozmente e atirou de qualquer jeito, usando o resto da munição para atrasá-lo, reaquistando impulso e agarrando minha mão a fim de que eu me lançasse para frente tão rápido quanto ele. Velma nos esperava enquanto Salsicha e Scooby voavam adiante, o que não me magoou. Se pelo menos dois conseguissem escapar da floresta naquela noite, eu morreria feliz.

Não pensei mais depois daquela constatação, apenas corri muito mais do que me sabia capaz, assim como Fred e Velma, a ponto de, em certo instante, todos os cinco de nosso grupo se alinharem na trilha. Não olhamos mais para trás.

Não paramos nem quando fomos forçados a deixar a orla de árvores e ficar sob a lua mais uma vez, nem precisamos trocar nenhuma palavra para nos coordenarmos conjuntamente a ir para as cabanas velhas nas beiras dos rios, onde Salsicha e Scooby se enfiaram enquanto eu, Fred e Velma cerrávamos a porta.

No mais completo breu, pude concentrar-me em um cheiro pútrido que nos sufocava. Velma ligou a lanterna e examinou o espaço para verificar se estávamos sozinhos, e na parte de cima da cabana de fato não havia nada nem ninguém além de nós, porém, ela iluminou a parte inferior e vislumbramos coisas que não tinham estado ali em nossa primeira visita. Sem examinar mais cuidadosamente do que se tratava, Velma apontou uma janela e desligou a lanterna. Como que prevendo nossos movimentos, a criatura lá fora chutou a porta apodrecida que um devaneio nos fizera achar segura.

Saltamos pela janela a tempo de escapar do que estivera escondido e do que se expunha sem hesitações, mas já não tínhamos a mesma coordenação nem o mesmo desespero nos propelindo para frente, pois os falsos momentos de paz, por menores que houvessem sido, sabotaram nossos organismos, assim, não prestamos atenção ao terreno, e sequer poderíamos, afinal, a lua já se mostrara pouco confiável.

Ainda adiante de todos, Salsicha e Scooby caíram para dentro do solo tão subitamente quanto deviam ter caído no túmulo de Moonscar há um ano. Eu, Fred e Velma freamos a tempo de nos salvarmos, mas não de nos pouparmos de uma visão parecida com a que provavelmente nos aguardara na cabana: uma vala repleta de animais feridos, especialmente veados; estavam inteiros demais para terem sofrido a dilaceração violenta de uma fera, além de seguirem vivos a despeito da visível agonia; ainda assim, Salsicha e Scooby, sujos de sangue e lama, gritaram a plenos pulmões, alertando a criatura-gato e toda a Louisiana de nossa mais nova posição.

Fred agarrou minha mão e lançou-se sobre a vala. Entendi as intenções dele e peguei uma das mãos de Velma, que foi ainda mais fundo. Salsicha e Scooby alcançaram-na em um pulo desesperado e logo os içávamos para cima. Demos a volta na vala e só não fomos pegos enfim porque a criatura nos perseguindo também foi atrapalhada por ela de alguma forma, pois a vimos desaparecer terra abaixo.

Fred estapeou os braços de todos que observavam e nos incentivou a continuar:

— Não olhem, não parem. Pode ser uma armadilha.

Ele estava tão ofegante que era impossível reconhecer seu tom grave e enérgico, então eu senti vontade de afrontá-lo e continuar parada só para obrigá-lo a descansar um pouco, entretanto, a criatura ressurgiu como ele previra e nos forçamos a tentar recuperar o tempo perdido.

Um rugido súbito cortou o ar, mais distante que a criatura atrás de nós, e nosso sangue gelou em contraste aos nossos membros tórridos de atividade.

Fugimos por sobre a água, cogitamos entre felinos e crocodilos e voltamos à terra firme. Não sabíamos porque a criatura não nos alcançara na estreiteza de alguns dos últimos trechos, mas sabíamo-nos abençoados por termos Velma, cuja memória fotográfica levou-a a tomar a frente do grupo e nos conduzir para o que, a princípio e na confusão da semiobscuridade, pareceu só uma folhagem cobrindo rochas compactas, mas depois revelou-se a entrada da caverna minúscula que avistáramos; reconhecemos nela nossa única chance de sobrevivência.

Tombamos no chão por um instante e não fizemos nada além de descansar, embora nem o descanso pudesse ser completo, pois se respirássemos tão ruidosamente quanto precisávamos, a criatura nos escutaria do outro lado do parque.

Embora ninguém falasse, todo mundo esperava que uma massa escura e feroz de repente imergisse da abertura iluminada, acordando-nos de nosso sonho de fuga sem sequer o privilégio de uma perda geral de sentidos conforme o braço da criatura partia nossas caras e nos arrancava de dentro de nosso abrigo um por um.

Não tiramos os olhos da entrada da caverna por um minuto sequer, mas nenhum vulto veio lá de fora.

Peguei-me novamente tentada pelo estado de negação, inesperadamente forte pela facilidade que seria aceitá-lo, afinal, eu havia acabado de fugir de uma criatura imortal e mais forte com todos os meus amigos.

Comecei a rir histericamente e descansei a cabeça exausta no peito de Fred, daí tiraram a possibilidade de negação de mim com a mesma agressividade que a criatura-gato teria usado para arrancar cada membro do meu corpo, pois ensopei minha testa em sangue.

Ao mesmo tempo, Scooby ganiu ante a visão de duas bolinhas amarelas em pleno ar, e não no exterior da caverna, mas dentro, junto de nós.